Enquanto a imprensa catalã celebra o regresso às origens de Pep Guardiola, o técnico de Santpedor reafirma-se de forma definitiva como um técnico de futuro, um técnico capaz de marcar um antes e um depois na história do jogo. Para Guardiola o sistema é mais importante que o desenho e aproveitando ao máximo a geração perfeita do ADN blaugrana o seu último passo mais do que uma volta atrás é um salto em frente. Guardiola matou o ponta de lança e deu o passo em frente que muitos ousaram mas nenhum logrou conseguir.
Contra um fraquíssimo Villareal (fantasma do que foi na época passada) foi uma delicia voltar a ver o Camp Nou empolgado com um 3-4-3.
O desenho táctico que Johan Cruyff demorou quatro anos a implementar antes de poder desfrutar quatro anos mais do seu sucesso tinha já sido metamorfoseado pela rigidez táctica de Louis van Gaal antes de cair no esquecimento. Naturalmente, desde 2002 que as defesas de 3, esse ousado experimento que lançou para a ribalta Carlos Billardo a meados dos anos 80, desapareceram do mapa. O Brasil de Scolari foi, de certa forma, o canto do cisne de um desenho que era mais um 3-5-2 do que um 3-4-3 puro, cruyffiano. A herança da escola do Futebol Total (o quarto elemento do meio campo - o eterno número 4 - herdou o papel do libero michelsiano) desapareceu debaixo da capa de verticalidade ofensiva de Frank Rijkaard e, sobretudo, da tremenda eficácia dos desenhos magnificos de Guardiola.
Portanto muitos podiam pensar que o regresso ao 3-4-3 seria um sinal de que Pep, esse filho pródigo do cruyffianismo, pretendia emular o mestre não só em títulos mas também em estilo. Comparação irreal. Não só porque os títulos já foram superados mas, sobretudo, porque o estilo das equipas de Guardiola supera em todos os sentidos (eficácia, estética, rigor defensivo, conceitos de pressing e posse) a cartilha do Dream Team. Um regresso ao 3-4-3 numa equipa marcada, sobretudo, pelas baixas do sector defensivo, foi sobretudo um aproveitamento de recursos (e que recursos) que o plantel dispõe no último terço do terreno de jogo. Algo que se voltará a ver, inevitavelmente, e sobretudo nos jogos em casa. Mas que está longe de ser o desenho que mais entusiasma e que marcará a carreira de Guardiola como um técnico de excepção. Se o 3-4-3 pertence a Cruyff (e de que maneira), a Guardiola poderá analisar-se no futuro o seu papel indiscutível de pai do 4-6-0. O desenho táctico que matou o ponta-de-lança, o desenho táctico da próxima década.
Ninguém imaginava nos anos 50 que o extremo, o jogador da escola de Matthews, Garrincha ou Gento alguma vez pudesse desaparecer do mapa. Era a época da passagem do caduco WM ao 4-2-4 (e mais tarde ao 4-3-3) e o grande sacrificado dessa metamorfose táctica acabou por ser o herói da multidão. Sem tempo para pensar, sem espaços para arrancar em velocidade, os extremos foram forçados a abandonar a linha de fundo pelas diagonais, os centros no limite pelos passes para a entrada da área, o jogo vertical pela horizontalidade.
No Brasil e Inglaterra a metamorfose tardou, no primeiro caso pelo tempo e espaço que ainda hoje se concedem as equipas, no segundo pela teimosia histórica em inovar. Mas quando o resto da Europa começou a adaptar-se a essa mudança surgiu, progressivamente, outra extinção impensável. Talvez a Itália de 1970 já estivesse a anunciar o fim do 10. Talvez a metamorfose do Futebol Total, a colectivização do posicionamento táctico, tivesse deixado pistas suficientes para antever que duas décadas depois o artista vagabundo e solitário seria asfixiado até à exaustão, até tornar-se numa ave rara, dependendo de personagens sui generis como Juan Roman Riquelme para subsistir na mente dos mais novos.
Talvez por isso hoje muitos se escandalizem com a ideia de um futebol sem ponta de lança. Afinal é o golo a linguagem do jogo, o objectivo suprema, o santo Graal que todos buscam (uns mais que outros). Mas essa imagem histórica dos gigantes de área, dos predadores letais, começa a desvanecer-se progressivamente precisamente quando o pressing defensivo de Sacchi ensinou as equipas a encurtar o terreno de jogo até à linha do meio-campo. A mudança da lei do fora de jogo, o pressing defensivo e, sobretudo, o ritmo de jogo alto característico do final dos anos 90, começaram a dar o toque de finados para um jogador que foi, até então, exemplar único (e altamente sobrevalorizado) em qualquer equipa. Cruyff entendeu-o e começou com Romário o que hoje Guardiola logrou de forma definitiva com Messi. A diferença? O ADN blaugrana.
Guardiola não foi o primeiro técnico a tentar fazer do 4-6-0 uma realidade. Tanto Alex Ferguson como Luciano Spaletti tentaram recriar o esquema no terreno. No caso dos Red Devils o desenho parecia um vulgar 4-5-1 mas na realidade o papel de Rooney era o de falso dianteiro. O inglês recuava, puxando consigo a marcação e abria espaços para Ronaldo, Tevez, Giggs, Scholes, Hargreaves/Park/Anderson ou Carrick, explorarem. Também a Roma tentou emular o mesmo modelo com Totti de falso dianteiro, cercado por Vucinic, Perrota, Mancini e Tadei apoiados por De Rossi. Mas foram tímidas tentativas. Guardiola transformou a ideia em realidade.
Ajudou, é certo, o trabalho do técnico a excelente colheita de jogadores made in La Masia.
Guardiola conhece, encarna melhor dizendo, o ADN blaugrana como nenhum outro jogador. Encontrou à sua chegada veteranos de guerra com quem jogou (Xavi, Puyol), confirmações da era Rijkaard (Valdés, Iniesta) e lançou jovens que conhecia bem como Busquets, Pedro a que se juntou o repescado Piqué. Mas foi sobretudo Messi quem se transformou no jogador nuclear do primeiro Pep Team e que provocou a profunda metamorfose táctica de um 4-3-3 mais convencional (dois avançados abertos, um ponta de lança apoiados por dois interiores e um médio mais recuado) num claro 4-6-0.
Messi foi criado na Masia como um filho mais e bebeu desde cedo a filosofia local, tanto como Pique, Fabregas, Xavi ou Iniesta. A sua condição de estrangeiro é apenas circunstancial e isso nota-se cada vez que o número 10 veste a camisola da albiceleste. Ali ele é mais estrangeiro do que no seu Barça. La Pulga cresceu na Masia como extremo e foi aí que Rijkaard o posicionou, como o outro lado do espelho do genial Ronaldinho. Mas como Cruyff, Di Stefano, Pelé ou Maradona, o argentino é um jogador livre, sem posição fixa. A sua velocidade, finta, capacidade de reacção, determinação e, sobretudo, a sua capacidade de ler o jogo a uma velocidade laudrupiana transforma-o num jogador completíssimo que encaixa em qualquer desenho, em qualquer situação. Especialmente se quem o rodeia joga e pensa à mesma velocidade que ele.
Guardiola compreendeu isso de uma forma clara e depois de um ano transicional - e de uma aposta falhada em Ibrahimovic, incapaz de dar à equipa a mobilidade exigida - decidiu transferir o jogo de Messi para o miolo, reestruturando o carrossel ofensivo blaugrana. Com Messi no meio como receptor e emissor o técnico pode montar um quinteto de falsos médios, falsos avançados, capazes de manter a bola, imprimir o ritmo e encontrar os espaços necessários para controlar e dominar cada jogo.
Busquets e Keita consagram-se como os médios de controlo (muito mais do que Mascherano, mais eficaz quando joga como central adaptado). Xavi e Iniesta continuaram a ser eles próprios, interiores incisivos e letais com os seus passes a régua e esquadro e a sua fome de bola (poucas duplas na história tiveram tanta qualidade) e Pedro e Villa foram transformados em falsos extremos. Jogam colados à linha de fundo como fariam Garrincha ou Best, mas usam a sua velocidade, precisão no remate e leitura de jogo para estrangular as defesas contrárias. Eles abrem o campo para as diagonais dos interiores e fecham-no para asfixiar e cercar as defesas. Nunca jogam no ataque como figuras estáticas, nunca ficam muito longe da última linha defensiva quando defendem. No meio Messi, sem ordem que não seja a de criar o caos, um verdadeiro rebelde com causa, capaz de encontrar nos interiores, nos extremos ou nos laterais ofensivos, parceiros para dar e receber em dois, três toques rápidos, subtis e plenos de intenção. A mecanização de movimentos, depois de anos e anos de treino permitiram aos jogadores blaugranas criarem um entendimento único (por isso se entende o grande arranque de época de Fabregas e Thiago e a progressiva, mas mais lenta e individualista, adaptação de Alexis) e ao seu técnico abdicar definitivamente da figura do ponta de lança. Na filosofia de Guardiola não pode haver jogadores estáticos, incapazes de jogar em equipa. Se até Valdés é mais libero que guarda-redes como poderia haver um dianteiro que não fosse ao mesmo tempo extremo, médio e até mesmo defesa?
Inevitavelmente o ponta de lança continuará presente em equipas que privilegiam o jogo directo, que preferem o jogo aéreo contradizendo o velho dito de Brian Clough de relva nas nuvens. Mas à medida que o futebol se torna num jogo cada vez mais complexo, físico e intenso, o modelo blaugrana torna-se na evolução natural de algo que já a Hungria de Gustav Sebes anunciava, há mais de 50 anos. Naturalmente em Can Barça reuniram-se as condições (modelo implementado, tranquilidade institucional, classe dos jogadores, génio da equipa técnica) necessárias para aplicar o 4-6-0 com uma taxa de sucesso inquestionável. E mesmo isso não garante, como dissemos ao inicio, que perante rivais mais encerrados a aposta num modelo mais ofensivo como um 3-4-3 seja mais prática. Mas o passo dado em frente é inevitável. Na final da Champions League de Wembley o posicionamento de Messi (mas também de Pedro e Villa...os três marcadores) deixou a defesa do United desenquadrada por não saber a quem (e como) marcar. Chamam-lhe o "falso nove" mas a realidade vai mais longe. Mais do que recuar o nove o que o 4-6-0 de Pep consegue é involucrar no movimento ofensivo de concretização todo o acordeão do meio-campo, o que permite a Fabregas, Thiago, Iniesta ou Xavi estarem tão ou mais perto do golo que Villa, Pedro ou o próprio Messi. A função de atacar deixa de recair sobre um homem só para passar a ser coisa de muitos, permitindo uma constante superioridade em qualquer zona do terreno de jogo. E a história do futebol ensinou-nos que os mitos são homens mas quem faz a diferença são sempre as equipas
A fome insaciável de Leo Messi ajudou a desequilibrar o mais equilibrado dos duelos até agora vividos entre o Barcelona de Guardiola e o Real Madrid de Mourinho. Os merengues foram melhor a equipa no conjunto dos 180 minutos mas viram o individualismo do argentino resolver o que o colectivo blaugrana nunca esteve perto de conseguir. No final repetiram-se as cenas da época passada e voltou a ver-se, de parte a parte, que nada mudou com o Verão.
A grande diferença entre Ronaldinho e Messi é a fome. A fome de vitórias.
O brasileiro foi sem dúvida o melhor jogador da última década, tanto a nível das habilidades individuais como no entendimento do jogo colectivo, muitos furos por cima de qualquer outro. Mas desde o principio da carreira que lhe faltou a fome de vencer a todo o custo. Por isso hoje o genial número 10 deslumbra no Flamengo enquanto que Messi, que dele tanto aprendeu, decide jogos de máxima tensão como os de ontem com um sorriso nos lábios. A metamorfose táctica do argentino mudou o modelo de jogo do Barcelona mas só foi possível porque Messi pertence a um tipo de jogadores que não olha a meios para obter fins, e para ele o fim último é a vitória, sempre. Nunca existe uma bola perdida, nunca um lance dividido termina até a bola estar longe, nunca a baliza encolhe no momento errado e, sobretudo, nunca a cor da camisola adversário lhe muda o estado de espírito. Em Madrid foi um golo, em Barcelona dois (e lá vai o recorde de Raúl em Supertaças ao ar) e ainda uma assistência maravilhosa para Andrés Iniesta que o define, igualmente, como um jogador profundamente colectivo.
