Segunda-feira, 05.07.10

Quando tudo parecia indicar que a África do Sul seria o coroloário do futebol sul-americano, as equipas europeias viraram o jogo do avesso e repetem o cenário mais habitual da história dos Mundiais. Três semi-finalistas, um dos quais o provável campeão. Qual a razão para este volte-face final que coroará, pela certa, uma equipa europeia pela primeira vez longe do "Velho Continente"?

Quando se preparava para arrancar, o Mundial parecia destinado a ser um de muitos a cumprir as eternas lenga-lengas da história.

O anfitrião parecia determinado a apurar-se, as equipas sul-americanas davam um forte sinal de quererem fazer deste Mundial uma festa privada e os grandes favoritos europeus pareciam eclipsar-se. Foi assim durante quase 20 dias. Mas à medida que os africanos iam caíndo, reforçando o sinal de regressão do "Continente Negro" e que os sul-americanos iam seguindo em frente (só o Chile, e por defrontar-se com o Brasil, não chegou aos Quartos de Final) também se ia percebendo que havia seiva nova na Europa. Capaz de dobrar o destino.

É certo e sabido que nunca uma equipa europeia ganhou um Mundial longe da Europa. Hoje ninguém se arrisca a otorgar o titulo ao esforçado Uruguai, regressado, 40 anos depois, a uma meia-final. Uma noticia histórica que reforça a importância do futebol europeu como eixo central do futebol mundial. Mais ainda, dos três semi-finalistas europeus, só um já venceu previamente o trofeu. Uma circunstância que não se vivia desde 1994 (na altura, dos três europeus só a Itália tinha ganho a prova). O selecto clube de vencedores pode conhecer um novo membro, caso a genial Alemanha (ou o surpreendente Uruguai) não vençam os dois jogos que têm diante de si. Desde a sobrevalorizada Espanha à eterna adiada Holanda, podemos estar prestes a testemunhar um feito histórico. Algo que este Mundial teve de sobra.

 

As principais razões por detrás deste volte-face estão na própria estrutura da prova mas, também, nos falsos-mitos que roderam as equipas europeias que viajaram até à África do Sul.

Apesar de ser o continente com presença mais clara (13 selecções em 32, um 40%), as equipas europeias foram forçadas a jogar entre si na primeira fase, com a excepção de Portugal, Grécia e França. Essa circunstância facilitou as eliminações precoces de várias equipas e, também, a passagem de 7 das 8 formações do continente americano (só as Honduras ficaram de fora). A Inglaterra causou a eliminação da Eslovénia, a Alemanha da Sérvia, a Holanda da Dinamarca, a Espanha da Suiça e a Eslováquia da Itália. Das restantes três formações, só Portugal soube seguir em frente, em parte graças à goleada diante da Coreia do Norte que tornou o decisivo encontro final contra o Brasil num trâmite. Não é de excluir, verdade seja dita, que as condições climatéricas, geográficas e de estruturação de provas oficiais tenham sido outra razão para que as pequenas formações americanas tenham superado rivais europeus de maior prestigio. A maioria dos jogadores destas equipas joga nos seus campeonatos e por isso beneficia de uma pré-época recente, de um cansaço muscular menos acentuado e de uma maior capacidade de adaptação climatérica. 

A isso também é obrigatório referir que tipo de selecções representaram o Velho Continente na prova.

Uma decadente França, entregue a uma guerra-civil inevitável, foi o exemplo perfeito de uma formação europeia que viajou milhares de kilómetros para nada. O mesmo se pode dizer da Itália, uma pálida versão da campeã do Mundo em 2006. Ou até da Inglaterra, que teima em não resolver os seus problemas internos (disciplinares e tácticos), mesmo com Capello ao leme. Mas há aqui novidade? Se os Pross nem se apuraram para o Euro 2008, com este mesmo plantel, já a França e Itália mostraram um rosto decepcionante na prova suiço-austriaca. Nada mudou. Se a isso juntamos o pouco futebol demonstrado por eslovenos, gregos e suiços (em tudo semelhante ao que vimos na fase de qualificação), estamos explicados. A Sérvia mostrou ter uma equipa de futuro mas caiu no grupo mais complexo, como se percebeu pela última ronda, quando tinham tudo para seguir em frente. Talvez, de todos, tenha sido a Dinamarca a grande desilusão. Mas nem sempre um apuramento, com circunstâncias particulares, é um bom indicador do que se segue. E nesse aspecto, Maradona tem razão. A Europa tem direito a tantas vagas que a primeira selecção é sempre aberta a equipas de menor nível competitivo. Para que a FIFA não se esqueça.

