Quarta-feira, 14.11.12

Numa era em que os analistas mais progressistas teimam em querer enterrar o ponta-de-lança, como fizeram no passado com os extremos e os criativos puros, novas versões da velha espécie teimam em desmentir a filosofia de que o falso-nove, uma invenção de sessenta anos, é o futuro. Javier Hernandez e Edin Dzeko vivem a poucos quilómetros de distância um do outro. Mas no terreno de jogo partilham a mesma habitação. E sabem como fazer dela a mais aconchegante da casa. A sua, a do golo.

 

A contratação de Robie van Persie parecia condenar Hernandez ao esquecimento. 

O mexicano viveu, há duas épocas, uma explosão prodigiosa no ataque do Manchester United, relegando o milionário Dimitar Berbatov para o esquecimento definitivo de onde nunca mais saiu. Foi o homem dos golos definitivos, especialmente quando a chama de Rooney se apagou. Mais do que uma vez.

Chicharito, diminutivo de quem ama o golo (chicharro é golo em vernáculo popular espanhol), tornou-se sinónimo de triunfos épicos naquela escola que tanto apaixona o futebol inglês. Relembrou as gestas de Fairclough, do Liverpool, de Solskjaer, do United, homens que saiam do banco para tratar por tu as redes adversárias. Ele era e ainda é o símbolo de uma nova geração de um país que está destinado a grande voos. E no entanto, nem Ferguson nem os analistas pareciam confiar nele de forma evidente para dar-lhe a titularidade absoluta do gigante de Manchester. Não era o avançado móvel tão em voga, como todos os predadores, vivia de séries positivas e negativas e no futebol actual não há margem de erro. E no entanto estava aí, a responder com golos às dúvidas dos próprios e estranhos. Este ano, a chegada de van Persie podia ter sido o seu fim. O holandês tem respondido com golos, desmarcações e movimentações que agradam a quem se apaixonou por Hidgekuti ou Rivelino reconvertidos em Messi ou Fabregas, como se o nove e meio fosse coisa do hoje e do amanhã. Não é. E os grandes goleadores não desapareceram por completo. Hernandez tornou-se no abono de família do Manchester United no último mês. 

Os golos do mexicano permitiram ao clube trepar até ao primeiro lugar da Premier League, de forma isolada, e ajudaram a garantir o apuramento directo para a próxima fase da Champions League, sem o sofrimento de outros anos e as eliminações precoces como na época passada. Com Rooney cada vez mais reconvertido a falso número 10 (ou 8, como queiram) a partir desde o meio-campo para estabelecer a ponte com o ataque, o mexicano vai aproveitando os minutos e os espaços para deixar a sua marca. Não é nem será titular na cabeça de um homem, como Ferguson, que sempre quis avançados velozes como Hughes, Cantona, Cole, Yorke, van Nistelrooy, Tevez, Rooney e van Persie. Mas cada vez mais prova que é um jogador que pode ser titular absoluto em qualquer equipa do Mundo.

 

Do outro lado da cidade, o lado azul celeste, há um homem que entende o mexicano à perfeição apesar de vir do frio dos Balcãs para o céu cinzento mancuniano. Edin Dzeko é a versão citizen de Hernandez, o goleador absoluto dos momentos desesperados, o homem que parece não ser contabilizado como primeiro opção numa linha de ataque onde os nomes próprios - Aguero, Balotelli e Tevez - correspondem a esse arquétipo moderno do avançado móvel e todo terreno. 

Dzeko pode ser mais previsível, o seu jogo mais físico e posicional, a sua influência no comportamento do colectivo menos evidente. Não desce tanto a fechar linhas, não exerce as mesmas diagonais a meio-campo mas inspira terror em qualquer defesa contrária. Por quatro vezes este ano saiu do banco nos últimos dez minutos e ajudou o City a dar a volta ao marcador e a garantir doze pontos que mantêm os campeões vivos na luta pela renovação do título histórico logrado na época passada. Um título com o seu selo, com golos importantes nas segundas partes onde Mancini perdia a fé nele mesmo e deixava tudo nas mãos de Deus, da sorte e Dzeko.

O bósnio demonstrou na Bundesliga que é um dos melhores avançados puros do Mundo. A sua transferência para Manchester fazia sentido mas encontrou-se com a fome exagerada de uma equipa que prefere contratar primeiro e pensar depois. O overbooking ofensivo, com quatro jogadores de excelência, causou danos colaterais. Dzeko foi o primeiro. Talvez tenha o melhor ratio de golos e minutos do futebol europeu, talvez seja um dos avançados mais importantes nas vitórias agónicas da sua equipa, mas acaba sempre relegado para quarta opção. Ele é o herdeiro de Nial Quinn, o homem dos golos decisivos, o goleador em quem os adeptos sabem que podem confiar quando mais ninguém salva a pátria. 

Como Hernandez, o bósnio é exemplo de uma velha raça que ajudou a fazer do futebol um espectáculo de golos. Quando a história comemora os feitos dos homens que decidem os jogos com os seus gestos implacáveis, que cheiram o sangue e o medo dos rivais, seguramente terá sempre um espaço para lembrar-se homens como Edin e Javier, goleadores puros que resistem à passagem do tempo e ás modas para demonstrar que a beleza do futebol parte também da sua pureza e simplicidade absoluta. 

 

A linguagem do golo tem muitas entoações distintas e a imensa variedade de tipos de dianteiros ajudou o jogo a crescer e a aperfeiçoar-se. Mas o nascimento - ou redescoberta - de novas posições não deve, à partida, significar a extinção de outras. Os goleadores puros serão sempre fundamentais na concepção de qualquer plantel e os êxitos recentes de Dzeko e Hernandez apenas significam que o nove saberá sempre encontrar formas de se reinventar.



Miguel Lourenço Pereira às 12:44 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Quarta-feira, 24.10.12

Os sinais estão lá mas a aura de grandeza dos Red Devils tem impedido de ver aquilo que os ingleses chamam de "big picture". Desde há quatro épocas para cá, o clube mais simbólico do futebol britânico dos últimos 20 anos tem caminhado para uma decadência profunda e quase inevitável. A exibição do Sporting de Braga, meritória, não é caso único e coloca definitivamente em cheque a importância do mítico "Teatro dos Sonhos" como campo impenetrável. Os sonhos do maior estádio inglês vão a caminho de se tornar, progressivamente, numa ressaca para os adeptos do Manchester United.

Não era só o resultado. Era o jogo. Sobretudo o jogo.

A exibição do Braga na primeira parte, ontem, em Old Trafford, pode não ser uma novidade para os arsenalistas. Cada vez mais habituados a sacar a sua melhor versão na Europa, os homens de José Peseiro foram fieis à sua ideologia e mantiveram o jogo debaixo do seu controlo. Até que a sua defesa, o calcanhar de Aquiles deste projecto, deixou de aguentar as investidas do rival e deitou por terra um excelente trabalho colectivo. Mas os adeptos daquele que é, a par de Barcelona, o clube mais importante do futebol europeu das últimas décadas, começam a habituar-se a cenários como este. Cenários que, no passado, eram impensáveis.

A fortaleza do United de Ferguson sempre esteve em Old Trafford. O clube apresentava em casa a sua melhor e mais espantosa versão deixando, progressivamente, o seu cinismo e sofrimento para os jogos fora. Mas esse cenário de superioridade absoluta, capaz de enervar o mais duro dos rivais, progressivamente tornou-se lenda, mito. Distanciou-se da realidade de um clube que, desde 2009, entrou numa depressão profunda da qual não consegue encontrar o caminho certo.

A final de Roma, que terminou com o ciclo britânico e apresentou ao mundo o Barcelona de Guardiola, foi o ponto de inflexão. A este Manchester faltava-lhe a sorte que tinha tido na época anterior, quando mais precisou. Venceu a Premier mas com serviços minimos e muito sofrimento e na final europeia que serviu de troca de testemunho, dominou os primeiros 20 minutos para depois desaparecer. E ser engolido num pesadelo sem fim. Desde então voltou a vencer apenas por uma vez o título inglês, preso entre os titulos de Chelsea e Manchester City, e voltou a defrontar o Pep Team numa final europeia. Foi uma das piores noites da carreira de Ferguson, liderando uma equipa montada dos pés à cabeça a pensar no rival - algo que tem sido cada vez mais evidente à medida que o escocês vai envelhecendo - e destroçada com uma facilidade inusitada. Tentou vender-se a noite como uma mudança de guarda mas na época seguinte foi a Scholes a quem pediu ajuda e foi de Giggs que puxou nos momentos determinantes. O sinal estava dado.

 

Se ontem o Braga humilhou futebolisticamente durante meia-hora ontem, trocando a bola com uma fluidez e confiança no meio-campo composto por Viana-Micael-Amorim que não se é capaz de ver com a camisola vermelha de Old Trafford, a exibição do Tottenham, há duas semanas, foi ainda mais evidente porque aí a defesa não falhou e aguentou a investida a quem Ferguson recorre nos momentos de aperto.

E mais do que isso, o jogo memorável do Bilbao de Bielsa na época passada, o jogo que confirmou que as equipas de escalão médio europeu já não têm porque ter medo dos Red Devils. O Basel e Cluj já o tinham demonstrado recentemente, mas venceram combates equilibrados. O Bilbao foi imensamente superior durante 90 minutos como o Tottenham foi durante 60 e o Braga durante 40. Quando antes ninguém podia presumir, salvo contadas excepções, de ser tão superior a uma equipa como o Manchester durante mais de um quarto de hora consecutivo.

Ferguson tem sido incapaz de operar uma quarta geração depois de ter transformado a equipa de Whiteside e Robson na de Cantona e da geraão de 91, depois de ter trocado Beckham e a dupla Yorke-Cole por van Nistelrooy e Cristiano Ronaldo, Rooney e Tevez. A chegada de Robbie van Persie traz golos mas não jogo e Kagawa não encontra o seu sitio num esquema que muda regularmente de um 4-5-1 a um 4-3-3 para acabar num 4-4-2 losango, como o de ontem, com Rooney como falso número 10 no apoio a um avançado mais móvel (van Persie) e um mais fixo (Javier Hernandez). No ataque, os Red Devils não se podem queixar, mas a partir de aí os problemas multiplicam-se.

A defesa de circunstância habitual espelha a incapacidade de Ferguson de renovar a Evra, Ferdinand e um Vidic a quem os problemas fisicos se multiplicam. Rafael tem-se imposto na primeira equipa com surpreendente autoridade mas é uma lufada de ar fresco numa linha envelhecida e sem ideias, sem garantias e incapaz de aguentar o peso da camisola. No meio-campo os problemas são mais sérios.

