O futebol português continua a trepar postos nos rankings UEFA e FIFA, a ter jogadores e treinadores coroados entre os melhores do Mundo. E, no entanto, quando a bola começa a rolar no tapete verde do rectângulo mais ocidental do velho Continente o futebol peca, demasiadas vezes, pela sua triste ausência. Numa das épocas mais pobres e desesperantes das últimas décadas repete-se um cenário demasiado frequente, demasiado desalentador. Esta Liga, assim parece, ninguém a quer ganhar.
Hoje o Sporting de Braga pode colocar-se como líder isolado da Liga Sagres.
A seis jogos do final da época, 18 pontos e um duelo de 90 minutos contra a Académica separam os bracarenses do topo do pelotão. Provavelmente os arsenalistas falharão. Não porque não mereça, não porque não sejam talvez a equipa que mais méritos recolhe para sagrar-se campeã nacional 2011-12. Simplesmente porque, ao longo deste ano, sempre que uma equipa parece ter na mão ganhar a liga, tropeça.
Essa vertigem á tabela classificativa é aflictiva mas não é nova. Em 2004-05 FC Porto, Sporting e Benfica foram tropeçando entre si até que a sagacidade de Giovani Trapatonni valeu mais que o descalabro emocional de José Peseiro e a natural incompetência de José Couceiro para quebrar com uma fome de dez anos do Benfica. Dois anos depois o cenário voltou a ser similar mas desta vez foi Jesualdo Ferreira a superar a Fernando Santos e Paulo Bento nesse desesperante sprint final. Emoção, seguramente. Qualidade, muito pouca.
O nível exibicional médio das 16 equipas da Liga Sagres, diga o que disser o ranking UEFA que apenas contabiliza o que fazem os quatro europeus habituais nos palcos internacionais, é pobre. Os portugueses exportam os melhores jogadores e técnicos que têm e em troca ficam com jogadores de terceira e quarta linha internacionais, fazem de jogadores de nível médio alto estrelas que nunca o serão e adormecem o mais tenaz dos espectadores com duelos onde os golos, a emoção e o futebol ofensivo primam, habitualmente, pela sua ausência. Os problemas financeiros que destruíram a classe média do futebol nacional e abriram ainda mais o fosso entre os grandes e os pequenos não ajuda seguramente a reequilibrar o cenário. E no entanto nunca como este ano os pequenos roubaram tantos pontos aos chamados grandes onde dá pena incluir um Sporting que, mais uma vez, continua a ser o terceiro clube nacional apenas em adeptos e nada mais. Com uma divida descomunal, um plantel desorganizado, um staff técnico que vai e vem ao sabor do vento e uma directiva incapaz de se fazer respeitar, os leões são o caso mais freudiano que o futebol português já gerou e merecem, como tal, diagnóstico á parte.
Nivelada por baixo como nunca a Liga Sagres pode cair nos braços de qualquer um do trio da frente e seguramente que a sensação de mérito e orgulho seja bem diferente a outras conquistas (no caso de Porto e Benfica) do passado. Os campeões nacionais cometeram o logro de destroçar em poucos meses um conjunto que muitos analistas colocavam na segunda linha do futebol europeu, apenas por detrás de United, Real Madrid e Barcelona. Á parte das péssimas performances europeias, o FC Porto de Vitor Pereira não é só o tigre mais domesticado e inofensivo que já passou pelo Dragão, ás vezes quando joga fora transforma-se mesmo num gatinho recém-nascido, presa fácil até de roedores e outros répteis que povoam a parte baixa da tabela. O empate em Paços de Ferreira impediu os dragões de dar um murro na mesa, algo que o clube do Dragão foi incapaz de fazer durante todo o ano. Nem depois de vencer na Luz, nem depois do enésimo tropeção pré-jogo europeu do Benfica em Olhão e, imagina-se, nem nos jogos que faltam. Apesar de liderar se há equipa nesta disputa que mais carece de espírito de liderança esse é, sem dúvida, este FC Porto.
E no entanto, no meio de tudo isto, e com 24 jogos compridos - salvo o duelo de Braga - o campeão é líder. Situação suficiente para embranquecer os cabelos á maioria dos adeptos encarnados, á moda de Jorge Jesus, provavelmente o maior perdedor do ano. Jesus até pode conseguir o seu segundo titulo nacional, sem dúvida, mas depois de o ter á mão de semear, desperdiçar uma vantagem incrível e correr o risco de dormir hoje no terceiro posto é suficiente para que os críticos adeptos do técnico tenham mais argumentos relativos á sua profunda desorganização táctica e incapacidade de gerir os esforços físicos de um plantel onde muitos jogam muito e alguns jogam muito pouco. Com talvez o plantel mais equilibrado dos três em disputa, Jesus tentou equilibrar o meio-campo com a inclusão de Witsel e Bruno César no apoio a Cardozo mas perdeu o efeito surpresa e, sobretudo, a eficácia de outras épocas. Em campo esta é a sua versão mais débil, a mais mentalmente instável e, portanto, a menos apta para sofrer até ao último minuto da liga como os sucessivos empates e derrotas conseguidos este ano têm demonstrado.
Se na Luz ninguém parece estar determinado a ganhar a Liga, pelo menos há uma óptima campanha europeia para justificar a falta de oxigénio e sagacidade mental. Em Braga a Europa este ano não foi empolgante como na época passada mas teve o mérito de permitir a Leonardo Jardim manter a cabeça e os pés bem assentes no chão. O Braga fez um campeonato de trás para a frente, durante algumas jornadas andou atrás do Sporting e depois arrancou num sprint silencioso que seria ineficaz se FC Porto e Benfica fossem tão autoritários como o dinheiro gasto e a qualidade dos dois planteis justificava. Com os tropeções pontuais e as crises mentais dos dois grandes o Braga encontrou preciosos aliados para desafiar a história. Pode acabar campeão ou juiz do campeonato, mas como o Boavista do virar de século, já não pode passar desapercebido. São muitos anos a manter a bitola alta e tarde ou cedo António Salvador pode suspeitar que o percurso similar ao dos axadrezados pode ser emulado. Até porque o nivel dos chamados grandes continua, ano após ano, a baixar assustadoramente.
Em Maio o titulo será atribuido ao melhor dos piores e disso poucos duvidam. A distância do primeiro ao quinto (FC Porto a Maritimo) é igual á do sexto (Vitória) com o 14º (Beira-Mar) e isso explica também o imenso buraco pontual, moral, financeiro e desportivo que ano após ano afunda o nivel qualitativo do futebol português. Com uma diferença pontual tão clara surpreende que situações como a de este fim-de-semana se repitam vezes sem fim esta temporada. FC Porto e Benfica venceram apenas 17 vezes numa liga onde só quatro equipas têm um goal-average positivo. Vitor Pereira e Jorge Jesus transformaram-se mais em dores de cabeça do que bálsamos para os seus adeptos e Leonardo Jardim acredita na lei do silencio para evitar construir o seu próprio cadafalso. No final deste sprint onde haverá ainda demasiados tropeções o freudiano Sporting pode ter a chave para medir a resistência futebolistica e moral dos candidatos que teimam em não querer ganhar este campeonato.
Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!
Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.
Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.
Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.
Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.
FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.
Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.
Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.
O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.
Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!
De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.
Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.
Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?
Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.
Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.
Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.
O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.
SL Benfica
A época do SL Benfica seria digna de entrar na história do clube não fosse pelo habitual discurso populista e demagogo dos seus dirigentes e equipa técnica que elevou a fasquia de tal forma que destroçou qualquer possibilidade do adepto encarnado se sentir satisfeito com o ano que findou.
Nos últimos 10 anos o Benfica venceu apenas dois campeonatos, uma Taça de Portugal, uma Supertaça e três Taças da Liga sendo que o máximo que logrou a nivel europeu foi uns Quartos de Final na Champions League de 2006. Face a este registo recente que se pode dizer de um ano que garantiu um vice-campeonato (com pré-eliminatória da Champions League garantida), a terceira melhor classificação da década, uma nova Taça da Liga e uma semi-final europeia, inédita há 20 anos no historial do conjunto encarnado?
Os excelentes números entalam-se numa ambição desmedida que acabou por provocar um profundo, e legitimo, sentimento de frustração. Luis Filipe Vieira prometeu a grandeza europeia e o dominio do futebol nacional e Jorge Jesus secundou o presidente tornando-se refém das suas próprias palavras. Depois da euforia do titulo de 2010, o péssimo planteamento de época começou a ditar o final das aspirações encarnadas. Sairam Di Maria e Ramires, peças chave no jogo trepidante de Jesus, e ainda Quim, despedido em directo pelo técnico que queria um guarda-redes que garantisse titulos e pontos. A escolha acabou por se tornar numa cruz para a equipa já que o guardião Roberto esteve directamente ligado à maioria dos fracassos do colectivo ao longo do ano. Jesus não soube aproveitar os seus activos, não encontrou alternativas à baixa de forma de Aimar, Saviola e Cardozo e perdeu dinamismo no meio-campo com a saída, não compensada, de Ramires. As perdas de pontos cruciais nas primeiras jornadas obrigaram a equipa a jogar no seu máximo durante o resto de 2010 para manter-se na perseguição ao FC Porto mas a copiosa derrota no Dragão dictou o fim do campeonato e, mais ainda, significou um profundo desgaste fisico que pagaria factura.
Face à debacle europeia na Champions League, com a equipa a cinco minutos de terminar a fase de Grupos no último posto, surgiu a campanha na Europe League para dinamizar os adeptos encarnados mas a derrota frente a um Braga que soube sofrer, tornou ainda mais doloroso os eventos prévios, as duas derrotas caseiras frente ao eterno rival que significaram a perda do titulo diante dos seus (com um lamentável comportamento dos directivos encarnados) e a eliminação nas meias-finais da Taça de Portugal depois de uma vantagem conseguida no Dragão de dois golos (no melhor jogo da época do conjunto da Luz). Derrotas contra os rivais directos nas três competições que dão esse travo amargo a um projecto que viveu mais da garra e da improvisação – com Fábio Coentrão com imagem perfeita desse estado de animo descontrolado e frenético – do que de um planteamento pensado e trabalhado no laborátorio de Jesus. Os erros individuais não escondem a profunda quebra colectiva, nomeadamente nos niveis fisicos, e deixam a reputação do técnico em baixa apesar do titulo de 2010.
