Quarta-feira, 03.10.12

O futebol é uma questão de atitude. A forma como cada equipa encara um desafio condiciona, e muito, o resultado que acabará por obter. Uma abordagem mais cínica pode trazer mais sucesso a curto prazo e ter consequências mais à frente. Uma abordagem positiva e ofensiva não só ganha adeptos como rompe a estatística. E jogar para não perder acaba por ser, quase sempre, o desvio mais rápido para a derrota. FC Porto, SL Benfica e Sporting de Braga apresentaram três atitudes bem diferentes nesta ronda de Champions e cada uma delas espelha o seu estado de ânimo. E talvez o seu futuro na competição.

 

Jorge Jesus sabia que defrontava aquela que é, talvez, a melhor equipa do Mundo. 

Agiu de acordo com a situação. Confessou-se incapaz de jogar de tu a tu, esqueceu o efeito causa, a clara baixa de forma do jogo clássico e sedutor azulgrana e organizou um esquema onde não existia espaço para a criação. Anular primeiro, atacar depois. Uma filosofia que não rompe apenas com a sua própria mentalidade mas também com as fortalezas do seu plantel. Sem Luisão, sem Witsel e sem Javi Garcia, o sector mais débil do Benfica actual é, sem margem de dúvidas, o defensivo. A presença do capitão no eixo central da defesa é determinante para calmar as hostes e Witsel e Garcia eram os únicos que sabiam impor ordem e respeito no miolo. 

Nem Matic, nem Jardel, nem Enzo Perez são jogadores com as mesmas características, peso e influência no jogo encarnada para oferecer a melhor versão defensiva da equipa lisboeta. E no entanto Jesus, sabendo que as únicas armas que tinha para fazer sofrer o Barcelona estavam no ataque, preferiu defender. E como a equipa defendeu mal, sobretudo pelas alas, onde Maxi Pereira e Melgarejo foram inconsequentes, a derrota tornou-se inevitável e só não foi mais expressiva porque Artur merece uma chamada à selecção do Brasil e este Barça está, ainda longe, da pior versão de Pep Guardiola, apesar dos números dizerem o oposto.

Sem alinhar a Lima, Rodrigo, Aimar e Carlos Martins para aproveitar uma linha defensiva extremamente débil, onde Alves e Alba têm tendência a deixar espaços e em que Mascherano é um elo demasiado fraco para uma equipa deste calibre, o técnico encarnado assumiu esse complexo de inferioridade, essa atitude derrotista que fez da derrota algo profundamente lógico, muito para além da diferença real entre ambos os clubes. Em 2006 o Barcelona também era a melhor equipa do Mundo e no entanto na Luz foi incapaz de vencer em parte porque a atitude também foi diferente.

 

As vitórias de FC Porto e SC Braga explicam, de certa forma, que há maneiras e maneiras de vencer.

Os bracarenses vivem acima das suas possibilidade, no bom sentido do termo. Sabem que não são um clube com orçamento e prestigio Champions e no entanto sempre que estiveram em prova deram muito boa conta de si. Conheçam as suas limitações, conhecem as suas prioridades e jogam a curto-prazo. Para os pontos, para o lucro financeiro, para ver no que dá esta aventura. Por isso a abordagem dos homens de Peseiro, particularmente depois da dolorosa derrota com o Cluj, tinha de ser mais cínica do que entusiástica. Foi um esquema conservador, sabedor que iria sofrer o inferno turco na sua mais pura essência, e no entanto foi suficiente para conseguir uma vitória histórica e fundamental para garantir que a corrida para manter-se nas provas europeias, seja a Europe League seja a Champions, se mantém de pé. Peseiro tem o plantel mais português do futebol nacional, continua a beneficiar da brilhante rede de prospecção e directiva dos "guerreiros do Minho" e só a ausência de um homem golo como Lima pode mudar uma ideia que está a ser trabalhada desde o arranque da temporada. Um ano fundamental na história do clube que necessita jogos como este. Jogos que não ganham adeptos mas que produzem essa dose de experiência cínica que tanta falta faz para crescer.

Vitor Pereira, por outro lado, foi o oposto de Jorge Jesus.

Tão criticado, o técnico espinhense sabia que defrontava uma das equipas que mais dinheiro gastou nos últimos dois anos no futebol europeu. O plantel do PSG está ao nível dos melhores da Europa e Ancelotti é um dos poucos técnicos que venceu a prova por duas vezes e que sabe mover-se nestes terrenos pantanosos. Talvez por isso poderiam muitos esperar um FC Porto conservador, expectante e temeroso de um rival, liderado pelo omnipresente Zlatan Ibrahimovic. Mas a realidade desmintiu a teoria completamente.

Foi talvez o melhor jogo da era Pereira, um jogo onde os dragões foram autoritários do minuto 1 ao minuto 90, asfixiando a criação de jogo dos parisinos, realizando um exercício de pressão alta intenso que transformou os favoritos numa equipa incapaz de sair do seu meio-campo com a bola controlado. O brilhante golo de James Rodriguez surgiu no fim mas há muito que os campeões nacionais mereciam a vantagem, sobretudo porque tanto Varela como Jackson fizeram jogos à altura das expectativas dos adeptos e o meio-campo aguentou o ritmo durante todo o encontro. Um triunfo que saiu directamente do optimismo com que o técnico encarou o jogo, sem medos, e que encurtou o percurso para uma vitória que deixa escancarado o apuramento. Os dois jogos com o Dynamo Kiev, rival directo, serão fundamentais. Seis pontos serão suficientes para dar descanso para as últimas duas rondas. Com a mesma atitude, sem os receios demonstrados pelo Benfica nos dois primeiros jogos e sem necessidade de ser tão cínico e pragmático como o Braga, o FC Porto apresenta a versão que muitos não esperavam ver com a saída do seu lider espiritual das últimas épocas.

 

Se a nível interno os três representantes portugueses continuam a viver com os altos e baixos de uma liga nivelada por baixo mas que revela sempre um par de surpresas, na Europa mede-se o real valor dos projectos desportivos. Da mesma forma que a eliminação precoce do FC Porto de Vitor Pereira deitará sempre uma sombra sobre o seu título, este ano a atitude positiva na Europa dá outro ar à sua controversa gestão. O Braga continua a mostrar à Europa que Portugal há muito que não é a terra dos "três grandes" e o Benfica sofre, como sempre, dos humores de um técnico que parece enganar-se sempre nos momentos mais importantes da sua carreira. Questão de atitude!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 22:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 04.09.12

A realidade de um país em crise - em todos os sentidos - é perceptível na realidade do seu futebol. No caso português não é só a hemorragia de jogadores de qualidade mas, sobretudo, a necessidade dos clubes de vender para tapar os muitos buracos que aparecem nas suas contas. Todos os candidatos ao titulo desprenderam-se de jogadores fundamentais nas suas equipas da época passada. O campeonato nivela-se, uma vez mais, por baixo.

