Quinta-feira, 18.10.12

De Portugal já ninguém se surpreende no "planeta futebol" que acabe tropeçando nos jogos de qualificação mais fáceis. Não é uma sina, como os mais supersticiosos podem pensar, mas sim reflexo de uma selecção que funciona melhor como "underdog", em elemento de bunker mental e num futebol de reacção. Os resultados superlativos do último Europeu deixam claro que o problema de jogo continua a agravar-se nos jogos mais menosprezados na mente de técnicos e jogadores pela absoluta falta de mentalidade competitiva que está por detrás do sucesso de qualquer equipa ganhadora.

 

Se perder em Moscovo é um mau resultado, porque uma qualificação num grupo destas características quase sempre é um mano a mano, empatar em casa com a Irlanda do Norte é voltar às calculadoras precoces, ao sentimento de pequenez que transmite a selecção portuguesa longe dos grandes palcos. Empatar num jogo de qualificação não é um fenómeno anormal. Mas o empate de Portugal tem pouco a ver com o épico 4-4 do Alemanha e Suécia ou o agónico 1-1 do Espanha vs França.

Primeiro porque estes foram duelos entre rivais directos, algo que a Irlanda do Norte jamais será. E depois porque, sobretudo, não é novidade. Qualificação atrás de qualificação, desde 2004, que Portugal tropeça com os mais inesperados rivais e obriga-se a si mesma a fazer cálculos com os dedos, como um miúdo da primária, para sonhar com grandes gestas. Há três anos um jornal português publicou na capa, depois de um resultado similar, "Adeus África". Portugal acabou por se qualificar. Tem-no feito de forma consecutiva desde 2000 para todos os grandes torneios, um feito histórico. Mas sempre com essa dose de sofrimento que nos reduz à condição de pequenez futebolística aos olhos do Mundo.

A presença de Cristiano Ronaldo, como antes de Luis Figo, Deco e Rui Costa, dá a Portugal uma aura de importância aos olhos do Mundo mas quem está dentro do Mundo do futebol sabe que, em fases de qualificação, o comportamento da equipa das Quinas assemelha-se sempre mais ao de uma selecção de segundo nível a quem o cartaz de cabeça de série nunca funciona muito bem. 

Portugal não sabe competir como favorito. Não sabe pensar e organizar o jogo, ditar os tempos e os modos em que o rival é forçado a jogar. Deixa-se levar sempre pela corrente, pelos humores do adversário e acaba sempre por ter de reagir quando se lhe exige controlo e acção. Esteve a perder com o modesto Luxemburgo, com a Rússia e com a Irlanda do Norte e na soma dos três jogos conseguiu quatro pontos contra os nove dos russos. Não que a equipa de leste seja uma superpotência, apesar de ter todas as condições para vir a sê-lo nos próximos anos, a começar pelo seleccionador, um competitivo nato chamado Fabio Capello. Mas nestes duelos a condição de superioridade técnica, evidente, conta menos que a vontade de vencer e o savoir faire que sempre faltou a Portugal. Nos sprints finais a mentalidade dos jogadores e técnicos é alterada pelas urgências e os play-offs transformam-se numa cruzada de sofrimento rumo à glória. Fica bem à selecção esse espírito épico mas desnecessário se as coisas fossem bem feitas desde a raiz. Ninguém dúvida agora que recuperar seis pontos a esta Rússia é missão quase impossível e que os duelos contra Israel serão fundamentais para garantir o lugar no terceiro play-off consecutivo.

 

O fenómeno é extensível a vários mandatos de seleccionadores e a vários jogadores que é difícil repartir culpas com facilidade.

Trata-se, sobretudo, da falta de gene ganhador da selecção lusa, aquela que pior ratio histórico tem em grandes provas internacionais, a única que nunca venceu um torneio apesar de quatro semi-finais e uma final disputadas. Num país de 10 milhões isso poderia até ser um êxito, e de certa forma é-o, se não se desse o facto de países mais pequenos tivessem ultrapassado essa realidade sócio-económica precisamente por possuir o killer-instinct que sempre falha quando Portugal sobe ao terreno de jogo.

A equipa das Quinas jogou com a Irlanda do Norte da mesma forma que joga sempre quando não tem de temer o rival.

Desconcentrada, tímida, sem vontade de competir. Uma sensação de falsa superioridade moral que acredita que a bola acabará por entrar porque nós somos quem somos e eles só são quem são. A história está cheia de exemplos de rivais como os irlandeses que fizeram a Portugal o que a equipa lusa costuma fazer às selecções grandes nos torneios onde realmente brilha. Nessas provas, o espirito de bunker formado nas concentrações, a sensação de nunca ser favorito e partir sem pressão, é suficiente para deixar ver outro rosto de Portugal. Em 2004 os nervos puderam com a estreia num Europeu que estávamos fadados a ganhar. Em 2006, num dos grupos mais acessiveis da história, ninguém deslumbrou nos jogos iniciais e quatro anos depois Portugal voltou a ter dificuldades em afirmar-se como uma selecção a respeitar. Para não falar no medo com que se jogou com Brasil, Espanha e Alemanha nos torneios seguintes. Mudam os técnicos, mantêm-se os problemas emocionais.

Tacticamente este Portugal é igual ao do último Europeu, mas sem a pressão e critério que desaparecem quando a cabeça não acompanha. Ronaldo não brilha tanto nestes jogos talvez porque sabe que não há tantos olhos em cima, tantos votos por contar. Nani desaparece ainda mais no buraco negro em que se está a transformar a sua carreira e a defesa desliga de forma colectiva abrindo espaços e deixando Patricio exposto ao mais inesperado dos rivais. O golo irlandês não foi muito diferente do golo russo e a falta de reacção foi idêntico. Num país sem um lote de jogadores de qualidade para escolher até as baixas de Coentrão e Meireles se notam, especialmente quando o seleccionador aposta na versão de "sargentão" e na sua família e prefere excluir Eliseu e Paulo Machado, jogadores que aportariam muito mais do que Miguel Lopes e Ruben Micael. Sem um goleador, especialmente porque o jogador das 100 internacionalizações tem um ratio goleador monumentalmente inferior com a sua selecção do que com os seus clubes, e sem um pensador de jogo, que João Moutinho voltou a provar ser incapaz de ser, a coluna vertebral da selecção desfaz-se com tremenda facilidade e deixa as suas fragilidades expostas á mais cínica e oportunista das selecções. 

 

Esse velho fado dificilmente mudará no futuro se não houver uma profunda mudança de mentalidade a nível geral no futebol português, similar às produzidas em França, Espanha e Alemanha, países que estão agora a capitalizar as metamorfoses internas da última década ao nível de todos os escalões do seu futebol. Portugal terá de jogar contra o tempo e provavelmente vencerá com solvência os duelos com Israel e numa boa noite pode até mesmo bater os russos em casa, particularmente se jogar com a mesma atitude que tanta falta lhe faz nos jogos que realmente importam. Mas dificilmente se livrará de um novo play-off para chegar de novo ao Brasil sem a aura de favorita como tanto gosta. Depois, será a altura dos seleccionadores e jogadores que se mostraram incapazes de competir contra selecções dos últimos escalões do futebol europeu reclamar o protagonismo e grandeza nos resultados. Ídolos de pés de barro.



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Quarta-feira, 17.10.12

Sai Leandro Damião, entra Kaká. Uma mudança que provoca um verdadeiro terramoto táctico no jogo ofensivo do Brasil de Mano Menezes. Uma mudança que aproxima o escrete canarinho da sua herança histórica, defensora do conceito de falso 9 muito antes do futebol actual sequer ter sonhado com tamanha "inovação". Este Brasil ainda apresenta falhas importantes para ser considerado favorito no terreno de jogo a vencer o seu Mundial. Mas se a experiência da última semana se tornar em realidade, o concerto de classe e futebol dos brasileiros está garantido para o próximo Campeonato do Mundo.

 

Circula a bola com fluidez. Move-se de lado a lado do campo.

Sem posições fixas, sem ataduras tácticas visíveis a olho nu (porque elas estão sempre lá), o quarteto ofensivo brasileiro desdobra-se com naturalidade, talvez lembrando-se de outras eras, de outras histórias, de um futebol que foi perdendo com a sua progressiva europeização. Em 1990 Carpeggiani chocou o Mundo apresentando um 3-5-2 calcado ao modelo argentino tão em voga na América Latina e o Brasil desiludiu como nunca. Quatro anos depois o músculo substituiu o talento, os buldozzers jogaram no lugar dos pintores e a eficácia do único génio irreverente fez a diferença e o Mundial chegou, 24 anos depois. Em França, Zagallo procurou aproximar-se mais ao modelo europeu mas cedendo alguma criatividade ao seu ataque e o titulo ficou a um pequeno passo para os brasileiros e um imenso salto para Ronaldo. O homem que apareceu, quatro anos depois, para ajustar contas com a história numa equipa que jogava num 3-5-2 que só era viável porque Roberto Carlos e Cafú são tão inimitáveis como os três R´s da frente. Para os dois Mundiais seguintes passou-se do 8 (um ataque só de avançados e sem trabalho de meio-campo) ao 80 (uma equipa sem alma de ataque que apostava tudo no músculo do miolo). Nenhum dos projectos resultou. Mais do que isso, nenhum destes modelos tinha sequer similaridades à escola brasileira. À dos três Mundiais, entre 1958 e 1970, à do Brasil de Telé Santana, à que acreditava no papel do individuo dentro do colectivo como elemento realmente diferenciador na hora da verdade.

