Sexta-feira, 10.06.11

André Villas-Boas transformou o ano desportivo num regresso ao futuro. A sua juventude, questionada ao principio, deixa antever um futuro brilhante para o técnico portuense. A forma como se instalou, confortavelmente, na cadeira dos seus sonhos, permitiu recuperar os sinais de identidade do passado. Com Villas-Boas ao leme o FC Porto voltou a ser rei de Portugal e da Europa, sob aplauso generalizado e admiração genuína. AVB tornou-se, por direito próprio, no treinador de moda do futebol europeu. E no Homem do Ano para o Em Jogo.

 

Aprendeu muito com Mourinho mas agradeceu a Guardiola a inspiração. E certamente não se esqueceu de beber um bom copo de vinho à saúde de Bobby Robson. Onde tudo começou. Para ele. E não só. No momento da consagração, André Villas-Boas podia sentir-se um homem completo. Logrou o inédito a uma idade precoce e no lugar onde sempre quis estar. Aí, sem dúvida alguma, traça um precioso paralelo com o treinador do Barcelona. Ambos voltam a casa, antes do tempo prevista, para ganhar tudo o que havia para ganhar e com uma filosofia e um estilo próprio que os afastam da figura em comum que os une, mas também, que os separa, José Mourinho.

Villas-Boas aprendeu do técnico sadino muito mas o seu talento precoce vinha já das suas conversas com Bobby Robson, dos seus relatórios adolescentes e das muitas horas perdidas a ver jogos atrás de jogos. Durante essas tardes, no velho estádio das Antas, sonhou com a cadeira de Pedroto, de Artur Jorge, de Ivic, Carlos Alberto...de Robson. Deu sempre passos mais longos que as pernas mas pensados ao mais minimo detalhe. E mesmo quando embarcou na cosmopolita viagem europeia com Mourinho nunca perdeu a Invicta de vista. Fez um desvio por Coimbra (por onde passaram também Pedroto e Artur Jorge) antes de aterrar no Dragão para por ordem na casa. Manteve os jogadores, mudou os principios. E ganhou a aposta. Em 365 dias mudou o rosto do futebol português. Os seus quatro titulos colocaram um ponto final na ambição do Benfica de emular algo que não consegue desde 1984, vencer dois titulos consecutivos. Numa especie de O Império Contra-Ataca, restaurou a normalidade na Liga Sagres com registos impensáveis na era moderna. 30 jogos, 27 vitórias, 3 empates, 73 golos marcados e 16 sofridos não caem do céu. Definem sim uma época.

 

O sucesso de Villas-Boas recai também na sua atitude.

Não é só um técnico que domina os distintos aspectos do jogo - do conhecimento táctico à gestão de balneário - mas é também um homem que sabe controlar todos os aspectos que rodeiam a vida do clube. Essa lição foi bem aprendida com Mourinho, o mentor de quem se afastou, e que soube colocar em prática durante todo o ano, tanto dentro como fora de portas. O sucesso interno do clube - em três provas, sempre à custa do Benfica - teve mais eco no futebol europeu pela caminhada vitoriosa até Dublin. Como sucedeu em 2003 os grandes da Europa ficaram prendados com o talento de gestão de um treinador mais novo do que o próprio capitão de equipa, mais novo ainda de que os precoces Mourinho e Guardiola, os dois rostos que comandam hoje em dia as hostes quando se fala em gestores de primeiro nível.

Villas-Boas não se limitou a bater recordes de precocidade. Definiu um estilo. Num FC Porto habituado nos últimos anos a um jogo temeroso, dependente em excesso do contrário ele manteve apenas o desenho táctico. Trocou os lançamentos rápidos pelo futebol pensado no miolo, recuperou principios da mistica azul e branca dos dias de Artur Jorge e a eterna fome de golos que fez parte dos ensinamentos de Bobby Robson. Uma equipa com tracção à frente mas com uma defesa segura e fiável. Uma equipa sem medo de ter a bola nos pés e com a clareza de mente suficiente para saber o que fazer com ela. E, sobretudo, uma equipa repleta de valores individuais imensos com uma forte dimensão colectiva. Esse espirito de pastor de homens - de que o Dragão estava orfão desde a debandada de Mourinho - significou um profundo regresso à filosofia do passada, cultivada desde a chegada do duo Pedroto-Pinto da Costa. Um FC Porto autoritário, ofensivo e profundamente carismático.