Para o próximo ano espera-se de novo um Benfica combativo em todas as frentes como aliás sempre soube ser, com a excepção da Champions League, durante 2010/11. Mais do que melhorar o aspecto técnico-táctico aos encarnados pede-se, essencialmente, um pouco mais de honestidade intelectual para com a sua legião de adeptos e um leque de objectivos realistas que não se deixem levar por discursos populistas mas que carregam com um pesado preço na hora do infortunio.
Sporting CP
Há algo muito podre em Alvalade e começa a levantar legitimas suspeitas aos adeptos leoninos de que se trata de um regresso a um tortuoso passado que significou estar 18 anos a ver os titulos passar. Depois de quatro épocas consecutivas num segundo lugar inexpressivo o Sporting começa a cair cada vez mais fundo. Na tabela classificativa. Junto dos seus próprios adeptos e no respeito do futebol português, ainda aburguesado a velhos ritos sociais para entender que entre passado e futuro há uma grande diferença. O Sporting ainda é um grande, principalmente pela sua herança longinqua. Em 30 anos sumou 3 titulos, menos 5 que o seu rival Benfica e menos 15 que o FC Porto. E a situação parece estar longe de inverter-se.
Os graves problemas financeiros do clube na ressaca do plano Roquette continuam sem encontrar fim à vista e a polémica à volta das eleições presidenciais apenas contribuiu para aumentar o pessimismo e descrença dos adeptos. O Sporting navega sem rumo, sem ideias e sem forças. A celebre academia conta cada vez menos na gestão desportiva do clube e muitos dos seus melhores frutos são aproveitados por rivais directos. Chegam jogadores sem nivel, velhas glórias com contractos milinários e despedem-se abonos de familia e maças podres que, resulta, ainda têm muito para dar noutras paragens. Paulo Sérgio foi aposta pessoal da direcção desportiva de Costinha e transformou a sua reputação de técnico com projecção numa caricatura de si mesmo. Sem uma ideia de jogo definida o Sporting não encontrou os golos de Liedson e desesperadamente foi caindo no poço. A Europa virou-lhe as costas, as provas a eliminar também e a Liga Sagres tornou-se um martirio constante. Com as excepções de Rui Patricio e André Santos, recém-internacionais, o plantel nunca ofereceu a sua melhor cara e entre os falhanços de Postiga e Djaló, a inconstância de Valdés, Fernandez e Vukcevic e os problemas fisicos intermináveis de Pedro Mendes e Maniche, deixaram a nu a má planificação do plantel na pré-temporada. Nem o terceiro lugar, resgatado ao Braga no último dia, deixa um bom sabor de boca. Afinal, em termos percentuais, esta é mesmo a pior época do conjunto de Alvalade. O anterior registo negro remonta ao ano passado onde a equipa nem passou do quarto lugar.
Sem vencer um trofeu há três anos, sem vencer uma Liga há nove, este Sporting começa a assemelhar-se cada vez mais a uma caricatura caduca de grandeza do que a um projecto ganhador. O problema não está, forçosamente, no técnico ou nos jogadores mas sim na falta de uma coerência desportiva que minou nos últimos anos os projectos de Peseiro e Paulo Bento e atirou para o descrédito total um clube ainda com uma significativa franja de adeptos que cada vez menos tem razões legitimas para sonhar.
Nunca uma liga portuguesa tinha sido ganha com tamanha autoridade. A vitória do FC Porto significou um regresso às origens para um clube habituado a mandar com autoridade no torneio. Na sombra do campeão invicto, um Benfica que só tem a si mesmo que culpar-se e um Sporting e Sporting de Braga ziguezagueantes que rapidamente mostraram que a liga deles é outra.
O simbolismo do triunfo na escuridão do FC Porto em pleno estádio da Luz resume bem o espirito da temporada.
Depois de uma época em que o Benfica venceu o trofeu e acreditou que podia interromper, de forma definitiva, o dominio autoritário do FC Porto na liga portuguesa (17 titulos em 30 anos), os azuis e brancos restauraram a normalidade com uma superioridade insultante que arrancou no primeiro jogo oficial da época e só terminou com a consagração europeia. Pelo meio a Liga Sagres foi o tapete perfeito para a equipa de André Villas-Boas demonstram que caminhava num mundo à parte. O FC Porto venceu 27 jogos, empatou três, um dos quais já depois de confirmar o titulo de campeão. Numa liga com 30 jornadas, o clube do Dragão foi campeão a cinco jogos do fim e no terreno do eterno rival a quem sacou uma vantagem de 21 pontos. Uma diferença abismal em comparação com o ano anterior em que o Benfica perdeu a hipótese de carimbar o titulo no Dragão e acabou por ter de sofrer até à última jornada para fazer a festa. Benfica que contribuiu, e muito, para que a corrida ao titulo do novo campeão fosse mais fácil. As derrotas surpreendentes nas jornadas inaugurais, o pior arranque de que há memória, deram ao FC Porto um colchão confortável, ampliado pela histórica goleada de 5-0 no Dragão. A partir daí o clube da Invicta geriu a vantagem sem pressão e concentrou-se noutros objectivos. O Benfica passou toda a época num sprint louco e desesperado que arrasou fisicamente com uma equipa já de si mal planificada. Quando as pernas começaram a faltar o rival deu a estocada final. Sem contestação.
No meio deste triunfo histórico pouco espaço houve para os outros.
No quadro europeu, Sporting e Braga mantiveram um pulso durante todo o ano pelo último lugar do pódio. O Sporting realizou a sua pior época de sempre em percentagem pontual mas na última jornada venceu o rival directo e evitou o descalabro de terminar dois anos consecutivos no quarto lugar. A instabilidade directiva, a venda de Liedson, o plantel mas planificado e os péssimos registos goleadores da equipa permitiram ao Braga, que arrancou a época com a cabeça na Europa, recuperar um grande atraso pontual para chegar a sonhar com o 3º lugar, perdido quando a equipa já tinha a cabeça na final de Dublin. Não muito longe pontualmente, mas num outro campeonato, o Nacional da Madeira garantiu o regresso à Europa batendo a concorrência directa de Maritimo, Rio Ave e União de Leiria. No entanto a grande sensação da metade de tabela pertenceu ao Paços de Ferreira. Os minhotos nem se inscreveram na Europa mas mereciam ter-se qualificado para a Europe League pela qualidade do seu jogo – muito bem orientado por Rui Vitória, com um grupo de jogadores jovem que foi premiado com a final da Taça da Liga – e pela gestão directiva dos pacenses. No quinto posto, com a tranquilidade de ter carimbado o seu lugar europeu através da Taça de Portugal, o Vitória de Guimarães soltou-se dos fantasmas recentes e realizou um ano sóbrio, sem entusiasmar, mas também sem desiludir o exigente público do D. Afonso Henriques.
A diferença abismal entre o FC Porto e os outros acentuou ainda mais o nivelamento por baixo que vai tomando conta do futebol luso.
Naval 1º de Maio e Portimonense foram despromovidos mesmo antes da última ronda, mas o pobre futebol de Olhanense, Académica, Beira-Mar e Vitória de Setubal leva seriamente a questionar a realidade competitiva de um torneio que viveu o seu ano de ouro na Europa mas que continua a ser mal gerido dentro das fronteiras. O fosso entre candidatos ao titulo, candidatos europeus e os demais é cada vez maior e não há nenhuma indicação de que a situação se possa vir a alterar. O FC Porto tem condições para restaurar a sua hegemonia e o Benfica continua a ser o rival a abater. Braga, Sporting e Vitória terão anos complicados pela frente e os demais procurarão sobreviver e recolher as migalhas pelo caminho. Triste sina para uma liga que continua com estádios vazios, preços proibitivos, horários televisivos anedócticos e uma federação que não sabem a que joga.
No meio de todo este pesadelo freudiano, o FC Porto foi igual a si próprio, o SL Benfica pagou o preço de uma ambição desmedida e o futebol português ficou pouco a ganhar com o asfixiante dominio dos clubes que mais investem no mercado. A sustentabilidade financeira da Liga Sagres está, cada vez mais, em cheque e a politica quase suicida dos grandes clubes só contribuiu para empequenecer os demais ao mesmo tempo que, lamentavelmente, mata o futebol de formação português. Em 2010/11 voltou a não haver um goleador luso (salvo o veterano João Tomás) nem sequer uma jovem estrela a despontar verdadeiramente (se excluirmos o promissor André Santos). A Liga enfraquece-se ano após ano e continua sem se dar conta. Na Invicta poucos se importam. O clube voltou a impor a sua lei. Com total naturalidade.
Há muito que as trevas tomaram conta do futebol português. A falta de civismo, de fair-play, de exercício democrático por parte de dirigentes, técnicos, jogadores, comentadores e adeptos "argentinizou" ao extremo o futebol em Portugal. A situação chegou a tamanhos extremos que a vitória de um campeonato de um clube invicto passou a segundo plano porque, uma vez mais, o mau perder habitual do dirigente português estraga qualquer celebração meritória. Culpas para todos no cartório numa noite histórica, a titulo desportivo. O SL Benfica falhou na época passada confirmar o titulo no campo do rival. Nesse jogo começou a desenhar-se o FC Porto campeão em 2011. Que não tremeu no terreno do rival e fechou, com chave de ouro, o seu 25 campeonato. A luz durou 90 minutos. Os novos campeões trataram simbolicamente de a apagar. O resto é pura pequenez moral.
Há 71 anos que o FC Porto não vencia um campeonato, matematicamente, no terreno do eterno rival.
