Sexta-feira, 28.12.12

Em Vila do Conde vivem-se momentos de euforia contida. No primeiro ano da era pós-Carlos Brito, a equipa comporta-se melhor do que muitos imaginavam e chega à paragem natalícia a disputar os lugares europeus. Mas por detrás, nas entranhas da vida do clube, uma figura começa a destacar-se sobre todas as outras, um nome que põe e dispõe do clube para o seu beneficio particular. A pouco e pouco o Rio Ave transformou-se no clube de futebol do empresário mais poderoso do Mundo, um casamento que funciona para o bem e para o mal!

 

Carlos Brito decidiu não seguir.

Sabia o que aí vinha e não estava disposto a ser mais uma peça de uma alavanca bem oleada. Já o tinha sofrido nos seus anos do Bessa e não iria repetir o erro. O Rio Ave que ele queria distanciava, e muito, do clube que Jorge Mendes queria. O empresário chegava em força e com ele a sua política desportiva. A colocação cirúrgica de jogadores seus e do seu grupo de colegas que fazem parte dos fundos onde ele é conselheiro ou sócio seria uma etapa mais na vida do clube dos pescadores. No Verão o Rio Ave adquiriu o promissor Fabinho lateral direito suplente do Fluminense, apenas para empresta-lo ao Real Madrid que, por sua vez, o colocou a rodar no Castilla. 

O processo não era novo, Mendes já o tinha feito utilizando o Sporting B, o Real Madrid e o Castilla com Pedro Mendes, um defesa que levantou muita polémica em Espanha quando Mourinho, sem vergonha na cara, o utilizou num jogo de Champions League em Amesterdão quando o central nem sequer jogava no filial. O importante era valorizar o passe do jogador, pagar o favor e fazer de Mendes uma peça mais apetecível no cartaz do empresário mais bem sucedido do mundo. 

Pedro Mendes hoje é um futebolista tão obscuro como era antes da sua passagem por Madrid e ninguém duvida que o mesmo passará com Fabinho. Mas o Rio Ave, o clube que o comprou e emprestou, seguramente ganhará pouco com a sua experiência. Mas também, não é para isso que o clube serve os interesses de Mendes. Em troca de servir como clube ponte, algo que os fundos de empresários necessitam cada vez mais, o clube recebeu jogadores do empresário que, noutra situação, seriam incomportáveis. O último de uma larga, larga lista, é Bebé.

 

O caso Bebé sacudiu Inglaterra e levou o prestigiado The Guardian a realizar uma suculenta reportagem sobre os negócios da Gestifute.

O jogador que Ferguson nunca viu jogar mas que pagou 7 milhões por ele ao Vitória de Guimarães é o exemplo perfeito de como funciona Mendes. Obviamente em Old Trafford passou ao lado de uma grande carreira e acabou por juntar-se ao Bessiktas, juntamente com o Deportivo, Zaragoza e Atlético de Madrid, outro clube da confiança do empresário. Aí, entre lesões e incapacidade crónica, foi-se perdendo até que agora volta a ser colocado no novo posto de exibição.

Para coordenar o projecto nada melhor que o primeiro homem de Mendes, o seu primeiro negócio, o seu primeiro amigo, o seu primeiro caso de sucesso. Com Nuno Espirito Santo o empresário da noite de Guimarães transformou-se em empresário de futebolistas e começou a desenhar o seu espantoso império. Mendes é um self made men puro, um génio na arte de negociar, capaz de superar preconceitos com talento e com uma capacidade de omnipresença espantosa até mesmo para um mundo onde os escrúpulos contam muito pouco. Nuno foi o seu primeiro negócio, abriu a sua rede de confiança e agora é o seu homem forte no clube vila-condense. No seu primeiro ano de treinador conta com recursos pouco habituais para o clube. E tem o mérito de os fazer funcionar. O Rio Ave está em postos europeus e pratica um futebol, para a média nacional, interessante.

Bebé vai juntar-se a Ukra, Ederson, Oblak, Filipe Augusto, Esmael, Filipe Souza, Obadeye, Del Valle, jogadores do empresário ou colocados no clube pela sua rede, que ajudam a reforçar um plantel de por si muito curto. O entreposto comercial em que se tornou o Rio Ave tem sido um processo lento mas extremamente bem organizado. Jogadores queixam-se de não ter oportunidades por terem outros agentes, velhas glórias do clube sentem a sombra de Mendes demasiado omnipresente e se os resultados desportivos dão a entender que o projecto tem pernas para seguir, há quem tema, e com razão, que a constante mudança de jogadores, para ir valorizando passes e colocando jovens estrangeiros, no final acabe por pagar factura. Para os rivais é também um problema. A Gestifute compra os jogadores e coloca-os nos clubes que, muitas vezes, nem arcam com a ficha salarial, gerando uma clara situação de concorrência desleal com clubes sem relações de afiliação com redes de empresários. Os resultados desportivos, sobre esse prisma, podem acabar por ter uma triste dupla leitura.

