Quinta-feira, 10.11.11

poucos países que apelam tanto à veia nacionalista quando a bola começa a rolar sobre o terreno de jogo. Duas selecções que desde há 15 anos que vêm lançando a ideia de que estão perto de dar o salto para outro patamar mas que acabam sempre por escorregar no momento mais inoportuno. Há três anos e meio Croácia e Turquia disputavam um lugar nas meias-finais do Europeu de 2008. Agora um deles ficará de fora. E o outro fará da gesta mais uma demonstração de espírito nacional. Como em nenhum outro sitio.

O inferno turco é uma realidade que nenhuma equipa pode ignorar.

Para clubes e selecções viajar até ao ponto do união de dois continentes é um verdadeiro martírio. Não só pela qualidade futebolística - tremenda em alguns casos - mas sobretudo pelo ambiente que se recria, do vetusta Ali Semin ao espectacular Ataturk. Jogar na Turquia é jogar contra 72 milhões de pessoas. Uma nação que vive com um pé num laicismo contido e com outro num fanatismo religioso que utiliza o futebol como mais uma de muitas ferramentas para reforçar o cariz de união nacional. Como os alemães sabem, jogar com a Turquia é também jogar com a população turca espalhada por esse mundo fora - e na Croácia há bastantes - e com essa ideia de estado-nação que começa a fazer cada vez menos sentido no contexto dessas organizações plurinacionais que tanto estão na moda. A Turquia é provavelmente uma das potências futebolísticas com melhor futuro pela frente. E no entanto este mesmo discurso, por muito verdadeiro que o seja, já o temos ouvido desde há muito. Exceptuando 2002 - e a memorável campanha no Mundial - e o último campeonato da Europa - derrotados também nas meias-finais num dos jogos mais apaixonantes da prova - o futebol turco nunca registou grandes resultados. E dá sempre a sensação de ser capaz de algo mais. Algo que fica por dar.

O grito dos 72 milhões transforma os jogos em Istambul num verdadeiro inferno, numa parada militar imponente e assustadora, mas fora de portas os turcos continuam a ser uma selecção mentalmente frágil. É certo que cair no mesmo grupo que a Alemanha - hoje, a par da Espanha, a mais forte selecção do Mundo - é um sério handicaap, mas os tropeções dos otomanos deixaram quase até ao último dia a sensação de esperança para uma Bélgica reencontrada. E é essa ferida que o exército croata, essa milicia modriciana, vai tentar explorar.

 

Se os turcos roçam a histeria nacionalista, os croatas levam essa realidade a outros extremos.

País com 20 anos de vida, sofreram na pele a dureza de libertar-se da Jugoslávia e desde então agarraram-se como poucos países nos Balcâs a uma fervorosa paixão por eles mesmos, por uma nação historicamente real mas politicamente ainda muito tenra. O idealismo da extrema direita de Tudjman foi transportado ao futebol - o vermelho e branco axadrezado eram, sobretudo, as cores da bandeira do partido nacionalista que liderou a secessão - e à forma dos croatas entender o jogo e as performances da sua selecção. Tal como os turcos, a Croácia falhou a viagem à África do Sul por muito pouco e em 2008 foi diante dos otomanos que caíram, sem pena nem glória. Depois de uma fase de grupos de altíssimo nível, em que lograram arrebatar a liderança do grupo à finalista Alemanha, algo falhou na cabeça dos Modric e companhia nesse primeiro jogo a eliminar. E os velhos fantasmas voltaram para nunca mais abandonar o céu azul de Zagreb.

A Croácia surpreendeu os mais desatentos no Europeu de 1996 - esquecendo muitos que a maioria das estrelas da geração jugoslava de 1987 vinham do país do Adriático - e fez ainda melhor dois anos depois no Mundial de França, arrebatando um terceiro lugar que valeu para os croatas talvez mais do que o Mundial ganho pelos franceses. Significou, sobretudo, o sucesso de um projecto de nação diante do mundo. Os sucessivos fracassos até 2008 deixaram a sensação que aquele era um fenómeno pontual de uma geração inimitável mas quando Krankjcar juntou as jovens estrelas que deram forma à equipa que viajou à Suiça, um sentimento de esperança renasceu no coração de um país que faz de cada jogo uma batalha sem tréguas. Falhar 2012 para os croatas é um golpe mais duro do que se possa supor.

A nação croata continua a sonhar com a sua integração europeia - tal como os turcos - e o sucesso desportivo é o atalho mais próximo para lográ-lo segundo a opinião generalizada. A presença do Dynamo Zagreb na fase de grupos da Champions League despertou o futebol croata de clubes de uma longa letargia e agora muitos esperam transportar esse momentum para o sucesso da equipa nacional. Durante quatro jornadas os croatas estiveram perto de assegurar o apuramento directo mas nas horas finais claudicaram diante da Grécia de Fernando Santos. 180 minutos serão muito longos mas também são a última esperança para não cair no esquecimento.

 

Pensando que selecções com muito menos qualidade individual como a Irlanda vs Estónia ou a República Checa vs Montenegro irão lograr dois lugares num torneio onde certamente quer croatas quer turcos irão fazer muita falta deveria obrigar a UEFA a rever de uma vez por todas os seus critérios de selecção para play-offs como este. Já se sabe que a partir de 2016 o Europeu será muito mais acessível a qualquer nação mas é curioso pensar que a Irlanda tenha uma posição como cabeça de serie - mais pelo drama criado à volta da polémica mão de Henry há dois anos - e uma selecção com registos notáveis como os turcos sejam relegados para um sofrimento talvez desnecessário. Nenhuma das oito selecções merece passar por este suplicio, mas talvez as duas equipas que mais mereciam estar na Ucrânia e Polónia tenham de se matar, qual gladiadores, num combate à morte. A bem da (respectiva) nação!



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Quarta-feira, 09.11.11

São a mais jovem selecção do Mundo e nesse arrojo típico dos recém-chegados desafiaram os prognósticos, emudeceram os críticos e desafiaram a história. Tiveram a Inglaterra a seus pés, destroçaram o projecto de futuro da Suiça e agora estão preparados para defrontar a selecção mais bipolar da história recente do futebol europeu. Quais são os limites dos rookies do ano?

Passou pelo Benfica sem pena nem glória e em Vallecas muitos continuam a desconfiar do seu jeito molengão.

Mas em Podgorica, Andrija Delibasic é o equivalente mais próximo que podemos encontrar a um mito vivo.

O golo do dianteiro do Rayo Vallecano não garantiu só o empate frente à toda poderosa Inglaterra. À distância de um anúncio radiofónico, confirmou o conto de fadas que há um ano se estava a escrever em letras maiúsculas no último filho do Mundo, na derradeira bandeira independente a desfraldar pelos Balcâs, no quinto país da ex-Jugoslávia a entrar em disputa por um lugar ao sol.

Durante anos o Montenegro viveu à sombra do seu vizinho maior, a Sérvia, e foi nessa condição que os montenegrinos marcaram presença - apesar de ninguém ter notado - no Europeu de 2000. Mas jogar com bandeira e luz própria é outra sensação. Só em 2007 a FIFA e a UEFA aceitaram a inscrição dos montenegrinos como selecção oficial e permitiram a participação na fase de qualificação para o Mundial da África do Sul. Montar uma equipa de um país novo era um desafio ao alcance de poucos e só a apaixonada labor de Zoran Filipovic, filho da terra, permitiu montar um plantel competitivo mas cheio de baixas. A maioria dos jogadores montenegrinos preferiu continuar a actuar com a Sérvia e entre os veteranos Basa, Pavicevic, Novakovic e o próprio Delibasic e as novas promessas locais Vukcevic, Vucivic , Savic e Jovetic, formou-se um onze sui generis que daria muito de que falar. Há dois anos pagaram o preço da inexperiência apesar de surpreendentes resultados a abrir. Em 2010 arrancaram para uma campanha a roçar o inacreditável. E estão a dois jogos do paraíso.