Depois dos seus falhanços sucessivos com a Argentina não cabe a menor dúvida de que Messi é, como foi Pelé no Santos, o exemplo perfeito do jogador enquadrado num sistema colectivo que o potencia e por ele é potenciado ao máximo. Messi cresceu com a filosofia blaugrana e entende-a como ninguém e por isso saca dela o máximo rendimento no seu estilo de jogo. Por outro lado o clube encontrou forma de o entender também como nunca a nenhum outro jogador (nem Cruyff, nem Romário, nem Rivaldo, nem Ronaldinho lograram o mesmo efeito) e aproveita-se do argentino para ir onde nunca ninguém foi. Messi sem o Barcelona não seria o mesmo Messi, nem de longe nem de perto, e o Camp Nou sabe que quando o argentino perder a chama ou partir haverá um vazio de poder impossível de remediar. O seu génio individual decidiu um jogo de máximo equilíbrio colectivo onde primou, sobretudo, o desastrado jogo ofensivo do Real Madrid que teve várias oportunidades para lograr um triunfo histórico. Do primeiro ao último segundo os merengues foram melhores mas José Mourinho terá de rever os seus processos ofensivos porque é preocupante que uma equipa crie tantas oportunidades para marcar tão poucos golos. Os de ontem, de Ronaldo e Benzema, nasceram de lances confusos na área, nunca um bom indicativo. Mais um golo e o Real Madrid teria vencido, merecidamente, o troféu. Mas a eficácia blaugrana, a eficácia de uma equipa que sabe guardar a bola e que só remate quando tem a certeza de que pode realmente marcar, foi determinante e porque o futebol são golos, o torneio ficou em Can Barça.
Se Messi foi genial e decisivo, o jogo colectivo do Barça deixou muito a desejar.
Guardiola queixa-se - no que começa a tornar-se uma recorrente na prosápia de um treinador que ontem somou mais um recorde - de que teve pouco tempo para preparar-se (menos cinco dias que o rival) e que não esperava vencer. É habitual nele o discurso defensivo mas mesmo com menos uma semana de preparação esperava-se muito mais da sua equipa. Depois de alinhar uma equipa alternativa no Bernabeu o técnico de Santpedor preferiu a formação de gala, a que venceu a Champions League em Maio deste ano. Mas a palidez colectiva foi uma constante especialmente face a um Real Madrid a jogar em pressão alta de forma constante durante os 90 minutos. Nem Xavi soube pautar o ritmo, nem Villa e Pedro souberam aproveitar o desajuste da linha de fora de jogo (má exibição de Coentrão no seu primeiro jogo a lateral), e acabou por ser a defesa (Alves, Mascherano e Abidal) a que melhor se mostrou sobre o terreno de jogo.
A pressão asfixiante dos merengues surgiu logo no primeiro toque de bola e ao minuto 2 o Real Madrid já tinha tido duas oportunidades de golo. Foi a tónica. O desperdício ofensivo de uma equipa que contou com um Di Maria eternamente egoísta, um Ozil inexistente, um Benzema demasiado ocupado a adornar o seu jogo e, sobretudo, um Cristiano Ronaldo decepcionante. Se a Messi a cor da camisola do rival não incomoda (principalmente a branca do Real), a Cristiano parece suceder o contrário. É verdade que marcou o seu primeiro golo no Camp Nou mas o seu jogo foi miserável, com sucessivas perdas de bola na linha lateral, escasso jogo colectivo e, sobretudo, uma profunda incapacidade de livrar-se, ora de Alves, ora de Mascherano, que souberam sempre neutralizar o perigo que podia significar o português. No único lance que logrou escapar à marcação contrária, CR7 teve o momento individual do jogo mas Valdés - imenso - soube parar a custo um remate envenenado que podia ter alterado o curso do jogo. Ronaldo foi o espelho da inoperância ofensiva merengue mas o colectivo madridista funcionou bem melhor que o contrário com Xabi Alonso e Sérgio Ramos numa forma impressionante, situação que melhorou com a troca de Khedira por Marcelo, com Coentrão a subir no terreno de jogo como foi ensaiado durante a pré-temporada. O golo de Benzema, empatando a poucos minutos do fim, devolvia justiça ao resultado e deixava antever um prolongamento onde o físico do Madrid ameaça impor-se ao do contrário. Até que surgiu Messi para impedir o sofrimento do Camp Nou. Como sempre!
No final do jogo reviveram-se os momentos de tensão dos jogos da época passada. Depois da correcção do jogo de Madrid ficou claro que ambos os clubes mantêm-se nas suas trincheiras. A entrada brutal de Marcelo a Cesc Fabregas - inadmissível mas profundamente exagerada pelo banco de suplentes do Barcelona, que se encontrava junto ao lance, e que precipitou uma invasão de campo do staff da equipa da casa, como tem vindo a ser recorrente - levou a um burburinho que acabou com Villa a agredir Ozil (ambos foram expulsos), Pinto a agredir Higuain, Mourinho a enfiar o dedo no olho de Tito Villanova, adjunto de Guardiola, que lhe responde com um soco nas costas, Marcelo e Messi a encararem-se cara a cara e muita, muita confusão. Foi mais uma vez o espelho da falta de serenidade que os confrontos Barça-Madrid têm tido nos últimos anos. Se já durante o jogo tinha ficado claro que os jogadores do Madrid voltariam a jogar no limite, ficou também evidente que os atletas blaugranas continuam a sua campanha particular de exagero teatral a cada lance contrário. Duas posições tão distantes que, inevitavelmente, acabam como acabam. O Madrid continua com a sua besta negra por cima e o Barcelona vê o rival cada vez mais próximo. O ano que só agora arranca promete ser, uma vez mais, electrizante.
O futebol vive de momentos como este. Em meia hora Sergio Aguero redefiniu totalmente o jogo do Manchester City e consagrou-se como a grande figura individual do arranque mais morno de uma Premier League no que vai de década. O seu estilo de jogo eléctrico encontrou em Silva o parceiro perfeito e os adeptos citizens podem, legitimamente, sonhar com grandes noites. Aguero, talvez a contratação do Verão, tem tudo para levar o clube azul celeste às estrelas.
O Swansea começou de forma brilhante o seu primeiro jogo na Premier League.
Ser o primeiro conjunto galês na história a jogar na máxima competição britânica trazia uma aura especial ao encontro que fechava a jornada inaugural da Premier. Mas se deixarmos de lado esse simbolismo histórico, o duelo entre Swansea e Manchester City tinha um significado bem mais profundo e futebolístico. Mancini tinha a oportunidade de apresentar ao mundo, pela primeira vez longe da neurose humana que é o Vicente Calderón, o génio de um argentino que parece bem mais tranquilo do que o temível "Apache" Tevez. Fiel ao seu hermetismo, Roberto Mancini preferiu esperar. Aguero, esse pequeno guerreiro com pés de seda e mente de génio prodigioso, sentou-se no banco e começou a perceber que a na Premier é preciso tempo para singrar. O jogo decorreu contra as expectativas, especialmente pela surpreendente réplica dos debutantes, e quando teve de mexer pela primeira vez no onze (um onze com Dzeko, Touré, Johnson e Silva e sem Tevez e Balotelli) o técnico italiano elegeu Aguero. O momento foi determinante. A equipa tinha acabado de marcar o primeiro golo (excelente trabalho do avançado bósnio) e o argentino entrava sem a pressão de ter de decidir o resultado. Mas talvez nem o italiano imaginasse a rapidez com que a sua nova estrela iria deixar a sua marca no jogo de uma equipa que pelo orçamento e plantel tem de se assumir como candidato a um titulo que escapa há mais de quatro décadas. Aguero chegou, viu e venceu e deu uma profundidade de jogo ao Manchester City que nenhum outro jogador do City of Manchester pode oferecer. Foi um momento de redefinição de tempo e espaço.
Quando Aguero entrou em campo, David Silva sorriu.
O jovem espanhol há muito que se sente desacompanhado em Inglaterra. Ao seu modelo de jogo rendilhado e cuidado, esse trademark da Espanha moderna, supera-o sobretudo a verticalidade e fúria dos seus colegas de ataque, de Balotelli a Tevez, passando mesmo por Touré e Dzeko. Sem parceiros à sua altura, Silva tem sofrido bastante e há muito que a chama de magia do astro canário se vem apagando. Mas Aguero significa para ele uma nova oportunidade. Habituado ao jogo espanhol, o homem que andou na passada época, literalmente, com o Atlético de Madrid às costas, percebe bem a importância de um modelo de jogo de toque curto e associação. A química entre ambos foi inevitável e deu um novo perfume ao jogo vertical e incontrolado dos citizens. Sem De Jong em campo, o técnico italiano colocou Touré ao lado de Barry, o que permitiu à equipa conservar a bola, e deixou o seu dueto hispânico à solta. O espectáculo estava garantido.
Mais do que os dois belos golos e a assistência para o tento de Silva, que foi outro nos segundos 45 minutos, foi essencialmente a forma como Aguero encontrou o meio caminho entre a raça do futebol inglês e a classe do futebol espanhol que impressionou. Poucos jogadores sul-americanos encontraram esse ritmo no historial do futebol inglês desde os dias de Villa e Ardilles. O "Kun" parece feito dessa madeira, um atleta que também é futebolista, um artista com corpo de potrero selvagem, filho da dureza que marca os calos nas mãos de tantos pamperos. Aguero não tem um corpo de gladiador mas atrás de si há um historial de dureza que lhe permite enganar o defesa mais duro. A obsessão que tem com o golo permite-lhe chegar mais depressa onde outros só conseguem imaginar que é possível por os pés. Durante o Verão especulou-se com a sua ida para o Real Madrid. Teria sido o jogador perfeito nas mãos de José Mourinho. Mas o ódio visceral entre clubes impediu o negócio (o Atlético exigia que o IVA da operação ficasse a cargo do clube merengue, mais 30 milhões do que pagou o City) e talvez uma parceria histórica entre o argentino e Cristiano Ronaldo. Em Manchester, cidade onde brilhou o português, com quem Aguero tem mais semelhanças do que diferenças, esperam ansiosamente pela melhor versão de um jogador que pode definir uma era no clube azul celeste. Longe de ser uma alma rebelde e conflictiva como Tevez ou Balotelli, em Aguero o técnico Mancini sabe que pode encontrar a âncora perfeita para o seu projecto.
Tempo ao tempo, Sergio Aguero está chamado a ser uma das máximas figuras deste ano desportivo. Provou-o num clube que vive numa profunda cápsula de pequenez mental, provou-o numa selecção argentina constantemente à deriva e agora tem todas as condições para ser a figura individual da próxima Premier League. Com um plantel milionário e um parceiro perfeito para o argentino na figura de Silva, o City este ano não tem desculpas. A dupla Aguero-City promete fazer estragos!
Depois de três semanas de férias em que o Em Jogo funcionou a meio gás, espero a partir de hoje voltar ao ritmo habitual deste espaço. A todos os fiéis leitores que mantiveram os índices de visitas em alta, mesmo na minha ausência, e aos que esperaram pacientemente pela minha tardia resposta aos comentários que foram colocando, um especial agradecimento!
Hoje cumpre-se um ano. Um ano do dominio imperial. O futebol espanhol vive a sua era mais dourada e como os célebres lanceiros de Tercios de Carlos V e Filipe II, são a inveja do Mundo. Em três anos Espanha soube onde tinha de tocar para revolucionar o futebol mundial. Uma supremacia incontestável de um modelo de jogo que faz escola e recolhe admiração em todo o Mundo. Um Império dominante, autoritário e sem fim à vista. Hoje faz um ano em que Espanha acreditou definitivamente em si mesma. Um ano sem maldições que quebrar. Um ano de glória.
Foi sofrido. Desnecessariamente sofrido. Injustamente sofrido.
O jogo violento dos holandeses deveria ter acabado antes, com o primeiro vermelho a De Jong ainda o árbitro não tinha apitado para o intervalo. Mas Howard Webb contemporizou e os holandeses abusaram. Fisicamente deram cabo dos espanhóis. Mentalmente nunca os conseguiram vergar. Casillas foi o salvador de sempre, com dois desvios providenciais. O mesmo que parou o penalty com o Paraguai, que defendeu o remate de Ozil com a Alemanha. Ele queria subir àquele palco com um sorriso desconhecido. Iniesta fez-lhe o jeito naquele seu estilo simplório e profundamente humano. Marcou o golo que fez 48 milhões de espanhóis chorarem de alegria (e muitos estrangeiros aplaudirem de admiração). Nessa noite Madrid esteve silenciosa. Na manhã seguinte nem um sinal de euforia, apenas a sensação de alivio. A sensação de quem não tem de olhar para os outros de cabeça baixa. Desde há um ano que Espanha é campeã do Mundo de futebol. E essa estrela, que jornais portam orgulhosos na capa, nunca ninguém lhes poderá tirar. Essa é a grande conquista histórica, a grande licção. O Império adormecido acordou e não tem nenhuma intenção de voltar a dormir. O Império espanhol onde o sol nunca se punha transformou-se no Império espanhol futebolistico. O dominio clubistico de Barcelona, o poderio mediático do Real Madrid, as vitórias europeias de Sevilla e Atlético de Madrid, a admiração à volta do modelo do Villareal, o triunfo das selecções de formação. E esse titulo Mundial.
Em três anos Espanha soube o que era sentir-se grande. De verdade. Emulou um feito só logrado previamente pela RF Alemanha. Em 2008 Luis Aragonés pegou numa equipa em que ninguém acreditava. De tal forma que o técnico estava despedido à partida. Pegou nesses bajitos e disse-lhes que a bola era dele e com a bola o que eles faziam mais ninguém era capaz de fazer. Fê-los, como disse Xavi Hernandez vezes sem conta, acreditar neles próprios. Quando a bola começou a rolar, Espanha acreditou. "Podemos" ouvia-se em todo o lado. E puderam mesmo.