Talvez este seja um ponto de inflexão. 

O Brasil que renegou da sua condição parece interessado em redescobrir-se. Talvez porque jogará o Mundial em casa e tem contas para ajustar. Nenhuma selecção grande que teve recebido alguma vez um Mundial falhou em vencê-lo. Uruguai em 1930, Itália em 1938, Inglaterra em 1966, Alemanha em 1974, Argentina quatro anos depois e França em 1998. Os brasileiros são a única grande nação que falhou em casa na hora da verdade. Nunca nenhum país que tenha recebido por duas vezes um Mundial, salvo o México, viveu duas derrotas do anfitrião. Esse é um peso sério para os ombros de Menezes. Especialmente se desiludir não só no resultado mas, sobretudo, no terreno de jogo.

 

O falso 9 é uma falsa questão, uma invenção tão antiga como os mágicos magiares de princípios da década de 50.

Não foi uma invenção actual, espanhola ou blaugrana, e ninguém a levou ao nível de lenda como a selecção brasileira de 1970. A de Zagallo, o homem por detrás da metamorfose do 4-2-4 para o 4-3-3 e o homem que tem igualmente o crédito de ter inventado o 4-2-3-1 no Mundial do México. A diferença é que esse um, esse elemento avançado diferenciador, Tostão, actuava no terreno de jogo como um mais do tridente que o precedia composto por Jairzinho, Rivelino e o imenso Pelé. Nenhum dos quatro jogava numa posição fixa e alternavam regularmente posições na linha ofensiva. Jairzinho foi o melhor marcador do escrete, apontando em todos os jogos, um feito histórico, aparecendo tantas vezes no espaço que a movimentação de Tostão deixava para os colegas. A consagração dessa selecção, uma das melhores e mais excitantes da história, foi também a consagração de um modelo sem amarras tácticas que muitos pensavam ser possível só no Brasil.

Doze anos depois o Brasil de Telé Santana tentou emular o mesmo ideário, num 4-2-2-2 em que os quatro da frente trocavam de posição de forma constante, com a maioria dos golos a ser marcados pelos médios ofensivos e não pelos dianteiros. Mas a ausência de um título pesou na imagem que deixou no futuro e à medida que o futebol se metia em corsets tácticos vários, a ideia perdeu-se no tempo até que Pep Guardiola, primeiro, e Del Bosque, depois, a aplicaram com sucesso no futebol espanhol.

Kaká foi a pedra basilar no modelo de Menezes que recupera essa herança.

Até agora o seleccionador tinha procurado jogar quase sempre com uma figura de ataque, habitualmente Leandro Damião. Mas a verdade é que ao Brasil falta-lhe essa figura de goleador com que a história tem abençoado os brasileiros nas grandes gestas desportivas. Talvez com essa consciência, talvez porque a herança táctica brasileira pedia algo especial, Menezes decidiu reunir os seus jogadores mais criativos e distribui-los pela linha de ataque sem posições fixas.

A movimentação de Hulk, Neymar, Kaká e Óscar é o grande quebra-cabeça das defesas contrárias. Jogam no espaço, pedem a bola, movem-se e descolocam os rivais com a precisão de um relógio. Apoiam-se no imenso trabalho físico e táctico da dupla Ramires-Paulinho, herdeiros dessa memória de carregadores de piano do passado, e pintam o seu futebol de forma tranquila e cúmplice. Quando saem, é para dar lugar a outros interpretes da mesma sinfonia, a Lucas Moura, a Giuliano, a Thiago Neves e só, ocasionalmente, ao caça-golos Damião.

Menezes pode avançar com uma linha de individualidades com que talvez só o futebol espanhol e alemão possa competir. Pode dar-se ao luxo de abdicar de um renascido Ronaldinho Gaúcho. Pode esquecer-se até de Jadson ou Willian. Para não falar de Paulo "Ganso" Henriques, que parece ter perdido definitivamente este comboio. De certa forma conta com as condições perfeitas para montar uma orquestra deste estilo. Dois laterais ofensivos - Alves e Marcelo - dois centrais de garantias - Thiago e David Luiz - e um meio-campo tacticamente impecável. Os jogos mais recentes, frente a dois rivais asiáticos, deixaram a nu alguma falta de coordenação entre o ataque e a defesa e talvez por isso o seleccionador brasileiro tenha guardado sempre as substituições para os momentos finais. Para ganhar o grupo, o onze, a equipa que os pode levar ao hexacampeonato do Mundo.

 

De certa forma, a este Brasil falta-lhe a estrela planetária (que Neymar ainda não é) que tem a Argentina, o espírito coral da selecção alemã e a classe superlativa da equipa espanhola, aqueles que são os reais favoritos a vencer o próximo Mundial. Mas a um ano e meio de arrancar o torneio, Menezes tem tempo para trabalhar a sua ideia. Ter encontrado com o modelo ideal é o primeiro passo. A partir daí a herança histórica brasileira e o talento genuíno dos seus interpretes terá de fazer o resto para fazer dessa condição de favorito emocional o primeiro passo para um torneio para a posteridade.



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Sábado, 15.09.12

Espanha bateu o recorde de posse de bola num só jogo. 80%, um número que seria assustador não fosse habitual ver as exibições da Roja em números que não dormem tão longe como isso do novo recorde obtido. Foi em Tiblissi. Foi com a Geórgia. E terminou com uma apertada vitória a 1, com um golo a cinco minutos do fim. Espanha sente a bola como nenhuma selecção do Mundo. Por isso sente-se e transforma-se numa equipa quase invencível. Mas ter sempre a bola não significa vencer sempre e as vitórias pela mínima transformaram-se, mais do que numa imagem de marca, num suspiro de ansiedade que gera nos seus adeptos o jogo rendilhado dos espanhóis.

 

Há quem prefira um futebol intenso, rápido, de trocas sucessivas de golpes. De lances, de oportunidades, de golos. De muitos golos.

Quem goste de um modelo mais britânico, mais parecido a um combate de boxe onde ambos os lutadores se olham nos olhos, sem medo, e desferrem murros sem piedade até que, seja por pontos seja por k.o., vença. Essa é a escola original, aquela que mais perto se encontra da verdadeira origem do futebol moderno. Um futebol que privilegia os golos por cima de tudo, que os valoriza a eles e aos seus autores por cima de todos os outros. Um futebol de acção, de emoção, de suspense, de intensidade. 

E no entanto esses adeptos vivem dias negros, dias em que o futebol de ataque e contra-ataque, de troca de golpes, tem-se visto suplantado pelo futebol de posse. O futebol em que a bola, e não as balizas, é protagonista. O futebol onde a bola é minha e de mais ninguém, onde a equipa descansa com a bola nos pés, em trocas de bola controladas, em longos momentos de possessão, um futebol onde as oportunidades se contam pelos dedos das mãos mas, quando surgem, parecem inevitáveis. E, sobretudo, um futebol onde o golo parece um complemento e não um fim, um complemento que tarde ou cedo chegará, inevitavelmente. Um futebol que deriva sobretudo da abordagem centro-europeia, dessa que se divorciou das origens, primeiro com a Escócia e mais tarde com os escoceses que viajaram por esse mundo fora e encontraram sobretudo na bacia do Danúbio, espaço para explicar as suas ideias. Esse é o futebol dos dias de hoje, o futebol mais admirado e, sobretudo, o mais titulado.

É o futebol de Espanha, de uma selecção que aprendeu a fazer da bola a sua arma, e da posse a sua grande filosofia. 80% de posse de bola significa, mais do que os outros 20% possam significar, uma asfixia absoluta. Um futebol monólogo que vence troféus com uma regularidade histórica ao mesmo tempo que perde adeptos entre os neutrais que se deixam levar pela ilusão da emoção.

 

A bola é para o jogador espanhol uma continuação da chuteira. 

Ao contrário da maioria dos futebolistas, o espanhol não quer desprender-se da bola da mesma forma que não quer jogar descalço apesar de, na maioria dos casos, se o fizesse nem se notaria a diferença. A bola trata por tu jogadores internacionais respeitados em todo o planeta de Xavi a Iniesta, passando por Silva, Cazorla ou Fabregas. Mas vejam um jogo da liga do país vizinho e entendam como para Isco, Thiago, Iturraspe, De Marcos, Gabi e Beñat, sem esse protagonismo mediático, a sentem da mesma forma, com a mesma paixão, com a mesma inevitável sensação de familiaridade.

