Segunda-feira, 01.03.10

O futebol segue o caminho inverso do tempo. Mescla-se e extende-se sem razão aparente e leva-nos por viagens insuspeitas pelas areias da memória. Há poucos, pouqissimos dias, um dragão orgulhoso pisava a cauda de um leão ferido. Nestas coisas do futebol há sempre segundas oportunidades. E o rugido de um renascido leão ergueu-se, naturalmente, no silêncio de uma noite de temporal.

A viver talvez uma das suas piores épocas desportivas de sempre, o Sporting provou ontem no relvado do estádio de Alvalade que o favoritismo no futebol é um conceito vazio, bom para encher jornais e egos alheios. Depois de uma espantosa vitória sobre um igualmente renascido Everton, o Sporting estava cansado. Exausto até. Mas de orgulho ferido. E notava-se no olhar dos leões que subiram ao relvado para encarar um conjunto azul e branco cheio de orgulho nas últimas exibições, acreditando ainda na possibilidade de apanhar os lideres da prova. Os portistas tiveram 10 dias para preparar o duelo. O Sporting dois. A diferença foi sobrenatural provando que, muitas vezes, é o querer quem decide jogos. Especialmente quando  saber ajuda. E o Sporting soube bem emendar a mão da debacle do Dragão há três semanas. Carlos Carvalhal, atacado por todos os lados, aprendeu os erros que deram ao FC Porto a mais significativa vitória do ano e anulou por completo o repetitivo esquema de Jesualdo Ferreira. O técnico campeão nacional, tricampeão aliás, voltou a mostrar todas as suas debilidades e sofreu um correctivo maior do que todas as derrotas frente ao Sporting de Paulo Bento, a sua habitual besta-negra. Sem aprender nada do renascimento táctico dos leões, instalados confortavelmente num 4-2-3-1 móvel, com Djaló, Moutinho e Izmailov no apoio a Liedson. E com Pedro Mendes e Miguel Veloso numa associação demoníaca no centro. O FC Porto perdeu o jogo nos primeiros instantes e demorou 90 minutos a entender porquê. Sem atitude, sem garra, sem chama. Mas, sobretudo, sem capacidade de se adaptar a um esquema táctico que secou o jogo pelos flancos e destroçou o trio do meio-campo numa teia de cinco homens.

 

Os golos são a sal deste oceano de dúvidas e aos seis minutos já a refeição do Sporting estava abençoada pelo golpe oportuno de um renascido - também ele - Yannick Djaló. A defesa do Porto ficou a ver jogar - como tem sido hábito neste regime de passividade defensiva que as goleadas têm tapado habilmente - e o primeiro golpe confirmou a vontade do Sporting de dominar desde o principio. Como sempre sucede, o FC Porto de Jesualdo Ferreira perde-se quando começa a perder. É uma equipa montada para o contra-golpe, depois de um golo madrugador. Daí tantos empates com equipas que se fecham bem e tantas recuperações que se ficaram pelas intenções quando a equipa começa atrás no marcador. E assim foi, uma vez mais. Com os laterais leoninos a secarem os extremos azuis e brancos e sem Ruben Micael nas suas melhores noites, o jogo tornou-se num monólogo que se tornou demasiado monótono. Izmailov, com um golpe seco, voltou a mostrar a sua particular aptidão pelos golos ao rival do norte e ampliou a vantagem. Sem que Falcao tivesse sequer visto a bola rondar a sua área de jogo. No reatar do intervalo Belluschi entrou para o lugar de Meireles sem que se percebesse bem porquê. Não era a solução e Jesualdo sabia-o. Mas o banco estava, como ele, vazio de opções. O Sporting agradeceu e voltou a marcar, com Miguel Veloso a provar que está numa óptima forma. A sua associação com Pedro Mendes foi uma boa noticia para Queiroz, e péssima para Tomás Costa que não soube nunca fazer de Fernando. Se é que é positivo saber ser Fernando.

Até ao final o Sporting poderia ter ampliado a vantagem, o FC Porto pouco fez para reduzir a derrota e o público entoou um impensável "só mais um". Parecia que eram os leões os lideres da prova e não os angustiados quarto classificados. O FC Porto continua aí, em terra de ninguém, sabendo que o titulo é mais de que uma miragem e que a Champions League se começa a tornar um sonho dificil de concretizar. Antecipa-se um cenário similar ao de 2002, também ano de Mundial, também ano em que os azuis e brancos se viram superados por um rival directo (Sporting) e um surpreendente Boavista (que se manteve até ao fim na luta pelo "bicampeonato"). Curioso é o que veio depois. O futebol é mesmo um relógio de areia ao contrário.



Miguel Lourenço Pereira às 08:52 | link do post | comentar

Quarta-feira, 03.02.10

No único jogo da era Jesualdo Ferreira em que o técnico portista deixou de lado o seu habitual modelo conservador e burocrata, o FC Porto esmagou com uma facilidade abrumadora um Sporting que no papel viajava ao Dragão como uma equipa corajosa mas que, na prática, foi uma inevitável avestruz. A vitória por 5-2, mais do que pelos números, reafirma mais uma vez o poder da supremacia creativa no tabuleiro de jogo.

Em teoria o 4-3-3 de Jesualdo Ferreira é mais cuidado e conservador do que o arrojado 4-1-3-2 que Carlos Carvalhal está a tentar implementar até Junho em Alvalade. O técnico do Sporting tinha feito uma interessante recuperação na liga mas a derrota em Braga deixou, uma vez mais, a nu, todas as debilidades da sua equipa. Por isso o seu esquema muitas vezes era um 4-3-1-2 disfarçado, com Moutinho e Veloso a serem forçados a recuar para ajudar um desamparado Adrien. Com Saleiro estático e Liedson domado, a boa vontade de Carvalhal esbarrou com a incapacidade de por em prática o seu plano mais ambicioso. E, acima de tudo, com a perfeita organização táctica do melhor FC Porto dos últimos meses. Jesualdo, que deixou em casa a membros-chave do exército portista, deixou de parte a sua tendência mais calculista e arriscou. E saiu-lhe bem, especialmente porque na sua nova equação mora um jogador capaz de trazer o equilibrio necessário às transições tão do seu agrado. Se até à chegada de Ruben Micael o FC Porto vivia em três secções totalmente separadas, ontem a equipa exibiu-se com uma harmonia inédita. O madeirense pautou o jogo no ataque, trouxe balanço ao sector defensivo e basculou o jogo à sua vontade. O resultado final não poderia ter sido outro.

 

O jogo começou com a tendência ofensiva dos da casa que esbarrou com a habitual inércia frente aos redes do rival. Foi sol de pouca dura. Por essa altura já João Moutinho era adormecido pelo rápido jogo do triângulo composto por Fernando-Micael-Belluschi. Pela primeira vez alinharam dois elementos criativos, o chamado número 10, num onze azul-e-branco. O Sporting nunca conseguiu lidar com essa dinâmica preparado que estava para mais um jogo de musculo como os muitos duelos entre leões e dragões nos últimos anos. Apesar da boa dinamica foi num confuso lance de bola parada que Rolando abriu o marcador. Um golo justo que ficou ensombrecido pelo empate, um potente remate de Izmailov que Beto não agarrou da melhor forma. O empate era um injusto prémio à passividade sportinguista e rapidamente a equipa da casa levantou cabeça e partiu para uma noite que ficará nos anais do recinto azul e branco. O oportunismo do colombiano Falcao, com dois tentos de belo efeito, e o movimento de Varela, destroçando pela enésima vez a um péssimo Grimi, ampliou a vantagem do FC Porto para 4-1. Por essa altura já Pongolle tinha rendido, sem que se tivesse feito notar, Saleiro e Adrien dava lugar a Matias Fernandez. O modelo de jogo do Sporting manteve-se igual e a dinamica portista também. Num lance atipico na sua atribulada relação com as bancadas do Dragão Mariano Gonzalez marcou um golo de bandeira. A braçadeira de capitão, por uma vez, acentou-lhe bem.

 

A vitória por 5-2 - Liedson reduziu já depois dos 90 - espelhou de forma clara a diferença de nivel entre Porto e Sporting. Os azuis e brancos conseguiram o lider de meio campo que necessitavam e dão boas sensações para os próximos desafios. Estão em quatro frentes e repletos de problemas internos e externos. Mas no campo a equipa desconectou e funcionou como nunca. Manter o nível será complicado. Mas possível. Já o Sporting foi vitima de uma clara supremacia creativa deixando bem claro que o musculo e o pulmão ajudam mas nunca são suficientes para uma equipa que em Agosto ambicionava em fazer deste o seu ano.



Miguel Lourenço Pereira às 15:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 08.01.10

Mais do que preocupantes, o estudo publicado pelo site Futebol Finance espelha uma realidade desoladora. O producto que mais vende nas televisões nacionais e que, supostamente, é o "ópio do povo" luso, é mais visto in loco nos estádios da Bundesliga 2, a segunda-divisão alemã, do que na liga portuguesa. Afinal, em Portugal há ainda quem goste de futebol?