 

O ranking da UEFA diz que a Liga Sagres é a 5º mais bem classificada do continente europeu. 

Mas as finanças dos clubes e a qualidade dos seus plantéis talvez não estejam de acordo. Os clubes portugueses vivem com a corda na garganta. Os grandes porque os orçamentos astronómicos para a realidade portuguesa começam a pagar factura. Há passivos superiores a 400 milhões de euros (caso do SL Benfica) ou de 200 milhões, como acontece com o FC Porto. Empréstimos obrigacionistas que pagar com juros altíssimos, fundos a quem se devem favores e dinheiro e no caso do Sporting, a situação é tão delicada que os próprios dirigentes sabem que caminham bem ao lado de um perigoso precipício. Mesmo o Braga, um caso de sucesso em gestão financeira, não pode resistir a vender quando o dinheiro aparece porque há sempre contas que pagar.

Do top 4 para baixo a realidade é ainda mais asfixiante, negra e sem perspectivas de melhorar no futuro. Um clube histórico e com uma das maiores massas associativas do país como o Vitória de Guimarães está perto da falência. Na Madeira os clubes sobrevivem porque Alberto João Jardim deu volta atrás numa ideia inicial de retirar parte dos fundos do governo regional aos principais clubes da ilha. E de Olhão a Paços de Ferreira, de Aveiro a Coimbra, os tostões contam-se um por um. 

Essa falta crónica de crédito afecta os clubes como a sociedade portuguesa e os problemas de salários em atraso nos grandes, antes uma utopia, tornaram-se reais. Por isso vender, baixar a massa salarial, tornou-se na úncia solução. 

Os valores de algumas transferências roçam o ridiculo mas, neste caso, o ridiculo tornou-se na corda de salvação de alguns clubes. Axel Witsel, contratado há um ano ao Standard Liege, rumou para San Peterburg por 40 milhões, o mesmo valor que o Real Madrid pagou por Luka Modric e mais do que o Chelsea pagou por Eden Hazard, a grande estrela do futebol belga. Hulk saiu do FC Porto por igual valor liquido (depois de pagos os gastos de gestão pelo clube russo, num total de 60 milhões) depois de ter sido comprado em várias etapas por um valor total de 19 milhões. Um valor a que clubes como o Chelsea, PSG e Manchester City não conseguiram chegar. O valor dos rublos num país que quer apostar forte no futebol para a próxima década (e a contratação de Fabio Capello é bom exemplo) salvou, pelo momento, a saúde financeira de FC Porto e Benfica (que ainda contou com a venda de Javi Garcia ao Manchester City) enquanto que o Sporting teve de despreender-se de jogadores com salário elevado, perdendo o influente Matias Fernandez para a liga italiana por valores bem mais modestos. Enquanto a Europa se maneja numa realidade, os mercados emergentes jogam noutra divisão. Para os clubes portugueses é a única opção de sobrevivência.

 

Desportivamente a liga portuguesa baixou uns bons degraus.

Num ano histórico, com as três equipas presentes na fase de grupos da Champions League, o futebol português devia estar de parabéns. Ainda para mais, todas as equipas foram colocadas em grupos acessíveis, com o apuramento para os Oitavos de Final longe de ser uma utopia. Mas isso foi antes de Lima deixar Braga sem um ponta-de-lança, de Jorge Jesus ter perdido o seu meio-campo (não que o Benfica seja uma equipa que perca muito tempo no miolo) e o FC Porto dizer adeus ao seu simbolo dos últimos anos. Agora a realidade vai ser bem mais dolorosa e talvez dragões, águias e arsenalistas tenham de contentar-se com uma luta mais desigual com rivais que não só não perderam jogadores referência como se reforçaram bem como PSG, Dynamo Kiev, Spartak Moscow, Celtic e Galatasaray.

Na Liga Sagres todas as equipas que aspiram ao titulo perderam cartas de luxo. Não só isso piora claramente a qualidade da competição como abre ainda mais a disputa pelo troféu que mora nas vitrinas azuis e brancas pelo segundo ano consecutivo. O Benfica, que apostou forte em recuperar o titulo mantendo Jesus ao leme, preferiu apostar num over-booking de extremos e dianteiros e esqueceu-se de reforçar o eixo medular e defensivo. Se Luisão for suspenso por meio ano, como a sua acção exige, Jesus terá sérios problemas para resolver, sobretudo nos jogos com rivais directos onde a segurança defensiva encarnada vai ser realmente testada.

O Braga já sofreu em Paços o choque de realidade de perder um homem que nos últimos anos era uma garantia de duas dezenas de golo por época. Sem uma referência ofensiva, Peseiro terá de apostar na solidez do bloco bracarense e aproveitar-se dos erros dos rivais para manter as distâncias curtas. O Sporting, que arrancou com o pé esquerdo na temporada, continua a ter de apostar na juventude para resolver os seus problemas financeiros e desequilíbrios no plantel, e Sá Pinto corre contra o relógio para não perder o fundamenta comboio da Liga dos Campeões do próximo ano.

Por fim o FC Porto parte como favorito e apesar de ter perdido Hulk mantém o estatuto. Se o brasileiro era fundamental, sobretudo nos duelos fora de casa em campos de equipas bem organizadas defensivamente, a verdade é que Vitor Pereira tem o plantel mais equilibrado dos quatro candidatos ao título. Uma defesa sólida com Danilo e Alex Sandro definitivamente confirmados como titulares e um meio-campo onde a permanência de Moutinho é a melhor das noticias. Entre James, Varela, Atsu e Jackson a equipa terá de encontrar os golos que dava e marcava o "Incrivel". Esse é o grande desafio do contestado técnico portista.

 

Como o fosso entre os quatro primeiros e as restantes equipas continua tremendo, apesar das baixas nos planteis dos candidatos ao titulo, ninguém espera uma temporada de grandes surpresas. O título começa a ser discutido a quatro mas é previsível que antes de Dezembro um candidato tenha caído da perseguição e no final seja um mano a mano entre FC Porto e SL Benfica a decidir o troféu. Sem as grandes figuras do ano passado, este pode ser uma temporada onde, mais do que nunca, o papel de gestores humanos e analistas tácticos, dos quatro treinadores se revele ainda mais fundamental no jogo do titulo.



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Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Segunda-feira, 26.03.12

O futebol português continua a trepar postos nos rankings UEFA e FIFA, a ter jogadores e treinadores coroados entre os melhores do Mundo. E, no entanto, quando a bola começa a rolar no tapete verde do rectângulo mais ocidental do velho Continente o futebol peca, demasiadas vezes, pela sua triste ausência. Numa das épocas mais pobres e desesperantes das últimas décadas repete-se um cenário demasiado frequente, demasiado desalentador. Esta Liga, assim parece, ninguém a quer ganhar.