Ao triunfo da geração de Aragonés, esse tiki-taka ofensivo, com um jogo pensado no miolo - onde só Senna tinha ordens para manter a casa limpa - e com um jogo sem extremos e muita troca de bola no miolo, seguiu-se a geração de Del Bosque. O histórico técnico do Real Madrid (a sua saída é ainda hoje uma das páginas mais negras da história do clube merengue) herdou o trabalho de Aragonés e aproveitou-se do trabalho de Guardiola. Recrutou Pedro, Busquets e Pique para uma equipa já de si de primeiro nivel. Soube ser o gestor de balneário que Espanha precisava. Ajustou tacticamente a equipa, deu-lhe equilibrio no miolo com as entradas de Busquets e Alonso por Senna e entregou a Xavi e Iniesta a batuta. Chegou sob forte pressão à África do Sul e com a derrota com a Suiça perdeu margem de manobra. Foi honesto com todos. "Agora temos de ganhar todos os jogos". E ganharam, até à final. Todos. E acabaram com a maldição espanhola.
O titulo mundial espanhol é incontestável e espelha bem a autoridade com que os ibéricos dominam o panorama internacional.
Mas é apenas o elemento mais mediático de uma realidade muito mais profunda e esclarecedora. Espanha está a viver agora o fruto de um fortissimo investimento realizado a partir dos anos 90. O sucesso das Olimpiadas de Barcelona trouxe um ar de modernidade a um país ainda atado aos tradicionalismos regionais e traumas dictactoriais. A fortissima aposta no turismo e no desporto abriram a Espanha ao mundo e o mundo a Espanha. Os jogadores encontraram centros de formação de primeiro nivel (com La Masia e Lezama à cabeça), os clubes viveram uma bonança finaceira única e o conceito de selecção comum começou a ganhar força face à disputa de poder clubistico que se vivia eternamente no balneário. Espanha apostou fortemente na educação dos atletas (e esse dominio é visivel em todos os desportos onde entra) e na sua mentalização para uma nova realidade. O grande triunfo espanhol é mental, de atitude. Acabou-se a "furia", acabou-se o muro das lamentações. Esta geração, a dos Xavi, Casillas e companhia, foi educada para vencer. E para vencer jogando bem, sendo fiel à sua identidade.
Foi um processo longo (um processo que Portugal também começou e depois desaproveitou) e trouxe alguns dissabores. Mas quando a ideia amadureceu, quando os primeiros filhos da nova Espanha chegaram à idade mental e fisica ideal, Espanha estava destinada a quebrar a malapata. Em 2008 a maldição dos Quartos, a maldição dos penaltys e a maldição de Itália chegaram num só jogo. Com frieza Espanha superou o desafio. Desde essa noite o país já sabia que seria campeão da Europa. Dois anos depois, na África do Sul, a derrota no jogo inaugural doeu mas permitiu aos jogadores (e a del Bosque) mostrar que o desnorte porque se guiou o desporto espanhol tinha desaparecido. Espanha tornou-se uma equipa mais pragmática, mais italianizada, sem perder o seu ideário táctico e foi superando equipas que se limitavam a defender e esperar, esperar e esperar...sem perder a paciência foi resolvendo os jogos, nos últimos minutos, aqueles onde as pernas falham mas a cabeça tem de estar desperta. O Império faz-se de soldados corajosos e generais astutos. Espanha juntou os ingredientes e transformou-se numa equipa praticamente invencivel.
Mas essa realidade, esse processo de crescimento, deixa antecipar uma hegemonia longa e autoritária. Não que Espanha vença todas as provas ad infinitum (que a este ritmo é possível). Mas que tenha criado os mecanismos para manter-se na elite competitiva mundial. O triunfo espantoso da Rojita, a selecção de sub21 com um superlativo Thiago secundado por um leque de jogadores que teriam lugar na maioria das selecções do Mundo, seguido dos sucessos recentes das selecções mais jovens, deixam antever que o processo de maturação segue por um bom caminho. Quando se vá Casillas haverá De Gea. Quando digam adeus Puyol e Capdevilla, há Botia e Monreal. Quando Xavi se reforme, está aí Thiago. E Martinez, Herrera, Muniain, Adrian, Mata, Deulofeu, Rafinha, Sergi Robert, Sarabia, Femenia, Iago, Montoya, Morata e quantos mais saiam dessa máquina de produção espantosa em que se tornou o futebol espanhol.
Depois de vencer Europeu e Mundial, o sonho agora é prolongar o ritmo de triunfos e alcançar uma hegemonia histórica. Nunca nenhum país conseguiu vencer três provas consecutivas desse calibre. E no próximo Campeonato da Europa o favoritismo espanhol é inquestionável. A equipa contará com os seus melhores jogadores na máxima forma, na idade perfeita. E como demonstrou o sucesso recente dos sub21, com um fundo de armário notável. O império espanhol ameaça prolongar-se pela eternidade. Sempre que a bola continua a fluir com naturalidade, os jogadores deixem de lado os egos de estrelas e o pastor de homens que é Del Bosque saiba manter a nau na direcção certa é impossível apostar contra esta equipa. Espanha vence, convence e ensina a cada jogo que disputa. Oferece variáveis de jogo, explora realidades opostas, encontra caminhos invisiveis e consagra-se com a humildade dos campeões. Como sucedeu com a França de virar de século e como a Alemanha dos anos 70 ninguém questiona uma superioridade tão evidente porque ver jogar Espanha é entender as multiplas realidades do futebol. Em 2012 não há maldições a quebrar. Há um império por eternizar. E de impérios os espanhóis entendem algumas coisas.
Há noites assim. Noites que convidam à épica histórica. Noites que ensinam como se sonha. As memórias recentes de noites históricas não estavam tão perdidas assim na penumbra. A contundente vitória do FC Porto frente ao Villareal não dita apenas o destino provável de uma eliminatória. Não permite apenas sonhar com uma final histórica para o futebol português. Permite entender que o jogo é mais do que um jogo, que a épica é sempre algo mais do que uma ilusão.
Quando Falcao colocou a bola num recanto de tal forma escondido ao olhar perdido de Diego Lopez, o estádio do Dragão sentiu o fim do peso de uma memória. Durante anos os adeptos azuis e brancos viveram com a mitica vitória frente á AS Lazio. Foi o inicio da era Mourinho, como se conhece, e abriu as portas do reinado europeu dos dragões. Nunca mais, nem na corrida para Gelsenkirchen, houve tanta emoção durante 90 minutos. Até hoje. Precisamente até ao golo de Cani. Um belo golo de uma grande equipa, como sempre demonstrou ser o Villareal, que estava a ser mais perigosa e mais certeira nas poucas ocasiões que o jogo permitia. Um golo que matou uma primeira parte equilibrada onde o FC Porto dominou com a bola mas em que o perigo era do celebre Submarino Amarelo espanhol. E que lembrou Claudio Lopez, esse argentino endiabrado que abriu o sonho dos adeptos da Lazio. E dos portistas também. Sem o saber.
Depois nunca mais houve luta. Cinco torpedos, cinco verdadeiros tiros ao alvo que afundaram um sólido submarino, uma equipa perfeitamente colocada no terreno de jogo mas que não teve oxigénio e cabeça para aguentar a avalanche ofensiva dos locais. Guarin e Moutinho, dois verdadeiros dínamos no miolo, permitiram estender a teia que amarrou por completo o talento de Cazorla, Valero e Bruno. E depois surgiu Falcao. Talvez o melhor ponta de lança puro do ano no futebol europeu. Talvez um dos jogadores mais determinantes do futebol actual, o colombiano destroçou com o seu timing perfeito o Villareal. Um penalti ganho e convertido de forma eximia, escondendo fantasmas recentes. Um gesto técnico primoroso, depois de mais uma lição de superioridade física de Hulk, que os espanhóis nunca souberam controlar, e dois cabeceamentos tão certeiros como o outrora mítico Jardel. Tudo noite de fantasmas antigos, tudo noite de evocações de glórias passadas. E tudo numa noite de um imenso sentido histórico. Não pelo provável apuramento mas pela dimensão da autoridade de uma equipa que há um ano apenas vivia na amargura de um fim de ciclo quase inevitável.
André Villas-Boas é, sem dúvida, o mentor desta rebelião. Deste grito de guerra.
A sua atitude ao intervalo transmitiu a tranquilidade que faltava e a motivação escondida. Se o Villareal controlou inicialmente o seu dispositivo táctico inovador - com Cristian Rodriguez mais como médio interior, abrindo a ala a Alvaro Pereira e abdicando assim do 4-3-3 habitual - com a pressão alta e asfixiante do segundo tempo não houve forma de lidar. A bola que na primeira parte circulava sem grandes pressas no segundo tempo lembrou-se de correr. E nunca mais parou. Velocidade, eficácia, garra, palavras de ordem de uma atitude que foi a base para a reviravolta.
Villas-Boas sabe do poder que a mente tem sobre os seus. Motiva-os como fazem poucos técnicos no futebol actual e o fantasma, outro, de Mourinho, é cada vez mais uma sombra distante. Quem diria.
Depois de humilhar, e o termo certo é esse, os russos do CSKA e Spartak de Moscovo, depois de bater, com esforço, sorte e eficácia o poderoso Sevilla, o Villareal parecia ser um desafio á altura. E esta equipa, ao contrário do que diz o resultado - mas também por isso - é uma grande equipa e soube estar como tal no Dragão. A táctica de Garrido funcionou e a equipa soltou-se cedo da pressão do FC Porto para explorar as falhas de marcação defensiva que a linha de quatro bem avançada deixava atrás. O golo de Cani parecia indicar tudo aquilo que se viveu á posteriori. Com o valor a dobrar do golo, o clube português sabia que precisava de mudar. E mudou. Não no esquema táctico, não nos interpretes, nem sequer na atitude. Mas na forma de olhar olhos nos olhos o rival. Hulk encarou, Falcao moveu-se, Guarin e Moutinho circularam e a bola nunca mais se sentiu cómoda nos pés dos espanhóis. Um, dois, três, quatro, cinco. Contas fáceis de fazer, contas habituais nesta corrida europeia. Contas de uma equipa que não conhece limites. Em Portugal, comprovadamente. Na Europa, inequivocamente. Independentemente do que espera os lusos no Madrigal - um clima fantástico mas que sentirá certamente a grandeza da tarefa - a épica remontada, essa lembrança de Sevilla, começa a sentir-se de forma cada vez mais intensa. Porque se os saudosos ainda se lembram dessa equipa como a cumbre da era Mourinho, o seu falso discípulo, André Villas-Boas, terá de viver com a sua própria sombra a partir de agora porque já não á volta atrás. A história, a do jogo, a que realmente conta, já tratou de guardar-lhe um lugar especial. A Europa, essa dimensão estrutural de um jogo ás vezes perdido em picardias nacionais, há muito que desconfia e agora sabe bem de que matéria se faz este renovado FC Porto.
Em Dublin, se a tendência se confirmar, a festa será portuguesa. Seja o Braga, seja o Benfica, "uma noite portuguesa, com certeza", é um facto consumado que a presença do FC Porto foi ganha a pulso, tal como há oito anos atrás. E se a Europe League não é a Champions League, porque está claro que não o é, três dos semi-finalistas têm praticamente garantido o lugar na elite europeia em 2011. Um forte aviso de que há outra face do futebol europeu para lá dos Clásicos, das polémicas e da confusão emocional em que se tornou a prova rainha da UEFA. E entre os três nenhum pode assinar uma época tão memorável como o FC Porto. Com dedo do mestre André, com a atitude de uma cultura desportiva, com um sonho que não esquece fantasmas antigos...com um conceito de épica que é o mesmo que dá sentido ás cores da História.
É mais do que uma doce ironia que a equipa por todos aplaudida como a referência do futebol europeu tenha aberto caminho para a glória europeia graças a tudo menos ao seu jogo de toque. A vergonhosa exibição arbitral no Santiago Bernabeu não definiu apenas a primeira-mão. Não condicionou totalmente a segunda mão. É mais do que isso. A UEFA mandou claramente a sua mensagem. Este Barça é, verdadeiramente, intocável!
José Mourinho lembrou Stanford Bridge. E com razão. Mal imaginava ele (ou talvez não) o que lhe esperava.
O mundo do futebol, entregue á calculada - até nisto - explosão de raiva de Pep Guardiola, passou ao lado a polémica decisão arbitral. Pedro Proença foi deixado de lado pela condição de compatriota do polémico setubalense (o que não impediu que um espanhol estivesse, e muito bem, no outro jogo onde actuaram três compatriotas) e para o seu lugar chegou um dos árbitros mais polémicos e criticados da Bundesliga. Um árbitro que, publicamente, professou a sua admiração pelo Barcelona (uma perigosa novidade que pode criar tendência) e por Messi. Um árbitro com uma péssima avaliação no seu próprio campeonato eleito para o jogo mais escaldante do ano. O critério UEFA voltou a ficar evidente.
A arbitragem de Wolfgang Stark não definiu o jogo. Confirmou essa tendência assustadora que tem o clube catalão de controlar o futebol europeu do campo aos escritórios. Se no relvado o Barcelona é imenso, imenso, fora dele é-o também. E mais quiçá!