O Século XX português ficou cunhado com a popular expressão "Portugal dos Três F´s". Havia Fado, havia Fátima e sobretudo, havia Futebol. Havia estádios repletos, semana atrás semana, com adeptos de pé durante hora e meia num apoio incessante da equipa. Havia jogos de reservas e juniores com mais espectadores que muitos encontros de equipas da I Divisão e raro era o adepto que não tinha visto mais de 15 jogos ao ano no estádio do seu clube ou em oportunas deslocações. O país respirava efectivamente o jogo pelos poros e apesar de ser conhecido por toda a Europa pela sua impaciência, também é verdade que os grandes jogos europeus em estádios como a Luz, Alvalade ou Antas eram um verdadeiro pesadelo para os mais fortes rivais. Mas isso era dantes. Quando Portugal era, efectivamente, uma liga de dimensão internacional. Uma prova respeitada e que era capaz de impor o seu nome. Apesar da popuñação, apesar dos negócios milionários, apesar das estrelas. Hoje, o cenário é totalmente o oposto.

O estudo divulgado pelo Futebol Finance indica que a Liga Sagres portuguesa é a 12 mais vista nos estádios da Europa. Isto num estudo onde se analisaram 15 provas. A média de adeptos nos estádios portugueses ronda os 10 000 espectadores. Uma média que depende, excessivamente das habituais assistências no Dragão ou na Luz, onde regularmente se superam os 35 mil espectadores. Imediatamente depois está Alvalade e logo a seguir um imenso hiato até cair nas degradantes assistências que ás vezes nem roçar o milhar de adeptos.

Problemático não é apenas o baixo valor de adeptos que se deslocam aos recintos para ver, in loco, o jogo. Nessa mesma classificação, liderada pela Bundesliga - hoje em dia uma das mais dinamicas provas europeias - com 42 833 adeptos de média por jogo (a média de ocupação dos 18 estádios é de 48 mil, o que indica uma presença superior aos 90% em cada jogo) - Portugal encontra-se atrás da Premier League, La Liga, Serie A e Ligue 1. Mas também da Liga Escocesa, Belga e Suiça. E pasme-se, da Division One e Bundesliga 2, as segundas divisões de Inglaterra e Alemanha. Um resultado que coloca em cheque o adepto e o futebol português.

 

Já muito se leu e escreveu sobre o porquê da fraca assistência nas bancadas portuguesas. Um país que se diz tão amante do beautiful game não pode, pura e simplesmente, ter uma assistência inferior a um país como a Suiça ou Bélgica, muito inferiores em população mas também a nivel desportivo. As habituais desculpas dadas em Portugal não funcionam no resto da Europa. É verdade que em Portugal se joga de sexta a segunda-feira, maioritariamente em horários nocturnos para agradar à cadeia de televisão que tem os direitos da prova. Uma situação impensável em Itália e Espanha, onde só se jogam sábados e domingos e preferencialmente pela tarde. Mas em Inglaterra há jogos quase todos os dias da semana, com jornadas em atraso e encontros para várias provas. Nas principais divisões. E todos os jogos estão com as bancadas cheias. 

Também há quem fale nas deficientes condições de alguns recintos. Um argumento válido talvez para pequenos estádios como a Mata Real ou o estádio dos Arcos. Mas incompreensível quando a prova recebe jogos em estádios construidos para um Europeu de Futebol há menos de uma década. Ver um jogo da liga escocesa, belga ou suiça é encontrar-se muitas vezes com estádios de mais de 50 anos. E que o aparentam. 

Pensamos então noutra queixa habitual, a falta de qualidade desportiva. Realmente a qualidade de jogo do futebol português tem vindo a cair ao longo dos últimos anos. Mas também está claro que as equipas do meio da tabela em Portugal podem ombrear com os rivais escoceses, suiços, belgas e, certamente, com as divisões inferiores de Alemanha e Inglaterra. Não se pede - de momento - assistências ao nivel da Premier League ou La Liga, mas todas as semanas há bons e maus jogos em qualquer liga do Mundo. Só que os portugueses não perdem tempo em ir vê-las.

Por fim chega a questão final: os preços das entradas.

Num país que vive praticamente em crise desde a sua génese, a principal queixa é a falta de sensibilidade dos clubes à hora de colocar os preços dos bilhetes à venda. Afinal os jogos no bar custam um café ou pouco mais. Mas se virmos que já houve várias iniciativas de entrada gratuita, descontos e bilhetes a baixo preço - e que os preços mais altos são praticados em jogos com os grandes clubes, que já por si mobilizam sempre o grosso dos adeptos - continua sem ser perceber o vazio dos lugares durante um encontro de futebol. E fica a dúvida instalada. Será que os portugueses gostam mesmo de futebol?

 

Imaginar uma equipa despromovida em Portugal é um pesadelo. Insultos, lenços brancos, cânticos insultuosos. Já se viu de tudo. Viajamos a Inglaterra e vemos 55 mil pessoas de pé no St. Jame´s Park a aplaudir o onze do Newcastle que levou o histórico à despromoção. Parece que estamos num filme de ficção-cientifica. Quem nunca saiu do rectângulo pode achar que o comportamento do adepto português é comum lá fora. Não o é. Os milhares de adeptos que seguem a equipa em jogos fora em Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra são impressionantes. A "Mareona" de adeptos do Sporting Gijon, um histórico espanhol que só na época passada voltou à I Liga depois de largos anos nas categorias inferiores, leva aos recintos que a equipa visita mais de 5 mil adeptos quinzenalmente. O Leeds Utd, a militar na terceira divisão inglesa, logra deslocar em jogos fora mais de 10 mil adeptos. Em Inglaterra aplaude-se uma derrota, se a atitude for boa. Assobia-se, grita-se, mas ainda se vive a cultura de que o adepto vai ao estádio para apoiar. Em Portugal vigora a tese de que é a equipa quem tem de puxar pelo adepto. O comodismo supera a devoção.

 

Depois de todas as inovações, das pipocas, bebidas e aquecimento central, das coberturas caras e dos lugares primorosamente desenhados para dar mais e mais comodidade, cada vez menos se vê um adepto português nas bancadas. Cada vez menos se vêm miudos a jogar nas ruas. Sempre é melhor a Playstation. O futebol de formação está destroçado, não só nos grandes clubes. Os pequenos clubes de bairro que subsistiam formando os jovens da zona nas suas primeiras etapas fecham portas ano atrás de ano. E históricos como Boavista, Farense ou Beira-Mar caem nas últimas divisões sem apoio nem interesse por parte dos seus associados. Há excepções como a Alma Salgueirista, os adeptos do Vitória de Guimarães ou o grupo de adeptos do Leixões. Mas são exiguas para uma realidade preocupante. E o problema não está já em decidir ficar em casa ou num café a seguir um jogo que podia ser visto ao vivo. Está na consequência dessa decisão. O adepto português tornou-se num adepto de bar sem cheiro do relvado. Vive das trifulcas dos presidentes - que só em Portugal têm tanto mediatismo - das arbitragens e das decisões dos técnicos. Nunca da táctica, do jogo, da experiência. Vivem de costas voltadas para o relvado.

Portugal está a atrvessar uma crise existencial em muitos sectores da sociedade. E sempre se tentou veicular a ideia de que o futebol era a salvação. A selecção nacional, os tais seis milhões de adeptos do SL Benfica que nunca ninguém viu, tudo isso rodeava a aura de imensa popularidade do jogo. O Euro 2004 ainda hoje é lembrado em toda a Europa como uma das provas desportivas com maior mobilização popular. Mas hoje em dia, no futebol português, as bancadas nuas, os adeptos desconectados e os jovens sem uma bola nos pés, contam-nos outra história. Bem mais triste. E é cada vez mais seguro poder dizer-se que há cada vez menos gente em Portugal que realmente ame o mais belo dos jogos.



Miguel Lourenço Pereira às 08:56 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 23.12.09

Domingos Paciência ganhou já o tique de culpar elementos externos dos tropeções bracarenses mas depois de adiar para o final do ano uma eventual candidatura ao título, hoje fica evidente que as ambições do SC Braga são outras. A venda de João Pereira ao Sporting abre um novo ciclo na temporada arsenalista e espelha bem a mentalidade que ainda subsiste no futebol português.

João Pereira estava na lista dos transferiveis no Verão. A SAD do Braga falava num encaixe de 10 milhões de euros no total de vendas mas os números ficaram muito além do ambicionado. Em vez de dinheiro na caixa o conjunto bracarense ganhou uma equipa. Que demorou a arrancar, como provou a eliminatória precoce da Liga Europa. Mas que agora funciona de forma oleada e mecânizada na Liga Sagres levando os arsenalistas a liderar, pela primeira vez na sua longa história, a prova no final de ano. Ao contrário do Boavista, que há uma década se sagrou campeão sem chegar ao final do ano nos primeiros lugares, o Braga tem mantido uma regularidade impecável. Apenas uma derrota, vitórias diante dos três grandes, e os habituais tropeções de quem tem um plantel curto e rivais que apenas procuram perder por poucos. Longe do espirito guerreiro baseado no contra-ataque do Boavista de Jaime Pacheco, o Braga é uma equipa bem organizada a meio campo e que gosta de jogar com as linhas a subirem de forma colectiva. O meio campo pressiona em cima, os avançados são solidários nas tarefas defensivas e a defesa tem-se revelado exemplar. Talvez essa realidade comece a ser posta em causa.

