Sexta-feira, 16.07.10

pessoas que marcam épocas. Definem filosofias. No Maciço Central francês a pequena cidade rocosa de Auxerre cresceu desportivamente à sombra de um abade filho de um anarquista que cedo percebeu que o futebol era a melhor forma para captivar a juventude gaulesa. A história de um clube de futebol muitas vezes une-se à de uma personagem. Em Auxerre isso não poderia ser mais certo.

Ernest-Théodore Deschamps.

Um nome que hoje é desconhecido por tudo e todos. Mas este homem, religoso convicto, apaixonado pela vida, foi uma das grandes figuras paternais do futebol francês. Durante a primeira metade do século XX a sua imagem tornou-se no espelho da rectidão humana e desportiva. Um abade num país laico, como poucos, dificilmente teria ganho o respeito do público se não tivesse entendido que o novo ópio do povo, quando o século XX se prepara para arrancar, era já então o futebol.

Filho de um anarquista, Ernest Dechamps nasceu em 1868 em Villiers sur Tholon, pequena cidade da Borgonha, em pleno rebulíço politico. O pai, um activista radical e anti-clerical, escondia por detrás do seu trabalho como carniceiro o rosto de uma organização anárquica de implantação nacional. O jovem Ernest seguiu o caminho oposto e decidiu seguir a via religiosa, rompendo com a familia. Rumou para sul, para Auxerre, onde se formou em Filosofia e tomou os hábitos. Se não herdou o ódio pela igreja do seu pai, certamente que a sua infância lhe fez perceber o valor da acção social já que durante anos se tornou num dos grandes benfeitores dos mais desfavorecidos da zona. Em 1900, depois da morte do pai, que muito o afectou, e de passagens pontuais por outras cidades, é nomeado definitivamente como Abade de Saint-Etienne de Auxerre. O século tinha virado e com ele muitos aspectos da sociedade gaulesa. O futebol emergia de forma inesperada e, rapidamente percebendo o seu potencial, o abade Deschamps abraçou-o e decidiu fazer dele a base do seu trabalho social.

 

Em 1905, depois de largas negociações com a Igreja e com o Municipio da pequena cidade, finalmente fundou a Association Pour La Jeunesse Auxerrois. O nome foi reduzido a AJ Auxerre (Associacion Jeuness Auxerre) e tornou-se num caso único de uma equipa desportiva suportada por uma instituição religiosa, ainda que oficiosamente.

O clube arrancou com mais secções para lá do futebol (ginástica, tiro e uma secção musical) e o seu afã era menos competitivo e mais de formação juvenil. Depois de vários problemas para inscrever-se na Federation Française du Foot, numa década em que a questão da separação entre Estado e Igreja estava constantemente na ordem do dia, finalmente a equipa logrou estrear-se num encontro oficial. Foi em 1906 contra uma formação modesta de Migennes. A partir desse momento, e até ao inicio da I Guerra Mundial, a AJA venceu todos os campeonatos regionais da Borgonha. Por uma vez, em 1909, chegou à final do Campeonato Nacional, num duelo contra o Bons Gard de Bordeaux, perdida por 5-1. A morte da maioria dos jogadores da equipa, na guerra das trincheiras, coloca em causa o próprio projecto. Uma vez mais, o presidente Deschamps, pega no projecto e mantém-no vivo, mesmo quando em anos de grandes dificuldades económicas a equipa é forçada a não participar na prova nacional, remetendo-se aos duelos regionais. No pós-guerra, a semi-profissionalização do clube começa a ganhar forma. A chegada do primeiro treinador oficial, Pierre Grosjean, escolhido pelo próprio presidente depois de uma conversa filosófica numa mesa de chá, é o ponto de partida para a nova etapa da vida do clube. Um periodo que Ernest-Theodore já não vai viver. Com 81 anos, o eterno presidente e inspirador da AJ Auxerre, falece a 1 de Dezembro de 1949, deixando consternado todo o futebol gaulês. O clube rapidamente substituiu o nome do velho estádio pelo seu e começa as obras de melhoramento que terminaram com o recinto que ainda recebe os jogos da AJA. Dez anos depois entra pela porta de entrada do estádio um jovem de nome Guy Roux. Tornar-se-á treinador do clube durante meio século. Sempre respeitando os mesmos ideais que levaram um determinado abade a mudar a face do futebol do imenso massiço central francês. 