O jogo da selecção espanhola tem sobretudo uma falha que o separa da mais absoluta perfeição. A eficácia. Contando com homens que sabem criar, planear e sonhar com os melhores assaltos, o estranho é ver a equipa espanhola assaltar com regularidade as redes contrárias. Se na final do Euro 2012 os italianos sofrerem uma humilhação igual à de 1970, com os mesmos golos à mistura, a verdade é que em torneios de prestigio internacional o jogo da equipa espanhola se mede pela falta de eficácia dos seus dianteiros. 

A questão não está em vencer por 1-0 apenas porque é suficiente. Um 1-0 nunca o é e grandes equipas descobriram que os deuses de futebol não permitem em demasia que se jogue tanto no limite. A derrota com a Suiça, em 2010, e o sofrimento com a Croácia, em 2012, são bons exemplos dessa realidade.

Espanha sabe que dificilmente sofrerá golos. Não porque tem o melhor guarda-redes do mundo (e o melhor suplente), nem uma das melhores linhas defensivas do planeta. Sabe porque tem a bola, porque não a perde, porque o rival tem entre 20 a 30% de posse num jogo e isso significa que as oportunidades serão escassas e estão, quase sempre, debaixo controlo. Casillas não sofre golos num jogo oficial há seis encontros. Quase nada. Aragonés e Del Bosque sabiam o mesmo que Hogan e Sebes já ensinavam há tantos anos atrás: a bola é tua, o jogo é teu, o resultado eventualmente também o será.

Mas o que continua a marcar distâncias entre esta Espanha e as grandes equipas da história está no outro lado. Se no meio-campo (onde está a esmagadora maioria dessa posse de bola, uma posse de controlo, de descanso, de artimanha) dificilmente houve na história uma equipa com o mesmo à vontade desta selecção, na área Espanha continua a ser uma selecção dubitativa, uma selecção sem esse killer-instinct que se tornou na trademark de outras das suas rivais nesse hall of fame futebolístico.

 

Espanha continua a aparentar ser uma selecção invencível, sobretudo porque faz da defesa a sua virtude, sem ter necessidade de defender em excesso. É uma selecção que se define exclusivamente pela bola que conduz como ninguém. Mas como é uma selecção de bola e não de baliza, Espanha também tem criado um complexo de angustia nos seus adeptos, habituados a sofrer em demasia até ao momento final em que surge o golo, habituados a esperar levantar-se da cadeira uma vez em cada 90 minutos. Falta ao futebol da Roja aproveitar ainda mais as poucas oportunidades que gera, com autoridade, para aproximar-se um pouco mais desse Olimpo futebolístico, deixando de ser uma selecção de bola para passar a ser uma selecção da bola.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:51 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sexta-feira, 07.09.12

Arranca a fase de qualificação para o Mundial de 2014 na zona europeia. Com o resto do mundo em etapas mais avançadas, os europeus começam o sprint maratoniano que abre as portas a um torneio que ninguém quer perder. Portugal repete como cabeça de série e como máximo favorito a marcar um lugar antes de tempo nesse reencontro lusófono com Vera Cruz. Um caminho traiçoeiro e que procura saber se a equipa das Quinas aprendeu a meter-se por desvios perigosos.

 

Desde 2006 que Portugal não consegue vencer o seu grupo de apuramento e nas últimas duas ocasiões falhou mesmo a qualificação directa para um grande torneio internacional.

No entanto, nas provas em que acaba sempre por chegar, a performance acaba por superar a maioria das equipas que manejam com mais tranquilidade e eficácia a fase de qualificação. Dirão os adeptos que preferem sofrer antes para desfrutar depois, mas o problema não está nem na prestação final nem na angústia que significa decidir um ano de trabalho num jogo de ida e volta. Se em 2008 o segundo lugar do grupo, ganho pela Polónia, serviu pelas contas que evitaram que os segundos fossem forçados a mergulhar num play-off, a partir daí Portugal por duas vezes encontrou a Bósnia no caminho para a África do Sul e Ucrânia. 

Sempre partindo como cabeça de série, consequência da brilhante trajectória da última década e meia, o conjunto das Quinas encontra sérios problemas em exibir-se de acordo com o prestigio acumulado em fases de apuramento. É uma velha doença do futebol português que durante 32 anos marcou presença apenas em quatro provas internacionais tropeçando sempre na fase prévia por este ou aquele motivo. Desde o França 98, e dessa maldita expulsão de Rui Costa na Alemanha, a equipa das Quinas nunca falhou um grande torneio mas isso não significa que não tenha deixado para os últimos dias a confirmação do bilhete de avião. 

Paulo Bento mostrou no último Europeu que é capaz, num microcosmos particular, de criar um grupo motivado, disciplinado tacticamente e preparado para saber sofrer. A prestação de Portugal superou todas as expectativas e o terceiro posto, medalha de bronze merecidíssima, foi um prémio a essa postura profissional que tantas vezes falhou no passado. No entanto, os problemas crónicos do futebol português não desaparecem por um bom torneio de Verão, e notam-se sempre mais nas longas viagens por esse continente fora e nesse pulso com os clubes mais poderosos do continente do que propriamente em Mundiais e Europeus.

 

Bento sabe que tem um grupo traiçoeiro. 

Na teoria o apuramento directo tem de ser assumido desde o primeiro dia, sob pena de Portugal continuar a cair nesse eterno fado de vitimização que tão bem cai na pele lusa. Portugal não é só a melhor equipa entre as seis do grupo como é também aquela que parece mais preparada para chegar comodamente ao Brasil.

Está a anos-luz do futebol duro e intenso dos irlandeses de Belfast e arredores, dos homens de Israel e, evidentemente, de luxamburgueses e azerbeijanos. No duelo directo com a Rússia, uma potência por direito próprio, Portugal tem a vantagem de ser um projecto em desenvolvimento avançado enquanto que os russos apostam forte não em 2014 mas sim no seu próprio torneio de 2018. Para isso contrataram Fabio Capello, um homem duro que fará progressivamente a triagem da geração que falhou na Polónia estrepitosamente e que dará passo a uma nova vaga de promessas que estão ainda a dar os primeiros passos como internacionais. 

Portugal, pelo contrário, não apresentará mudanças face aos últimos anos. Por um lado é um aspecto positivo porque garante ao técnico que a sua "família", como sucedeu com Scolari, lhe dará tranquilidade e confiança, seguro que os seus conceitos tácticos e posturas serão bem assimilados. Ninguém espera que em dois anos o papel de Cristiano Ronaldo, Nani, Raul Meireles, João Moutinho, Pepe, João Pereira, Fábio Coentrão e Bruno Alves seja questionado e com Rui Patricio como homem de confiança nas redes, só o eterno debate do dianteiro e do médio mais defensivo podem levar Bento a fazer alterações a médio prazo.

Nelson Oliveira terá em Espanha a oportunidade e os minutos que não teve na Luz para justificar a aposta que o técnico tem feito e Miguel Veloso, na Ucrânia, passará um curso intensivo que não lhe dará espaço para erros. Não se vêm caras novas no horizonte para um primeiro plano que nos planos do seleccionador é fundamental. O técnico utilizou apenas 16 jogadores no último torneio e salvo lesões, é dificil pensar que aumente em demasia o leque nos jogos a eliminar. 

No entanto esta realidade, como já sucedeu no final dos dias de Scolari, esconde sobretudo a incapacidade do futebol português de produzir ao mesmo ritmo de sempre novas esperanças para o futuro. Os projectos das equipas B podem ser uma opção mas demorarão até se afirmarem definitivamente como alternativas e só a crise económica dos clubes os poderá forçar a apostar no producto nacional, quase sempre mais barato, e na sua própria formação. Os fracos desempenhos das selecções de sub-21 e sub-19 no entanto não escondem uma realidade difícil para um futuro próximo e até bem depois de 2014 ninguém espera uma mudança de cromos substancial nos planos da equipa das Quinas.

 

A fase de qualificação arranca com um jogo fácil. Desses em que Portugal se maneja francamente mal. 

Portugal ensinou o mundo a preparar-se para uma equipa que rende muito bem com nomes consagrados e sofre em demasia com selecções sem perfil competitivo. As viagens ao leste da Europa tornaram-se, na última década, num problema sério e lidar com o kick-and-rush das Irlandas sempre foi um problema no esquema de jogo dos lusos. E serão esses os jogos fundamentais da fase.