 

Desde o desmembramento do Jugoslávia que três nações do país inventado por Tito marcaram presença numa grande competição internacional. Das três só a Croácia está na disputa deste play-off mas aos homens do Adriático acompanham-nos os novos filhos dos Balcâs, os guerreiros da Bósnia e os falcões do Montenegro.

Na altura do sorteio os montenegrinos eram a equipa pior quotada do grupo G, por detrás de bulgaros, suiços, galeses e ingleses. Ninguém imaginava que no último dia os recém-chegados tenham ficado a apenas 4 pontos do apuramento directo para o torneio disputado entre a Polónia e a Ucrânia. O arranque sublime (três vitórias por 1-0 com golos de Vucinic contra Gales, Bulgária e Suiça) foi seguido de um épico duelo em Wembley com a Inglaterra de Fabio Capello. Num jogo onde os papeis pareciam trocados, os montenegrinos encostaram os ingleses às cordas e o próprio seleccionador italiano confessou que o empate era um mal menor.

Depois de uma série inesquecível começaram a chegar os primeiros revezes. A selecção já tinha perdido a fluidez de jogo de Jovetic - lesionado durante um ano - e ninguém se surpreendeu com o empate contra os búlgaros e a primeira derrota em Gales. Os ingleses pareciam escapar-se finalmente e os suíços de Shaquiri e companhia aproximavam-se perigosamente antes de um duplo confronto determinante contra ingleses e suíços para decidir as posições finais do grupo. O clima de histeria depois da derrota em Gales custou a cabeça ao mentor da fábula, o seleccionador croata Zlatko Kranjcar e para o seu lugar a federação - que parecia ter perdido a crença num apuramento que chegou a estar perto de ser directo - nomeou o técnico Branko Brnovic, secundado pelo ex-internacional jugoslavo Savo Milosevic. A nomeação, juntamente com o regresso de Jovetic à equipa nacional, deu o plus de motivação que faltava. Podgorica encheu para receber a Old Albion e apesar dos dois golos inaugurais dos ingleses na primeira parte, os locais nunca perderam a cabeça. As noticias que chegavam de Gales (onde a Suiça perdia também por 2-0) eram motivadoras suficientes e no segundo tempo os ingleses sofreram uma pressão asfixiante que culminou no tento de Zverotic e depois no salto milagroso de Delibasic. O salto em suspensão de todo um povo. 

 

O empate garantiu a qualificação matemática para o play-off, algo que nem a derrota por 2-0 com a própria Suiça foi capaz de alterar. O destino traçou um duelo com a República Checa, selecção facilmente reconhecível pelo transtorno bipolar na grande prova europeia. Uma final e uma semi-final caminham lado a lado com duas campanhas em que a eliminação na fase de grupos foi o melhor que conseguiram. Os checos contam com uma das melhores gerações jovens do continente mas terão de medir-se contra uma pequena nação que olhará para os 180 minutos como um encontro com a história. O jogo decisivo em Podgorica, mais do que um duelo entre duas selecções, promete ser o grito de um povo que só quer que o Mundo sinta que eles também existem.



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Terça-feira, 08.11.11

Num país onde o futebol não é, nem de longe, um dos três desportos mais populares, quanto vale um apuramento histórico para um Campeonato da Europa? O peso da tradição joga todo do lado da República da Irlanda mas a grande sensação chega de uma Estónia que há uma dúzia de anos era apenas mais uma equipa entre muitas a abater e que agora se pode tornar na quarta ex-república soviética a marcar presença numa grande prova internacional.

 

É curioso que uma super-potência futebolistica como foi a União Soviética tenha tido, até hoje, apenas três descendentes directos nos palcos mais sonantes do futebol mundial. O apuramento da Rússia em 1994 foi o primeiro de uma ex-república soviética a brilhar com luz própria. Foi preciso esperar 10 anos para um replay, com a insuspeita Letónia a bater todas as previsões. Foi sol de pouca dura e para os letónios hoje a lembrança desse Verão português é algo que não provoca demasiado entusiasmo. Para fechar o trio, dois anos depois, a Ucrânia que sempre parecia estar a ponto de marcar os bilhetes e que sempre ficava apeada no aeroporto, marcou a sua estreia de forma categórica no Mundial da Alemanha. Agora regressa como anfitriã e juntamente com os russos, no próximo mês de Junho está garantida a presença de uma forte herança do futebol dos primeiros campeões europeus. Mas e se em lugar de duas selecções, sejam três as ex-repúblicas a disputar o ceptro continental?

Para os estónios esse fenómeno era surreal apenas há um ano atrás. Afinal o país do Báltico está longe de ser um entusiasta do beautiful game. Em Tallin e arredores qualquer desporto com gelo, e até mesmo o basquetebol, é muito mais popular que o futebol e isso sempre se fez notar. Os clubes estónios primavam pela sua ausência na poderosa liga soviética e as suas equipas, já recém-independentizadas, nunca deram um ar da sua graça nas provas europeias (ao contrário de letões e lituanos, por exemplo). A selecção azul e negra era um rival simpático e bem-vindo em qualquer sorteio. E talvez no futuro tudo volte a ser como dantes. Mas esta semana o mundo do futebol para obrigatoriamente aqui.

O frio de Riga será um rival tão ou mais intenso para os irlandeses como a qualidade da selecção orientada por Tarmo Ruttli.

Quando o seleccionador chegou ao banco da equipa nacional, durante a fase de qualificação para o Mundial da África do Sul, a Estónia estava no 137º lugar do ranking FIFA. Dois anos depois encontra-se no 57º posto, uma metamorfose que poucos conseguem explicar. Não apareceu nenhuma estrela internacional, não há uma verdadeira geração de prodigios e, sobretudo, o país não se apaixonou pela sua equipa nacional. E contra tudo e contra todos, desafiando a pura lógica, os estónios estão a 180 minutos de fazer história.

 

A Irlanda é uma ilha que traz boa sorte aos bálticos.

Nos dois últimos encontros de apuramento a Estónia mediu-se contra a Irlanda do Norte, país que desde 1986 não marca presença numa competição internacional. À partida os irlandeses eram favoritos mas os homens do norte venceram os dois jogos (4-1 em casa e 1-2 fora) e confirmaram uma surpresa absoluta.

Uma viagem que começou um ano e meio antes com um vitória surpreendente em Belgrado contra uma Sérvia que tinha saído do Mundial com a cabeça baixa. Os homens dos Balcâs eram considerados como claros favoritos a disputar a liderança do grupo à Itália de Cesare Prandelli mas os problemas no balneário depois da péssima performance no Mundial ficaram à vista de todos na noite em que a Estónia decidiu começar a tratar a bola por tu. Apesar da derrota com a Itália e a esperada vitória diante das ilhas Faroe muitos imaginavam que o duplo duelo contra a igualmente mundialista Eslovénia iria colocar os estónios no seu respectivo lugar. A derrota no jogo disputado em casa frente aos eslovenos deixou a entender que assim seria mas depois os estónios empataram, também em casa, com a Sérvia e, beneficiando-se de uma campanha exemplar da Itália, viram-se isolados no segundo lugar do grupo. Uma posição que provocou certamente vertigens, de tal forma que a derrota contra a amadora selecção das Faroe funcionou como um verdadeiro choque de realidade. Faltavam três jogos e os estónios necessitavam de somar sete pontos para chegar aos play-off.

E então apareceu Purje.