Primeiro porque a Ferguson faltam as ideias. Não sabe a que jogar, não sabe com que esquema e modelo de jogadores apostar. Cleverley, Fletcher, Carrick apresentam ideias totalmente opostas às de Kagawa ou Anderson e a utilização de Giggs, Scholes e até Rooney, no miolo, deixa claro um problema de criatividade e organização que tem sido um problema desde 2008. Contra o Braga o técnico abdicou dos extremos (tem Young, Nani, Valencia, Wellbeck, Giggs) mas mesmo assim o miolo esteve sempre descoordenado e fora de acção e foi precisamente com o movimento de extremos que a equipa conseguiu dar a volta demonstrando que o seu ADN continua a exigir um estilo de jogo onde o meio-campo é deixado para segundo plano.

 

O orçamento gigantesco, a qualidade individual de muitos dos seus elementos e o génio, cada vez mais inconstante, de Ferguson, podem ser suficientes para os Red Devils continuarem a disputar o título inglês e europeu até Maio. Mas cada vez parece mais evidente que o clube de Manchester baixou, e muito, face a uma versão sua que não tem mais de quatro anos. A eliminação precoce na época passada, a pior versão de Ferguson na época passada, no entanto deixam sinais que noites como a de ontem só reafirmam. A pouco e pouco, Old Trafford vive uma profunda e progressiva decadência que transformará o Teatro dos Sonhos, como um dia lhe chamou Bobby Charlton, num campo com algum que outro pesadelo difícil de esquecer. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:21 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 23.09.12

Um dia de emoções fortes no futebol inglês. Dois jogos entre equipas de nome, prestigio, orçamento e plantéis dignos de potências europeias e que acabarão por disputar entre si os primeiros postos da tabela classificativa. Uma tarde onde a qualidade do futebol foi equiparada pela emoção do resultado e, sobretudo, um dia que deixou claro que a emoção que a Premier League é capaz de gerar não tem ainda rival à altura no panorama internacional.

 

Em Anfield sentiu-se a emoção do momento. Em Manchester a guerra psicológica entre duas ideias bem distintas.

Dois velhos rivais deram as mãos em nome de um passado sangrento e finalmente purificado ao som do You´lle Never Walk Alone. As mãos de Evra e Suarez encontraram-se sem problemas, os adeptos cantaram com mais força do que nunca e o espectáculo foi digno dos grandes duelos entre as duas equipas mais bem sucedidas da história do futebol inglês. 

O resultado foi o grande desgosto dos filhos da Kop. Mas o futebol esteve do seu lado. Não só o Liverpool jogou melhor que o Manchester United como mereceu claramente um triunfo que se lhe escapou e que os atira, de forma inapelável, para a parte final da tabela classificativa. A expulsão de Shelvey, discutível, determinou o rumo de um jogo até então dominado pelos homens de Brendan Rodgers. Se o Man Utd tinha deixado pobre imagem nos primeiros jogos da época, em Anfield confirmou-se que a equipa de Ferguson não está fina.

Um imenso buraco no meio-campo onde Carrick e Giggs eram incapazes de ditar os tempos, deixando Kagawa demasiado só, atados pelo esquema mais dinâmico do novo técnico do Liverpool. Um buraco que nunca se tapou, nem sequer com a entrada de Paul Scholes, e que em jogos mais exigentes pode custar caro a um Ferguson que apostou forte no mercado para fazer-se com os serviços de van Persie e que, pelo menos aí, tem visto a sua aposta funcionar. Cinco jogos, cinco golos para o holandês. O segundo de hoje, de penalty, num lance igualmente discutível, resolveu um jogo que o Liverpool não só dominou como começou por vencer, com um golpe de Steven Gerrard preciso. Um remate colocado e inesperado de Rafael e o tal polémico penalty perto do fim, deram um ar de engano a um marcador final que não faz justiça a uma equipa onde se nota a juventude mas também a vontade de crescer. Os adeptos reds só têm de acreditar e dar tempo a Rodgers, a matéria-prima começa a dar os seus frutos, pensando sobretudo no excelente jogo de Sterling, Allen e Borini.

 

Em Manchester, a vitória do grande rival dos Citizens obrigava a Mancini a vencer para não perder o comboio dos lideres - o triunfo de um Chelsea intenso manteve-os isolados na frente da tabela - e ao mesmo tempo, afastar-se de um Arsenal com um arranque de temporada inesperadamente positivo, face às baixas no plantel de van Persie e Song.

Como em Anfield o favorito jogou pior, esteve perto de vencer de forma injusta mas aqui, o destino foi mais simpático com Wenger e permitiu-lhe manter-se par a par com os homens do dinheiro fácil, como os acusa de forma regular. Os milhões do plantel do City não souberam lidar com uma equipa com um orçamento francamente mais baixo mas futebolisticamente igual de perigoso. As movimentações de Cazorla e Ramsey descoordenaram o meio-campo dos homens da casa e a bola parecia sempre mais cómoda nos pés dos gunners.

Mas como sempre parece acontecer, o City encontrou-se com um desses lances de bola parada que tão bem sabe rentabilizar. A ajuda de Manonne, o oportunismo de Lescott e a passividade da defesa do Arsenal fizeram o resto e um golo caído, literalmente, do céu, obrigou o Arsenal a acelerar ainda mais e o City a jogar o seu estilo de jogo preferido, de gato e rato, de golpe e contra-golpe. Um jogo onde se sente francamente cómodo e que lhe permitiu aproximar-se com mais perigo da baliza rival do que tinha logrado antes do golo. 

Foi nessa vertigem ofensiva que um Arsenal voluntarioso mas quase sempre trapalhão encontrou a justiça nos pés de Koscielsny e com esse golo manteve igualada a posição na tabela com os pétrodolares do City, se bem que a uma distância já considerável dos homens de Roberto di Matteo, autores de um arranque de época perfeito.

 

A Premier arranca com alguns dos clássicos já disputados e com a certeza de um ano intenso com vários candidatos ao ceptro do Manchester City. Nem o Arsenal se encontra tão mal quanto se podia prever nem os pontos de United deixam de esconder as suas debilidades futebolísticas. Se ao Liverpool há que dar tempo para por em prática as ideias de Rodgers, tanto Newcastle como Everton têm dado sensações positivas que poderão confundir um pouco mais as contas até ao final da temporada.



Miguel Lourenço Pereira às 19:39 | link do post | comentar

Domingo, 09.09.12

O gesto. A raiva tranquila, o movimento de corpo, a colocação da bola. Uma bola que nos seus pés respira com calma, sente-se segura, fecha os olhos e voa. Durante uma década foi um dos melhores jogadores do Mundo, ano sim, ano também. Talvez por ser o menos egoista das estrelas, o menos mediáticos dos astros, falhou sempre nas corridas aos prémios individuais mas ninguém dúvida que entre os grandes da história do jogo e, provavelmente, no pódio do mais grande do futebol gaulês está uma gazela chamada Thierry Henry.

Acreditemos por um segundo que se podem comparar épocas, se podem comparar equipas, rivais, colegas, jogadores, bolas, terrenos, estádios, que tudo vale o mesmo e é igual aos olhos dos adeptos. Enfim, que se pode jogar ao jogo do "maior de sempre", uma expressão que sempre dá comichão aqueles que, como eu, acreditam que o futebol é feito de evolução mas que essa evolução não significa, forçosamente, que o presente é melhor que o passado sempre e que há coisas que, pura e simplesmente, são incomparáveis.

Mas joguemos o jogo por um breve instante e olhemos para a história do futebol francês.

Um país entre os mais desportistas do mundo mas que sempre olhou desconfiado para o futebol, desde a sua génese. Jogo de ingleses, e portanto jogo a evitar, jogo de proletários e, portanto, desprezado por uma burguesia que sempre preferiu o ténis, os desportos automobilisticos ou o ciclismo, o futebol em França não deixa de ser uma religião mas acaba por ser um credo mais alternativo do que estabelecido. Ao contrário dos ingleses, os franceses respeitam mas não veneram, vibram mas não perdem a cabeça e bailam ao som do triunfo e desligam o monitor na hora da derrota sem pestanejar. Nesse cenário houve poucas equipas gaulesas que passaram à posteridade. Mas jogadores, jogadores nunca faltaram.

De Ben-Barek, o astro de origem marroquina dos anos 30, a Frank Ribery e Karim Benzema, passaram oitenta anos de muito talento e magia. Dentro dessa lista de génios, a opinião pública sempre se dividiu em dois nomes: Michel Platini e Zinedine Zidane. 

São eles os mais galardoados, os mais aplaudidos, os mais venerados dos jogadores franceses. Entre eles estão cinco Ballon D´Ors, dois Europeus, um Mundial e duas Champions League. Coisa pouca. Mas pessoalmente, e só porque desta vez jogamos o jogo, não encontro aqui nem o primeiro, nem o segundo melhor jogador de um país que também foi o de Just Fontaine, de Raymond Kopa, o de Alain Giresse, o de Jean Tigana, o de David Ginola, o de Didier Deschamps, o de Robert Pires, o de Dominique Rocheteau ou o de Jean-Pierre Papin. Nomes no entanto que vivem na sombra de dois génios que conheceram em Inglaterra o reconhecimento que o resto do Mundo nunca lhes quis dar: Eric Cantona e Thierry Henry.

 

Se de Cantona, provavelmente o jogador mais icónico do futebol britânico moderno, falamos e voltaremos a falar, que se pode dizer de Henry.

Para muitos sugerir que Henry é mais do que Zidane pode ser blasfémia. E ninguém é dono da verdade para dizê-lo ou não. Mas o médio que foi da Juventus e do Real Madrid depois de ter sido do Cannes e do Bordeaux, genia lcomo poucos, nunca despertou a mesma sensação de prazer supremo que Henry naqueles que seguiram a sua trajectória londrina com paixão.

Henry é provavelmente o jogador gaulês mais completo de sempre. Foi sem dúvida o melhor jogador da Premier durante a última década (como o foi Cantona na década de 90), o mais laureado por jogadores e imprensa, o mais amado pelos adeptos neutrais, incapazes de aceitar o estilo de Cristiano Ronaldo, os golos de Michael Owen ou os tiros de Frank Lampard ou Steven Gerrard como algo por encima do génio supremo do gaulês. Henry marcava com a mesma facilidade que assistia. Podia ter sido um goleador ainda maior, atingir números muito mais próximos dos que hoje apresentam Ronaldo e Messi, não fosse também um jogador profundamente colectivo, um rei de assistências, um iniciador de lances tão bom como os que finalizava. Com frieza, com raiva, com classe.