Portugal poderá ter um duplo duelo com os russos - que em 2005 foram presas fáceis, eles que viviam então também uma fase de profunda reestruturação que resultou no excelente Euro 2008 - mas se não somar a totalidade dos pontos contra os restantes rivais, acabará por ser forçada a jogar demasiado em pouco tempo. Os oito confrontos com israelitas, irlandeses, luxemburgueses e azerbeijanos não podem saldar-se com menos do que 22 pontos conquistados, vantagem que permitirá um tropeção ou uma má noite em Moscovo ou na recepção a uma selecção russa que está orientada por um homem especialista em duelos de elevada pressão psicológica e que terá também a oportunidade de limpar a imagem depois de um período à frente da selecção inglesa cheia de interrogantes.

Bento, que fez parte como jogador de muitos desses jogos onde se perderam pontos infantilmente no passado, sabe perfeitamente que a margem de manobra é reduzida. Estar no Mundial de 2014 mais do que uma obrigatoriedade, é uma profunda necessidade.

Portugal tem vivido de um ranking favorável que lhe tem permitido escapar a confrontos com rivais mais poderosos. Se não há uma geração de futuro capaz de pegar na herança deixada por Cristiano Ronaldo e companhia, a selecção tem de pelo menos manter as performances desportivas em alta quando ainda dispõe de jogadores de elite como o extremo do Real Madrid, para garantir que ao longo desta década, as fases de qualificação que venham sejam igualmente caminhos com rosas mas sem espinhos.

Depois de falhar um Mundial, em França, que podia ter significado o arranque precoce da "Geração de Ouro" junto de uma imensa comunidade emigrante que ficou sem ver os seus heróis, falhar um torneio num país com quem Portugal partilha mais do que a língua seria um desastre não só futebolístico mas também sociocultural. 

 

Uma das principais vantagens do calendário que esperam os homens de Bento está no facto de que nenhum dos duelos com os russos ficam reservados para o sprint final. Em Outubro e Junho os mano a manos entre eslavos e ibéricos deixaram pistas mas não serão determinantes. Portugal tem espaço para progredir com tranquilidade e conseguir assim o feito histórico de somar a sua oitava fase final consecutiva, um feito reservado apenas às grandes selecções mundiais.  



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:24 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quinta-feira, 03.05.12

algo no futebol inglês que seduz. Talvez a sua eterna incapacidade para impressionar a todos. Ao contrário de holandeses, brasileiros, espanhóis, franceses ou argentinos, ninguém se lembra de uma selecção inglesa que tenha reunido um consenso universal. É sempre o patinho-feio dos torneios, a equipa que quer e não pode, a selecção de uma liga que só encanta pela legião estrangeira que lhe dá cor e forma. Nesse panorama cinzento a FA já tentou seleccionadores de distintas personalidades e experiência. Agora opta por Roy Hodgson. O técnico mais cinzento para uma selecção em que já ninguém consegue acreditar.

Fabio Capello saiu pela porta pequena como não lhe é habitual. Estava farto. E Capello farta-se depressa das coisas.

Farto da pressão dos media, da relação dos jogadores e da incapacidade crónica do futebolista inglês a aprender conceitos de jogo colectivos. A prestação no Mundial da África do Sul foi um desastre. Muitos culpam a falta de arrojo do italiano, outros o espírito bélico dos próprios jogadores, incapazes de lidar com o ritiro inventado por Capello. Estava claro que este casamento não ia ter final feliz porque Capello, ao contrário de Giovanni Trapattoni, é demasiado inflexível. E só alguém ainda mais hermético do que um técnico italiano. Um jogador inglês.

O cinzentismo da equipa que deixou Capello contrasta com o excesso de juventude e inexperiência que parece estar reservada para as próximas concentrações dos Pross. Como sucede com o caso português, a Geração de Ouro inglesa afinal não o foi e há um hiato tremendo entre jogadores com lugar cativo no onze e novos nomes que bebem já outros conceitos aprendidos numa Premier League que começa a assimilar algumas das características do jogo de toque continental. É preciso relembrar que a única vez que a Inglaterra não jogou como a Inglaterra é suposto jogar, os leões foram campeões do Mundo. Essa ideia ronda pela cabeça de muitos jornalistas e treinadores britânicos e depois da consagração do modelo espanhol, há quem tenha a tentação de seguir esse ideário deixando para trás décadas de kick-and-rush e desilusões. A tentação inicial era procurar dentro de casa alguém que fosse seguir esse caminho. O treinador inglês é um oásis de originalidade e há tão poucos técnicos de sucesso na Premier de origem inglês (a maioria são os escoceses ou irlandeses) que reduzir o leque de candidatos não era tarefa complexa. Harry Redknapp parecia, desde o primeiro instante, o mais claro favorito. Mas este não é um país para suspeitos, pode dizer-se, e apesar de ilibado o nome de Redknapp ficará sempre ligado ao escândalo de fuga de impostos, algo que a FA nunca viu com bons olhos. A recusa do treinador em abandonar de imediato o Tottenham Hotspurs - então a lutar pelo titulo - também não ajudou e a federação quis provar com o treinador dos sub-21, Stuart Pearce. A falta notória de habilidade de Pearce e a péssima segunda volta dos homens de Redknapp acabaram com as duas opçoes e o vazio voltou a aparentar ser maior do que nunca. O dinheiro não comprou Mourinho e Guardiola e no meio do desnorte, o cinzentismo voltou a imperar.

 

Roy Hodgson é o mais continental dos treinadores ingleses.

Por continental não digo pelo estilo de jogo. Não é uma reencarnação de Jimmy Hogan como Niels Egen era um primo afastado de Stan Cullis. Mas grande parte da sua carreira foi feita longe da Velha Albion. Foi seleccionador da Finlândia, dos Emirados Arabes Unidos e, sobretudo, da Suiça a quem levou ao Mundial de 1994 em grande estilo para depois assinar uma fase final deprimente. Foi treinador principal do Inter de Milão e não só não venceu o Scudetto como perdeu a final da Taça UEFA com o Schalke 04. Em Inglaterra passou toda a carreira em equipas de low profile até que levou o modesto Fulham à final da Europe League, perdida, claro está, nos últimos minutos diante do Atlético de Madrid. Um logro emocional que o levou a Anfield Road onde assinou talvez o pior arranque de época da história do Liverpool. Não durou meio ano (não que Kenny Dalglish tenha feito muito melhor esta época) e acabou no West Bromwich equipa que luta por sobreviver com poucos recursos e menos imaginação ainda.

A um mês de que arranque o Europeu poderíamos imaginar mil treinadores diferentes para orientar a selecção inglesa. Menos Hodgson.

Talvez por isso tenha sido o escolhido.

Dele não se espera nada a não ser um low profile. Não é um inovador táctico apesar de ter bebido de várias culturas. Não é um lider de balneário e nem sequer é uma inspiração para os adeptos. E como já poucos esperam algo de uma equipa sorteada no mesmo grupo de uma França revitalizada, uma sempre complicada Suécia e a equipa da casa, Ucrânia, há quem pense mesmo que passar à segunda fase é algo a que os ingleses não podem ambicionar. Redknapp teria sido uma escolha de inspiração genuína mas o seu estilo de liderança provavelmente entraria em choque com o balneário. Hoddson formará consensos. Apesar de todos saberem que a geração de John Terry, Ashley Cole, Rio Ferdinand, Frank Lampard e Steven Gerrard tem os dias contados, a verdade é que não há jogadores de nivel internacional para substituir-lhes. Jack Whilshire, talvez a melhor aposta de futuro, está de fora do torneio por lesão. Wayne Rooney não jogará os dois primeiros jogos e nem Ashley Young, Danny Wellbeck, Phil Jones, Kyle Walker, Tom Cleverley ou Micah Richards têm o espirito de liderança e sangue frio que se exige nestes momentos.

Hodgson sabe que terá de formar uma equipa que capte o melhor de dois mundos. Terry jogará, Lampard também, Ferdinand e Gerrard terão os seus momentos. Hart resolveu, de momento, o problema da baliza mas a falta de cabeça de Rooney abriu outro no ataque. Entre Bent, Defoe, Wellbeck, Carroll e Sturridge estará a solução momentânea. No meio o enigma, entre o 4-4-1-1 e o 4-3-3, mais do que no dispositivo táctico nos nomes que sobem ao terreno de jogo e que podem fazer dos Pross uma equipa mais especulativa ou frontal. Conhecendo Hodgson, não esperemos milagres.

 

A eleição de Roy Hodgson como novo seleccionador inglês deixa claro que há federações que continuam a querer acreditar que um seleccionador é uma figura menor, de perfil baixo, que existe apenas para resolver problemas humanos durante duas semanas. São os que acreditam que os jogadores já vêm com as lições tácticas debaixo do braço e que apenas é necessário ordenar os nomes no tabuleiro. Essa postura britânico não é nova e não tem dado frutos positivos. O último grande técnico de vertente táctica que orientou a selecção foi campeão do Mundo. Todos os que o seguiram tentaram encarar as fases finais como meros torneios motivacionais. Todos falharam e o novo seleccionador sabe-o bem. O problema para os ingleses é que tão poucas expectativas num homem tão cinzento como é Hodgson podem ter precisamente o efeito contrário no balneário e o feitiço virar-se contra o feiticeiro. Sven-Goren Erikson sofreu-o na pele na Alemanha em 2006. E todos sabemos como esse filme acabou. 