 

Não há na Gestifute uma ambição em transformar o Rio Ave num grande português, mas a presença em provas europeias do clube pode ajudar ainda mais a valorizar os passes dos jogadores adquiridos ou representados pela agência. É o objectivo principal de um clube que perde a pouco e pouco a sua natureza local para se tornar no enésimo clube entreposto comercial de fundos, às vezes a única solução para competir ao mais alto nível num universo onde o mercado dita as ordens e os valores valem cada vez menos.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 05.07.11

Quando os empresários de jogadores começaram a ganhar o seu espaço no universo futebol poucos imaginariam que alguns anos depois eles seriam os elementos centrais dessa indústria cada vez mais complexa. Um poder que ultrapassa o aspecto meramente financeiro e que agora, mais do que nunca, tem capacidade inclusive para moldar projectos desportivos. A contratação de Fábio Coentrão, à primeira vista absolutamente desnecessária, reforça essa ideia. O Santiago Bernabeu converte-se, a pouco e pouco, na sede do clã Mendes.

Não há um empresário desportivo como Jorge Mendes.

A ascensão do português é um case study desportivo que merece ser visto e revisto. Porque não deixa de ser uma licção para os que não acreditam no fenoméno europeu do self made man. Mas também porque deixa a nu todo o lado negro, esse caminho obscuro, que o futebol tomou quando aceitou entrar nesse rodopio financeiro que os milhões das grandes marcas e da televisão anunciavam com um sorriso de anúncio. Há uns meses atrás um jornalista do jornal britânico The Guardian divulgou, em vários capitulos, a saga da vida empresarial de Mendes no mundo de futebol e como os negócios com o mercado britânico ajudaram a cimentar a sua posição desde a sua primeira transferência, do vimaranese Nuno Espirito Santo para o Deportivo. A relação que establece com Cristiano Ronaldo e José Mourinho, os dois grandes embaixadores portugueses além portas e dois dos icones mundiais que o jogo produziu nos últimos anos, transformaram por completo a sua carreira, então iminentemente local.

Mendes é capaz do impossível. Fez Alex Ferguson, o mais perspicaz dos treinadores, contratar um jogador que nunca tinha visto jogar por um valor astronómico. Em Inglaterra nunca se esquecerão de Bebé. Mendes também não. Foi o negócio que deixou a nu todo o seu poder nos bastidores do jogo. Em Madrid, a sua segunda casa - depois do livre trânsito que fez dele uma das pessoas mais invejadas de Manchester como prova a contratação, mediada por si, de David de Gea - o empresário acaba de assinar outro contrato milionário para um atleta na sua carteira sem fim. Um negócio que não chega ao extremo do caso de Bebé - afinal Fábio Coentrão é um jogador de top - mas que espelha bem a sua influência junto de Mourinho e, directamente, do clube espanhol. Mendes consegue um valor recorde para o SL Benfica, um salário apetecível para o jogador, uma comissão generosa para si, mais um jogador da confiança do seu treinador (mais seu que do próprio presidente do clube) e, sobretudo, cimenta a sua posição no balneário do Real Madrid. Fábio Coentrão será o quinto jogador seu a actuar pelo histórico clube merengue. Em dois anos Mendes conseguiu transformar o seu peso numa instituição de renome de tal forma que ele hoje é uma figura com tanto poder como qualquer directivo do clube. Ser agente de Mourinho e Cristiano Ronaldo ajuda, mas contar com figuras como Pepe, Ricardo Carvalho, Di Maria e agora Coentrão transforma-o numa verdadeira força de pressão. Pelo meio ficaram os negócios frustrados de Hugo Almeida (petição de Mourinho, imagine-se), as declarações do treinador para forçar a renovação de Pepe (inusitadas), as palavras de Angel Di Maria nada mais chegar à Argentina sobre uma eventual renovação de contrato (aparentemente prometida no ano transacto) e a campanha mediática à volta da figura de Cristiano Ronaldo que encontra um forte antagonismo no sector histórico do balneário, onde Iker Casillas ainda é dono e senhor.