Henry começou debaixo da asa de Arsene Wenger no Monaco e explodiu sob o seu comando. Pelo meio uma etapa para esquecer em Turim, ao serviço da Juventus. Foi daí que o técnico alsaciano o recuperou e deu-lhe o lugar que era de Nicolas Anelka, recém-vendido ao Real Madrid. À sua volta construiu uma equipa inesquecível, com Bergkamp, Pires, Ljunberg, Vieira e Wiltord. E deu-lhe a liderança do seu projecto. Liderança que Henry exerceu sem autoridade mas com um magnetismo profundo. 

Faltou-lhe a Champions que ganharia em Barcelona, já na sua etapa decadente, mais pelos problemas fisicos do que pelo génio que nunca perdeu, e faltou-lhe sobretudo o Ballon D´Or. Incompreensivelmente perdeu-o em 2000 para o seu amigo Zidane e em 2004 para Schevchenko. Mas nunca perdeu o amor dos adeptos neutrais, para não falar dos gunners, deliciados com o seu serpentear, os seus livres directos imparáveis, o seu golpe de cabeça autoritário, os toques de calcanhar que do nada davam golo, os seus passes impossíveis, as suas mudanças de velocidade maradonianas e, sobretudo, o seu passeio elegante sobre o relvado como se de um semi-deus se tratasse. 

 

Thierry Henry pertence a uma casta de jogadores que são apreciados no presente e que ganharão contornos de mito à medida que os anos passem e os adeptos revejam as suas obras de arte com outros olhos. Se já no seu prolifero periodo activo sempre dava a sensação de disputar mano a mano o titulo honorifico de melhor do mundo com jogadores muito mais mediáticos, hoje continuamos sem encontrar jogadores que tenham pegado no seu testemunho e ido mais longe. Henry pode não ser um icone global, por mil e um motivos, como foi Cantona. E pode não ter os prémios de Platini e Zizou. Mas olhando para trás e olhando para hoje é impossível dizer, jogando a esse jogo maldito, que algum deles possa fazer sombra a um Thierry que define, com o olhar, o que significa a palavra futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 20:52 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quinta-feira, 30.08.12

Os prémios individuais em desportos colectivos são sempre dificeis de justificar. O mediatismo de um individuo supera sempre o trabalho de um todo e o glamour de um troféu ajuda a definir o contorno de uma carreira. No caso de jogadores que jogam debaixo dos focos, surgem sempre como uma curiosa surpresa. Mas nenhum jogador, entre o trio eleito, merecia mais o troféu de jogador europeu do ano do que don Andrés, o malabarista manchego.

Iniesta não tem o perfil de vencedor de prémios.

Vende poucas camisolas, não gera uma especie de palpitação única no coração das mulheres e não inspira, precisamente, os mais novos a ser como ele. Calado, branco como nenhum outro filho do calor de Albacete, cabeça baixa, está para o futebol moderno como outros gentlemans do passado estiveram para os grandes nomes da sua era. Mas por cada Messi, estrela global em todos os sentidos, está sempre um Iniesta. E há quem arrisque, ás vezes como se fosse pecado, a dizer em voz baixa que talvez o lado humilde do espelho seja maior do que o lado mediático. No caso de Iniesta, poucos duvidam.

O médio espanhol é o herdeiro natural de Zinedine Zidane. O francês também demorou largos anos a habituar-se ao protagonismo. Em Bordeaux e Turim já exibia todo o seu talento, já vencia competições nacionais e internacionais, já liderava a sua selecção à glória suprema. Mas, de certa forma, ainda vivia longe da imagem de glamour que herdou com a camisola 5 quando Florentino Perez fez dele o seu segundo Galáctico. Se os melhores anos da sua carreira foram os passados na Juve, a memória colectiva lembra-se dele de branco ao peito, essa associação de um clube e projecto mediático ao seu ser tranquilo e longe de qualquer suspeita. Iniesta seguiu-lhe as pisadas. Começou por baixo e sofreu as duras penas de ser suplente de um Deco estelar na sua chegada ao Camp Nou. Foi encontrando, a pouco e pouco, o seu espaço no projecto de Rijkaard mas, como dizia Guardiola, o manchego estava destinado a outros voos.

Pep tinha dito a Xavi que este seria o responsável pela sua reforma, mas que Iniesta os acabaria por superar aos dois. Partindo do principio que Xavi Hernandez já não voltará a vencer um troféu individual depois de três anos a bater à porta, mediaticamente o Mundo partilha da ideia do ex-técnico blaugrana. Se o AC Milan de Sacchi viu Gullit e van Basten vencerem o Ballon D´Or, agora é o Barcelona do projecto guardilesco que tem em Messi e Iniesta duas estrelas premiadas a ouro.

 

Há quem diga que troféus como este pecam pela dificuldade do adepto em perceber o que realmente se premeia.

Se um ano natural concreto, se uma temporada, se uma carreira, se o talento puro e genuino ou se um evento marcante em que um jogador deixou a sua marca. O desaparecimento do FIFA Award e a posterior fusão com o Ballon D´Or da France Football trouxe ainda mais confusão porque afastou os jornalistas do papel de protagonistas, à hora de votar, e entregou aos capitães e seleccionadores do mundo o poder de decidir. É dificil de compreender a decisão porque a principal consequência, como se viu em 2010 com a ausência de Wesley Sneijder do pódio, centra-se na excessiva mediatização do prémio. Por esse mundo fora serão sempre os jogadores mais mediáticos, leia-se Messi e Ronaldo, a somar mais votos simplesmente porque são aqueles que o Mundo realmente conhece de memória. Votar em Falcao, Drogba, Xavi ou Casillas torna-se num problema quando se pode eleger, ano atrás ano, entre o argentino e o português.

Michel Platini, num gesto oportuno, daqueles que domina bem como fazia com a bola nos pés, aproveitou o vácuo deixado pela publicação francesa e juntou de novo a imprensa que o coroou como o primeiro jogador a vencer 3 Ballon D´Ors consecutivos para um novo prémio. Um prémio que relembra a ideia inicial da France Football, com a introdução de jogadores não-europeus (que impediu Pelé e Maradona de vencer uns quantos troféus), como alternativa lógica. Ainda não tem, se é que alguma vez terá, o peso mediático da Bola de Ouro, mas a ideia é louvável. 

Que o vencedor de este ano seja Andrés Iniesta contribui, ainda mais, para abrir essa terceira via.

Lionel Messi é o jogador mais espectacular do Mundo. Se o talento puro fosse o único condicionante, provavelmente o argentino iria vencer ano sim, ano também. Mas Messi, dentro de toda a sua grandeza, já venceu dois prémios da France Football sem merecê-lo e não viveu em 2011/12 o seu melhor ano individual. Cristiano Ronaldo, que vive amargado na sombra do argentino, ficou duas vezes à porta da glória. Penaltys fatidicos, um falhado e outro que nem se atreveu a marcar, que ditaram o seu destino. Tivesse o Real Madrid vencido a Champions League ou Portugal eliminado Espanha e ninguém questionaria o seu triunfo. Mas a hora de Iniesta tinha de chegar.

Foi o melhor jogador espanhol do Europeu. Foi um dos melhores jogadores do Barcelona durante a época, carregando tantas vezes com a equipa às costas quando o Real Madrid fugia na tabela classificativa e contra o Chelsea o seu desaparecimento condenou os blaugrana a uma derrota inesperado. Podia tê-lo ganho em 2010. Podia tê-lo ganho em 2011. Venceu em 2012 e não há uma voz no mundo que se alce indignada.

 

Iniesta é o herói humilde do jogo de todos. Não tem a preparação fisica de Cristiano Ronaldo e o espirito potrero de Messi. Mas tem a magia do futebolista tranquilo. O conhecimento táctico que lhe permite ler os jogos como nenhum dos outros dois é capaz. Lidera desde o silêncio e decide jogos decisivos com a frieza dos maiores. Desde Zidane que nenhum jogador do seu perfil tinha chamado a atenção do Mundo, nesse imediatismo voraz de procurar o espectáculo pelo espectáculo, o golo pelo golo. O espanhol é filho da escola que, mais do que os artistas individuais, ajudou o mundo do futebol a crescer, a fazer-se popular, a fazer-se arte. Iniesta nasceu para triunfar. Finalmente o Mundo parece ter-se dado conta.



Miguel Lourenço Pereira às 15:26 | link do post | comentar | ver comentários (27)

Domingo, 19.08.12

O futebol inglês encerrou esta semana um ciclo de 15 anos da sua história. Um ponto final surpreende, pelo simbolismo, mas evidente pela forma como a competição se foi adaptando a uma nova realidade de novo-riquismo que domina a elite da Premier League. A mudança de Robbie van Persie de Londres para Manchester não é apenas uma das transferências do ano. É a primeira mudança de um jogador do Arsenal para o Man United em 25 anos. É a transferência que termina, oficialmente, com uma época em que os gunners olhavam de igual para igual aos red devils. Durante quinze anos dividiram o protagonismo da prova. Agora competem em universos distintos.

 

Alex Ferguson voltou a levar a melhor sobre Arsene Wenger. Mas a vitória tem agora um sabor diferente. 

O francês já não é o seu rival. Já não é o alvo a abater, já não está nas principais da Bwin para o título. E já não é a sua principal preocupação. Quando Wenger chegou a Highbury Park da liga japonesa, em 1996, o Manchester United de Ferguson estava a consolidar o seu dominio na Premier League, conquistando o quarto titulo em cinco edições, apenas suplantado por uma ocasião pelo Blackburn Rovers. Nos 15 anos seguintes o único clube capaz de desafiar de forma regular os homens de Old Trafford eram liderados, precisamente, por Wenger. 

Até à chegada de Abramovich ao Chelsea, dividiram todos os títulos principais do futebol inglês. Depois do hiato de dois anos do Chelsea - liderado por José Mourinho - voltaram a ser os principais rivais na prova. Mas o dinheiro injectado pelo russo nos londrinos de Stanford Bridge e a chegada do sheik Al Mansour ao Manchester City foram acabando com o duopólio. O Big Two passou a Big Four, então com o Liverpool e mais tarde com o City a fechar o poker de clubes que podiam aspirar ao titulo da Premier. Mas sem dinheiro - devido à aposta do clube em fazer do Emirates Stadium uma nova fonte de ingressos a curto prazo - e perdendo as suas estrelas, de alguma forma Wenger conseguia estar sempre aí. O seu Arsenal nunca terminou abaixo do terceiro lugar desde a sua chegada. Nunca falhou a fase de grupos da Champions League, prova maldita para o gaulês. E nunca cedeu à tentação de render-se às investidas de Ferguson.