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Sexta-feira, 02.12.11

Se o futebol fosse um jogo de pura sorte, Portugal podia ter razões de queixa. Uma selecção que começa a ser conhecida como a eterna candidata entalada num grupo com três campeãs europeias e duas das três máximas candidatas ao troféu. Mas se a sorte faz parte da linguagem do jogo também é verdade que sempre foi nos momentos mais complicados que Portugal mostrou a sua face mais competitiva. Com a embaixada mais débil dos últimos 16 anos, Portugal tentará contornar um destino que não só parece inevitável como é tremendamente lógico.

Brasil, Espanha, Alemanha, Inglaterra, Bulgária, Hungria, Roménia, Dinamarca, Croácia, Costa do Marfim...

Selecções que á priori tinham todas as condições para eliminar Portugal numa qualquer fase prévia pretérita do historial luso. Todas foram surpreendidas por essa capacidade de resposta que, desde 1966, faz parte do ADN da selecção nacional. De 1966 a 2010 o desafio de um grupo complexo sempre foi um aliciante extra para os destinos de Portugal. Pelo contrário, grupos acessíveis, como os de 1986, 2002 e 2008, de certa forma, convidam a um relaxamento que já pregou demasiadas partidas. Pensando assim o sorteio do próximo Europeu pode ter sido um sorteio de sorte.

E no entanto olhamos para os futuros rivais da selecção portuguesa e é dificl pensar noutro cenário que não seja um adeus tão precoce como o de 2002, a última vez que Portugal ficou de fora na fase de grupos de uma prova internacional. As duas melhores selecções europeias da actualidade, equipas que podem verdadeiramente desafiar a hegemonia de uma Espanha que no último ano foi perdendo gás mas que continua a ser a grande favorita. E uma equipa que nos últimos dois torneios venceu o grupo de qualificação em que Portugal ficou inserido, com vitórias claras e uma superioridade de jogo inequívoca. Portugal pode ter melhores individualidades que a Dinamarca, mas desde 2008 que parece incapaz de o demonstrar num confronto directo. Não era um rival apetecível. E no entanto será o mais importante.

A partida inaugural frente a super-favorita Alemanha - provavelmente a melhor equipa do mundo da actualidade - não será determinante. O duelo com os nórdicos sim. Qualquer resultado que não passe pela vitória pode significar um adeus precoce. Uma vitória e o duelo directo com a Holanda pode ser verdadeiramente apaixonante. As tulipas são a grande incógnita do torneio. Finalista do último Mundial, grandes figuras da fase de grupo do último Europeu (antes de cair diante de uma surpreendente Rússia nos Quartos), é uma equipa de altos e baixos. Um rival com as caracteristicas que tanto estimulam o histórico português.

 

Paulo Bento tem consciência das limitações do seu quadro.

A sua politica como seleccionador reduziu ainda mais a margem de manobra ao abdicar de José Bosingwa de forma unilateral e por isso qualquer lesão ou problema físico até Junho pode ser um problema mais sério do que parece á primeira vista. Contra a Bósnia viu-se o melhor rosto de Portugal, um jogo de transições rápidas onde a velocidade de Nani e Ronaldo e o trabalho no miolo de Moutinho e Meireles, e sobretudo Veloso, faz sentido. Essa será a melhor arma frente a duas equipas tecnicamente mais poderosas como os teutões e holandeses mas frente á Dinamarca a equipa de Bento terá de se preocupar em ter a bola e saber fazê-la circular como foi incapaz em Copenhaga no passado mês de Outubro. E aí faz falta um jogador de outras características para o meio-campo. Um jogador que não existe no leque de seleccionáveis. E que ajuda a perceber porque é que Portugal, neste Grupo da Morte mediático, é o elo mais fraco.

A lógica ditará que os lusos terminem em último lugar do grupo e no entanto essa perspectiva foi a mesma que marcou o arranque do Euro 2000 (onde também defrontamos uma Roménia capaz de bater Portugal na qualificação para ser derrotada por um golo de Costinha) onde a equipa inglesa era vista como máxima candidata e a Alemanha não deixava de ser...a Alemanha.

Claro que não há João Pinto, Rui Costa, Figo e Nuno Gomes, que realizaram aquele que foi talvez o melhor torneio do historial luso. Mas essa pressão de favorito, que tanto pesou dois anos depois, não existia e o futebol dos lusos foi muito mais fluido e preciso talvez porque a mente dos jogadores estava tranquila. Será a missão principal do seleccionador, imitar o feito de Humberto Coelho e desaparecer por detrás dos jogadores para dar-lhes essa dose de confiança de quem não tem nada a perder.

 

Se o futebol fosse um jogo só de sorte, Portugal podia aspirar a ser campeã da Europa. Mas não o é e por isso os números jogam um papel importante e dictam que os lusos são hoje um dia um rival simpático. Mas como a sorte, tal como os números, não sobe ao relvado, a relatividade de um desporto que faz disso a sua principal arma de sedução permite a Portugal aspirar a tudo sabendo que o mais provável é que saia sem nada. O mérito de qualificação para um torneio como este é tremendo porque melhores equipas ficaram pelo caminho. O público português tem direito ao sonho mas também tem forçosamente de sentir a chapada na cara da realidade. Talvez seja esse o click necessário para inverter o destino de uma bola que entra no momento exacto e nos convida a ficar, só um pouco mais.

 

PS: Em relação aos restantes grupos, deixarei para o mês de Maio uma análise mais cuidada. No entanto ficou claro que a politica de ranking da UEFA permite a existência de um grupo como o A - talvez o mais fraco de toda a história dos Europeus de Futebol - e um grupo como o D onde suecos, franceses, ingleses e ucranianos partem ao mesmo nível no verdadeiro Grupo da Morte. Quanto á Espanha, que pode fazer um tri histórico, terá Trapatonni, Modric e, sobretudo, a sua besta negra, a Itália, pela frente. Junho promete ser um mês inesquecível!



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Terça-feira, 22.11.11

Durante a última década formou-se uma corrente de pensamento que consagrava a carreira do genial Zinedine Zidane como a súmula perfeita de uma época clássico no jogo. Chamaram-lhe o "Quinto Grande" por alusão ao lugar vazio atrás do poker Di Stefano-Pelé-Cruyff-Maradona (assim, temporalmente, para evitar discussões) tornando a sua roleta, frieza e camisola suada num icone de uma era. Mas a grandeza de Zinedine - indiscutível - talvez não tenha sido tão evidente que uma boa campanha de marketing não tenha ajudado a mistificar. E quando a bola rola, dorme, beija e toca a chuteira de Don Andrés, é difícil não imaginar que o "Sancho Panza" manchego mereça - como mínimo - o mesmo tratamento que o filho da nova Gália.

Movimento, roleta, movimento, cabeça alta, olhar fixo, gota de suor, movimento, leitura, suavidade, segurança, passe, cheque...mate.

Zinedine Zidane tratava a bola com a mesma devoção com que Paulo de Tarso perseguia cristãos. Com essa agressividade dissimulada no olhar, esse suor de guerreiro desde os primeiros sprints, esse ar de cavaleiro berbere, habituado a migrar pelas grutas do monte Atlas. "Zizou" foi, durante meia década, a diferença. O seu jogo não vivia do arranque e da velocidade como Figo, Ronaldo ou Owen (para citar os Ballon D´Or contemporâneos) nem era tão incisivo como o toque de Rivaldo ou Nedved. Com ele a bola parava em movimento, adormecia com tranquilidade e despertava com destino certo. A classe de cada gesto, os braços erguidos, a cabeça levantada, foram mais do que uma imagem de marca, foram a definição de um estilo iminentemente clássico num jogador indiscutivelmente moderno.

Zidane não defendia, queixavam-se muitos, e no entanto defendia melhor do que ninguém. Mantendo a bola nos pés, fazendo-a rodar pelos seus, Zizou garantia o equilíbrio que o musculo de Makelele ou as corridas de Figo eram incapazes de entender. Talvez por isso foi admirado até à exaustão, talvez por isso a história se esqueça com mais facilidade desse seu ritmo tão próprio em detrimento daquele passe, daquele remate de cabeça, daquele volley em Hampden, daquela cabeçada infame...Zidane definiu-se a si mesmo como esse filho perfeito do Mediterrâneo, sempre com essa brisa de mar no rosto a dar-lhe esse ar desafiante, o mesmo que guiou a França a uma era de prosperidade inédita, o mesmo que transformou o jogo do Real Madrid num prazer inconfessável. O mesmo que, reformado por tudo e por todos, demonstrou que a bola, nos pés de quem a ama, é um servo obediente do seu amo.

