Terça-feira, 24.01.12

Poucas siglas no futebol são tão facilmente reconhecíveis como o mítico trio de letras que fez de Jean Pierre Papin um dos jogadores mais amados do futebol europeu a final dos anos 80. O eterno goleador de Boulogne-sur-Mer não só desafiou a razão ao vencer um Ballon D´Or como transformou-se num ícone para um futebol gaulês rodeado de pontos de interrogação. O seu faro para o golo marcou profundamente a sua carreira mas foi o seu estilo simples e honesto que lhe permitiu distanciar-se dos enfant terribles que França teimava em produzir com insuspeita assiduidade.

Em 1986 a revista Onze realiza uma reportagem sobre um flamante dianteiro que surgia surpreendentemente na lista de Michel Hidalgo para o Mundial do México. O jogador aparecia vestido como um camponês, com boina e casaco à altura do majestoso cajado, e um ar que lhe permitia confundir-se com qualquer outro filho da província do hexágono. Longe do glamour de hoje ou do ar rebelde da maioria dos seus contemporâneos, essa imagem de JPP eternizou-o ao longo da carreira. O mais humilde dos guerreiros gauleses tornou-se também num dos mais bem sucedidos futebolistas da sua geração.

Papin viajou ao México junto a Platini, Giresse, Genghini, Tigana e companhia. E marcou, como só ele sabia, o golo da vitória frente ao Canadá e um dos tentos que confirmaram o terceiro posto da França no torneio. Seria o seu primeiro Mundial. E o último também. Com o ocaso azteca a selecção gaulesa entrou numa espiral destructiva que a afastou de dois Mundiais consecutivos. O futebol internacional perdeu assim um dos seus grandes nomes nas grandes noites. A Papin restou-lhe o seu icónico papel na história dos clubes que melhor representou, os belgas do Brugge e os gauleses do Olympique Marseille. No final desse Mundial o jogador que o futebol francês tinha olhado com suspeita depois de dois anos brilhantes ao serviço do modesto Valenciennes, voltou a casa. O ano na Bélgica, com a camisola do Brugge, tinha convencido tudo e todos. 20 golos em 31 jogos foram suficientes para que Hidalgo o visse como um potencial dianteiro para uma selecção com um fortíssimo meio-campo mas sem alma de golo nos últimos metros. Apesar de ter apontado apenas dois golos no torneio a sua performance foi suficiente para convencer o polémico Bernard Tapie que ele era o homem certo para o seu ambicioso projecto em Marselha. Começou uma história de amor que durou meia década.

 

Durante esses seis anos a conexão entre JPP e o público marselhês tornou-se na base da sua popularidade.

Os números eram incapazes de mentir e a veia goleadora de Papin, ponta-de-lança da velha escola, raposa de área, consagrou-o como um dos melhores dianteiros do Velho Continente. Em 215 jogos pelos azuis apontou 135 golos, contribuiu para a conquista de um Tetracampeonato entre 1888 e 1992 e ajudou o onze gaulês a chegar à sua primeira final europeia.

Papin viveu a era mais dourada mas também conflictiva da história do clube. Inicialmente o objectivo de Tapie era aproveitar para a sua equipa a parceria que tão bons resultados parecia dar ao serviço dos Bleus de Michel Platini. Ao lado de Eric Cantona o goleador sentia-se cómodo e com o apoio directo de Chris Wadle e Abedi Pelé, a máquina goleadora marselhesa era verdadeiramente inalcançável. Mas os problemas de Tapie com Cantona - emprestado dois anos consecutivos a Bordeaux e Montpellier - e as suspeitas de doping e jogos comprados (como se provou na polémica OM-VA) ensombraram a magnifica carreira do dianteiro que venceu por cinco anos consecutivos o prémio de Melhor Goleador da Ligue 1. Se em Marselha a sua parceria com Cantona se desfez, ao serviço dos Bleus foi o jogo combinado de ambos que permitiu a Michel Platini lograr um apuramento histórico para o Euro 92 (depois de falhadas as classificações para o Mundial de Itália e o Euro da Alemanha) com oito vitórias em oito jogos e Pappin como máximo marcador da ronda de apuramento. Mas na Suécia, apesar dos seus dois golos (os únicos dos Bleus) a França desiludiu num grupo que parecia feito à sua medida. Depois do empate com Inglaterra e Suécia, a derrota com a surpreendente Dinamarca condenou os gauleses a uma eliminação precoce que só ia anunciar a depressão maior de ser eliminada em casa, pela Bulgária, na corrida ao Mundial dos Estados Unidos. Por essa altura JPP já era um ícone global, o primeiro francês desde Platini a lograr convencer os jornalistas da France Football a atribuírem-lhe o prémio Ballon D´Or.

Resultado de uma época memorável, o triunfo foi polémico porque ficou claro que a divisão de votos entre os jogadores do Estrela Vermelha - Dejan Savicevic e Darko Pancev - facilitou a vitória de um homem que mostrou o seu lado mais cinzento nessa mítica final de Bari. Depois de várias tentativas - incluida a da meia-final do ano prévio com a mão de Vata a eliminar os gauleses - o Marseille de Tapie finalmente logrou o apuramento para a final. Cantona estava castigado pelo clube, Papin foi deixado só na frente de ataque e o jogo entre os excitantes jugoslavos e os habitualmente ofensivos franceses transformou-se na mais aborrecida final da história. Os penaltis decidiram o titulo e a sorte (e o carácter) deu o triunfo aos encarnados.

Foi o canto do cisne para JPP que disputaria mais uma época triunfal em Marselha antes de rumar a Milão onde outro megalómano empreendedor, Berlusconi, já tinha pensado nele para o futuro do seu AC Milan, orfão do génio de Ruud Gullit e preso pelas lesões de Marco van Basten. O presidente pagou 10 milhões, o recorde à época, pelo Ballon D´Or mas o investimento nunca esteve à altura das expectativas.

Em Milão Papin deixou de ser o protagonista a que estava habituado. Começou a viver entre o relvado e o banco com perigosa assiduidade já que o seu técnico, Fabio Capello, entendia que era um jogador que não ajudava o colectivo nos aspectos defensivos da mesma forma que Massaro ou Simone. Papin terminou o ano com 13 golos (a sua pior média em oito anos) tantos como van Basten que passou mais de metade da época (lesão que acabaria com a sua carreira definitivamente). O opúsculo chegou na final de Munique. O "seu" Olympique Marseille seria o rival do AC Milan e para cúmulo da sua desgraça os franceses venceram - com um golo de Boli, de cabeça - e JPP não saiu do banco. Mais tarde o titulo foi retirado aos franceses mais isso não apagou a dor do dianteiro que ficou ainda mais um ano ao serviço dos italianos (cada vez mais como figura secundária com apenas três golos) antes de partir para Munique onde marcou três golos em dois anos ao serviço do Bayern (marcados pelas lesões) e Bordeaux, um clube que marcou o seu regresso a França que se eternizaria nos oito anos seguintes por clubes de segundo nível como Guingamp, Saint-Perroise ou Cap-Ferrat.

 

Ofuscado pelo sucesso tremendo da geração que o seguiu, a de Zidane e companhia, a JPP custou-lhe dizer adeus aos relvados e mais ainda arrancar na sua nova etapa como treinador. O herói loiro de Marselha conseguiu promover o Strasbourg à Ligue 1 em 2006 mas uma revolta no balneário afastou-o do comando do projecto do clube do Sarre no ano seguinte. Curtas passagens por Lens e Chateroux não deixaram saudade e a história teve de contentar-se com a imagem, de braços no ar, cabelo ao vento, de um homem que apontou 225 golos em 420 jogos, um dos registos mais implacáveis da história de um futebol gaulês que nunca mais conheceu um avançado com tanto apetite pela baliza alheia.



Miguel Lourenço Pereira às 08:31 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 18.01.12

Na imensa distância do lar o futebol joga um papel tão importante na inclusão social como qualquer outro ritual urbano moderno. Tim Parks, jornalista inglês radicado em Itália, sentiu-o desde o primeiro momento e durante 20 anos manteve-se profundamente apaixonado por um clube que não lhe dizia absolutamente nada. Dessa história de amor nasce um livro de viagens, de reflexões e de amor sobre um clube que funciona perfeitamente como o espelho do amor por um jogo inimitável.

Quando Tim Parks chegou a Verona o clube local não era mais do que um de um mar de entidades que lhe eram totalmente desconhecidas. Vinte anos depois tornou-se numa paixão absoluta, num leit motiv perfeito para deambular pela essência do adepto de futebol.

A Season With Verona é um dos livros mais apaixonantes alguma vez escritos sobre o mundo do futebol porque se centra nessa figura ambigua, apaixonada e intensa que é o adepto. Ao contrário de Fever Pitch, longa e romântica história de amor ao clube de infância, nesta obra temos um emigrante que descobre na cidade de acolhida um clube com quem cria um laço que reflecte a sua relação com a sua nova comunidade. A ponto de se tornar no motivo perfeito para o seu livro.

Park decide escrever um diário pessoal e único sobre uma temporada completa do Hellas Verona. Em cada capitulo descreve um (ás vezes dois) jogos que assiste piamente, semana atrás de semana. Viaja do extremo sul do país até à zona mais a norte, dos Alpes ao estreito de Messina e sempre com o pensamento gialloblu no coração. Nas suas peregrinações faz-se acompanhar dos adeptos mais ferrenhos, a celebre Brigatta - uma das mais icónicas claques italianas - mas também dos jogadores e staff directivo, outros jornalistas italianos e até mesmo de velhos companheiros de luta. De autocarro, avião ou comboio sem esquecer as caminhadas a pé à volta do Bentegodi, santuário local do Hellas, respira-se futebol em cada letra tipografada com a retundância de um remate que cheira a golo. O livro começa no inicio de uma época cheia de interrogações e termina com o drama de um play-off que determinará o futuro da equipa. Um projecto desportivo que não deixa de ser icónico tendo em conta que o Verona é um dos muitos pequenos-grandes italianos que povoam a rica Serie A, com um historial polémico às costas e com um titulo, logrado em 1985, no único ano em que o Calcio esteve, verdadeiramente, limpo.

 

A obra do autor britânico permite explorar não só o universo futebolistico do clube (as tácticas, as incorporações, os veteranos no plantel) mas sobretudo o espelho social de uma cidade conhecida pelo seu pensamento conservador de extrema-direita e que usa o calcio para fazer-se ouvir um pouco por todo o Mundo. O sucesso do Hellas é, para os veranoeses, algo de que orgulhar-se.

Nada escandaliza em A Season With Verona porque tudo é profundamente genuino. Os sucessivos insultos aos clubes do sul, a luta entre claques, as cargas policiais e as suspeitas de jogos comprados, a droga, a prostituição e o submundo de clubes comprados e vendidos longe do coração das bancadas, sempre despertar na Curva.

Os habituais seguidores destas lides recordam-se bem dessa equipa de Elkjaer Larsen de 1985, um fantasma omnipresente nas alcunhas de muitos dos adeptos que vão fazendo parte desta história, mas esta obra é profundamente moderna porque anuncia já, de certa forma, o ocaso da Serie A antes que este fosse verdadeiramente oficial e, sobretudo, o fim de projectos de sucesso onde o papel do adepto se sobrepõe ao do proprietário. Se a obra segue o estado de ânimo de um adepto que reflecte o sentimento comum também é verdade que nos deixa pistas sobre a gestão profissional dos clubes, a relação (ou ausência dela) entre os jogadores e os fãs e sobretudo o papel de uma direcção que transformou ma entidade desportiva num negócio, espelho fiel de 99% dos clubes profissionais dos nossos tempos.

 

Deambular por Itália ao sabor do grito das Brigatta não só motiva Tim Parks a explorar a sua escrita mais ousada como dá ao leitor um fidelissimo retrato do que é o sentimento futebolistico do povo italiano, de norte a sul, de carro ou a pé, num domingo pela tarde ou num triste sábado à noite. Imaginamos o cimento das bancadas, as letras dos cartazes, as cores garridas nas camisolas, os adeptos a gritar a uma só voz...a essência do adepto sente-se, profundamente, a cada virar de página.