Wenger preferiu perder Nasri para o Manchester City, Fabregas para o Barcelona e Cole para o Chelsea antes de os vender a Ferguson. Com o escocês travou mais do que batalhas ideológicas e dialécticas. Até à chegada de Mourinho os dois monopolizaram o império mediático da Premier. Depois da saída do português afastaram-se ainda mais. Na hora da verdade Wenger confessou que tentou tudo para não perder o jogador holandês para o Manchester United. Mas desta vez não teve alternativa. E fechou-se um ciclo histórico.

 

Com Van Persie o escocês conseguiu o que queria.

Acabou com um rival directo de forma definitiva. Parece evidente que hoje o titulo inglês é questão de três, de três clubes com poderio financeiro suficiente para aguentar esta corrida ao armamento que terá, mais tarde ou mais cedo, outros danos colaterais. O Liverpool foi o primeiro e agora definha nos últimos postos europeus, depois de ter sonhado alto com Rafa Benitez. O Chelsea sofreu-o na pele e só o triunfo na Champions League despertou a vontade de Abramovich de contrariar uma tendência recente e volta a injectar sangue novo - pago a peso de ouro - no clube.  E agora o Arsenal, vitima de uma politica louvável mas que o está a afastar, progressivamente, dos títulos. O clube é o porta-estandarte do programa Fair Play da UEFA mas no terreno de jogo a sua aposta em manter uma massa salarial controlada e um gasto em transferências que não aumente o passivo do clube teve um duplo efeito negativo. Não só afastou os gunners dos títulos como levou os seus principais jogadores a procurarem o dinheiro e os troféus nos seus rivais mais directos. 

Wenger não joga num jogo limpo e sabe-o. Manter-se fiel à sua filosofia é louvável mas suicida e agora o técnico sabe que o máximo que pode aspirar é repetir a enésima presença na Champions League num duelo quente com Tottenham, Liverpool e Newcastle, equipas cujo o orçamento e gastos em transferências se equipara ao dos londrinos. A anos-luz estão os outros, os homens dos títulos.

O United tem lidado com o grave problema de resolver aos Glazer a sua própria divida e isso tem sido um grave handicaap nos últimos anos para Ferguson. A formação do clube não tem dado os frutos esperados a curto prazo, a maioria dos jogadores contratados são jovens de potencial e a necessidade de recorrer cada vez mais à velha guarda é evidente. Este defeso foi um passo fundamental para mostrar que o clube está ainda no topo. A chegada de Van Persie para unir-se no ataque com Wayne Rooney equivale em importância moral ao "roubo" de Eric Cantona ao Leeds United, então rival directo dos Red Devils na Premier. Com o japonês Kagawa a dar ao meio-campo a classe que faltava, espera-se este ano um Manchester mais agressivo, eficaz e autoritário. Uma equipa montada a longo prazo para aguentar os gastos loucos do Manchester City - que continua a ser o grande favorito - e de um Chelsea rejuvenescido a peso de ouro. 

 

Apesar das chegadas de Giroud, Cazorla e Podolski, o Arsenal sai claramente desfigurado deste negócio. Baixou oficialmente um degrau e deixou de ser uma equipa a contar na luta pelo titulo, mesmo que nos últimos anos isso tenha sido sempre uma miragem. Os próximos anos da Premier vão definir-se sobretudo à volta dos clubes com dinheiro vivo e sobreviverá aquele que melhor aguente a concorrência. O grande trabalho de Wenger será agora evitar que o Arsenal repita o exemplo do Liverpool e se mantenha a uma distância saudável do pódio, esperando algum deslize. Talvez assumindo definitivamente que a Premier é outro cantar possa o técnico finalmente focar-se na Champions League e ganhar o único troféu que lhe falta, aquele que mais tem merecido e que sempre se lhe tem escapado. O Chelsea e o Liverpool lograram-no nas horas mais baixas. Quem impede o Arsenal de seguir pelo mesmo caminho? 



Miguel Lourenço Pereira às 00:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 12.08.12

Foi o homem que marcou o golo decisivo que confirmou o regresso do West Ham United à Premier League. Oito anos depois de estrear-se na máxima competição inglesa, o avançado português está de regresso para provar definitivamente o seu valor. Foram oito anos de expectativas, desilusões para mergulhar agora numa ressurreição inesperada.

 

Foi colega de equipa de Nani no Real Massamá mas a carreira de ambos mudou radicalmente no dia em que o Sporting contratou o actual extremo do Manchester United enquanto Vaz Tê preferiu marchar para Inglaterra e assinar com o Bolton Wanderers. Prometeram fazer dele uma estrela, um sonho que qualquer jovem alimenta. Que dizer de um rapaz que aos dois anos deixou Lisboa para viver na Guiné-Bissau de onde o pai era natural e que aos 11 anos voltou à capital portuguesa, passando as horas com a bola nos pés no cimento frio dos subúrbios da cidade. O Bolton oferecia-lhe mais do que o clube leonino e à primeira vista parecia a melhor opção. Mas não foi.

Enquanto Nani amadurecia em Alcochete, até se tornar num dos melhores jogadores portugueses da década, Vaz Tê passou de grande promessa a maior desilusão. 

Estreou-se pela primeira equipa em 2004. Tinha apenas 17 anos. Contra o Middleslbrough na Premier League. Parecia um inicio entusiasmante mas a ilusão desfez-se. No ano seguinte, ainda com 18 anos, participou em 30 jogos pelo Bolton, sete como titular, e começou a representar as selecções de formação portuguesas, primeiro a sub-19 e mais tarde a sub-21. Mas depois chegaram os empréstimos, parte da cultura da gestão inglesa de jovens promessas. E com os empréstimos chegaram as lesões, as desilusões e o protagonismo inicial foi-se perdendo. Primeiro ao serviço do Hull City, depois com os gregos do Panonios. Sam Allardyce tinha deixado o Bolton, ele que apostara nele no inicio, e o novo staff técnico não parecia interessado em recuperá-lo. A sua carreira parecia sofrer o mesmo destino de tantas outras: o esquecimento.

 

Em 2010 o jogador desvinculou-se oficialmente do Bolton. Ninguém parecia interessado em contratá-lo e acabou por rumar à Escócia onde jogou uma época com o Hibernians. Depois voltou a Inglaterra para disputar o Championship com o Barnsley. Em nenhum dos casos chamou a atenção e relembrou o jogador que podia ter sido. Mas havia um homem que não se tinha esquecido do que Vaz Tê era capaz.

Sam Allardyce era técnico do recém-despromovido West Ham United. Sem dinheiro para investir aproximou-se de Vaz Tê no mercado de Inverno e desafiou-o a mostrar o que realmente valia com a camisola dos Hammers. Amor à primeira vista define perfeitamente esta história até agora. O dianteiro português renasceu e realizou uma época inesquecível.

Apontou dez golos e realizou cinco assistências em quinze jogos. Encaixou às mil maravilhas no esquema de ataque dos londrinos e quando a época chegou ao seu final, e o West Ham United foi forçado a disputar os play-off para lograr a promoção, Vaz Tê deu a sua melhor versão. No jogo decisivo, em Wembley, frente ao Blackpool, marcou o segundo e decisivo golo. O golo que permitia aos Hammers voltar à elite. O golo que o reconciliava consigo mesmo.

 

Ao lado de Carlton Cole, outro goleador maldito, o dianteiro português é a grande esperança dos adeptos do West Ham para a próxima época. Será a primeira temporada completa ao serviço do clube e se mantiver o mesmo rendimento que deu nos cinco meses da temporada passada, ninguém descarta que, mais cedo que tarde, Ricardo Vaz Tê cumpra o velho sonho de ser internacional pela selecção portuguesa. Face ao deficit crónico de goleadores, a ressurreição do dianteiro é uma das melhores noticias para o futebol nacional. A oportunidade está aí.



Miguel Lourenço Pereira às 11:02 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 01.08.12

Vencer a Champions League muitas vezes é o culminar de uma equipa que entra para a história. No caso do Chelsea não podia ser mais verdade. O onze que logrou em Munique o primeiro troféu de campeão europeu para os londrinos faz parte da história do clube mas não do seu futuro. Foi o último suspiro de uma geração de veteranos que várias vezes bateu à porta sem nunca conseguir entrar. Sem a sua guarda pretoriana o Chelsea tem nas mãos o dificil desafio de reinventar-se com base no talento e na juventude dos jovens leões de Stanford Bridge.

 

Hazard. Oscar. Marin. De Buyne. Lukaku. 

Nomes próprios do futuro azul, nomes próprios de uma nova era. Uma era pós-Champions League.

O clube londrino venceu o troféu em Maio com uma geração perto do seu final. Muitos dos membros do plantel saíram a custo zero. Outros sabem que têm poucos anos pela frente na elite. Terry, Cech, Lampard e Cole são conscientes que alcançaram o pináculo das suas carreiras e que o próximo ano pode bem ser o último no clube onde estiveram a última década. Os homens que Mourinho forjou e que Di Matteo levou ao titulo europeu podem ir com a sensação de missão cumprida. É aos novos que chegam que fica a dura missão de manter o nível bem alto.

O processo de rejuvenescimento do clube arrancou à dois anos. O Fair Play financeiro da UEFA foi o primeiro alerta na gestão de um clube habituado a gastar muito e bem. Antevendo os problemas de futuro os directivos do Chelsea entenderam que era necessário repetir a operação de 2003 e 2004, rejuvenescer ao máximo o plantel para aguentar largos anos e assim evitar as investidas no mercado.

Ramires, Ivanovic, Fernando Torres, Juan Mata, Raul Meireles, David Luiz, Cahill e Thibaut Courtois foram contratações cirúrgicas a pensar no hoje e sobretudo no amanhã. Mas não foram as únicas. Para a cantera Blue foram recrutados jovens dos vários cantos de Inglaterra e do velho Continente para estarem preparados a dar o salto para a equipa principal. Mas por muito lógica que fosse a politica do clube, ela esbarra com a única ambição do seu dono, Roman Abramovich: o titulo europeu.