Um feito pouco habitual no futebol português. Houve jogos que decidiram títulos mas quase nunca sem as matemáticas do seu lado. Tanto encarnados como azuis e brancos sabiam de antemão o desfecho desta época. Uns queriam antecipar a festa, outros atrasá-la o máximo de tempo possível. Era uma questão de honra e de orgulho, não de matemática. Uma premissa que se tinha vivido na época transacta. Então a "máquina de matar" de Jorge Jesus chegou ao Dragão com a ambição de fazer história. Foi derrotado em toda a linha e teve de sofrer até aos instantes finais do último jogo para confirmar um titulo que a imprensa (e o próprio técnico encarnado) tinham anunciado com meses de antecipação. Desta vez o cenário não se repetiu. O FC Porto de André Villas-Boas nunca necessitou do consenso popular e dos meios de comunicação social para explicar, no tapete verde, a sua imensa superioridade na época corrente. Dezasseis pontos de avanço sobre o segundo classificado, a cinco jogos do fim, explicam bem a dimensão do 25º titulo azul e branco. A invencibilidade (dois empates, tudo o resto triunfos), é uma curiosidade estatística mas também demonstra a autoridade com que os dragões entram em campo. Na Luz repetiu-se o cenário.
O FC Porto foi sempre a equipa menos nervosa, aquela que tinha a faca e o queijo na mão. Agradeceu a Roberto a inestimável ajuda, uma constante na época, soube sofrer com o golo do empate e com um jogador a menos durante boa parte do segundo tempo e matou o jogo de forma cirúrgica. Podia até ter ampliado a vantagem em vários lances de contragolpe. Podia também ter sofrido o golo do empate, quando o Benfica, à desesperada, como tem sucedido demasiadas vezes este ano (com o evidente desgaste físico e mental acumulado) tentou o tudo por tudo. Jesus não teve argumentos tácticos - como sucedeu na excelente vitória nas meias-finais da Taça de Portugal no campo do rival - nem paciência para sofrer. Podia-lhe mais o orgulho de não cair diante dos seus. Os adeptos não souberam empurrar a equipa - à distância de muitos quilómetros, ouviam-se mais os gritos de raiva dos adeptos visitantes - e nem a constante violência do onze encarnado (quase todo amarelado, com direito a expulsão de Cardozo, que só jogou metade do encontro) serviu para estragar um espectáculo futebolístico. O FC Porto selou a sua superioridade desportiva depois de ter mostrado que era a equipa mais constante, mais organizada e mais preparada para o choque. No ano transacto o Benfica venceu metade dos jogos com os rivais directos (SC Braga e FC Porto). Este ano os novos campeões trataram de selar a sua superioridade ao bater Benfica e Braga nos dois encontros, sem deixar grandes margens para dúvidas. O titulo, desportivamente, não tem qualquer contestação.
Mas quando em Portugal se devia falar de futebol jogado - que não vive, propriamente, na abundância - tudo acaba por derivar para o futebol politizado, estragado pela postura de directivos e profissionais do disparate. A semana prévia ao Clássico tornou-se no microcosmos perfeito que define o futebol português actual. Houve proibições ilegais, anuências das autoridades competentes desrespeitando os seus próprios regulamentos. Houve apedrejamentos de parte a parte, incitação à violência, declarações de guerra pouco transparentes. Houve jogadores que entraram em campo sem dar a mão a 11 meninos que destas guerras ainda entendem, felizmente, muito pouco. Houve frangos, bolas de golfe, petardos e cargas policias. Houve dureza no relvado e falta de hombria nas declarações finais dos perdedores. E, acima de tudo, houve aquele gesto que define bem o portuguesismo contemporâneo, o chico-espertismo e o mal perder de um país que se tornou na América Latina do futebol europeu há muitos anos e que continua a mostrar à Europa, à Europa a que anseia pertencer de pleno direito, que vive num planeta à parte. Em primeiro lugar fica por explicar a atitude da Liga de Futebol Professional, que gera a competição Liga Sagres.
Depois de anos a adiar ao ano seguinte a entrega do troféu, em 2010 determinou-se, e com toda a lógica, a entrega do troféu de campeão no acto a quem de direito. Uma prática corrente em vários países europeus e que permitiu ao SL Benfica celebrar, diante dos seus, com toda a naturalidade o titulo do ano transacto. No entanto, sabendo da possibilidade matemática, concretizada, do FC Porto repetir o feito, não houve sequer uma referência das autoridades em repetir a mesma sábia postura um ano depois. Em Espanha e Inglaterra, quando uma equipa se sagra campeã, não se lhe entregam o troféu, como o rival tem de fazer o chamado "pasillo", por onde os campeões desfilam vitoriosos. Uma prática de fair-play que em Portugal se torna cada vez mais, inimaginável. Não só a Liga permitiu a não entrega das faixas no dia adequado como deixou passar em branco o súbito apagão, e o despertar "imprevisto" dos aspersores de água à la Camp Nou, que ensombreceu mais a alma torturada do adepto benfiquista, forçado a contemplar um feito histórico no seu recinto, do que a festa azul e branca. O acto, insignificante à priori, porque os festejos naturalmente continuaram na Luz e noite fora, por todo o país, diz muito dos dirigentes encarnados, os principais responsáveis pela escalada de violência verbal e física em que vive o futebol português nos últimos anos. Uma realidade indesmentível e que esconde uma outra, desportiva, que não deixa mentir. Nas últimas 15 épocas o clube encarnado venceu a prova por duas vezes, tantas como o Sporting e uma mais que o Boavista. As restantes 10, já se sabe onde foram parar.
A cultura de sobrevivência do FC Porto voltou a vir ao de cima. Desde 2002 que os azuis e brancos não passam mais de um ano sem saborear o titulo de campeão. Estão a sete dos espantosos 32 troféus ganhos pelo Benfica com a adenda de que, nos últimos 30 anos, mais de metade dos troféus foram parar à Invicta. Como apontou André Villas-Boas, um dos artesões deste regresso dos dragões ao topo da Liga Sagres, esse é um facto cultural e social indesmentível pelos números. O resto, as notas artísticas, as vitórias épicas, a superioridade moral e o discurso da suspeita, no final de contas, e no tapete verde, à vista de todos, onde o resultado final se decide, conta muito pouco. O espectáculo chegou ao fim, o último a sair apague a luz por favor!
A falta de verdades absolutas no futebol torna-o num microcosmos proclive à eterna surpresa. Em 1994 o Barcelona goleou o Real Madrid por 5-0 naquilo que foi o culminar do Dream Team. Um ano depois o clube merengue devolveu a moeda, com os mesmos números, no curto mandato de Valdano. O Benfica não chegou tão longe mas provou, poucos meses depois de sair vergado do Dragão por 5-0, que os pontos débeis do FC Porto são suficientes para dar a volta ao tabuleiro. Uma vitória convincente que diz tão bem de quem ganha como diz tão mal de quem perde.
Não foi um grande Benfica nem era necessário que o fosse. O FC Porto há semanas que vinha dando sinais de ter perdido o gás com que arrancou a temporada. Prioridades mal calculadas, um plantel desiquilibrado e uma postura pouca agressiva condenaram os azuis e brancos mesmo antes do apito inicial. Ninguém esperava um futebol ofensivo dos encarnados e, efectivamente, estes optaram pelo caminho pragmático que tão bom resultado tinha dado ao rival no duelo para a Liga. Então os homens de André Villas-Boas foram autoritários, seguros e jogaram no erro do adversário, a quem superaram tacticamente durante todo o encontro. Culpou-se, e merecidamente, a temeridade de Jesus, que subestimou o potencial destructivo de Hulk no flanco. Ontem foi a vez de Villas-Boas, que passou as últimas semanas ocupado em mind games à la Mourinho, subestimar o orgulho ferido do ainda campeão nacional. O esquema táctico do FC Porto foi o mesmo da vitória por 5-0, mas as peças eram diferentes. E isso fez toda a diferença.
Com Sereno e Sapunaru nas laterais - e com um desastrado Maicon no miolo - os da casa perderam uma das suas maiores armas: a rápida transição entre a defesa e o ataque. A ausência de Alvaro Pereira tem condenado - e muito - o jogo lateral ofensivo dos dragões. Na ausência de Fucile (tal como Walter possivelmente por problemas disciplinares internos) a equipa perde asas e sem isso não consegue voar. Villas-Boas gostaria de emular o belo futebol do Barcelona de Guardiola mas só pode fazer omeletes quem tem ovos e Fernando é um médio de construção limitado, a Moutinho e Belluschi sobra-lhes a garra onde escassa o ingénio e, claro, sem laterais ofensivos e avançados todo o terreno (Hulk, no meio, é facilmente domável), o projecto está condenado ao fracasso. O Benfica marcou em dois erros defensivos que também podem ser vistos como lances de insistência. Essa garra própria da equipa da época passada não se viu nem em Aveiro nem no Dragão, as duas derrotas inaugurais de Jesus às mão do jovem técnico portista. Ontem o Benfica foi mais garra e raça do que talento e invenção, mas foi precisamente essa disciplina táctica que fez a diferença.
Com Coentrão e Maxi Pereira abertos nas alas, o Benfica manobrou com facilidade o apático meio-campo portista.
César Peixoto uniu-se a Javi Garcia no miolo para bloquear o jogo transicional de Moutinho e Belluschi e deu a Gaitán e Salvio toda a liberdade para deambular entre as linhas defensivas azuis. Com Cardozo como pivot declarado e Saviola como redistribuidor de jogo, o conjunto encarnado chegou com a licção bem estudada e soube ocupar bem os espaços deixados vazios pelos jogadores azuis.
