Segunda-feira, 30.05.11

Como num filme de espionagem americano o volte-face na guerra de poder que tomou conta da FIFA nos últimos meses vai seguramente prender os espectadores até ao minuto final. Sepp Blatter venceu o pulso com Bin Hamman e forçou a sua retirada e exclusão do máximo comité desportivo da organização que gere o futebol profissional em todo o mundo. Mas se calhar o suíço não contava com a reviravolta protagonizada por um dos seus homens de confiança que está disposto a tudo, menos a ser usado como cabeça de turco. Os documentos divulgados hoje por Jack Warner simplesmente confirmam o que aqui já tínhamos avançado. A podridão que gere a FIFA é agora de domínio público e a organização vive momentos críticos. Os seus directivos estão num encruzilhada e não sabem que peça mover.

 

Não foi há muito tempo que escrevemos aqui sobre o duelo presidencial que se antevia entre Sepp Blatter e Mohammed Bin Hamman.

As dúvidas que deixamos então, em modo de reflexão, tornaram-se espelho da dura realidade. Os dois candidatos, reconhecidos nos corredores do poder como duas figuras altamente ligadas à corrupção no futebol actual, acusaram-se mutuamente, esgrimindo todas as armas que tinham em mãos. Blatter parecia ter ganho a luta quando conseguiu que o qatari, figura chave no processo de eleição do seu país como sede do Mundial de 2022, abandonasse a corrida. Mais ainda, Blatter logrou escapar das acusações de corrupção sobre a sua gestão e aproveitou o momento para limpar os fantasmas do seu armário. Fez com que a FIFA conseguisse passar a imagem de que as ovelhas negras eram Bin Hamman e Jack Warner. O tobaguenho foi o rosto escolhido por Lord Triestman, lider da candidatura inglesa ao Mundial de 2018, para exemplificar a corrupção que se encontra no topo da escada de poder da FIFA. Acusado de suborno, Warner rejeitou as acusações e Blatter defendeu-o, com um discurso profundamente critico aos dirigentes ingleses. Meses depois deixou cair o homem que utilizou várias vezes com emissário juntamente com o asiático que controlava tudo o que se passava nos mercados emergentes do oriente. Pensava assim Blatter que iria sair da eleição de 1 de Junho com um novo mandato e a cara lavada. Mas a jogada não ocorreu como previsto. Como nos filmes, havia uma subplot.

 

Hoje Jack Warner decidiu incendiar o que restava da moral da FIFA.

Divulgou um correio electrónico de Jerome Valcke, o braço-direito de Blatter secretário-geral da FIFA, em que este confessava ao tobaguenho que tanto ele como Blatter tinham conhecimento - e implicitamente aprovado - que Bin Hamman teria comprado os votos necessários para que o seu país fosse eleito organizador do Mundial. O Qatar, o mais pequeno país a quem foi atribuido o mais importante torneio do mundo futebol, não era sequer considerado favorito. No entanto os qataris bateram Estados Unidos e Austrália e venceram a eleição. Nos meses prévios muito se especulou sobre as jogadas dos qataris nos bastidores, que ora incluíam o apoio implícito da candidatura Espanha/Portugal ora a ajuda da candidatura russa, que ganharia a organização para o Mundial de 2018. Lord Tristeman confesso que fora abordado para garantir uma troca de votos e influências entre a candidatura do médio oriente e a britânica. A FIFA então negou todas as acusações. Valcke confirmava neste email que tinham perfeita consciência de tudo. 

Warner não deixa a nu o processo de eleição do Mundial. Também desvela, em palavras de Valcke - que já confirmou a autenticidade do email - que o grupo de influência liderado por Blatter estaria disposto a tudo para impedir a eleição do qatari, incluindo desprestigiá-lo junto dos meios de comunicação e eventualmente nos próprios comités da FIFA, como veio a acontecer. Ao não alinhar com o grupo de Blatter, o tobaguenho foi igualmente suspenso por financiação ilicita de algumas federações caribenhas. No entanto, no passado congresso da CONCAF em Miami foi Blatter quem prometeu mais de 1 milhão de dólares em apoio à federação regional em troca de apoio directo nas eleições, utilizando dinheiro da própria FIFA, no que foi criticado por Michel Platini, presidente da UEFA e um dos mais sérios candidatos a suceder ao suíço em 2016. As suspensões indefinidas de Bin Hamman e Warner - vice-presidente da FIFA à 30 anos, o mais veterano dos membros do comité executivo em serviço - juntam-se às dos dirigentes nigeriano e taitiano, também membros do conselho e peças chave na última votação para a organização dos Mundiais de 2018 e 2022. A FIFA de Blatter suspende quatro dos 24 membros com direito a voto meses depois de os apoiar publicamente, precisamente pelo mesmo motivo.