 

Não é casualidade que os grandes da Europa tenham o nome de AVB no topo das suas listas. Muitos lembram-se do que sucedeu da última vez que um jovem e desconhecido técnico despontou ao serviço dos dragões. Por muito que Villas-Boas se queixar distanciar dessa imagem, a verdade é que o jovem técnico já superou o registo ganhador do seu mentor e essa realidade está bem presente  tanto em Portugal como para lá da raia fronteiriça. O treinador tem possibilidades de emular o trajecto de Artur Jorge e José Mourinho mas há algo no seu caracter tripeiro que deixa antever que se prepara para inverter a tendência. Sente-se cómodo na sua cadeira de sonho e não vê motivos para sair. Já viu o Mundo uma vez agora quer que seja o Mundo a vê-lo a ele. Este ano conseguiu-o e transformou a cidade Invicta - com autorização de Barcelona, que vive ainda noutra dimensão - na capital do futebol europeu.  



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:47 | link do post | comentar

Sexta-feira, 31.12.10

Ganhar é a palavra chave no mundo do desporto. Ganhar tudo é a imagem de marca de homens únicos, capazes de adaptar-se às diferentes circunstâncias e obstáculos que se lhe cruzam pelo caminho. Num ano de multiplos personagens, a figura de José Mourinho ergue-se por cima de qualquer outro. Com o Internazionale fez história. Com o Real Madrid procura repetir a fórmula de sucesso que o tornou, nos últimos oito anos, no mais importante técnico da década. O ano de 2010 foi seu, indiscutivelmente.

 

 

 

A derrota por 5-0, a maior da sua carreira, manchou ligeiramente o impecável sobretudo que já faz parte da história do beautiful game.

Mas naquele jogo em Barcelona, apesar dos erros individuais dos jogadores e do seu próprio planteamento, Mourinho foi tudo aquilo que não foi durante os restante 364 dias do ano. E só por isso perdeu. Sem espinhas.

Mas esse pequeno detalhe não deixa esquecer técnico português viveu o ano mais dourado da sua carreira desportiva. Mais até que ao serviço do FC Porto, onde ganhou tudo o que havia para ganhar e ganhou o direito a sentir-se um "Special One". Mais até do que no seu mandato em Stanford Bridge, onde revolucionou o binómio da Premier League, mas que acabou por ficar sem a consagração no espectro europeu que lhe ofereceu a sua estância lombarda. Em Milão Mourinho repetiu o que logrou em Portugal e Inglaterra. Vencer, vencer e vencer. Tudo o que havia para ganhar. Depois de um primeiro ano de adaptação, onde se ficou pela Serie A, algo habitual num clube despojado de rivais à altura pelo Moggigate de 2006, em 2010 a sua marca ficou definitivamente impressa na história do clube, do Calcio e do futebol europeu.

Num clube habituado a gastar sem ter retorno, a viver da saudade dos tempos perdidos do mago Herrera, a sua estampa é a partir de agora santo e senha. Saiu em ombros, com as lágrimas do seu capitão e o sentimento de mulher traída do seu presidente. Naquela noite quente e abafada de Madrid, entrou na galeria dos eleitos. Duas Champions League por dois clubes diferentes a culminar um Triplete que só Ferguson e Guardiola lograram na última década. E se, tal como no FC Porto, a vitória na Champions significou um adeus - que o impediu de somar o sexteto de titulos logrados no passado ano pelo técnico do Barcelona - a chegada a Madrid tornou-se no mais irresistivel dos desafios. Senhor absoluto de Inglaterra, Itália e Portugal, falta-lhe Espanha no curriculum. A Espanha do seu mais odiado rival, do clube que continua a olhar para ele como um traductor, incapaz de perdoar o festival de eficácia defensiva frente a onze selvagens gladiadores no histórico duelo das meias-finais no Camp Nou (depois de uma imensa vitória em San Siro por 3-1 depois de ter estado a perder). A Espanha do clube mais titulado do Mundo, ferido de morte pelos elogios ao seu eterno rival. A Espanha que falta numa carreira imaculada e inimitável nos anais do jogo.

 

Nenhum técnico ganhou tanto como Mourinho em tão pouco tempo. Mais ainda se estamos a falar de um verdadeiro nómada que vive do desafio diário mais do que da comodidade de um projecto de longa duração. Se os romanticos têm tendência a admirar os longos reinados e reconstruções dos Busby, Shankly, Ferguson, Cruyff, Lobanovskys e Wengers, a verdade é que o futebol evoluiu sempre graças aos rebeldes técnicos que procuram sempre um novo laboratório para as suas ideias. Foi assim com Herrera, com Michels, com Capello, com Santana ou Clough. Nomes a que mais facilmente se pode associar o génio laborial de um técnico nascido em Setúbal mas que há muito é uma figura do Mundo.