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Miguel Lourenço Pereira às 15:03 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sábado, 24.12.11

De pequeno sempre tive uma profunda reverência à fleuma britânica. Olhava cinicamente para o jogo pausado que vinha do outro lado do Altântico e ambicionava ser capaz de sentir-me tão à vontade com a bola nos pés como o mais vulgar dos artesões holandeses. Mas em Itália encontrava o meu consolo, sentia a minha alma palpitar de outra forma. Ali o jogo belo era-o por um sem número de motivos, cada um mais atractivo do que outro. Hoje o Calcio vive horas a fio na penumbra da dúvida sobre um futuro que não termina de desenhar-se nos céus. Talvez por isso o ame mais do que nunca. Talvez por isso sinta este fascínio sem igual...

Onde uns vêm com desdém eu mastigo com devoção.

A bola rola pesarosa por um tapete que não chega à imagem verde que a mitologia nos ensinou mas que, se pudesse falar, contaria histórias de dez mil e uma noites sem pregar olho. O posiconamento dos vinte e dois jogadores roça a perfeição. O erro é o castigo, a exigência é máxima. Se o acordeão se move para o lado o espelho acompanha. Três, quatro, cinco passos, não há espaço para mais, mover-se é um desafio tão exigente como não falhar...o passe, o remate, o corte, o posicionamento. Nenhum futebol do Mundo é tão exigente como o Calcio e por isso mesmo mergulhar profundamente na sua idiossincrasia não deixa de ser um sério desafio.

Nasci com uma bola nos pés e aí ela foi ficando, ano após ano, à medida que ia encolhendo e eu aumentando de tamanho. Tornava-se fácil apreciar o leque de estrelas que via nos jogos disputados em Espanha. Ou vibrar com o jogo frenético e tão desorganizado da Premier League, esse jogo que aprendi a ver como o original quando, realmente, era apenas um hiato numa história que mudou muito ao longo dos últimod 100 anos. Em provas de selecções tinha os meus fetiches, habitualmente países pequenos com esse ar de superioridade moral a quem a posse e o toque transmitem uma sensação de impotência ao alheio. Mas no final, Itália era uma perdição.

Crescer na época dourada do futebol italiano forçosamente alterou a minha perspectiva mas hoje, muitos anos depois de perder a conta às grandes equipas que via, continuo a sentir algo especial sempre que vejo aqueles estádios semi-vazios, aquele relvado apertado no miolo e aquelas camisolas azzuri quando a Primavera se despede de dois em dois anos para dar lugar ao Verão. Itália tornou-se naquela mulher que todos admiramos mas poucos têm coragem de confessar aos amigos. Porque não é a mais bonita, porque não é a mais sensual ou a mais excitante. Mas que nos consegue mover só com a picaresca do olhar.

 

Aprendi que a bola no Calcio é um elemento tão importante como a chuteira, a altura da relva e o nome do árbitro.

Essa devoção quase absurda de uns conseguia fazer-me sentir ainda mais atraido por aqueles que viam o jogo com o mesmo apetetito que um xadrezista de topo olhava para o tabuleiro por estrear. As peças colocadas, as jogadas ensaiadas vezes sem fim e no final o inevitável cheque mate. Como diria o imenso Gianni Brera, para o italiano o jogo perfeito seria sempre um 0-0, algo que o adepto comum seria incapaz de suportar porque olha para o futebol como uma forma de livrar-se das penas do dia a dia. Da mesma forma que a maioria dos espectadores nas salas de cinema preferem comédias, melodramas ou cinema de acção também os seguidores da bola gostam de golos, sprints, fintas espantosas e irrepetíveis e emoção. Passar hora e meia a ver o relógio mover-se, timidamente, à medida que os ponteiros medem a tensão de ambas as equipas, definitivamente, não é para qualquer um.

Com o Calcio aprendi que a disciplina vale mais que as corridas com o coração nas mãos tão habituais da mentalidade morrer com as botas calçadas da Premier. Ou o brilhantismo técnico, tantas vezes inconsequente, da Liga Espanhola. Os jogadores em Itália são diferentes de todos os outros. Tecnicamente podem ser tão ou mais dotados mas psicologicamente vivem num mundo à parte. São capazes de ler um jogo em 94 minutos, de saber controlar os tempos, as emoções os suspiros. Encaram cada jogo com o mesmo profissionalismo de uma cimeira de paz, sempre pensando nas consequências de cada acção. A diplomacia do futebol italiano aproxima-o, mais do que nenhum outro, à realpolitik, a mesma que destroçou a anarquia romântica do Brasil de 82 ou que rasgou as casas de apostas em 2006. Os italianos são, talvez, dos poucos que entendem o futebol verdadeiramente como algo colectivo e mostram uma impressionante capacidade conciliar o individuo com o todo, a arte com o oficio. Baggio, Zola, Del Piero, Totti, Cassano, Pirlo valem tanto como Gattuso, Conte, Ancelloti, Baresi, Maldini, Tachinardi ou Cannavaro. Têm a injusta fama de futebol defensivo - e são talvez uma das melhores canteras de guarda-redes e centrais do Mundo - e no entanto ninguém esquece a fome goleadora das equipas de Sacchi e Lippi, o respeito que ouvir os nomes de Rossi, Vialli, Mancini, Chiesa, Delvechio, Montella, Ravanelli, Inzaghi, Toni ou Pazzini supõem para o rival. Talvez por viverem num país estreito, os italianos sempre preferiram canalizar o seu jogo pelo corredor central. Não há extremos ou laterais ofensivos que abram o campo, a bola discute-se com o mesmo fervor que a relva. E com a mesma exactidão. O relógio continua a soar, lá ao fundo, numa qualquer piazza de eclesia perdida no meio do belle paese, e o jogo segue, sem pressas, sem essa vontade de agradar que tanto parece fazer falta aos demais.

 

Com o passar dos anos aprendi a amar cada futebol pelo que é, descubrindo as suas virtudes e defeitos e hoje é dificil dizer que exista algum estilo, alguma escola que não me apaixone de certa forma. Ruivas, loiras ou morenas, com bola, sem ela, altas, baixas, muito ou pouco peito, atrás com 5 à frente com quatro, no meio com sete... o futebol, como o sexo feminino, só me desperta sensações positivas e experiências únicas. Ver o Chivas de Guadalajara, o Hearts of Oaks ou o Hellas Verona tornaram-se vivências, por si só, únicas na sua emoção. Mas o meu olhar acaba sempre perdido nos Alpes, viaja pelo Pó, senta-se na baía de Napoles e mergulha no Mediterrâneo. Como com as mulheres, e não se entende o futebol italiano sem as mulheres italianas, no final só há uma que me preenche verdadeiramente. Lembro-me daquele por do sol e penso no Calcio, a bola continua a girar, o acordeão de jogadores move-se lado a lado, a cabeça bem levantada e a vida faz-se eterna debaixo do limoeiro...



Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 13.12.11

Na sociedade actual o pensamento único é uma tendência dominante e, ao mesmo tempo, preocupante. O diferente, o alternativo, o original, o ancestral é deixado de parte em prole de uma linha comum, de um politicamente correcto que corrói até à medula os alicerces da nossa sociedade. O futebol, que funciona sempre como espelho sincero desse mundo interior, vive o mesmo dilema. A ditadura futebolística de um Barcelona único, respaldado pelo sucesso internacional da selecção espanhola transformou em vaca sagrada o futebol de posse mas como a experiência de Luis Enrique vem provar, o sucesso de cada estilo depende, como dizia Gassett do "eu", das circunstâncias.

 

O sucesso espantoso do Barcelona de Guardiola escondeu, na passada época, um fenómeno ainda mais atraente. O êxito da equipa B dos catalães. O projecto que liderava Luis Enrique foi, durante largas semanas, uma das grandes sensações do futebol europeu, demonstrando uma classe e superioridade que permitiam imaginar uma posição cómoda na tabela em muitas ligas europeias. E estes, maioritariamente miúdos, eram apenas a segunda versão do conjunto blaugrana, aquela a que Pep recorre quando sente necessidade de expandir o plantel principal, controlado até ao último ego.

Seguindo a filosofia de toque da escola cruyffiana, imitando o modelo de jogo dos titulares, o jogo do Barça B encantava pela fluidez, pelo controlo e pelas dimensões ofensivas. No cálculo do espaço, no tempo com a bola e na aptidão pela surpresa. Com Nolito, Soriano, Robert, Oriol, Montoya, Bartra, Thiago, Fontás e companhia, estava claro que só com esse pensamento único na bola como filosofia a equipa podia funcionar. E como um relógio suiço, preciso e mecânico, o projecto foi transformando-se de anedota a realidade e terminou o ano em posições de disputa de um play-off de acesso a que teve de abdicar por questões lógicas de regulamento. Era evidente que o papel de Luis Enrique fazia todo o sentido nesse micro-cosmos onde a posse, o passe e o “rondo” são santo e senha e muita foi a expectativa que se gerou quando o asturiano – um dos que trocou Madrid por Barcelona, no caminho inverso que fez Laudrup na mesma época – anunciou que iria procurar um novo desafio, talvez sabedor que viver à sombra de Guardiola é complicado.

 

Por muito paradoxal que aparente a escolha de Luis Enrique pela AS Roma no inicio parecia fazer sentido.

O clube gialorosso tem uma tradição dentro do Calcio de ser uma equipa que preza a bola mais do que o espaço. O clube que glorificou Conte, Falcão e Totti gosta de sentir-se importante a fazer o esférico circular e o projecto milionário que pretendia revitalizar a vida de um dos poucos clubes a desafiar a hegemonia do Inter durante os mandatos de Mancini e Mourinho parecia ter encontrado a sua alma gémea.

Só que Luis Enrique, destemido mas sempre incauto, esqueceu-se das celebres e certas palavras do seu amigo Guardiola sobre um futebol italiano que ele aprendeu a amar durante as suas passagens por Brescia e pela própria Roma. Numa das suas dissertações, quando ainda bebia futebol como aluno, Pep falou da sua relação com um célebre dirigente do Brescia enquanto discutia à mesa sobre a supremacia do futebol de toque e o jogo de espaços que sempre caracterizou o giocco a la italiana. Depois de horas a debater Pep levantou-se, beijou a testa do seu contertulio e exclamou, “tens razão, é impossível discutir a essência de um povo”, e deu por terminado o assunto. Com essa afirmação ficou claro que Guardiola se deu conta que enquanto o futebol de toque funciona bem dentro da filosofia centro-europeia – exportada fielmente para Barcelona e só para Barcelona – no resto do mundo encontra sempre resistências face à cultura local. Em Itália, como Mourinho provou, ter a bola é o de menos quando se controla o espaço. No país da bota o sucesso do Barcelona é visto à distância com admiração mas, também, com esse dose de profundo realismo de um futebol diferente que não é nem melhor nem pior no mesmo que consagrou o AC Milan ou a Squadra Azzurra na última década. Esse olhar arrogante que a maioria dos apologistas da posse têm sobre os demais esta habitualmente ausente quando se olha a partir de outras filosofias, incapazes de aceitar o dogma da verdade institucional.

A campanha de Luis Enrique numa Roma reforçada a seu belo prazer (Bojan, Osvaldo, Lamela, Jose Angel) demonstra bem esse olhar de superioridade frustrado. Entre adaptar-se a uma filosofia local e depois explorar o seu ideário e impor a sua mentalidade, Luis Enrique optou pela segunda abordagem, desafiou os adeptos, encarou-se com Totti e em troca não conseguiu apresentar nada. A sua equipa tenta jogar como os projectos blaugranas pretéritos mas o ADN italiano parece vir ao de cima quando a bola deixa de fluir com normalidade e a velocidade e o recuo de linhas convida a pensar que desastrada é este mistura de ideários. Como se um violinista clássico tentasse entrar numa rave, Luis Enrique é incapaz de entender que antes da sua Roma poder jogar como o Barcelona, primeiro tem de assimilar todos os conceitos sociais, politicos e individuais que fizeram do clube catalão o clone perfeito do ideário holandês. A singularidade do espírito catalão tornaram-no num laboratório perfeito para este sistema de jogo mas, ao mesmo tempo, deixaram-no ainda mais isolado do resto do Mundo onde o jogo directo (no Norte), o jogo de espaços (no Mediterrâneo), a desordem táctica assente no génio individual (em grandes partes da América e África) e, sobretudo, um jogo muito mais estruturado e muito menos fluido são santo e senha. O técnico que abdicou de Isaac Cuenca (emprestado ao Sabadell) por entender que a equipa B deveria emular o jogo da principal, repleto de falsos 9 em lugar de extremos puros, voltou a deixar em evidência a sua incapacidade para ver mais além do velho ditado que nele se aplica tão bem.