 

É verdade que o Sporting pagou na integra a cláusula de rescisão do jogador, cerca de 3 milhões de euros. E também é verdade que num país como Portugal nenhum jogador é devidamente respeitado se não joga num dos três grandes. Passa o mesmo, por exemplo, com o nacionalista Ruben Micael que não entra no lote de seleccionáveis para Queiroz de forma curiosa. Espera-se que em Janeiro ganhe asas e que as portas da selecção se escancarem quando a camisola que vista for do FC Porto, Sporting ou de qualquer clube pequeno europeu por onde andam Duda ou Edinho. João Pereira tem ambições. Legitimas no melhor lateral-direito da liga portuguesa. O jovem formado nas escolas do Benfica sucumbiu à pressão de actuar numa equipa que destroçava a sua própria formação. Depois de militar no Gil Vicente, reencontrou-se em Braga e até hoje fazia com Evaldo parte de uma estratégia bem montada por Domingos. Uma equipa que usava ao máximo o poder ofensivo dos seus laterais. Tapado na selecção por Bosingwa, Paulo Ferreira e Miguel, a falta de mediatismo prejudicava por completo a ascensão sustentada do lateral. Depois de goradas as transferências para o estrangeiro, João Pereira sabe que terá poucas dificuldades a impor-se a Abel ou Pedro Silva em Alvalade. E que isso joga a seu favor para o futuro. Mas como fica o Braga neste cenário?

 

Sabe-se que na cidade dos Arcebispos ninguém assumiu a luta pelo titulo, mas a equipa bracarense tem consciência que na conjuntura actual será muito complicado que baixe da terceira posição. Seria necessário um verdadeiro hara-kiri face à vantagem pontual que leva sobre o grupo de perseguidores do trio da frente. Isso significa automaticamente uma posição de entrada directa na Europa - algo que não logrou o ano passado - e o sonho que alimentou o rival de Guimarães há dois anos atrás: a Champions League. Todos esses sonhos podem traduzir-se em milhões, dinheiro fresco em caixa de uma SAD que tem tido uma evolução bastante sustentada ao largo da década. Mas para isso a equipa precisa de manter altos os niveis de competitividade. Vender uma das suas pedras angulares a meio da temporada é navegar para o lado oposto. E se as comparações com o Boavista são inevitáveis, será também lógico entender que no ano do titulo os axadrezados cerraram filas e não deixaram sair nenhum elemento nuclear do plantel. A equipa arrancou para uma notável segunda volta e fez história. As vendas foram posteriores, quando o êxito e os milhões da Europa estavam já assegurados. E se o clube está hoje na triste situação que se encontra é mais pelos erros administrativos posteriores do que por essa politica que se revelou acertada. O Braga sem João Pereira é, inevitavelmente, menos Braga. Como o seria sem Eduardo, Hugo Viana, Alan, Mossoró, Evaldo ou Vandinho. São pedras chave na estratégia e jogadores sem suplentes à altura num plantel necessariamente curto.

Por outro lado o Sporting dá o primeiro golpe de efeito no mercado ao que pode seguir a chegada de Ruben Micael. É curioso que Paulo Bento não tinha nem um cêntimo para gastar e agora a Carlos Carvalhal são entregues os jogadores que realmente o plantel necessita. Será provavelmente insuficiente - a larga lesão de Liedson não ajuda - para a equipa trepar na classificação até aos primeiros postos mas prova a desacertada gestão de uma direcção incapaz de planear uma época com pés e cabeça. Quanto ao Braga, entrará nos próximos 16 jogos com o país atento. Domingos terá de fazer ginástica e os jogadores correr mais do que nunca. O exemplo recento do Boavista prova que vencer é possível. Sempre e quando a estratégia a seguir seja a correcta. E a ambição não se deite pela borda fora por uns poucos milhões. 



Miguel Lourenço Pereira às 09:12 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 30.11.09

poucos fins-de-semana com este ritmo. Três países, três ligas, três clássicos históricos. Três percepções bem distintas de como encarar a bola. O espaço. O jogo. A verticalidade espectacular confronto o futebol horizontal e pausado. Pelo meio o eterno confronto entre o individual e colectivo. O futebol redescobre-se a cada fim-de-semana e um clássico é sempre mais do que um simples desafio.

Sábado, 28 de Novembro. Noite chuvosa em Lisboa. Ambiente quente e intranquilo. Nas bancadas os crentes e os desanimados. Dois olhares secos e expectantes por um jogo que muitos desajariam que viesse noutro momento. Quase todos até. A baixa de forma da "onda vermelha" era um fantasma que fazia pensar duas vezes a mais do que um adepto. A metralhadora encarnada começava a perder balas e os últimos desafios davam a nota do que podia ser o Benfica de Jesus quando só ficasse a táctica e desaparecessem os jogadores. No espectro oposto, uma equipa sem nada a perder. Já dizia Sun Tzu, na sua arte da guerra que bem podia ter sido a arte do futebol, que quando se encurrala a um inimigo é sempre aconselhável deixar-lhe um pequeno espaço para fugir. Senão corre-se o risco de que eles lutem até à morte. Porque não há salvação possível. E assim foi. O Benfica tentou acabar com as esperanças do Sporting em reconquistar um ceptro há muito perdido. E devolver aos leões o velho fantasma natalicio. A isso a equipa verde e branca respondeu com atitude e sacrificio. Muito. Correu-se mais do que se jogou. Procurou-se sempre o homem e nunca o espaço. Um espaço atolado de pernas. Com o seu 4-2-3-1 Carvalhal deu uma lição ao homem dos amendoins. Adrien e Moutinho ataram a máquina ofensiva do meio campo encarnado. Aimar e Di Maria foram inexistentes e Miguel Veloso incomodou mais Ramires do que ao contrário. Os erros defensivos iam dando a falsa ilusão de golo. Mas a bola não quis comungar nessa noite. A diferença pontual mantém-se mas Jesus voltou a pecar. Que o Sporting já parecia arredado da luta pelo título, isso até os próprios sportinguistas sabiam. Que o técnico que acreditava ter em mãos a melhor máquina ofensiva do futebol europeu se contente com um facto, prova de que algo começa a tremer do outro lado da 2 Circular.

Domingo, 29 de Novembro. Diluvio inevitável em Londres. Se fosse o velho Highbury talvez a chuva se notasse mais. Com aquele habitual reflexo na bancada do relógio. Mas o Emirates é mais um centro comercial do que um belo estádio e o ambiente gunner não é o mesmo. Um estádio de milhões para coroar uma equipa de milhões face a um grupo de aguerridos guerreiros. 11 pontos separam (aqui com um jogo a menos em disputa pelo Arsenal) os rivais. Um derby que pode nem ser o mais histórico da capital inglesa. Mas é o mais marcante da era actual. Um derby vertical e corajoso, totalmente distinto do clássico latino. As equipas respeitam-se mas não se temem. É mais um encontro. Mais uma oportunidade de brilhar. Jogo ofensivo e rápido. A bola circula veloz sobre o relvado e as oportunidades sucedem-se. O marcador final é implacável. E injusto. Não há equipa de maior mérito no futebol inglês que os comandados por Arsene Wenger. Sem dinheiro para investir, o técnico continua a apostar na sólida formação. Ontem faltava-lhe quase meia equipa. E não se notou. Ao contrário, o Chelsea pode dar-se a esse luxo. Deco, Ballack, Kalou e Malouda. Todos no banco. Tranquilos e abrigados. Ao lado de Carlo Ancelloti. Um homem que trouxe coerência e inteligência ao jogo de uma equipa leal e veloz. Os dois tanques africanos a meio - Essien e Obi Mikel - destabilizam o jogo. Criam ao destruir e lançam as setas venenosas. Drogba, o chamã da equipa, encarna a ligeireza do demónio e com o olhar desvia a bola para dentro das redes. O Chelsea é o rosto mais implacável do futebol. Joga hoje como nenhuma outra equipa. E prova que é capaz de destroçar, sem piedade, a um onze repleto de rebeldes cheios da ilusão da juventude. Mas que muitas vezes é insuficiente.