Coentrão utilizou as suas habituais subidas pela banda como elemento desiquilibrante e foi uma combinação sua com o argentino, totalmente só, que permitiu ao Benfica inaugurar o marcador. A sua posterior expulsão - já com o jogo num confortável 2-0, fruto de um remate bem colocado de Javi Garcia que ganhou uma confusa segunda bola à frente da baliza de Helton - deu a Jesus o pretexto perfeito para organizar as tropas e defender o resultado. A sua abordagem foi menos entusiasta mas muito mais realista. Percebeu onde o rival era mais débil - nas laterais defensivas e no cone do triângulo a meio-campo - e não teve de se preocupar com o ataque azul e branco, orfão de um dianteiro móvel como Falcao capaz de dar liberdade a Varela - o melhor em campo - e Hulk. Com o brasileiro preso pelo seu próprio técnico - a lembrar o desespero de Cristiano Ronaldo face a Queiroz no passado Mundial - os azuis foram inofensivos. E sem alternativa no banco, as substituições de Villas-Boas foram, apenas, mais do mesmo, sem alterarem nunca a dinamica táctica do jogo, algo que Jesus soube controlar com as entradas de elementos que souberam pausar o ritmo do jogo (Airton e Aimar) e explorar os espaços vazios (Jara) face à inoperância rival. Se tecnicamente o duelo foi equilibrado, tacticamente o tabuleiro de Jesus pareceu sempre estar um degrau por cima e a vitória acabou por ser tão justa como inevitável.
Caidos em descrença depois do humilhante 5-0, o Benfica entrou numa série de jogos sem perder que confirmou com esta vitória categórica e que deixa quase resolvida uma meia-final que terá de esperar 70 dias para recomeçar. A corrida para revalidar o titulo pode ser utópica, mas o reencontro com a sua melhor versão pode deixar os seus adeptos mais descansados sobre o potencial do colectivo a médio prazo. O FC Porto continua a ter a tiro os seus grandes objectivos - Liga e Europe League - mas as sensações deixadas não são as mesmas de 2010. Falta frescura, profundidade de banco e agressividade. E consciência das suas próprias limitações. Licções importantes para os próximos rounds, mais determinantes que os confrontos prévios e onde a margem de erro se tornará inevitavelmente menor.
Na Luz as formas sempre foram traiçoeiras e as suspeitas sobre a verdade desportiva um fantasma, que pairava sobre o tapete verde por onde brilharam alguns dos maiores jogadores da história do futebol luso, qual a desaparecida águia Vitória. A manobra da direcção encarnada para facilitar a passagem dos encarnados à próxima fase da Taça de Portugal resume toda a falta de ética que faz do futebol português um doente terminal com pouca esperança de recuperação.
O segundo melhor ataque do futebol português, enrabietado por uma série de vitórias consecutivas, media-se à segunda melhor defesa da prova numa eliminatória atrasada da Taça de Portugal. Como ultrapassar tão espinhoso obstáculo sem suar em demasia?
A resposta encontrou-a, antes de Jorge Jesus, a direcção encarnada. Dias antes do duelo da tão propalada "festa da Taça" a imprensa especializada começou a anunciar o interesse dos encarnados na figura central da defesa algarvia. Táctica velha em Portugal, com o Benfica como habitual protagonista (mas não só), e que visa tanto desmotivar o rival como empolgar os adeptos/leitores. Se o caso ficasse por aí, como tantos outros, o mal seria menor. Afinal, a fortaleza mental continua a ser condição sine qua non para ser-se um bom jogador. E o central brasileiro Jardel, não confundir com a eterna promessa por cumprir da direcção encarnada, é-o ou, pelo menos, tem demonstrado sê-lo com inusitada regularidade nesta temporada. Mas o caso foi mais longe, tristemente mais longe. E definiu um jogo que estava ganho antes sequer do apito inicial.
Jardel, convocado pela equipa técnica e previsivel titular, foi retirado da lista de titulares do Olhanense a meio da tarde. A direcção encarnado reuniu-se pela manhã com a homóloga algarvia e decidiu avançar para a contratação do jogador. A poucas horas do duelo directo entre ambos. E cometeu assim um dos actos mais anti-desportivos de que há memória no futebol luso. Mas que não é único e que, afinal, sucede a outros casos passados, quase todos curiosamente na Luz, como os do academista Marcel ou o lateral Jorge Ribeiro sem esquecer o mais recente dos casos. Fábio Faria, titular no jogo do titulo pelo Rio Ave na passada época quando já tinha lugar assegurado no clube encarnado para...o dia seguinte. Uma realidade que nem o técnico do Olhanense, Daúto Faquirá, soube contornar quando recebeu a informação de que o seu jogador mais vezes utilizado não jogava por motivos de força maior. Ele há coisas...
O Benfica venceu na primeira parte com facilidade uma equipa desmoralizada e descaracterizada.
Os algarvios até já tinham perdido na Luz para o campeonato mas, desta feita, nem tiveram opção a apresentar batalha e os encarnados continuam assim a corrida ao único troféu de prestigio a que podem optar no final da época. Uma velha obsessão de Jorge Jesus que agora terá de se medir ao Rio Ave para seguir na peugada do Jamor. Onde poderá encontrar-se, de novo, com o FC Porto, que resolveu com serviços minimos a última equipa dos campeonatos da Federação na prova.
O futebol português continua assim a viver um duopólio que, quando não resolvido no relvado, é resolvido fora dele. Independentemente de cortar com todos os laços da ética desportiva. O Benfica tem todo o direito a optar a um jogador, o Olhanense (e a Traffic Sports) todo o direito a vender. E Jardel em aceitar saltar de bando. Nada a dizer.
Mas realizar uma operação destas a meia dúzia de horas de um jogo decisivo para ambos e impedir assim, sem margem de manobra, que uma equipa actue como tinha previsto, destruindo à partida os planos tácticos do visitante é, no minimo, anti-desportivo. Se a justiça desportiva existisse, em realidade, até podia ser criminal. Afinal não foi na Premier League que um clube foi multado por alinhar jogadores poucos habituais contra um dos candidatos ao titulo num jogo a meio de semana? Se na Old Albion isso - que no fundo é uma decisão táctica do técnico - é punível, imaginemos o que seria uma situação similar num campeonato a sério, com leis a sério e com uma cultura desportiva verdadeira?
A actuação da direcção encarnada, a mentalidade pequena da direcção olhanense e a conivência das autoridades que regulam a prova (leia-se Federação Portuguesa de Futebol, ela também a viver na maior das ilegalidades) diz muito sobre o estado comatoso da moral do futebol luso onde tudo vale para ganhar. E onde todos apontam o dedo uns aos outros para passar a mensagem de que o pecado do rival lava o meu pecado. Os adeptos benfiquistas lembrar-se-ão certamente disso na hora de se defender. Não sabem como fazê-lo doutra forma. Porque não há, realmente, outra forma.
Jardel irá para o Benfica, como foram Marcel, Jorge Ribeiro e Fábio Faria (e tantos outros nomes no passado recente e distante) e é bem possível que não volte a jogar até ao final do ano. Nestes negócios de ocasião o futebol português é perito em validar contratações ou empréstimos que funcionam mais como manobras de controlo de bastidores do que necessidades futebolisticas. A falta de valores aliada à falta de qualidade de jogo faz da Liga Sagres (e das restantes provas menores) um dos campeonatos menos interessantes e captivantes do Velho Continente. Salvando-se as honrosas prestações europeias da última década (os anos de ouro do FC Porto, a final europeia de Sporting, os êxitos inesperados de Boavista e Braga), o futebol português é hoje um doente apestado em modo terminal. A bola tem a sua própria ética. Em Portugal ninguém parece importar-se muito com isso.
De candidatos ao titulo a eliminados pela porta pequena. Uma campanha europeia para esquecer para um conjunto com muitas ambições mas sem qualquer capacidade de competir directamente contra rivais da mesma divisão europeia. A presença europeia do Benfica na Champions League resume-se a mais uma desilusão destroçando os sonhos de um clube que pensava ter encontrado o caminho mais rápido para ressuscitar.
Na Galileia a esperança era muita mas o milagre foi mesmo dos locais. Talvez homens de fé ao contrário dos discipulos, cada vez mais descrentes num Jesus que prometeu o Paraíso mas que está a mostrar-se incapaz de esquivar os enganos do Purgatório. Se o técnico encarnado prometia lutar pela maior prova europeia até ao final, relembrando que o Benfica da época passada só tinha o Barcelona como rival em qualidade de jogo, a verdade é que esta foi mais uma promessa vã. Sem hipóteses de repetir o titulo nacional, goleados pelo rival directo e sem os milhões que garantem os Oitavos de Final da Champions League a época começa a complicar-se em demasia para o conjunto da Luz.
A derrota em Tel-Aviv foi esclarecedora. O Hapoel local não precisou de ter mais posse de bola ou de ser melhor. Bastou com ser eficaz, palavra eliminada do vocabulário encarnado há demasiado tempo. Foram três golos sem resposta, resultados de falhos clamorosos do sector defensivo lisboeta, que condenam definitivamente o Benfica a penar um ano mais pela Europe League. Isto se o Hapoel não continuar na senda dos milagres galileios.
A equipa israelita, com um imenso Eneyema nas redes, pode ainda ambicionar ao terceiro lugar, mas preciso de muita ajuda à mistura. Ao Benfica cabe assegurar a honra de cair de pé, em casa, frente a um estádio que nunca se emocionou este ano com os seus. Contra os alemães do Schalke 04, renascidos ontem contra o Lyon e actuais lideres do grupo, um ponto pode até nem ser necessário. Mas uma nova imagem é fundamental para que o ano da reconquista da liga não termine num pesadelo sem fim. Jesus começa a perder o crédito, demasiado depressa para quem augurava o início de uma nova era.
Da equipa da época passada já não sobra nada. Nem espirito, nem velocidade, nem disciplina.
O Benfica em Tel-Aviv foi manso, inofensivo e medroso. Incapaz de apertar, ineficaz na hora de rematar, viu o conjunto rival controlar os acontecimentos e matar, em três estocadas, o sonho milionário. Zahavi e Douglas foram os autores dos golpes mortais mas em qualquer caso grande parte da culpa pode ser atribuida à defesa encarnada, passiva e permissiva, algo inadmissível a este nivel. Parece que há algo no onze encarnado que não se adapta ao ritmo de alta competição da maior prova europeia. A permissividade em casa frente ao Lyon que permitiu aos franceses passar de um claro 4-0 a um apertado 4-3. Os falhanços em Lyon, Gelsenkirchen e Tel-Aviv. E a incapacidade de poder gerir as oportunidades no duelo com os israelitas no encontro inaugural são demasiados sintomas para preocupar o técnico encarnado.