Ao perceber que equipas europeias seguiram em frente, chegamos à conclusão de que os Oitavos de Final (onde cairam, em duelos só entre europeus, Inglaterra, Eslováquia e Portugal)  foi um exercicio de separação do trio do joio. Os americanos não tiveram problemas, em parte porque defrontaram equipas asiáticas mais débeis (Coreia do Sul e Japão) e em parte porque jogaram entre si (México e Chile). Quando chegou a hora do confronto directo entre os melhores de cada continente, só o Uruguai se salvou. Porque foi o único a evitar equipas europeias. Nos três duelos mano-a-mano, que definiriam se a África do Sul 2010 seria uma mini-Copa América ou um mini-Europeu, venceu a tradição europeia sobre as figuras sul-americanas. Alemanha, Holanda e Espanha são claramente as três formações mais fortes do Velho Continente. Os holandeses têm do seu lado o duelo mais acessível. A Alemanha, por sua vez, joga agora melhor do que os espanhóis faziam quando bateram os teutónicos em Viena, há dois anos. Num Mundial facilmente para esquecer (começa a ser um processo ciclíco, de oito em oito anos) a unica consolação seria voltar a ver holandeses e alemães num duelo final. A história merece-o. Os espectadores merecem-no. O futebol merece-o. Que o polvo adivinho não se engane! 


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Miguel Lourenço Pereira às 15:05 | link do post | comentar

Sábado, 03.07.10

A maior vitória da história alemã num duelo com um velho rival. O repasso futebolistico do onze anónimo alemão face ao conjunto de estrelas argentinos foi o grande hino ao futebol deste Mundial. Depois de esmagar a pobre Inglaterra, esta Alemanha soube repetir a dose de eficácia ofensiva batendo a Argentina por 4-0. O Mundial é deles. Só precisam de o confirmar...

Foi um desses jogos que define a história do jogo. Um jogo para a galeria dos momentos imperdíveis dos Mundiais. De fazer escola.

A Alemanha humilhou, de maneira soberana, uma Argentina que confirmou as perspectivas dos mais cinicos que viam no onze de Maradona apenas uma soma de individualidades. E quando a maior dessas estrelas, Leo Messi, sai do Mundial sem marcar um golo e sem criar um clara ocasião, quando a equipa mais precisava, estamos conversados. Messi, ao contrário de Rooney, Ribery e Ronaldo, lutou do primeiro ao fim. Mas foi sabiamente anulado por Low que, tal como Mourinho, sabe que o argentino se deve parar no espaço e não na bola. Messi tentou desavencilhar-se do espartilho alemão mas nunca conseguiu. Rematou, lutou, assistiu mas saiu impotente, rosto da maior derrota do seu país em 36 anos de história. Uma derrota que irá marcar o seu futuro num país que já tem um Deus no relvado e que parece incapaz de encontrar sucesso. Nem Leo esteve á altura do desafio. E condições não lhe faltaram. Sai do Mundial como um lutador, mas pela porta pequena. Dos derrotados.

A Alemanha, sem individualidades sonantes, foi uma equipa em toda a acepção da palavra. Se Schweinsteiger foi provavelmente o melhor e mais constante em campo, pautando sempre o jogo ofensivo da equipa sem se esquecer de ajudar atrás, já Klose demonstrou, uma vez mais, que o Mundial é o seu estado natural. Está a um só golo de Ronaldo e, caso chegue á final, tem 180 minutos para fazer história. E bem o merece. A sua eficácia goleadora é abrumadora e o seu trabalho no ataque chave para que o ritmo de transições velozes funcione nesta Alemanha que só conhece uma filosofia: a do golo.