 

O fracasso do técnico espanhol no projecto romano é evidente e consequente com tudo aquilo que Luis Enrique preconiza. Um dos grandes defeitos dos treinadores quando migram é o autismo que demonstram face à nova realidade que os rodeia. Esse insularismo mental consegue sempre que se suspeite de técnicos que são bem sucedidos num só laboratório de provas (daí as suspeitas de muitos com Guardiola, suspeitas que não partilho) porque mais do que manejar as tropas, conhecer a bíblia táctica e lidar bem com a imprensa um técnico é, sobretudo, um antropólogo e sociólogo, capaz de reconhecer o mundo onde entra e onde pretende triunfar. Se faz da sua vida profissional um doutrinário das ideias únicas, do politicamente correcto, o seu destino está traçado desde o primeiro dia. O sucesso de uma ideia não faz com que seja, forçosamente, a única ideia a seguir.



Miguel Lourenço Pereira às 11:11 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Sexta-feira, 21.10.11

Entre Baggio e Totti pareceu viver sempre. E nunca se mostrou verdadeiramente incomodado por isso. Mais do que uma lenda viva do Calcio quando este ainda era o Calcio, a verdade é que o génio bianconero nunca deixou de ser para o Mundo o pequeno "Pinturrichio" que durante anos embasbacou aos seguidores do futebol italiano. Como na obra de Dumas, vinte anos depois Alessandro Del Piero já não é o mesmo e o seu adeus talvez não doa tanto. Mas no ar ficou a ágria sensação que houve algo que ficou por fazer nessas décadas de magia. E agora já não há tempo...

 

Quando uma geração diz adeus parece fazê-lo quase de forma instantânea.

Del Piero era um resistente, um dos últimos. Deixará de sê-lo no final desta época e junta-se aos Scholes, Vieira, Ronaldo e outros contemporâneos que decidiram que este desporto não é para velhos. Sobram os Giggs, Raúl e Totti, esses que continuam a resistir à gravidade e ao peso do Mundo transformando o seu jogo e desafiando os tempos. O número 10 da Juventus fartou-se dessa luta porque há muito que deixou de sentir o mesmo apelo, a mesma ilusão. Talvez porque, ao contrário dos recém-citados, deixou de ser importante. Deixou de ser Alex Del Piero e passou a ser apenas isso, uma lenda viva em cera, como uma estátua do Madame Toussaud.

Em 2006, quando a Itália quebrou a malapata de outras duas gerações, Del Piero foi determinante. Na meia-final contra a Alemanha de Klinsmann, rejuvenesceu e destroçou os germânicos como não fora nunca capaz de fazer no passado nos poucos minutos que esteve em campo. Foi o seu jogo mais importante com a Azzura. É significativo que tenha sido assim aos 32 anos apenas. Um espelho de uma carreira confusa e profundamente intrigante. No final desse torneio, que nem foi dele nem de Totti, o seu grande rival, mas sim de Pirlo, Buffon e Cannavaro, os problemas da Juventus anunciaram um fim que se prolongou por meia década.

Del Piero acedeu descer com a equipa aos infernos. Como Buffon e Nedved manteve-se fiel à causa. Confirmou o que todos pensavam dele mas talvez o tenha feito porque, aos 32 anos, sabia que seria incapaz de render de acordo com o seu nome em qualquer outro sitio. Ficar em casa era mais popular mas também mais cómodo para um atleta cuja evolução já tinha estagnado um par de anos antes. A estrela que tinha despontado em 1993, ao lado de um imenso, imenso Roberto Baggio, tinha sido um verdadeiro pesadelo para rivais e próprios durante uma década. Mas depois da saída de Lippi, na sua segunda etapa, começou a perder o seu espaço no onze. O homem que sobreviveu a Baggio, Zidane, Nedved e Ibrahimovic foi perdendo contra ele mesmo. As fracas performances com a selecção tinham criado um sentimento de desconfiança nacional que se juntou rapidamente aos adeptos bianconeros quando souberam que alguns dos seus mais emblemáticos jogadores (incluindo o  Pinturrichio) podiam ter sido cobaias de tratamentos médicos ilegais durante o reinado de Lippi. O reinado do número 10.

 

Del Piero nasceu em Conegliano, uma aldeia perto de Turim, onde passou os primeiros anos de vida.

Com 17 anos a Juventus descubriu-o no Pádova e não hesitou a juntá-lo às filas da primeira equipa onde já militavam Baggio, Ravanelli, Vieri, Vialli e Inzaghi. O impacto do trequartista foi imediato. Estreou-se na segunda jornada contra o Foggia como titular e na seguinte já tinha marcado o seu primeiro golo. Quinze anos depois, em 2008, tornou-se no jogador da Juventus com mais golos e jogos disputados da história, superando a Scirea e Boniperti, dois mitos históricos do clube. No final desse ano a equipa venceu o Scudetto pela primeira vez desde os dias de Platini ao mesmo tempo que batia o AS Parma na final a duas mãos da Taça UEFA. O genial Roberto Baggio levou os prémios individuais mas os jornalistas pareciam realmente encandeados com o talento de um miúdo de 19 anos que nunca ninguém tinha visto. Começou a criar-se uma aura e genialidade que o acompanhou durante toda a carreira. E que nunca foi totalmente preenchida.

Fracos desempenhos com a Azzura (45 minutos contra a Rússia em 96, fracos Mundiais em 98 e 02 e muitas oportunidades falhadas nos momentos decisivos do Euro 2000) e a ascensão de Totti na capital começaram a deixar em evidência o jogador em quem todos pensavam depositar o futuro do futebol italiano. Com a Juventus, em contra-partida, Del Piero logrou tudo aquilo que um jogador pode desejar. Uma vitória na Champions League (quando formava o tridente ofensivo com Vialli e Ravanelli) e mais três derrotas, cinco scudettos (e dois retirados à posteriori) e vários prémios pessoais pareciam preencher de números e troféus uma carreira que se ia perdendo. O golo à Del Piero, movimento diagonal interior seguido de um forte remate colocado tornado famoso pela imprensa italiana por representar uma esmagadora percentagem dos seus golos com os bianconeri, espelhava a previsibilidade do seu jogo. Del Piero deixou de lograr surpreender, perdeu a capacidade de controlar as mudanças de velocidade e foi-se, de certa forma, vulgarizando. Ao seu lado passaram Zidane e Nedved, ambos Ballon´s D´Or ao serviço da Vechia Signora, um prémio a que o avançado italiano nunca esteve sequer perto de optar. Ninguém, no futebol europeu, era capaz de dizer mal do jogo de Del Piero. Mas também eram muito poucos os que o consideravam como um génio. Algo similar ao que passou a Raúl, em Espanha e na Europa, foi corroendo a sua carreira. Em 2006, com 33 anos, muitos imaginavam uma retirada imediata. Pouco havia mais por fazer, por ganhar, por surpreender. Capello tinha transformado o ídolo dos adeptos num suplente de luxo e a situação não parecia que se iria alterar. Mas chegou o Calciopolli, a debandada de técnicos e estrelas e a despromoção. Foi uma segunda juventude para o capitão que voltou a transformar-se, de forma insuspeita e inesperada, no líder do projecto da familia Agnelli. Como uma ressurreição, Del Piero voltou às capas de jornais pelo seu jogo mais do que pela falta dele.

 

No entanto o tempo, que em Itália respeita mais os jogadores do que se possa imaginar, passava e o surpreendente (e nefasto) estado físico de Alex continuava a dar azo aos rumores que falavam no seu surpreendentemente rápido desenvolvimento muscular numa era onde a Juve era suspeito de tudo por todos. Incapaz de agradar a Del Neri ou ao seu velho amigo Conte e sabendo-se incapaz de se reinventar no terreno de jogo, Del Piero anunciou o que estava escrito há quase uma década. Espera dizer adeus como disse olá, com um titulo histórico depois de uma longa travessia no deserto. No futuro os seus números continuarão a ser inquestionáveis mas o presente já lhe dictou sentença, uma sentença que será difícil de alterar com o tempo. Aquele que tinha todas as condições para ser o idolo do calcio italiano parece agora, talvez injustamente, como um elo pequeno de ligação entre as genialidades de Baggio e Totti.



Miguel Lourenço Pereira às 08:46 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sábado, 27.08.11

tão poucos jogadores que podem presumir do curriculo que tem Samuel Eto´o que é dificil descartar o camaronês como um dos grandes jogadores da última década. No entanto o histórico dianteiro preferiu os milhões russos à competitividade da Serie A italiana para a surpresa de muitos. Uma mudança que no entanto se podia antecipar desde que Eto´o chegou à Europa para tornar-se na máxima estrela do futebol africano contemporâneo.

 

Eto´o é um jogador sem medo. Com a bola e com as palavras.

A sua saída do Barcelona, onde se tinha transformado no mais letal dianteiro da história do clube, deveu-se à falta de feeling de Guardiola, uma forma educada, como sempre, do técnico dizer que não apreciava a brutal sinceridade do camaronês num balneário onde durante os anos prévios teve fortes discussões com os pesos pesados do clube. Essa postura de Eto´o acompanhou-o durante toda a vida. Desde a sua chegada à Madrid até à sua coroação em Milão houve poucos jogadores tão genuinos como ele.

A sua mudança para o milionário Anzhi pode parecer aos mais puristas como uma opção oportunista e mercantilista. Afinal, o camaronês deixa uma das ligas mais respeitadas do Mundo - onde era uma das máximas figuras - para jogar no emergente (financeiramente) mas ainda desportivamente débil campeonato russo. E deixa-o por muitos milhões. Cristiano Ronaldo, Wayne Rooney e Leo Messi, os três mais bem pagos do Mundo ganham à volta de 13 milhões de euros ao ano. Eto´o vai ganhar 14 (inicialmente falou-se em 20) num contracto de quatro anos que o irá transformar no maior bilionário na história do jogo. O dinheiro que Eto´o ganhou com este último contracto vai de encontro à sua filosofia de vida, aquela que enunciou sem papas na lingua quando começou a afirmar-se na Liga espanhola. "Trabalhar como um negro para viver como um branco". Missão cumprida.

 

O avançado chegou a Barajas, Madrid, com 17 anos e muito frio.

Veio de África sem uma muda de roupa e enquanto esperava os directivos do Real Madrid no aeroporto sentiu pela primeira vez o peso do ar condicionado dos aeroportos espanhóis. E viu durante a sua adolescência na antiga Cidade Desportiva como era tratado de forma diferente por todos. Empenhou-se em triunfar pelo clube merengue e fez até parte da equipa que venceu a Champions League de 2000. Mas com a chegada de Florentino Perez e a sua politica de Galácticos as portas do Bernabeu fecharam-se definitivamente. Mudou-se para a solarenga Mallorca onde se impôs como um dos maiores dianteiros do futebol europeu e quando apareceu o Barcelona de Joan Laporta, Eto´o sentiu que estava na altura de começar a sentir o que era viver como um branco no duro mundo do futebol espanhol.

Aguentou de tudo, insultos, provocações, desqualificações e muitas criticas. Em Zaragoza, numa noite histórica na luta contra o racismo no futebol, teve o nobre acto de sair de campo quando La Romareda começou a entoar os habituais cantos simiescos que ouvia semana sim, semana não. Ganhou o respeito colectivo e no clube respondeu com golos e titulos. Muitos golos, muitos titulos.