Jorge Jesus cometeu o pecado da soberbia e prometeu mais do que seria capaz de cumprir. Prometeu um novo ciclo interno e sofreu, em dez jogos, um severo correctivo por parte do rival portuense. Ambicionou devolver o clube à glória europeia (o Benfica não está numa final europeia desde 1990) e sai pela porta minuscula ruma a uma Europe League onde já o ano passado desiludiu no único jogo a doer (e contra o mais débil Liverpool da década). E as suas apostas mais pessoais, os argentinos Jara e Gaitán, são incapazes de fazer esquecer os seus antecessores. Se a isso justamos os ajustes tácticos que retiraram a qualidade de punch que apresentava o 4-4-2 da época passado e temos grande parte das respostas aos problemas encarnados. Cair na Europa não é grave a não ser que os objectivos proclamados sejam irrealistas. O ritmo baixo do campeonato luso deu a entender, na época passada, que a equipa encarnada jogava a alta rotação. A performance deste ano confirma que um campeonato tão débil como o luso pode perfeitamente enganar. E se o Braga lá cometeu a gesta, previsivelmente insuficiente, de vergar um Arsenal inconstante e arrogante, a verdade é que, ano após ano, se confirma que os projectos desportivos lusos têm cada vez mais dificuldade em sobreviver na mais alta roda europeia. O Benfica apenas confirmou a regra, a que o FC Porto tem sido a mais recorrente excepção.
Com o sonho da Champions pelo chão e a liderança da liga a dez pontos (que tecnicamente até são onze), a época parece que se eterniza na Luz. Lutar pelas duas taças é o objectivo mais natural mas que pouco tem a ver com a politica de crescimento e consolidação defendida durante todo o defeso. Um projecto com um imenso ponto de interrogação que pode tornar-se ainda mais complexo de resolver caso as previsiveis saídas dos activos mais valiosos no próximo defeso abram um buraco ainda maior para uma direcção deficitária e um técnico descreditado taparem. Um final de ano de pesadelo para um ano que arrancou dourado.
O "reinado" do SL Benfica durou bem menos do que o esperado. Um vendaval de futebol e golos restableceu o status quo nacional e ditou, a vinte jogos do fim, o anunciado desfecho do campeonato. Dez pontos de avanço com uma vantagem no confronto directo inultrapassável dita sentença e ponto final. A raiva de uma equipa formada para vencer destroçou um conjunto que parece uma imitação barata da equipa que, há um ano, dava cartas. Os números, esses, falam por si. Um verdadeiro "Fantasporto"!

5-0.
Um número que define uma época e que ficará como espelho de uma mutação rápida e natural nos designios de uma liga entregue a um campeão anunciado depois de dez jornadas demoníacas. André Villas-Boas, o rosto por detrás desta mudança genética que recupera um ADN antigo e perdido no meio dos titulos da era Jesualdo, avisa que nada está ainda decidido. É o seu papel, o marujo tranquilo num longo oceano que desperta poucas dúvidas. Invencível com dez jogos decorridos, um goal-average inalcançável e uma atitude irrepreensível, o FC Porto sabe bem que este titulo não tem como lhe escapar. É uma autoridade insultante que destroi os sonhos de uma nova era de domínio encarnado, imagem propagada há um ano, quando Jorge Jesus era Deus na terra e as bancadas da Luz se enchiam com naturalidade para seguir goleada atrás de goleada. E se o Benfica arrepiou caminho e emendou a palmatória depois de um inicio desastroso, com cinco vitórias seguidas, a verdade é que a qualidade de jogo da equipa campeã com o conjunto da época passada é diametralmente oposto. Sem Ramires, sem Di Maria e sem ideias. Mais do que os dois elos fundamentais do onze encarnado, Jorge Jesus sofre do mal que atinge muitos dos treinadores campeões. Incapacidade total de gerar uma nova fórmula ganhadora, de insuflar os comandados de confiança e de espirito colectivo. Sem valores de grupo e sem qualidade individual, a goleada ontem sofrida num Dragão imponente, até parece natural. Não deixam de ser números escandalosos, mas que podiam ter sido mais. E ninguém se admiraria. No recinto portuense apresentou-se uma equipa de profissionais e um conjunto que roçava o amadorismo. Sem garra nem espirito, a águia foi facilmente depenada e levada para um churrasco à brasileira com Hulk como chefe de culinária.
O brasileiro anda indomável desde que a Liga Sagres 2009/2010 foi decidida no túnel do estádio da Luz.
O seu regresso ao onze portuense permitiu a excelente segunda volta do onze de Jesualdo (com vitória na Taça de Portugal incluída) e o espantoso arranque de época do "rookie" Villas Boas. Depois da vitória na Supertaça ficou a sensação de que Porto e Benfica corriam em direcções opostas. Os azuis confirmariam a subida de produção e com três meses de época não sabem o que é perder em nenhuma competição. Os encarnados, pelo contrário, repetem a ideia deixada após a época 2004/2005. Um titulo do Benfica é um oásis num oceano azul, relemebrando, e muito, o que sucedia ao Sporting da década de 60 e 70, às mãos do dominador conjunto liderado então por Eusébio da Silva Ferreira. Ontem, nem o "pantera negra" teria evitado a humilhação de sair do recinto do rival com uma das mais pesadas derrotas do seu historial.
Se já no ano passado o FC Porto tinha emendado a péssima época com uma vitória sobre o campeão por proclamar, agora ficou bem acente que o titulo é coisa decidida e que basta saber se a vantagem demolidora de dez pontos tem margem de ampliação até ao final da primeira ronda. Com o apuramento europeu igualmente confirmado, o FC Porto tem até Fevereiro todas as condições para fechar o campeonato e sonhar com voos mais altos na Europa, relembrando a carreira da equipa orientada por José Mourinho em 2002/2003 com direito a champagne e sevilhanas.
Sem Fernando, o FC Porto mostrou-se igual de contundente no miolo, nunca deixando respirar o centro de campo encarnado. Guarin, Belluschi e Moutinho formaram um trio incansável, determinante nas recuperações de bola longe do quarteto defensivo imperial de Rolando e companhia. E fulcrais para a velocidade do tridente goleador. Hulk foi soberano, destroçando a defesa rival com um grip inalcançável. Dele saiu o passe para o 1-0 de Varela e dois golos mais para fechar a festa. Pelo meio o colombiano Falcao juntou-se à festa com um toque de calcanhar a emular o genial Madjer capaz de levantar o estádio e a torre dos Clérigos uns metros do chão. Os cinco golos foram o detalhe de uma noite futebolisticamente impecável para os azuis. O Benfica pouco futebol aportou ao duelo e rapidamente perdeu a cabeça (mais tarde perderia igualmente Luisão como poderia ter perdido Coentrão ou Maxi Pereira) com Jesus incapaz de colocar em práctica qualquer ideia com cabeça, tronco e membros. O técnico era o rosto da impotência. Ao seu lado, o novato AVB, a cara da satisfação plena. A licção estava dada.

Vencedor hegemónico dos dois confrontos directos contra o mais directo rival e com os encontros mais duros do campeonato atrás das costas é dificil prever qual será o limite deste FC Porto com faixa de campeão já encomendada. Não são os dez pontos de avanço que lhe dão o direito a festejar mas sim a superioridade futebolistica incontestado e há muito não vista, espelho directo de um clube com sede de titulos e fome de vingança. Numa equipa onde a maioria dos jogadores não sabe o que é ser campeã, a fome é o motor. Resta saber se um ano de sucesso será suficiente para saciar o conjunto montado por Villas-Boas ou se na capital podem começar a preocupar-se a sério. Porque no Porto os titulos não costumam ser fenómenos isolados e quando chega um, chegam logo três ou quatro. Ou cinco!
A consagração de uma grande equipa logra-se nos palcos europeus. Se o Barcelona de Guardiola ou o FC Porto de José Mourinho não tivessem aliado o seu esmagador domínio interno à vitória na Champions League, hoje olhar-se-ia para essas duas equipas de forma bem distinta. Wenger tem essa assinatura pendente, Ferguson viveu durante muitos anos nesse vazio e o "Chelski" continua fora da elite porque falhou o assalto à "orelhona". O Benfica tinha, esta época, a oportunidade de ouro para demonstrar que a época passada não foi um acaso. Até agora a desilusão não podia ser maior. Este campeão está na prova errada.

Três pontos, os mesmos que o estreante Braga (nestas andanças) ou que o Cluj, Basel FC ou Marseille.
Muito pouco, demasiado pouco para uma equipa que regressava à Champions com ambição e um discurso que apontava mesmo à final de Londres, a 28 de Maio. Prosápia para vender jornais que não encontra qualquer tipo de justificação no relvado. Chegados ao equador da primeira fase o Benfica tem ainda abertas as portas do apuramento. Mas se o primeiro lugar do grupo é já uma miragem (o Lyon leva mais seis pontos e basta-lhe apenas uma vitória para carimbar a liderança) a verdade é que mesmo o segundo lugar começa a tornar-se algo bem mais complicado do que muitos previam. Num grupo claramente acessível, talvez o que mais na primeira fase, o Benfica apenas venceu o adversário mais débil, os israelitas do Hapoel Tel-Aviv. Uma derrota convincente na Alemanha, frente ao mais fraco Schalke 04 de que há memória em terras germânicas, e um repasso futebolistico em França, contra um renascido Lyon (que há um mês andava também pelos últimos lugares da Ligue 1) foram suficientes para deixar a nu todas as debilidades de uma equipa sem estofo para a alta-competição. Tal como se vai observando no desenrolar da Liga SagresZon, o Benfica planeou mal a época em que sabia que ia ter quatro frentes de combate bem abertas. A legitima ambição europeia empolgou os adeptos mas não encontrou eco na reestruturação do plantel depois de perder os dois elementos chave na reconquista do titulo nacional, Ramires e Di Maria. O técnico Jorge Jesus perdeu a profundidade de campo que os dois sul-americanos lhe davam e teve de confiar nos regulares e nada espectaculares Carlos Martins, Ruben Amorim e Nicolas Gaitan para dar a volta. Sem sucesso.