Numa selecção onde os jogadores actuam todos em clubes de segunda, terceira e quarta linha internacional, que um médio de 26 jogue num modesto cipriota não é novidade. Mas Purje tornou-se num jogador especial quando ao minuto 81 desnivelou a balança (o jogo e o resultado) no duelo na Eslovénia, marcando o agónico 1-2 que deixava tudo nas mão dos homens do Báltico para a ronda final. Só os sérvios lhes poderiam arrebatar o sonho mas a derrota o empate em Itália e a derrota na Eslovénia permitiram à equipa da Estónia fazer história. Sem jogar - depois da dupla vitória contra os irlandeses do Norte - os jogadores celebraram um passaporte único para a fase de play-off onde defrontarão uma Irlanda traumatizada pela derrota diante da França (e dessa mão) há dois anos.

Ninguém espera que os estónios se apurem (aliás, na Irlanda, apesar de Trapatonni, a confiança roça o histerismo) mas a crença nos golos de Konstantin Vassiljev (foram cinco, o melhor registo de sempre da selecção numa fase de apuramento) e no espirito de grupo que Ruttli criou à volta de atletas que roçam quase o amadorismo torna esta eliminatória num dos pratos mais apetecíveis de toda a fase de qualificação. Os irlandeses encontram uma equipa que talvez lhes lembre a eles mesmos, quando Jack Charlton transformou o EIRE num caso sério de popularidade. Quase 25 anos depois, haverá alguém que tenha coragem de não esperar por um milagre no gelo de Riga?



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:25 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 21.10.11

Entre Baggio e Totti pareceu viver sempre. E nunca se mostrou verdadeiramente incomodado por isso. Mais do que uma lenda viva do Calcio quando este ainda era o Calcio, a verdade é que o génio bianconero nunca deixou de ser para o Mundo o pequeno "Pinturrichio" que durante anos embasbacou aos seguidores do futebol italiano. Como na obra de Dumas, vinte anos depois Alessandro Del Piero já não é o mesmo e o seu adeus talvez não doa tanto. Mas no ar ficou a ágria sensação que houve algo que ficou por fazer nessas décadas de magia. E agora já não há tempo...

 

Quando uma geração diz adeus parece fazê-lo quase de forma instantânea.

Del Piero era um resistente, um dos últimos. Deixará de sê-lo no final desta época e junta-se aos Scholes, Vieira, Ronaldo e outros contemporâneos que decidiram que este desporto não é para velhos. Sobram os Giggs, Raúl e Totti, esses que continuam a resistir à gravidade e ao peso do Mundo transformando o seu jogo e desafiando os tempos. O número 10 da Juventus fartou-se dessa luta porque há muito que deixou de sentir o mesmo apelo, a mesma ilusão. Talvez porque, ao contrário dos recém-citados, deixou de ser importante. Deixou de ser Alex Del Piero e passou a ser apenas isso, uma lenda viva em cera, como uma estátua do Madame Toussaud.

Em 2006, quando a Itália quebrou a malapata de outras duas gerações, Del Piero foi determinante. Na meia-final contra a Alemanha de Klinsmann, rejuvenesceu e destroçou os germânicos como não fora nunca capaz de fazer no passado nos poucos minutos que esteve em campo. Foi o seu jogo mais importante com a Azzura. É significativo que tenha sido assim aos 32 anos apenas. Um espelho de uma carreira confusa e profundamente intrigante. No final desse torneio, que nem foi dele nem de Totti, o seu grande rival, mas sim de Pirlo, Buffon e Cannavaro, os problemas da Juventus anunciaram um fim que se prolongou por meia década.

Del Piero acedeu descer com a equipa aos infernos. Como Buffon e Nedved manteve-se fiel à causa. Confirmou o que todos pensavam dele mas talvez o tenha feito porque, aos 32 anos, sabia que seria incapaz de render de acordo com o seu nome em qualquer outro sitio. Ficar em casa era mais popular mas também mais cómodo para um atleta cuja evolução já tinha estagnado um par de anos antes. A estrela que tinha despontado em 1993, ao lado de um imenso, imenso Roberto Baggio, tinha sido um verdadeiro pesadelo para rivais e próprios durante uma década. Mas depois da saída de Lippi, na sua segunda etapa, começou a perder o seu espaço no onze. O homem que sobreviveu a Baggio, Zidane, Nedved e Ibrahimovic foi perdendo contra ele mesmo. As fracas performances com a selecção tinham criado um sentimento de desconfiança nacional que se juntou rapidamente aos adeptos bianconeros quando souberam que alguns dos seus mais emblemáticos jogadores (incluindo o  Pinturrichio) podiam ter sido cobaias de tratamentos médicos ilegais durante o reinado de Lippi. O reinado do número 10.

 

Del Piero nasceu em Conegliano, uma aldeia perto de Turim, onde passou os primeiros anos de vida.

Com 17 anos a Juventus descubriu-o no Pádova e não hesitou a juntá-lo às filas da primeira equipa onde já militavam Baggio, Ravanelli, Vieri, Vialli e Inzaghi. O impacto do trequartista foi imediato. Estreou-se na segunda jornada contra o Foggia como titular e na seguinte já tinha marcado o seu primeiro golo. Quinze anos depois, em 2008, tornou-se no jogador da Juventus com mais golos e jogos disputados da história, superando a Scirea e Boniperti, dois mitos históricos do clube. No final desse ano a equipa venceu o Scudetto pela primeira vez desde os dias de Platini ao mesmo tempo que batia o AS Parma na final a duas mãos da Taça UEFA. O genial Roberto Baggio levou os prémios individuais mas os jornalistas pareciam realmente encandeados com o talento de um miúdo de 19 anos que nunca ninguém tinha visto. Começou a criar-se uma aura e genialidade que o acompanhou durante toda a carreira. E que nunca foi totalmente preenchida.

Fracos desempenhos com a Azzura (45 minutos contra a Rússia em 96, fracos Mundiais em 98 e 02 e muitas oportunidades falhadas nos momentos decisivos do Euro 2000) e a ascensão de Totti na capital começaram a deixar em evidência o jogador em quem todos pensavam depositar o futuro do futebol italiano. Com a Juventus, em contra-partida, Del Piero logrou tudo aquilo que um jogador pode desejar. Uma vitória na Champions League (quando formava o tridente ofensivo com Vialli e Ravanelli) e mais três derrotas, cinco scudettos (e dois retirados à posteriori) e vários prémios pessoais pareciam preencher de números e troféus uma carreira que se ia perdendo. O golo à Del Piero, movimento diagonal interior seguido de um forte remate colocado tornado famoso pela imprensa italiana por representar uma esmagadora percentagem dos seus golos com os bianconeri, espelhava a previsibilidade do seu jogo. Del Piero deixou de lograr surpreender, perdeu a capacidade de controlar as mudanças de velocidade e foi-se, de certa forma, vulgarizando. Ao seu lado passaram Zidane e Nedved, ambos Ballon´s D´Or ao serviço da Vechia Signora, um prémio a que o avançado italiano nunca esteve sequer perto de optar. Ninguém, no futebol europeu, era capaz de dizer mal do jogo de Del Piero. Mas também eram muito poucos os que o consideravam como um génio. Algo similar ao que passou a Raúl, em Espanha e na Europa, foi corroendo a sua carreira. Em 2006, com 33 anos, muitos imaginavam uma retirada imediata. Pouco havia mais por fazer, por ganhar, por surpreender. Capello tinha transformado o ídolo dos adeptos num suplente de luxo e a situação não parecia que se iria alterar. Mas chegou o Calciopolli, a debandada de técnicos e estrelas e a despromoção. Foi uma segunda juventude para o capitão que voltou a transformar-se, de forma insuspeita e inesperada, no líder do projecto da familia Agnelli. Como uma ressurreição, Del Piero voltou às capas de jornais pelo seu jogo mais do que pela falta dele.