Ainda hoje há poucos clubes com o espirito do Auxerre. Especializado na formação, hoje como sempre, é um clube modesto mas com um historial de respeito. Em França é venerado pelos românticos e respeitado até pelos mais cinicos, como um clube diferente. O próprio Eric Cantona, que por lá passou nos principios da sua carreira, declarou que França não merecia uma instituição como a AJA. Um trabalho de décadas que brotou da mente de um homem, que viu para lá do hábito, a necessidade de utilizar o jogo como tábua de salvação para os mais desfavorecidos. A sua aura ainda ilumina o estádio com o seu nome, sempre que a sua equipa sobe ao relvado para recordar dias tão distantes.



Miguel Lourenço Pereira às 09:37 | link do post | comentar

Quarta-feira, 13.05.09

 

São dois nomes marcantes da história do futebol europeu. Seguem a tradição latina de mediatizar a figura do Presidente como entidade toda poderosa do clube, sempre por encima de técnicos, jogadores, adeptos…Quando o primeiro deixou a presidência do seu clube, por falecimento, o segundo ainda não tinha chegado ao cargo. Mas há coisas que mais que os separar, os unem. O primeiro montou uma equipa de sonho e fez do seu clube o maior do século XX em títulos conquistados. Era, até hoje, o presidente mais laureado da história. O segundo pegou num clube desprezado por um país centralizado e transformou-o numa potência europeia, sendo, nestes nove anos que levamos de século novo o clube com mais conquistas na Europa. E é agora o detentor do recorde de conquistas numa só figura presidencial.
Santiago Bernabeu Yeste e Jorge Nuno Pinto da Costa. Dois nomes para a história. 

 

Fidelidade eterna a um só clube e um compromisso a 100%, as vinte e quatro horas do dia. Este é outro dos aspectos que unem o mítico presidente do Real Madrid e o actual mandatário do FC Porto. O primeiro desapareceu em plena década de 70, com a sua equipa numa curva descendente, dentro e fora de portas. Deixou um legado único na história do futebol e viu o “seu” Chamartin ser rebaptizado com o seu nome. Com 6 Taças dos Campeões Europeus (cinco consecutivas) e várias ligas e taças, era o presidente mais bem sucedido da história. Até hoje. A conquista do Tetracampeonato do FC Porto tornou Pinto da Costa no presidente com mais ligas conquistadas – 17 – e a possível vitória na Taça de Portugal, frente ao Paços de Ferreira, pode consolidar ainda mais o seu palmarés como um dos presidentes mais bem sucedidos da história. E da mesma forma que o clube espanhol foi o que mais títulos conquistou ao largo do século XX, sendo galardoado pela FIFA como o clube do século, nestes nove anos desta década o FC Porto é a equipa com mais provas conquistadas, um pecúlio que poderá ampliar no final do mês. Dois clubes de dimensão distinta mas com a mesma eficácia de conquista.

 