 

O poder da Gestifute no clube espanhol é claro e evidente.

A imprensa madrileña começa já a referir a possibilidade de José Mourinho retirar a braçadeira de capitão ao histórico Iker Casillas e entregá-la a Cristiano Ronaldo. Uma jogada que já foi planejada por Mendes com Florentino Perez quando o jogador português aterrou em Madrid, depois de uma transferência milionária que fez de Mendes um homem ainda mais rico (e lhe valeu no Dubai o prémio ao melhor empresário desportivo do ano) e que ficou em banho maria. É provável que o plano dos homens fortes da Gestifute fique no papel mas só a ideia deixa antever o peso real que esta estrutura parelela tem no clube. José Mourinho tem reestruturado o Real Madrid de uma ponta à outra, especialmente depois de vencer o braço de ferro que culminou com a saída de Jorge Valdano. Desde então o sadino rodeou-se no clube de homens de confiança e pretende fazer o mesmo com o plantel onde entende que há posições que devem ser reforçadas, sim ou sim.

No entanto olhando clinicamente para o plantel do clube merengue é dificil encontrar uma necessidade real de contratar por 30 milhões de euros (mais 50% do passe do central Ezequiel Garay) um jogador das caracteristicas de Fábio Coentrão. Não que o português não seja um dos melhores do Mundo na sua posição actual, lateral esquerdo. Mas porque nesse top três ideal estariam Gareth Bale e... Marcelo.

O brasileiro foi um dos melhores e mais regulares jogadores merengues do último ano. O seu posicionamento permitiu uma fluidez de jogo ofensivo ao Real Madrid em tudo similar ao que Dani Alves proporciona, no flanco oposto, ao seu grande rival. Marcelo emulou mesmo, em várias ocasiões, o papel do histórico Roberto Carlos. Não contente com isso, o clube merengue dispõe igualmente do versátil Alvaro Arbeloa, um desses cães para toda a refrega que tanto agradam ao treinador e cuja polivalência lhe permite jogar em ambos os lados da defesa. Tal como o turco Hamit Altintop, de fora até Outubro por uma lesão que traz dos seus dias de Munique. Três jogadores para um lugar onde Coentrão se distingue por ter, precisamente, as mesmas caracteristicas de jogo de Marcelo. E no entanto ela move-se, pensarão, e Coentrão pode chegar para actuar mais à frente no terreno de jogo. Uma vez mais, as posições que o esperam estão, desde já, bastante cobertas. No ataque tanto Angel Di Maria como Cristiano Ronaldo e até Mezut Ozil podem actuar no lado esquerdo do ataque com total solvência (para não falar do próprio Marcelo). Excluindo de antemão a propalada chegada do brasileiro Neymar claro. No miolo, onde Coentrão nunca actuou ao mesmo nivel que na ala, o Madrid conta com o talento de Xabi Alonso e Sahin, outra incorporação de classe para povoar o miolo. Ficamos, no fim de contas, sem entender onde cabe Fábio Coentrão no esquema de Mourinho. Mas temos a certeza que a sua chegada acontece, essencialmente, porque pertence à grande familia do clã Mendes. 

 

Com a cantera de Valdebebas mais um ano abandonada à sua sorte e com muito melhores (e mais baratas) soluções no mercado interno (leia-se Canella ou José Angel, por exemplo), a chegada de Coentrão (que passou sem pena nem glória pelo Zaragoza onde era mais habitual vê-lo nas discotecas aragonesas do que no terreno de jogo) é mais um prego no caixão do projecto de espanholização do clube propagado pelo seu presidente, Florentino Perez, aquando da sua reeleição. É também mais um triunfo pessoal para José Mourinho, reconvertido em dono e senhor da parte desportiva do clube mas, sobretudo, uma vitória de Jorge Mendes. O representante amplia a sua fortuna e influência e torna-se, a pouco e pouco, também ele dono de um clube que até há bem pouco tempo era visto como um cemitério para os empresários mais ambiciosos. O clã Mendes fará de tudo para marcar presença na Cibeles em Maio do próximo ano. Florentino Perez já entregou, definitivamente, a parcela desportiva à dupla Mourinho e Mendes e agora resta-lhe esperar e rezar. Mais um ano de fracasso pode significar o desmoronar de mais um projecto em Madrid que começa a construir-se pelo telhado. De vidro neste caso.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 19:21 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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