Domingo, 29 de Novembro. Noite chuvosa também em Barcelona. Um sinal de união entre três embates. E pouco mais. Se em Londres a bola corre veloz ao chapinhar na água que cobre o tapete verde, em Barcelona ela tranquiliza-se. Sabe que tem tempo de dar a volta ao terreno de jogo. Mais do que os milhões em campo, o duelo entre os dois grandes do futebol espanhol disputou-se no banco. As individualidades desapareceram sob o manto do colectivo. E quando surgiram, pecaram por falta de audácia. Cristiano Ronaldo prometeu marcar "10, 20 golos". Falhou um, clamoroso. Ou terá sido Valdés a defender? O futebol é sempre injusto com o nùmero 1 e assim rezam as crónicas. Do outro lado o futuro Ballon D´Or, já com a cabeça na viagem que fará a Paris, esqueceu-se de que a baliza é grande e que Casillas não a cobre por completo. Messi remata à figura e aqui já se diz que é o guardião espanhol quem trava o remate. Não terá sido o oposto? No meio das dúvidas das estrelas a inteligência de Pique e a verticalidade de Dani Alves resolveram o clássico de los clássicos. Zlatan Ibrahimovic teve apenas de cumprir a sua missão. No banco, onde se disputava a verdadeira refrega, Pep Guardiola sorria. Não se tinha enganado ao substituir o apagado Henry pelo audaz sueco. Na primeira parte Manuel Pellegrini até tinha ganho o duelo ao campeão, com uma equipa que apostava no lançamento rápido para o trio da frente - com Kaká a exibir-se, pela primeira vez, ao seu real nível - ao contrário do jogo de toque que tanto encanta o  Camp Nou. Mas a segunda parte foi bem diferente e o Barcelona até com 10 soube controlar um Real Madrid a quem lhe faltou sempre a inteligência de jogo. Mas nunca o coração. Acreditou até ao fim. Só que, no futebol, nem sempre acreditar é suficiente. E o retrovisor de Casillas ficou ligeiramente nublado. Pode ter sido da chuva.   



Miguel Lourenço Pereira às 08:54 | link do post | comentar

Segunda-feira, 16.11.09

A épica campanhã do Leixões na Taça de Portugal de 2001 - então na Segunda Divisão B - deixou um nome bem impresso. O futuro passaria os oito anos seguintes a comprovar um engano. Apesar dos elogios fáceis os triunfos sempre foram uma miragem longinqua. E as mudanças de banco também. Agora, aos 43 anos, Carlos Carvalhal tem a oportunidade da sua vida. Ele que dizia ser técnico digno de um grande terá agora de afiar bem as garras de um leão domesticado e inofensivo que até na escolha do técnico mostrou estar a anos-luz do seu estatuto.

Quando um rapaz convida uma rapariga para sair é habitual esta sentir-se lisonjeada. Especialmente porque dificilmente saberá que o seu nome era o último de uma longa lista de negas que deixaram o pobre pretendente desesperado. Quando essa lista é tornada pública, ao largo de uma longa semana, a reputação da rapariga torna-se duvidosa. E o seu valor também. Carlos Carvalhal está ansioso por agarrar uma oportunidade que há anos pedia a gritos. Mas não se livrará tão cedo de ser visto como o "último da fila". A rapariga que ninguém quer mas a que alguns têm de recorrer...quando não há mais ninguém. Carvalhal é um técnico de reputação duvidosa. Mas o Sporting também não é, hoje em dia, o mais interessante pretendente. Depois da saída de Paulo Bento e de parte da estrutura desportiva, ficou ainda mais a nú a debilidade organizativa de um clube que vive, cada vez mais, do seu centro de formação. E mesmo este, apesar de todo o esforço do anterior técnico, começa a dar sinais de fraqueza. Basta lembrar que há um par de bons jogadores que teimam em não renovar com os leões, à espera de uma jogada certeira do seu agente. Crescer em Alvalade já não é sinónimo de sucesso.

 

Com a equipa desfeita e sem remendos possiveis - o dinheiro escasseia, e muito - Carvalhal terá de trabalhar com a mesma matéria prima do seu antecessor. Mas, tendo em conta o seu perfil e o seu contrato a curto prazo, o novo técnico também não parece ter capital para reinvidicar algo mais. Terá de fazer o milagre da mediania, ou seja, de retirar o Sporting do agónico sétimo posto e levá-lo até ao top 4, porque o título é já uma miragem longinqua. Terá o novo treinador capacidade de pegar na equipa e trepar na classificação? Voltamos às origens.

O antigo jogador bracarense (que também passou por Chaves, Porto ou Tirsense) tem apenas um trofeu na carreira. Uma Taça da Liga ganha por Eduardo na ronda de penaltys, precisamente contra a sua nova equipa. Por essa época Carvalhal orientava o Vitória de Setúbal e vivia uma segunda juventude depois do falhanço total que foi a sua passagem por Braga. Antes tinha feito nome em Matosinhos, levando o clube leixonense à final da Taça de Portugal. Começou a ser considerado como a grande esperança dos bancos nacionais. As épocas seguintes desmistificariam o duvidoso titulo. Passou de forma inglória pelo Maritimo e este ano acabou por não resistir aos fracos resultados. Chegou a ponderar nova viagem ao estrangeiro - esteve por pouco tempo no campeonato grego, igualmente sem sucesso - quando lhe chegou um convite que não poderia recusar.

 

Nesta surpreendente escolha o factor surpresa é relativo. É evidente que os adeptos sportinguistas esperavam um nome consagrado para recuperar animicamente do consulado Paulo Bento. Dos consagrados Pekerman, Adriaanse ou Therim à promessa Vilas-Boas, um autêntico case-study de como a imprensa é capaz de transformar um rookie em génio em poucas semanas, tudo era esperado. Tudo menos o inevitável. Sem dinheiro em caixa e com o campeonato a caminhar para a sua primeira metade, é normal que a aposta do clube fosse num técnico barato e conhecedor da prova. Carvalhal enquadra-se nesse sistema e muito provavelmente a sua estadia será apenas até ao mês de Junho. Tem já no próximo fim de semana uma dura prova de ferro mas o duelo contra o eterno rival será a mais pequena das suas preocupações. Com um plantel curto e em baixo de forma (fisica e mental) o Sporting pode ambicionar a pouco este ano. Qualquer logro tornar-se-á, imediatamente, algo grandioso aos olhos dos adeptos. E é a essa realidade que o técnico que prometeu um "super-Braga" e um "super-Maritimo", defraudando sempre, tem de se agarrar. A Taça será a sua principal prioridade para garantir um posto europeu, já que a Champions é cada vez mais um tabu em Alvalade. Na liga Carvalhal tem apenas de esperar que se reponha a ordem normal das coisas, que uns tropecem e outros trepem, para acabar, como sempre, tudo na mesma.

No inicio da época o Sporting arrancava como candidato ao titulo. Havia um passado de estabilidade, uma equipa sólida e coerente e um técnico que conhecia os cantos à casa. Tudo aquilo que eram trunfos tornou-se em pesadelo. Hoje é preciso ar fresco, uma verdadeira trovoada para amainar a nau leonina. Carvalhal parece não ter o perfil para afiar as garras do leão. O passado não abona em seu favor. Mas realmente, o mesmo se sucede com o próprio Sporting. Talvez isso torne este casamento em algo profundamente natural, como sucedeu aliás há precisamente uma década, com então outro nome que não inspirava confiança a ninguém e que acabou por surpreender os mais optimistas, um tal de Augusto Inácio. Emular o seu destino é hoje o principal sonho do novo técnico, um homem que ainda não percebeu bem se entrou no céu ou no inferno. A liga será o seu longo purgatório!



Miguel Lourenço Pereira às 09:28 | link do post | comentar

Sexta-feira, 06.11.09

Paulo Bento cometeu um erro. Não hoje. Não ontem. Em Junho.

Ao aceitar continuar uma época mais ao leme do Sporting o técnico preferiu arriscar numa época que, já se sabia, iria tremendamente complicada. Podia ter preferido sair em alta, com um curriculum invejável para a conturbada história dos leões. Preferiu ir à luta. Hoje pousou as armas. E o Sporting volta a cometer o mesmo erro do passado.

 

Em Portugal, já se sabe, não há cultura desportiva.

Aliás é um mal ibérico e não só português, um mal de pessoas que vivem para o imediatismo e nunca pensam num horizonte um pouco mais longe do que têm à frente dos olhos. Talvez por isso os inimigos de Paulo Bento tenham aumentado de forma considerável no último ano. Afinal, há décadas que um técnico não ficava tanto tempo no banco do clube leonino. Um clube habituado a despedir treinadores à minima falha. Durante 4 anos Paulo Bento reformulou o futebol do Sporting. Uma equipa com o amor próprio ferido pela semana trágica em que perdeu a Liga e a final da Taça UEFA no seu próprio estádio. José Peseiro foi vitima do seu insucesso e para o substituir a direcção escolheu o low-profile do campeão de juniores. Desde esse Outono de 2005 até hoje a equipa do Sporting tornou-se o segundo grande de Portugal. Quatro segundos lugares consecutivos. Duas vitórias na Taça de Portugal e igual triunfo em Supertaças. A primeira classificação para os Oitavos de Final da Champions League. E vários jovens emergentes lançados e consagrados por um técnico que, a principio, parecia só ser de transição. Neste seu mandato de quatro anos - uma eternidade para o típico adepto português que elogia os mais de 25 anos que leva Alex Fergusson em Inglaterra mas que não suporta uma derrota do seu treinador - a verdade é que Paulo Bento cometeu erros. Mas nenhum tão grave como ter aceitado ficar quando todos os sinais o convidavam a sair.