 

A magia do gaulês parecia guardada numa cápsula do tempo, inimitável, pedaço de vídeo para gerações futuras tropeçarem como hoje os mais novos não conseguem entender o mecanismo dos movimentos de Cruyff, as cavalgadas heróicas de Beckenbauer, o toque subtil de Pelé ou até mesmo o estilo de rufia de bairro de Maradona. Muitos guardavam-no seu relicário, como a São Paulo na evangelização dos cristãos, como irrepetível. Não, o futebol não entende de credos e súplicas mas algo começou a despontar quando a luz de Zizou se foi apagando lentamente.

A brisa do mar não lhe toca e isso nota-se numa pele desenhada a pensar na sombra das oliveiras que rodeiam os caminhos de terra à volta dos seus vinhedos. Talvez contemplando a imensidão do planalto manchego, Don Andrés tenha entendido o mesmo que Zidane a olhar para um mar sem fim. A eternidade conquista-se com um suspiro.

A bola seca pelo sol ardente só procurava um amigo com quem conversar mas em Iniesta encontrou um amor. Inconfessável devoção de um estilo, de uma era que não morre por muitos sinos que toquem a rebate. Nos pés do génio espanhol o esférico encontra o aconchego do lar, levanta-se e anda com a firmeza de Lázaro, por cima dos comuns mortais. Iniesta é para a bola de futebol o que a areia é para o mar, inseparável. Em Barcelona, há largos anos, ainda Guardiola era um jogador com inquietudes, Messi um miúdo traquinas e Xavi um aspirante assobiado jogo sim, jogo sim, o actual treinador blaugrana virou-se para o seu sucessor e disse-lhe com a sua habitual tranquilidade: "Tu vais-me retirar a mim, mas este aqui vai retirar-nos aos dois". Não foi assim. A história guardou-os para uma missão em conjunto.

Se Xavi é o cérebro futebolístico de uma era, o pensador perfeito, e se Messi a estrela mediática que qualquer projecto necessita (que o diga Gerson de Pelé, Hidgekuti de Puskas, Netzer de Beckenbauer, Schuster de Rummenige, Rui Costa de Figo...) o futebol em Barcelona é responsabilidade de Iniesta.

O espanhol joga, faz jogar e existe, com a sua presença, como um espectro indiscutível sobre a cabeça dos rivais. Os treinadores perdem horas a falar na marcação ao homem a Messi mas o mérito do argentino foi saber-se rodear dos melhores. E o melhor encontrou-o em Iniesta. O herói silencioso, o pistoleiro do velho Oeste de poucas palavras. Cada sprint de Messi encontra a tabela no segundo perfeito com Don Andrés. Cada drible do herói de qualquer Cervantes moderno, cada vez que levanta a bola por cima da teoria de relatividade de qualquer Einstein pretérito, acontece futebol. Iniesta está para além do gostar ou não gostar em que os mitos como Messi e Ronaldo vivem. Iniesta é a pura essência do jogo moderno, o médio que defende com a bola, que ataca com a bola, que dorme com a bola, que regressa aos balneários com a bola e que dorme com a bola. Em campo o seu deambular anárquico ordena, as suas diagonais desorganizam e o seu olhar condena. É o homem das noites mágicas, o herói das causas perdidas, do sofrimento incontrolável. É tudo aquilo que o futebol quer ser mas não ousa pedir. Por cada Iniesta há mil Busquets, há 100 Messis e 10 Xavis.

 

Zidane jogou sempre com o peso do seu mundo às costas. O peso da herança berbere, o peso de uma França fragmentada que se uniu no seu corte de monge para desafiar as probabilidades. Às vezes avançava com as costas curvadas, sentindo essa necessidade de liderar o rebanho como quem se sabe incapaz de fintar todos os lobos. Don Andrés não se curva, não sente qualquer peso a não ser o da aragem quente que rasga Fuentalbilla. Ganhou tudo o que havia para ganhar - e antes que muitos nomes ilustres - e no entanto continua a olhar para a bola com a mesma inocência com que driblava todos os pedregulhos que se deparavam pelo caminho. Filho dessa Espanha insólita, perdida no tempo e no espaço, a Iniesta nem Cervantes seria capaz de resumir em dez tomos. A ele define-o a bola que podemos ver, cada vez que se despede do seu mágico pé, a despedir-se com um piscar de olhos...



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Sexta-feira, 18.11.11

Agora que se conhecem oficialmente as 16 equipas que em Junho disputarão um titulo que só espanhóis, alemães e holandeses parecem poder verdadeiramente aspirar, voltamos atrás no tempo para tomar o pulso àquela que foi talvez a mais interessante revelação da fase prévia. Não chegou sequer aos play-offs mas durante ano e meio mudou definitivamente a percepção e os estereótipos que a tinham condenado ao desconhecimento geral. A Arménia foi, provavelmente, a selecção que mais merecia ter carimbado o passaporte para o Europeu. Agora o futuro dirá se o crescimento do futebol arménio é real e sustentável.

No historial da antiga União Soviética o futebol arménio nunca teve direito a grande destaque.

Entre Moscovo e Kiev moldavam-se as relações de poder e o único clube do Cáucaso que chegou a bater, com alguma regularidade, o pé aos grandes, encontra-se na vizinha Georgia. No entanto a classe dos arménios sempre foi reconhecida como única dentro do espectro soviético. Com a independência, esse toque de classe ganhou ainda mais sentido. Ao contrário dos físicos vizinhos do norte, a bola na Arménia rola por tapetes débeis mas pés delicados, capazes de trazer um ritmo próprio a cada respiração do jogo. Sem a disciplina táctica de ucranianos ou russos, o futebol nas imediações do mitológico monte Ararat sempre foi mais uma questão de sentimentos do que puro racionalismo. Talvez essa displicência com o aspecto organizativo do jogo tenha causado problemas no passado mas a progressiva migração de alguns dos maiores talentos locais nos últimos 20 anos começa a transformar essa realidade. A Arménia de hoje é, sem dúvida, uma selecção muito mais compacta e responsável do que qualquer formação do seu passado.

Esse trabalho deve muito à experiência que o escocês Ian Porterfield trouxe a Yerevan quando em 2006 foi nomeado seleccionador do combinado nacional. Era o quinto estrangeiro escolhido pela federação local em quatro anos e muitos imaginavam que o seu destino seria em tudo igual ao dos seus antecessores. O antigo técnico do Chelsea tornou-se um trota-mundos e quando chegou ao Cáucaso causou imediato impacto pela sua natureza mas, sobretudo, pela sua abordagem. Entendeu que o grande erro dos técnicos anteriores foi a imposição de um estilo e modelo que não se adequava com o espírito dos jogadores locais. Porterfield rodeou-se de autóctones e decidiu imprimir um cunho verdadeiramente arménio à sua equipa. A mudança começou a notar-se de imediato mas, um ano depois da sua chegada, o seleccionador faleceu, vitima de um cancro implacável. Deixou as sementes que o seu sucessor, o adjunto Vardan Minasyan, soube recolher. O artífice desta magnifica selecção não convenceu de imediato a federação que voltou a optar por um estrangeiro - o dinamarquês Jan Poulsen - antes de entender que o anterior número dois estava finalmente preparado para a missão mais difícil da sua vida.

 

Minasyan é um metódico onde a maioria desfruta do jogo em plena anarquia.

antigo internacional, soube rodear-se de jogadores a disputar o débil campeonato local a quem juntou apenas aqueles expatriados que demonstravam verdadeiro interesse em actuar pelo combinado nacional. Transformou um leque de atletas num grupo e decidiu entregar os galões do seu projecto ao promissor Henrikh Mkhitaryan, a maior promessa da história do futebol local em muitos anos. À volta do médio centro montou uma equipa organizada mas capaz de tratar a bola com a reverência habitual dos locais. Elegeu a Yedigaryan, Mkrtchyan e Manucharyan como acompanhantes de luxo da sua jovem estrela e deu-lhes liberdade para jogar. Um meio campo profundamente criativo mas rodeado de um colectivo profundamente organizado que, no entanto, foi incapaz de superar a muralha defensiva montada por Giovanni Trapattoni no jogo inaugural da qualificação. Essa derrota injusta - depois de um jogo totalmente dominado pelos locais - acabou por motivar ainda mais os underdogs que partiram para uma série de quatro jogos sem perder (vitórias sobre a mundialista Eslováquia e a selecção de Andorra e empates na Macedónia e com a Rússia). O duelo com os russos teve contornos de épica pura, importantes para quem ainda se lembra do opressivo regime de Moscovo e da forma como o grande clube local, o Ararat Yerevan foi tratado durante a época soviética. A derrota em San Petersburg doeu menos do que muitos esperavam, talvez porque os arménios até começaram o jogo a vencer ou, talvez, porque durante grande parte dos 90 minutos foram melhores com a bola nos pés que os imensos vizinhos.