Nunca gostou de ser segundo plano mas aguentou estoicamente o sucesso de Ronaldinho e depois o de Messi. Isso sim, foi sempre uma figura critica no balneário da vida nocturna do brasileiro e do argentino, no que o levou a chocar imediatamente com Guardiola, decidido a fazer da jovem estrela das pampas o eixo central do seu projecto. A saída de Barcelona coincidiu com a chegada a um Inter de Milão onde encontrar um técnico tão ambicioso e profissional como ele. Para Mourinho o camaronês tornou-se no joker perfeito, actuando até de defesa se necessidade havia, e com ele venceu a sua quarta Champions League (depois de ter sido o desbloqueador das duas vitórias do Barcelona em Paris e Roma) e mais uma liga, a quinta do seu historial desportivo. Mas os desafios começavam a escassear e o envelhecido plantel do Inter já não era, propriamente, o lugar ideal para ir mais longe na sua corrida contra o tempo. Chegou o Anzhi, os milhões que ele sempre quis desde os seus dias a jogar em Nkon e um desafio radical. Homem habituado a fazer o inesperado, Eto´o embarcou na viagem mais louca da sua carreira.

O curioso de tudo isto é que o Eto´o, como os seus colegas, vai viver e treinar em Moscovo, a 2000 mil kilómetros do Daguestão, onde está sediado o clube e onde só se deslocará no dia dos jogos. Uma aventura pensada até ao mais minimo detalhe e que leva a viagem do pequeno camaronês dos trópicos de África à estepe russa. Um longo cruzeiro de um homem que conseguiu cumprir todos os seus objectivos e que já pode pensar na vida de milionário que o espera quando a bola deixar de rolar...



Miguel Lourenço Pereira às 09:39 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sexta-feira, 12.08.11

Longe vão os dias dos golos de Silvio Piola. A era dourada do "Quadrilatero Piedmontese". Os dias em que Novara era um dos centros periféricos do calcio italiano. Durante 55 anos o seu clube de futebol viveu uma profunda letargia emocional e a reputação desportiva da pequena localidade virada para os Alpes limitou-se aos sucessos da equipa de hockey em patins. Até agora. Mais de meio século depois, os Biancoazzurri voltam à elite desafiando o peso da memória.

Ninguém marcou tantos golos em Itália como o histórico Piola.

O seu nome continua na memória dos locais, estampado com orgulho na entrada principal do estádio do seu Novara. O dianteiro italiano foi a grande figura da selecção orientada por Vittorio Pozzo durante as duas Guerras Mundiais. A primeira bicampeã do Mundo. O capitão era Meazza mas os golos eram de Piola. Depois da Guerra o mitico goleador assinou pelo modesto clube piemontês. Por essa altura muitos corriam às bancadas do velho estádio Comunale da pequena cidade alpina. Novara, que nos anos 20 tinha feito parte de um quadrado mágico que definiu a natureza do futebol italiano, renascia. Na década de 20, quando Piola começou a brilhar, o peso do Piemonte, eixo onde o jogo cresceu e entrou na sua era profissional, era reconhecido pelo sucesso de Alessandria, Casali, Pro Vercelli e Novara. Quatro equipas que disputavam ao duo de Turim, Juventus e Torino, a supremacia regional. Com o final da carreira do histórico goleador a memória de Novara foi tornando-se profundamente difusa com o passar dos anos. O adeus de Piola deixou marcas no clube. Em 1956 a equipa caiu no poço da Serie B.

O que parecia um periodo de transição curto transformou-se num longo pesadelo. Cinco anos depois de lutar por voltar à elite o Novara voltou a cair, desta vez nas trevas da Serie C. Desta vez a reacção foi rápida e a equipa demorou apenas duas temporadas a voltar à Serie B. Mas como as restantes equipas do "Quadrilatero" a Serie A tornou-se numa longa e sofrida utopia. Em 1977, com o futebol italiano prestes a entrar numa das suas etapas mais negras o clube voltou a cair à Serie C e três anos depois perdeu mesmo a condição de clube profissional quando aterrou na liga amadora da Serie C 2. Parecia que o mitico Novara, o clube de Piola, estava perto do fim. Até que um milagre mudou por completo a vida do clube.

 

Em 2009/2010 o Novara surpreendeu tudo e todos ao conseguir a promoção para a Serie B.

Foi um ano sofrido, cheio de problemas financeiros, mas com um final feliz. Ninguém imaginava que o clube conseguisse manter a categoria na segunda divisão do Calcio e as expectativas dos locais estavam longe de imaginar o que sucederia no final da temporada.

A chegada de um novo director desportivo, Pasquale Sensibile, e de um novo técnico, Attilio Tesser, mudou por completo o rosto de uma equipa que tinha terminado as duas temporadas anteriores no oitavo posto da Serie C. O sucesso da dupla na promoção à Serie B continuou com um arranque de época estupendo, rompendo com todos os prognósticos mais pessimistas. Liderados por Marco Rigoni, o Novarra rapidamente tomou para si o primeiro posto da tabela classificativa onde se foi mantendo, mês após mês. Quando chegou o mês de Dezembro a gasolina começou a faltar e o clube, até então invencivel, perdeu os primeiros pontos permitindo a Atalanta e Siena uma rápida aproximação na tabela classificativa. Em Fevereiro a equipa já tinha caído para o terceiro lugar e muitos imaginavam que a queda livre continuaria nas jornadas seguintes.  A equipa levava sete jornadas consecutivas sem ganhar mas Tesser encontrou forma de reajustar uma defesa em horas baixas e os bons resultados voltaram. Depois de um triunfo frente ao Ascoli, sofrido, a equipa voltou aos bons resultados e chegou ao final da época regular no terceiro posto. Um lugar perigoso porque obrigava a um duplo confronto em modo de play-off. O primeiro duelo duplo foi disputado com a sexta classificada, a Reggina. Duplo empate, primeiro 0-0 em casa e depois 2-2 fora garantiram o apuramento para a final do play-off onde a equipa biancoazurri teria de bater o Padova.

O primeiro jogo disputou-se a 9 de Junho na cidade de Padua e o empate a zero foi um resultado lisonjeiro para o conjunto visitante que tinha precisamente garantido o apuramento na ronda anterior graças aos golos marcados fora. Mas três dias depois, com o estádio Silvio Piola lotado, a equipa local superou-se e venceu categoricamente por 2-0 confirmando assim uma promoção, a todos os titulos inesperada. 55 anos depois a magia da Serie A voltava a ecoar na memória dos locais.

 

Não é dificil, pela trajectória recente, que todos olhem para o Novara como o primeiro candidato a cair de novo na Serie B quando a próxima edição da Serie A chegue ao fim. Mas é precisamente esse espirito de luta e a capacidade de superar as expectativas que transforma o regresso deste modesto histórico num dos pratos mais apeteciveis do Calcio para a época que agora arranca!



Miguel Lourenço Pereira às 00:21 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Quarta-feira, 13.07.11

Pode um clube prender um jogador como se fosse um centro de detenção? Em Itália sim. E Federico Marchetti sabe-o bem, muito bem. Um ano de calvário que chega ao fim. Um ano perdido numa carreira absolutamente promissora. Em Roma o guardião que a Itália aprendeu a ver como sucessor do mítico Buffon vai voltar a sentir-se futebolista. Mas nunca esquecerá a sua prisão na Sardenha. A prisão de um futebolista que ninguém quis denunciar.

Quando Buffon não aguentou mais com as dores nas costas que se arrastavam à semanas, Marcello Lippi mandou chamar o seu suplente.

Marchetti, Federico Marchetti, entrou em campo com a determinação dos grandes jogadores. De um jogador que conhecia bem a sombra de gigante que o esperava no momento em que Buffon deixasse o posto que lhe pertencia por direito próprio há quase uma década. Talvez não imaginasse que fosse tão cedo mas na sua vida as coisas nunca correram como previsto. A Itália realizou o seu pior Mundial de sempre mas a culpa não foi do guardião de 27 anos. Tinha-se estreado um ano antes com a Azzurra e depois só tinha disputado um total de cinco jogos. Era carne para canhão. Mas portou-se como um guerreiro. Saiu da África do Sul com a cabeça erguida e a cotação em alta. Não imaginava o pesadelo que o esperava.

Quando voltou de férias Marchetti deu uma entrevista que lhe ia mudar a vida. Depois de declarar que pretendia abandonar o Cagliari para juntar-se a um clube com outros objectivos (tinha a Sampdoria na cabeça), o guardião tornou-se persona non grata.

No primeiro amigável da temporada foi assobiado e acossado pelos adeptos locais. O presidente, o sempre polémico Massimo Cellino, anunciou que deixaria sair o jogador em público mas secretamente rejeitou toda e cada uma das propostas. Marchetti passou de estrela do Mundial a terceiro guardião atrás de Agazzi e Pellizoli, veteranos do clube. Treinou sozinho, ficou fora de todas as convocatórias e viu mesmo o técnico, Roberto Donadoni, convocar guardiões dos juniores na ausência de algum dos seus dois colegas da primeira equipa. Até 31 de Agosto forçou de todas as forças sair do clube com quem tinha assinado no ano anterior depois de chegar do AlbinoLeffe. Não conseguiu. A partir desse momento decidiu-se a enfrentar o clube na justiça. Demorou oito meses mas ganhou a batalha. Agora, em Roma, é um jogador livre.

 

Marchetti está habituado a cenários complexos.

Começou a carreira no Torino e depois de uns anos entre empréstimos exigiu que o clube o deixasse sair. Os granota não facilitaram a saída mas entretanto o clube faliu, foi despromovido e o guardião teve direito à carta de liberdade. Assinou pelo AlbinoLeffe, equipa da Serie B, e no segundo ano ao serviço da equipa venceu em 2007 o prémio ao melhor guarda-redes da segunda divisão italiana. As exibições chamaram a atenção do Cagliari que o lançou para a ribalta levando mesmo Buffon a elege-lo como seu sucessor natural. Depois de dois anos ao mais alto nível na Sardenha, chegou o sonho do Mundial. E o posterior pesadelo prisional a que foi sujeito.

O guardião sobreviveu em 2005 a um terrível acidente de automóvel. Viajava com três amigos e dois deles faleceram no acto tal foi a brutalidade do choque. Marchetti esteve entre a vida e a morte. Recuperou e aqueles que imaginavam que a sua carreira desportiva estava acabada dificilmente imaginavam que cinco anos depois ele seria o guardião de moda da Serie A. Depois do sofrimento e da luta contra a morte, Marchetti encarou o duelo com o Cagliari como uma questão pessoal. Denunciou o clube por mobbing laboral (como fizera Pandev com a Lazio há dois anos) e depois de julgamentos e recursos conseguiu uma choruda indemnização. O clube foi igualmente forçado a facilitar a transferência para a AS Lazio, clube que acaba de perder o internacional uruguaio Muslera. Depois de um ano parado muitos estão curiosos para ver até que ponto Marchetti se encontra em forma. No ano em que esteve fora do activo surgiram outras promessas das redes italianas do jovem Emiliano Viviano do Bologna a Salvatore Sirigu do Palermo sem esquecer Antonio Mirante do Parma.

 

A luta para a sucessão de Buffon aperta-se ainda mais num país com enorme tradição de guarda-redes de máximo talento. No entanto Marchetti terá um prazer especial caso volte a vestir a camisola da Azzurra. Pela segunda vez encontrou-se com um drama pessoal fortíssimo e pela segunda vez venceu. Certamente que a confiança com que entre em campo a partir de Agosto será difícil de igualar por qualquer comum mortal...

 



Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 25.06.11

A preocupante situação financeira do Barcelona levou Sandro Rossell a adoptar uma postura que vai totalmente contra o ideário desportivo que a filosofia de Guardiola tem implementado, com um sucesso inquestionável, no futebol do clube. Apadrinhada por Johan Cruyff, sempre omnipresente em assuntos de estado, a ideia de abdicar de alguns dos maiores talentos da Masia para mergulhar no complexo mercado de transferências é um sério ponto de inflexão na filosofia do clube blaugrana e afasta o clube do ideário romântico que tanto sucesso tem tido junto do público mundial.

 

Bojan Krkic parece ser o primeiro. Mas seguramente não será o último.

O Barcelona, segundo Cruyff, deixou de ser "Més Que un Club" no momento em que aceitou "manchar" as camisolas blaugranas com publicidade. Depois do truque publicitário - e algo hipócrita - chamado UNICEF (que permitiu à UEFA dobrar, uma vez mais, as suas regras em prol do clube blaugrana ao permitir que o clube tenha duplo patrocinio na próxima Champions ao contrário do que está nos seus estatutos) chegaram os petrodólares da Qatar Foundation, a mesma organização que pagou o apoio de Guardiola à candidatura mundialista do país que organizará o Campeonato do Mundo de 2022. Mas o buraco financeiro deixado na era Luis Nuñez (e engordado com a gestão de Joan Laporta) é tal, que nem esse negócio das Arábias se revelou suficiente.