 

O problema do conjunto de Alvalade é claramente estrutural e quanto a isso não há santos milagreiros. O falhanço absoluto do Projecto Roquette, tapado pelas duas ligas ganhas por Augusto Inácio e Lazlo Boloni - dois técnicos que depois de se sagrarem campeões tiveram pouco apoio da direcção - levou o Sporting quase à ruína financeira absoluta. Os gastos com a equipa e com a SAD tornaram a instituição financeiramente inviável. E quem se ressentiu foi o aspecto desportivo. Nos últimos 4 anos, os mesmos em que Paulo Bento esteve ao leme, o investimento no futebol foi minímo. Enquanto o FC Porto passava os defesos a fazer milhões com vendas e a gastar milhões com compras e com o SL Benfica nos habituais gastos despropositados que poucos ou nenhuns resultados trouxeram, em Alvalade a palavra de ordem era contenção. Paulo Bento teve ordens - e traquejo - para apostar na escola de formação de Alcochete. Lançou ou confirmou os valores que fariam parte da estrutura actual leonina. João Moutinho, Miguel Veloso, Nani, Djaló, Pereirinha, Adrien, Rui Patricio ou Daniel Carriço foram apostas suas claras. Todas ganhas. Para compensar a direcção pouco ajudou. Apostou em comprar barato e mal. Trouxe jogadores em final de carreira (casos de Rochemback, Miguel Angulo ou Derlei) ou cujo o nível estava monte longe do que era "vendido" aos adeptos (Grimi, Stoijkovic, Vuckcevic, Postiga, Matias Fernandez, Caicedo). E descompensou um plantel já de si curto por definição.

 

Apesar de todas as contrariedades o Sporting conseguiu quatro segundos lugares consecutivos. No conturbado historial de um clube que passa do 8 ao 80 no espaço de uma época - e que viveu durante 19 anos bem longe dos dois primeiros postos - era um feito. Para os adeptos não. Pelo caminho ainda ficaram as conquistas de duas Taças de Portugal (frente ao Belenenses e ao FC Porto) e as constantes presenças na Champions League. O estilo de jogo de Bento pautou-se rapidamente por um 4-4-2 em losango com a aposta em constante trocas de bola no miolo à procura da rápida movimentação de Liedson, o seguro de vida pessoal do técnico durante o seu mandato. O "levezinho" resolvia quando os outros emperravam a máquina e ia escondendo as fragilidades da equipa. O treinador pedia jogadores para posições chaves mas a direcção fechava a porta a investimentos. A situação tornava-se cada vez mais complicada e com as eleições para a presidência a constentação a Paulo Bento foi ganhando cada vez mais forma. Numa equipa que dificilmente seria tantas vezes vice-campeã noutra conjuntura, ser segundo já não bastava. No final da passada edição da liga Paulo Bento teve um momento de dúvida. E optou pela via do sacrificio.

 

Desde o defeso que se percebeu que as baixas no plantel não tinham sido colmatadas e que as entradas eram de nível bastante duvidoso. A manta não tapava os pés e o resultado começou a ficar claro na precoce eliminação europeia, depois de um apuramento in extremis frente ao Twente, capaz de dissimular os graves problemas no plantel. A falta de apoio a Bento pela direcção desportiva nos seus confrontos públicos com os jogadores mais rebeldes (Stoijkovic, Vuckevic e Miguel Veloso) deu sempre a entender que o técnico estava cada vez mais só. A ponto de que não havia nenhum rosto que viesse ao terreno defender a sua atitude. Era um comandante à deriva e o naufrágio tornava-se inevitável. Foi hoje, depois de mais um resultado que espelha bem a deficiente preparação do plantel para atacar uma temporada em três frentes. Curiosamente a equipa está prestes a apurar-se na Europa. Mas nem isso é suficiente. A falta de apoio era clara e Paulo Bento tomou a única decisão que combina com o seu caracter. O erro está na direcção por ter aceite o seu pedido. A mesma linha de direcção leonina que volta a cometer os mesmos erros que custaram o cargo a Bobby Robson, Carlos Queiroz, Octávio Machado, Augusto Inácio, Lazslo Boloni e José Peseiro. Tudo técnicos com projectos estáveis para um clube instável por natureza. E que foram utilizados como cabeças-de-turco pelos rostos escondidos nos bastidores. São eles os reais responsáveis do descalabro leonino.

 

Sem Paulo Bento o Sporting provavelmente vai continuar igual. Os defeitos no plantel são largos e não se solucionam com varinhas mágicas ou incursões no mercado de Inverno. A distância para o trio da frente é já demasiado significativa para uma reviravolta e o objectivo deve ser repensar a estratégia. O Mundial - se Portugal lograr o apuramento - pode servir para o clube fazer caixa com vendas previsiveis (Miguel Veloso, João Moutinho e talvez Liedson), mas o novo treinador continuará a debater-se com a mesma crise interna de directivos. Os adeptos esperam o milagre da chicotada, mas o panorama parece ser mais negro do que auspicioso. Paulo Bento não deveria ter arrancado esta época no comando da nave. Mas deveria tê-la acabado. O Sporting devia-lhe isso!



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar

Segunda-feira, 05.10.09

Para os sportinguistas pode ser preocupante que a sua equipa esteja neste momento a 11 pontos do líder do campeonato, o intocável Sporting de Braga. Mas para os seguidores da liga portuguesa a situação é bem mais escalofriante. Esses 11 pontos de atraso quando se cumpre o primeiro quarto da prova não impedem os leões de caminharem sós no 4 posto. Portugal é a única liga europeia onde se abre um fosso tão grande entre os primeiros e os outros. Entre o líder e o último qualificado para a Europa. E entre o líder e o último da prova. Tendo em conta as especificidades de cada liga (as grandes provas europeias contam com 20 clubes) fica cada vez mais clara a falta de nível da prova portuguesa que está a ponto de cair do top 10 das ligas europeias. Um espelho de mais um fraquíssimo campeonato a que estamos a assistir.

 

Em quinto lugar na classificação deste Liga Sagres 2009/2010 - e último posto europeu - surge o surpreendente Rio Ave com 10 pontos. menos 12 que o líder da prova. Há ainda a incógnita Nacional da Madeira, que tem 5 pontos mas menos dois jogos (pode igualar os leões). Mas os dados são inatacáveis. Do sexto posto (já fora da Europa) ocupado pelo Maritimo ao último lugar da classificação há uma simples diferença de cinco pontos. Com sete jogos disputados. A redução de equipas na prova, de 18 para 16, teve o condão de espelhar melhor o nivelamente por baixo do futebol nacional. Este ano comprova-o mais do que nunca. Os clubes que sobem de divisão - União de Leiria e Olhanense - conquistam uns miseros 7 e 6 pontos, em tantos jogos disputados. Noutra prova estariam nos lugares de despromoção. Na Liga Sagres estão a meio da tabela classificativa que deixou os históricos para o final da linha (Académica, Setúbal, Vitória de Guimarães e Belenenses confirmam, uma vez mais, que estatuto histórico e sucesso presente em Portugal não andam de mãos dadas) e lançou uma imensa confusão no coração da classificação. De todos os clubes em prova a Académica foi o único que ainda não venceu. O que poderia ser preocupante com sete jogos é-o menos, tendo em conta que os estudantes estão apenas a...sete pontos de um posto europeu, o tal ocupado pelo Rio Ave que lidera o pelotão da mediocridade.

 

Na primeira metade da tabela, reduzida a três equipas - o Sporting anda no limbo este ano mais do que nunca e nem ata nem desata - espelham-se as diferenças. O Braga assume um projecto ganhador que está a exibir números impressionantes. Domingos Paciência tem a lição bem estudada e leva sete jogos vitoriosos, incluindo uma vitória sobre FC Porto e outra em Alvalade. Falta o duelo com as águias de Jesus para confirmar, definitivamente, se este conjunto arsenalista é todo terreno como aparenta ser. Vitórias sofridas, já as houve. Mas futebolisticamente o conjunto bracarense mostra uma grande solidez e organização. Sem estrelas mas com coerência, o Braga prova estar numa forma imbatível e resta ver até onde poderá ir. À espera do tropeção estão SL Benfica e FC Porto. A diferença entre ambos neste momento é nula, mas se as águias vencerem o jogo de hoje amplia-se a três pontos. O tal jogo com o Braga que falta aos encarnados e que leões e dragões já sofreram na pele.

O Benfica apresenta um bom jogo, trabalhado e estudado, mas a realidade é que ainda não se deparou com um rival ao mesmo nível. E na Europa já colecciona duas derrotas. Os azuis e brancos apresentam, pelo contrário, um futebol sem chama e interesse, mas nas provas europeias deram um golpe de autoridade ao bater o rival directo ao apuramento. No entanto nem Benfica nem Porto apresentam o mesmo indice de eficácia e organização que os arsenalistas. E daí a diferença na tabela classificativa.