Mourinho gosta dos underdogs, como a giria americana apelida àqueles em que poucos acreditam. Pegou num FC Porto desacreditado, depois de três anos de vazio e transformou o clube da Invicta em rei da Europa, algo inimaginável e inimitado desde então por qualquer clube fora das três grandes ligas europeias que somam, nos últimos 20 anos, 15 dos máximos titulos europeus. Escolheu Stanford Bridge porque o desafio de bater o dominio dos Invencibles de Wenger e os Ferguson Boys de Manchester era imenso para qualquer um (basta ver o que passou com Benitez, sempre empequenecido na sua comparação com Mou) e graças ao seu estilo de jogo fluido, atractivo e extremamente sólido, criou um clube dominador e asfixiante que é hoje a primeira potência britânica. Em Itália chegou a uma liga descaracterizada, longe das batalhas tácticas que a celebrizaram nos anos 90. Mas transformou o Internazionale de anão a gigante europeu, com uma equipa envelhecida e sem estrelas, sem nomes próprios capaz de ofuscar a sua figura de grande lider. Um desafio que repete agora em Madrid, onde exceptuando o carisma e caracter de Cristiano Ronaldo, lhe cabe recriar, pela quarta vez, uma nova versão da guarda pretoriana, disposta a tudo para mantê-lo no trono imperial. Mesmo se do outro lado, da estética Grécia, emerge um imenso Agamemnón (Guardiola) e um exército que é a paixão de todos os aficionados bélicos, onde deambula um herdeiro de Aquiles (Messi), um engenhoso Ulisses (Xavi) e um intrépido Ajax (Iniesta), que repartirão entre si o ouro da bola mais prestigiada do Mundo.

 

 

 

Mourinho já entrou para a história do jogo quando fez do FC Porto campeão europeu. A partir daí a sua lenda vai-se tornando maior e só quando a sua carreira chegue ao fim será possível apreciar na totalidade a imensidão do seu papel. Mestre dos jogos mediáticos, dominador absoluto de balneários, eximio no jogo táctico, Mourinho sabe que o futebol moderno acenta, sobretudo, no pragmatismo. Vencer dois jogos por 5-0 e perder outro significa ter menos pontos que três jogos ganhos a 1-0. Vencer a qualquer custo implica danos colaterais. O Inter - mais do que qualquer outro dos seus projectos - não estava feito para brilhar. O seu novo Real Madrid, tal como o seu Chelsea, começa a dar sinais de se transformar num relógio letal, que a cada badalada é capaz de disparar um tiro certeiro e matar o mais duro dos rivais. Vinte passes sem perder a bola faz os adeptos aplaudir de orgulho. Mas três toques e um golo levantam um estádio. Mourinho nasceu para levantar estádios mais do que para ser um profeta de consensos. Em 2010 levantou tudo por onde passou. O desafio é imenso. A história é infinita e ciclica. O seu ano é este, mas já foi outro e provavelmente voltá-lo-á a ser. São assim os deuses do futebol.

 

 

Post-Scriptum: Há quem imagine os 5-0 aplicados pelo Barcelona ao Real Madrid como o jogo do ano. Outros relembram o confronto entre Alemanha e Argentina no último Mundial, a final histórica da Champions League ou alguns duelos locais, como os 5-0 do FC Porto ao SL Benfica, o triunfo por goleada do Inter ao AC Milan ou a vitória expressiva do Liverpool diante do Manchester United. Mas provavelmente há anos que não se viveu um jogo tão asfixiante, apaixonante e único como o Arsenal vs Barcelona. A primeira metade do desafio dos Quartos de Final  da última edição da Champions League foi a maior ode possível ao estilo de jogo edificado por Pep Guardiola. A segunda representou toda a classe e garra que encarna a Premier League. Um jogo para entrar nos anais da história como o perfeito exercicio futebolistico. Um verdadeiro producto vintage, irrepetível e que se ergue, diante de todos os outros, como o Jogo do Ano.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:13 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 24.05.10

Talvez seja fácil de entender o que define um treinador marcante. É como Átila. Por onde passa, dificilmente o relvado do tapete verde volta a crescer de forma tão intensa e vigorosa. Nesse apartado chave, tão marginalizado entre disputas estéticas, nenhum é capaz de superar José Mourinho. Não é o homem das longas declarações de amor a uma causa. É um ganhador em qualquer ponto do Planeta. Pela terceira vez voltou a exemplificar quão básica e elementar é a sua cartilha. Uma causa vencedora à partida.