Hoje o Sporting de Braga pode colocar-se como líder isolado da Liga Sagres.

A seis jogos do final da época, 18 pontos e um duelo de 90 minutos contra a Académica separam os bracarenses do topo do pelotão. Provavelmente os arsenalistas falharão. Não porque não mereça, não porque não sejam talvez a equipa que mais méritos recolhe para sagrar-se campeã nacional 2011-12. Simplesmente porque, ao longo deste ano, sempre que uma equipa parece ter na mão ganhar a liga, tropeça.

Essa vertigem á tabela classificativa é aflictiva mas não é nova. Em 2004-05 FC Porto, Sporting e Benfica foram tropeçando entre si até que a sagacidade de Giovani Trapatonni valeu mais que o descalabro emocional de José Peseiro e a natural incompetência de José Couceiro para quebrar com uma fome de dez anos do Benfica. Dois anos depois o cenário voltou a ser similar mas desta vez foi Jesualdo Ferreira a superar a Fernando Santos e Paulo Bento nesse desesperante sprint final. Emoção, seguramente. Qualidade, muito pouca.

O nível exibicional médio das 16 equipas da Liga Sagres, diga o que disser o ranking UEFA que apenas contabiliza o que fazem os quatro europeus habituais nos palcos internacionais, é pobre. Os portugueses exportam os melhores jogadores e técnicos que têm e em troca ficam com jogadores de terceira e quarta linha internacionais, fazem de jogadores de nível médio alto estrelas que nunca o serão e adormecem o mais tenaz dos espectadores com duelos onde os golos, a emoção e o futebol ofensivo primam, habitualmente, pela sua ausência. Os problemas financeiros que destruíram a classe média do futebol nacional e abriram ainda mais o fosso entre os grandes e os pequenos não ajuda seguramente a reequilibrar o cenário. E no entanto nunca como este ano os pequenos roubaram tantos pontos aos chamados grandes onde dá pena incluir um Sporting que, mais uma vez, continua a ser o terceiro clube nacional apenas em adeptos e nada mais. Com uma divida descomunal, um plantel desorganizado, um staff técnico que vai e vem ao sabor do vento e uma directiva incapaz de se fazer respeitar, os leões são o caso mais freudiano que o futebol português já gerou e merecem, como tal, diagnóstico á parte.

 

Nivelada por baixo como nunca a Liga Sagres pode cair nos braços de qualquer um do trio da frente e seguramente que a sensação de mérito e orgulho seja bem diferente a outras conquistas (no caso de Porto e Benfica) do passado. Os campeões nacionais cometeram o logro de destroçar em poucos meses um conjunto que muitos analistas colocavam na segunda linha do futebol europeu, apenas por detrás de United, Real Madrid e Barcelona. Á parte das péssimas performances europeias, o FC Porto de Vitor Pereira não é só o tigre mais domesticado e inofensivo que já passou pelo Dragão, ás vezes quando joga fora transforma-se mesmo num gatinho recém-nascido, presa fácil até de roedores e outros répteis que povoam a parte baixa da tabela. O empate em Paços de Ferreira impediu os dragões de dar um murro na mesa, algo que o clube do Dragão foi incapaz de fazer durante todo o ano. Nem depois de vencer na Luz, nem depois do enésimo tropeção pré-jogo europeu do Benfica em Olhão e, imagina-se, nem nos jogos que faltam. Apesar de liderar se há equipa nesta disputa que mais carece de espírito de liderança esse é, sem dúvida, este FC Porto.

E no entanto, no meio de tudo isto, e com 24 jogos compridos - salvo o duelo de Braga - o campeão é líder. Situação suficiente para embranquecer os cabelos á maioria dos adeptos encarnados, á moda de Jorge Jesus, provavelmente o maior perdedor do ano. Jesus até pode conseguir o seu segundo titulo nacional, sem dúvida, mas depois de o ter á mão de semear, desperdiçar uma vantagem incrível e correr o risco de dormir hoje no terceiro posto é suficiente para que os críticos adeptos do técnico tenham mais argumentos relativos á sua profunda desorganização táctica e incapacidade de gerir os esforços físicos de um plantel onde muitos jogam muito e alguns jogam muito pouco. Com talvez o plantel mais equilibrado dos três em disputa, Jesus tentou equilibrar o meio-campo com a inclusão de Witsel e Bruno César no apoio a Cardozo mas perdeu o efeito surpresa e, sobretudo, a eficácia de outras épocas. Em campo esta é a sua versão mais débil, a mais mentalmente instável e, portanto, a menos apta para sofrer até ao último minuto da liga como os sucessivos empates e derrotas conseguidos este ano têm demonstrado.

Se na Luz ninguém parece estar determinado a ganhar a Liga, pelo menos há uma óptima campanha europeia para justificar a falta de oxigénio e sagacidade mental. Em Braga a Europa este ano não foi empolgante como na época passada mas teve o mérito de permitir a Leonardo Jardim manter a cabeça e os pés bem assentes no chão. O Braga fez um campeonato de trás para a frente, durante algumas jornadas andou atrás do Sporting e depois arrancou num sprint silencioso que seria ineficaz se FC Porto e Benfica fossem tão autoritários como o dinheiro gasto e a qualidade dos dois planteis justificava. Com os tropeções pontuais e as crises mentais dos dois grandes o Braga encontrou preciosos aliados para desafiar a história. Pode acabar campeão ou juiz do campeonato, mas como o Boavista do virar de século, já não pode passar desapercebido. São muitos anos a manter a bitola alta e tarde ou cedo António Salvador pode suspeitar que o percurso similar ao dos axadrezados pode ser emulado. Até porque o nivel dos chamados grandes continua, ano após ano, a baixar assustadoramente.

 

Em Maio o titulo será atribuido ao melhor dos piores e disso poucos duvidam. A distância do primeiro ao quinto (FC Porto a Maritimo) é igual á do sexto (Vitória) com o 14º (Beira-Mar) e isso explica também o imenso buraco pontual, moral, financeiro e desportivo que ano após ano afunda o nivel qualitativo do futebol português. Com uma diferença pontual tão clara surpreende que situações como a de este fim-de-semana se repitam vezes sem fim esta temporada. FC Porto e Benfica venceram apenas 17 vezes numa liga onde só quatro equipas têm um goal-average positivo. Vitor Pereira e Jorge Jesus transformaram-se mais em dores de cabeça do que bálsamos para os seus adeptos e Leonardo Jardim acredita na lei do silencio para evitar construir o seu próprio cadafalso. No final deste sprint onde haverá ainda demasiados tropeções o freudiano Sporting pode ter a chave para medir a resistência futebolistica e moral dos candidatos que teimam em não querer ganhar este campeonato.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:15 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Quarta-feira, 02.11.11

A derrota do FC Porto em Nicósia abre ainda mais uma ferida que não deixou de sangrar desde que André Villas-Boas decidiu que a sua cadeira de sonho afinal era um assento incómodo. Desde esse segundo - e a posterior decisão em 24 horas - até à debacle futebolística em Chipre a transformação do FC Porto tem sido uma profunda e deprimente constante. Ao contrário do que se possa pensar, o problema não está em perder diante de um APOEL que traduz tudo aquilo que de bom tem a segunda divisão do futebol europeu. O drama está no sentido do ridículo de uma equipa que se ausentou do mundo do futebol e não parece ter muita pressa em voltar.