 

Olhando um pouco para o resto das ligas europeias fica claramente no ar a diferença de atitude e competitividade. Em Espanha o Barcelona já lidera só, com um registo impressionante de eficácia (18 pontos em 6 jogos) mas tem apenas seis pontos de avanço para o quarto classificado (o Deportivo), oito para o sétimo (último posto europeu, o Mallorca) e 16 para o último (o vigésimo, Xerez). Em Itália a Sampdoria e o Inter partilham a liderança com 16 pontos em sete encontros. Têm dois pontos de avanço do quarto (Fiorentina), cinco do sétimo (último europeu) e 13 do último (vigésimo, o Livorno). Na Premier League o líder Chelsea conta com 21 pontos em 8 encontros e leva seis de avanço do Arsenal, que segue em quarto. Do Manchester City, no último posto europeu, são seis os pontos de avanço e do último em prova, o Portsmouth, são 18.

 

E se estas são as três ligas maiores do futebol europeu, e por isso inalcançáveis para a pobre realidade portuguesa, basta olhar para provas ao mesmo nível - segundo o ranking da UEFA - e seguir as classificações das ligas holandesa, ucraniana ou romena (já que França, Alemanha e Rússia são também de outro planeta) para confirmar que os números são bastantes similares. Na Roménia o Rapid Bucaresti lidera com 18 pontos em 9 jogos. O quarto está apenas a dois e o sexto a 4. O último e 18 está a 15. Na Holanda o Twente lidera com 23 pontos em 9 jogos e o 4 segue a três pontos, o sexto a 8 e o último a 20. E na Ucrania, com 9 jornadas disputadas, há um lider (Dynamo Kiev) com 25 pontos que tem oito de avanço do quarto, 10 de avanço do sexto e 24 de avanço do último. De todas as provas esta é a única que conta com as mesmas equipas que a Liga Sagres. E que espelha bem que o futebol português está, hoje em dia, cada vez mais similar com a segunda e terceira divisão europeia e cada vez mais longe do equilibrio e interesse que despertam as grandes ligas.

 

Face à postura habitual do futebol português a queda no ranking UEFA é inevitável. Portugal - que já foi a primeira liga europeia depois das cinco grandes - hoje corre o grave risco de cair do top 10. Rússia, Ucrânia, Roménia e Holanda já estão um degrau acima e Grecia, Turquia, Escócia e Bélgica, por exemplo, surgem ao virar da esquina. Sem mudanças de fundo e estrutura na mecânica profissional da liga e com um controlo asfixiante da organização desportiva e de distribuição de lucros pela ditadura dos chamados grandes e de um par de empresas que enfeudaram por completo o futebol portuguës, o destino de Portugal é ir caíndo a tropeções na classificação. E por muito que o FC Porto continue a ganhar triunfos na Champions League, o futebol nacional está cada vez mais perto do abismo. E sente-se no ar um profundo sentimento suicída...



Miguel Lourenço Pereira às 14:21 | link do post | comentar

Quarta-feira, 30.09.09

Um golo a abrir. Poucas emoções fortes a fechar. Um derby sem sabor de boca e com a habitual polémica servida pelo técnico leonino. A suspensão - algo recorrente em Paulo Bento - espelha o desnorte que se vive em Alvalade. E facilita o trabalho a um FC Porto que continua a anos luz do que pode e deve fazer. Sob pena de ser presa fácil de uma ave predadora em grande forma.

Apesar das dificuldades inesperadas - face ao pobre jogo leixonense até ao fim de semana - o SL Benfica voltou a massacrar. Cinco golos sem resposta continua a ser muito para uma liga tão pobre na eficácia como a portuguesa. E se a eficácia em bolas paradas ajuda, e de que maneira, a verdade é que o conjunto encarnado se está a especializar em ser uma verdadeira equipa de ataque. O Leixões resistiu enquanto pôde, tem razões de queixa dos árbitros mas, feitas as contas, nunca foi uma oposição real. E continua a pertencer ao clube do Portugal dos pequeninos. Que por esta liga são cada vez mais. Se o Braga mantém o nível - excelentes niveis de concentração do conjunto bracarense mesmo em jogos assumidamente complicados como o do Olhanense - e o Benfica assume-se como definitivamente rejuvenescido, já o Sporting continua a confirmar-se como a decepção da época. Já não é apenas o jogo sem vida, sem chama, sem garra. O leão tem as unhas aparadas mas não a lingua curta. Face à superioridade desportiva do rival e - pior ainda - face à incapacidade técnico-táctica diante de um rival que até tem um historial de grandes dificuldades com os leões, Paulo Bento voltou a adoptar o discurso da vitima. O técnico do Sporting é hoje, cada vez mais, uma caricatura de si próprio. O balneário pode ser curto e complicado mas o desnorte é evidente. Um meio campo sem uma ideia, um ataque sem eficácia (sem Liedson em forma a equipa continua a flutuar entre o fraco e o mediocre) e uma defesa de bradar aos céus, facilitaram, e de que maneira, o trabalho aos campeões nacionais.

 

O FC Porto saiu vencedor do derby, mas por pouco. O clube das Antas entrou melhor, dominou e controlou na primeira meia hora e podia ter ampliado a vantagem madrugadora conseguida por Falcao. Mas não. Este FC Porto perde rapidamente o combustível e ainda não tinha chegado o jogo a meio e os azuis e brancos já tinham perdido o controlo do encontro dando aos rivais soberanas oportunidades de empatar. Contra outros rivais talvez o desfecho pudesse ter sido diferente, mas de Alvalade não parecem sair armas letais. O conjunto de Jesualdo Ferreira é cada vez mais lento, previsivel e pouco emocionante. Um jogo pastelento e sem chama que não explora o jogo pelas alas e que congestiona demasiado o futebol no eixo central. Raul Meireles - chamado a ser o elemento fulcral desta época - continua uma sombra do que já se viu. E quanto aos reforços, estes teimam em desiludir. Salvo o olfato goleador do colombiano (que ainda teve tempo para falhar o penalty que podia ter afundado ainda mais o orgulho leonino) e a velocidade de Alvaro Pereira e Varela, nota-se claramente que o professor do Tetra tem muito trabalho pela frente se quer aprovar a tese de mestrado do Penta.

De momento fica o sabor dos três pontos conquistados a ferros e o sentimento de superioridade perante uma figura de desenho animado que a cada golpe levanta a polémica do vazio absoluto. No seu caso, de ideias está claro.



Miguel Lourenço Pereira às 15:06 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 19.08.09

No jogo em que, curiosamente, fica mais com um pé fora do que dentro da ansiada Champions League, o Sporting conseguiu a melhor exibição da (ainda curta) época e deixou no ar a ideia de que é algo mais do que a sonolenta formação dos primeiros três jogos oficiais. No entanto voltou a Alvalade o fantasma de Dr. Jekyll/Mr. Hyde que tanto tem assombrado os leões deixando uma vez mais a nú as duas caras da equipa e do seu técnico.

A Fiorentina até estava em ritmo de pré-época (o campeonato só arranca sábado e este foi o primeiro jogo oficial dos viola, uma equipa bem melhor do que se viu). O árbitro também voltou a provar que no mundo do apito há maus profissionais em todos os sitios. Mas mesmo assim o Sporting deu dois precisos tiros no pé que podem ter prejudicado as legitimas aspirações aos milhões da Champions que tanta falta fazem num clube asfixiado pelas dividas acumuladas desde o inicio do Plano Roquette. E no entanto, paradoxalmente, ontem viu-se o melhor Sporting do ano e uma das mais interessantes exibições em largos meses. A equipa sofreu duas contrariedades durante a primeira hora que, noutras circunstâncias, poderiam ter sido decisivas. E soube dar a volta a ambas. Mostrou atitude, garra e espirito de sacrificio. Abdicou dos golos afortunados e da dependência de Liedson e provou ser um conjunto coeso. Ontem viu-se em Alvalade um Moutinho esclarecido, um Carriço senhorial e um Miguel Veloso na sua melhor versão, que deixa antever que talvez o médio tenha ultrapassado a sua fase descendente, voltando a cotar-se como uma das grandes promessas do nosso futebol. Vimos esse Sporting ligeiro no contra-ataque e seguro a meio campo. Vimos tudo isso mas vimos também esse lado obscuro que muitos teimam em atribuir ao nosso fado mas que é retrato exacto da dualidade leonino dos últimos anos.

É impensável que numa prova da UEFA um árbitro actue como se viu ontem, mas também se tem de pedir mais a um jogador que, depois de ter um amarelo (escusado) festeja um golo tirando a camisola. Vuckcevic podia ter sido - uma vez mais - o heroi do dia e acabou vilão. A sua constante imaturidade, com a qual Paulo Bento pura e simplesmente não sabe lidar, foi um de muitos casos de uma equipa a quem lhe falta claramente um lider. Os erros defensivos (que já vêm do ano passado) de Pedro Silva e Anderson Polga nos golos italianos são indisculpáveis. E se para o lado direito o técnico tem opções (Abel ou Pereirinha), no centro a má forma do brasileiro é notória desde há muito e merecia um investimento do clube no mercado ou então, pura e simplesmente, a reabilitação de Tonel. Problemas graves que não podem existir numa equipa que quer ir longe e que já tinham sido deixados a nu nas goleadas do ano passado na Europa. No meio de tudo isso - e apesar do bom esforço do meio campo - está a figura de Paulo Bento. Depois de quatro campeonatos como vice-campeão, o técnico está na corda bamba. Ele é o espelho real desta dupla personalidade do Sporting. Por um lado soube ressuscitar o espirito colectivo do onze, apostou em várias promessas da formação seguindo o trabalho dos antecessores e voltou a colocar o clube na luta pelos principais trofeus desportivos. Agora o outro lado. A equipa joga de forma previsivel há anos, não existe nenhuma inovação táctica apreciável, há várias "vacas sagradas" em campo que prejudicam claramente o rendimento do colectivo e - a mais evidente - estamos perante um técnico que não se sabe mexer no banco.