 

No entanto o tempo, que em Itália respeita mais os jogadores do que se possa imaginar, passava e o surpreendente (e nefasto) estado físico de Alex continuava a dar azo aos rumores que falavam no seu surpreendentemente rápido desenvolvimento muscular numa era onde a Juve era suspeito de tudo por todos. Incapaz de agradar a Del Neri ou ao seu velho amigo Conte e sabendo-se incapaz de se reinventar no terreno de jogo, Del Piero anunciou o que estava escrito há quase uma década. Espera dizer adeus como disse olá, com um titulo histórico depois de uma longa travessia no deserto. No futuro os seus números continuarão a ser inquestionáveis mas o presente já lhe dictou sentença, uma sentença que será difícil de alterar com o tempo. Aquele que tinha todas as condições para ser o idolo do calcio italiano parece agora, talvez injustamente, como um elo pequeno de ligação entre as genialidades de Baggio e Totti.



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Sexta-feira, 12.08.11

Longe vão os dias dos golos de Silvio Piola. A era dourada do "Quadrilatero Piedmontese". Os dias em que Novara era um dos centros periféricos do calcio italiano. Durante 55 anos o seu clube de futebol viveu uma profunda letargia emocional e a reputação desportiva da pequena localidade virada para os Alpes limitou-se aos sucessos da equipa de hockey em patins. Até agora. Mais de meio século depois, os Biancoazzurri voltam à elite desafiando o peso da memória.

Ninguém marcou tantos golos em Itália como o histórico Piola.

O seu nome continua na memória dos locais, estampado com orgulho na entrada principal do estádio do seu Novara. O dianteiro italiano foi a grande figura da selecção orientada por Vittorio Pozzo durante as duas Guerras Mundiais. A primeira bicampeã do Mundo. O capitão era Meazza mas os golos eram de Piola. Depois da Guerra o mitico goleador assinou pelo modesto clube piemontês. Por essa altura muitos corriam às bancadas do velho estádio Comunale da pequena cidade alpina. Novara, que nos anos 20 tinha feito parte de um quadrado mágico que definiu a natureza do futebol italiano, renascia. Na década de 20, quando Piola começou a brilhar, o peso do Piemonte, eixo onde o jogo cresceu e entrou na sua era profissional, era reconhecido pelo sucesso de Alessandria, Casali, Pro Vercelli e Novara. Quatro equipas que disputavam ao duo de Turim, Juventus e Torino, a supremacia regional. Com o final da carreira do histórico goleador a memória de Novara foi tornando-se profundamente difusa com o passar dos anos. O adeus de Piola deixou marcas no clube. Em 1956 a equipa caiu no poço da Serie B.

O que parecia um periodo de transição curto transformou-se num longo pesadelo. Cinco anos depois de lutar por voltar à elite o Novara voltou a cair, desta vez nas trevas da Serie C. Desta vez a reacção foi rápida e a equipa demorou apenas duas temporadas a voltar à Serie B. Mas como as restantes equipas do "Quadrilatero" a Serie A tornou-se numa longa e sofrida utopia. Em 1977, com o futebol italiano prestes a entrar numa das suas etapas mais negras o clube voltou a cair à Serie C e três anos depois perdeu mesmo a condição de clube profissional quando aterrou na liga amadora da Serie C 2. Parecia que o mitico Novara, o clube de Piola, estava perto do fim. Até que um milagre mudou por completo a vida do clube.

 

Em 2009/2010 o Novara surpreendeu tudo e todos ao conseguir a promoção para a Serie B.

Foi um ano sofrido, cheio de problemas financeiros, mas com um final feliz. Ninguém imaginava que o clube conseguisse manter a categoria na segunda divisão do Calcio e as expectativas dos locais estavam longe de imaginar o que sucederia no final da temporada.

A chegada de um novo director desportivo, Pasquale Sensibile, e de um novo técnico, Attilio Tesser, mudou por completo o rosto de uma equipa que tinha terminado as duas temporadas anteriores no oitavo posto da Serie C. O sucesso da dupla na promoção à Serie B continuou com um arranque de época estupendo, rompendo com todos os prognósticos mais pessimistas. Liderados por Marco Rigoni, o Novarra rapidamente tomou para si o primeiro posto da tabela classificativa onde se foi mantendo, mês após mês. Quando chegou o mês de Dezembro a gasolina começou a faltar e o clube, até então invencivel, perdeu os primeiros pontos permitindo a Atalanta e Siena uma rápida aproximação na tabela classificativa. Em Fevereiro a equipa já tinha caído para o terceiro lugar e muitos imaginavam que a queda livre continuaria nas jornadas seguintes.  A equipa levava sete jornadas consecutivas sem ganhar mas Tesser encontrou forma de reajustar uma defesa em horas baixas e os bons resultados voltaram. Depois de um triunfo frente ao Ascoli, sofrido, a equipa voltou aos bons resultados e chegou ao final da época regular no terceiro posto. Um lugar perigoso porque obrigava a um duplo confronto em modo de play-off. O primeiro duelo duplo foi disputado com a sexta classificada, a Reggina. Duplo empate, primeiro 0-0 em casa e depois 2-2 fora garantiram o apuramento para a final do play-off onde a equipa biancoazurri teria de bater o Padova.

O primeiro jogo disputou-se a 9 de Junho na cidade de Padua e o empate a zero foi um resultado lisonjeiro para o conjunto visitante que tinha precisamente garantido o apuramento na ronda anterior graças aos golos marcados fora. Mas três dias depois, com o estádio Silvio Piola lotado, a equipa local superou-se e venceu categoricamente por 2-0 confirmando assim uma promoção, a todos os titulos inesperada. 55 anos depois a magia da Serie A voltava a ecoar na memória dos locais.

 

Não é dificil, pela trajectória recente, que todos olhem para o Novara como o primeiro candidato a cair de novo na Serie B quando a próxima edição da Serie A chegue ao fim. Mas é precisamente esse espirito de luta e a capacidade de superar as expectativas que transforma o regresso deste modesto histórico num dos pratos mais apeteciveis do Calcio para a época que agora arranca!



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Sábado, 06.08.11

Em Pristina estão cansados de esperar. Mais de dois anos depois continuam num beco sem saída. A bola não rola, espera pacientemente uma decisão. Depois de tantos nãos, esperar é mesmo tudo aquilo que têm. O Kosovo quer ser independente. Os kosovares querem jogar futebol. Com a sua bandeira ao peito. A FIFA e a UEFA dizem que não é a hora mas a bola está farta de esperar...

Em Fevereiro de 2008 o Kosovo declarou unilateralmente a independência da Sérvia.

Foi, talvez, o derradeiro capitulo de um conflicto nos Balcãs com 17 anos de história. A Sérvia, destroçada por dentro depois de tantas guerras e sanções, fez um ultimo esforço diplomático e rejeitou aceitar a existência dessa República do Kosovo. Por uma vez o Mundo teve paciência e decidiu ouvir Belgrado antes de tomar uma decisão. De tanto ouvir as palavras ficaram presas no ar e a rápida decisão prometida pela ONU eternizou-se. E eterniza-se ainda hoje para desespero dos quase dois milhões de kosovares. O país não conseguiu a unanimidade necessária para ser considerado oficialmente um país - que conceito mais repelente esse de depender da vontade alheia para ser alguém - e procurou desfraldar a recém imaginada bandeira por outra via. O futebol, como sempre, era o caminho mais rápido. E eficaz.