Quando o FC Porto venceu em Dublin a mais portuguesa das competições europeias, a qualidade de jogo e o espírito avassalador do futebol azul e branco convidavam a imaginar que os dragões eram uma equipa capaz de ombrear com os grandes do futebol europeu, ao nível dos reis de Inglaterra e só por debaixo do dueto espanhol construído (e pago) para dominar a competição nos próximos anos.

Esqueceram-se os arautos e filósofos que a profunda diferença entre a primeira e segunda divisão do futebol europeia é cada vez maior e que vencer uma Liga Europa raramente diz bem da equipa que a conquista. Afinal, olhando para trás no tempo, é preciso retroceder ao sucesso do próprio FC Porto para encontrar uma equipa capaz de vencer a segunda prova da UEFA para, no ano seguinte, fazer boa figura na prova rainha europeia. Se a equipa de José Mourinho conseguiu um feito quase historicamente único de repetir triunfos, que dizer dos senhores que se seguiram?

Atlético de Madrid em 2010 (incapaz sequer de passar da fase de grupos da Europe League no ano seguinte), Shaktar Donetsk, Zenith St. Petersburg e CSKA (inocentes na Champions League, predadores na Europe League) ou o dueto espanhol Sevilla-Valencia, tão elogiado então por essa Europa fora mas que, no universo dos grandes tubarões, teve de contentar-se com as migalhas. Seria o FC Porto excepção a esta realidade que os números não deixam esconder? Tentou vender-se a ideia de que, com alguma sorte à mistura, esta equipa - mesmo sem Falcao, talvez mesmo com ele - seria candidato a candidato. Na realidade o destino foi exactamente o mesmo que os dos seus antecessores, candidatura a decepção do ano, se é que há ainda quem acredita nisso.

A derrota em Chipre nem marca sequer o ponto mais baixo da época europeia dos azuis e brancos, derrotados já na sua deslocação à Rússia e, sobretudo, manietados em casa por um APOEL que representa essa Europa alternativa que José Mourinho conhece só pela internet mas a quem Michel Platini deu, e muito bem, a sua pequena dose de protagonismo. Os cipriotas estão tão perto de fazer história que hoje é inconcebível encontrar uma história mais apaixonante e enternecedora neste set de provas europeias que a superação de um clube com um orçamento de 20 milhões de euros. Face aos 100 milhões de um FC Porto infiel à sua própria história.

 

Vitor Pereira será sempre de forma inevitável o eixo central de todas as criticas.

E, verdade seja dita, nunca fez nada para mudar a (já negativa) percepção que os adeptos tinham de um homem que antes de ser número dois de um special two foi conhecido no futebol luso por falhar, duas vezes, a promoção à Liga Sagres com a equipa com melhor orçamento da Liga Vitalis, os açorianos do Santa Clara.

Um cartão de visita pouco convincente mas que não impediu Pinto da Costa, um presidente que gosta de correr riscos e assumí-los - e agora é hora de o assumir outra vez, como sucedeu com Quinito e Octávio - de o eleger um dia depois de saber que o seu protegido preferia o frio e a chuva de Londres ao frio e chuva da Invicta. Vendeu-se a ideia de continuidade mas não há, excepto as caras, nada de continuo neste FC Porto de Pereira em comparação com o exercício de gestão de Villas-Boas. O treinador espinhense rompeu com os conceitos que tinham transformado os Dragões numa equipa - literalmente - invencível, e aceitou de bom grado as imposições da SAD a moldar um plantel claramente descompensado e pago a peso de ouro. O dinheiro gasto nas contratações de Defour, Mangala, Kelvin, Iturbe, Djalma, Kleber, Bracalli, Danilo e Alex Sandro - bem como as percentagens dos passes que faltavam de Hulk e James - anunciava uma era de bonança que, no fundo, era tudo menos real. O dinheiro de Falcao (que ainda não chegou, porque para clubes ciganos nenhum melhor que o Atletico de Madrid) e de Villas-Boas cobriu os gastos mas deixou exposta a fragilidade financeira de um clube que continua a pensar primeiro nos empresários e só depois nos seus próprios jogadores. Vitor Pereira comungou desta filosofia e agora, inevitavelmente, pagará o preço da ousadia de arrancar uma época sem avançados de calibre e sem jogadores formados em casa (que na Champions League lhe permitiriam inscrever quatro jogadores mais), herdando um leque de pseudo-estrelas a quem foi negado o paraíso dos milhões dessa Europa futebolística.

Com o plantel claramente noutra disposição daquela que encontrou um esfomeado Villas-Boas, era fácil entender que este ano seria soberanamente difícil para qualquer técnico. Nem Alvaro Pereira, nem Moutinho, nem Guarin nem sequer Hulk pareceram nunca cómodos nestes três meses de época e fisicamente notou-se a sua ausência mental do projecto. A falta de reforços de confiança para abanar a equipa deixaram o técnico numa situação incómoda que resolveu da pior maneira. Mudou a única coisa que parecia intocável, os principios de jogo.

Enquanto Villas-Boas sempre preferiu apostar num onze sólido, com mudanças pontuais e facilmente reconhecidas que não descaracterizavam o jogo colectivo, assente num estilo claro de toque e posse de bola, transições pelo corredor central e um jogo apoiado num pivot ofensivo com fome de golos, Vitor Pereira optou por seguir o caminho da jesualdização, tanto criticada no Dragão mesmo nos anos dos titulos. A bola passou a voar de trás para a frente, o meio-campo tornou-se menos participativo e, na dúvida, as bolas acabavam não no pivot de ataque mas num Hulk de volta às suas piores versões. Para piorar ainda mais o cenário, o técnico, talvez sem confiança nos seus próprios homens, aplicou uma politica de rotação sem sentido que demonstrou não só um problema físico grave como uma falta de aprendizagem de conceitos gritante.

James Rodriguez, figura nuclear no final da época passada, tornou-se tão dispensável como Cebolla Rodriguez, o homem que foi inscrito no lugar de Walter na Champions League para, depois, ficar a ver os jogos à distância. Fernando, provavelmente o mais regular de todos os jogadores nestes últimos meses, tornou-se na oferenda sacrificial favorita e a Kleber, o homem que não queria suceder a Falcao, exigiu-se o mundo.