 

As entradas de Djalo (quando havia Caicedo) ou Caneira num jogo da natureza de ontem são mais um claro exemplo das limitações de Bento. A sua (in)tranquilidade consome-o de jogo para jogo e a equipa ressente-se. Bento é um treinador claramente mediano. Em quatro anos percebeu-se que não pode ir mais longe. Estagnou. No banco é lamentável a sua falta de inovação e dinamismo. Erra bastante ao tocar na equipa e é incapaz de conseguir, num mesmo desafio, alterar o esquema de jogo consoante as circunstâncias do encontro. Encontrou o seu losango, o seu onze tipo, e desde então apostou na politica de tocar o minimo e rezar para que alguém resolva. Por um lado sabe ser pesado para jogadores "insurrectos" e por outro é participe da péssima forma de alguns jogadores que poucos ainda entendem como podem andar pela titularidade (Polga, Rochemback, Postiga são os casos mais gritantes). A Bento falta-lhe caracter para liderar um projecto ganhador. Não deixa de ter tido um papel importante em estabilizar desportivamente a equipa, construindo um onze base com sucessivas (que nem sempre bem sucedidas) apostas na prata da casa. Mas isso não chega quando se quer der um passo mais e o comandante não sabe como.

A eliminação na Champions (é muito complicado vencer em Florença) é um grave problema financeiro mas que o clube já devia ter antecipado pelo nivel dos eventuais rivais. Mas poderá servir para que a equipa na Europe League compita com clubes correspondentes ao seu real valor em campo e ganhe a estaleca que precisa para dar um salto qualitativo. Mas enquanto se continuar a misturar com tamana assiduidade o génio e espirito do colectivo de ontem com os tamanhos erros individuais de técnico e jogadores, será dificil ao Sporting alcançar os objectivos do ano.



Miguel Lourenço Pereira às 12:58 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 24.07.09

Apesar do avassalador domínio de um clube nos últimos vinte e cinco anos. Apesar de que um dos clubes está numa grave crise de identidade, perdendo a base de adeptos que foi conquistando ao longo da história. Apesar de que a número mágico dos seis milhões há muito que deixou de ser mito urbano para passar a ser uma ambição impossível. Apesar de tudo o futebol português continua a girar à volta dos chamados Três Grandes. Reportagens, jornais, revistas, transmissões televisivas, dinheiro. Tudo em Portugal gira à volta de FC Porto, SL Benfica e Sporting CP. Não interessa o aspecto desportivo ou financeiro. Nem que uns hoje sejam mais grandes que outros. Nem que haja equipas cada vez mais consolidadas na parte alta da tabela. A Liga Sagres continua a publicitar-se a coisa de três, e a três semanas do arranque da prova chegam as Três Grandes Questões:

 

O FC Porto vive uma pré-temporada agitada e cheia de sinais para o futuro e uma pertinente primeira questão presente. A venda de dois elementos chave do plantel do Tetracampeonato - os argentinos Lucho Gonzalez e Lisandro Lopez - e da revelação Aly Cissokho permitiram um encaixa na ordem dos 60 milhões de euros, valores a que se acrescentam as vendas definitivas de Paulo Machado, Ibson e os direitos sobre Paulo Assunção. Face a estas receitas extraordinárias - que seguem a tendência dos últimos seis anos e que permitiram nesse periodo aos dragões tornar-se num dos clubes que mais dinheiro viu entrar nos seus cofres - gastaram-se aproximadamente 25 milhões de euros em dez caras novas. Jesualdo Ferreira terá de montar nova equipa do zero, à semelhança do que vem ocorrendo nos últimos anos. O treinador conta com um vazio de poder no balneário (Pedro Emanuel também terminou a carreira e Bruno Alves pode estar de saída) e muitos jovens novos para encontrar um lugar ao sol. O novo FC Porto é também espelho da tendência dos portistas de pescar na América do Sul de fala castelhana. E aí os campeões são argentinos. Quase se pode dizer, ironicamente, que os campeões nacionais podem trocar os calções azuis pelo preto já que se parecem tanto à albi-celeste. São sete os jogadores das pampas no plantel (Farias, Benitez, Tomas Costa, Mark Gonzalez, e as novidades Valeri, Belluschi Perdiger) quase tantos como os sul-americanos não argentinos (quatro brasileiros - Helton, Maicon, Hulk e Fernando - três uruguaios - Fucile, Alvaro Pereira e Rodriguez - e dois colombianos - Guarin e Falcao). Esta colónia da América do Sul é um problema num clube que tentou contrabalançar o efeito, aportuguesando o balneário com novas caras. É aí onde entram Beto, Miguel Lopes, Nuno Coelho, Varela ou Orlando Sá. No entanto, os jovens portugueses são vistos como promessas e terão mais dificuldades em impor-se num onze ainda pouco lusitano.

 

A grande questão dos campeões, que procuram o segundo Penta da história, é saber se as bases da equipa campeã se sustêm sem a dupla Licha-Lucho. Enquanto que Alvaro Pereira deu optimas indicações no lado esquerdo da defesa e Maicon, Nuno Coelho e Beto parecem ser boas opções para o eixo defensivo, as principais questões centram-se na linha de meio-campo. Enquanto que Jesualdo Ferreira tem finalmente um plantel para abandonar o 4-3-3 por um 4-2-3-1, a equipa parece continuar a apostar na táctica que tantos bons resultados deu nos últimos anos. Raul Meireles e Fernando são fixos no coração do meio campo com uma vaga aberta para Belluschi, Guarin, Costa e Valeri lutarem. Nas alas há várias soluções, da explosão de Varela, à força de Hulk sem esquecer o jogo vertical de Gonzalez e Rodriguez. Quanto ao lugar de ponta de lança, orfão de Lisandro, os dragões contam com Falcao - com fama de goleador no River Plate - e ainda OrlandoFarias. Apesar das criticas à gestão do FC Porto (a questão do passivo, jogadores emprestados em excesso, mau aproveitamento de marketing e imagem, autismo dentro da própria liga), é indiscutivel que os azuis e brancos são o clube dominante no futebo nacional e arrancam como favoritos em Agosto para celebrarem em Maio (ou antes até, como já se viu há duas temporadas).

 

A questão número 2 chama-se Sporting Clube de Portugal.

O conjunto lisboeta tem um gravíssimo problema que ainda não soube resolver nos últimos dois anos. Há muito que perdeu a massa associativa histórica ganha com os titulos dos anos 50 e 60 e hoje é claramente o mais "pequeno" dos grandes. A nivel de publico e a nivel financeiro com uma gravíssima crise, resultado dos erros do Plano Roquette que amputaram por completo a ambição desportiva. A participação na última Champions League, apesar de histórica, deixou a nu todas as debilidades do conjunto leonino que, apesar dos quatro segundos postos consecutivos, não ganha uma liga desde 2002. E a verdade é que o conjunto não joga bem, ganha pela minimo e vive do esforço fisico de Moutinho e dos golos de Liedson. Para este ano não se esperam mudanças. No mercado a equipa simplesmente limitou-se a substituir o que perdeu. Saiu Derlei e entrou Caicedo para formar dupla com Liedson, um jogador fisico e explosivo para contra-balançar o oportunismo e técnica do 31. E no meio campo saiu Romagnoli, que nunca vingou no onze de Paulo Bento, e chegou Matias Fernandez, chileno que não deixa saudades em Villareal. Da formação - a salvação leonina nos últimos anos - chegam apenas Andre Marques e Carlos Saleiro, mas estes já há vários anos que actuavam emprestados. Quanto aos últimos a ser promovidos, o clube continua a viver com as birras de Miguel Veloso e a falta de explosão de Adrien e Pereirinha.

 

O Sporting 2009/2010 é menos candidato ao titulo que nos últimos anos. Um futebol cada vez mais previsivel e pastelento, capaz de adormecer o mais entusiasta e uma manifesta dificuldade em improvisar, fazem do onze leonino um alvo relativamente acessível para equipas mais ambiciosas. O plantel não é grande para quatro frentes abertas e Paulo Bento ainda não provou ter o golpe de génio capaz de dar a volta ás mais complexas contrariedades. Este é o seu ano decisivo.

 

Por fim chegamos à questão número 3, o eterno drama benfiquista.

