Domingo, 25 de Maio de 2014

A Décima. Finalmente. Numa noite onde a justiça dos noventa minutos prevaleceu sobre a justiça poética, o Real Madrid mergulhou nos infernos para sair mais forte do que nunca. Trucidou um rival que não soube nunca disputar a final da sua vida mas que, ainda assim, não a merecia perder. Por aquilo que significa no futebol actual. Cristiano Ronaldo fez história sem estar praticamente presente. Foram os secundários que salvaram as estrelas, as dez que o clube merengue usa agora ao peito com orgulho.

Faltavam dois minutos. Essa angústia histórica que parece que sempre faltaram dois minutos para alguma coisa, apoderou-se do Atlético de Madrid. Como em 1974 um defesa com a camisola quatro apareceu para relembrar que faltavam ainda dois minutos para o fim do mundo. Duas vezes na história, o mesmo filme. O mesmo desfecho. Uma tragédia assim destrói qualquer clube. A uma entidade como o Atlético de Madrid, habituada a partilhar alegrias e tristezas na mesma medida, é apenas mais uma lágrima no meio de tanta euforia. O golo de Sérgio Ramos, absolutamente justo pelo que se vivia em campo, definiu o jogo. Como em 74. A partir de aí não houve final, não houve jogo. Não houve dúvidas.

O Real Madrid carimbou a sua 10º vitória na máxima prova da UEFA com a autoridade de quem duvida da própria sombra. Foi uma equipa incapaz de reclamar o seu lugar histórico durante mais de uma hora de jogo. Não merecia vencer. O erro garrafal (outro) de Iker Casillas, o homem sobre o qual Mourinho avisou que era mais o problema que a solução, tinha deixado claro que este Real era menos assustador que outras versões. Quando até o perenal santo falha, tudo parece perdido. O Atlético encontrou-se com um golo que não queria, que não tinha reclamado. Fisicamente mais imponente onde menos importava, o conjunto de Simeone entrou na Luz para não perder uma final que nunca quis ganhar. Esse golo de Godin, dividido com Casillas e Khedira, dava-lhe uma vantagem que surpreendeu a tudo e a todos. Não era esse o guião. A prova veio depois. Nunca mais os colchoneros voltaram a procurar repetir a graça. Foram inofensivos, inconsequentes e pavimentaram o alcatrão do caminho que percorreram até ao cadafalso. Se a Europa do futebol, sempre á procura de um underdog que nos ensine que há algo mais que dinheiro envolvido neste mundo, torcia pelos atléticos, foi o próprio Simeone que se encarregou de reduzir o afecto. A sua equipa foi estanque, previsivel e inofensiva. "El Cholo" errou, e muito, ao confiar na palavra de Diego Costa, um homem que já a deu ao seu país de nascimento para depois a trocar pelo país de adopção. Costa prometeu que estava em condições mas oito minutos depois voltou atrás. Saiu directamente para o duche, sem pedir sequer desculpa. Numa batalha longa, uma bala menos a gastar. Ia fazer falta.

 

Simeone apresentou uma equipa sem magia. Mas com musculo e autoridade.

Não havia Arda - "no Arda, no party" como diria a brilhante biografia do turco assinada por Juan Esteban Rodriguez - nem Diego. Não havia toque fino onde sobrava a raça de Raul Garcia, Gabi e Koke. Só Tiago e Villa falavam outro idioma, coisa pouca para quem aspira a tanto. Os sessenta e tantos jogos nas pernas não ajudaram. Num plantel pequeno e a dar as últimas pouco mais se podia pedir que não fosse entrega e dedicação. E isso não faltou. Também não serviu para entusiasmar. O problema é que o rival, o dos orçamentos milionários, era incapaz de o fazer com a sua constelação de estrelas. Sem a bússola habitual, Xabi Alonso, e com Ronaldo, Khedira e Benzema em péssimas condições físicas, faltavam ideias, critério e futebol aos merengues. Modric, só, não podia fazer mais do que sobreviver á legião de gladiadores rojiblancos. Durante uma hora lutou só com a ocasional ajuda de um Di Maria preso num 4-3-3 que rapidamente passou a 4-4-2 e o obrigou a trabalhar o dobro do habitual. Ao Atlético o golo deu-lhe a comodidade emocional de não ter de avançar e por culpa disso deixou-se empurrar para o seu campo. Ancelotti, o homem que herdou uma equipa montada por Mourinho a que apenas trocou Ozil por Bale (o galês, apesar do golo, foi um dos piores em campo e um dos principais responsáveis pelo sofrimento dos adeptos blancos) imprimindo-lhe ainda mais verticalidade e dificuldade em manejar um jogo com poucos espaços, rendeu-se à lógica. Saiu o fantasma de Khedira - o jogador, em carne e osso, estará pela Alemanha - e Coentrão, para subirem ao relvado Isco e os seus malabarismos e Marcelo e a sua capoeira com a bola nos pés. Foi o momento que definiu a história do jogo. Ambos conseguiram empurrar o Atlético de Madrid para a sua área. Seguiram-se as ocasiões, faltava apenas a bola entrar. Simeone, num esquema mais defensivo do que nunca (fosse Mourinho a fazer o mesmo e imaginamos o que se diria) preferiu Sosa a Diego, mais musculo e lentidão a um jogador que sabe segurar a bola e criar espaços. Depois perdeu Felipe Luis e esqueceu-se que Alderweireld joga melhor pelo lado direito, onde Juanfran desfalecia com uma constante voragem de velocidade e talento encarnados em Di Maria e Marcelo. Tacticamente, Simeone perdeu aí um jogo que Ancelotti quase se esforçou por não ganhar. O golo de Ramos, o tal que emulou velhos fantasmas colchoneros, esteve à altura do dramatismo que uma final assim exige. Ao Real Madrid faltava-lhe ganhar uma final assim, à inglesa. Até isso logrou. Depois deixou de haver luta. O Atlético nunca tinha criado perigo, não ia ser em meia hora, sem alma já e sem corpo há muito, que o conseguiria. O Real, despido de medos, aplicou a lógica de quem tem mais talento tem sempre mais probabilidades de vencer. A conexão Ronaldo-Di Maria permitiu a Bale entrar na fotografia sem o merecer. O descaro de Marcelo triunfou sobre a passividade defensiva de uma equipa que já não acreditava no empate. E o golo de Ronaldo serviu apenas para ter na ficha do jogo o responsável principal por esta conquista épica nos jogos anteriores. Em Lisboa, CR7 não esteve. E por uma vez, ninguém pareceu notar.

 

O Atlético de Madrid foi durante o ano todo um exemplo de luta, coragem e dedicação. Quando lhe faltou o futebol ganhou a alma. Na Luz faltou-lhe a ambição que lhe sobrou em Londres. Quando a diferença de orçamentos é tão grande, a ambição e a alma são o único que sobra. Sem elas o destino está traçado. Ao clube das "10 Copas", o destino foi finalmente amigo depois de três eliminações injustas sob o mandato de Mourinho que pela primeira vez na sua carreira tem de assistir a um clube que deixa para trás triunfar onde ele falhou. Ironias do destino, principalmente porque este Real joga ao mesmo e com os mesmos que fazia a equipa que em 2012 colocou um ponto final à hegemonia blaugrana. Foi uma noite de sonho para os que acreditam em milagres, foi uma noite de pesadelo para os que acreditam em justiça poética. Foi uma final de Champions League. Não há mais nada que se possa pedir.



Miguel Lourenço Pereira às 18:43 | link do post

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