Demasiados erros de gestão, demasiados tiros nos pés, demasiados enganos nas escolhas, dentro e fora do plante, que espelham uma imagem pálida, aborrecida e, pior do que isso, sem rumo de um clube que tem mais similaridades com o Benfica da segunda época de Jorge Jesus do que certamente gostaria de imaginar. Uma liderança - em ex-aqueo depois de uma segunda parte para esquecer no Dragão frente ao rival mais directo - numa prova tão insignificante como a Liga Sagres não é espelho de nada a não ser da pequenês de um projecto que passou a época passada de bicos nos pés.

 

O ridículo da politica desportiva da SAD do FC Porto - e da equipa técnica - conduziu ao ridículo futebolístico que tem marcado este mandato.

A eliminação precoce das provas europeias - e uma derrota em Donetsk provocará isso mesmo - deixa claro que num grupo sem tubarões, o projecto ambicioso do FC Porto não foi mais do que um pequeno peixe-palhaço. Nem as piores épocas de Octávio Machado , Victor Fernandez e Jesualdo Ferreira, três dos técnicos mais contestados na sua passagem pelo banco azul e branco, significaram um profundo empalidecer da imagem internacional de um clube que foi elogiado a torto e a direito há apenas meio ano. Perder em Nicósia não é nenhum drama se não vier precedido de uma derrota na Rússia e um empate caseiro contra os cipriotas onde actuam mais jogadores portugueses que nos próprios campeões nacionais. O grave está no suicídio futebolístico, nos desastres de gestão humana e no ridículo táctico que se repete, jogo atrás jogo, de um treinador que, como a banda do Titanic, já percebeu que o navio está a ir ao fundo mas prefere continuar a tocar até que não haja mais remédio, assobiando para o lado quando alguém lhe relembre que por esse lado não se vai a nenhum sitio. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:48 | link do post | comentar | ver comentários (12)

Quinta-feira, 01.09.11

Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!

Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.

Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.

Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.

Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.

 

FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.

Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.

Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.

O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao  Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.

Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!

De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.

 

Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.

Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?

Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.

Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.

Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.

 

O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:19 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Terça-feira, 28.06.11

Não aterra num planalto desconhecido mas o plano de voo de André Villas-Boas certamente que sofreu mais de uma correcção desde que o técnico começou a desenhar o seu futuro. A sua chegada a Londres está marcada por lembranças pretéritas, traições mal explicadas e uma ambição tremenda. O português tem tudo para consagrar-se no futebol inglês como um treinador de excepção. Tudo menos o mais importante. AVB já corre contra o relógio.

 

Apesar da fama da Premier League de respeitar o trabalho do Manager acima de todas as coisas, o Chelsea não é o melhor exemplo a seguir.

Nos últimos sete anos o clube já contou com sete treinadores, com Avram Grant, Luis Filipe Scolari e Guus Hiddink a não completarem sequer uma só época. O israelita e o russo foram opções alternativas e chegaram para sanar as feridas deixadas pelas saídas inesperadas (ou talvez não) de Mourinho e Scolari. Mas não tiveram tempo, oportunidade ou vontade de continuar. O Chelsea consegue ser um projecto muito stressante.

Villas-Boas sabe-o e muito bem. Chegou em 2004 com o resto da comitiva anónima que seguiu com José Mourinho do Porto para Londres. Por essa altura chamava menos à atenção que o possante Silvino ou o inseparável número dois, Rui Faria. Mas o seu trabalho de prospecção revelou-se chave na preparação das três épocas de Mourinho, nas contratações de Essien, Diarra, Cole e companhia. Quando Mourinho saiu, a Villas-Boas não lhe teria incomodado ficar um pouco mais numa cidade onde se sentia em casa. Mas decidiu seguir o seu mentor. Por pouco tempo. Esse ano sabático de Mourinho permitiu ao portuense ver o seu futuro como treinador principal. E foi aí que o jovem olheiro começou a desenhar o seu futuro. Mas nem ele imaginaria que voltaria à capital inglesa tão depressa. Não fosse por Guus Hiddink e talvez o seu regresso nunca tivesse acontecido de todo. Uma questão de timing!

O holandês, actual seleccionador da Turquia, foi cortejado por Abramovich durante meses a fio. Nem o fracasso com a selecção russa retirou prestigio a um homem que já foi uma vez chamado pelo bilionário russo para tapar os buracos de gestão em Stamford Bridge. A Hiddink o projecto não lhe deve ter achado muita graça. Nem quis continuar ao leme do clube, abrindo caminho para a chegada de Carlo Ancelloti, nem sequer mostrou grande interesse em voltar. As negociações arrastaram-se até que o técnico disse finalmente não ao seu amigo Roman. O dono do Chelsea olhou para o mercado e viu poucas possibilidades em carteira. O relógio continuava o seu curso e o tempo escasseava. O timing era tudo e havia pouco por onde pescar. Decidiu sacar o livro de cheques e recuperar um velho conhecido, com quem falava alegremente no escritório de José Mourinho quando baixava ao centro de treinos para ver que tal ia a sua equipa. Villas-Boas conhece bem Abramovich e sabe o que o espera. Para ele sair do FC Porto era algo inevitável, por muito que tenha entretido os adeptos azuis e brancos com declarações de amor eterno que já nem se usam. Talvez não imaginasse que o salto fosse tão precoce. Nisso teve culpa própria, afinal a época azul e branca não passou desapercebida ninguém. Nem o timing da sua escolha.

 

O novo treinador do Chelsea saiu da sua cidade como um traidor e chegou à sua admirada Londres debaixo de muita suspeita.

Os adeptos do FC Porto dificilmente irão perdoar o inevitável. A Invicta, apesar de ser a sua cidade, tarde ou cedo acabaria por ficar pequena para as suas ambições, declaradas ou não. O seu problema foi esse maldito timing, a única coisa que não controlou ao longo do defeso. A oferta do Chelsea foi repentina (os contactos prévios que Pinto da Costa referia dizia apenas respeito a um trabalho como treinador de campo) e irrecusável. Tanto pelo dinheiro envolvido - e Villas-Boas, como qualquer outro, é um profissional - como pelo projecto. Tal como com Mourinho em 2004 (que recusou o Inter como Villas-Boas porque Abramovich prometeu muito dinheiro para reestruturar a equipa), o portuense chega com a ilusão de começar do zero.