Depois de largos anos como jogador e treinador, Santiago Bernabeu tornou-se directivo do Real Madrid no final dos anos 30. Em 1943 tornou-se presidente de um clube que então não liderava o futebol espanhol, face à supremacia do Barcelona e Athletic Bilbao. A chegada do novo presidente supôs uma alteração total na filosofia madridista. A construção do novo estádio em Chamartin e a criação de uma equipa repleta de jogadores da casa com direito a contratações “galácticas” montou uma verdadeira máquina de ganhar. Aos Rial, Molowny, Muñoz, Santamaria e Gento contrapunham-se os gigantesco Kopa, Puskas e Di Stefano, o homem roubado ao rival Barcelona e que lideraria a geração de 50, capaz de vencer cinco Taças dos Campeões consecutivas. A entrada nos anos 60 foi mais complicada, com eliminações diante do rival Barcelona e na final de Amesterdam com o SL Benfica, mas enquanto dominava o campeonato espanhol, iam-se lançando as bases para uma nova equipa de dimensão europeia, que em 1966 voltou a conquistar a máxima prova europeia numa equipa só com jogadores espanhóis. O Real Madrid vivia o seu período dourado e teria de esperar mais de 30 anos para voltar a festejar na Europa. Até à sua morte Bernabeu tornou-se no ícone do próprio Madrid. Substituía treinadores que não lhe agradavam, lançou jovens craques da casa e terminou com carreiras de jogadores veteranos que já não eram do seu agrado. Resumia na sua pessoa o espírito da Espanha franquista arrogante e autoritária, comandando desde o seu escritório em Madrid quase todo o futebol espanhol. A sua morte – por doença – deixou de luto os adeptos merengues. Foi então que o próprio Real entrou num período descendente até que nos anos 80 nasceria outra geração da casa capaz de resgatar o historial do clube da penumbra. Mas isso já com o fantasma Bernabeu a ver desde as alturas. 

Enquanto Bernabeu se despedida do mundo do futebol, Jorge Nuno Pinto da Costa (1937) juntava-se a José Maria Pedroto para refundar o FC Porto. Depois de 19 anos sem vencer uma liga, o clube da Invicta finalmente voltou a festejar um título de campeão repetindo a proeza no ano seguinte. Na altura Pinto da Costa era só director de futebol mas a guerra interna com o presidente Américo de Sá provocaria uma pequena rebelião que terminou em 1982 com o dirigente a ser eleito presidente. Apesar da forte crise institucional e desportiva do clube azul estavam lançadas as bases para um domínio avassalador. Em 27 anos o presidente portista conquistou 17 títulos de campeão (quando chegou ao clube o FC Porto tinha apenas 7), 2 Taças dos Campeões Europeus, 1 Taça UEFA, 1 Supertaça Europeia, 2 Taças Intercontinentais e um sem número de Taças de Portugal e Supertaças. O clube azul e branco tornou-se na primeira força nacional (apesar de estar a sete títulos de igualar o SL Benfica no total de ligas) e num clube de primeiro nível europeu. Um feito para uma instituição limitada por um país e campeonato de nível médio e de uma cidade de poucos recursos para combater com os grandes magnatas do futebol europeu. Durante este período Pinto da Costa sempre procurou manter-se como o símbolo dos dragões. Os treinadores nunca duravam mais do que dois anos (Fernando Santos e Jesualdo Ferreira foram os únicos a ficar três anos consecutivos) por muito que ganhassem e as equipas eram feitas à sua medida. Já viu passar mais de três gerações de campeões e lançou as bases para o futuro do clube. Ao contrário do presidente madrileno o estádio que erigiu não tem o seu nome…ainda.

 
A verdade é que há poucos nomes tão consensuais na história do presidencialismo desportivo. Um fenómeno ausente nos países do centro e norte da Europa mas chave na Europa latina. Do celebre Moratti do Inter de Milan dos anos 60 ao Nuñez do Barcelona do Dream Team, do Tapie marselhês ao Calderon e Gil y Gil do Atlético, de Berlusconi a Fernando Martins ou João Rocha, raro é o grande clube latino que não tem, no seu historial, um presidente que marcou uma era de glória. Mas nenhum com o impacto e o sucesso destes dois nomes. Curiosamente o homem que olhava com desprezo para o futebol português tem agora por sucessor um dos responsáveis pelo facto de Portugal ainda poder enviar umas quantas equipas às provas europeias. Curiosidades da vida…


Miguel Lourenço Pereira às 15:06 | link do post | comentar

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