 

Thomas Muller abriu o marcador. É a revelação do ano, talvez a maior do futebol mundial nos últimos anos.

Falhará, injustamente, o jogo das meias finais. Poucos fizeram tanto para lá chegar. A sua assistência para o golo de Klose foi um gesto perfeito de técnica e raça, a equação genética chave desta Mannschaftt que já supera em jogo as suas melhores versões passadas. Mesmo sem ter ganho nada, Low sabe que tem equipa para anos mas que, já agora, está ao nivel de 54, 72/74 e 90. Os grandes onzes teutónicos da história.

Depois do golo inaugural, a Argentina tentou reagir. Apostaram na raça como resposta ao talento técnico dos alemães. Procuraram surpreender Neuer por diversas vezes com remates de meia distância, mas faltou sempre acerto ofensivo. Em contra-golpe, a Alemanha causava maior perigo e na segunda parte o argumento do filme não mudava muito. Só a paciência dos argentinos. Nem a contemporização da equipa de arbitragem, sempre disposta a aturar os excessos da albiceleste. Maradona tentou mudar o jogo mas saiu-lhe mal a aposta. Low foi rápido a ler o jogo e deu a volta ao esquema ofensivo germânico. Os três golos seguintes, verdadeiros exercicios de pureza futebolistica, confirmaram a esmagadora superioridade alemã. Muller no chão assiste Klose. Um lance sublime do gigante Schweinsteiger oferece a Friderich um golo inédito e, claro, Klose remate um centro perfeito de Toni Kroos. Festejava com os quatro dedos no ar, recado para a afficion argentina e para o seu staff técnico que tinham dito, horas antes, que Deus queria que a Argentina fosse campeã. Bem, afinal Deus é alemão.

Com esta vitória esmagadora e histórica aos alemães já não há quem lhes tire o rótulo de favoritos. Na meia-final terão diante de si possivelmente a equipa que os impediu de ganhar o quarto Europeu da sua história. Mas nem esta Espanha é a equipa dessa noite de Viena nem esta selecção alemã é do mesmo nível. A perspectiva de uma reedição da final de 74 está aí. A 180 minutos de história.


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Miguel Lourenço Pereira às 17:34 | link do post | comentar

Franz Beckenbauer tem, como sempre, toda a razão. O efeito Maradona não pode ser desprezado de nenhuma forma. Como aconteceu com Guardiola no Barcelona, o seleccionador argentino tem do seu lado o efeito mito. Um jogador mitico transformado em técnico tem, automaticamente, a admiração suprema dos seus jogadores. Quando esse jogador é para muitos um semi-deus, percebe-se bem porque o onze da albiceleste está disposta a lutar até para lá da morte. A ressurreição está-lhes prometida.

Fala a voz da experiência.

A antiga estrela alemã, herói do Mundial de 74, presente em três fases finais de um Mundial, é a única figura capaz até hoje de erguer a taça de Campeão Mundial como jogador e treinador. Nomeado seleccionador alemão em 1984, sem experiência prévia como treinador, o Kaiser demorou seis anos a cumprir o seu objectivo. Pelo meio uma meia-final de um Europeu e uma final perdida. Contra Maradona. Em 1990, no Olimpico de Roma, a Alemanha mostrou ter aprendido com os erros. Tinha uma equipa disposta a morrer pelo maior icone futebolistico de um país reunificado. E assim foi. Foi o último titulo mundial germânico. E a última final argentina.

Hoje as duas selecções voltam a olhar-se olhos nos olhos. Há quatro anos foi o papel de Jens Lehmann que fez pender a balança. Mas Diego Armando Maradona estava na bancada, como espectador. Agora está no banco a orientar 11 jogadores que a última coisa que precisam é de olhar para o seu particular "Dios" e encontrar decepção nos seus olhos. Maradona não é um técnico nem um estratega. Provavelmente o trabalho táctico duro é feito pelos seus adjuntos, Billardo à cabeça. Mas se a equipa argentina, tão criticada antes, se tem revelado um festim para os olhos, deve-o à sua presença. As quatro semanas que levam juntos uniram técnico e jogadores mais do que nunca. Os jogadores argentinos sabem que não podem falhar perante o seu idolo. Estarão dispostos a morrer e ressuscitar, se isso significa vencer. Serão a equipa mais dificil de bater porque acreditam, verdadeiramente, na superioridade do seu lider. E na sua, por arrasto.