Depois de vencer a liga em 2004 - a primeira em dez anos - o clube presidido por Luis Filipe Vieira entrou em fase de auto-destruição. As experiências com Koeman e Quique não funcionaram e agora Rui Costa e o polémico presidente apostam num treinador popular junto da massa associativa e cheio de ambição, mas sem provas dadas. Dando o beneficio da dúvida a Jorge Jesus e ao seu 4-4-2 uma coisa é certa. A qualidade do plantel encarnado melhorou bastante. Apesar da critica habitual aos planteis benfiquistas, a verdade é que as melhoras, de ano para ano, tem sido progressivas porque durante anos o plantel do Benfica era realmente miserável. Este ano voltaram-se a gastar quase 25 milhões de euros (tal como no ano passado sem retorno o que aumenta os problemas financeiros do clube que há muito deixou de ser a referência em Portugal), dois quais 13 foram para os cofres do Real Madrid. 

 

Enquanto que o problema da baliza continua, a defesa continua a ser o calcanhar de aquiles do clube da Luz. Nas laterais, Sepsi e Schaffer não convencem à esquerda enquanto que Patric e Maxi dão boas indicações no lado oposto. No eixo não há jogadores capazes de substituir Luisão, apesar de que Miguel Vitor e Roderick são nomes a seguir. Apostando no 4-4-2, o lado mais recuado do meio campo está entregue a Ramires (com Yebda e Javi Garcia como opções) com Di Maria, Carlos Martins/Ruben Amorim e Aimar no apartado ofensivo. O ataque Cardozo-Saviola parece eficaz e Nuno Gomes, Mantorras e Weldon são opções com caracteristicas distintas e que podem equilibrar a equipa no decorrer do ano. 

 

Mas se o plantel encarnado tem mais soluções este ano do que na temporada passada, Jorge Jesus tem de jogar com as altas expectativas que ele próprio levantou. Em lugar de partir como underdog e aproveitar falhas do conjunto azul e branco, o técnico colocou a fasquia bem alta e não tem margem de manobra. O clube precisa de um titulo grande para justificar os investimentos e a arrogância dos últimos anos, sem quaisquer resultados práticos até hoje. No papel são os grandes rivais do FC Porto. Na prática têm de demonstrar tudo o que têm dito. Porque palavras leva-as o vento.. 

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:52 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 15.06.09

Ano após ano o futebol nacional vive e revive o mesmo cenário de transe analítico de final de temporada na Segunda Circular. Depois de mais um ano sem títulos de renome - e já lá vão quatro num eixo e uns longos sete no outro - toca a reavaliar, estructurar e recomeçar do zero. Sem resultados aparentes. Este ano chega aliás com bónus eleitoral num país que, já por si, estará farto de ir a votos. Em nenhum caso a crise institucional aclara e ajuda a solucionar o problema desportivo. As sucessivas sucessões e guerras de reis sem trono e tronos sem reis são um fenómeno cada vez mais habitual, ausente a norte do Douro, onde a longa ditadura de quase três décadas de Pinto da Costa, ajuda a esconder os podres da casa e a ressaltar as conquistas no terreno de jogo. Para Benfica e Sporting isso é um sonho longinquo e já se sabe, quando se começa já a época de corda no pescoço, torna-se complicado nçao acabar bem enforcado.

 

Se está claro que o nivel de uma prova depende da qualidade competitiva dos seus principais elementos, então aí está a explicação mais lógica para o baixo nível do futebol português e a constante facilidade na renovação do ceptro de campeão por um FC Porto muitos furos abaixo do possível. Benfica e Sporting são hoje, cada vez mais, fantasmas do que já lograram no passado. Longe de apresentar projectos sólidos e estaveis, capazes de bater o pé aos agora tetracampeões nacionais, os dois grandes da capital disparam sucessivos tiros nos pés, ano após ano, hipotecando muitas vezes antes do próprio inicio da temporada todas as suas hipoteses. Uma falta de clarividência que chega a ser assustadora se observarmos bem que ambas as instituições têm mantido a mesma linha directiva (no caso do Benfica já são cinco anos de presidência e no caso leonino uma continuidade que vem dos dias de José Roquette) nos últimos anos e mesmo assim sem reais resultados. Águias e leões entram em campo a medo, incapazes de demonstrar bom futebol, muitas vezes a sonhar que o máximo a lograr é um segundo posto. Atitudes negativas que puseram em causa vitórias que pareciam claras e hipotecaram naturais opções ao título nacional como sucedeu há três anos e mesmo durante grande parte da época transacta, as duas provas onde o nível do FC Porto baixou a niveis assustadores. Em ambos os casos os dragões mostraram nos momentos decisivos esse pedigree de campeão que anda escondido a maior parte do ano mas que ainda subsiste. Um nivel que os dois colossos da Segunda Circular parecem ter perdido, comportando-se cada vez como anões.

 

Este ano ainda não terminou (ou arrancou como preferirem já) e enquanto o FC Porto se diverte a desmantelar mais uma equipa com negócios mais ou menos obscuros, já Sporting e Benfica começam a deitar por terra as suas reais opções. Ambos a braços com eleições directivas, ambos a braços com problemas desportivos, os dois clubes falham de novo no mercado, nas formas e na dinamica desportiva. Os sportinguistas deram uma esmagadora maioria a mais um presidente que continua a politica desportiva minimalista que transformou um clube que foi campeão dois anos em três no inicio da década numa instituição que já quase dá como por assumido que o segundo posto - e a classificação para a Champions League - são o prémio mais elevado a lograr. Se nas provas nacionais do Sporting só se vê serviços minimos, na Europa a prestação do ano passado foi hilariante, chegando mesmo a colocar o real valor da equipa que tinha arrancado o ano com tantas ilusões. Incapazes de resolver problemas de balneário sem criar crises institucionais, com um técnico limitado tacticamente e que é constantemente deixado só ante o perigo, o Sporting arranca mais um ano baseando apenas nos jovens que vai formando e em meia dúzia de elementos a custo zero que pouco ou nada trazem ao colectivo. Uma absoluta falta de ambição desportiva que se nota a léguas. Em Alvalade há pouca esperança de que a coisa mude.

 

Por outro lado, o Benfica vive os seus habituais defesos. Muitas capas de jornais vendidas, muitos jogadores contratados e no final, o resultado de sempre. Na época passado o novo director desportivo, cheio de boas intenções, Rui Costa, montou o melhor plantel encarnado da última década. Mas entregou-o a um técnico sem resultados evidentes e com uma notória falta de conhecimento da realidade do futebol português. Achou que os serviços minimos funcionavam e até Dezembro, com ajuda de Porto e Sporting, até teve razão. Mas quando se exigiu mais viu-se que naquela cama os pés ficavam de fora. O plantel bem estructurado caiu num onze mal planeado deixando de fora vários elementos que poderiam ser tacticamente relevantes na estructura encarnada. O resultado foi mais um terceiro posto, uma péssima participação europeia e um ano mais de orgulho ferido para aquele que ainda é (mas por quanto tempo?) o conjunto nacional com mais titulos. Agora que o presidente voltou a querer todo o protagonismo, preparando-se para mudar tudo de novo (novo técnico, novos guarda-redes, defesas, médios, avançados, ....) parece que a equipa tão bem montada já não vale de nada. Que o Benfica ande no mercado atrás de um guarda-redes quando tem dois internacionais portugueses no plantel, é a viva prova de que a confiança é uma palavra inexistente na Luz. Que o plantel se prepare para avançar para o mercado sem ter ainda um técnico com contracto assinado, é também sinal de que LF Vieira continua, um ano mais, a provar que é daqueles presidentes que não conseguem deixar de lado o lugar de treinador frustrado. E se apostar em Jorge Jesus pode ser a solução para consumo interno, há muito que os adeptos benfiquistas perderam a ilusão de ver jogar uma equipa como a que a logrou ao título de 1993/1994, apenas um dos dois conseguidos nos últimos...quinze anos!

 

Olhando bem para o panorama é mais do que preocupante observar que os dois clubes históricos da capital possuem em 18 anos apenas 4 titulos de campeão em total (dois para cada) contra a vitória solitária do Boavista e as 13 conquistas azuis e brancas. O FC Porto tem sido uma sombra de si própria desde que Jesualdo Ferreira tomou o leme do Dragão mas mesmo assim vive um periodo dourado de conquistas internas. Mais do que mérito azul e branco - que o houve, especialmente na época 2007/2008 - estamos claramente diante de uma nova época num futebol que fala a uma só voz e onde todos os outros clubes teimam em não se fazer ouvir. Que os problemas estructurais dos crónicos clubes de classe média os impeçam de subir, é algo a que estamos habituados. Que os habituais candidatos ao titulo se comecem a portar, cada vez mais, como se estivessem em pleno transe, é para por em causa a real competitividade de uma prova que começa a parecer-se cada vez mais aos campeonatos de terceira linha da Europa, quando há menos de uma década se assumia como uma das ligas emergentes do futebol internacional. Curiosamente numa época onde para ser-se campeão era preciso um pouco mais do que nos oferece o actual detentor do trofeu...o mesmo de sempre!



Miguel Lourenço Pereira às 09:51 | link do post | comentar

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