Stark inventou uma expulsão certeira. Não só porque sem Pepe o Real Madrid ficou com dez durante uma fatidica meia-hora. Como também condicionou, automaticamente, o jogo da segunda volta. A falta do português sobre Alves existe, é clara e passivel de admonestação. Mas uma expulsão directa e cirúrgica não tem outra explicação possível que não o condicionamento total do clube merengue. Juntando a isso, se mais cabe, Stark decidiu igualmente expulsar Mourinho, voltando a condicionar a segunda ronda e a reacção merengue. Isso num jogo onde os jogadores blaugranas, uma vez mais, puseram e dispuseram passando totalmente ao lado dos comprometedores cartões. Messi, Busquets, Pedro, Villa, Alves, Mascherano, todos eles merecedores de admonestação, algum inclusive de expulsão por acumulação, e todos eles sãos e salvos. Missão cumprida.
Não foi uma novidade e em muitos sectores já se adivinhava algo do género.
A ascensão de Guardiola e do seu proclamado Pep Team - uma maravilha da arquitectura futebolistica, repito - começou naquela polémica eliminatória frente ao Chelsea de Guus Hiddink. Um Chelsea ultra-defensiva que soube antecipar o que fariam Inter e Real Madrid nos anos seguintes. E que só caiu depois de um golo nos instantes finais, um verdadeiro tiro no escuro de Iniesta, e depois de várias expulsões e penaltys perdoados com profunda amizade aos jogadores do Barcelona. Uma arbitragem histórica nos anais do futebol europeu que marcou tendência futura ao mesmo tempo que abria a lata de recordes dos culés.
No ano seguinte, uma vez mais, o Barcelona voltou a sentir o apoio da UEFA quando era mais necessário. Nessa altura a expulsão de Thiago Motta depois do enésimo teatro de Sergio Busquets, um notável médio, um péssimo jogador, podia ter feito ao Inter o que a arbitragem de Ovebro fizera ao Chelsea. Mas a vantagem do Inter era real e providencial e nem um golo, outra vez, nos suspiros finais, impediu os italianos de quebrar um enguiço histórico. Mas ficou o aviso, a tendência não ia mudar. Em 2011 o Arsenal sentiu-o na pele quando Robbie van Persie sofreu o vermelho mais ridículo da história da competição quando ambas as equipas lutavam taco a taco por um lugar nos quartos de final. E depois de massacrar brilhantemente o Shaktar Donetsk a noite de Madrid que relembrará as aziagas arbitragens de Leaf e Ellis, os árbitros ingleses que a UEFA designou em 1961 para terminar com o reinado de Di Stefano e companhia nos palcos europeus. Entre essa noite e esta, 50 anos depois, muito passou. Mas o resultado acaba por ser o mesmo. Contra 10, e uma equipa moralmente desmotivada, o Barcelona matou o jogo com dois golos excelentes de Leo Messi, até então desaparecido da ribalta. E matou a eliminatória de forma contundente. Particularmente porque o próximo jogo está assegurado de antemão, afinal é preciso fazer as coisas bem. Irónico é que os admiradores confessos desta equipa que a catalogam com uma facilidade insultante como a melhor de todos os tempos se encolham quando lembrados que a mesma formação que desenvolve o tiqui-taca com equipas mais humildes ou, digamos, tacticamente menos preparadas, seja incapaz de marcar nos jogos importantes enquanto a sombra não entra em acção. Foi assim em 2009, foi assim em 2010 e voltou a ser assim em 2011. Sempre com rivais distintos, sempre com o mesmo padrão de comportamento. Coincidências assim, puramente, não existem.
O Barcelona continua a ser uma grande equipa, com a bola nos pés a melhor do Mundo e uma das mais entusiasmantes de sempre. Mas cada vitória ganha desta forma lança uma profunda sombra sobre o seu real valor. Nenhuma meia-final da máxima prova europeia acabou sem polémica e os blaugrana acabam por ser, tristemente, os protagonistas. A expulsão de Pinto, ao intervalo, mostra o estado de espírito dos seus jogadores. A atitude dos colegas no terreno de jogo, a quem tudo é permitido, com uma reverência quase tocante, não deixa margem para dúvidas. O cinismo do Pep Team é proporcional ao talento dos seus artistas. E quando a balança está desnivelada, dentro e fora de campo, o futebol deixa de ser uma competição e passa a ser muito pouco. A história tratará de o comprovar, como sempre faz...
Um dia, numa tertúlia organizada pelos Cahiers du Cinema, o então critico Jean-Luc Godard surpreendeu a mesa afirmando que o "travelling é uma questão de moral". Uma frase nuclear para entender a filosofia do movimento Nouvelle Vague, essa sensação de superioridade moral que Godard sentia que acompanha o seu trabalho e os dos restantes elementos do movimento. O futebol contemporâneo podia perfeitamente reunir-se à mesa e ouvir algo similar. "A posse de bola é uma questão de moral"! Em Barcelona tentam vender essa superioridade intelectual mas o futebol está repleto de muitas morais...
Há uma histeria colectiva no ar. Irrespirável por certo.
Talvez o mesmo grito surdo que tinha rasgado os ouvidos de tantos no passado. O futebol está repleto de espartanos. De bárbaros. De egípcios preguiçosos. Mas há só uma Atenas. Uma reluzente capital da razão, do conhecimento, da verdade absoluta. Barcelona quer ser a Atenas do futebol mas para sê-lo antes tem de convencer o mundo que todos somos bárbaros, espartanos, persas, egípcios e ignorantes. E que devemos contemplar e adorar a luz da razão sem queixume. Os ensinamentos de Sócrates, Platão, Aristóteles são hoje as palavras de Cruyff, Xavi ou Rexach. Claro que Guardiola, nisto, não é como Temistocles, arrogante até ao fim.
Essa histeria que Can Barça propaga ganhou adeptos na imprensa. O jogo bonito, o tiki-taka inventado por um cronista espanhol já falecido, que a morte outorga esse sentido poético às coisas, parece que irrompeu do nada nas pernas dos culés. E que se tornou no seu producto exclusivo. Ninguém consegue entender a verdade a não ser eles da mesma forma que o champagne não é champagne senão cava. Alguns estão lá perto. Arsenal, Dortmund, Villareal...mas mesmo estes, em confrontos directos, são indignos da verdadeira luz. Ouvir hoje Xavi Hernandez, talvez o melhor jogador espanhol da história, é algo profundamente comovedor. A roçar o ridículo. O centro-campista que pauta o jogo da escola blaugrana quer emergir como o arauto dessa verdade absoluta e impoluta. Depois de cada jogo sobe ao púlpito e discursa com a fleuma de um orador ciceriano. Fala dos indignos, das tácticas violentas e desproporcionadas, da ignorância e fraqueza humana e intelectual do rival e da superioridade moral de uma ideia de que só ele, e os que são como ele, podem falar com total propriedade. É fácil ouvir os seus sequazes com o mesmo discurso, mesmo os mais traquinas Alves, Valdés e Busquets, que passam tanto tempo nos palcos dos anfiteatros atenienses, perdão, barceloneses, que ganham dotes interpretativos especiais. Essa mensagem ganha eco com a imprensa, sempre com sede de semi-deuses, e do público que em geral come o que lhe dizem para comer e não protesta. Não pensa. E pior de tudo, não tem memória. Cruyff fala na sua posse de bola como Godard falava dos seus travellings. Com ele a câmara era uma arma. Com Cruyff a bola também. A Nouvelle Vague resultou curiosa, teve um ligeiro sucesso comercial e depois matou-se a ela mesma com uma série de sofríveis filmes que terminaram com o enterro de uma ideia. Mas a intelegentzia, a critica, continuou a adorá-la e aos seus herdeiros. Em Barcelona logrou-se o mesmo. Por muito mal que seja a performance ela será adorada porque assim o diz o senhor. Ou a razão iluminada, que por aqueles lados acaba por ser o mesmo.
Esses atenienses, como os do passado, estão de tal forma isolados que vivem numa concha, alheios ao resto do Mundo.
Talvez, no meio de tudo isto, Guardiola seja aquele que melhor percebe esta realidade. Afinal, ao contrário dos seus, ele correu mundo e ouviu antes de agir. Ouviu Bielsa, ouviu Capello, ouviu Sacchi, ouviu Van Gaal, ouviu Ferguson, ouviu..pasme-se, Mourinho. E percebeu que como na vida também o futebol tem muitas morais. E nenhuma é superior à outra. A moral da bola, a moral do espaço, a moral do golpe, a moral do homem, a moral da defesa, a moral de... Um sem fim de narrativas com o seu passado, presente e futuro. O futebol inglês que dominou o futebol europeu durante tantos anos nunca precisou da moral de Cruyff para atingir o brilhantismo. A mágica geração italiana dos princípios dos 60 e mais tarde, do final dos anos 80 e princípios da década seguinte fez da posse de bola algo supérfluo se o espaço era ocupado devidamente. E essa sua moral também, hellas, triunfou. Talvez Cruyff se lembre dessa longa notte em...imagine-se, Atenas. Esses 4 golos sofridos foram em si uma lição de moral. Há travellings que têm de parar em algum momento.
Falava Godard ao ver Hiroshima, Mon Amour, essa bela obra inaugural da filmografia de Alain Resnais. Podia falar Cruyff do último Real Madrid vs Barcelona que hoje à noite se repete, pela segunda vez em quatro tentativas de evangelização. Porque, não nos enganemos. O Barça já não joga futebol: evangeliza. Educa o futuro. Quando Messi chuta a bola contra os adeptos rivais, ri e depois muda por completo a expressão facial, está a evangelizar. A fazer com que o Mundo acredite que o seu semi-Deus actual (como já foram Ronaldinho, Rivaldo, Figo, Ronaldo, Romário...todos não-catalães, todos mercenários da nova Atenas) é incapaz de cometer tal acto. É tudo um engano, tudo um erro de percepção. O "Messias" caminha sobre as águas mas nunca terá tanta humanidade em si para perder a cabeça como, digamos, um falso Ronaldo. E para calar bocas, as paredes dissolvem-se, o discurso muda e começamos a ouvir o chavão, sempre o mesmo eterno chavão. O de melhor equipa de todos os tempos.
Será que alguém nas redações realmente perdeu todo o seu tempo a ver todas as equipas da história? Será que uma equipa em actividade pode comparar-se a projectos fechados e focalizados no seu próprio tempo e espaço. O Liverpool do final dos anos 70 não foi também a melhor equipa de todos os tempos? O Real Madrid do final dos 50? O AC Milan de Sacchi? O Inter de Herrera? O Manchester de Busby ou o de Ferguson valem? Lá Maquina do River? O Ajax de Michels?E as selecções da Hungria, Austria, Brasil, Alemanha, Uruguai, Argentina, França, Holanda? Que fazer com todas essas equipas que nasceram, cresceram, morreram e tudo sem evangelizar. Eram espartanos, bárbaros, egípcios ou persas? Não nos deixam saber.
Falamos de uma equipa cujos feitos em titulos se reduzem a conceitos básicos do futebol contemporâneo, feitos que nem sequer destoam do seu historial particular ou do país em geral. Falamos de um estilo de jogo que também não inventou nada. O Dream Team de Cruyff já tinha aplicado o modelo de rondo central. O Milan de Sacchi já tinha instrumentalizado o poder da pressão defensiva. E Messi não inventou a posição de falso-avançado. Foi um tal Hidegkuti, em Wembley, num mitico Inglaterra-Hungria. Mas não digam a ninguém, serão queimados como hereges.
Ao poderoso Barcelona cabe hoje mais um duelo com os violentos espartanos. Uma equipa que não sabe jogar futebol porque não bascula lateralmente durante hora e meia à procura que o rival se canse, adormeça como a ler um livro de Proust, e abra espaços na defesa. Não, ai dos espartanos que gostam dos quatro toques antes do grito de guerra. Os espartanos italianos e ingleses migraram para Madrid e plantam cara à inigualável Atenas. Por essa Europa fora os demais bárbaros, persas e egípcios esperam a sua hora. Também eles são evangelizados à distância com essa filosofia do toque curto, do futebol lateral, do teatro dos seus interpretes e da eficácia de uma equipa que precisa de fazer quatro vezes mais passes para chegar ao mesmo objectivo que o rival: o golo, afinal o que realmente importa nisto do futebol. Mas não digam a ninguém, não contrariem a palavra do senhor. Sentem-se no sofá e recebam o evangelho blaugrana, sintam-se inferiores porque a vossa equipa não tem a capacidade intelectual de João César Monteiro. Afinal a moral deles, dos que têm a luz, é essa. Fazer sentir todos os outros nas trevas. Até que surgem flamantes dispostos a iluminar o mundo e resgatá-los desses espartanos e desse passado vergonhoso de um desporto que ensinou Camus a ser Homem.
Matador. Instinto assassino. Letal. Tiro. Bala. A linguagem do golo é uma linguagem acente na brutalidade da acção. O futebol é um dos poucos desportos que se decidem, habitualmente, por números minimos. O golo tornou-se portanto, com o passar dos anos, em algo cada vez mais raro e precioso. Para reforçar esse conceito de raridade o vocabulário tornou-se cada vez mais bélico, guerreiro...mortal. A mitica frase de Shankly falava em vida e morte...só se esqueceu de dizer que mais do que futebol, o que ele queria explicar era a essência brutal do golo.