Juntamos a essa vicissitude as incursões pontuais do clube no mercado de transferências e o quadro complica-se.  Em quatro anos o Barcelona gastou mais de 280 milhões de euros em contratações, com alguns flops consideráveis como foi o caso de Chygrinski (30 milhões), Zlatan Ibrahimovic (40 milhões mais o passe de Samuel Etoo) ou um conjunto de jogadores que mal vestiu a camisola da equipa principal (Henrique, Keirrison, Cáceres e Hleb). Ao mesmo tempo o clube não conseguiu sacar proveito das suas vendas (Henry saiu de forma gratuita, Etoo foi oferecido, Ronaldinho idem, Ibrahimovic chegou emprestado ao Milan que tem agora de pagar 24 milhões pelo seu passe, metade do que custou, ...) e agrandou ainda mais o buraco financeiro. A aposta pessoal de Guardiola na cantera que conhecia como ninguém resultou ser um brilhante negócio para a presidência do clube. A prata da casa não só permitia ao técnico manter a competitividade e filosofia do seu projecto como garantia, ao mesmo tempo, uma imensa poupança em gastos que a médio prazo poderiam salvar as arcas do clube. Mais do que uma filosofia desportiva, apostar na Masia foi sobretudo uma brilhante jogada de gestão. Guardiola evitava ter, como tem o Real Madrid, jogadores de primeiro nivel internacional com salários principescos sentados no banco, e o clube baixava o que gastava em salários e comissões e rentabilizava as suas instalações desportivas de formação como nunca tinha logrado no passado. Mas depois de três anos de máximo sucesso desportivo e algum reequilibrio económico, Sandro Rossell quer inverter a tendência. A Masia, mais do que funcionar como apoio à primeira equipa, ameaça em transformar-se num apoio para a conta bancária do clube.

 

Cruyff deu o tiro de saída num dos seus artigos semanais no El Periodico de Catalunya.

O holandês, que está a caminho do Ajax para reorganizar o futebol base do seu clube de origem, lançou o desafio à directiva e equipa técnica. Afinal o clube conta com mais de uma dezena de jovens "canteranos" com mercado e projecção de futuro e outra dezena com uma projecção menor mas que, com o rotulo de escola Barcelona, vale mais no mercado que muitos jogadores mais bem preparados. A notável temporada do Barcelona B, terceira na Liga Adelante, deu a conhecer ao mundo o génio de Thiago, Sergi Robert, Jonathan dos Santos, Rafa, Oriol, Jonathan Soriano e companhia. Esses nomes juntavam-se aos já habituais da primeira equipa, Bojan, Jeffren e às promessas Botia, Muniesa e Miño. Um onze titular praticamente com um potencial de primeiro nível assinalável.

A maioria treinou com a equipa principal durante o ano e muitos estrearam-se mesmo ao serviço de Pep Guardiola que sabe quais são as pérolas de maior projecção da sua cantera. Mas hoje em dia os próprios jogadores da Masia olham para si com outros olhos. Inspirados pelo sucesso do clube e, sobretudo, pelo impacto de Busquets e Pedro, todos querem a sua oportunidade junto a Messi e companhia. Mas nem todos a terão. Continuar na equipa B é um desafio cada vez menos estimulante para alguns e sair um risco, para eles e para o clube. Não segundo Cruyff.

O homem que criticou o Real Madrid por vender os seus melhores canteranos com direito a opção de recompra agora aconselha precisamente isso mesmo ao clube, para equilibrar as contas e investir no mercado de transferência. Negociar o futuro de Bojan, Jeffren, Thiago, Soriano, Muniesa e companhia parecia uma utopia há uns meses. Agora começa a soar como uma inevitabilidade.

No meio desta jogada aparece a figura de Sandro Rossell. O ex-directivo da Nike, responsável pela chegada do primeiro batalhão de brasileiros durante o mandato inaugural de Laporta, quer deixar a sua influência no projecto do clube. O seu medo de que Guardiola deixe o banco do Camp Nou no final deste ano estimula-o ainda mais a tomar controlo da situação. O caso Fabregas representa o primeiro confronto directo entre direcção e técnico. Guardiola quer o capitão do Arsenal, sente-o como um dos seus e quer repetir o processo de Piqué. Mas Rossel não está disposto a pagar o que o Arsenal pede (algo que a Nike, sua antiga empresa, não veria com bons olhos porque precisa do espanhol para aumentar as suas vendas com o merchandising dos gunners) e prefere gastar o mesmo dinheiro em jovens promessas sul-americanas. Alexis Sanchez e Neymar são sonhos seus, não de Guardiola, que preferia Fabregas e Rossi (por quem o clube ofereceu uns miseros 25 milhões, mais Bojan). 

Guardiola não quer perder o seu backup, a sua cantera, mas começa a ser dificil manter a jogadores como Jeffren e Bojan contentes com o facto de serem os eternos suplentes de Messi e Villa. O próprio Thiago, talvez a maior promessa do clube em muito tempo, sabe que se chega Cesc, como quer o treinador e o plantel, o seu espaço de manobra desaparece. E o técnico de Santpedor entende a situação financeira do clube. Por isso avalou a saída de Bojan para a AS Roma, onde está o seu anterior adjunto Luis Enrique, e ao jovem dianteiro podem brevemente seguir-se muitos mais. O jovem avançado que explodiu no último ano de Rijkaard pagou o preço do seu nervosismo e da mutação táctica de Leo Messi, um génio que nunca falha e raramente perde um jogo. Depois de três anos onde actuou muito pouco, Bojan precisa de jogos para demonstrar que o mais concretizador avançado da história da Masia pode repetir o feito junto dos mais velhos. A sua venda, por 10 milhões, é o principio do fim do romantismo ideológico de Guardiola. Utilizar a sua cantera como meio de reforçar as contas do clube - como fez o R. Madrid com Negredo, Albiol, Arbeloa, Granero, Soldado, de la Red, Mata, Parejo e companhia - significa que os back-ups da primeira equipa passarão a ser jogadores de fora, sem a cultura de base da escola que tanto tem encantado o mundo.

Com uma primeira equipa de sonho é fácil perceber que - salvo a posição de defesa-esquerdo - há pouco onde se possa melhorar o actual Pep Team. Qualquer entrada será, como a de Affellay ou Keita, para servir como apoio. Enquadrar nomes consagrados como Rossi ou Cesc ou promessas do nivel de Sanchez, Neymar ou Pastore nessa politica pode dar mais do que uma séria dor de cabeça a Pep Guardiola. Ao mesmo tempo, vender o melhor que a cantera de Barcelona tem para oferecer diminuiu o prestigio moral do clube ao mesmo tempo que também permite que o ideário blaugrana encontre refúgio noutros projectos que pretendem emular a filosofia do clube da cidade Condal. A Masia tem, desde já, ordem para voar. É uma decisão que financeiramente pode funcionar a curto prazo mas que num futuro pode multiplicar os casos como o de Cesc Fabregas e acabar por ser um erro de planeamento a médio e longo prazo. Com esta jogada, Rossell demonstra também que o presidencialismo também já chegou ao Camp Nou.



Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Quarta-feira, 08.06.11

 

Guarda Redes

Samir Handanovic

 

Não tem o carisma de Buffon nem a popularidade de Julio César, mas a época realizada pelo esloveno Samir Handanovic é uma das mais impactantes que a Serie A se recorda em muitos anos. Num país habituado à excelência dos seus guarda-redes, Handanovic sempre jogou com a suspeita de adeptos e rivais mas com o tempo tornou-se numa das figuras indiscutiveis da equipa de Guidolin. Igualou o recorde de penaltis parados numa só época (seis) com a frieza que o caracteriza e acabou por ser um dos guarda-redes menos batidos do ano, apenas batido por Abbiati.

 

Outros: Época de confirmação em Palermo para o jovem Salvatore Sirugu, um dos nomes mais fortes para o futuro da Azzura com a eminente retirada de Buffon. Já substituiu o mitico guardião no passado Mundial e depois de um ano ao mais alto nivel a sua mudança para um grande não está descartada. Em Napoli ressuscitou Morgan De Sanctis, grande promessa há meia dúzia de anos que passou desapercebido na sua estância em Sevilla e que se reencontrou com o futebol num ano para não esquecer à sombra do Vesuvio.

 

 

Defesas Laterais

Christian Maggio e Federico Balzaretti

 

Imenso na época surpreendente do Napoli, Christian Maggio foi um dos jogadores mais determinantes da última época. Fundamental no jogo de transição dos homens de Mazzari, Maggio assenhorou-se da ala direita, tornou-se no melhor sócio de Cavani e companhia no ataque e manteve-se seguro e fiável em tarefas defensivas. Um imenso salto de qualidade para o ex-jogador da Samdporia. Do outro lado da defesa trabalho superlativo de Federico Balzaretti que, aos 29 anos finalmente se consagrada como um dos grandes laterais do futebol europeu. Com Cassani formou duas alas demolidoras que ajudaram, e muito, a definir o estilo de jogo ofensivo do Palermo.

 

Outros: Mattia Cassani em Palermo e Maurico Isla ao serviço da Udinese foram dois dos jogadores mais regulares do torneio. O primeiro conseguiu finalmente chegar à azzura depois de realizar uma época superlativa ao serviço dos rosanero enquanto que o chileno foi um verdadeiro pesadelo no sector esquerdo do conjunto de Friuli. Por fim destaque especial para Sorensen, lateral direito da Juventus lançado por Del Neri e uma das revelações positivas do ano numa época para esquecer da Vechia Signora.

 

 

 

Defesas Centrais

Thiago Silva e André Dias

 

O titulo do AC Milan confirmou também a maturidade competitiva do brasileiro Thiago Silva. Aquele que há sete anos passou pela equipa B do FC Porto antes de rumar ao Dynamo Moscow graduou-se finalmente como lider da defesa rossonera. Foi o mais regular e determinante defesa dos campeões e ganhou também um lugar no eixo defensivo do escrete canarinho. Ao seu lado neste nosso onze outro brasileiro, André Dias, que ao serviço da AS Lazio confirmou todo o potencial que trazia desde a sua etapa no São Paulo. Uma época para relembrar do veterano central.

 

Outros: Continua o processo de maturação de Chiellini, erigido em novo lider espiritual da defesa da Juventus. O central cada vez mais assume o papel de herdeiro de Cannavaro e dentro dos erros individuais dos turineses, os seus foram uma imensa minoria. Em Friueli o colombiano Cristian Zapata foi um dos seguros de vida da Udinese, realizando uma época absolutamente espantosa e confirmando o olho de Guidolin para lançar jogadores desconheciso. Por fim, Walter Samuel continuou a demonstrar em Milão que é um dos duros do jogo, mas foi também a sua fortaleza psicológica que ajudou o Inter a encetar a sua quase milagrosa recuperação.

 

 

Médios

Danielle De Rossi, Antonio Nocerino e Javier Pastore

 

A dupla do miolo do Palermo, composta pelo italiano Antonio Nocerino e o argentino Javier Pastore, foi um dos grandes aliciantes da temporada. Nocerino explodiu finalmente depois de épocas perdidas entre Genoa e Juventus. Na Sicilia transformou-se no patrão de jogo que o Palermo necessitava e a sua associação com o superlativo Pastore foi determinante para a boa época dos insulares. Pastore, por outro lado, foi um dos nomes individuais próprios do torneio. O argentino é indiscutivelmente um dos melhores do mundo no seu posto e a titulo individual talvez só Alexis Sanchez e Edison Cavani tenham estado à sua altura na competição de este ano. Também em grande esteve o vice-capitão da AS Roma, Daniele De Rossi. Já não é novidade, mas De Rossi foi fundamental na recuperação dos romanos face à habitual intermitência de Totti à frente do conjunto da capital. Uma excelente temporada.