As saídas de Ancelotti e Villas-Boas, homens que trabalhavam o futuro mas que falharam em cumprir o sonho do seu patrão omnipotente, deixaram também a sua marca na politica do clube. Os pesos pesados eternizavam-se e muitas promessas, como o italiano Borini, perdiam-se definitivamente por valores irrisórios apesar do seu futuro prometedor. A vitória de Di Matteo serve também como ponto de inflexão nesta politica auto-destructiva. Com o objectivo cumprido o Chelsea tem agora tempo para redesenhar-se.

 

As saídas de Bosingwa, Kalou, Drogba, Deco, Anelka, Ballack foram o primeiro passo. 

Em dois anos o plantel emagreceu e rejuvenesceu-se. Agora é a época das contratações definitivas, da mudança táctica que muitos adeptos pedem a gritos rumo a um futebol de posse, de controlo sem esquecer a velocidade como arma preferencial, um regresso ás origens do Special One.

O clube moveu-se bem e rápido no mercado e contratou duas das maiores esperanças do Velho e Novo continente. Do Lille gaulês chega Eden Hazard, o futebolista continental mais similar a Zinedine Zidane que sobrevoa os relvados do futebol europeu. Hazard é um génio longe dos holofotes mediáticos e em Londres assumirá a batuta de liderança de um projecto que tem o seu rosto. Eficaz, dono de uma técnica invulgar, maestro das bolas paradas, fisicamente dotado, o belga tem tudo para ser o futuro dos londrinos. Ao seu lado o brasileiro Óscar, a enésima reencarnação do "malandro" canarinho, maestro da finta e do passe, dono de uma visão de jogo invejável e de um estilo difícil de descrever usando apenas palavras. Entre ambos a bola rolará com a finura e determinação de um primeiro amor. Para meter velocidade ao jogo, as pernas do alemão Marko Marin e do belga Kevin De Bruyne, dois extremos à europeia, fisicos, intensos, velozes e peritos na arte dos cruzamentos, jogadores capazes de abrir o campo ou rasgá-lo em diagonais venenosas. Jogadores capazes de dar o arrojo que o Chelsea não tem desde os dias de Arjen Robben e Damien Duff. 

Na frente de ataque continua o dueto espanhol Torres-Matta, dois jogadores superlativos em estado de graça, agora acompanhados definitivamente pelo belga Romelu Lukaku. Jogador dono de uma força e uma potência fora do normal, Lukaku teve poucos minutos na passada época mas com a saída de Drogba, com quem partilha mais do que semelhanças físicas, pode ser a grande surpresa do ataque londrino.

Di Matteo conta com um arsenal de respeito. Num 4-3-3 esperem ver muitos destes rostos no banco porque não há vagas para todos, numa lista onde se movem ainda Malouda e Sturridge. No meio-campo, ao lado da classe, a força de Ramires, a tenacidade de Meireles e o trabalho de Obi Mikel para dar o equilibrio necessário que a defesa composta por Cahill-David Luiz deverá reforçar ao longo da época. As laterais continuam a ser o calcanhar de aquiles do clube e talvez seja aí onde o mercado volte a funcionar para os Blues que até se dão ao luxo de deixar Courtois em Madrid mais uma época, confiantes que estão na genialidade eterna de Petr Cech

 

Com este cenário - e sonhando ainda com Hulk e Falcao, nomes que sempre rodeiam o futuro dos azuis - o Chelsea apresenta credenciais mais do que suficientes para defender a coroa europeia. Mas que ninguém se engane. Este é um projecto de futuro, desenhado para a próxima década com jogadores extremamente jovens mas com um potencial tremendo. Um projecto que se inspira na brilhante trajectória espanhola, na classe centro-europeia, no músculo africano e no espírito britânico para criar um cocktail de emoções e movimentos capazes de marcar uma geração.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 29.07.12

Lateral bicampeão europeu sem clube. Podia ser um anúncio num jornal qualquer mas é, sobretudo, um dos enigmas do mercado. Bosingwa, com 29 anos, encontra-se sem clube depois de ter sido dispensado pelo Chelsea. Chegou a Londres da mão de Luis Filipe Scolari e entre lesões e sprints esteve nos pontos altos e baixos do clube londrino da última meia década. Agora procura um novo clube quando o curioso é que não há um só clube que o procure a ele.

 

As más línguas comentaram, depois da final da Champions League, que o gesto de Bosingwa no palco, quase impedindo Terry e Lampard de surgir na fotografia dos vencedores, seria o último prego no seu caixão para sair dos Blues. A verdade é que o seu futuro já estava decidido antes mas esse momento simboliza perfeitamente a relação do internacional português com o clube londrino: descontrolada.

Bosingwa, que nasceu no Congo mas chegou cedo a Portugal e acabou por ser um dos internacionais mais utilizados da época final de Scolari e do mandato de Queirós, começou a carreira debaixo de comentários que não abonavam nada a favor da sua inteligência. Figura criticada no balneário do Boavista pelas suas atitudes, dentro e fora de campo, era um jogador com um perfil complexo de gerir. Mourinho decidiu arriscar, pensando nele como médio defensivo, mas no ano em que estiveram juntos houve pouco tempo para aflorar a ligação e foi nos anos seguintes, sobretudo com Jesualdo Ferreira, que o jogador explodiu finalmente como lateral de excepção. 

Com Scolari no Chelsea o destino de Bosingwa ficou traçado. A saída do brasileiro, o mesmo que o tinha solicitado expressamente a Abramovich, transformou o futuro do lateral no clube. Os técnicos que se seguiram tinham problemas em lidar com ele e encontrar a melhor forma de explorar o seu potencial. Se a Paulo Ferreira lhe faltavam pernas para repetir os anos memoráveis de azul, a Bosingwa faltava-lhe sobretudo inteligência de jogo. As lesões que se seguiram serviram apenas para adiar o inevitável. Suspenso da selecção com a chegada de Paulo Bento - por motivos similares ao de Ricardo Carvalho, outro ex-colega seu no Porto e em Londres - o ano do português salvou-se com o titulo europeu. Com Villas-Boas, Bosingwa ainda sonhou em voltar a ser figura protagonista do clube, mas os problemas físicos e a saída do técnico portuense marcou o seu futuro longe de Stanford Bridge.

 

No mercado actual é dificil encontrar muitos negócios por valores consideráveis. A conjuntura económica tem sido um fantasma que nem os clubes mais folgados tem sabido contrariar e as operações são modestas e escassas. E Bosingwa, com a carta de liberdade na mão, devia ser um dos atractivos do mercado. E até agora, o silêncio.

A única oferta que o jogador recebeu chega do AS Monaco, clube histórico a viver dias complicados na Ligue 2. O técnico, Claudio Ranieri, mostrou interesse em contar com o lateral mas entre a oferta salarial (Bosingwa quer continuar a receber, onde quer que vá, cerca de 3 milhões de euros) e o facto de ser uma liga secundária, o interesse tem-se esfumado. 

E porque nenhum outro clube se move então? 

Os problemas físicos de Bosingwa são um handicap. Como vários jogadores massacrados pela lesão, aos clubes custa-lhes apostar em contratos largos quando há uma séria possibilidade do jogador ficar fora de competição durante largos meses e não rentabilizar o investimento. Por outro lado Bosingwa, com 29 anos, quer assinar o seu último grande contrato, mantendo valores que estão longe do seu valor real de mercado depois de três anos de poucos jogos e muita polémica. A incapacidade do jogador em perceber que as condições do mercado não convidam a valores tão exorbitados tem sido o primeiro problema. As informações, não demasiado abonatórias, sobre o seu carácter, são outro problema com que Bosingwa se tem encontrado. Poucos clubes de topo contam actualmente sem um lateral de referência no seu plantel e poucos são, também, os clubes de perfil médio que se querem arriscar a ter um jogador problemático no plantel, muitas vezes criado à base de pequenos detalhes.

 

Sem ofertas de Portugal devido à ficha salarial e com as portas dos melhores da Europa aparentemente fechadas, Bosingwa tem duas opções. Partir para uma opção monetariamente satisfatória em mercados de países emergentes (Rússia, Brasil, Estados Unidos, Qatar) ou procurar provar nos terrenos europeus que ainda tem o mesmo valor e qualidade que demonstrou ao serviço dos dragões durante largas épocas. 



Miguel Lourenço Pereira às 17:40 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 25.07.12

Desde a saída de Rafa Benitez que o Liverpool regressou aos angustiantes dias perdidos no meio da tabela classificativa, sem aspirações maiores do que um desejo profundo de chegar cedo ao fim do show. A chegada de Brendan Rodgers levanta de novo as esperanças da Kop mas apesar das boas intenções do técnico do Swansea, a competição britânica está, de tal forma, afunilada no topo que é difícil imaginar que a maldição dos Reds está perto do fim.

  

Kenny Dalglish saiu debaixo do mesmo cinzentismo que chegou depois de um mandato tenebroso de Roy Hogdson.

Desde que Rafael Benitez foi forçado a deixar Anfield, o caminho do clube que definiu o futebol profissional inglês a partir dos anos 60 entrou na enésima espiral auto-destructiva. Dalglish tinha sido o último treinador a sagrar-se campeão ao comando dos Reds mas a nostalgia não tem lugar numa prova dominada cada vez mais pelo massivo investimento de donos multimilionários.

Foi o ano em que o Chelsea e o Manchester City, os clubes que mais dinheiro gastaram no futebol mundial na última década, venceram a Champions League e a Premier League. O ano em que os milhões investidos em manter as principais estrelas do clube fizeram a diferença no duelo entre o Tottenham e os outros, apesar de no final a aposta tenha ficado sem prémio por culpa de uma regra pouco entendível por parte da UEFA. Foi a época em que o Arsenal voltou a sobreviver à razia financeira que o distancia, de ano para ano, dos demais e o ano em que o Manchester United, apesar de apresentar-se mais débil do que nunca, soube lutar pelo titulo até ao fim porque tinha dinheiro para isso. Nesse contexto qualquer projecto que queira intrometer-se neste duelo de milionários tem primeiro de aparecer com dinheiro. Até mesmo o Newcastle, clube historicamente gastador que, com Alan Pardew, aprendeu a ler bem os sinais do mercado, não aguentou o ritmo e acabou por contentar-se com sexto posto na tabela classificativa. Dalglish e Hodgson tiveram parte da culpa nas péssimas épocas do Liverpool nos últimos dois anos mas, como já Benitez tinha deixado antever, um clube sem investimento constante neste circo de milhões tem o destino traçado. O Liverpool de Rodgers corre perigosamente o mesmo risco.