Um mês depois da declaração unilateral representantes kosovares apresentaram-se na Suiça para convencer os executivos da FIFA e da UEFA a deixá-los entrar nas suas "célebres" familias. Futebolisticamente o Kosovo pertence à última divisão europeia, a mesma por onde andam as Ilhas Faroe, Malta, Lieschtenstein ou São Marino, por exemplo. Só um clube kosovar, o FC Pristina, passou pela primeira divisão sérvia. A maioria dos jogadores que podiam fazer parte de uma hipótetica equipa nacional kosovar estão divididos entre Albânia, Finlândia ou Suiça. E nenhum deles mostrou um exacerbado patriotismo que os fizesse sequer considerar a possibilidade de abdicar das regalias que têm hoje para cantar o novo hino nacional. A sua estrela mais cintilante, Lorik Cana, jogador da Lazio joga actualmente pela Albânia e não parece ter pressa para mudar. Ele, como muitos, vive também na sua encruzilhada particular.

 

Blatter e Platini foram peremptórios. Enquanto o Kosovo não for reconhecido pela ONU os kosovares têm de pensar noutras opções para jogar futebol. Oficialmente eles são uma não-nação, seja lá o que isso for. Irritar os russos e espanhóis é um preço que os dirigentes desportivos não estão dispostos a pagar. Os kosovares não têm culpa, afinal às restantes repúblicanas balcânicas houve até uma pressa ensurdecedora para dizer que sim antes do tempo. Eles pagam a factura de tempos pretéritos e sensibilidades agudas.

Mas a federação kosovar não desistiu. Os contactos com a Albânia, o país que mais apoiou o recém-constituido estado kosovar, levaram à realização do primeiro jogo amigável - que não oficial - para a selecção do Kosovo. Claro que os albaneses ganharam (3-1) mas isso importava muito pouco. Mas, mesmo assim, o Kosovo continuou a ser visto por tudo e todos como um desses estados malditos condenados a jogar entre si vezes sem conta. Estados como o Chipre do Norte, Monaco, as comunidades autonómicas espanholas, Sapmi, Greenland, Crimeia, Padania, Ocitânia, Gibraltar ou as ilhas de Man e Guernsey.

No último ano e meio os kosovares têm tentado organizar amigáveis com a maioria das federações mas a complexa situação politica tem sido, até a esse nivel, um sério impedimento. O apoio da Arábia Saudita (o Kosovo, como a Albânia, é um país iminentemente muçulmano) e da comunidade emigrante na Suiça deram a possibilidade ao seleccionador Albert Bunjaku de começar a fazer rodar alguns dos jogadores que decidiram assumir a sua condição de kosovares desde o principio. Jogadores como o guardião do Novara, Samir Ujkani, o lateral do Tottenham Ajet Sehu ou o médio do Hannover 96, Valdet Rama, jovens promessas que há dois anos teriam sido repescadas pelas selecções dos países onde cresceram (e o caso albanês continua a ser o mais evidente) e que agora começam a desenhar o futuro do futebol kosovar.

 

Parece impossível que o Kosovo possa estar na linha de partida para a qualificação para o Europeu de 2016 em França. Os timings das principais instituições não facilitam e a burocracia a essas estâncias é ainda mais gritante. Mas o sonho do futebol kosovar está bem vivo. Uma nação que espera por um milagre para não cair no esquecimento a que o futebol internacional muitas vezes devota os países de onde não saem os Messis do futuro.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:59 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 31.07.11

A ressaca do sucesso do escrete canarinho no Mundial de 1970 durou uma década. Até 1980 o Brasil andou sem rumo, perdido entre o sucesso individual de 70 e a certeza de que essa geração tinha-se tornado num mito irrepetivel. Telé Santana encontrou a chave do futuro e desenhou um sistema capaz de emular o modelo de jogo das camisolas amarelas de Pelé e companhia. O Quadrilátero Mágico brasileiro tornou-se a chave da europeização do futebol brasileiro até aos dias de hoje, mas na sua concepção foi um último piscar de olhos a uma realidade mitológica que nunca mais ninguém foi capaz de repetir.

O golo de Carlos Alberto que culminou o triunfo mais espectacular de uma equipa na final de um torneio internacional marcou o fim de uma era.

Não só a geração de 70 era única no talento e na entrega como as condições em que se formou o projecto de Zagallo acabaram por se revelar tremendamente circunstanciais e, portanto, irrepetíveis. Um Mundial de altitude que asfixiou, à partida, qualquer ideia de pressing que começava a tornar-se popular na Europa e, sobretudo, um Mundial onde as equipas, pela última vez, prestaram mais atenção ao homem e menos ao espaço. O 4-2-3-1 que Zagallo desenhou para albergar tantos génios só funcionou porque nenhum dos rivais que o Brasil encontrou, nem mesmo a Itália, se preocuparam minimamente em aplicar um pressing eficaz. Gerson, Clodoaldo, Pelé e Rivelino tiveram a eternidade nos pés e tempo e espaço para desenvolver o seu melhor futebol. Mas esse espirito livre e romântico do jogo já tinha os dias contados antes do Mundial e depois o desmoronar do projecto brasileiro acabou por ser inevitável. O Mundial de 74 confirmou a mudança de guarda no histórico duelo com a Holanda e quatro anos depois o Brasil esteve perto de chegar à final de uma forma timida e absolutamente imerecida. Tanto Zagallo como Coutinho continuavam a acreditar que os individuos superavam o sistema mas ambos tentaram instituir um sistema europeizado que acabou por ir contra o próprio modelo de jogo individual dos seus principais astros. Numa década onde a qualidade do futebol brasileiro decaiu, a selecção foi incapaz de aguentar o futebol mais musculado, temporizado e, sobretudo, pressionante, dos conjuntos europeus. Parecia inevitável que o Brasil procurasse uma fórmula que permitisse recuperar o tempo perdido. Mas havia também uma imensa nostalgia com os dias gloriosos do Tri que ninguém queria perder. Telé Santana, então maestro do Fluminense, chegou a Espanha em 1982 com o modelo ideal na sua cabeça. Um modelo que não funcionou mas que iria forçosamente condicionar o futuro do futebol brasileiro nos 30 anos seguintes.

 

O Quadrilátero Mágico de Santana resumia os principios da geração de 70 (jogam os melhores jogadores com total liberdade) com a aplicação do ideário do Futebol Total (pressing, movimentação no terreno de jogo, verticalidade e velocidade).

O sistema táctico idealizado pelo brasileiro acentava num claro 4-2-2-2 abdicando totalmente do jogo de extremos, uma ideia já defendida por Maslov e Ramsey nos anos 60 e que Zagallo adaptou ao transformar dois avançados, Jairzinho e Rivelino, em falsos extremos. Em 1982 o futebol brasileiro tinha uma grande variedade de médios centro e uma profunda escassez de dianteiros de renome. Em lugar de emular Zagallo, o técnico nacional optou por dar total liberdade a Sócrates e Zico, com Serginho e Éder à frente e Toninho Cerezo e Dirceu como médios mais recuados. As alas eram entregues a dois laterais rápidos, na escola de Nilton Santos, Leandro e Júnior que tinham a função de abrir o campo e cercar as defesas contrárias. Um modelo que garantia pressing no miolo com um quarteto de luxo, dois dianteiros móveis (que só jogaram porque Careca, lesionado, e Dinamite, fora de forma, não estavam em condições) e laterais ofensivos. O plano resultou na fase de grupos (com Falcão a "roubar" o posto a Toninho) e a vitória clara sobre a Argentina deu a sensação de que a equipa tinha encontrado o equilibrio necessário. Não foi assim.