 

Maradona é o único técnico que decidiu fazer deste Mundial uma festa. Joga com a importância da sua imagem. As suas conferências de imprensa são sempre o ponto alto do dia e as suas pérolas, muitas vindas da celebre escola existencialista de Eduardo Galeano, dão cor a um Mundial de gente cinzenta como Dunga, Del Bosque, van Maarjwick, Capello, Lippi ou Queiroz.

O "efeito mito" fez-se sentir pela primeira vez num Mundial com Beckenbauer. Foi o primeiro craque mundial que saltou para o outro lado com sucesso. Depois Platini tentou o mesmo, sem sucesso. E o mesmo se pode dizer de vários jogadores de menor ou maior prestigio, de Klinsmann a Marco van Basten. Mas faltava-lhes esse efeito congregador que poucos atingiram na história. Josep Guardiola foi um desses homens. No Barcelona pós-Cruyff ele é o "principe" eleito, o maestro do bom jogo, o iniciador da escola do médio centro de corte técnico eximio, de leitura de jogo impecável, simbolo do catalanismo moderno. Guardiola é o espelho perfeito do que é a filosofia do clube. Os seus actuais jogadores reverenciam-no como um mentor, confessando habitualmente que tinham o seu poster no quarto, que sonhavam em ser como ele e que não acreditam poder partilhar do seu conhecimento. Esse "efeito mito" é visivel na forma como os jogadores, principalmente da cantera, se entregam a cada jogo. Dificilmente, por muito bom técnico que seja, Guardiola criaria o mesmo efeito noutro sitio. O efeito perde-se com o afastamente geográfico da base. Mesmo Maradona, uma figura mundial incontornável, seria incapaz de conseguir o mesmo noutro espaço que não o futebol argentino. Na selecção albiceleste ele está em casa. No seu templo.

A Alemanha hoje tem melhor equipa, melhor técnico e melhor onze que a Argentina. Se Messi é o melhor da actualidade, Ozil tem sido o melhor do torneio. Se a defesa argentina tem experiência e fisico, o ataque alemão tem mobilidade e presença. No entanto se há algo que os germânicos não têm, por muito bom que seja (e é) Joachim Low, é um mito no banco. Quando tocar o hino a Alemanha jogará por si. O onze argentino, Messi incluido, jogará por Maradona. A Alemanha está a milhares de kilómetros de distância. Maradona estará ali a olhar, a gritar, a sofrer. É preciso não esquecê-lo!  



Miguel Lourenço Pereira às 04:28 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Desde o imenso Johan Cruyff que nenhum holandês conseguia quebrar o feitiço brasileiro sobre a Laranja Mecânica. O que falhou Bergkamp e Kluivert logrou Wesley Sneijder, patrão de uma Holanda de máxima eficácia que demonstra ao mundo que o Brasil sem festa é sempre menos Brasil. 22 anos depois a final está a 90 minutos para os holandeses.

 

O ódio brasileiro cairá todo sobre Dunga, o mentor deste Brasil de serviços minimos que só existiu durante meia hora num dos jogos mais apaixonantes da prova. A Holanda, que até entrou temorosa, tomou a batuta do jogo à meia hora e não a voltou a largar. Usou e abusou do génio de Wesley Sneijder e do desiquilibrio constante que significa a mudança de velocidade do turbo de Arjen Robben. Os dois jogadores mais em forma da Champions League são-no também desta equipa que é, hoje mais do que nunca, candidata legitima ao titulo mundial.

Sneijder centrou para o auto-golo de Felipe Melo no primeiro e marcou o segundo. Mas Robben foi chave na manobra ofensiva. E ambos distribuiram a responsabilidade de um jogo de máxima tensão que o "escrete canarinho" de choque que Dunga montou.