 

No entanto tudo convida, como sempre, ao optimismo.

O Liverpool não tem propriamente um plantel invejável. Sem as últimas jóias da era Benitez, salvo os capitães Gerrard, Carragher e Reina, o clube conta com muitas promessas mas sem jogadores de classe mundial capazes de fazer a diferença. Luis Suarez, a melhor individualidade dos homens de Liverpool ainda não encontrou a forma constante que o transformará de eterna promessa a estrela consagrada. E sem a fortaleza táctica de Kuyt e um imenso fantasma à volta da contratação de Andy Carroll, são mais as dúvidas que as certezas.

Rodgers quer rodear-se de jogadores que entendam a sua filosofia de toque que tão bons resultados deixou em Swansea. Com os galeses, Rodgers foi um dos profetas do futebol atractivo numa Premier League ainda mais virada para um jogo mais directo e menos contemplativo. Juntamente com o Norwich e Newcastle, os homens de Rodgers foram a grande surpresa da passada época e não surpreende que o técnico se queira rodear de homens de confiança.

Joe Allen, um médio centro de excelente perspectiva futura, é o seu próximo objectivo para juntar-se a um miolo onde já anda Jordan Henderson, Charlie Adam, Alberto Aquilani e Lucas Leiva. No ataque o clube tem os olhos postos no norte-americano Clint Dempsey, mas as negociações com o Fulham, um clube que não tem necessidade de vender com facilidade, esbarram nos crónicos problemas financeiros do clube. Rodgers, que trabalhou no Chelsea durante o mandato de Mourinho, já recrutou um dos seus ex-jogadores de então, o italiano Fabio Borini à AS Roma, para dar essa mobilidade ofensiva tão necessária ao seu esquema de jogo. Mais ainda parece pouco, muito pouco, para aspirar a mais.

E para o Liverpool o mais agora já nem é, por muito paradigmático que pareça, o titulo. O clube necessita entrar no pote de ouro que é a Champions League mas para cair no top 4 mede armas com cinco clubes com maior orçamento, melhor plantel e mais experiência nos momentos decisivos. Uma nova época entre o quinto e o sétimo posto é uma agonia na mente de adeptos que cresceram habituando-se ao sucesso fácil mas que vivem mais de 20 anos da mais pura angústia. 

 

Será uma época de dúvidas constantes para os homens de Liverpool. Por um lado o clube precisa de dar um sólido passo em frente para afirmar-se como uma séria alternativa aos candidatos aos lugares europeus. Mas sem o dinheiro necessário, Rodgers terá de operar um milagre com o escasso e pouco entusiasmante plantel que tem nas mãos. Um posto que antes era considerado como o máximo onde se podia chegar no futebol inglês transformou-se numa cadeira amaldiçoada. O homem que se segue sabe o que lhe espera. Resta saber se saberá também como fintar o destino.



Miguel Lourenço Pereira às 18:34 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Segunda-feira, 28.05.12

Michael Thomas tem um rival para a posteridade. Sergio Aguero entrou para a história como o autor do golo mais agónico e determinante da história da Premier League. Uma vitória asfixiante sobre um heróico QPR que manteve o Manchester United com a esperança de mais um triunfo nos derradeiros instantes. No final, 700 milhões de euros depois, o City quebrou uma malapata de 44 anos e voltou a proclamar-se campeão inglês num ano de muitas surpresas e desilusões num campeonato que continua a manter o suspense apesar de perder, progressivamente, qualidade.

Em três anos nunca um clube tinha gasto tanto dinheiro para conseguir um objectivo tão concreto: o titulo inglês.

Roberto Mancini logrou à segunda tentativa o troféu mas não sem sofrer mais do que um plantel de 700 milhões justificaria. O jogo espesso do City em largas partes da temporada parece um dos lados da moeda. No outro as goleadas consecutivas, resultado normal de um ataque por onde passaram Tevez, Balotelli, Dzeko, Silva e Aguero, peças nucleares na reconquista de um titulo ganho no pulso final a um Manchester United low cost, fraco como nunca outro projecto de Alex Ferguson, mas que teve o mérito de manter-se até ao final na luta pelo titulo. 

 

O United começou bem e perdeu gasolina à velocidade com que perdia jogadores. O débil meio-campo levou a Ferguson a resgatar a Scholes e a alinhar, nos jogos importantes ao histórico centrocampista com Ryan Giggs, o miolo mais veterano da história da Premier. Nos dois duelos directos contra o rival de Manchester duas derrotas categóricas deixaram claro que, no mano a mano, era impossível aos Red Devils manterem o pulso. Mas os tropeções de um Mancini sempre temeroso nas grandes noites mantiveram o duelo aceso e os dois golos inesperados do QPR deram a sensação de que havia algo mais forte do que a lógica por detrás de Ferguson, como naquela noite de Barcelona em 1999. Mas sucedeu o contrário, o futebol decidiu transformar os jogadores do United em reencarnações contemporâneas de Kahn, Effenberg, Mathaus, Kuffour e companhia e confirmar Aguero como figura de proa no seu primeiro ano de futebol inglês.

 

A gesta do QPR quase que serviu para confirmar a salvação do clube londrino mas no último minuto já nem era necessário.

O Bolton, que sofreu na pele a escalofriante situação vivida por Fabrice Muamba, seguiu a Wolverampton e Blackburn Rovers na despromoção ao Championship. Mas o sofrimento sentiu-o, mais do que nunca, um Aston Villa que dista muito do projecto criado por Martin O´Neill e que ameaça tornar-se em mais um histórico problemático como foram Leeds, Newcastle e Nottingham Forrest.

A Premier que tem perdido alguns dos seus melhores jogadores e algo de qualidade de jogo manteve-se emocionante em resultados e na dinâmica da tabela classificativa. O Newcastle foi uma verdadeira lufada de ar fresco e o Tottenham de Redknapp durante alguns meses pareceu dar a sensação de poder ambicionar a algo mais mas a saída de Capello do banco inglês mudou a mente do técnico e levou a um profundo descontrolo do plantel que acabou num tremido quarto posto por detrás de um Arsenal que, um ano mais, luta de igual para igual com equipas com orçamentos infinitamente superiores, mérito indiscutível de Arsene Wenger.

No lado negro da época a terrível campanha de Kenny Dalglish ao leme do Liverpool, com o pior registo doméstico em décadas, e sobretudo a época do Chelsea. Apesar da final da Champions League, o clube londrino terminou a Premier no pior lugar da última década, um sexto posto cuja responsabilidade é preciso distribuir entre Villas-Boas, um plantel em revolta constante e a um Roman Abramovich que continua sem saber muito bem o que quer para o seu clube.

 

 

 

Jogador do Ano

David Silva

 

Há poucos jogadores de futebol na actualidade com a classe e rapidez de raciocínio que o espanhol David Silva. Não havia espaço para ele no projecto de Guardiola e no colete de forças de Mourinho e a Premier tornou-se o seu destino inevitável. Se o Manchester City é, finalmente, campeão, deve-o a ele mais do que a qualquer outro. Marcou, assistiu, encantou, pautou o ritmo e soube emergir como o lider que os citizens precisavam depois de 700 milhões de euros gastos em mais de 30 jogadores para encontrar o caminho ao El Dorado. Ninguém duvida que, no futebol actual, Silva é um dos nomes maiores.

 

 

Revelação do Ano

Papisse Cissé

 

Chegou em Janeiro depois de dar nas vistas no Freiburg. Mas ninguém imaginava que o seu impacto ia ser tão devastador. Em treze jogos pelo Newcastle marcou treze golos, alguns dos quais dignos de entrar na galeria dos melhores do ano. Soube substituir quando necessário o goleador da primeira volta dos Magpies, Demba Ba, e soube também combinar com ele e Cabaye para garantir um sprint final memorável para o clube do Tyne. Em meia temporada deixou a pensar os principais directores desportivos dos clubes de topo europeus.

 

Onze do Ano

 

Apesar do talento incrivel de Joe Hart a nossa opção recairia sobre o imenso holandês Tim Krul, baluarte de uma grande época para o Newcastle United.

 

Na defesa de quatro jogariam Micah Richards (City), Gary Cahill (Bolton/Chelsea), Kyle Walker (Tottenham) e Leighton Baines (Everton). Quatro jogadores que explicam bem a forma como o trabalho defensivo é encarado na Premier League, onde a força e a raça são mais valorizados do que o controlo de bola e o posicionamento táctico.

 

David Silva lidera o meio-campo deste onze de forma inevitável acompanhado pelo francês Yohan Cabaye do Newcastle e pelo seu colega de equipa Yaya Touré.

 

No ataque jogam os inevitáveis Wayne Rooney, que continua a ser o mais determinante jogador inglês da actualidade, lado a lado com o holandês Robbie van Persie e o homem decisivo da Premier, o argentino Sergio Aguero.

 

Treinador do Ano

Alan Pardew

 

O que logrou Alan Pardew com este Newcastle não tem nome. Um clube habituado a falhar, a desiludir e a seguir pelo caminho errado, encontrou neste técnico a sua tabua de salvação espiritual. Sem dinheiro para investir, Pardew montou um onze tremendo em qualidade e poupado em gastos. Deu a batuta de jogo a Cabaye, apostou no perfume africano do golo, com Ba e Cissé, e garantiu uma defesa de ferro liderada por Krul, outra aposta pessoal. Manteve o plantel fresco, apesar das lesões, soube esquivar a pressão de dormir largas jornadas perto de postos europeus, um oásis para um clube muito necessitado de injecção financeira, e acabou a época num mais do que meritório XXX, diante do todo poderoso Chelsea e dos históricos Liverpool e Everton. Quase nada!



Miguel Lourenço Pereira às 15:39 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 21.05.12

A partir de hoje e até ao próximo dia 1 de Junho o Em Jogo dedica a sua programação em exclusiva à análise das seis principais ligas do futebol europeu.

 

Um pequeno resumo, eleição do Melhor Jogador, Treinador, Onze e Revelação do Ano e as imagens que marcaram a temporada 2011/12 em Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália e Portugal.

 

Bem vindos, ao Em Jogo!