Terminada a primeira ronda de jogos, surpreendentemente, a Arménia ombreava com irlandeses e eslovacos pelo segundo lugar de qualificação - o tal do play-off - e apesar de muitos perspectivarem uma queda livre, a qualidade de jogo dos caucasianos veio ao de cima na histórica goleada em Zilina contra a Eslováquia. Uma vitória por 4-0 implacável e que deixou a nu a diferença entre uma selecção que marcou presença nos oitavos de final do último Mundial e uma equipa que começava a funcionar como tal. O sucesso de Minasyan era evidente mas o sonho com o segundo lugar começava a fazer cada vez mais sentido. Em teoria o jogo na Irlanda avizinhava-se como determinante mas antes era necessário domar a Macedónia, equipa complicada e do mesmo nível que os arménios. Outros 4 golos marcaram claramente as diferenças e deixaram os irlandeses num compromisso. Vencer era obrigatório e as habituais tácticas defensivas da velha raposa tinham de dar lugar a algo mais de ousadia. Os arménios sabiam que não eram favoritos e rapidamente entenderam que o futebol europeu tem truques a própria razão desconhece. Muito superiores em jogo aos locais, os arménios sofreram na pele talvez a sensação de injustiça que custou aos irlandeses a viagem à África do Sul. Uma expulsão duvidosa do guarda-redes Roman Berezovsky, determinante em toda a campanha, por mão fora da área, determinou o jogo. Um infeliz auto-golo, pouco depois, rematou as poucas possibilidades dos visitantes que ainda reduziram pela estrela do costume depois de Dunne ter ampliado a vantagem. Os irlandeses marcaram menos (mas também sofreram menos) golos que os arménios mas seguiram em frente. O sonho evaporou-se.

 

À medida que o futebol de clubes se tenta reorganizar no Cáucaso, as selecções continuam a ser o grande emblema dos países. A Arménia sofreu na pele os anos da opressão soviética mas desde o empate a zero contra Portugal no apuramento para o Mundial de França (os pontos que custaram a passagem aos lusos) que tem vindo a melhorar progressivamente. Pela primeira vez discutiu de tu a tu com nações com outros recursos e historial a qualificação e depois de ser colocados num grupo com Itália, Dinamarca, Republica Checa e Bulgária para os duelos de apuramento ao próximo Mundial muitos imaginam que o trabalho de Minasyan pode acabar por ter um final feliz. A estrutura começa a solidificar-se, a classe individual está à vista de todos e o perfume do futebol arménio pode ser inebriante. Talvez os arménios merecessem mais que os irlandeses esse bilhete (como sucedeu há dois anos com insulares e gauleses) mas o futuro pode reservar-lhes surpresas inesperadas que façam com que momentos como este sejam vistos como apenas mais um passo rumo ao sonho.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 21:29 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 16.11.11

A vitória tem destas coisas. Um triunfo categórico nos números, complicado na forma, carimbou a passagem de Portugal para o seu quinto Campeonato da Europa consecutivo, um logro ao alcance apenas da verdadeira elite do futebol europeu. Mas nesse clima de euforia tão habitual a quem não está habituado a ganhar começam a distinguir-se os traços de arrogância que costumam ser maus companheiros de viagem. Portugal estará em Junho na Europa de Leste, mas não deixará de ser um convidado secundário numa festa com outros protagonistas.

O estádio da Luz não encheu mas foi suficiente. Para os bósnios pelo menos.

A equipa dos Balcãs não quis jogar os primeiros 90 minutos, recorrendo a tácticas tão legitimas como pré-histórica. Na hora e meia que passou no tapete verde impecavelmente cuidado do estádio onde Portugal já se habituou a resolver noites difíceis, não conseguiu. Os nervos, a combustão interna de Safet Susic e a primeira meia-hora das estrelas portuguesa fizeram o resto. A equipa da Bósnia esteve mais dentro da eliminatória pelos erros arbitrais do que por méritos próprios. Dzeko nunca fez juz à sua merecida fama internacional e nem Misimovic nem Pjanic souberam ter a tranquilidade mental para explorar as constantes debilidades defensivas de um Portugal que, mesmo com tudo a favor, acabou por sofrer demasiado.

Ficou evidente que a selecção lusa continua a ser mais uma manta de retalhos individuais que uma verdadeira equipa. Decidiu o génio individual de Cristiano Ronaldo e Nani na primeira parte e culminou a noite um golpe magistral de Miguel Veloso, naquele que foi talvez o seu mais completo jogo pela equipa das quinas. Desiludiu profundamente o trabalho do quarteto defensivo com Fábio Coentrão apagadíssimo (e infantil como poucos no lance da grande penalidade) e um Rui Patricio que, com a bola nos pés, continua a ser um terror para os próprios colegas. Mas como os bósnios tinham a bola exíguos minutos nos pés, o público não notou e fez a festa com que a maioria não contava. Depois da sofrida vitória por 1-0, frente aos mesmos bósnios, em 2009, ou os triunfos diante de Hungria e Estónia em 1999 e 2001, a Luz voltou a ser o talismã para uma noite de gala. Uma noite de enganos.

 

Paulo Bento continua a ser um técnico com debilidades tão evidentes que só mesmo a imagem do arregaçar nas mangas explica bem o que vai por aquela cabeça. Homem mais de acção do que planificação, o seleccionador apresenta-se como um novo Scolari, figura militarizada que aposta mais no esforço, na raça e no querer do que, propriamente, nos conceitos de preparação técnico-tácticos. O 4-3-3 que aplicou na selecção lusa continua a ser um tapete de espaços mortos onde os conceitos se confundem com os indivíduos. Quando algum jogador falta e um ou outro está em baixo de forma, a inépcia de Bento é mais do que evidente. Viu-se na Dinamarca onde Portugal podia ter sido humilhado com profunda naturalidade. Um seleccionador que marca toda a linha do seu trabalho em homens e não em conceitos corre o risco de se transformar numa presa fácil da sua própria fortuna. Ontem, pela primeira vez em largos anos, Portugal brilhou. Mas realmente brilhou no individual - como uma constelação onde as estrelas Nani, Cristiano, Meireles e até Moutinho fizeram das suas - enquanto que voltou a não convencer no colectivo.

Aqueles que habitualmente se deixam levar pelo frio na espinha que os hinos nacionais costumam provocar encontrarão mil e um motivos para sufragar Bento que tem a seu favor um registo de resultados mais do que aceitável. O mesmo sucedeu com Queiroz antes da viagem à África do Sul, onde se percebeu que uma brilhante fase de qualificação contava pouco quando os jogos a doer eram com rivais de outro calibre.

Portugal continua a ser uma equipa da parte média do futebol europeu, não demasiado longe de uma Bósnia que cometeu dois erros crassos na preparação deste play-off e que, por isso, mereceu a eliminação.

A batalha de Zenica era escusada e acabou, paradoxalmente, por beneficiar Portugal. Em lugar de aproveitar, como se viu nos últimos 20 minutos, a fragilidade mental dos lusos a equipa da casa preferiu a provocação e o anti-jogo e acreditou que um golo em Portugal seria suficiente para quebrar uma malapata de seis anos. Não foi. Portugal soube responder com categoria com dois golos de bola parada, um gesto técnico irrepreensível e três tentos de ponta-de-lança que transformaram uma qualificação numa orgia nacionalista. E no entanto o rival pareceu incomodar menos os jogadores de vermelho do que a péssima (outra vez) arbitragem de Wolfgang Stark que parece não se dar bem com jogadores lusos. Os golos, a celebração, escondem a realidade, como sempre.

 

A decadência lusa é um fenómeno evidente e facilmente reconhecível desde 2006.

O último biénio da era Scolari pautou-se por uma mensagem em tudo similar à que preconiza hoje Bento, o habitual discurso do guerrilha de bairro sem ideias que se apoia, sobretudo, no génio de quem o rodeia. Seleccionador que gostava de deixar vitimas pelo caminho como Bento(e mostrar-se orgulhoso disso), seleccionador que gosta de criar o "grupo" antes que premiar os melhores, (como Bento) e, sobretudo,  seleccionador sem um conceito de jogo na cabeça. Depois de suar desnecessariamente num grupo acessível, Portugal fez fraca figura no Europeu de 2008 e deixou claro que a elite europeia, por onde tinha andado desde 2000, era uma utopia. Mas não deveria ser um drama, até porque é fácil constatar que a selecção francesa, carrasco preferencial dos lusos, vive na mesma situação sensivelmente desde então. Mas para os portugueses, sempre fáceis de ferir no seu orgulho, parece um insulto reconhecer a realidade. Não o é, até porque ser parte da elite, partir como favorito, sempre foi mais um handicaap para países pequenos do que propriamente uma bênção.