E se é verdade que o Brasil da primeira parte foi o melhor que viajou à África do Sul, também é verdade que o efeito durou pouco. Kaká, Robinho e Fabiano trocavam a bola no ataque com uma rapidez inusitada que ganhava da velocidade de Maicon e Dani Alves pela direita. O mesmo esquema que destroçou o Chile voltou a funcionar com uma lenta e temerosa defesa holandesa. Sem Mathijsen, os centrais europeus tinham dificuldade em aguentar o ritmo do eixo ofensivo do Brasil. O meio-campo procurava o choque do minuto zero. Felipe Melo, o panzer por excelência do sargento Dunga, quis impor o seu fisico aos talentosos médios holandeses. A sua técnica de intimidação funcionou a principio. Até que os rivais começaram a ganhar o duelo. E Melo foi perdendo a cabeça. Quando tudo mudou, acabou expulso. Com ele foi a imagem deste pobre Brasil.

 

O escrete marcou por Robinho num erro imenso do sector defensivo holandês. E poderia ter marcado mais não fosse o atento Stekelenburg ter evito por duas vezes os remates de Kaká e Maicon. Mas ao intervalo essa vantagem transformou-se num pesadelo. A Holanda entrou com a velocidade que ainda não tinha imprimido no Mundial. O trabalho hérculeo de Dirk Kuyt abriu esoaços para o duo criativo rasgar o sector defensivo canarinho. Num livre, Sneijder encontra a ajuda do desastrado Melo e do precipitado Julio César. O guardião foi, a par de Maicon e Robinho, o melhor brasileiro do Mundial. Mas aquele momento decidiu o jogo.

A Holanda cresceu e Robben usou e abusou da velocidade. Num desses lances ganhou o canto e colocou a bola na cabeça de Kuyt que desviou subtilmente para Sneijder, só, fuzilar as redes brasileiras. Um volte face como aquele de 1994 que deixou os brasileiros em choque. Quem se atrevia a dar a volta ao marcador depois de uma primeira parte de tal nivel? Dunga não soube reagir, Melo perdeu a cabeça, Robinho ia pelo mesmo caminho e a própria Holanda nem parecia acreditar tal foram as oportunidades claras desaproveitadas pelo ataque Orange. No final a velha malapata chegou ao fim. A Holanda batia, 36 anos, o Brasil num Mundial.

 

Bert van Marjwick ganhou a aposta. Mantém uma equipa esteticamente ofensiva, com um 4-3-3 claro, com um médio solto á frente de dois médios de contenlão. E com o trabalho de Kuyt e a velocidade de Robben como elementos desiquilibrantes. Ganhou em eficácia sem perder em classe. E tem todas as condições de ser o primeiro técnico holandês, desde 1978, a pisar o palco de uma final de um Mundial. Dunga saiu da prova pela porta pequena. Os seus métodos, a sua selecção, o seu estilo foram destroçados. Felizmente para o Brasil há esperança. Chama-se 2014 e também eles têm que acertar contas com um passado doloroso. Um grito no silêncio.


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Miguel Lourenço Pereira às 00:26 | link do post | comentar

Quinta-feira, 01.07.10

 

"Maybe, after all, he is just the soccer world's most expensive fraud"

 

Grahame Jones, LA Times

 

No final do Portugal vs Espanha, que dictou o afastamento da equipa das Quinas do Mundial, todos os olhos estavam no derrotado.

As camaras pouco queriam filmar a festa dos espanhóis, os campeões europeus em titulo. O importante era captar o olhar do jogador mais caro do Mundo, aquele que gosta de dizer que é o "primeiro, segundo e terceiro" melhor jogador do Mundo. Aquele que capitaneava a equipa das Quinas numa noite que podia ter passado do drama ao extase facilmente. Revelando o seu já constante péssimo perder, Cristiano Ronaldo insultou os assistentes de camâra da FIFA e cuspiu-lhes como faria, quase uma hora depois, ao rosto dos portugueses e do seu seleccionador, ao dizer que as respostas da derrota, que não fiasco, e da sua exibição não eram com ele. Eram com "o Queiroz".

 

Cristiano Ronaldo emerge como o grande derrotado pessoal deste Mundial.

