Quinta-feira, 15 de Maio de 2014

Qualquer final decidida por grandes penalidades é um drama difícil de engolir para qualquer adepto. Ao final de cento e vinte minutos se nada separa duas equipas, o título torna-se secundário. Já se sofreu que chegue. O problema, para os adeptos encarnados, é que o sofrimento dura há mais de meio século de história.

 

O Benfica perdeu a final da Europa League pelo segundo ano consecutivo. Da mesma forma que a sua caminhada europeia nas andanças da UEFA – antes esteve o triunfo na mais caricata edição da curta história da Taça Latina – arrancou com dois títulos seguidos. A história é circular, como diría Marx. O pior foi o resto. São já oito finais perdidas, desde Londres em 1963 até Turim em 2014. Pelo caminho ficou Milão, Londres (cidade maldita), Bruxelas/Lisboa, Estugarda, Viena e Amesterdão. Cidades míticas do Velho Continente que testemunharam a tristeza das Águias. Mas ao contrario do que o folclore, a desinformada imprensa e alguns “experts” gostam de defender, não há maldição que justifique esta tortura. Em primeiro lugar, como os mais atentos sabem – basta ler – Guttman só se referia à Taça dos Campeões Europeus. O húngaro também disse que nenhum clube português ganharia um titulo europeu em cem anos. Dois anos depois dessa frase o Sporting ganhou a Taça das Taças. Já nem vale a pena lembrar os quatro títulos europeus do FC Porto. Esqueçam a maldição!

 

O que passou ontem ao Benfica em Itália foi a falta de ambição e o peso das baixas sensíveis na organização do ataque. Sem o melhor jogador do campeonato – Enzo Perez – ou as alternativas oferecidas regularmente ora por Markovic, ora por Salvio, o Benfica entrou coxo em campo. Quando Suljemani, que no pouco tempo que esteve em campo fez mais do que Gaitán em todo o jogo, teve de sair, rendido a uma lesão no ombro, Jesus viu-se perante um dilema. O Sevilla estava mais organizado, mais consciente da exigência da noite. Emery, treinador assobiado recorrentemente em Valência (depois dele o clube entrou numa espiral depressiva, há que lembrar) preferiu um esquema conservador desde o principio. Carriço e Mbia no miolo, apoiados por Rakitic, cercaram o meio-campo encarnado. Vitolo e Reyes tapavam as subidas dos laterais e Bacca, sacrificado aos monstros que foram durante todo o jogo Garay e Luisão, era peça fora do tabuleiro. Ao 4-4-2 em losango montado por Jesus faltava-lhe organização e inspiração. André Gomes foi um fantasma, o esforço de Amorim não foi acompanhado e Rodrigo e Gaitan  não entusiasmaram. A entrada de André Almeida e a subida no terreno de Maxi Pereira lançou a mensagem decisiva. Jesus estava mais preocupado em não perder a final do que em ganhá-la. Procurou o prolongamento, procurou os penalties. Sentiu que não tinha força em campo para vencer. Enganou-se. O Benfica, mesmo em inferioridade de talento titular, era superior ao Sevilla. Faltou-lhe a tracção dianteira de tantas outras noites e o acerto no disparo. Criou as melhores oportunidades – Bacca também teve o seu momento, montado com régua e esquadro pelo genial croata – e driblou os medos. Do banco a mensagem de ataque chegou tarde e sob a forma de erro táctico. Cardozo entrou mas não foi a âncora que se esperava, demasiado atirado para o lado direito onde foi menos eficaz. Cavaleiro chegou para o sopro final quando já não havia pernas para o acompanhar. O Sevilla tinha passado pelo mesmo almanaque de duvidas existenciais. Não perder para depois pensar em ganhar. Foi mais honesto a principio, adaptou-se melhor e sobreviveu ao golpe de autoridade que o Benfica tentou dar no fim da cada parte. Mentalmente mais soltos, foram uma equipa que sabia ao que vinha. Não havia existencialismos que derrotar. Só Oblak, o guarda-redes tranquilo que Beto não pôde ser. Para alegria dos andaluzes o português esteve à altura nos cento e vinte minutos. Depois, a glória.

 

O prolongamento foi um deserto de ideias, de forças e de ambição. Desde o Arsenal vs Galatasaray de 2000 que nenhum jogo da competição tinha chegado até ao fim sem golos. Aconteceu em Turim porque ninguém pareceu, verdadeiramente, querer marcar. Sem três penalties para marcar (dois para os lisboetas, um para os sevilhanos), sem grandes ocasiões e com duas linhas defensivas entretidas em competir no torneio de quem menos erra, o oásis de um golo revelou-se tão imaginário como as lagoas nos desertos. Para os penalties seguia o jogo como ambos os treinadores pareciam querer. O Benfica contaba em limpar o espirito de Estugarda num flamante guarda-redes e na vontade de vergar a história. Mas os andaluzes tinham Beto, provavelmente um dos melhores do mundo na sua posição quando se trata de parar grandes penalidades. O rapaz que em Alcochete era o Beto II, que no Dragão se manteve à sombra de Helton, deu a alegria do ano aos dois adeptos dos rivais das Águias com uma aula de como bem parar penalties. Saltou para a frente como os mais espertos fazem, adivinhou os disparos denunciados de Cardozo e Rodrigo e fez história. Com ele na baliza o Sevilla conquistou o seu terceiro troféu europeu, todos conquistados numa década histórica. Já ultrapassaram o Benfica no total histórico e igualaram Juventus, Inter e Liverpool como máximos vencedores de uma prova que já podia bem ter apelido espanhol. Com os dois triunfos do Atlético de Madrid e as finais perdidas por Espanyol e Athletic Bilbao, os últimos oito anos têm sido quase um monopólio “hispânico” na prova que metade da Europa ignora habitualmente.

 

Ao Benfica a derrota magoa mais pela longa lista de fracassos do que, propriamente, pela ausência de um titulo para levantar. Num ano memorável a nível interno, o triunfo de Turim era a cereja no topo de um bolo que ainda assim sabe bem. O clube da Águia pode conquistar o pleno de provas nacionais – tem de vencer a Taça e a Supertaça, em Agosto – e está na pole-position do futebol português com autoridade e por pleno direito. Para os folclóricos há ainda jornais a vender e a tertúlias a encher com velhos relatos de maldições caducas. Para os adeptos, uma dor difícil de engolir mas que não deve afastar a visão periférica do fundamental, um trabalho bem feito. No final de contas, em Turim, houve mais tácticas que espectáculo, mais drama que emoção e um parêntesis numa história com próximos capítulos inevitáveis. O Benfica, que foi melhor em campo, teve o pior dos treinadores e o menos afortunado dos guarda-redes. Não há maldição que justifique algo que pertence exclusivamente ao reino dos mortais.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 18:19 | link do post

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