Os goleadores são especies raras. Aves em vias de extinção que valem o seu peso em ouro. Em golos.
Longe longe vão os dias das goleadas semanais que demonstravam com claridade a diferença entre os jogos tranquilos, verdadeiros passeios no parque, e as batalhas duras e encarnecidas entre rivais do mesmo nivel. Os golos nas goleadas eram cantados pelos relatos radiofónicos com uma certa ternura inocente. Não eram necessários logo não eram violentos para quem os sofria e para quem os marcava. Um status quo emocional que liberava a mente. Mas quando o jogo era a doer, quando o jogo era visto como uma batalha, começavam a brotar as palavras aprendidas de memória nos anos da guerra: franco-atirador, sniper, matador, killer, ponta-de-lança, bombardeiro...
O futebol moderno é o mais parecido que o Mundo ocidental conhece das guerras desde 1945. As guerras acabaram nos campos de batalha e os confrontos entre nações, as guerras civis entre regiões e cidades, os confrontos de rua entre clubes da mesma terrinha, tudo isso mudou-se para um relvado com umas dimensões fixas a lembrar os dias das arenas romanas. A Alemanha tornou-se no principal dinamizador da CEE junto com os franceses, holandeses e belgas, velhos rivais de frente, mas no campo de futebol manteve a chama da rivalidade bem viva. Os jogos entre selecções passaram a ser ajustes de contas de politicas economicas, de fracturas sociais e de velhas inimistades. Quando Franz Beckenbauer se queixou do penalty assinalado na final de 1974 ao árbitro inglês Jack Taylor disse-lhe, categoricamente, "Você é inglês!". Não questionou a falta, questionou a nacionalidade. A guerra tornou-se a base do futebol moderno e nem os mitos do fair-play conseguiram distinguir essa brutal realidade. Muller logrou no quente México de 70 o que a Luftwaffe não conseguiu nos céus de Londres nos anos 40: bombardear a Inglaterra de volta a casa. O "bombardeiro", talvez o mais completo e letal - letal, imagine-se - goleador da história podia ser visto como qualquer coisa, menos um soldado. O seu ar pacifico, a sua personalidade tranquila ter-lhe-ia custado a vida na frente. No relvado transformou o seu killer instinct numa preciosidade que fez história. O simpático Gerd Muller tornou-se no mortal Gerd Muller. E no herói de guerra para os seus, claro está.
Marcar mata o rival. Se o resultado está a zero, mata um rival igualado.
Se o resultado está a favor, mata qualquer esperança de reviravolta. Se está em contra, mata o sentido de superioridade. E se vai a caminho de goleada, mata a moral definitivamente. Matar deixou de ser uma palavra perigosa. Sem sangue nas mãos a metáfora do jogo aliviou a descarga emocional da sociedade ocidental. Os americanos gostam de desportos com muitos pontos (ou golos) porque nunca deixaram realmente de matar. Os europeus não. A partir do momento em que limparam as mãos, começaram a procurar um novo escape. A guerra da tribo do futebol, como apontou sabiamente Morris no seu imperdível livro, é um ritual quase tribal de sacrificio aos deuses. Os adeptos não aplaudem uma defesa, aplaudem um guardião que esquiva o tiro com uma sapata de super-heroi. Os adeptos não têm paciência para o futebol de toque e dá, para os sprints, qual corrida da cavalaria. Mas exaltam-se orgasmicamente com cada disparo certeiro no peito do rival. Com cada golo brutal.
Os capocanonieri, os killers, os matadores tornaram-se em peças nucleares destas guerras que duram nove meses, de Agosto a Junho. Tornaram-se nos novos gladiadores, coroados com a coroa de louros e aclamados pela multidão. Não se sabe se a eles, ao contrário dos césares, há alguém ao lado a soprar-lhes ao ouvido que são apenas humanos. Porque se esquecem rapidamente da sua condição. E ás vezes perdem-na até. Acaba a pólvora, diz a giria, acaba a fome de matar. O goleador perde essa força divina e vulgariza-se. É mais um entre muitos, não serve para esta luta brutal.
A UEFA e a FIFA continuam a defender o fair-play e a verdade é que o futebol é dos desportos mais limpos. Mas não deixa de ser um espelho dessa luta de classes moderna, desse confronto de nações. Um Mundial ou um Europeu funciona, sobretudo, porque é visto pelos adeptos como um torneio medieval. Onde cada país defende a sua bandeira, onde cada imprensa transforma cada segundo de jogo numa questão nacional, racial, cultural, economica. Os pequenos podem vingar-se dos grandes. Os periféricos podem desforrar-se dos paises centrais. O sul do norte. Os velhos inimigos ajustam contas e ninguém sai ferido. As balas são brutais mas de pólvora seca. E no final todos voltam para casa. Só o orgulho resulta ferido.
A brutalidade do golo é o espelho da linguagem bélica do beautiful game. No basket, andebol, hockey, baseball, rugby ou nos desportos motorizados há um discurso mais tranquilo. Mas a voracidade a que a bola circula lembra os guerreiros nos campos de batalha a saltar de flanco para flanco para abater o rival. Os treinadores tornaram-se nos novos estratages, nos novos Napoleão e Alexandre. Os jogadores nos guerreiros intrépidos. Há soldados, legionários e capitães, como num qualquer regimento. O golo é suposto ser um momento de alegria, uma ejaculação desportiva. Mas a linguagem da bola que entra é, paradoxalmente, uma linguagem de morte. Emocionalmente festejamos tanto a alegria da vitória como a tristeza da derrota do rival. Afinal, o golo é tão primitivo como o Homem.
Quando em 1965 os Beatles apresentaram ao mundo o album Revolver, a história da música moderna nunca mais voltou a ser o mesma. O conjunto de Liverpool tinha encontrado a sua alma e depois de vários albuns que soavam ao mesmo que se podia ouvir em qualquer sitio arrancaram para uma série de trabalhos inovadores e originais. Até ao fim. O seu nome ficou para a posteridade. Os das (muitas) restantes bandas não. Ao saber reciclar-se e inovar, os Beatles entenderam como se contorna a neurose da vitória, uma doença que abala fortemente o mundo do futebol. Os projectos desportivos têm vida curta e não sabem como encontrar a sua alma. Apagam e começam do zero. E a neurose vence. E a imortalidade vai-se.
O grande Ajax dos anos 70, aquele que deu azo ao conceito de Futebol Total, nasceu numa tarde fria de 1966. Dezembro para ser mais preciso.
O então modestissimo clube holandês, profissionalizado há um par de anos, derrotou o Liverpool inglês por 5-1. Com quatro golos na primeira parte. O público não conseguia acreditar. Bill Shankly também não. A equipa foi eliminada pelo modesto Dukla de Praga na eliminatória seguinte. E só três anos depois chegaria à sua primeira final (perdida por 4-1 ante o AC Milan). E só cinco venceria a primeira de três consecutivas. Durante esse periodo Rinus Michels, que herdou a mentalidade ofensiva de Vic Buckingham e uma fornada de jogadores maravilhosos capitaneados por Johan Cruyff, foi-se reinventando. Uns anos foi a defesa, outros o ataque, até que chegou ao conceito Total. Um projecto que tardou cinco anos até funcionar a todos os niveis. Uma eternidade para o futebol de hoje que, como todos, quer tudo já. O imediatismo tomou conta da sociedade e transformou o desporto num paciente neurótico crónico. Vencer deixou de ser o consagrar de uma ideologia, de uma escola, de um grupo. Passou a ser uma verdadeira neurose médica.
Como aquele conjunto ajaccied, também o Liverpool de Shankly começou a desenhar-se na Second Division, quando o escocês chegou e impôs o seu método e abriu passo ao Boot Room. Daria ao clube de Merseyside 20 anos de glória, mas Shankly nunca venceu uma Taça dos Campeões Europeus. Tratou, simplesmente, de preparar o caminho. Hoje a nenhum técnico lhe é permitido tanto. Os clubes, salvo raras excepções, pensam que a vitória é a única justificação. Esquecem-se de que há três ou quatro provas a disputar e muitos que as disputam. Os vencedores são a excepção, não a norma. E nunca poderá haver mais excepções do que normas. Pena ninguém se dar conta.
O Real Madrid era o clube de moda nos anos 50 quando a televisão resgatou o futebol do mundo da rádio. As gerações de então cresceram a admirar os "merengues" e clubes de moda nos anos 70 como Leeds e Monchenlagbach, mudaram o equipamento para o branco impoluto para reencarnar o espirito do clube de Madrid. Mas hoje o histórico vencedor de 9 Champions League vive num estado frenético e catatónico de dificil cura. A cada ano que passa sem titulos a histeria toma controlo da Castellana. O Real Madrid não aprendeu nunca a perder. Não aprendeu nunca a ter paciência. A confiar no tempo. Treinadores, presidentes, jogadores vão-se sucedendo em catadupa sem deixar uma marca de futuro impressa. Milhões e milhões de euros depois, os directivos do clube branco esquecem-se do mais importante: que só pode ganhar um e nunca é o mesmo quem ganha. Alguns, simplesmente, vivem num planeta à parte.
Se o Real Madrid é a epitome do futebol actual, desesperado pelo agora, incapaz de pensar no amanhã, o Barcelona tornou-se no exemplo perfeito da excepção. Do clube que ultrapassou a sua neurose pela vitória. E que assim conseguiu, finalmente, começar a ganhar. Olhar para o palmarés do Barça até 1990 dá pena. Pequeno demais para um clube tão importante. O vitimismo catalão criou amigos em todo o Mundo e dessa solidariedade social viveram os blaugranas até chegar Cruyff. O holandês soube unir o que de melhor tinha a escola holandesa (o pressing, o futebol de toque, as transições) e a escola catalã (a raça, o querer) e moldou a primeira equipa da cidade Condal a ter um sucesso real. Mas precisou de anos de derrotas para lá chegar. O Pep Team começou a moldar-se com a primeira derrota de Cruyff no banco do Barcelona. Ou, se quisermos, entre a tristeza da final perdida de Sevilla contra o Steaua (o vitimismo blaugrana no seu melhor) e aquela tarde de glória do Ajax em 1966. Os processos maduraram, a vicória deixou de ser tão importante. E o tempo ganhou o seu espaço. Hoje o Barcelona, mais do que um projecto consolidado, é um projecto filho de outros projectos consolidados. Preparado para perder, sabendo como ganhar. Todo o contrário do seu eterno rival que nunca soube lidar com a neurose da vitória.
Se o Barça é a excepção (como o Arsenal de Wenger ou o Manchester de Ferguson), a regra continua a ser a monotona postura das direcções que acreditam constantemente no começar do zero. O Sporting de Braga, a viver a sua era dourada, ameaça cair nesse erro deixando sair Domingos Paciência, um técnico que aproveitou a boa onda do projecto desportivo do clube (bem gerido desde a chegada de Salvador) para levá-lo a outro patamar. Recomeçar do nada apenas porque o sucesso interno não se reproduziu é o maior erro que pode cometer o conjunto bracarense. O Braga deve entender que o resultado de 2010 é a excepção. Para tornar-se norma tem de se tornar excepção mais vezes. E para ser excepção tem de haver anos onde a norma se imponha. Mais claro impossível.
O Benfica, por outro lado, tem uma oportunidade de ouro de seguir um modelo que nunca funcionou na Luz, outro clube nervoso, como o Real Madrid, que lida mal com as derrotas mas pior com as vitórias. Quando a depressão da derrota é substituida pela euforia das vitórias, e dos titulos, o clube perde o norte. E esquece-se da realidade em que convive. Deixar partir Jesus, por muito polémico que o técnico possa ser, será sempre um erro porque o amadorense tem a vantagem de ter o tempo do seu lado para moldar um projecto de longo prazo. Mas para isso os adeptos e directivos têm de aprender a lidar tanto com o medo de perder como com a neurose de ganhar. Nenhum clube vence tudo todos os anos por muita demagogia que imprensa, directivos e equipas técnicas tentem vender. Quando superarem essa fobia, estarão no caminho certo, o mesmo que percorre o FC Porto há largos anos. O clube das Antas escolheu o presidente como figura central, em lugar do técnico, mas aprendeu a conviver com as vitórias. Talvez por isso nos anos em que elas, com naturalidade, não aparecem, nunca há tanto drama nem guerra civil entre os seus. Apenas a compreensão de que os ciclos são feitos de altos e baixos e não de circulos perfeitos. Uma licção que mais ninguém em Portugal parece ter aprendido e que será fundamental para que o futebol português possa crescer.