É fácil não gostar de José Mourinho. Demasiado até. E isso torna impossível não o adorar neste mundo de idolos de pés de barro.

O técnico da década - inevitavelmente - é também o nosso Homem do Ano. Pela terceira vez nos últimos dez. Depois de fazer de um destroçado FC Porto uma potência à escala europeia (sete titulos em dois anos) e de ressuscitar um velho clássico como o Chelsea (seis títulos em três épocas), agora coube a vez de fechar o ciclo de Milão. Porque Mourinho é um homem de etapas, não de compromissos.

Vive num mundo diametralmente oposto aos Ferguson e Wenger, técnicos capazes de permanecer uma larga eternidade ligados a um só projecto, uma só ideia. José Mourinho gosta de desafios. É fácil não gostar de saltimbancos. As pessoas admiram a estabilidade, a coerência, a fidelidade. E Mourinho só é fiel a si mesmo. Mas nunca engana ninguém. O seu amor eterno ao seu Chelsea, ao seu Inter (no caso do FC Porto reiteradas vezes lhe lembraram que não era dele...) é etéreo. Não presencial. As suas tácticas, os seus mind games, a sua postura choca com o politicamente correcto que grassa e apesta no mundo de hoje. Um mundo onde o melhor não pode dizer que o é, tem sempre de esperar à maioria. Um mundo onde a eterna ambição de ganhar é castrada com a eterna aspiração de beleza. Mourinho é diferente, não vai nessas cantigas, boas para vender jornais e alimentar conversas de café.

 

Quando Mourinho chegou ao San Siro, muitos duvidavam sobre o sucesso da sua incursão no Calcio.

A eliminação europeia tão precoce na sua primeira temporada deixou muitas dúvidas no ar. Mas foi um mal necessário. Com essa licção aprendida Mourinho rodeou-se dos melhores. Não dos mais mediáticos, mas sim dos jogadores capazes de seguir a sua filosofia até ao fim. Adriano, Julio César, Mancini, Quaresma, Maxwell e companhia foram postos de parte, depois do técnico entender que eram incapazes de sentir as regras do colectivo como fundamentais para vencer. Remeniscencias do velho Helenio Herrera, o homem que deixou Kubala tantas vezes na bancada por troca com o mais colectivo Luis Suarez.

Com uma legião de homens fieis até ao suspiro final, Mourinho tinha o exército que precisava. Dotou-o das armas necessárias (psicologicamente preparou-os para tudo e isso percebe-se no rosto de cada um dos seus jogadores) e montou o esquema de campanha. Poderia ter caído na fase de grupos mas a resistência dos neruazzuri era maior do que aparentava. Contra todos os prognósticos humilhou o Chelsea e vergou o Barcelona. Tudo graças à licção, sempre oportuna, do sadino. Secou as suas antigas glórias e calou os amantes do jogo bonito blaugrana. Chegou a Madrid e aí, nos 90 minutos finais, não ofereceu a minima hipótese ao seu velho amigo, van Gaal. Deu-lhe a bola, ficou com o espaço. Abriu o jogo, marcou. Fechou o jogo, controlou. Voltou a abrir, voltou a marcar. Uma cartilha que a muitos enoja, mas que faz parte do "b-a-b-a" dos ganhadores. E não há um homem tão nascido para ganhar como Mourinho.

 

Quebrada a quarta etapa na sua carreira, começa agora o sonho de Madrid. Num clube que está nos seus antipodas. Num ambiente pouco propicio para a sua tábua dos mandamentos. Tal como em Itália, onde não foi feliz, em Espanha Mourinho não terá o respeito da critica e público. Recebe agora os elogios dos jornais oficiosos do clube merengue, mas espera-o a mesma recepção fria, distante e critica que teve, o ano passado, outro ganhador nato português. Juntos, a dupla Mourinho-Ronaldo pode tornar-se parte da história. Mas não a esperem demasiado longa. O tempo de vencer uma Liga e uma Champions e completar o Poker de três. Porque ninguém espere esse amor eterno a Madrid que muitos juram e perjuram. Mourinho é um homem de desafios. E haverá sempre um novo ao virar da esquina. Por essas e por outras é que ele acaba sempre por ser o mesmo. Sem defraudar. Sem perder. Mais especial, impossível!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:32 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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