 

O presidente da FIFA será reeleito por aclamação no congresso do próximo dia 1. Nem Jack Warner nem Bin Hamman estarão em Zurique em pessoa mas os seus fantasmas vão assombrar todo o evento feito à medida para idolatrar o reeleito Sepp Blatter. O suíço não será capaz de esconder do Mundo no entanto os problemas morais e legais que envolvem o seu mandato e que relembram também a crise da ISL, a eleição da África do Sul, a polémica com a MasterCard e agora, o afastamento de alguns dos seus homens-fortes. Tal como sucedeu com o COI, a quem vários analistas comparam a situação actual da FIFA, o fantasma da corrupção está demasiado presente para se ignorar. Olhar para o lado e assobiar ou tomar cartas no assunto são as únicas opções sobre a mesa. Conhecendo o historial do presidente Blatter não é difícil imaginar o caminho que a FIFA irá seguir...



Miguel Lourenço Pereira às 14:47 | link do post | comentar

Domingo, 22.05.11

20.00 horas. 28 graus e um fim de tarde perfeito numa Madrid mergulhada em plena revolução silenciosa. A tribo mereungue reune-se no seu santuário para testemunhar mais um ritual histórico. Duas horas depois os 60 mil que encheram o Santiago Bernabeu voltam a casa com a sensação de ter presenciado, pela enésima vez, um momento histórico. 41 golos e ninguém fala de outra coisa. A brutalidade do Pichichi e Bota de Ouro é inquestionável. Cristiano Ronaldo desafiou a história e reescreveu-a a seu belo prazer.

Não foram precisos mais de 4 minutos.

Se antes do jogo o debate nas bancadas resumia-se á discussão sobre os golos reais que o número 7 do Real Madrid levava no torneio, o desvio súbtil ao segundo poste, depois de uma combinação estudada perfeita entre Xabi Alonso e Sérgio Ramos, matou a conversa. 22 anos depois os 38 golos logrados pelo mexicano Hugo Sanchez (tantos como o anterior recorde do vizcaino Zarra) foram ultrapassados. A verdade é que Ronaldo já sumava então 39 pelo simples facto de que o polémico golo marcado em Anoeta, desviado nas costas de Pepe, tinha sido atribuido ao português pela Marca. O jornal que instituiu e atribui o prémio Pichichi desde os anos 50.

Mas, nesse estilo habitual da imprensa espanhola em hostilizar o jogador mais caro da história, durante o ano todos se negaram a aceitar a evidência. Afinal, Ronaldo competia com Messi, e esse golo era importante para desatar uma polémica estéril em que nenhum dos jogadores entrou. Quando o argentino abrandou o ritmo, concentrando-se no seu designio europeu, Ronaldo ficou só. E decidiu superar a história, mais do que o seu eterno rival. Em quatro jogos apontou nove golos e estableceu a sua marca final em 41. Nunca em Espanha um só jogador tinha ultrapassado a barreira dos 40.

Quando se atirou ao chão, para celebrar o golo, Ronaldo sabia-o. Mas sabia, também, que os mesmos que não lhe davam o golo de San Sebastian iriam negar-lhe sempre esse direito histórico. A partir daí, e até ao minuto 78, passou todo o jogo á procura do golo que lhe confirmava, definitivamente, como um ser á parte. Foi insistente, irritante até. Quando Benzema marcou o terceiro golo (Adebayor já tinha feito o primeiro do seu hat-trick), Ronaldo não se lembrou. Estava sentado no relvado, ainda irritado com o árbitro por não ter marcado uma falta que ele tinha toda a intenção de transformar em golo. Foi assim todo o ano, Ronaldo contra o mundo. Um mundo que tem por ele um despeito especial. Desde que chegou, em Julho de 2009, que nenhum jogador foi tão criticado e atacado no país vizinho como CR7. "Ese português, hijo puta es..." é o cântico habitual em cada estádio que visita o Real Madrid. Algo inédito com qualquer outro jogador. A imprensa não lhe perdoa o seu estilo próprio e até este ano repetiam-se nas criticas sob a sua inoperância nos jogos a doer. Em 2010/11 só não marcou no Camp Nou. Marcou o empate em Madrid com o Barcelona, marcou a Valencia, Villareal, Sevilla, Bilbao e Atlético de Madrid. Decidiu a Copa del Rey e ajudou a levar o Real Madrid ás semi-finais da Champions League. Juntou a isso 41 golos. Nunca um atleta se exibiu de forma tão brutal nos relvados espanhóis.