Olhar para os projectos falhados de Real Madrid, SL Benfica, SC Braga, ou qualquer outro clube contemporâneo, é como seguir uma das muitas bandas que, desde os anos 60, se repetem nas listas de vendas. Um êxito pontual, aqui e ali, e muitos singles atirados directamente para o esquecimento. A norma diz-nos que assim será sempre. Os Beatles tornaram-se únicos porque souberam ser iguais a si próprios e mesmo nos momentos de maior fracasso pareceram estar no controlo da situação. Yellow Submarine não está à altura de Revolver, mas abriu passo a Sg Peppers Lonely Hearts Club Band ou The Beatles, as suas obras-primas. Da mesma forma que o Barcelona de Antic, por exemplo, é um oásis num projecto que conta com Cruyff, Robson, van Gaal, Rijkaard e Guardiola no seu best of. Bandas históricas, como clubes com projectos de futuro, sempre souberam lidar com a neurose da vitória. Eles são a excepção. Será que algum dia poderão tornar-se na norma?
Na Luz as formas sempre foram traiçoeiras e as suspeitas sobre a verdade desportiva um fantasma, que pairava sobre o tapete verde por onde brilharam alguns dos maiores jogadores da história do futebol luso, qual a desaparecida águia Vitória. A manobra da direcção encarnada para facilitar a passagem dos encarnados à próxima fase da Taça de Portugal resume toda a falta de ética que faz do futebol português um doente terminal com pouca esperança de recuperação.
O segundo melhor ataque do futebol português, enrabietado por uma série de vitórias consecutivas, media-se à segunda melhor defesa da prova numa eliminatória atrasada da Taça de Portugal. Como ultrapassar tão espinhoso obstáculo sem suar em demasia?
A resposta encontrou-a, antes de Jorge Jesus, a direcção encarnada. Dias antes do duelo da tão propalada "festa da Taça" a imprensa especializada começou a anunciar o interesse dos encarnados na figura central da defesa algarvia. Táctica velha em Portugal, com o Benfica como habitual protagonista (mas não só), e que visa tanto desmotivar o rival como empolgar os adeptos/leitores. Se o caso ficasse por aí, como tantos outros, o mal seria menor. Afinal, a fortaleza mental continua a ser condição sine qua non para ser-se um bom jogador. E o central brasileiro Jardel, não confundir com a eterna promessa por cumprir da direcção encarnada, é-o ou, pelo menos, tem demonstrado sê-lo com inusitada regularidade nesta temporada. Mas o caso foi mais longe, tristemente mais longe. E definiu um jogo que estava ganho antes sequer do apito inicial.
Jardel, convocado pela equipa técnica e previsivel titular, foi retirado da lista de titulares do Olhanense a meio da tarde. A direcção encarnado reuniu-se pela manhã com a homóloga algarvia e decidiu avançar para a contratação do jogador. A poucas horas do duelo directo entre ambos. E cometeu assim um dos actos mais anti-desportivos de que há memória no futebol luso. Mas que não é único e que, afinal, sucede a outros casos passados, quase todos curiosamente na Luz, como os do academista Marcel ou o lateral Jorge Ribeiro sem esquecer o mais recente dos casos. Fábio Faria, titular no jogo do titulo pelo Rio Ave na passada época quando já tinha lugar assegurado no clube encarnado para...o dia seguinte. Uma realidade que nem o técnico do Olhanense, Daúto Faquirá, soube contornar quando recebeu a informação de que o seu jogador mais vezes utilizado não jogava por motivos de força maior. Ele há coisas...
O Benfica venceu na primeira parte com facilidade uma equipa desmoralizada e descaracterizada.
Os algarvios até já tinham perdido na Luz para o campeonato mas, desta feita, nem tiveram opção a apresentar batalha e os encarnados continuam assim a corrida ao único troféu de prestigio a que podem optar no final da época. Uma velha obsessão de Jorge Jesus que agora terá de se medir ao Rio Ave para seguir na peugada do Jamor. Onde poderá encontrar-se, de novo, com o FC Porto, que resolveu com serviços minimos a última equipa dos campeonatos da Federação na prova.
O futebol português continua assim a viver um duopólio que, quando não resolvido no relvado, é resolvido fora dele. Independentemente de cortar com todos os laços da ética desportiva. O Benfica tem todo o direito a optar a um jogador, o Olhanense (e a Traffic Sports) todo o direito a vender. E Jardel em aceitar saltar de bando. Nada a dizer.
Mas realizar uma operação destas a meia dúzia de horas de um jogo decisivo para ambos e impedir assim, sem margem de manobra, que uma equipa actue como tinha previsto, destruindo à partida os planos tácticos do visitante é, no minimo, anti-desportivo. Se a justiça desportiva existisse, em realidade, até podia ser criminal. Afinal não foi na Premier League que um clube foi multado por alinhar jogadores poucos habituais contra um dos candidatos ao titulo num jogo a meio de semana? Se na Old Albion isso - que no fundo é uma decisão táctica do técnico - é punível, imaginemos o que seria uma situação similar num campeonato a sério, com leis a sério e com uma cultura desportiva verdadeira?
A actuação da direcção encarnada, a mentalidade pequena da direcção olhanense e a conivência das autoridades que regulam a prova (leia-se Federação Portuguesa de Futebol, ela também a viver na maior das ilegalidades) diz muito sobre o estado comatoso da moral do futebol luso onde tudo vale para ganhar. E onde todos apontam o dedo uns aos outros para passar a mensagem de que o pecado do rival lava o meu pecado. Os adeptos benfiquistas lembrar-se-ão certamente disso na hora de se defender. Não sabem como fazê-lo doutra forma. Porque não há, realmente, outra forma.
Jardel irá para o Benfica, como foram Marcel, Jorge Ribeiro e Fábio Faria (e tantos outros nomes no passado recente e distante) e é bem possível que não volte a jogar até ao final do ano. Nestes negócios de ocasião o futebol português é perito em validar contratações ou empréstimos que funcionam mais como manobras de controlo de bastidores do que necessidades futebolisticas. A falta de valores aliada à falta de qualidade de jogo faz da Liga Sagres (e das restantes provas menores) um dos campeonatos menos interessantes e captivantes do Velho Continente. Salvando-se as honrosas prestações europeias da última década (os anos de ouro do FC Porto, a final europeia de Sporting, os êxitos inesperados de Boavista e Braga), o futebol português é hoje um doente apestado em modo terminal. A bola tem a sua própria ética. Em Portugal ninguém parece importar-se muito com isso.
Se hoje Pep Guardiola guarda em si a ponte entre a filosofia de Cruyff e o espirito catalão de Can Barça, o seu herdeiro (dentro e fora de campo) será provavelmente Xavi Hernandez. Talvez o melhor futebolista espanhol da história, o médio centro de Terrasa é já parte da história. Mas comete um erro de julgamento crasso, talvez movido pelo confronto histórico entre o seu clube e Mourinho, em declarar que o português não entrará para a história. Porque Mourinho já lá está.
Não é a primeira vez que o diz e Xavi Hernandez costuma dizer o que pensa.
Fanático blaugrana como poucos, atleta exemplar e um artista sem igual no panorama desportivo actual, o número 6 do Barcelona é talvez o culminar de uma escola táctica que começou há 25 anos atrás com Johan Cruyff. Demorou a consolidar-se no onze blaugrana e quando se afirmou, definitivamente, tornou-se na peça chave do renovado jogo culé. Venceu tudo o que havia para vencer e entrou, por direito próprio, na galeria dos históricos. E sabe que para fazer história é preciso ganhar. O Xavi que hoje é uma figura consensual no mundo do desporto rei é producto dos titulos. Do Barcelona dos upgrades cruyffianos, primeiro de Rijkaard (onde não era ainda figura determinante), e depois de Guardiola. Mas, essencialmente, da era de ouro do futebol espanhol, consagrado pelos titulos de campeão da Europa e do Mundo com a Espanha. Da qual é a bussola, o corpo e a alma.
Os triunfos valeram a Xavi um protagonismo natural, do qual ele tenta escapar, escudando-se nos fenómenos que o acompanham na orquestra. E que sem ele, e mais do que ninguém o médio sabe-o, são muito menos do que aparentam. O prestigio deu-lhe voz, particularmente em Can Barça. E ele exerceu-a, sem temores. E declarou guerra. Ao grande rival do seu clube, ao mentor da filosofia oposta à que vive e sobrevive em Can Barça. Ao mesmo homem que os seus dois mentores, Cruyff e Guardiola, atacam quando podem e como podem. Ao único técnico que, sabe, os pode travar. Mourinho.
Declarar que o português nunca entrará para a história do futebol, ao contrário de Cruyff, Guardiola, Wenger, Sacchi e Ferguson, é uma declaração tão inexacta que surpreeende que venha da boca do homem com os pés que menos toques de bola erram no mundo. Xavi sabe o que diz e acredita pouco neste dardo envenenado. Sabe perfeitamente que o mundo do futebol sobreviverá ao seu Barcelona como sucedeu com todos os estilos que se impuseram em determinados momentos da história. A única coisa a que o mundo do beautiful game nunca sobrevive é aos titulos. Hoje fala-se no Real Madrid porque sumou mais titulos do que ninguém nas competições em que participou. Falou-se no Liverpool do "Boat Room" porque quase que emulou o feito dos merengues. Fala-se no Milan pós-88 porque venceram tudo o que havia para ganhar. E fala-se neste Barça porque repete a mesma fórmula de sucesso. Ganhar. O que interessa realmente.
E a verdade é que não há no activo um técnico que tenha ganho tanto em tão pouco tempo. Não é um gentleman à velha usança (mas são-o o inefável Ferguson, o resmungão Wenger ou o pacifista Pep?), nem sequer é um inovador táctico. Aliás, desde a defesa em linha com pressão alta asfixiante de Sachi que o futebol não conhece uma mutação táctica significativa, senão que pequenos ajustes pontuais que se adaptam a circunstâncias pontuais. Todos os técnicos no activo com sucesso são filhos do italiano. Sem excepção. O sucesso do Pep Team face ao Dream Team reside, essencialmente, nessa simbiose entre a equipa do italiano e do holandês. O de Mourinho está na sua força de caracter, na forma como comando os seus exércitos. Tacticamente as suas equipas não inovam, mas seguem à perfeição as ordens do general. A frieza e disciplina táctica do FC Porto, Chelsea e Inter entrarão, certamente, na história tanto como o espirito livre e criativo de blaugranas e gunners, a antitese desportiva da década ao trabalho defendido pelo português.
Mourinho mistura o que de melhor tem o Manager no conceito britânico do termo. Tem a mentalidade aguda de Helenio Herrera, o espirito critico de Brian Clough, o sentimento emotivo de Bill Shankly e a franqueza de Rinus Michels. E usa-o para proveito próprio algo que o futebol de hoje entende pouco, nessa obsessão constante pelo poder do colectivo. Homens livres como o luso perdem mediaticamente para o grande público na comparação com os homens de clubes. Tal como Clough, que antes de chegar ao Nottingham, onde ficou duas décadas, também Mourinho procura o melhor laboratório para as suas experiências. Xavi certamente saberá que o técnico inglês, bicampeão europeu, faz parte da história apesar do seu Forrest não ter tido a mesma qualidade de bola que o Liverpool de um Bob Paisley do qual poucos se lembram. O futebol e a história também são producto do caracter ganhador. Pelé teve mais caracter do que Garrincha, Beckenbauer e Cruyff tiveram-no mais que Muller e Resenbrink. Na tentativa de valorizar a máquina de futebol de Guardiola, o médio catalão - que seria o justo ganhador do Ballon D´Or 2010, na ausência de Sneijder - procura desvalorizar um trabalho intocável futebolisticamente de um técnico que, sabe, como poucos, que o futebol pode-se jogar de mil maneiras diferentes, enquanto que em Can Barça parece que só um modelo funciona.
Na história há lugar para todos, só que uns chegam cobertos de ouro e outros entram pelas traseiras. Xavi sabe que ele entrará pela porta grande como um simbolo de uma filosofia, sem nunca ter experimentado outros palcos, outras realidades, outros pedaços da história. O que também devia saber é que Mourinho já sobreviveu ao tempo e provou que o seu método funciona, onde quer que vá. E também lá estará, como dizia repetidas vezes o inefável Clough, talvez não como melhor treinador do Mundo, mas certamente como o do topo.
O eterno duelo minhoto há anos que ganhou outra preponderância no futebol português. O fim abrupto do Boavista e o desafinar constante da orquestra sportinguista abriu as portas à emergência de um novo centro de poder. Se o Minho tivesse só um clube, hoje talvez seria a terceira força nacional. Mas mesmo divididos em dois os minhotos sentem que sopra uma brisa favorável ao futebol nortenho. Vitória e Braga dizem presente.