 

Outros: Parte da solidez defensiva do Napoli de Mazzari passou pelo trabalho de Walter Gargano. O uruguaio foi pedra angular na estratégia de jogo dos napolitanos, soltando Marek Hamsik – outro dos nomes próprios do ano - na transição ofensiva enquanto cobria as habituais subidas de Maggio. Em Parma a grande estrela jovem do Calcio, Sebastian Giovinco voltou a fazer das suas. Destroçou a “sua” Juventus e voltou a demonstrar aos mais cépticos que é um nome com um futuro tremendo. Por fim uma palavra para Kevin-Price Boateng. O titulo do AC Milan começou a ganhar forma quando Allegri apostou, definitivamente, no ganês como trequartistas rossonero, dando equlibrio e tranquilidade a uma equipa até então demasiado partida em dois.

 

 

Avançados

Edison Cavani, Antonio Di Natale e Alexis Sanchez

 

Tridente de luxo que define bem o poder dos clubes mais pequenos em recrutar jogadores de grande classe que passam debaixo do radar dos grandes da prova. O Napoli apostou forte em Edison Cavani e ganhou a aposta com juros. Juntamente com Hamski e Lavezzi, o uruguaio explodiu como goleador e homem chave na corrida dos napolitanos a um scudetto que acabou por não suceder. Foi um dos melhores marcadores do torneio, sobretudo com golos chave que mantiveram vivo o sonho do titulo até bem perto do fim da época. Também com bilhete para a Champions, a Udinese contou com um duo espantoso no ataque. O italiano Di Natale voltou a confirmar-se como um goleador nato, vencendo o prémio de Capocanonieri com 28 golos, apesar dos seus já 33 anos. Ao seu lado o jovem chileno Alexis Sanchez foi o parceiro perfeito desta dupla, tanto pelos golos como pelas assistências, transformando-se num dos nomes mais cobiçados do futebol mundial. Certamente que será uma baixa de luxo para a campanha do próximo ano em Friuli.

 

Outros: Solto dos espartilhos tácticos de José Mourinho, o camaronês Samuel Etoo foi mais decisivo do que nunca ao serviço do Inter. Durante largos meses marcou com espantosa regularidade e face às lesões de Milito e Pandev, emergiu como o único dianteiro dos neruazurri. Com a chegada de Pazzini, autor de uma boa primeira volta com a despromovida Sampdoria, perdeu em protagonismo e espaço que o italiano aproveitou para conseguir marcar algumas gestas impensáveis. Destaque também para Alessandro Matri que saltou do Cagliari para a Juventus sem deixar de fazer o que melhor sabe, marcar.

 

 

 

Treinador

Walter Mazzari

 

Pegar numa equipa tão modesta como o Napoli e fazer dela candidata ao titulo é algo quase impensável para a maioria dos técnicos. Mas Walter Mazzari superou as expectativas e confirmou o que já deixava antever desde os seus dias como técnico da Sampdoria. Ele é, provavelmente, um dos mais completos técnicos italianos e a forma como montou o esquema de jogo do Napoli, num falso 3-5-2, com Cavani e Lavezzi como elementos mais adiantados e Hamsik como pensador de jogo, surpreendeu pela agressividade do planteamento. Mazzari desafiou os grandes de Milão como nenhum clube modesto foi capaz nos últimos 20 anos e tarde ou cedo será campeão, possivelmente ao leme daqueles que esteve perto de bater.

 

Outros: Primeiro ano no banco do AC Milan e primeiro titulo. Massimiliano Allegri foi uma das revelações da época passada ao serviço do Cagliari e com um Milan montado e reestruturado em detalhe não teve grandes problemas em conquistar o scudetto. Mesmo assim ficou a sensação de que Allegri poderia ter sido campeão com mais solvência se tivesse apostado, desde o inicio, por um esquema de jogo mais coerente e menos mediático. Grande época a realizada por Francesco Guidolin que conseguiu o êxito histórico de qualificar a Udinese para a prévia da Champions League. Fica o aviso do que sucedeu à Sampdoria mas é de esperar que o técnico mantenha as suas grandes armas, com a inevitável excepção de Sanchez. No outro extremo de Itália, nota mais para Delio Rossi. Apesar de ter sido despedido em Fevereiro – inexplicavelmente – o técnico acabou por ser “recontratado” dois meses depois para garantir um final de época tranquila a uma das equipas que melhor joga em Itália, o Palermo de Pastore e companhia.

 



Miguel Lourenço Pereira às 10:27 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Terça-feira, 07.06.11

O AC Milan quebrou a hegemonia do Inter de Milão num duelo fratricida que interessou menos que a curiosa rebelião das equipas de classe média. A queda da Sampdoria na Serie B deixou também um sério aviso à navegação e o drama esfingico pelo que passa a Juventus deixa ainda mais tranquilo o duo milanês que se prepara para repetir o duelo na próxima temporada.

 

Napoli. Udinese. Palermo. Parma. Lazio.

Num ano dominado pelas equipas de Milão o destaque acaba por ir para cinco clubes que não venceram nada mas trouxeram uma verdadeira emotividade a um torneio adormecido nos berços de ouro da capital lombarda. Porque o Internazionale, cinco anos depois, voltou a perder uma liga mas, mesmo assim, conseguiu terminar em segundo lugar e marcar presença na final da Taça. Porque uma equipa exprimida ao máximo por José Mourinho sobreviveu à debacle de Rafa Benitez para reeguer-se, com Leonardo, e ir a tempo de desafiar o lider da prova. Lider, esse, que venceu um titulo mais complicado do que aparentou a tabela classificativa. E no entanto, desde cedo muitos entendiam que era uma questão de tempo até o AC Milan de Allegri confirmasse matematicamente um titulo feito à sua medida. Sem espectacularidade, sem destreza e sem classe, o Milan passeou pela liga e resistiu ao acosso do modesto Napoli e do ferido Inter para garantir o enésimo troféu da era Berlusconi.

Allegri, na sua primeira época, não resistiu ao apelo mediático do seu presidente e durante a primeira parte da época andou perdido num onze com mais estrelas e menos jogo do previsto. A saída de Ronaldinho e as chegadas de van Bommell e Cassano deram mais organização aos rossoneri. Boateng tornou-se na peça chave do jogo ofensivo de uma equipa que, muitas vezes, alinhou com Robinho e Pato no banco, sem espaço para a improvisação e com um ritmo quase cirúrgico de eficácia. Com uma defesa coordenada pelo brasileiro Thiago Silva e um meio campo capaz de sobreviver ao ocaso de Pirlo e Gattuso, o Milan revelou-se um justo campeão mas não deixou, em nenhum momento, sensação de dominio incontestado como seria de esperar de um plante fortissimo e um técnico emergente.

 

Talvez por esse mau sabor de boca deixado pelos novos donos do scudetto, é necessário relembrar que a Serie A foi muito mais que os gigantes de Milão.

Foi a liga do Napoli de Walter Mazzari, uma equipa sem vedetas que esteve perto de emular o feito histórico de Maradona graças aos golos de Lavezzi, Cavani e Hamsik e uma organização defensiva superlativa. Os napolitanos não aguentaram o sprint final mas marcaram presença na Champions League do próximo ano de forma totalmente meritória. Também na prova rainha da UEFA pode estar a Udinese de Guidolin, uma equipa de tracção à frente, acutilante e com um génio chamado Alexis Sanchez a pautar o ritmo de jogo de forma contagigante. A Udinese terá de inspirar-se no modelo auto-destructivo da Sampdoria (que conseguiu esse 4º posto para depois perder tudo, inclusive a categoria) e preparar o novo ano com cuidados extras.

Em destaque igualmente a renascida AS Lazio, finalmente saída da sombra da rival Roma, e o Palermo de Pastore, Nocerino, Micolli e companhia que sobreviveu à troca de treinadores para manter o alto padrão de jogo e um espirito estético pouco comum na liga mais táctica do futebol europeu. E claro, o Parma, sofredor até ao fim, que se encomendou ao génio de Giovinco, escudado por Amauri, Candreva e Gallopa nessa luta desesperada pela salvação, ganha a pulso nas últimas rondas. Nomes fortes de uma liga por onde andaram também, em boa forma, AS Roma, Fiorentina, Cagliari e Genoa, sempre com a Europa no horizonte. A grande desilusão acabou por ser, um ano mais, a Juventus. Del Neri não encontrou o esquema certo e perdeu o controlo do balneário da Vechia Signora que aspira, com uma equipa profundamente rejuvenescida, a algo mais substancial no próximo curso. Matéria prima existe de sobra falta apenas um técnico com a força de caracter suficiente para ordenar a casa.

 

À histórica Sampdoria, despromovida perante o desalento de Palombo, o seu capitão, numa das imagens mais tocantes da temporada, juntaram-se também o centenário Brescia e o modesto Bari, equipas sem a fortaleza mental para aguentar o peso emocional de lutar até ao fim pela permânencia, algo que, surpreendentemente, encontraram Lecce e Cesena, os grandes candidatos à perda de categoria, numa série infernal de bons resultados nas últimas rondas. Para eles ficar entre a elite é também digno de celebrar uma liga para a posteridade.


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Miguel Lourenço Pereira às 10:27 | link do post | comentar

Terça-feira, 10.05.11

Desde a vitória em 2001 da AS Roma que o titulo da Serie A não desce a linha do horizonte que cruza a cidade de Milão. Uma ditadura futebolistica que não é novidade num país onde os três grandes clubes somam um total de 63 titulos, mas que espelha bem as assimetrias em que vive mergulhado o Calcio, com o futuro marcado num imenso ponto de interrogação.

 

 

Milão está habituada a celebrar em Maio.

Tornou-se já uma rotina que a cidade se vista de gala e saia à rua num qualquer fim-de-semana do mês primaveril e solte toda a euforia contida nos meses prévios. Desde 2006 que assim tem sido. A única novidade deste ano foi a mudança nas vestimentas. Já não são os neruazurros, que vinham de um ano de celebrações sem fim, quem sai à rua de cachecol na mão. É a hora da desforra dos rossoneri, um clube que apesar da grandeza institucional e económica conquistou apenas o terceiro campeonato numa década. A vitória do AC Milan surpreende pouco aqueles que seguem o futebol italiano. Não há clube com uma carteira tão recheada, com um plantel com tantas opções e com um empenho tão grande em ser o senhor de Itália. Espelho do seu presidente, o primeiro-ministro Silvio Berlusconi, este AC Milan estava fadado desde o principio a triunfar. O que estranha é que tenha tardado tanto em lograr o feito. Afinal o Calcio, a mais competitiva prova de clubes dos anos 80 e 90, já há muito que não é o que era.

Depois do Tetracampeonato do Inter, do annus horriblis do Moggigate e da curta ditadura da Juventus, o titulo regressa a um clube habituado a ganhar, custe o que custar. E volta a afastar-se da periferia futebolistica italiana. E isso que a classe média do país da bota começa a dar um ar da sua graça. As excelentes campanhas de Napoli, Udinese e Palermo são a prova viva de que há vida para lá do eixo Milão-Turim. Mas ainda não é suficiente para repetir o feito dos clubes romanos, que durante dois anos deixaram o Norte transalpino em cheque.

 

A vitória do AC Milan na liga acontece num ano em que Massimiliano Allegri começou por confiar na recuperação de Ronaldinho e acabou por encomendar-se ao talento de Cassano.

Durante a temporada houve duas equipas totalmente distintas, dois modelos de jogo, dois rostos que se contradizem na sua própria essência. Só num torneio cada vez menos competitivo poderia um clube mudar tanto da noite para o dia e, mesmo assim, triunfar de forma tão categórica. Explica-se o triunfo também nos deméritos dos rivais. Na falta de regularidade de napolitanos e friules, bem como dos conjuntos romanos. E, acima de tudo, no processo de desconstrução do Inter que hipotecou o titulo durante o mandato de Rafa Benitez e que não soube dar a esperada luta sob o comando de Leonardo. Com a Juventus em coma – ainda – e o Inter em constante ressaca, pouco teve que fazer Allegri para passear-se pela “madonnina” com ar de triunfador. Mas foi-o realmente?