A falta de realismo de Paulo Bento é atroz e a sua reencarnação no espírito de José Torres deixa maus augúrios para um futuro. Sonhar com os pés no chão é algo que Portugal nunca soube e quando o máximo responsável pela selecção se arroga ao direito de que lhe deixem sonhar está a passar a mensagem sufragada pelos jogadores - de que Portugal pode repetir noites históricas no próximo mês de Junho. E, no entanto, pode tanto como qualquer outra das 16 equipas presentes e, sobretudo, pode muito menos do que aqueles que realmente vão ser o centro das atenções. Apesar de Cristiano Ronaldo, os lusos vão ser convidados secundários na festa de espanhóis, alemães, holandeses e italianos, seguramente os verdadeiros protagonistas. Portugal apresentará os seus problemas estruturais crónicos (falta de um guarda-redes e ponta-de-lança de nível máximo, falta de profundidade de um plantel que tem de recorrer a figuras secundárias de clubes de ranking baixo do campeonato espanhol em posições chave) e dependendo da fortuna do sorteio, pode dar-se por contente por ter participado. Afinal uma equipa sem um único criativo, uma equipa onde cabem jogadores tão medianos como Micael, Postiga, Almeida, Pereira, Patricio, Bruno Alves, Martins, Quaresma ou Rolando que pode fazer numa prova internacional que não possam fazer suecos, dinamarqueses, croatas, gregos ou russos, todos eles seguramente sem uma estrela mediática do nível de Ronaldo, mas com valores individuais seguros e um colectivo (e mais do que isso, uma estrutura táctica e mental) muito mais forte que a lusa?

 

Em 2008 a fortuna permitiu que o decadente projecto de Scolari se encontrasse com o grupo mais fácil do certame. A reedição do modelo de duplos cabeças de série pode reservar o mesmo destino, com Ucrânia e Polónia, Rússia e Inglaterra, Irlanda e República Checa como companheiros de viagem ideais. Mas tudo o que é bom acaba e será fácil entender que num hipotético Espanha-Alemanha-Portugal-França/Dinamarca, os lusos sejam os últimos de grupo. É essa a realidade que os 6-2 da noite de ontem já começaram a esconder em jornais, blogues e nas conversas de café. Onde ninguém vai perder tempo a entender o desajuste defensivo de Portugal no final da primeira parte, a falta de nervos de Patricio, a inépcia do jogo ofensivo dos laterais ou, sobretudo, a falta de opções de nivel quando o génio individual de Ronaldo-Nani não funciona. Em Portugal continua a pensar-se pouco futebol e por isso, para muitos, Junho pode ser um mês de frustrações quando devia ser um mês de celebração e festa. Hoje Portugal está num top 16 europeu, mas de pertencer ao top 4 passou a ser parte do último lote de quatro, por muito que o ranking da UEFA tenha sido mais amigo do que habitual. Querer criar uma sensação de vitória futura com base num só jogo é apenas poeira para os olhos de quem procura agarrar-se a algo no meio do lodo. Mas como os deuses gregos já provaram uma vez, o realismo no mundo da bola vem sempre ao de cima, por muito que doa.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:51 | link do post | comentar | ver comentários (20)

Quinta-feira, 10.11.11

poucos países que apelam tanto à veia nacionalista quando a bola começa a rolar sobre o terreno de jogo. Duas selecções que desde há 15 anos que vêm lançando a ideia de que estão perto de dar o salto para outro patamar mas que acabam sempre por escorregar no momento mais inoportuno. Há três anos e meio Croácia e Turquia disputavam um lugar nas meias-finais do Europeu de 2008. Agora um deles ficará de fora. E o outro fará da gesta mais uma demonstração de espírito nacional. Como em nenhum outro sitio.

O inferno turco é uma realidade que nenhuma equipa pode ignorar.

Para clubes e selecções viajar até ao ponto do união de dois continentes é um verdadeiro martírio. Não só pela qualidade futebolística - tremenda em alguns casos - mas sobretudo pelo ambiente que se recria, do vetusta Ali Semin ao espectacular Ataturk. Jogar na Turquia é jogar contra 72 milhões de pessoas. Uma nação que vive com um pé num laicismo contido e com outro num fanatismo religioso que utiliza o futebol como mais uma de muitas ferramentas para reforçar o cariz de união nacional. Como os alemães sabem, jogar com a Turquia é também jogar com a população turca espalhada por esse mundo fora - e na Croácia há bastantes - e com essa ideia de estado-nação que começa a fazer cada vez menos sentido no contexto dessas organizações plurinacionais que tanto estão na moda. A Turquia é provavelmente uma das potências futebolísticas com melhor futuro pela frente. E no entanto este mesmo discurso, por muito verdadeiro que o seja, já o temos ouvido desde há muito. Exceptuando 2002 - e a memorável campanha no Mundial - e o último campeonato da Europa - derrotados também nas meias-finais num dos jogos mais apaixonantes da prova - o futebol turco nunca registou grandes resultados. E dá sempre a sensação de ser capaz de algo mais. Algo que fica por dar.

O grito dos 72 milhões transforma os jogos em Istambul num verdadeiro inferno, numa parada militar imponente e assustadora, mas fora de portas os turcos continuam a ser uma selecção mentalmente frágil. É certo que cair no mesmo grupo que a Alemanha - hoje, a par da Espanha, a mais forte selecção do Mundo - é um sério handicaap, mas os tropeções dos otomanos deixaram quase até ao último dia a sensação de esperança para uma Bélgica reencontrada. E é essa ferida que o exército croata, essa milicia modriciana, vai tentar explorar.

 

Se os turcos roçam a histeria nacionalista, os croatas levam essa realidade a outros extremos.

País com 20 anos de vida, sofreram na pele a dureza de libertar-se da Jugoslávia e desde então agarraram-se como poucos países nos Balcâs a uma fervorosa paixão por eles mesmos, por uma nação historicamente real mas politicamente ainda muito tenra. O idealismo da extrema direita de Tudjman foi transportado ao futebol - o vermelho e branco axadrezado eram, sobretudo, as cores da bandeira do partido nacionalista que liderou a secessão - e à forma dos croatas entender o jogo e as performances da sua selecção. Tal como os turcos, a Croácia falhou a viagem à África do Sul por muito pouco e em 2008 foi diante dos otomanos que caíram, sem pena nem glória. Depois de uma fase de grupos de altíssimo nível, em que lograram arrebatar a liderança do grupo à finalista Alemanha, algo falhou na cabeça dos Modric e companhia nesse primeiro jogo a eliminar. E os velhos fantasmas voltaram para nunca mais abandonar o céu azul de Zagreb.

A Croácia surpreendeu os mais desatentos no Europeu de 1996 - esquecendo muitos que a maioria das estrelas da geração jugoslava de 1987 vinham do país do Adriático - e fez ainda melhor dois anos depois no Mundial de França, arrebatando um terceiro lugar que valeu para os croatas talvez mais do que o Mundial ganho pelos franceses. Significou, sobretudo, o sucesso de um projecto de nação diante do mundo. Os sucessivos fracassos até 2008 deixaram a sensação que aquele era um fenómeno pontual de uma geração inimitável mas quando Krankjcar juntou as jovens estrelas que deram forma à equipa que viajou à Suiça, um sentimento de esperança renasceu no coração de um país que faz de cada jogo uma batalha sem tréguas. Falhar 2012 para os croatas é um golpe mais duro do que se possa supor.

A nação croata continua a sonhar com a sua integração europeia - tal como os turcos - e o sucesso desportivo é o atalho mais próximo para lográ-lo segundo a opinião generalizada. A presença do Dynamo Zagreb na fase de grupos da Champions League despertou o futebol croata de clubes de uma longa letargia e agora muitos esperam transportar esse momentum para o sucesso da equipa nacional. Durante quatro jornadas os croatas estiveram perto de assegurar o apuramento directo mas nas horas finais claudicaram diante da Grécia de Fernando Santos. 180 minutos serão muito longos mas também são a última esperança para não cair no esquecimento.

 

Pensando que selecções com muito menos qualidade individual como a Irlanda vs Estónia ou a República Checa vs Montenegro irão lograr dois lugares num torneio onde certamente quer croatas quer turcos irão fazer muita falta deveria obrigar a UEFA a rever de uma vez por todas os seus critérios de selecção para play-offs como este. Já se sabe que a partir de 2016 o Europeu será muito mais acessível a qualquer nação mas é curioso pensar que a Irlanda tenha uma posição como cabeça de serie - mais pelo drama criado à volta da polémica mão de Henry há dois anos - e uma selecção com registos notáveis como os turcos sejam relegados para um sofrimento talvez desnecessário. Nenhuma das oito selecções merece passar por este suplicio, mas talvez as duas equipas que mais mereciam estar na Ucrânia e Polónia tenham de se matar, qual gladiadores, num combate à morte. A bem da (respectiva) nação!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:42 | link do post | comentar

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