Contra a Itália o sistema bateu o individuo e marcou o fim de uma era. O Brasil nunca soube controlar os tempos do jogo, viu-se prejudicado pela concentração massiva de jogadores no meio-campo e deixou as alas abertas às investidas de Cabrini e Tardelli. A derrota significou o fim do futebol-arte brasileiro (nunca mais repetido a esse nivel) e reforçou a ideia da europeização do jogo. No entanto, o 4-2-2-2 manteve-se como o santo graal. Quatro anos depois Santana repetiu o esquema e voltou a fracassar frente a uma equipa com um esquema táctico similar, a França, nos penaltys. Em 1990 Carpeggiani decidiu emular o billardismo argentino e fracassou ainda mais estrepitosamente levando o seu sucessor, Carlos Alberto Parreira a regressar ao 4-2-2-2. Com Jorginho e Branco nas alas, Dunga e Mauro Silva no miolo, Bebeto e Romário no ataque e atrás de si uma dupla móvel de criativos, Zinho e Mazinho. Uma equipa sem brilhantismo mas com a eficácia europeia que faltou aos génios de 82. O sucesso do Quadrilatero levou Zagallo, o homem que tinha liderado a geração de 70, a não mudar no esquema para 98, trocando Romário por Ronaldo e Zinho e Mazinho por Rivaldo e Leonardo. A equipa brasileira voltou a uma final mas saiu derrotada, por uma França que soube anular o 4-2-2-2 ocupando o meio-campo de forma mais organizada num 4-5-1 letal. Scolari voltou ao billardismo (e com sucesso porque, tal como o argentino, contou na frente com um jogador inspirado, Ronaldo) mas Parreira decidiu recuperar o Quadrilatera para o Mundial de 2006. Um erro absoluto porque emulou o ideário de 1982 (grandes jogadores, total liberdade, desorganização táctica) e não o de 1994. O falhanço levou os brasileiros a questionar a eficácia de um modelo que, para o bem e para o mal tinha moldado o futebol brasileiro mas quando Dunga decidiu repetir a dose em 2010, com Robinho e Fabiano diante de Kaká e Elano que por sua vez jogavam com Melo e Gilberto a proteger a medular, o Brasil entrou em desespero. O insucesso da campanha do escrete canarinho significou também o fim do Quadrilatero. Mano Menezes entendeu que não havia nenhuma possibilidade de alterar o ciclo vicioso sem abdicar de uma profunda mutação táctica. O técnico apostou num 4-2-3-1, recuperou o jogo de extremos com Robinho, Neymar ou Lucas e na figura solitária do ponta-de-lança, tão de voga na Europa. Mas nem isso lhe valeu, talvez por culpa mais dos rostos do que, propriamente, do sistema.

 

A metamorfose táctica do país que inventou o 4-2-4, explorou o 4-3-3 e consolidou o 4-2-2-2 continua agora numa normalização com o resto do planeta futebol em que o homem passa a ser apenas parte da engrenagem táctica. A falta de tempo e espaço no futebol de alta competição acabou com o espirito malandro dos grandes "malandros" brasileiros que durante anos fizeram a delicia do público. Hoje não há tempo nem paciência para fenómenos individuais se não existe antes e depois uma forte contundência colectiva. O Brasil, o mais individualista dos amantes do futebol, ainda não conseguiu verdadeiro unir método e homem num só esquema. Perdeu a magia de antes, a eficácia de antes e o ritmo cadente de titulos de antes. O que ainda não perdeu foi o sonho utópico de juntar a mestria dos génios individuais com as necessidades tácticas do futebol moderno. Talvez algum dia o escrete canarinho descubra o que todos já desistiram de procurar...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:16 | link do post | comentar

Sábado, 25.06.11

A preocupante situação financeira do Barcelona levou Sandro Rossell a adoptar uma postura que vai totalmente contra o ideário desportivo que a filosofia de Guardiola tem implementado, com um sucesso inquestionável, no futebol do clube. Apadrinhada por Johan Cruyff, sempre omnipresente em assuntos de estado, a ideia de abdicar de alguns dos maiores talentos da Masia para mergulhar no complexo mercado de transferências é um sério ponto de inflexão na filosofia do clube blaugrana e afasta o clube do ideário romântico que tanto sucesso tem tido junto do público mundial.

 

Bojan Krkic parece ser o primeiro. Mas seguramente não será o último.

O Barcelona, segundo Cruyff, deixou de ser "Més Que un Club" no momento em que aceitou "manchar" as camisolas blaugranas com publicidade. Depois do truque publicitário - e algo hipócrita - chamado UNICEF (que permitiu à UEFA dobrar, uma vez mais, as suas regras em prol do clube blaugrana ao permitir que o clube tenha duplo patrocinio na próxima Champions ao contrário do que está nos seus estatutos) chegaram os petrodólares da Qatar Foundation, a mesma organização que pagou o apoio de Guardiola à candidatura mundialista do país que organizará o Campeonato do Mundo de 2022. Mas o buraco financeiro deixado na era Luis Nuñez (e engordado com a gestão de Joan Laporta) é tal, que nem esse negócio das Arábias se revelou suficiente.

Juntamos a essa vicissitude as incursões pontuais do clube no mercado de transferências e o quadro complica-se.  Em quatro anos o Barcelona gastou mais de 280 milhões de euros em contratações, com alguns flops consideráveis como foi o caso de Chygrinski (30 milhões), Zlatan Ibrahimovic (40 milhões mais o passe de Samuel Etoo) ou um conjunto de jogadores que mal vestiu a camisola da equipa principal (Henrique, Keirrison, Cáceres e Hleb). Ao mesmo tempo o clube não conseguiu sacar proveito das suas vendas (Henry saiu de forma gratuita, Etoo foi oferecido, Ronaldinho idem, Ibrahimovic chegou emprestado ao Milan que tem agora de pagar 24 milhões pelo seu passe, metade do que custou, ...) e agrandou ainda mais o buraco financeiro. A aposta pessoal de Guardiola na cantera que conhecia como ninguém resultou ser um brilhante negócio para a presidência do clube. A prata da casa não só permitia ao técnico manter a competitividade e filosofia do seu projecto como garantia, ao mesmo tempo, uma imensa poupança em gastos que a médio prazo poderiam salvar as arcas do clube. Mais do que uma filosofia desportiva, apostar na Masia foi sobretudo uma brilhante jogada de gestão. Guardiola evitava ter, como tem o Real Madrid, jogadores de primeiro nivel internacional com salários principescos sentados no banco, e o clube baixava o que gastava em salários e comissões e rentabilizava as suas instalações desportivas de formação como nunca tinha logrado no passado. Mas depois de três anos de máximo sucesso desportivo e algum reequilibrio económico, Sandro Rossell quer inverter a tendência. A Masia, mais do que funcionar como apoio à primeira equipa, ameaça em transformar-se num apoio para a conta bancária do clube.

 

Cruyff deu o tiro de saída num dos seus artigos semanais no El Periodico de Catalunya.

O holandês, que está a caminho do Ajax para reorganizar o futebol base do seu clube de origem, lançou o desafio à directiva e equipa técnica. Afinal o clube conta com mais de uma dezena de jovens "canteranos" com mercado e projecção de futuro e outra dezena com uma projecção menor mas que, com o rotulo de escola Barcelona, vale mais no mercado que muitos jogadores mais bem preparados. A notável temporada do Barcelona B, terceira na Liga Adelante, deu a conhecer ao mundo o génio de Thiago, Sergi Robert, Jonathan dos Santos, Rafa, Oriol, Jonathan Soriano e companhia. Esses nomes juntavam-se aos já habituais da primeira equipa, Bojan, Jeffren e às promessas Botia, Muniesa e Miño. Um onze titular praticamente com um potencial de primeiro nível assinalável.

A maioria treinou com a equipa principal durante o ano e muitos estrearam-se mesmo ao serviço de Pep Guardiola que sabe quais são as pérolas de maior projecção da sua cantera. Mas hoje em dia os próprios jogadores da Masia olham para si com outros olhos. Inspirados pelo sucesso do clube e, sobretudo, pelo impacto de Busquets e Pedro, todos querem a sua oportunidade junto a Messi e companhia. Mas nem todos a terão. Continuar na equipa B é um desafio cada vez menos estimulante para alguns e sair um risco, para eles e para o clube. Não segundo Cruyff.