O técnico repescado ao modesto Cagliari por Berlusconi arrancou a temporada com um optimista 4-3-3 onde Robinho, Ronaldinho, Pato e Ibrahimovic repartiam e alternavam o peso do ataque face a um meio-campo descompensado e pouco criativo. As lesões de Pirlo e Ambrosini, a confirmada decadência de Ronaldinho e o reduzido impacto de Pato e Robinho deixaram a nu as debilidades tácticos dos rossonero. Valia a segurança defensiva, a ineficácia dos rivais e algumas decisões polémicas que paliavam os tropeções do conjunto milanês. O mercado de Inverno trouxe a estabilidade necessária e permitiu uma verdadeira lavagem de cara do onze. As entradas de van Bommel e Boateng transformaram o 4-3-3 um 4-2-3-1 mais sólido e eficaz e reduziram enormemente a carga ao quarteto defensivo. A chegada de Cassano, desterrado de Génova por uma Sampdoria agora à beira do abismo, e os golos do sempre omnipresente Inzaghi (até à sua lesão) permitiram o sprint final que sobreviveu às birras de Ibrahimovic (oitava titulo consecutivo, feito histórico, em três ligas e com cinco clubes diferentes), os problemas fisicos de Gattuso e Nesta e as tentativas desesperadas dos rivais mais directos.

Um titulo sem chama nem história que no entanto devolve a supremacia do Calcio a um clube que tem estado ao seu nivel nos palcos europeus mas que em Itália, por um motivo ou outro, acaba por defraudar constantemente os seus tiffosi. Depois de sete anos de espera o scudetto volta à camisola rossonera mas muitos suspeitam que na próxima temporada este AC Milan terá grandes dificuldades em reter a coroa. A tirania de Milão e do Norte de Itália continua mas aqueles que esperam uma mudança de rumo têm boas razões para estar optimistas. A caça ao campeão promete ser apaixonante.


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Miguel Lourenço Pereira às 10:38 | link do post | comentar | ver comentários (22)

Sábado, 30.04.11

A globalização transformou o rosto do futebol contemporâneo de forma inegável. Mas ainda há pérolas e diamantes escondidos que o grande público desconhece. O trabalho dos observadores mudou com o tempo mas a sua essência permanece igual. Eles são a alavanca de qualquer projecto desportivo de sucesso. E ás vezes, sem que o pensemos, ditam as modas do futuro. São os rostos invisiveis neste circo mediático. Olhar para o futuro agora é uma missão quase impossível. Menos para eles...

 

 

 

Uns clubes precisam de vender. Outros têm dinheiro para comprar. Assim se fazem os negócios. Mas no mundo da bola há negócios e negócios.

Nem todas as instituições podem gastar 100 milhões de euros num só homem, por muito que seja o melhor. Ou, já que estamos, 200 milhões em quatro, porque há que pagar as contas no fim do mesmo. Nem todos os clubes são o Real Madrid, a mais conhecida instituição internacional à hora de por o dinheiro sobre a mesa. Mas nem todos são o Athletic Bilbao que praticamente produz tudo o que consome e que compra ocasionalmente jogadores num circulo tão restrito que nunca há espaço para muita imaginação. São duas filosofias dispares. No meio está a normalidade. E, já sabemos, há normalidades e normalidades.

O papel do observador, o popular olheiro, é hoje mais importante do que nunca. A lei Bosman mudou o rosto do futebol europeu e, por arraste, ditou também as mudanças a nível mundial. Revolucionou o futebol sul-americano que se tornou numa fábrica de exportação constante, abriu ao mundo o mercado africanos e deu forma ao mercado asiático. Sem a lei Bosman hoje, talvez, muitos dos grandes jogadores não europeus que actuam no Velho Continente ainda estariam nos seus países de origem. Todos sabemos que o desaparecimento das limitações de jogadores não nacionais não se limitou a destroçar o futebol de formação europeu. Fez com que o dinheiro chegasse a países que sempre viveram na raia do negócio futebolístico. E, por arraste, levou os olheiros a terras impensáveis há vinte anos atrás. O que antes passava por um trabalho tranquilo de observação local e regional transformou-se numa labor global. Todos os grandes clubes sabem que têm de ir mais além. A internet e as telecomunicações encurtaram as distâncias e todos os treinadores têm as suas particulares dvdetecas de exibições prometedoras. Mas o cheiro do terreno continua a ser fundamental e os voos encheram-se de enviados especiais de todas as espécies prontos a descobrir, como os antigos exploradores, a nova rota para a Índia.

 

Nesta nova dimensão poucos clubes souberam lidar com os novos tempos como o Manchester United.

Rever cada jogada de Javier Hernandez é um elogio constante ao trabalho de prospecção de um clube de primeiro nível mundial que ainda se importa com o trabalho dos seus olheiros. Porque, não nos enganemos. O Barcelona apoia-se na sua "cantera", recrutando miúdos também noutros pontos do Mundo muito cedo mas depois empapa-os de "barcelonismo" e depois só volta a mergulhar no mercado para gastar boas quantias ou para tapar buracos na estrutura local. Daniel Alves, Zlatan Ibrahimovic, Yaya Touré ou Ronaldinho, Etoo, Deco e Giuly não foram, propriamente, descobertas de olheiros mais informados que outros. E o mesmo se aplica a outros gigantes como Inter, AC Milan, Real Madrid ou Bayern Munchen. A chegada de Carlos Queiroz foi fundamental mas a visão de Alex Ferguson ditou essa nova filosofia dos Red Devils. Que lhe permitiu reconstruir as suas equipas até à exaustão.

Javier "Chicharito" Hernandez é um grande jogador, destinado a grandes momentos. Mas já o era há um ano atrás quando o serviço de olheiros do Man Utd se decidiu a apostar nele de forma imediata ignorando a petição do Chivas de ficar com o avançado um ano mais. Jim Lawler, chefe dos olheiros do United, recebeu vários relatórios dos olheiros locais. Ficou tão impressionado que decidiu passar um mês no México a vê-lo jogar em pessoa. E não admira ninguém que à posteriori se soubesse que, como ele, também passaram pelo radar Guardado, Dos Santos, Vela e Barrera, outras promessas locais desconhecidas então no Velho Continente.  Depois do o estudar ao detalhe, Lawler aprovou a contratação recomendando a Ferguson que se antecipassa ao Mundial, onde se esperaria que o jovem acabaria por brilhar. E assim foi. Nisto tudo, o que realmente surpreende é a capacidade de adaptação do mexicano que evitou assim seguir o exemplo de outras descobertas espantosas da equipa de observadores dos ingleses. Esses são os mesmos que pescaram Diego Forlan, Giuseppe Rossi, Gerard Piqué, Nemandja Vidic, Anderson (com quem já tinham um pré-acordo quando este chegou ao FC Porto), os irmãos da Silva e, claro, Cristiano Ronaldo. Todos eles chegaram a Old Trafford por valores irrisórios comparativamente com a sua situação actual. Alguns afirmaram-se de imediato (Vidic), outros precisaram de tempo (Ronaldo) e outros, pura e simplesmente, não aguentaram a exigência e foram brilhar para outras paragens (Rossi, Forlan, Pique), provando que o trabalho de observação tinha sido perfeito. Hernandez destaca talvez pela sua rápida adaptação e pelo seu preço ridículo o que faz dele, já, a mais bem sucedida contratação da era Ferguson. Não é que tenha o mesmo valor de Schmeichel, Cantona, van Nistelrooy, Rooney ou Ronaldo, mas tem potencial para o lograr e já o demonstrou com juros. É o espelho de um trabalho bem feito.

Os olheiros que o clube inglês tem nos quatro cantos do Mundo têm ajudado o técnico escocês a superar as sucessivas birras dos seus melhores jogadores (Beckham, van Nistelrooy, Ronaldo), sempre preparados para sair quando atingem a sua melhor forma. Com estes backups constantes, mesmo quando o dinheiro escasseia - e as finanças do clube há muito que estão no vermelho, literalmente - são fundamentais para que o Manchester United esteja perto de um feito histórico, só logrado por outro clube inglês: 3 finais da Champions League em quatro anos.

 

Muitos citam o trabalho de formação do Arsenal e a verdade é que a rede de observadores dos gunners inclui alguns dos melhores do mundo nisto da prospecção. O problema do clube londrino está na estrutura que não permite estabelecer uma ponta entre o presente e o futuro. Ferguson mantém consigo os seus braço-direito e dá espaço à afirmação dos mais novos. Wenger atira (porque é forçado, muitas vezes) os seus jogadores aos leões às vezes cedo demais. E paga o preço. São dois clubes com filosofias distintas mas com uma politica de prospecção muito similar, em tudo diferente aos modelos espanhóis e italianos que esperam sempre que outro clube actue antes, como um colchão. Em Itália é fácil ver o Napoli, Palermo, Fiorentina, Udinese e companhia arriscarem nos Cavani, Pastore, Jovetic, Sanchez e depois aparecerem em cena os grandes colossos que pagam mais do que deviam para os recrutar. Isso resulta também da legislação do Calcio que só permite a inscrição de um extra-comunitário por temporada. Mas também é um espelho da cultura do medo. Kaká, Coutinho, Vucinic foram sempre a excepção, nunca a regra. Essa filosofia mediterrânica, que se vive também em Espanha, França e Portugal, de que um clube grande só contrata jogadores de qualidade contrastada tem muito a ver com a realidade financeira de cada país. Clubes como o Sevilla ou o Villareal só podem chegar ao topo como o têm feito, com boas redes de olheiros rápidos a antecipar movimentos. Depois sabem que estão resignados a vender aos Madrid e Barcelona que esperam a sua hora para agir. A rede de olheiros do Barcelona é de tal forma desastrosa que os Henrique, Keirisson, Caceres, Giovannis e companhia sempre foram deixados em evidência, comparativamente com o produto local. Em Madrid, já se sabe, os milhões impedem que negócios como os de Marcelo ou Higuain se repitam. Durante anos ambos os jogadores, verdadeiras pérolas descobertas antes do tempo, sofreram o estigma de terem custado pouco para uma instituição habituada a pagar tanto. 

 

 

 

O futebol latino, uma vez mais, vê-se atrasado nesta corrida atrás das jovens pérolas. Portugal escapa, ligeiramente, pelas relações privilegiadas com a América do Sul mas, essencialmente, pela sua constante necessidade de vender. Em Inglaterra (e, a pouco e pouco, na Alemanha e Holanda, talvez os pioneiros nesta matéria) há tempo, paciência e dinheiro. Portanto não estranha que aí se concentrem também os mais hábeis observadores do Mundo. Nem todos acabam nas ilhas, que o problema da adaptação impede muitas vezes que pérolas de outras longitudes se afirmem na dura Premier, mas as suas referências estão lá, nas gavetas, para uma memória futura. Enquanto o sul da Europa paga o preço do sucesso, o futebol inglês paga para garantir o futuro. E paga menos. E ganha mais. E desfruta com Javier Hernandez com um sorriso nos lábios. Porque sabem que, lá no fundo, são capazes de ter razão.



Miguel Lourenço Pereira às 17:39 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 08.04.11

A humilhação sofrida pelo Inter diante do Schalke 04 apenas confirmou o que já todos sabem. O Calcio atravessa uma grande crise de identidade e a perda do terceiro lugar no ranking da UEFA confirma em númeras as sensações transmitidas há muito pela Serie A. Mas, apesar de tudo, nem tudo são más noticias. A profunda crise economica dos clubes e o grande problema social do futebol italiano está a permitir uma lenta, mas real, regeneração do Calcio.

 

 

 

A meados dos anos 90 não havia nenhuma liga europeia que pudesse ombrear com o prestigio da Serie A.

Foi o culminar de um crescimento mediático e futebolistico que arrancou a meados dos anos 80. Desde 1984 a 1997 as equipas italianas tornaram-se omnipresentes nas provas europeias. Juventus, AC Milan e Sampdoria marcaram presença em finais da Champions League. AS Roma, Inter, AS Lazio, AS Parma, Fiorentina e Napoli em finais da Taça das Taças ou Taça UEFA. Por duas vezes, inclusive, o país dominou uma final com duas equipas. Os melhores jogadores do Mundo procuravam, avidamente, um lugar ao sol no país da bota. Maradona, Socrates, Zico, van Basten, Gullit, Laudrup, Preben Elkjaer, Careca, Voeller, Rummenigge, Matthaus, Platini, Boniek, Rijkaard, Bergkamp, Asprilla, Brolin e companhia pautaram o ritmo do jogo. Mas não estavam sós. Depois de um apagamento progressivo, após o titulo europeu de 1982, o próprio futebol italiano apresentou uma nova geração de multiplos talentos. De Baresi, Maldini, Costacurta, Donadoni e Albertini a Baggio, Vialli, Mancini, Zola, Signori, Casiraghi, Pagliuca, Berti e tantos outros, a Azzurra tinha uma esquadra de respeito. Depois chegou o crash. Primeiro o dos clubes, que começaram a pagar o preço das suas loucuras. Depois dos adeptos, que radicalizaram os seus comportamentos a niveis extremos, transformando os ferverosos estádios italianos em desertos de almas. E por fim, os jogadores, que foram abandonando a liga em busca de melhor sorte. A Premier League e a La Liga acolheram-nos de bom grado. O êxodo terminou com a saída de Kaká e Ibrahimovic há quase dois anos. Parecia que o Calcio já não tinha mais nada que oferecer.