 




Miguel Lourenço Pereira às 15:29 | link do post | comentar

Domingo, 20.05.12

Teria sido uma das grandes injustiças da história das provas europeias (e houve algumas) se este projecto chamado "Chelski" nunca tivesse tido direito a vencer uma Champions League. Que uma geração onde militam alguns dos nomes próprios da última década tivesse visto a glória passar. Sobretudo, que um gigante como Didier Drogba, tivesse de sentar-se de novo no relvado de mãos na cara, desolado. Nove anos depois de arrancar a sua imensa inversão financeira no clube londrino, Roman Abramovich tem finalmente a sua "orelhuda". E o futebol salda assim uma dívida com um clube que tinha atrás de si já uma final e quatro semi-finais perdidas às costas desde que tudo começou.

Juan Mata remata mas Manuel Neuer, esse panzer de olhar frio, defende.

Parecia Moscovo outra vez, parecia que o destino realmente tinha dito ao Chelsea que a glória futebolística era coisa a que não poderia ambicionar. Por muito dinheiro gasto, por muitos jogadores top, por muitos técnicos carismáticos. O sofrimento era a única palavra transversal nesta história. Mas o futebol tem destas coisas. Não significa que ganhe sempre quem mereça - e por futebol jogado o Bayern Munchen pareceu ser sempre uma equipa mais solvente - nem sequer quem jogue mais bonito. Não se trata nada disso. 

Da mesma forma que a Itália em 2006, foi a justiça colectiva a quem o futebol prestou homenagem no Allianz Arena. E nem um grande como Neuer podia desafiar o destino desta maneira. Depois da sua defesa inicial, a relembrar a meia-final contra o Real Madrid, os adeptos começaram a fazer contas. Nunca o Bayern tinha perdido um jogo em penaltys na Europa. Nunca o Chelsea tinha ganho um. Era assim de fácil. 

Mas marcou David Luiz. Mas marcou Lampard. Mas marcou Cole. E de repente não havia Terry à vista para escorregar outra vez e pelo caminho era Petr Cech, o mesmo que tinha parado no prolongamento um penalty a Arjen Robben - o maldito - quem se tinha tornado no herói da noite. Defendeu o remate frouxo de Olic e desviou com o olhar o tiro de Bastian Schweinsteiger. Jamais esquecerei esta final pelo rosto de "Schweini", pela segunda vez derrotado numa final europeia. A ele (e a Lahm) também há uma dívida por pagar. Mas este Bayern é um projecto solvente suficiente para voltar, mais cedo que tarde, para cobrar o que é devido.

Cech tinha defendido o que ninguém contava. E no final de contas o Chelsea tinha, outra vez, a possibilidade de sagrar-se campeão da Europa com o derradeiro penalty. Anelka, na China, deve ter agradecido que a pressão fosse para outro. Mas Didier Drogba não entende dessas coisas. Ele é o grande vencedor do ano. O seu olhar define a temporada futebolistica de um clube que se apoiou nele, mais do que nunca, para atravessar o purgatório. Desprezado pela directiva, roubou a titularidade a Torres, convenceu Villas-Boas da sua utilidade, tornou-se na referência ofensiva de Di Matteo e só, contra o mundo, ajudou a derrubar a mitologia blaugrana. Na final, esse jogo que tanto tinha atravessado, foi o protagonista absoluto. Pelas bolas que cortou na defesa, pela raiva com que liderou cada ataque. Pelo golo que empatou o jogo, a três minutos do fim. Pelo penalty que cometeu, infantilmente sobre Ribery, lesionando o francês, até então o melhor do ataque bávaro. Aquele momento pertencia-lhe por direito. E se a história devia algo ao Chelsea, devia muito mais a Drogba. Neuer devia sabê-lo, apenas se mexeu, o fatalismo do momento era evidente. A taça esperava os braços do marfilhenho, a história queria-o hoje mais do que nunca e a bola rasgou as redes na imaginação de milhões de espectadores. Caiu no relvado e sorriu. Drogba corria para a posteridade!

 

Futebolisticamente não foi a final mais apaixonante, mas foi seguramente uma das mais intensas.

Ambas as equipas comportaram-se da mesma forma como tinham feito nas meias-finais. O Bayern quis a bola e o domínio do jogo. O Chelsea preferiu controlar o espaço e aproveitar a velocidade para fazer a diferença. Não foi um jogo de K.O., no futebol quase nunca o é. Foi um combate a pontos que acabou empatado. Apesar do recorde histórico de cantos para os bávaros a bola rondou Cech e teimou em não entrar. O jogo pelas alas, bem tapadas por Bosingwa e Kalou na direita e Cole e Bertand na esquerda, tornou-se ineficaz e Robben e Ribery foram forçados a procurar diagonais que esbarravam com o muro que derrotou o Barcelona. 

Nenhum dos seus remates encontrou perigo e demasiadas vezes o excesso de pernas de jogadores azuis confundia o jogo de passes entre Gomez, Muller, Kroos e Schweinsteiger, o eixo central da ideia de Heynckhes. Tacticamente o treinador alemão não encontrou forma de furar o bloqueio e faltou talvez paciência para atrair o conjunto inglês da sua toca. Entretanto o tempo passava, os corpos perdiam forças, a cabeça clarividência e o Chelsea, matreiro como só um treinador italiano pode ser, começou a morder. A  pouco e pouco os contra-golpes venenosos assustavam, faziam os alemães correr mais do que as pernas podiam e davam a sensação de um perigo maior do que seria de supor. Durante oitenta minutos a troca de golpes foi-se equilibrando. Nenhuma ideia era capaz de bater a outra e a verdade é que nenhum dos bandos parecia disposto a mudar o guião. Até que apareceu Thomas Muller.

Depois de uma época uns furos abaixo do que demonstrou em 2010, o ano da sua explosão, Muller viu-se na final num papel incómodo. A sua posição natural tem sido ocupada por Robben e Kroos e ali, com o médio recuado para cubrir a baixa de Luiz Gustavo, sentiu-se perdido. Mas o seu sentido de oportunismo é único e depois do enésimo ataque, a bola sobrou-lhe e com um golpe cheio de imaginação, bateu Cech como a um guarda-redes de andebol. Faltavam sete minutos, o Allianz Arena celebrava já o quinto titulo europeu, o argumento de um ano mágico parecia ter sido escrito em alemão.

Só que Drogba, esse monstro que deveria terminar o ano com um mais do que merecido Ballon D´Or, ainda não tinha dito a última palavra. Nem cinco minutos, tempo suficiente para Heynckhes cometer o erro de tirar ao autor do golo alemão, e o Chelsea empatava. A desilusão na cara dos germânicos dizia tudo. Um clube habituado a perder finais, incapaz de ganhar uma final a equipas ingleses, parecia ver o rosto fatídico do destino na cara do africano. E veio o prolongamento, e o penalty a Ribery e o falhanço de um Robben que se começa a fazer notar pelos falhanços nos momentos decisivos da sua vida, ele que fez parte do melhor Chelsea da história, ao lado do núcleo duro contra quem jogou hoje. Depois desse momento ficou claro que, tarde ou cedo, os ingleses sairiam vencedores. Parecia evidente que a história tinha decido fazer com eles o que se tinha esquecido com o Monchengladbach dos anos 70, o Real Madrid dos anos 80 ou o Arsenal de Wenger. Justiça. 

O relógio continou a correr, os penaltis chegaram, inevitáveis, e Drogba decidiu que nove anos de espera eram demasiados. 

 

Pode parecer curioso que o pior Chelsea desde que Abramovich chegou, em plena era Ranieri, tenha logrado o que nem Mourinho, Grant, Hiddink ou Ancelloti conseguiram. Se é certo que o Bayern não foi hoje tão eficaz como contra o Real Madrid e muito mais parecido ao que tremeu nos momentos decisivos da Bundesliga, também é verdade que o jogo dos ingleses voltou a assemelhar-se mais à herança do catenaccio do que, propriamente, à escola de futebol espectáculo que o russo tanto aprecia. Mas o magnata já tinha tentado de todas as maneiras e o troféu, de uma forma ou de outra, tinha-lhe sempre escapado. A vitória de hoje é mais sua do que ninguém, pela insistência em não deixar nunca de procurar lograr o seu objectivo. Foi o triunfo de uma geração histórica do futebol inglês, de alguns dos seus melhores jogadores, de um lider espiritual que pode muito bem ser considerado como um dos maiores (ou o maior) futebolista africano da história. E foi, mais do que isso, o triunfo de um sonho sobre qualquer ideário táctico, cultura futebolística ou projecto pessoal. Vencer a Champions League dá ao Chelsea finalmente o pedigree que lhe faltava, o primeiro clube londrino a vencer o troféu, o quinto inglês em lograr o feito. Talvez sirva para dar tranquilidade ao clube, tempo para crescer noutros moldes, uma maior aposta no jogo e na formação do que nas ânsias e o livro de cheques. Abramovich tem a palavra, a sua geração pode partir agora com a sensação do dever cumprido. E o futebol saiu do Allianz Arena mais aliviado mas com a consciência de que sempre haverá alguma divida moral por saldar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

Sexta-feira, 18.05.12

Pode um clube que gastou numa década mais do que qualquer outro no futebol europeu vencer o maior prémio do futebol europeu com a sua pior versão? A história do futebol está cheia de exemplos como este e no entanto parece claro que o Chelsea seguiu o caminho mais ortodoxo possível para ganhar o único prémio que realmente importa a Roman Abramovich. Depois de ter estado à porta tantas vezes, vencer no Allianz Arena significa para este Chelsea mais do que um titulo único. É, sem dúvida, a forma perfeita de fechar um ciclo que já teve momentos mais brilhantes.

Terry escorregou e falhou o que seria o titulo perfeito.

Não estava Mourinho mas a equipa tinha começado o ano com ele. Talvez sem o seu mentor algo tenha falhado naquela noite em que Abramovich queria fazer a festa na sua Moscovo. Antes tinha sido a nemésis Barcelona como a foi depois. E o Liverpool, com o golo fantasma de Luis Garcia e o penalty parado por Reina. Ou Deschamps e o seu inesperado Mónaco. Parecia sempre haver algo cósmico por detrás de cada derrapada de um clube que gastou, desde Hernan Crespo a Fernando Torres, o que nenhum outro alguma vez gastou para vencer a "orelhona". 

Di Matteo não é nem Ranieri, nem Hiddink, nem Scolari, nem Villas-Boas, nem Grant, nem Ancelloti e muito menos Mourinho. Mas o Chelsea, salvo nos três anos do português, foi sempre um clube do presidente e dos jogadores e o seu triunfo será sempre o triunfo dos outros. Da velha guarda que o dinheiro do russo pagou e que Mourinho transformou num colectivo que lhe sobreviveu meia década mais do que seria de esperar. Dos Terry, Lampard, Cech, Cole e Drogba, gladiadores que nunca desistiram, mesmo quando Villas-Boas não sabia o que fazer em Napoli, num jogo onde os ingleses foram superados absolutamente pelos italianos. 