Lampard, Terry, Cole, Cech, Anelka e Drogba estão mais perto do final das suas carreiras (ou do seu zénite, pelo menos) do que do arranque. A espinha dorsal sobre a qual Mourinho construiu o seu projecto começa a dar lugar a novos rostos. Torres, Bosingwa, Alex, Ivanovic, David Luiz, Obi Mikel, Ramires ou Benayoum já lá estão. Mas os muitos milhões que o russo promete colocar à disposição do seu novo técnico permitem imaginar um plantel totalmente reestruturado a que se podem juntar também os jovens que Ancelloti foi lançado (Sturridge, van Aaholt, McEachran, Kakuta, Bruma) e que foram sendo recrutados pelo departamento de prospecção, como o brasileiro Lucas Piazon. Para ele, em Londres, o timing é perfeito para começar uma nova era, sem o peso do passado nos ombros e com a expectativa de um futuro brilhante pela frente.

Villas-Boas seguirá os passos de todos os treinadores quando rumam ao estrangeiro e certamente levará consigo um ou dois dos seus ex-jogadores. Com isso enriquecerá ainda mais o seu ex-clube e saldará qualquer conta pendente. O seu karma foi talvez o optimismo (ou oportunismo) das suas declarações ao longo do ano. Que talvez fossem genuínas mas que condicionaram forçosamente qualquer decisão futura. Mas AVB não deixa de ser o mais significativo negócio na história do clube azul e branco e pode, com o seu poder de decisão em Londres, permitir ao seu antigo clube reestruturar totalmente o seu orçamento desportivo. Mérito da sua gestão como treinador e da sua saída.

Em Londres vai encontrar, sobretudo, desconfiança. Um Special Two sem sentido - até porque Mourinho e o seu Special One chegaram com o glamour de uma Champions debaixo do braço - mas que terá bem em cima a lupa de adeptos, gestores, imprensa e jogadores. Se com os primeiros Villas-Boas tentará emular a relação que tinham com Mourinho (e que perderam nos últimos quatro anos) com os restantes o braço de ferro será mais interessante. Particularmente com os nomes duros do balneário, Terry à cabeça, responsáveis da queda em desgraça do seu anterior mentor.

 

A dificuldade da Premier League - uma Premier League espicaçada com o fluxo de dinheiro do Manchester City, a renovação do Manchester United, a prometida nova politica desportiva do Arsenal e até mesmo o reforço dos projectos de Tottenham, Liverpool, Everton e Aston Villa - será muitíssimo superior do que Villas-Boas possa hoje imaginar. A isso junta-se uma Champions League dominada moralmente pelos colossos espanhóis, mais fortes do que nunca, depois da era dos clubes ingleses ter, aparentemente, chegado ao seu final. A Villas-Boas prometem tempo, dinheiro e paciências mas todos irão exigir títulos históricos (vulgo, Champions League) resultados imediatos (sem tempo para estados de graça) e futebol de primeiro nível. Seria uma missão temível para qualquer um, mais ainda para um treinador que, apesar de tudo, ainda é um rookie. Talvez por isso a sua chegada faça todo o sentido. Villas-Boas não tem nada a perder e tudo a ganhar. Se o seu projecto falhar continua a ter mercado um pouco por todo o Mundo e tempo para dar a volta por cima. Se vencer, supera todas as expectativas (outra vez) e cria um precedente histórico. Um desafio destes era impossível de recusar. Resta saber se é impossível de concretizar!

 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:37 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quarta-feira, 22.06.11

Em 24 horas o FC Porto mudou de treinador. Pode parecer anedóctico mas é precisamente o contrário. A prova de que uma estrutura desportiva bem organizada está preparada para todas as circunstâncias, mesmo as mais imponderáveis. Ao contrário de 2004, o FC Porto não encerrou um ciclo desportivo. Mas a licção de então foi bem aprendida pelo grupo gerido por Pinto da Costa. A sucessão de André Villas-Boas não só foi imediata como, a frio, surge como algo absolutamente natural e que garante, com os devidos ajustes, que o projecto não começa do zero para a próxima época. O FC Porto demonstra, numa situação altamente complexa, que a chave do seu sucesso continua a ser a primazia da estrutura colectiva sobre a figura do individuo.

André Villas-Boas chega a Londres como o treinador mais caro de sempre.

É a oitava transferência mais alta do futebol português, um êxito que merece ser analisado com detalhe noutro momento. O portuense realizou uma época perfeita, a todos os títulos, e decidiu que o seu projecto de vida precisava de um salto de dois degraus. A saída de AVB era esperada por todos os adeptos e dirigentes portuenses. Como é habitual com Pinto da Costa, os ciclos dos seus treinadores ganhadores habitualmente ficam-se pelos dois anos (salvo Fernando Santos (três) e Jesualdo Ferreira (quatro) e as perspectivas para 2011/12 eram promissoras. Havia uma genuína onda de optimismo que não era exclusiva do estádio do Dragão. Por essa Europa fora muitos esfregavam as mãos com o duelo entre FC Porto e Barcelona em Agosto, no Mónaco, e com a presença dos azuis e brancos na Champions League. Os azuis de Villas-Boas, mas também de Falcao, Hulk e Moutinho. Esse projecto chegou ao fim no momento em que o individuo, Villas-Boas, entendeu que a estrutura não lhe oferecia armas suficientes para apaziguar a sua tremenda ambição. O técnico recebeu uma oferta fabulosa do Chelsea (perdido durante semanas em negociações com Guus Hiddink) e decidiu que era o passo certo no momento certo. Ai repete o percurso de Mourinho, com um pequeno, mas importante detalhe. O sadino chegou a Londres como um treinador maduro, com duas taças europeias debaixo de cada braço e uma aura única. Villas-Boas é visto, ainda hoje, como um clone e por muito que se queira distanciar do seu antigo protector, a verdade é que nem chega com os mesmos títulos nem a sua presença funciona como uma atracção de novidade. Terá muito trabalho pela frente.

O técnico que deu ao FC Porto um dos mais bem sucedidos anos da sua história deixou também atrás de si um problema gordo nas mãos dos dirigentes. Pinto da Costa apostou, e muito, no jovem portuense. Desportivamente venceu a aposta, financeiramente fez o negócio da sua carreira desportiva. Mas moralmente a sua conexão com o treinador, de quem várias vezes anunciou que não repetiria o comportamento de Mourinho (e de Robson, que também saiu do FC Porto pela porta pequena) e que o "portismo" do técnico garantia uma longa relação, talvez inspirada pelo modelo de Guardiola no Barcelona. Para Pinto da Costa o jovem Villas-Boas poderia ser uma reencarnação da imagem de Pedroto, aquilo que Artur Jorge e Mourinho, por diferentes motivos, não quiseram ser. A saída abrupta, silenciosa e quase hostil do treinador abriu uma ferida emocional que os adeptos terão dificuldade em sarar. Mas a estrutura do clube, habituado a esta necessidade do clube de vender para sobreviver, estava preparada.

 

Pinto da Costa manobrou o problema com mestria.