 

O final de tarde quente não aqueceu demasiado os animos do imenso Bernabeu.

A goleada de 8-1 ao Almeria podia parecer um trâmite para muitos adeptos, mas não era. Mourinho, em silêncio desde que a UEFA decidiu declará-lo persona non grata, queria superar a linha dos 100 golos e confirmar-se como a equipa mais concretizadorada liga. Para isso o Real, que já sabia que o Barça vencera por 1-3 em Malaga, tinha de marcar 6 golos. Marcou dois, na primeira parte, e passou os segundos 45 minutos a desafiar o relógio.

O público sentiu o espirito ambicioso de uma equipa de tracção dianteira (Alonso, Kaká, Ozil, Adebayor, Benzema e Ronaldo) e fez-se ouvir. Não é normal. Habitualmente a tribo merengue é silenciosa e tranquila. Vai ao futebol para contemplar, não para animar. Por isso Ronaldo também se queixa de não ter atrás de si o mesmo apoio popular que tem Messi no seu Camp Nou. Talvez porque, sentado no último anfiteatro do estádio mais imponente de Espanha, ainda se houvem muitos adeptos que criticam a politica desportiva de Florentino Perez, o homem dos milhões. Mas nem esses tiveram razão para queixar-se. A 10 minutos do fim José Mourinho lançou o enésimo canterano (nenhum treinador fez estrear tantos jogadores do filial numa época desde o primeiro mandato de Del Bosque), o avançado Joselu. Dois minutos depois Ronaldo transformou o seu ego goleador, já aparentemente saciado, e assistiu primorosamente o jovem de 20 anos que não falhou. Correu para abraçar o seu idolo. A goleada estava completa e com um selo da casa para o contentamento dos mais veteranos.

Quando o jogo acabou o Real Madrid finalmente pôde olhar-se no espelho e sorrir. Não venceu o titulo - por culpa dos muitos pontos perdidos com os últimos, incluindo empates em Almeria e Coruña, dois dos despromovidos - mas jogou um futebol fluido, ofensivo e atractivo. Cristinao Ronaldo olhou para a história e sorriu, sabendo que quem quer que venha no futuro é a ele que terá de bater. Especialmente se esse alguém é Leo Messi. O futuro, leia-se a próxima época, pareceu mais risonho do que nunca. Muitos voltarão hoje, para ver o Real Madrid Castilla lutar pela promoção à Liga Adelante. Outros preferem ficar uns minutos mais para aplaudir José Mourinho. O setubalense não conseguiu quebrar a hegemonia do Barça. Mas começou a mexer com a mentalidade do Real Madrid, a despertar o monstro adormecido. E os adeptos mais fiéis sabem-no.

 

Entre a brutalidade dos números do Real Madrid e a imensidão do recorde de Cristiano Ronaldo, o Barcelona pode sentir ainda mais orgulho da sua época. Mas ao sair do Bernabeu, já noite dentro, calor intenso e com todos os ouvidos no que se passa na não muito longinqua Puerta del Sol, há quem sinta que o ciclo blaugrana pode estar a terminar. Não surpreende ninguém que, no meio das camisolas blancas, haja alguns atrevidos com o equipamento do português dos dias de Old Trafford. Porque, como dizia um dos muitos vendedores ambulantes que rodeiam o estádio, hoje o cachecol mais vendido foi o do Manchester United. Os últimos a sentirem na pele o que é desfrutar da febre goleadora de um homem que só se olha a si mesmo no espelho quando pensa em bater todos os recordes da história.

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:01 | link do post | comentar | ver comentários (44)

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