A vitória dos vimaranenses no duelo minhoto não é uma novidade. O ano transacto coube à equipa então orientada por Paulo Sérgio quebrar a invencibilidade do rival de Braga. Três pontos que decidiram, a longo prazo, o titulo a favor do Benfica. Este ano o Braga não está a exibir-se com a mesma fluidez, vitima do natural desgaste de ter várias frentes abertas, mas o Minho continua a lutar pelo titulo. Ou pelas migalhas deixadas pelo FC Porto. O triunfo do Vitória de Guimarães permitiu à equipa de Manuel Machado continuar a liderar a perseguição à frente do pelotão da capital. Tal como há dois anos atrás, quando os vimaranenses só tropeçaram nas jornadas finais, depois de estar perto da glória lograda pelo eterno rival, o ambiciado segundo lugar. A média de resultados dos dois grandes clubes minhotos há muito que deixou de ser uma novidade. O Braga tem um projecto consolidado desportivamente e desde há cinco anos para cá que é uma força a ter em conta. 2009/2010 foi o culminar de uma politica desportiva pensada ao mais minimo detalhe e apesar da nova época não apresentar o mesmo Braga, a verdade é que a equipa segue nas várias frentes que o calendário impõe. Taças a tiro, Champions League de bom nível com presença europeia garantida para Fevereiro, onde quer que seja, e o segundo lugar na Liga Sagres (que lhe permite reeditar o melhor resultado da sua história) a uns significativos sete pontos. Os mesmos pontos que o separam do seu eterno rival vimaranense. Há muito que o Minho deixou de ser apenas pasto para os adeptos encarnados do Norte que jogavam em casa a cada visita do SL Benfica a Braga, Guimarães, Barcelos e arredores. Hoje os dois clubes têm atrás de si uma massa adepto involucrada, uma politica desportiva pensada e uma atitude de grande. Os resultados não surpreendem.
Sem Boavista, vitima do risco da sua politica desportiva, e com um Sporting incapaz de conseguir mais do que 3 titulos em 3 décadas de campeonato, é legitimo pensar que o terceiro posto no ranking do futebol português está em aberto. O Sporting passou os últimos oito anos a destroçar o que construiu em apenas três. Titulos perdidos no principio ou no fim da Liga, técnicos que vão e vêm, jogadores veteranos e jovens misturados sem critério e uma politica presidencial que destroça qualquer projecto desportivo a médio prazo. Imaginar hoje o Sporting a meio da tabela classificativa já não é tão complicado como há uns anos. É até mesmo natural ver o sofrimento dos adeptos sportinguistas jornada após jornada. Os leões conseguiram nas últimas jornadas recuperar a face e seguem já no quinto posto da classificação (a 14 do lider) mas o ano parece perdido, mais um. E a paciência de Job que caracterizou o sofrimento de uma massa adepta que viveu 18 anos (de 1982 a 2000) sem títulos parece ter voltado. A grandeza dos verdi-brancos começa a ostentar-se mais no nome do que no poder desportivo e mediático. Uma verdadeira quebra moral.
Sem Belenenses e Boavista, únicas equipas capazes de sagrar-se campeãs numa liga pautada pelo poder dos chamados "3 Grandes", cabe ao Minho reclamar a sua quota de destaque. O Vitória de Manuel Machado, equipa sem dinheiro mas com muita imaginação, é o perfeito exemplo dessa atitude. Poucos se relembram da notável campanha de 2008 dos vimaranenses, que ficaram às portas de disputar a Champions League no ano seguinte, e talvez por isso muitos se surpreendam com o notável arranque de época de um conjunto que não perdeu com os rivais directos Porto, Benfica, Braga, Sporting e Nacional na sua ambição por superar o seu melhor registo histórico. Com os milhões deixados nos cofres por Bebé e com uma equipa montada quase a custo zero, os vimaranenses revelam-se um conjunto sólido e estruturado, capaz de reviravoltas com truques sacados da cartola, e com estomago para aguentar a pressão de rivais tecnica e financeiramente muito superiores. A viagem à Madeira, terreno do rival que roubou o sonho europeu na última ronda da época passado, será uma boa prova (mais uma) do estofo do conjunto vimaranense.
Uns kilómetros a norte o Braga olha com desconfiança para a época que se vai desenrolando a pouco e pouco. A margem de manobra no campeonato é cada vez mais curta para não perder a ligação com o pelotão da frente e um duelo com o Nacional da Madeira o confronto menos apetecível. A gesta europeia frente ao Sevilla teve o seu preço e apesar das primeiras duas derrotas nos duelos da prova rainha europeia, a dupla vitória frente ao Partizan Belgrado confirmou a presença europeia dos bracarenses em 2011. Um verdadeiro sucesso europeu que teve as suas consequências na liga, onde a falta de concentração e atitude custaram pontos preciosos. Domingos Paciência sabe que o brilharete europeu não pode destroçar o bom trabalho ligueiro e o mais seguro é pensar que a equipa arsenalista passará a ter a prova nacional como máxima prioridade, pelo menos até Fevereiro. Tempo de sobra para recuperar o atraso com o grupo da frente com o qual já não tem duelos pendentes a disputar.
Sem um Hugo Viana na melhor forma e com um ataque em baixo de forma, o Braga perdeu o rótulo de equipa de máxima eficácia. Mas, mesmo assim, não deixa de ser um rival sério à luta pelos postos europeus (Champions League incluida) e apesar do arranque de época tremido, os bracarenses partilham com os vimaranenses uma legitima ambição a trepar um escalaão no pódio do futebol nacional. Esse lugar que o Sporting, entre crise financeira e desnorte desportivo, parece determinado a querer abandonar.
O circo montado á volta da possibilidade de José Mourinho orientar a selecção portuguesa traz, uma vez mais, o selo inigualável de Gilberto Madaíl. O presidente da FPF não percebeu que a expulsão forçada de Carlos Queiroz também era, indirectamente, um cartão vermelho á sua politica directiva e procurou agarrar-se ao prestigio do mais consagrado técnico mundial para sobreviver. Acabou por multiplicar um problema de fácil solução. O resultado da equação é o enésime ridiculo do seu mandato.

Inédito talvez na história do desporto-rei. O convite que nunca chegou a suceder de Madaíl a Mourinho (e ao Real Madrid) para que o setubalense orientasse dois jogos - dois jogos chave - de Portugal na corrida a um Europeu que se vê cada vez mais distante roça o épico do disparate. Mina automaticamente o prestigio de qualquer um que venha a seguir ao inigualável Mourinho. Se esse é Paulo Bento, um técnico sem prestigio nenhum que soube acumular apenas segundos lugares durante os seus quatro anos como técnico principal, a situação é ainda mais confrangedora. Portugal perde - se é que alguma vez podia ter ganho - a possibilidade de ser orientado pelo técnico mais capaz do Mundo, num biscate de uma semana, e acaba por ter de se contentar com um técnico mediocre e sem o respeito que tantos já criticavam a Carlos Queiroz de não ter no meio futebolistico e junto dos adeptos. Porque se Scolari emergiu em 2002 como o "salvador da pátria", desfeita pelo erro em repetir aposta em Joaquim Oliveira, perdão, António, numa situação igualmente dramática como agora se adivinha (mas sem Geração de Ouro para resolver em campo os problemas do banco), pedia-se um golpe de efeito. Mourinho seria esse golpe?
Certamente, mas nunca num exercício a recibos verdes sem cobrança, por muito louvável que o seu patriotismo tenha emergido para contrariar a turba de comentadores que olha com desprezo aquele que mais fez pelo futebol português cá dentro e lá fora. Optar por um modelo como o que se viu na Austrália e Rússia de Guud Hiddink poderia ser uma realidade, não estive The Special One num clube glutão e incapaz de perceber, como o técnico, que as paragens no calendário para os compromissos das selecções são um calvário para um treinador que fica com meia dúzia de miudos para orientar. Mourinho teria razão em ficar desesperado com o egoismo do Real Madrid. Mas se a FPF nunca o realmente convidou...
Gilberto Madaíl, como bom português que é, com ou sem bigode, gosta de se eternizar no cargo.
Depois do Euro 2008 e da saída de Scolari quis reinventar-se chamando para o cargo o homem que iria revitalizar o morto (homícidio em primeiro grau) futebol de formação luso. Saiu-lhe mal a jogada. Queiroz é um mal amado incompreendido em Portugal, a equipa nunca o respeito e aqueles que ainda se lembram da primeira passagem do técnico pela equipa das Quinas receberam-no com as garras afiadas. Era um caso com final previsivel antecipado por um esquema que só em Portugal vingaria. Como vingou.
O presidente que tanto finca pé fez no técnico está agora num beco sem saída. Portugal corre o sério risco de, pela primeira vez desde 1998, falhar uma prova internacional. E a sua posturua durante o caso Queiroz tira igualmente pontos á dupla candidatura ibérica para a organização de um Mundial onde, realmente, Portugal só faria figura de corpo presente, sem sequer ter direito a jogos que mereçam a pena ser vistos. Recorrer a José Mourinho - que já tantas vezes falou sobre o seu interesse em ser seleccionador luso - foi provavelmente o golpe mais baixo do presidente federativo. Baixo para os adeptos, que durante horas sonharam com o seu particular salvador da pátria, para depois terem de se contentar com uma qualquer segunda escolha (pior ainda se essa escolha é Paulo Bento). Baixo para o Real Madrid, que há poucos meses apostou mundos e fundos no técnico português e durante esta semana não foi tido nem achado no esquema delirante da FPF e de Jorge Mendes, omnipresente dentro e fora do balneário do conjunto português. E, acima de tudo, baixo para o próprio Mourinho ao colocá-lo numa situação impossível. Dizer que não ao seu país era algo que Mourinho nem queria nem podia fazer, ele que sempre se viu como o técnico capaz de superar a fasquia de Scolari: vencer. Dizer que sim a Portugal significava desrespeitar um clube que apostou forte nele e que vive uma etapa de crescimento que necessita concentração máxima por parte do seu mentor. A opinião público madrileña, liderada pela inefável Marca de Eduardo Inda tratou rapidamente de colocar a opinião mediática contra o técnico e a federação lusa, o que já de si dificulta a labor de um treinador que ainda desperta reações extremas nos adeptos. Ao mesmo tempo colocou a direcção do Real Madrid num beco sem saída, incapaz de poder confirmar ou desmentir algo que, realmente, nunca sucedeu. Madaíl e Portugal no seu melhor.

Mourinho tem razão, não há grandes incompatibilidades entre ser-se seleccionador e técnico. Ele que orienta três jogadores titulares dos lusos, que conhece como ninguém o futebol português e os portugueses que actuam lá fora (incluindo o esquadrão espanhol). Ele que seria o elemento motivacional que o descreditado futebol luso necessita. Mas a hora - que chegará - ainda não é esta, particularmente porque, uma vez mais, na FPF não se souberam fazer as coisas. Madaíl esquece-se que a forma trapaçeira e rasteira de trabalhar em Portugal choca com um certo profissionalismo que vigora para lá de Vilar Formoso. Portugal e a sua selecção bateram fundo, uma vez mais. Oito anos depois do descalabor de 2002 Gilberto Madaíl continua igual a si próprio. Infelizmente, o futebol português também.
Está um avançado em campo apenas para marcar golos? É assim tão redutora a função de um dianteiro? O futebol moderno diz-nos que não e os tempos foram deixando para trás aqueles dianteiros goleadores mas vazios de futebol nos pés. Em Madrid ainda sobrevive um elemento dessa casta, um ser que rema contra a maré da evolução do jogo. Goleador sem eficácia, incapaz de ser apenas mais um, Gonzalo Higuain confirma de jogo para jogo, de ano para ano, que é o verdadeiro paradigma da inutilidade...

Os mais cinicos olham para os números. E os números dizem bem de Gonzalo Higuain. Os números fáceis.
O dianteiro argentino, conhecido como "Pipita" pela alcunha que já davam ao seu pai, um flamanete futebolista argentino dos anos 80 que passou a carreira entre o seu país e França, terra onde nasceu há 22 anos o seu mais jovem rebento, sabe marcar golos. Apontou 27 golos em 32 jogos oficiais disputados na última época. No ano anterior participou em 34 jogos e marcou 22 tentos. E nos seus dois primeiros anos no Bernabeu apontou 10 golos em 43 jogos disputados. Um sinal que nos deixa antever uma clara evolução mas que também não esconde um problema que redondeia o futebol do argentino: a eficácia.
Há jogadores que dão prazer ver jogar. Outros que desperam. Higuain pertence ao segundo grupo.
O seu estilo baseia-se no "eu, a bola e o mundo". Um paradigma que fez escola numa era onde o jogo não era tão competitivo e organizado mas que hoje já não faz sentido. Higuain marca mas não convence. Porque falha mais, muito mais daquilo que realmente concretiza. Há jogadores que jogam verticalmente em direcção à baliza, apostando na velocidade e na associação na busca do golo. Outros que gostam de jogar de costas para o guarda-redes e entrar no espirito colectivo de ataque. Higuain é um jogador perdido nas duas definições. Gosta de estar de costas para receber e gosta de seguir uma linha vertical para marcar. Mas faz tudo só. Exasperadamente só.
Se José Mourinho é um técnico que gosta de manter um estilo ao que sempre é fiel, uma das principais caracteristicas das suas equipas está no uso de um avançado colectivo. Já sabemos a importância do bloco para o setubalense, mas nessa definição o avançado tem um papel primordial. É o primeiro a defender e o primeiro a atacar um lance. É a ancora para toda a circulação de bola do sector médio e muitas vezes o eximio assistente dos extremos e médios centros que procuram o necessário desiquilibrio ofensivo. Também são verdadeiros killers, homens capazes de decidir jogos com um golpe de génio, um coelho sacado da cartola, quando mais nada funciona.