Sob o seu comando o FC Porto transformou-se numa das instituições mais bem sucedidas do futebol europeu. Um modelo presidencialista, inspirado no mandato de Santiago Bernabeu em Madrid e que levou um clube iminentemente regional ao estrelato europeu.  Um clube gerido de forma empresarial, muito similar à gestão do Bayern Munchen dos anos 80, com todos os prós e contras. Durante esses 30 anos passaram pelo clube da Invicta várias figuras individuais de inquestionável mérito desportivo. Treinadores do nível de Pedroto, Artur Jorge, Tomislav Ivic, Bobby Robson, José Mourinho ou André Villas-Boas. Dirigentes como Teles Roxo, Reinaldo Teles ou Fernando Gomes, actual presidente da Liga de Clubes. E uma imensidão de futebolistas de Oliveira e Gomes a Hulk e Falcao. No entanto, todos eles tiveram o seu ciclo - habitualmente curto - e o clube continuou a ganhar. Porque a aposta do staff presidencial sempre foi enfocada no poder da estrutura.

Villas-Boas sai do Porto e para o seu lugar entre o treinador-adjunto. Em 24 horas uma mudança que noutros clubes seria um caos que duraria meses, ficou resolvida. A acreditar nas palavras do dirigente portista - e conhecendo-o é perfeitamente possível que assim seja - a sucessão do treinador jovem mais cobiçado do futebol europeu, há um mês que estava definida. Porque a estrutura directiva soube ler os astros e entendeu que o que parecia uma declaração de amor eterna afinal podia transformar-se num pesadelo.

Pinto da Costa jogou bem as suas cartas e a sua aposta pessoal em Vítor Pereira dá agora os seus frutos. Quando Villas-Boas foi apresentado, perante o incredulidade de muitos, poucos foram os que prestaram atenção à sua equipa técnica, escolhida pelo próprio presidente. Um ex-jogador e o ex-técnico principal dos açorianos do Santa Clara. O primeiro, Pedro Emanuel, responsável pelas tarefas de treino, partiu para Coimbra, onde tentará emular o que se passou com Jorge Costa, Domingos e o próprio Villas-Boas, todos portistas com passagem pelo banco da Briosa. O outro, Vitor Pereira, espinhense e formado pela universidade da cidade, foi escolhido a dedo para precaver, precisamente, uma situação de crise. Ou de fracasso na aposta Villas-Boas ou, no extremo oposto, de um sucesso em toda a linha. Durante o ano Vitor Pereira foi a mão invisível que ajudou a criar condições para a brilhante época. Villas-Boas, ele também com uma curtíssima experiência como treinador, encontrou no seu adjunto o braço-direito ideal, da mesma forma que Paisley e Fagan secundaram Shankly, quando este tomou o leme do Liverpool. Quando o escocês anunciou abruptamente a sua saída a direcção de Anfield não procurou outro treinador de prestigio e decidiu recorrer ao tranquilo assistente, que melhorou os registos do seu mentor. Não que Vitor Pereira tenha esse peso sobre os ombros, o mandato de Villas-Boas foi curto e beneficiou de um contexto concreto. Mas deixa entender que a estrutura directiva, uma vez mais, tinha antecipado a inconstância humana que rege a figura individual de um treinador.

Vitor Pereira conhece o grupo, conhece o clube e há muito que estava a ser preparada para este momento. Cresceu sob a asa protectora da direcção e sabe o que esperam dele. Pode ver-se sem alguns jogadores influentes, como Moutinho e Falcao, mas essa circunstância faz parte da história do clube. O próprio Villas-Boas perdeu Bruno Alves e Raul Meireles e soube reinventar-se com Moutinho e Otamendi. O dinheiro que o clube encaixará, provavelmente 80 milhões entre os três, garante liquidez suficiente para atacar o mercado com a habitual sabedoria que permite aos azuis e brancos transformar porcos em pérolas num fechar de olhos.

 

Villas-Boas emergiu como a figura individual indiscutível do ano, e no FC Porto sabiam-no bem. Mas também entendeu que num clube onde a estrutura sempre está por cima do individuo, o seu caminho seria breve. Saiu de uma forma que se enquadra com os mecanismos do futebol contemporâneo, mecanismo que privilegiam o aspecto financeiro como no mundo empresarial, entrando em confronto com a imagem que criou durante um ano, a imagem de um treinador-adepto, romântica e impossível de funcionar neste mundo do futebol. A sua ânsia de emular (e bater) os registos de Mourinho pregaram-lhe uma partida mas ao contrário de 2004, em que a saída de um José Mourinho mas bem sucedido e sem essa aura de adepto acabou por se revelar mais traumática, a estrutura directiva do clube soube antecipar-se ao lance e de um problema sacou duas soluções. O FC Porto tem um treinador da casa para um projecto estável e um encaixe milionário no banco. De uma derrota emocional aparente, Jorge Nuno Pinto da Costa transformou um evento traumático e surpreendente numa dupla vitória. O sucesso do FC Porto explica-se por momentos assim. No próximo ano não transmitirá certamente o mesmo sex-appeal, mas como fera ferida, será duplamente mais temível.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:07 | link do post | comentar | ver comentários (12)

Sexta-feira, 10.06.11

André Villas-Boas transformou o ano desportivo num regresso ao futuro. A sua juventude, questionada ao principio, deixa antever um futuro brilhante para o técnico portuense. A forma como se instalou, confortavelmente, na cadeira dos seus sonhos, permitiu recuperar os sinais de identidade do passado. Com Villas-Boas ao leme o FC Porto voltou a ser rei de Portugal e da Europa, sob aplauso generalizado e admiração genuína. AVB tornou-se, por direito próprio, no treinador de moda do futebol europeu. E no Homem do Ano para o Em Jogo.

 

Aprendeu muito com Mourinho mas agradeceu a Guardiola a inspiração. E certamente não se esqueceu de beber um bom copo de vinho à saúde de Bobby Robson. Onde tudo começou. Para ele. E não só. No momento da consagração, André Villas-Boas podia sentir-se um homem completo. Logrou o inédito a uma idade precoce e no lugar onde sempre quis estar. Aí, sem dúvida alguma, traça um precioso paralelo com o treinador do Barcelona. Ambos voltam a casa, antes do tempo prevista, para ganhar tudo o que havia para ganhar e com uma filosofia e um estilo próprio que os afastam da figura em comum que os une, mas também, que os separa, José Mourinho.