A saída do técnico português entregou o balneário aos jogadores e o seu modo de auto-gestão, como tantas vezes funciona (veja-se a Alemanha de 74), foi tremendamente eficaz. A estética ficou para segundo plano, a Premier foi esquecida. Durante três meses o clube trabalhou com apenas um objectivo. De tal forma que esse desespero foi a única arma possível para derrotar o Barcelona em 180 minutos de infarto. E será a grande arma quando a equipa suba ao Allianz Arena, convencida que será a última oportunidade para fechar um ciclo de ouro.

 

Di Matteo é o hábil sargento e sabe que para vencer o Bayern em casa precisa pouco de futebol e muito de alma.

Ninguém espera um Chelsea diferente do que se viu contra Benfica e Barcelona. Uma equipa sem interesse em ter a bola, com uma ocupação precisa dos espaços e apostando pela velocidade do seu ataque. Drogba correrá como nunca, naquele que será provavelmente o seu último jogo de azul. Kalou e Mata serão os seus escudeiros e Torres, como na cidade condal, a arma secreta. A partir daí, atrás, desaparecem os nomes próprios e cresce a sensação do bloco de cimento colectivo que terá de viver sem Ivanovic, Terry, Meireles e Ramires, quatro jogadores fundamentais na meia-final contra os catalães.

Bosingwa, Cahill, Luiz e Cole terão a difícil missão de travar o trio de ataque maravilhoso dos bávaros. E a Lampard, Obi Mikel e, talvez, Essien, caberá destruir a tentativa do Bayern de fazer a bola respirar no meio de tantas pernas. O banco é curto, as opções diminutas e a improvisação será a única arma que Di Matteo terá para enganar a Heynckhes. Mas como tem repetido diversas vezes, a motivação será a gasolina de um clube que terminou na pior posição doméstica em dez anos e que está à beira do desmantelamento absoluto. Ninguém duvida que Malouda, Drogba, Lampard, Terry, Cech, Cole e Essien estão prestes a dizer adeus e os que vêm atrás (e o Chelsea tem dinheiro e jogadores de futuro para jogar melhor do que tem feito com esta versão gladiadora) seguramente que terão oportunidades no futuro para voltar a disputar o ceptro europeu.

 

Mas o clube londrino vive numa ânsia eterna que transpira na pele e na carteira do seu dono. Viver sem a Champions League é existir sem alma em Stanford Bridge e depois de uma década de futebol espantosa, há quem pense que o futebol deve algo a este clube. É a pensar nisso que o onze azul subirá ao terreno de jogo, contando que a história lhe devolva um favor que tantas vezes lhe negou. Mesmo esquecendo que eles são, talvez, o patinho feio da epopeia blue.



Miguel Lourenço Pereira às 14:52 | link do post | comentar

Quarta-feira, 16.05.12

Era uma das mais flamantes promessas do futebol gaulês quando a perna se rompeu e com ela muitos dos sonhos que tinha desenhados na cabeça com a mesma imaginação com que passeava sobre os rivais. Dois anos depois Hatem Ben Arfa tem razões para sonhar. O seu despertar em St James´s Park relançou-o para a ribalta do futebol europeu e levou-o de forma tão justa como inesperada para a pré-lista gaulesa do próximo Europeu. Um regresso em força de um peso pluma de máximo nível.

Na notável época do Newcastle de Alan Pardew há um imenso colectivo e poucos nomes próprios. Hatem Ben Arfa é um deles.

O extremo francês chegou ao clube do Tyne depois de uma azeda disputa com o Marseille. Na Riviera gaulesa explodiu como craque mas também encontrou os seus primeiros problemas com os directivos de um clube problemático na gestão das suas estrelas. No meio desse conflito surgiu a oportunidade de emigrar e, como com tantos outros antes de si, a Premier tornou-se no refúgio ideal. Chegou ao norte de Inglaterra na máxima expectativa e depois de três jogos interessantes, rompeu a perna num duelo com o Manchester City. Para muitos a sua carreira tinha terminado antes de ter realmente começado. Para Ben Arfa era só um contratempo como tantos outros que teve de fintar na sua vida. Dois anos depois a sua época notável relançou-o como um dos futebolistas franceses mais excitantes da actualidade. 

Laurent Blanc, o seleccionador que o chamou para o duelo com a Noruega em 2010, a sua oitava internacionalização à altura, seguiu a sua evolução e não hesitou em selecioná-lo numa pré-lista de doze gauleses que actuam fora da Ligue 1. Uma lista que muitos acreditam que se manterá até ao final e que os eventuais descartes realizados serão dos jogadores a actuar no campeonato nacional. A França de hoje não é a mesma potência futebolistica que chegou à Austria e Suiça, em 2008, como vice-campeã do Mundo. Faltam-lhe referências criativas e emocionais. No meio desse dilema moral, não é de estranhar que Blanc convoque um jogador que há dois anos não veste a camisola dos Bleus. Ben Arfa tem fome de glória, sofreu para chegar onde chegou e esse apetite pelo impossível transforma-o num jogador intenso, algo que os seleccionador valorizam muito para torneios de curta duração. À primeira vista o esquema táctica do seleccionador francês, um 4-3-3 claro, deixa poucas vagas no ataque com Nasri, Ribery e Benzema como primeiras opções e Gameiro, Giroud e Menez como alternativas imediatas. Mas nenhum deles é um driblador nato, um extremo veloz e hábil com ambas as pernas e, sobretudo, um jogador que não conhece limites em si mesmo.

 

Aos 25 anos esta é a oportunidade de ouro para o futebolista de origem tunesina se reencontrar com a glória.

Como tantos cresceu em banlieus pobres nos arredores de Paris e encontrou no futebol o escape. Tinha tanto de talentoso como de problemático e essa fama acompanhou-o sempre, da passagem pela cantera do Lyon à sua ascensão no Marseille. Depois de se fartar de ser uma figura quase secundária num Lyon que ainda coleccionava títulos atrás de titulos, a promessa de um papel estelar em  Marseille foi suficiente para rubricar um contrato milionário. A paciência não durou muito e dois anos depois o clube convenceu o Newcastle a levá-lo por empréstimo. Apesar da grave lesão sofrida os técnicos do clube inglês entenderam que por detrás daquele carácter problemático havia um imenso talento e arriscaram. O empréstimo tornou-se em transferência e Ben Arfa recuperou da sua lesão, primeiro em Clairefontaine onde passou parte da adolescência, e depois em Inglaterra. No arranque desta temporada o técnico Alan Pardew prometeu-lhe o que ninguém lhe tinha sabido dar: protagonismo e um ombro amigo nas horas mais difíceis. A recompensa transformou-se numa temporada inacreditável ao lado de Yohan Cabaye e Papisse Cissé. A partir de Dezembro tornou-se num dos elementos nucleares na progressão do clube do norte na tabela classificativa até à luta final pelos postos europeus, algo que não estava nos projectos do clube no arranque da época. O seu magnifico golo ao Bolton, um dos melhores da temporada em todas as ligas, selou o seu regresso em estilo. Só faltava que Blanc estivesse atento. E estava.

 

Ao serviço da selecção francesa Ben Arfa nunca mostrou uma ínfima parte do seu talento inato. Oito jogos não deram para muito, em especial na difícil transição que os gauleses viveram na era pós-Zidane. Brilhar no próximo Campeonato da Europa não é um desafio fácil para qualquer jogador, mais ainda se se considera que não deixa de ser um joker num plantel com muita oferta para as poucas posições da linha ofensiva. Mas jogar sem expectativas também funciona, de certa forma a seu favor. Sem a pressão dos grandes nomes ele pode ser o ás na manga que Laurent Blanc está disposto a lançar quando as coisas se compliquem para os Bleus. Num grupo com Inglaterra, Suécia e Ucrânia pode ser que não tarde muito até que o extremo tenha finalmente a sua oportunidade.



Miguel Lourenço Pereira às 01:22 | link do post | comentar

.O Autor

Miguel Lourenço Pereira

Fundamental.
EnfoKada
Novembro 2014
Dom
Seg
Ter
Qua
Qui
Sex
Sab

1

2
3
4
5
6
7
8

9
10
11
12
13
14
15

16
17
18
19
20
21
22

23
24
25
26
27
28
29

30


FUTEBOL MAGAZINE. revista de futebol online


Futebol Magazine


Traductor


Ultimas Actualizações

A revolta dos humildes

Moyes e a fidelidade do M...

O Onze de 2013

Suarez, o herói da Kop

As equipas modestas ao po...

Villas-Boas, o homem que ...

Oscar vs Mata, o duelo de...

Ozil, o novo Bergkamp de ...

Mourinho, um Chelsea repl...

As dúvidas da nova Premie...

Últimos Comentários
Thank you for some other informative web site. Whe...
Só espero que os Merengues consigam levar a melhor...
O Universo do Desporto é um projeto com quase cinc...
ManostaxxGerador Automatico de ideias para topicos...
ManostaxxSaiba onde estão os seus filhos, esposo/a...
Posts mais comentados
27 comentários
25 comentários
10 comentários
Arquivo
.Do Autor
Cinema
.Blogs Portugueses
4-4-2
A Outra Visão
Açores e o Futebol
Duplo Pivot
Foot in My Heart
Futebol Finance
Futebol Portugal
Lateral Esquerdo
Leoninamente
Minuto Zero
Negócios do Futebol
Pitons em Riste
Porta 19
Portistas de Bancada
Reflexão Portista
TreinadorFutebol
.Blogs Internacionais
Os mais destacados blogs internacionais de futebol
.Imprensa Desportiva
Edições Online Imprensa
Aviso

Podem participar nesta tertúlia futebolistíca enviando os vossos comentários e sugestões à direcção de correio electrónico: Miguel.Lourenco.Pereira@gmail.com


Bem Vindos a Em Jogo...


Nota



O Em Jogo informa os leitores que as fotos publicadas não são da autoria do weblog sendo que os seus respectivos direitos pertencem aos seus legítimos autores.



Siga o Em Jogo através do:

Follow Em_Jogo on Twitter


Em Jogo

Crea tu insignia

Bem vindo!

Categorias

todas as tags

subscrever feeds
blogs SAPO