Contra o Lyon o Benfica voltou a ser uma equipa mansinha, facilmente domada e, acima de tudo, tremendamente infantil.
Os franceses, semi-finalistas da época passada, são uma equipa de verdadeiro estofo europeu e levam já oito anos (a contar com este) com uma presença assegurada na fase a eliminar. Mesmo nos maus momentos, é uma equipa capaz de bater o pé a qualquer um. Que o diga o Real Madrid, na época passada. O Benfica chegou com um discurso de facilitismos e saiu com a licção bem aprendida. Gaitan viu em solo francês os cartões que habitualmente ficam no bolso em Portugal e deixou os colegas em inferioridade numerica contra uma equipa astuta como uma raposa e ferida no orgulho. O primeiro golo dos Gonnes surgiu das habituais desatenções do sector defensivo encarnado. Excelente remate de Michel Bastos, bola no poste, o lance continua a meio-campo, Gourcouff recupera a bola perdida infantilmente (uma de tantas) por Carlos Martins, e com o brasileiro monta um contra-golpe rápido e letal. Jimmy Briand, uma das grandes promessas do ataque gaulês, fez o mais fácil. Percebia-se bem a diferença de atitude, a mesma que levou ao repasso futebolistico em Liverpool na passada temporada, onde a falta de maturidade de Jesus e as desatenções do sector defensivo terminaram, abruptamente, com a campanha uefeira dos encarnados.
No segundo tempo o Olympique Lyon continuou o seu dominio claro e o Benfica continuava sem arranhar. O jogo a meio campo era ganho pelo músculo de Pjanic e Gonalons, e pelo imenso talento do jovem Gourcouff, fundamental na campanha europeia do Bordeux no ano passado. Tal como contra o Hapoel (onde só o golo de Luisão evitou o escândalo) e contra o renascido Schalke 04 (com um Raúl já recordista), no desafio contra os franceses percebeu-se que a este Benfica falta algo mais que profundidade. Sem velocidade, sem espirito matador (um golo em três jogos) e sem concentração, foi fácil a Lisandro Lopez, o dianteiro, ex-FC Porto, que conhece bem a defesa encarnada, ampliar a vantagem. Um lance onde a defesa encarnada, pela enésima vez, viu jogar e acabou com as mãos na cabeça. 2-0, e obrigado.

Mais do que a derrota, ficou a imagem de que o SL Benfica é, realmente e ainda, uma equipa de Europe League. Não mostrou grandes diferenças em relação ao estreante Braga e deixou a nu a grande dificuldade das equipas portuguesas em medirem-se de igual para igual nos grandes palcos europeus. Vencer os próximos dois jogos torna-se portanto, fundamental, para sonhar com os Oitavos. Com o calendário a apertar, cada segundo conta. E este Benfica, há muito se nota, começou a época já a correr contra o tempo. Mau sinal, depois de tanta ambição!
Os ciclos da história repetem-se com uma intensidade asfixiante para o ritmo de vida caótico que levamos. A eterna luta entre a ordem e o caos pautam a realidade desportiva do futebol português num equilibrio dificil de manter durante largos mandatos de tempo. No arranque da nova época a inversão dos papéis restaurou um conceito há muito assimilidade de que a ordem veste de azul enquanto o vermelho mergulha, uma vez mais, no caos.

Ameaças, dúvidas, desespero. Imagens pouco condizentes com uma equipa campeã.
Uma equipa que há meses coroava, com mérito, um titulo merecido mas de logro díficil. Depois de meses onde o conjunto orientado por Jorge Jesus, novo profeta da Luz, oscilou entre a máquina avassaladora de fazer golos e a cínica equipa que aguentou os potenciais tropeções que havia pelo caminho, a consagração parecia inevitável. E a estrepitosa queda do eterno rival, num ano onde os problemas disciplinares e organizativos foram constantes pedras nos sapatos que Jesualdo Ferreira e os seus nunca souberam descalçar, parecia anunciar uma mudança nos ventos da ordem e do caos de uma liga que há vinte e cinco anos aparece dominada por uma cor azul que tinge qualquer rival, rapidamente uma mancha desbotada no fundo do horizonte. Essa mudança de ciclo prevista, anunciada e lógica esbarrou com o velho dito da história que se repete, do eterno deja-vu que marca o futebol luso em particular durante anos e anos de problemas por resolver. As vendas milionárias (com metade dos rendimentos a servirem para pagar o inusitado fundo criado para garantir os investimentos que parecem não funcionar) e a postura da equipa técnica encarnada começaram o serviço. As fracas prestações no terreno de jogo por parte dos jogadores - os campeões e as apostas pessoais da direcção - fizeram o resto.
O campeão nacional, um pouco à imagem da equipa de 2005/2006, arranca um novo ano dando a ideia de que o titulo foi apenas um oásis numa série de politicas e problemas sem solução. Em nada se assemelha este Benfica a um conjunto campeão, com erros de palmatória que habitualmente não escapam sem perdão. Sem ter de se dividir em duas frentes - como os seus rivais directos, em máxima rotação há um mês - os encarnados já deixaram escapar nove pontos. Três derrotas num campeonato a 30 rondas e nenhuma dela num duelo com um rival directo. Pontos perdidos com Maritimo, Rio Ave e Vitoria de Guimarães, as equipas que definem, muitas vezes, campeões e vencidos. Um atraso de nove pontos para o primeiro posto transforma uma longa maratona numa subida inclinada de montanha, um Tourmalet para a equipa orientada por um desorientado Jesus, incapaz de acertar com o sistema, o onze, a motivação e a resposta incisiva que os seus adeptos, legitimamente, esperam. O ataque à arbitragem, o habitual em qualquer clube luso, e as ameças da equipa directiva demonstram bem que o condicionamento das instituições continua a ser uma via possível para a obtenção dos objectivos. Um aviso para um futuro não muito distante.
Longe do caos, a tranquilidade.
A Norte, como é hábito, respiram-se outros ares passado que parece estar o divórcio dos adeptos com a equipa e o técnico que estiveram por detrás de um Tetracampeonato histórico. A injustiça no futebol é assim e depois de um ano a seco - ou quase - o FC Porto renasce, uma vez mais, das cinzas e volta a trepar o seu particular Himalaia para colocar-se no ponto mais alto da tabela.
Um arranque imaculado, com quatro vitórias contundentes, a que se pode sumar ainda um apuramento europeu e um primeiro troféu num jogo que parece a brincar mas que é bem mais sério do que se possa imaginar. Um arranque que faz lembrar o feito de Mourinho, em 2003, com a particular diferença de que, até aí, o clube azul começou engasgado com um empate caseiro e só depois teve de puxar dos galões para derrotar o Boavista e assumir a rota do titulo. Tal como então sucedeu com os axadrezados, também agora o Braga surgiu cedo ao confronto com os dragões e acabou neutralizado depois de um jogo épico, quase indigno da realidade seca e insoça que é o futebol português. Num confronto entre iguais, os azuis e branco levaram vantagem graças, sobretudo, ao reencontro da equipa com a ordem.
André Villas-Boas, técnico emergente e contestado aos primeiros dias de mandato, acima de tudo pela sua notória e evidente inexperiência, deu uma bofetada de luva branca das antigas e confirmou o quão certeira se revelou a aposta pessoal de Pinto da Costa, talvez o seu canto do cisne num duelo de escolhas de técnicos onde a balança pende notavelmente para o lado dos acertos. O actual treinador, anterior adjunto de José Mourinho, o homem que definiu um antes e um depois na história do clube azul e branco e do conceito de técnico a nivel global, entendeu que o problema do FC Porto não estava, ao contrário do eterno rival, na estrutura senão na desordem. Uma desordem criada por vários factores mas que podia ser corrigida com uns breves ajustes. Com um plantel virado para o ataque e onde a defesa continua a ser a grande interrogação - e o jogo com o Braga confirmou-o - André Villas-Boas afinou a máquina com a mesma destreza de Jim Clark e o seu Lotus verde e amarelo. Organizou o meio-campo, abriu a frente de ataque e ganhou o duelo mental. Hulk, Varela, Moutinho, Belluschi, Fernando e Falcao não emergem como jogadores novos tacticamente mas sim com uma mentalidade refrescada, com uma liberdade criativa que o espartilho da época passada muitas vezes não permitia. Essa aparente desordem anárquica é fulcral para a ordem táctica colectiva que permite ganhar batalhas individuais e duelos de grupo e assim desiquilibrar a balança. Como sucedeu com Pedroto, Artur Jorge, Carlos Alberto Silva, Bobby Robson, António Oliveira e José Mourinho, a ordem acenta num principio base e expande-se no terreno. Os resultados são uma mera confirmação da evidência.

O que se perspectivava como um duelo a dois até ao fim pode rapidamente transformar-se numa corrida isolada e até aborrecida de um clube que soube detectar, como um anti-virus, onde estava o problema e solucioná-lo sem grandes problemas. Ao contrário, na desordenada Luz, os gritos de alarme ecoam desde o principio deste parto dificil que pode acabar em gestação prematura. Já se sabe que em tudo na vida, o mais fácil é chegar ao topo. O dificil é manter-se por aí a ponto de se tornar num paradigma da ordem. Villas-Boas demonstra que já encontrou a tecla para reordenar o status do futebol português. Enquanto isso, Jesus vai pregando no deserto. Mergulhado no seu particular caos.
Pediu uma vez que o deixassem sonhar mas a memória atraiçoou-o e reservou-lhe um final que não se merecia. José Torres, o eterno "Bom Gigante", figura chave do futebol luso, faleceu hoje aos 71 anos, depois de uma longa e perdida luta contra o Alzheimer. Passou pela era dourada do futebol luso como uma das suas máximas estrelas acabando por testemunhar o final de um dos maiores pesadelos da história do futebol português.