O homem que criticou o Real Madrid por vender os seus melhores canteranos com direito a opção de recompra agora aconselha precisamente isso mesmo ao clube, para equilibrar as contas e investir no mercado de transferência. Negociar o futuro de Bojan, Jeffren, Thiago, Soriano, Muniesa e companhia parecia uma utopia há uns meses. Agora começa a soar como uma inevitabilidade.

No meio desta jogada aparece a figura de Sandro Rossell. O ex-directivo da Nike, responsável pela chegada do primeiro batalhão de brasileiros durante o mandato inaugural de Laporta, quer deixar a sua influência no projecto do clube. O seu medo de que Guardiola deixe o banco do Camp Nou no final deste ano estimula-o ainda mais a tomar controlo da situação. O caso Fabregas representa o primeiro confronto directo entre direcção e técnico. Guardiola quer o capitão do Arsenal, sente-o como um dos seus e quer repetir o processo de Piqué. Mas Rossel não está disposto a pagar o que o Arsenal pede (algo que a Nike, sua antiga empresa, não veria com bons olhos porque precisa do espanhol para aumentar as suas vendas com o merchandising dos gunners) e prefere gastar o mesmo dinheiro em jovens promessas sul-americanas. Alexis Sanchez e Neymar são sonhos seus, não de Guardiola, que preferia Fabregas e Rossi (por quem o clube ofereceu uns miseros 25 milhões, mais Bojan). 

Guardiola não quer perder o seu backup, a sua cantera, mas começa a ser dificil manter a jogadores como Jeffren e Bojan contentes com o facto de serem os eternos suplentes de Messi e Villa. O próprio Thiago, talvez a maior promessa do clube em muito tempo, sabe que se chega Cesc, como quer o treinador e o plantel, o seu espaço de manobra desaparece. E o técnico de Santpedor entende a situação financeira do clube. Por isso avalou a saída de Bojan para a AS Roma, onde está o seu anterior adjunto Luis Enrique, e ao jovem dianteiro podem brevemente seguir-se muitos mais. O jovem avançado que explodiu no último ano de Rijkaard pagou o preço do seu nervosismo e da mutação táctica de Leo Messi, um génio que nunca falha e raramente perde um jogo. Depois de três anos onde actuou muito pouco, Bojan precisa de jogos para demonstrar que o mais concretizador avançado da história da Masia pode repetir o feito junto dos mais velhos. A sua venda, por 10 milhões, é o principio do fim do romantismo ideológico de Guardiola. Utilizar a sua cantera como meio de reforçar as contas do clube - como fez o R. Madrid com Negredo, Albiol, Arbeloa, Granero, Soldado, de la Red, Mata, Parejo e companhia - significa que os back-ups da primeira equipa passarão a ser jogadores de fora, sem a cultura de base da escola que tanto tem encantado o mundo.

Com uma primeira equipa de sonho é fácil perceber que - salvo a posição de defesa-esquerdo - há pouco onde se possa melhorar o actual Pep Team. Qualquer entrada será, como a de Affellay ou Keita, para servir como apoio. Enquadrar nomes consagrados como Rossi ou Cesc ou promessas do nivel de Sanchez, Neymar ou Pastore nessa politica pode dar mais do que uma séria dor de cabeça a Pep Guardiola. Ao mesmo tempo, vender o melhor que a cantera de Barcelona tem para oferecer diminuiu o prestigio moral do clube ao mesmo tempo que também permite que o ideário blaugrana encontre refúgio noutros projectos que pretendem emular a filosofia do clube da cidade Condal. A Masia tem, desde já, ordem para voar. É uma decisão que financeiramente pode funcionar a curto prazo mas que num futuro pode multiplicar os casos como o de Cesc Fabregas e acabar por ser um erro de planeamento a médio e longo prazo. Com esta jogada, Rossell demonstra também que o presidencialismo também já chegou ao Camp Nou.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Terça-feira, 21.06.11

Champions League e Europe League, essas são fáceis. Também já devem ter ouvido falar da Supertaça Europeia e dos torneios de selecções, desde o Europeu para graúdos até às provas dos mais pequenos. Mas a UEFA tem uma competição europeia de que poucos ouviram falar. E que vai disputar-se em solo português a partir de hoje no Minho. A Taça Europeia das Regiões permite imaginar o futebol como outrora foi num ano de festa para o futebol minhoto.

Em 1996 a UEFA decidiu criar o primeiro Campeonato da Europa de Futebol Amador.

Desde os anos 70 que não existia um torneio oficial europeu que colocasse frente a frente equipas amadoras. O crescente profissionalismo rasgou por completo o ideário original do jogo e na década de 70 não subsistia na Europa uma liga exclusivamente dedicada a equipas amadoras. O torneio perdeu interesse e assim foi durante os vinte anos seguintes. No entanto, depois do Euro 96, a UEFA foi confrontada com a petição de várias organizações amadoras para potenciar um evento continental que devolvesse um pouco do protagonismo às equipas fora do espectro profissional. O torneio demorou três anos a acontecer. A grande dificuldade que a UEFA encontrou foi o formato a aplicar.

Inicialmente um torneio de clubes amadores, a ideia rapidamente perdeu força porque existia um crescente desequilíbrio entre os inscritos, maioritariamente representantes britânicos. Foi então que alguns dos directivos de Lennardt Johanssen propuseram a criação de um torneio de selecções nacionais, representadas por conjuntos regionais. A ideia foi bem aceite pelas federações nacionais e finalmente em 1999 o torneio teve lugar em Itália. Para representar os transalpinos a Federação Italiana criou um torneio de duas semanas. Saiu vencedora a região de Venetto que organizou e venceu o torneio frente aos espanhóis da Comunidade de Madrid. O sucesso da prova - com mais de 32 inscritos - garantiu que dois anos depois os melhores amadores da Europa se voltassem a encontrar, desta feita em terras checas Por essa altura a UEFA tinha alterado o critério de inscrição. Cada associação apresentava o conjunto que representava a região que tinha ganho o torneio nacional doméstico de futebol amador. No caso de não existir um torneio oficial como tal, era obrigatória uma ronda preliminar, supervisada pela Federação nacional, para dictar o representante oficial na prova. O torneio de 2001 disputou-se na Morávia e uma vez mais a equipa da casa triunfou, desta feita sob o conjunto representante do futebol amador português, a equipa de Braga.

 

Dez anos depois a cidade dos Arcebispos volta a fazer história no historial do torneio amador.

O jogo inaugural da edição 2011 arranca no Estádio 1º de Maio, antigo recinto do Sporting de Braga e hoje utilizado essencialmente por formações amadoras. Mas os jogos serão igualmente disputados noutras cidades minhotas. O Grupo A, que conta, para lá do conjunto bracarense, com os checos de Zlin, os alemães de Wurttemberg e os ucranianos da zona de Yednist, joga igualmente em Barcelos, Vila Verde e Fão. Os portugueses são favoritos para passar, como é habitual entre as equipas da casa, e seguir para a fase seguinte, a antecipada final. Do outro lado da poule de apuramento, o Grupo B inclui uma selecção do sul da Rússia, uma equipa dos arredores de Belgrado, um conjunto exclusivo da capital turca Ancara e um representante da região de Munster na Irlanda.

Se os bracarenses conseguiram o apuramento automático quando a UEFA anunciou, em 2009 o organizador da 7º edição do torneio, as restantes sete equipas tiveram de ultrapassar uma dupla fase de apuramento, resultado da crescente popularidade do torneio no Velho Continente.

Portugal foi inicialmente representado pelo Algarve, em 1999, uma equipa que não passou a fase preliminar, resultado que repetiu em 2003. Depois do brilharete do conjunto colectivo de Braga em 2001 o melhor resultado de um conjunto português foi conseguido pela equipa de Aveiro, terceira no Europeu de 2007. Para trás ficaram as eliminações precoces dos conjuntos de Portalegre e Braga em 2005 e 2009. É a terceira fase final para um conjunto luso e também o regresso do torneio ao sul da Europa desde a edição inaugural.