Villas-Boas aprendeu do técnico sadino muito mas o seu talento precoce vinha já das suas conversas com Bobby Robson, dos seus relatórios adolescentes e das muitas horas perdidas a ver jogos atrás de jogos. Durante essas tardes, no velho estádio das Antas, sonhou com a cadeira de Pedroto, de Artur Jorge, de Ivic, Carlos Alberto...de Robson. Deu sempre passos mais longos que as pernas mas pensados ao mais minimo detalhe. E mesmo quando embarcou na cosmopolita viagem europeia com Mourinho nunca perdeu a Invicta de vista. Fez um desvio por Coimbra (por onde passaram também Pedroto e Artur Jorge) antes de aterrar no Dragão para por ordem na casa. Manteve os jogadores, mudou os principios. E ganhou a aposta. Em 365 dias mudou o rosto do futebol português. Os seus quatro titulos colocaram um ponto final na ambição do Benfica de emular algo que não consegue desde 1984, vencer dois titulos consecutivos. Numa especie de O Império Contra-Ataca, restaurou a normalidade na Liga Sagres com registos impensáveis na era moderna. 30 jogos, 27 vitórias, 3 empates, 73 golos marcados e 16 sofridos não caem do céu. Definem sim uma época.

 

O sucesso de Villas-Boas recai também na sua atitude.

Não é só um técnico que domina os distintos aspectos do jogo - do conhecimento táctico à gestão de balneário - mas é também um homem que sabe controlar todos os aspectos que rodeiam a vida do clube. Essa lição foi bem aprendida com Mourinho, o mentor de quem se afastou, e que soube colocar em prática durante todo o ano, tanto dentro como fora de portas. O sucesso interno do clube - em três provas, sempre à custa do Benfica - teve mais eco no futebol europeu pela caminhada vitoriosa até Dublin. Como sucedeu em 2003 os grandes da Europa ficaram prendados com o talento de gestão de um treinador mais novo do que o próprio capitão de equipa, mais novo ainda de que os precoces Mourinho e Guardiola, os dois rostos que comandam hoje em dia as hostes quando se fala em gestores de primeiro nível.

Villas-Boas não se limitou a bater recordes de precocidade. Definiu um estilo. Num FC Porto habituado nos últimos anos a um jogo temeroso, dependente em excesso do contrário ele manteve apenas o desenho táctico. Trocou os lançamentos rápidos pelo futebol pensado no miolo, recuperou principios da mistica azul e branca dos dias de Artur Jorge e a eterna fome de golos que fez parte dos ensinamentos de Bobby Robson. Uma equipa com tracção à frente mas com uma defesa segura e fiável. Uma equipa sem medo de ter a bola nos pés e com a clareza de mente suficiente para saber o que fazer com ela. E, sobretudo, uma equipa repleta de valores individuais imensos com uma forte dimensão colectiva. Esse espirito de pastor de homens - de que o Dragão estava orfão desde a debandada de Mourinho - significou um profundo regresso à filosofia do passada, cultivada desde a chegada do duo Pedroto-Pinto da Costa. Um FC Porto autoritário, ofensivo e profundamente carismático.

 

Não é casualidade que os grandes da Europa tenham o nome de AVB no topo das suas listas. Muitos lembram-se do que sucedeu da última vez que um jovem e desconhecido técnico despontou ao serviço dos dragões. Por muito que Villas-Boas se queixar distanciar dessa imagem, a verdade é que o jovem técnico já superou o registo ganhador do seu mentor e essa realidade está bem presente  tanto em Portugal como para lá da raia fronteiriça. O treinador tem possibilidades de emular o trajecto de Artur Jorge e José Mourinho mas há algo no seu caracter tripeiro que deixa antever que se prepara para inverter a tendência. Sente-se cómodo na sua cadeira de sonho e não vê motivos para sair. Já viu o Mundo uma vez agora quer que seja o Mundo a vê-lo a ele. Este ano conseguiu-o e transformou a cidade Invicta - com autorização de Barcelona, que vive ainda noutra dimensão - na capital do futebol europeu.  



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:47 | link do post | comentar

Sexta-feira, 27.05.11

 

Explicar o que sucedeu em 2010/2011 com o FC Porto pode resumir-se apenas numa palavra: mistica.

 

Os dragões realizaram na passada época uma das mais suas mais lamentáveis temporadas, reflexo de um profundo desgaste interno com a bem sucedida gestão de Jesualdo aliados à clara melhoria de dois rivais, Braga e Benfica, e também ás polémicas arbitrais que marcaram um antes e um depois no torneio. Sem Jesualdo, mas com o esqueleto do seu projecto, o FC Porto transformou-se radicalmente numa equipa autoritária, possessiva e profundamente atacante. Mérito total de André Villas-Boas, o primeiro técnico portuense (e portista) desde António Oliveira, que soube recuperar essa mistica sem alterar profundamente os cimentos da equipa. Villas-Boas transformou o jogo de transição de Jesualdo num jogo de possessão, adiantou o quarteto defensivo, deu mais liberdade ao duo mais avançado do triângulo do miolo e apoiou-se no espirito goleador do colombiano Falcao e nos desiquilibrios constantes provocados por Hulk. E ganhou.

 

A forma autoritária como o FC Porto arrancou para a época dictou os tempos posteriores.

Beneficiando do atraso do Benfica, que foi perdendo pontos inimagináveis por culpa própria, a goleada frente ao rival no Dragão praticamente fechou as contas do titulo e obrigou os azuis e brancos a gerir, com tranquilidade, uma vantagem que acabou em números absolutamente escandalosos e que não reflectem a real diferença entre os rivais directos. Villas-Boas, motivador por excelência da escola de José Mourinho, soube também gerir um plantel que conheceu apenas três adicções significativas relativamente ao ano anterior. Se a Otamendi e James Rodriguez o técnico foi dando tempo, revelando-se fundamentais na segunda metade da temporada, já João Moutinho foi o interprete perfeito do seu ideário desportivo, a balança que permitiu a fluidez de jogo dos novos campeões nacionais, afastando definitivamente os fantasmas dos seus últimos anos em Alvalade. Num plantel sólido e bem preparado o técnico soube igualmente explorar os momentos de forma ideias dos seus jogadores. Recuperou Belluschi na primeira parte da temporada para entregar-se a Freddy Guarin, um dos nomes próprios da segunda volta da equipa. Viveu do pulmão de Varela até que este não aguentou mais e cedeu o palco a Cristian e James Rodriguez que se foram alternando em grande parte do final da época.

 

Pouco se pode apontar a uma equipa que olha para trás com a consciência de que logrou fazer história. Vencer um campeonato de 30 jogos sem qualquer derrota (93 golos marcados, apenas 16 – a metade do segundo classificado – sofridos) é um feito em qualquer liga europeia. Mesmo no profundamente debilitado campeonato português não deixa de ser um logro espantoso. Basta recordar que só o Benfica de Haggan logrou o feito, já lá vão quase quarenta anos. Se ao titulo ganho de forma simbólica no estádio de Luz se juntam as vitórias em mais três provas (Supertaça, Taça e Europe League) é fácil entender que estamos ante uma das equipas mais importantes da história do futebol português. Anos asssim são como os cometas. Mágicos e que se repetem de tempos a tempos para espanto dos comuns mortais...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:55 | link do post | comentar

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