Essa profunda crise moral rapidamente se tornou em crises de resultados. Exceptuando o Mundial de 2006, culminar de uma geração que cresceu a beber o talento da constelação de estrelas, nacionais e internacionais, que deram nome à Serie A, a Itália tornou-se num sinónimo de desilusão. Os próprios clubes italianos perdiam o respeito dos rivais. Exceptuando três Champions conquistadas pelos dois de Milão, os italianos não vencerem nenhuma prova europeia em toda a década. Ultrapassados regularmente por ingleses e espanhóis, mas também franceses, portugueses, holandeses, alemães, russos, turcos e ucranianos, os conjuntos italianos já não conseguiam atrair os melhores. E foram caindo na mais profunda das medianias. Mas, como sempre, depois da tempestade sai o sol. O italiano começa a despontar, a pouco e pouco.

 

Sem dinheiro para comprar estrelas os clubes italianos tiveram de aprender a reciclar-se.

Recordando a legislação dos anos 60, que impedia os clubes de contratarem jogadores estrangeiros, a Lega italiana proibiu os clubes de assinar com mais de um atleta extra-comunitário ao ano. Os clubes começaram a racionar os gastos e a olhar para o seu futebol de formação. Tarde ou cedo os heróis do virar de século teriam de ser substituidos e apesar dos Del Pieros, Tottis, Nestas e Gattusos sobreviverem ainda à purga, a pouco e pouco os nomes esquecidos do passado passaram a ser as referências do presente.

Montolivo, Cassano, Pazzini, Maggio, Palombo, Di Natale, Pepe e companhia deixaram de ser segundas escolhas. Eles agora são o esqueleto da Serie A. Producto nacional despreciado quando os clubes preferiam recorrer aos Zidanes, Kakás, Ronaldinhos e companhia, mas que agora são os lideres de uma nova vaga. Que começa a viver-se, também, na mutação desportiva da tabela classificativa. A Juventus ainda não recuperou do Moggigate mas a pouco e pouco começa a entender que jogadores devem fazer parte do seu projecto. Nos últimos anos chegaram Quagliarella, Marti, Bonucci e Pepe e também ganharam o seu espaço Chiellini e Marchisio. Uma mutação que os envelhecidos clubes de Milão ainda não entenderam totalmente. Se ambos resgataram as armas secretas da Sampdoria, Pazzini (para o Inter) e Cassano (para o AC Milan), a mutação é lenta. Ranocchia, Santon e Antonini são as únicas reais perspectivas de futuro.

Ao contrário, os clubes de metade da tabela, aprenderam a sobreviver assim. Jogadores de grande projecção futura a baixo custo (Cavani, Lavezzi, Pastore, Sanchez, Jovetic) e producto da casa. A Fiorentina exibe com orgulho Montolivo, D´Agostini e De Silvestre. O Napoli conta com Maggio e Sammarco. A Sampdoria mantém nas suas hostes Palombo e o promissor Poli. A Udinese "recuperou" Di Natale depois de ter perdido a Pepe. Na Sicilia estão Micolli, Nocerino e Sirigu. Na Sardenha é a vez de Lavezzi, Acquafresca e Ragatzu. Pelo meio Gallopa, Candreva e Giovinco pelo Parma e Criscito e Destro pelo Genoa. Razões, boas razões, para que se comece a inverter uma tendência histórica de afunilamento. O poderio financeiro dos grandes diminui à medida que os grandes negócios também desaparecem. O reparto mais justo das receitas televisivas abre as portas aos mais modestos de impor o seu estilo. Com a crise a Serie A recuperou competitividade e aproveitou a oportunidade para reforçar uma nova vaga de jogadores. Não necessariamente jovens, mas todos ignorados até agora, vivendo na sombra das velhas glórias. O seleccionador nacional, Cesare Prandelli, entende essa realidade melhor do que ninguém. Em Florença começou essa mutação e com a Azzurra prepara-se para fazer o mesmo. Cada vez há menos jogadores dos três grandes. E isso é sempre um bom sinal.

 

 

 

Espera-se um crescimento sustentado num país que vive na sua particular gaiola de loucos. Os adeptos começam a voltar aos estádios de forma mais ordeira, os dirigentes começam a olhar para o mercado de forma mais racional. E os fantasistas e goleadores, que nos últimos anos faltaram ao futebol italiano, parecem brotar com naturalidade nestas novas equipas. Tarde ou cedo as jovens estrelas sul-americanas começarão a ditar o futuro e os milhões voltarão. Caberá então aos dirigentes garantir uma sustentabilidade financeira que tanta falta fez ao Calcio na última década. Esse imenso balão de oxigénio pode ser apenas um primeiro passo para recuperar o prestigio perdido. A crise no Calcio é positiva. Pelo menos para os italianos.


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Miguel Lourenço Pereira às 14:59 | link do post | comentar

Sexta-feira, 01.04.11

A improvável vitória da Sampdoria na Serie A de 1991 foi o culminar de uma campanha demoníaca dos legionários de Vujadin Boskov. O Luigi Ferraris transformou-se na caixa de pandora do Calcio e na ressaca mundialista o clube pequeno de Génova tornou-se no clube grande de Itália. Uma história de glória efémera mas com feitos extraordinários que a história jamais apagará.

 

 

 

Pagliuca. Vierchwood. Mannini. Lana. Pellegrini. Toninho. Katanec. Mikaylichenko. Lombardo. Vialli. Mancini.

Onze nomes que a cidade de Génova nunca poderá esquecer. Durante dois anos a cidade portuária da Ligúria, berço da primeira grande equipa italiana da história - o eterno rival Genoa - voltou a ser o coração do Calcio. Um fábula que provou que no futebol - ou pelo menos, no futebol pré-Bosman - tudo era verdadeiramente possível. O conjunto genovês com o equipamento mais belo, quiçá, do futebol europeu, conseguiu em dois anos o que muitos clubes tardam toda a vida em lograr. A vitória na Serie A, a uma jornada do fim, em 1991, foi histórica. A final da Champions League perdida, no ano seguinte, frente ao Barcelona, o principio do fim. Entre esses dois anos os Blucerchiatti puderam sonhar.

A equipa que arrancou a época de 1990 era praticamente a mesma que disputara, na Primavera anterior, a sua segunda final consecutiva da Taça das Taças. Os genoveses tinham perdido contra o Barça, a sua besta negra como se veria, em 1988 mas no ano seguinte bateram o Anderlecth para conquistar o seu primeiro trofeu europeu. Uns meses depois, frente ao todo poderoso AC Milan, Boskov e companhia estiveram perto de vencer, também, a Supertaça Europeia. Era o prenúncio da formação de uma equipa altamente competitiva. A equipa mantinha a estrutura e reforçava-se com o soviético Mikhaylechenko, pedra basilar do Dynamo Kiev de Lobanovsky que finalmente dava o salto rumo ao Ocidente. A equipa arrancou o ano com uma modesta vitória frente ao Cesena mas demorou a arrancar. A 28 de Outubro, em San Siro, uma vitória por 1-0 frente ao AC Milan (golo inesquecível do brasileiro Toninho Cerezo) deu a entender que a dinâmica dos azuis mudava a pouco e pouco. A partir daí a Sampdoria entrou numa serie de jogos decisivos sempre a ganhar (exceptua-se a derrota no derby, por 1-2) em que bateu expressivamente o Napoli de Maradona, a campeã equipa do Inter e a AS Roma de Voeller e companhia. A liderança do campeonato, algo inédito no historial do clube, tardou algumas jornadas em chegar por culpa de tropeços inesperados (derrotas com Torino e Lecce) mas chegou com uma vitória face à Juventus de Baggio. A partir daí os homens de Boskov tornaram-se no alvo a abater.

 

Alinhando num 4-4-2 profundamente dinâmico, com Lombardo e Toninho no apoio directo ao duo de ataque mais celebre do futebol italiano (e com Vierchwood, Katanec e um jovem Pagliuca a comandar, imperialmente, o sector defensivo), o Luigi Ferraris transformou-se com a sua equipa e tornou-se num verdadeiro inferno. A equipa recebeu - e venceu - AC Milan, Napoli e Inter, os três últimos campeões, e a 19 de Maio, a uma jornada do fim da época, confirmou o titulo com uma desforra expressiva face à Lecce. A vitória por 3-0 confirmou o titulo e também o prémio de Capocanonieri, com 19 golos, para o flamante Gianluca Vialli. Era a consagração definitiva de um estilo que tinha abandonado o catenaccio puro para abraçar um jogo ofensivo e dinâmico que teve a sua devida recompensa. A Samp falhou apenas a dobradinha por cair diante da AS Roma na final da Taça de Itália - a sua prova fetiche dos anos anteriores - depois de se revelar incapaz de dar a volta na segunda mão, em Génova, ao mau resultado do primeiro jogo (3-1, derrota no Olimpico da capital).

Com 20 vitórias e 57 golos marcados, a Sampdoria foi a equipa mais ofensiva do último ano da era Sacchi (que se manteve como a melhor defesa da prova). Mas a glória caseira acabaria por revelar-se sol de pouca dura. Na época seguinte Boskov decidiu colocar todas as fichas na ambição europeia do presidente Mantovani e esqueceu-se do dificil que era manter o Scudetto numa liga com tantos pretendentes. Na Europa a missão dos genoveses foi superado contra toda a expectativa. Depois de destroçar Rosenberg e Honved nas fases prévias, os italianos foram colocados no mesmo grupo que Panatinaikhos, Anderlecth e Estrela Vermelha, os campeões europeus em titulo. As duas vitórias no confronto directo com os jugoslavos revelaram-se decisivas para o histórico apuramento de Mancini, Vialli e companhia para a final do Wembley. A noite que consagrou o Dream Team de Cruyff (que em 1988 tinha ganho o seu primeiro trofeu europeu precisamente contra os italianos) podia ter sido a noite da Sampdoria não fossem os pouco habituais erros de Lombardo, Mancini e, sobretudo, Vialli, à frente de Zubizarreta. A amarga derrota, a poucos minutos do fim, culminou um final de ano para esquecer. Na Serie A os genoveses há muito que estavam afastados da rota do titulo (com direito a derrota e goleadas impostas pelo futuro campeão, o AC Milan de Capello) e na Copa de Italia uma eliminação precoz fui tudo o que os adeptos puderam lamentar. A partir desse Verão de 92 a histórica formação, que durante quatro anos tinha levantado a moral dos tiffosi, foi-se desfazendo.

 

 

 

Boskov partiu e deixou o posto para Sven-Goren Eriksen, incapaz de devolver o clube ao topo da tabela. Rapidamente as grandes estrelas partiram para outros campeonatos. Mancini para a AS Lazio, Vialli para a Juventus e Mikaylichenko para o Rangers...Nem as chegadas dos promissores Jugovic, Amoruso e Chiesa permitiu ao clube inverter a tendência. Até à histórica campanha de Luigi Del Neri, na passada época, nunca mais o Luigi Ferraris se transformou num recinto demoniaco, capaz de destroçar a mente dos rivais antes de entrar em campo. A Sampdoria passou a década e meia seguinte a lutar por sobreviver na parte baixa da tabela classificativa. As lembranças dos dias de glória ficaram, mas a ascensão do duo romano, da Fiorentina e da AS Parma transformou o fenómeno genovês num episódio de um passado longinquo. Um passado grandioso mas desenhado na pedra, perdido nos confins do tempo. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:11 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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