Foi assim com Derlei, a sua primeira experiência em Leiria que funcionou tão bem que acabou transladada ao Porto. O brasileiro marcava e dava a marcar, defendia e nunca desistia. Um modelo que Drogba aperfeiçoou no Chelsea, tornando-se no imenso jogador que é hoje. E que o mais cínico Milito explorou até aos limites nesse jogo vertical e colectivo que acabou com a consagração do Inter em Madrid, onde o argentino abriu o livro e fez o que mais ninguém em campo conseguiu. Marcar. Duas vezes.
Higuain (e Benzema) não encaixa nesse perfil. Não encaixa aliás no perfil do avançado moderno. Não só porque nunca joga para a equipa mas, principalmente, porque joga mal quando joga para si. É o dianteiro do futebol espanhol (e talvez europeu) com menor média de acertos de golo a remates efectuados. É o elemento mais rematador da sua equipa (até por cima do igualmente desesperante Cristiano Ronaldo), mas raros são os lances aproveitados. Grande parte dos seus golos acabam por vir de ressaltos ou pequenas emendas à boca da baliza. Como sucedeu no duelo contra o Ajax. E outras vezes sem fim.
Higuain ataca o lance com ferocidade mas, assim que se faz com a bola nos pés, o resto do Mundo desaparece. É impensável vê-lo a seguir o exemplo de Villa, Messi, Etoo, Drogba, Torres, Fórlan, Rooney, Muller e companhia, que procuram rapidamente o toque, a tabela, a desmarcação do colega na progressão para a baliza contrária. Higuain não larga a bola, corre, dribla, tenta a finta, tenta o golpe, tenta o remate. Raras vezes acerta. Muitas vezes destroi um lance de superioridade numérica. Um conceito básico que para o argentino não existe quando tem a bola a roçar a chuteira. Os seus números como assistente numa equipa predominantemente ofensiva como é o Real Madrid são assustadores. Em quatro temporadas não chegam às quinze assistências para golo. E quando falamos em marcar em grandes jogos, a realidade é clara. Higuain tem 3 golos em quatro edições de Champions League (frente ao Zurich e Ajax) e ainda não sabe o que é marcar ao Barcelona. Um avançado de low profile. Demasiado.
Há jogadores que não procuram o futebol colectivo.
Homens como Mario Jardel, o histórico goleador de FC Porto, Galatassaray e Sporting, nunca apoiavam o carroussel de ataque das suas equipas, que eram feitas à sua medida. Mas esses, para sobreviver, têm de apresentar um ratio de eficácia elevado. Como foi o caso. No entanto são elementos incapazes de dar o salto a outras realidades. Jardel nunca sobreviveria numa grande liga, onde todos atacam e defendem. E nunca foi uma opção para o escrete canarinho, por muitos golos que marcasse. E como ele, dezenas de dianteiros.
O argentino Higuain beneficia de uma crónica falta de concorrência. Na Argentina funciona como o homem certo no lugar certo para aproveitar o trabalho árduo de Tevez e Messi, os reais motores de ataque da equipa. No Santiago Bernabeu não tem concorrência. As lesões de Raul e Ruud van Nistelrooy abriram-lhe a titularidade. A implosão de Karim Benzema fez o resto. A decisão de Florentino Perez de não dar a Mourinho o avançado que realmente precisa, funcionou como a cereja no topo do bolo. Hoje Higuain sabe que joga porque não há ninguém para jogar na sua posição. Pensa que, ao marcar mais, legitima a sua posição. Engana-se.
Mourinho é um homem de ideias fixas e nesse aspecto sabe que tem um problema. Um problema para que ambiciona ganhar algo importante. Uma equipa com um duo ofensivo composto por Higuain e Benzema, dois verdadeiros paradigmas de inutilidade táctica e colectiva (no caso do francês agudizado por um problema de adaptação pessoal a lo Anelka) é uma equipa com pouco poder de fogo. E menor ritmo ofensivo.
Se Di Maria, Ronaldo, Ozil, Canales e Leon criam, Higuain deveria ser capaz de marcar. Mas o argentino nem entra no jogo criativo, nem resolve os jogos quando se lhe pede. Marca sim, mas marca pouco. E esse é o seu calcanhar de Aquiles. O simbolo máximo da inutilidade

Para o técnico português um avançado tem de fazer muito mais do que marcar golos. Tem de saber prender os defesas, libertar os colegas, sofrer na pele o jogo do rival e defender a posição até à morte. Um jogador macio, egoista e obcecado com a baliza não encaixa nesse perfil. É um jogador inutil. Para o seu natural desespero é com esse jogador que tem de atacar a época. Que tem de responder às altas expectativas levantadas à sua chegada à Casa Blanca. É com esse paradigma de inutilidade que é Gonzalo Higuain que José Mourinho tem que vencer. Se o fizer, o mérito será a dobrar. Por mudar o dianteiro ou por sobreviver ao seu hara-kiri semanal que dura largos 90 minutos...
Nos jogos mediáticos que dão o pão aos milhares de jornalistas desportivos que sobrevivem para lá dos 90 minutos, a voz dos treinadores é fulcral para abrir ou fechar uma polémica sem sentido. Há os técnicos que apostam nesta guerra diária para manter os seus soldados firmes e outros que optam por responder em campo. Guardiola, talvez pela primeira vez, passou a linha e optou por entrar no confronto mediático. Acabou-se a "inocência" em Can Barça.

Quando irrompeu em Barcelona poucos davam algo, o que fosse, pelo sucesso de um treinador de 37 anos que tinha sido um brilhante jogador mas que no banco apenas passara uma época ao serviço da filial azulgrana. Três anos passaram e hoje esse mesmo treinador, Josep Guardiola, é uma das referências máximas nos bancos europeus. O seu Barcelona recuperou o fulgor do Dream Team de Johan Cruyff e a magia vertical do conjunto orientado por Frank Rijkaard. Aperfeiçoou o método e criou escola. Serviu como a base da equipa espanhola que se sagrou campeã europeia e mundial e criou um novo paradigma de jogo bonito.
Para lá dos seus indiscutiveis méritos tácticos - especialmente na relação de transições defesa-ataque onde explorou a defesa alta graças ao talento de Pique e à velocidade de Alves, sobretudo este, e Abidal - o catalão de Sant Pedor ganhou também a merecida reputação de gentleman dos bancos. Ao contrário dos seus rivais directos sempre procurou afastar-se de debates estéreis, desses que vendem jornais, criam egos, facilitam as campanhas de marketing mas que, para o jogo em si, têm pouca ou nenhuma importância. Escapou às discussões sobre Ronaldinho, vendido antes da sua chegada, e lidou com um silêncio sepulcral com a falta de "feeling" que teve com o camaronês Samuel Eto´o. Mimou sempre os seus jogadores, productos muitos deles da cantera que orientou, mas com uma profunda dose de realismo que não dava margem para grandes debates. E quando teve de defrontar-se nos jogos mentais dos rivais, predominantemente com José Mourinho, sempre se manteve à margem dos truques e dardos que poderiam ter beliscado a sua imagem quase esfingica. Mas o inocente Guardiola é já um rastro perdido do passado.
Para alguns é a presença de Mourinho - amigo mas eterno rival, nas disputas de paradigmas, métodos de trabalho e no duelo de génios criativos - que contribui para este novo Guardiola, mais arisco e menos conciliador. Para outros é a mudança na equipa directiva. Homem de confiança de Joan Laporta, a quem disse num principio que "no tendrás cojones" para o elevar a técnico principal do Camp Nou (falhada a contratação de...Mourinho) o técnico terá agora de trabalhar com uma nova direcção. Sem o seu amigo Txiki Begiristain como director-desportivo (substituido por outro velho colega, Andoni Zubizarreta), Guardiola sente-se mais distante do que nunca da direcção presidida por Sandro Rossell, o homem forte da Nike na Europa, valedor da chegada de Etoo e Ronaldinho e um homem que procura sempre o beneficio económico antes de qualquer coisa. A não-contratação de Cesc Fabregas, petição expressa do técnico, foi reflexo da politica de Rossell, de gastar pouco e manter boas relações com clubes patrocinados pela Nike, como é o caso do próprio Arsenal. Presidência essa que se manteve muda e calada durante a guerra de quase um mês que o treinador manteve com Zlatan Ibrahimovic. O sueco deixou de ser opção para Guardiola quando este teve de escolher entre Ibrahimovic e Messi. O primeiro foi relegado ao banco, o segundo ganhou a batuta ofensiva da equipa. Os problemas começaram no burburinho de um balneário composto por catalães e homens de confiança do treinador (Puyol, Xavi, Valdés, Pique, Iniesta, Messi, ...) e saltaram cá para fora quando o agente do avançado sueco começou a atacar pessoalmente o técnico. Guardiola estava isolado e teve de sair na sua própria defensa. E entrou no jogo. Para não mais sair.
O seu erro com Ibrahimovic (depois da saída de Etoo) deixou claro que Guardiola trabalha melhor com os seus homens de confiança do que com as suas apostas no mercado (Henrique, Keirisson, Chrygrinski que o digam). E entre todos, a sua debilidade é Leo Messi. Apesar de saber que conta com Xavi (um upgrade seu superlativo) e Iniesta (o médio avançado perfeito que nos anos 50 e 60 seria uma estrela mundial), a sua opção para número um é o argentino. Com ele no banco, Messi soltou-se da sombra de Ronaldinho e de Etoo, tornou-se no protagonista da orquestra, associou-se com Xavi e Alves e é o santo e senha do clube blaugrana. Uma debilidade tal que levou mesmo Guardiola a abdicar do seu papel neutral, onde se manteve durante dois longos anos com breves declarações repletas de desportivismo, e afirmar categoricamente que Messi "É o maior de todos. O segundo, seja ele qual for, nunca o alcançará". Palavras para quê.

Apesar dos inúmeros candidatos a "segundo", desde os flamantes holandeses Robben e Sneijder aos geniais espanhóis Xavi e Iniesta, supondo que Messi é, realmente, o primeiro, a ninguém lhe escapa que esta frase tem um destinatário: Cristiano Ronaldo. E com ele, José Mourinho.
Guardiola sempre escapou do duelo verbal com a entidade madrileña. Foi respeituoso com Schuster, Ramos e Pellegrini como poucos em Espanha souberam sê-lo. Nunca comentou as prestações de jogadores rivais nem os comparou directamente com os seus. Nem nas atribuições de prémios individuais, nem na antevisão de duelos directos. Mas agora, cercado por uma imprensa impactada com um José Mourinho mais cordial do que imaginavam, Guardiola teve a necessidade de reinvindicar o jogo do seu astro, e com ele, o do colectivo que orienta. Declarar Messi como o indiscutível número 1 - inalcançavel, intocável - é também atirar mais lenha à fogueira do eterno debate entre o argentino e o português. Um debate que agora perde força, essencialmente porque o novo número 7 do Real Madrid há muito que perdeu o ritmo e capacidade de surpreender que fizeram dele uma estrela em Old Trafford. Entre ambos é evidente que, hoje por hoje, Messi é mais completo, mais certeiro e mais constante. A Ronaldo falta-lhe a capacidade de surpreender, de improvisar e a regularidade que fez dele o número um indiscutivel em 2008. Mas se Messi está por diante de Ronaldo, a verdade é que o Mundial da África do Sul demonstrou que o argentino é um melhor interprete quando a orquestra que o rodeia (Pedro, Xavi, Busquets, Iniesta e agora também Villa) o potencia como um notável solista. Com uma equipa feita à sua medida - ao contrário dos seus "rivais", a sua superioridade perde força.
Mesmo perante essa evidência, a opção de Guardiola espelha, essencialmente, o final da tranquilidade em Can Barça. Adivinha-se um ano quente, com um ambiente de cortar à faca, entre Mourinho e Guardiola, entre Madrid e Barcelona. No meio dessa luta, dois artistas que se expressam melhor em campo que fora dele, são eleitos porta-estandartes dessa luta. Nem Messi reclamou para si esse protagonismo, nem Cristiano Ronaldo abriu um debate que não faz sentido. E quando todos imaginavam que sairia de Mourinho o primeiro dardo envenenado, eis que surge Guardiola como o "vilão desbocado", a abdicar dos seus principios de "gentleman", para ganhar o foco mediático. O técnico catalão ganhou a pulso o direito de exprimir a sua opinião como uma autoridade, mas a redundância do seu discurso implica, acima de tudo, um grito de guerra contra o eterno rival. Um grito disfarçado que vem em consequência de uma clara mudança de atitude desde o arranque da nova época.
O Barcelona continua a ser a avassaladora máquina de fazer futebol que tem marcado os últimos três anos do planeta futebol. Uma equipa que criou um paradigma de jogo, uma equipa que conta com um onze tipo perto da perfeição e que é orientado por um treinador que, apesar de não ser revolucionário, é alguém que soube interpretar com acerto a mutação genética que este Barça necessitiva. Mas o discurso de superioridade que chega de Barcelona deixa adivinhar que a humildade e o racionalismo que pautaram os dois primeiros anos do consulado de Guardiola têm os dias contados. O Barça de Guardiola (e de Messi, e de Xavi, e de Iniesta, e de Villa, e de....) quer-se agora acima dos demais. Mas no campo já se provou que a sua superioridade natural é contrariável. Nas conferências de imprensa, há uma guerra paralela que vai começar agora e que se estenderá até Junho. Sem inocência. E sem piedade.