Uns recordarão o Torres técnico, e as suas esperançosas declarações previas à viagem de Estugarda que garantiu o histórico regresso de Portugal a um Mundial. Outros lembram-se dele no primeiro Campeonato do Mundo de Portugal, dos seus golos, assistências e gestos técnicos primorosos. Em qualquer caso, Torres foi uma figura impar.
O ponta de lança que o SL Benfica contratou em 1959 ao Torres Novas fez parte da equipa encarnada que dominou por completo o futebol português nos anos 60. A sua altura (media 2 metros e 3 cm) garantiu-lhe o apelido que o eternizaria, mas a verdade é que durante três anos foi presença mais assidua na equipa de reservas do que no onze tipo daa equipa treinada por Bella Guttman. Depois do triunfo europeu de Berna, Torres passou a ser figura chave na estrutura ofensiva encarnada, rendendo a pouco e pouco o histórico José Águas. Ao lado de Eusébio, António Simões e José Augusto, compôs a mágica dianteira que venceu seis ligas nacionais em oito anos e chegou a três finais da Taça dos Campeões Europeus, todas perdidas. Na sua primeira época como titular absoluto apontou 26 golos, o que lhe valeu então a Bota de Prata, prémio que não voltaria a vencer apesar de ter estado perto dos números atingidos pelo seu parceiro de ataque, Eusébio.
Em 1963 Torres foi pela primeira vez chamado à selecção nacional, onde rapidamente reeditou o quarteto ofensivo que maravilhava o estádio da Luz. Com essa linha atacante Portugal chegou a Inglaterra e tornou-se no conjunto revelação do torneio. Durante a prova Torres sagrar-se-ia como o segundo melhor marcador da equipa portuguesa, com 3 golos, só atrás de Eusébio. No final da década de 60, com as chegadas de Toni e Artur Jorge, começou a revolução geracional que ditaria o final da etapa do "Bom Gigante" na Luz. Determinado a demonstrar a sua valia, o dianteiro rumou ao Vitória de Setúbal, então orientado por Fernando Vaz.
Em 1971 chegou ao Sado onde disputou quatro épocas com os sadinos, conseguindo aí as suas últimas convocatórias para a equipa das Quinas, despedindo-se num Portugal-Bulgária de 1973, curiosamente no mesmo dia que os seus eternos parceiros, Simões e Eusébio. Depois da aventura em Setúbal, Torres retirou-se definitivamente do futebol ao serviço do Estoril-Praia, em 1980. Aí arrancou igualmente a sua carreira como treinador principal.
Orientou o Estrela da Amadora, Varzim e Boavista antes de ser chamado, surpreendentemente, em 1984 para o cargo de seleccionador nacional. A Federação Portuguesa de Futebol procurava um técnico de baixo perfil depois dos graves problemas vividos pelo quadriuvirato composto por Toni, Morais, José Augusto e Cabrita durante o Europeu de França. A escolha do simpático Torres tinha como principal propósito, desanuviar as tensas relações entre a FPF e os jogadores, e entre os atletas do Benfica e FC Porto. Um trabalho nada fácil que teve de ser compaginado com a dura qualificação para o Mundial de 1986. Depois de vários resultados adversos, Portugal beneficiou da sorte, com a derrota da Suécia diante da Checoslováquia o que levou o técnico a proferir a célebre frase "deixem-me sonhar" à partida para Estugarda. Portugal precisava de ganhar à já apurada RF Alemanha e assim o fez, com um remate monumental de Carlos Manuel. Conseguido o apuramento, voltaram os problemas. Em Fevereiro de 1986 começa a gestar-se o que viria a ser a base do caso Saltillo, circunstância em que o seleccionador nunca soube impor a sua voz. Falhou como o mediador que a FPF e os jogadores precisavam e falhou depois no terreno de jogo. Após a vitória inaugural contra a Inglaterra, num jogo em que Portugal foi claramente inferior, e das declarações explosivas de Paulo Futre, o seleccionador perdeu o controlo da situação e Portugal viu-se superado por Polónia e Marrocos. À chegada a Lisboa a equipa federativa não lhe perdoou a falta de apoio no conflito com os jogadores e Torres foi despedido.

A partir daí a sua carreira tornou-se errática até que abandonou, definitivamente, o futebol quando lhe foi diagnosticado um principio de Alzheimer que marcou profundamente os seus últimos anos de vida. A morte de um dos melhores pontas-de-lança do futebol marca assim o dia que deveria significar um renascimento da equipa nacional por quem tanto lutou. Quanto a José Torres, o jogador e o técnico, há muito que garantiu o imortal lugar na história do nosso futebol. Como poucos lograram antes dele.
Confirmados os sorteios das provas europeias, os aristocratos do futebol do Velho Continente sabem já o percurso das longas caminhadas que os esperam antes do seu inevitável destino. As ilhas britânicas só poderão receber quatro equipas, pelo que 76 lá ficarão pelo caminho. Portugal teve direito a um percurso menos espinhoso do que se antecipava, mas neste mundo de reis, duques e condes europeus o estatuto é um erro recorrente. E impiedoso.

SL Benfica, SC Braga, FC Porto e Sporting CP esfregam as mãos.
As graças da fortuna foram gentis para as quatro equipas portuguesas que superaram "cum laude", os primeiros precalços na rota europeia. Se o Benfica é o grande beneficiado (o Olympique de Lyon era o cabeça-de-serie perfeito e o Schalke 04 um adversário do mesmo nível), face aos rivais que poderia ter diante, nenhum dos outros três conjuntos tem realmente sérias razões de queixa.
O Braga, essa grande surpresa da primeira fase a eliminar das provas europeias, terá de olhar para o espelho e medir-se com o seu alter ego, o Arsenal de Londres. Um duelo de iguais nas cores e bem diferente no estatuto que deverá pender, com naturalidade, para os comandados por Arsene Wenger, equipa que habitualmente se apresenta em forma na fase de grupos para depois ir tropeçando antes de tempo quando é a doer. Já Shaktar Donetsk e Partizan Belgrado são equipas acessiveis para os minhotos. Os ucranianos, campeões em titulo e uma das equipas com mais rondas europeias na prova rainha nos últimos cinco anos, têm-se deparado com os conjuntos portugueses, com vantagem claramente para os lusos. É uma equipa bem estruturada e repleto de criativos brasileiros, tal como o Braga. Já o Partizan conta com uma excelente formação e um ambiente demoníaco no seu estádio. E pouco mais. Rivais acessíveis que permitem sonhar com a segunda fase mas que pode terminar em desastre.
Já as equipas presentes na Europe League não podem ter razões de queixa. Ambos cabeças de série, FC Porto e Sporting têm um adversário de bom nível (Bessiktas e o regressado Quaresma e o Lille do génio Hazard), e duas equipas tremendamente acessíveis como são Rapid Wien e CSKA Sofia (para os dragões) e Levski Sofia e Gent (para os leões). Os grandes tubarões ficam adiados para uma próxima vez. Para todos.
À parte do caso luso, a Europa mantem o seu status quo. A UEFA sabe fazer bem as contas e coordena as suas provas ao mais minimo detalhe.
A forma como os clubes são distribuidos nos potes já garante um equilibrio forçado que mantém a ordem imperial dos gigantes europeus. Na Champions League deste curso há apenas dois grupos tremendamente competitivos. Na Europe League, onde são doze os agrupamentos, não existe sequer um "grupo da morte". Esperam-nos quatro meses de tédio e alguma inevitável surpresa. Os jogos a doer ficam reservados para depois.
Só os colossos de Milão e o Real Madrid podem ter de suar mais do que previsto. Mourinho mantém a sua malapata e o seu novo projecto merengue volta a repetir duelo contra o AC Milan (rival da passada época, que levou vantagem sob os comandados de Pellegrini) agora treinado por Massimo Allegri e eventualmente com Ibrahimovic (por confirmar), Pato e Ronaldinho como tridente de luxo. Tão brilhante como intermitente, um perigo que não sofre o Ajax Amesterdam, de volta a estas lides depois de cinco anos no purgatório. A equipa de Jol, com Suarez, Eriksen, Verthoghen, Hamdouid e van der Wiel é uma faca de dois gumes. Um perigo que não deverá repetir-se no duelo dos espanhóis com o modesto Auxerre, uma equipa que sabe que o seu objectivo real está na Ligue 1 e não nos palcos europeus. Já o Inter, agora treinado por Rafa Benitez, tem um arranque dificil para a improvável defesa da sua coroa. Twente (sem o nível da época passada), o regressado Tottenham e o épico Werder Bremen serão rivais de luxo. Já Manchester United (contra Valencia, Rangers e Bursaspor), Barcelona (Rubin, Panatinaikhos e Kovenaghen), Chelsea (Spartak Moscow, Marseille e Zilina) e Bayern Munchen (AS Roma, Cluj e Basel), os grandes candidatos à final do Wembley, têm o caminho aberto para uns meses de grande tranquilidade.
Na Europe League a presença de 48 equipas abre as portas a um imenso desiquilibrio. O duelo entre uma renascida Juventus e o milionário Manchester City, ou o embate que coloca frente a frente Sevilla e Dortmund são dos poucos aperitivos apetecíveis. Os favoritos seguirão em frente, com maior ou menor dificuldade. A UEFA garante-o.

Portugal tem portanto todas as condições de manter-se na elite europeia a médio prazo. Os conjuntos na Champions League deverão, pelo menos, atingir o terceiro lugar (que abre as portas da segunda prova da UEFA), enquanto que FC Porto e Sporting são fortes candidatos a vencer o seu grupo e assim manter o estatuto de cabeça de série quando for a doer. Dublin e Wembley são miragens no meio de tantos tubarões, mas os pontos que se vão sumando podem permitir já para o ano a entrada de uma terceira equipa na Champions. O truque é saber estar, segurar bem na chávena de chá, sair com um vénia e de cabeça alta. É assim que funciona a aristocracia europeia.
Como é possível que um projecto tão sólido se desmorone como um castelo de cartas à primeira brisa? A persistência no erro é o primeiro passo para a derrota e os factos destroçam a mais simples das lógicas. Um pequeno ajuste transformou-se num imenso problema e no meio de tanta confusão, essa pequena alteração foi suficiente para transformar a galinha dos ovos de ouro num novo idolo de pés de barro.