Desconhecido para o grande público, os organizadores do evento esperam atrair mais público do esperado com o apelo dos sucessos do Sporting de Braga nas últimas épocas para apoiar a equipa local. O conjunto orientado pelo ex-internacional Dito não utilizará o símbolo da FPF, afinal este torneio nacional está disfarçado como um torneio regional, mas certamente que tentará lograr um feito histórico para o futebol português, mesmo que seja ao nível do futebol amador. Afinal a magia do futebol amador tem o seu encanto. Que o diga Tony, que marcou presença na final de 2001 do torneio ao serviço da equipa de Braga para mais tarde ser repescado profissionalmente pelo Desportivo de Chaves. Em 2008, sete anos depois de se ter afirmado como um dos melhores futebolistas amadores europeus, cumpriu o sonho da sua carreira e disputou pela primeira vez a Champions League, ao serviço do Cluj. Foi o fechar de um ciclo perfeito, um ciclo que muitos dos atletas presentes neste torneio sabem que é muito complicado de repetir. Mas às vezes basta deixar cair o muito da frase, para ela ganhar outro sentido. E outra esperança!

 

Até aos anos 50 o futebol amador era, ainda, o motor do futebol europeu. À medida que o profissionalismo se tornou inevitável a atenção e curiosidade à volta dos amadores foi-se esmorecendo a ponto de que muitos nem sequer imaginam que exista uma competição internacional destas características. Certamente que em campo não se verá nenhuma cena que relembre o glamour dos grandes torneios da UEFA, nem os gestos técnicos de Messi, nem os ajustes tácticos de Mourinho. Mas a ilusão e diversão que o futebol amador consegue reproduzir permite-nos embarcar numa cápsula do tempo e contemplar o jogo, tal como era, quando tudo começou.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:08 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 20.06.11

Em 1983 o presidente Rafael Cabrera marcou uma reunião com os máximos dirigentes da Federação Argentina. Liderava um séquito dos principais clubes da liga local e estava preparado a boicotar o torneio nacional se a AFA não aceitasse a sua temerária proposta. Depois de uma dura ronda de negociações o dirigente do River Plate conseguiu o que queria. 38 anos os Milionários de Buenos Aires reencontram-se com o destino que iludiram há 38 anos. Só um milagre pode permitir ao River Plate fintar uma despromoção pendente há quatro décadas.

 

A derrota frente ao modesto Lanús confirmou as piores expectativas no Monumental. O River terá de lutar até ao fim para não cair no poço da 2º Divisão do futebol argentino. Um feito impensável se tivermos em conta que não há campeonato do mundo onde os grandes estejam tão protegidos como o argentino. Por culpa do River Plate e agora, apesar deles.

A equipa de Buenos Aires liderou em 1981 uma rebelião contra o sistema instaurado nos anos 30 pela AFA, a federação argentina. A queda de outro histórico, o San Lorenzo de Almagro, na 2º Divisão, levou a que os directivos dos principais clubes (que incluíam o Boca Juniores, Estudiantes, Independiente, San Lorenzo, River e Racing Avellaneda) instigassem a federação a protege-los contra os mais pequenos. A perda de categoria do San Lorenzo significava um rombo nas contas do clube e era um sério aviso aos restantes grandes do futebol albiceleste. Depois de dois anos de duras negociações a federação capitulou. Foi instaurado um sistema de pontuação altamente complexo que protegia as costas dos grandes locais perante qualquer deslize pontual. As equipas seriam despromovidas não pelo resultado de um ano mas sim pela média das pontuações acumuladas nas três temporadas anteriores. Além do mais, para reforçar ainda mais esse conceito de liga fechada, só os dois últimos seriam despromovidos. Os penúltimos e antepenúltimos classificados podiam ainda jogar um play-off contra o 3º e 4º classificados da 2º Divisão. É nessa situação que se encontra o conjunto buenarense.

A negociação de Cabrera revelou-se fundamental para o clube. Precisamente em 1983, o ano em que o novo sistema foi inaugurado, a equipa terminou no 18º e antepenúltimo posto da tabela. Mas livrou-se de disputar o play-off porque, evidentemente, a sua classificação média das três épocas anteriores (onde contava com dois títulos conquistados com Alfredo Di Stefano no banco de suplentes) garantia a sua sobrevivência. O modelo revelou-se um sucesso para os clubes grandes de tal forma que nas décadas seguintes nenhum deles perdeu a categoria. Havia sempre um ano pretérito com a pontuação necessária para evitar males maiores. Até agora.

 

O descalabro desportivo do River Plate não é recente.

O clube começou a cair do trono a meados da década com a sucessiva venda dos seus melhores activos para o futebol europeu de forma a paliar a imensa divida acumulada nos anos de bonança. Depois da vitória no Torneo de Clausura de 2008 , com Diego Simeone no banco e o jovem Diego Buonanotte como estrela mais reluzente, o clube entrou numa espiral negativa que o levou à dramática situação com que se depara. Em 2009 a equipa somou apenas 14 pontos e terminou o ano no final da tabela depois de uma série de dez derrotas consecutivas. Mas salvou-se. Já sabemos porquê. Aliás, no topo da tabela classificativa por médias, o River ainda era líder, apesar do annus horribilis. Não seria assim por muito tempo. Um ano depois os fracos resultados repetiram-se. O clube, sob a gestão desportiva de Nestor Gorosito e com os veteranos Almeyda e Gallardo no onze titular, terminou o ano no 14º posto com apenas 25 pontos. Daniel Passarella, antiga glória nos anos 70 e 80, chegou à presidência e com ele trouxe dois velhos nomes, Leonardo Astrada e Angel Cappa. Apesar do arranque promissor - e do reforço do plantel - a equipa voltou a desiludir e a tropeçar na tabela.

Em 2010/11 a classificação final do Torneo de Clausura não foi tão má como se imaginaria. O clube, com as promessas Erik Lamella e Funes Mori em destaque, logrou terminar o ano no 9º posto. Mas a soma dos resultados dos anos anteriores atiraram com os Milionários para o 17º posto da tabela classificativa colectiva. E para o duelo desesperado contra o Belgrano. A duas mãos o River terá de evitar o destino. Juntamente com o Boca Juniores, Independiente e Arsenal de Sarandi é uma das poucas equipas que não sabe o que é jogar na 2º Divisão argentina. Conta com o maior estádio do país, o mais espectacular dos historiais mas também uma das dividas mais assustadores. O duelo contra o modesto Belgrano é apenas o primeiro passo que o clube de Buenos Aires tem de dar rumo a melhores dias. A partir da próxima época a posição do clube na tabela classificativa geral baixa ainda mais. O River começaria o próximo ano já despromovido e teria de lutar contra o inevitável. O espectro da descida.

Para muitos a situação actual do River Plate é apenas o espelho da desorganização institucional em que vive o futebol argentino. Num complexo sistema criado para proteger os grandes, o futebol argentino mergulhou numa letargia tremenda que se transformou, de certa forma, num peso difícil de suportar. Os clubes grandes hoje em dia lutam para não perder a sua supremacia moral mas são muitas vezes os pequenos projectos que levam para casa os títulos e as participações nas provas continentais. A liga argentina tem vindo a perder peso na própria América do Sul e os dirigentes têm consciência dessa crua realidade. Reformular o campeonato num país que prima pela desorganização institucional é um desafio que Julio Grondona, actual presidente da AFA, não está disposto a realizar. A longo prazo essa decisão pode significar o estrangulamento de um dos campeonatos que ensinou ao mundo a jogar futebol.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:52 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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