Depois de ser consagrado, de forma unânime, como o guarda-redes do ano, Quim viu o seu treinador dispensá-lo em directo, num programa desportivo. A forma como Jorge Jesus se referiu ao seu ainda guardião deve perseguir agora o técnico da Amadora, noite após noite. O pequeno Quim não tinha o carisma e atitude necessários para transformar-se num guardião que ganha jogos, pontos...titulos. Já durante a época o técnico tinha promovido uma inusitada dança de guarda-redes, entre Julio César (e os seus erros europeus) e Moreira, o eterno subaproveitado. Mas nenhum o tinha convencido, realmente. Nem o jovem contratado há vários anos ao Salgueiros, nem a sua expressa petição pessoal, nem muito menos o titularíssimo da Luz.
Com Quim fora do baralho, as opções no mercado extendiam-se aos pés do recém-consagrado campeão nacional. O feito histórico de devolver o Benfica ao primeiro lugar transformou o competente treinador na nova "galinha dos ovos de ouro" para os encarnados. As suas decisões tornaram-se inquestionáveis.
Dessa forma, poucos foram os que realmente sairam a dar o peito às balas quando o técnico e o seu director desportivo, Rui Costa, anunciaram que o tal guarda-redes com carisma, atitude e capacidade para ganhar titulos era o relativamente desconhecido Roberto. Uma escolha (a terceira em Madrid) que custava o que nenhum guardião, com a excepção do imenso Gianluigi Buffon alguma vez custou. Um preço modesto para tanto talento que tinha, entretanto, passado desapercebido por essa Europa fora onde a posição do número 1 é sempre um caso sério a rever. Afinal, não tinha o Bayern Munchen chegado à final da Champions League com um tal de Hans Jorg-Butt nas redes?
Roberto foi sempre um erro de casting, já aqui o dissemos.
Nem faz parte da geração de elite de porteros espanhóis, nem sequer é um nome consensual entre os seus. A sua chegada, rodeada de pompa e circunstância, a uma equipa a quem muitos tinham otorgado o papel de dominador absoluto do futebol luso para os próximos anos. O projecto milionário encarnado tinha, depois de quatro anos, dado os seus frutos e, nas palavras do seu treinador, a Champions League era um objectivo tão real como o "Bicampeonato". Para isso, para essa ambição europeia, a mesma que destroçou o Benfica pós-Erikson e pós-1994, trocou-se o seguro pelo duvidoso. Um erro, sem dúvida. Um erro crasso que os primeiros jogos do ano, a valer ou não, foram desmontando.
A insegurança do espanhol é evidente, a sua incapacidade para comunicar-se com os colegas do sector notória. No entanto, os erros técnicos que evidenciou na pré-temporada e no jogo de sábado, na Madeira, são mais preocupantes do que qualquer problema de comunicação. Demonstram uma inépcia que atormentam alguns guardiões por essa Europa fora, como vimos o ano passado, repetidamente, com o polaco Lukas Fabianski. A diferença é que nenhum deles foi um recorde de transferência nem uma aposta tão pessoal de dois homens que gostam de reforçar a sua eterna fome insaciável pela glória.
Numa equipa já de por si debilitada pelas transferências do pulmão e da alma criativa da versão-campeã, contar com um guarda-redes que só transmite intranquilidade é um risco que o Benfica não pode correr. Roberto não é o único erro de Jorge Jesus na planificação da época em que esperava a sua consagração europeia. Gaitán, um jogador sem espaço no modelo de jogo do ano passado e na variação táctica em 4-3-3 que Jara poderá obrigar a tornar-se realidade, é outro problema sem solução à vista. Tal como o débil sector defensivo, onde a primeira linha não tem soluções à altura (que dizer de Sidnei ou César Peixoto) ou a fraca forma fisica e mental de jogadores que foram pilares no conjunto campeão, como o espanhol Javi Garcia ou a dupla argentina Saviola-Aimar. A fome de titulos para alguns está aparentemente mais saciada que para outros e o crime de cair no laxismo desportivo sempre foi o hara-kiri do conjunto encarnado desde que o FC Porto lhe arrebatou em meados dos anos 80 a supremacia do futebol luso.

Jorge Jesus vive na eterna encruzilhada do medo. Medo a falhar, a demonstrar que também erra, ao optar por preterir Roberto e voltar a lançar as suas duas apostas falhadas em 2009/2010. Ou medo a continuar a insistir no erro inicial, arriscando-se a novos sobressaltos e tropeções na corrida aos titulos que ainda discute. O erro tem um poder destructivo. No caso deste SL Benfica, o poder de destroçar a ilusão de que uma equipa campeão não se torna na bitola por onde se mede a qualidade da noite para o dia. No meio disto tudo, o infortúnio de Quim parece uma gota no oceano de desespero do idolo de pés de barro.
É impressionante a forma voraz como funciona a Comunicação Social portuguesa a pedido, a súplica, a necessidade. Depois de um ano louvando, com motivos, a genial época de Quim, um desses eternos mal amados, ninguém se pareceu preocupar com a sua dispensa e subsequente substituição por um guardião espanhol que está a anos-luz da média altíssima que exibem os "porteros" espanhóis na actualidade.

Se a fama actual do grande momento que vive o futebol espanhol se deve essencialmente ao génio dos seus "bajitos", é impensável negar o brutal aumento qualitativo que se está a verificar quando se analiza, detalhadamente, a evolução desportiva, fisica e psicoloógica do guarda-redes espanhol. O que há uns anos era uma dor de cabeça, agora é uma fonte inesgotável de talento.
Uma evolução espantosa que não conhece clubes, regiões ou faixas etárias particulares. Do nada, ou como se fosse, foram brotando os pequenos grandes talentos que hoje garantem que a melhor escola de guardiões da actualidade é, sem dúvida alguma a espanhola. Um titulo que já pertenceu a alemães, italianos e soviéticos, hoje todos bastante distantes da sua era dourada. Imaginar que qualquer um dos três campeões do Mundo convocados por Vicente del Bosque seriam titulares em quase 90% das selecções presentes no Mundial é dizer pouco do alto nível de qualidade que se vive no país vizinho. Para isso é preciso ver quantos ficaram de fora dessa lista.
Mais do que Iker Casillas, Pepe Reina e Victor Valdés, verdadeiros génios entre os postes, é preciso não esquecer os Diego Lopez, Gorka Iraizoz, Manuel Almunia, David De Gea, Andres Palop, Sérgio Asenjo, César e afins que ficaram de fora. São eles o verdadeiro espelho desta geração. E nesta lista de 10 nomes não há espaço para Roberto Jimenez, o homem por quem o Benfica achou conveniente pagar 8,5 milhões de euros, uma cifra de recorde quando falamos do número 1. Particularmente deste.
Roberto Jimenez é herdeiro de uma celebre escola de guardiões, a do Atlético de Madrid.
À beira do Manzanares nunca houve espaço para si. A presença do argentino Leo Franco, do francês Gregory Coupet e depois de Sérgio Asenjo, uma das grandes promessas do futebol espanhol, foram sempre impedimentos para conquistar a afficion colchonera. Incapaz de mostrar aí o seu valor, Roberto teve de viajar por essa Espanha fora à procura de minutos. Esteve na triste campanha de despromoção do Recreativo de Huelva, onde passou sem grande brio. No ano passado, superado pelo jovem David De Gea, de apenas 19 anos, foi forçado a rumar emprestado ao Zaragoza, para disputar a segunda volta. Ajudou a equipa a manter a categoria, sofreu 17 golos em 15 jogos e não deixou particulares saudades. Nem aí, nem em nenhum lado. Este ano não tinha clube, nem destino. Até que apareceu Jorge Jesus, preparado para ordenar outro profeta.
Depois de um ano onde manteve na baliza um constante foco de instabilidade, sempre mostrando pouca confiança no trabalho de Quim, o técnico encarnado conseguiu um dos seus principais objectivos. Garantiu a dispensa do internacional e mandou vir do país vizinho um guardião com pouca aura e algum potencial. Depois de ter contratado Julio César ao Belenenses, de manter Moreira e de andar pelo mercado juvenil a contratar um jovem guardião esloveno (Jan Oblak), o espanhol torna-se no terceiro "portero" que o técnico encarnado decide levar para a Luz. Num posto onde, precisamente, o que se procura é longevidade. E segurança. Essa segurança que Roberto nunca deu no seu passado. Essa mesma (in)segurança que não tem dado no presente. Mais do que os golos sofridos, e a forma como foram concedidos, é o olhar inseguro que delata Roberto. Não tem a frieza dos dez nomes acima citados, muitos deles com um valor de mercado infinitamente menor do que o Benfica decidiu pagar pelo guardião. E no entanto está aí, camisola com águia ao peito, preparado para suster os ataques rivais. E se a liga portuguesa não é propriamente uma prova muito rematadora, particularmente com o sem número de equipas que gosta de rematar como quem controla as balas na camara da pistola, já o espectro europeu, onde este Benfica quer e deve fazer boa figura, o cenário muda claramente. E Roberto não parece ser, claramente, o homem certo para o trabalho.

Se a direcção e o técnico encarnado se mostraram hábeis no último defeso, com contratações cirúrgicas e acertadas, também é verdade que os erros de Jesus e companhia começam a subir de forma alarmante. Do lateral Patric que caiu rapidamente no desconhecimento, ao ineficaz Shaffer, sem esquecer Felipe Menezes, Kardec ou o próprio Júlio César, preterido uma vez mais, é fácil ver que a taxa de acertos e de falhos anda bastante mais equilibrada do que a tal Comunicação Social, cuja única missão é vender, custe o que custar, mais um jornal, nos quer fazer crer. Roberto até pode adaptar-se ao esquema encarnado, realizar uma época de sonho e ser vendido pelos muitos milhões que ninguém viu mas que muitos alardearam. Mas na era de ouro do desporto espanhol, no periodo mágico da vida dos "porteros", o seu nome não aparece por nenhum lado. Por algo será.