Certamente não perdeu sozinho. Carlos Queiroz tem a sua culpa no cartório, em alguns lances chave, desde o não arriscar frente ao Brasil quando sabia que o apuramento estava confirmado, até à escolha de Ricardo Costa como marcador directo de David Villa. Também é preciso refrescar a memória de quem se lembra de ver Simão Sabrosa em campo. Especialmente no lance do golo espanhol. Ou as trapalhadas constantes de Danny, ou os passes errados de Tiago frente a Brasil e Espanha. Todos eles contribuiram, de certa forma, à eliminação de Portugal. Mas nenhum deles era o capitão de equipa. E nenhum deles era o "melhor do Mundo", rótulo com que o extremo chegou ao Mundial, nesse duelo com Messi que dura já três anos, com vantagem clara para o argentino nos últimos dois. O seu rosto de desalento dizia tudo. Depois de um ano em branco com o Real Madrid (outra vez Messi, outra vez os espanhóis) também a selecção o afastava dos titulos colectivos, porta para os titulos pessoais. O que lhe interessa realmente. De tal forma que até Carlos Queiroz, o seu principal valedor e homem por detrás da sua nomeação como capitão - e responsável por este excesso de ronaldismo na selecção - reforçou isso na conferência prévia ao jogo. O importante não parecia ser Portugal passar, mas sim que o CR7 vencesse qualquer coisinha. Para o puto não ficar chateado, va lá.

Futebolisticamente o extremo dos 100 milhões não existiu no torneio.

Queixou-se de que a táctica não era do seu agrado. Jogou sozinho na frente mas também jogou a extremo. Não rendeu em nenhuma das posições. Em Madrid jogou nas mesmas posições e soube marcar, soube assistir, soube brilhar. Deve ser um problema com o equipamento.

No jogo inaugural frente à Costa do Marfim, entrou bem durante meia-hora. Depois, prenuncio futuro, escondeu-se do jogo. Frente à Coreia do Norte fez parte da excelente segunda parte colectiva, porque na agonia da primeira meia-hora pouco se lhe viu. Contra o escrete canarinho, no jogo que sabia que era um prato mediático forte, queixou-se mais do trabalho dos colegas e do árbitro do que dos seus remates estapafúrdios a kilómetros de distância de Júlio César. Foi um jogador amador, egoista e debilitado psicologicamente. Prenúncio, hellas, do jogo chave. Desse jogo onde nunca apareceu. Ao contrário de Villa, o homem golo do torneio, os seus remates nunca assustaram as redes espanholas. Foram só quatro, contra dez do dianteiro do Barcelona. Também não assistiu nenhum colega, nem sequer ajudou no processo defensivo. Quando caía, vitima ou não da insensibilidade arbitral, a camara fixava-se no seu olhar de menino a quem lhe roubaram o doce e que espera um novo. Até que ajeita as meias, lentamente, e se decide levantar. Durante esse largo periodo os colegas suam para tapar os buracos que o capitão deixa. Ninguém se queixa, só ele. Os livres, apontados por outros, passam a ser seus, exclusivamente. Não tivessem em campo Bruno Alves, Simão ou Raul Meireles, jogadores que sabem bem o que é marcar de livre directo. Mas que têm o problema de não ter os seus remates como um trademark. "Tomahawk" chama-lhe. Ele saberá. Deve ser a rotação da terra que muda a trajectória do missil. Tevez, Lampard e Honda não pareceram queixar-se. Gente estranha essa.

 

Ao contrário de Leo Messi, Robinho ou Arjen Robben, apenas para citar dois exemplos, o futebol de CR7 estagnou.

É um portento fisico, resultado de um trabalho cuidado digno de um profissional, verdade seja dita. Mas falta-lhe aquele regate improvisado que o fizeram subir do anonimato até às estrelas. Neste Ronaldo já não há a picardia que levou uma equipa de topo a contratá-lo depois de um jogo de apresentação. Nem a capacidade de improvisação que deixou loucos os defesas da Premier League, que nunca tinham visto nada assim nas suas vidas. Esse CR já não existe. O seu jogo agora é puramente vertical. Cristiano Ronaldo, arranque donde arranque, nunca muda o sentido do lance. Nunca improvisa. Nunca surpreende. Vai em frente, vai em diagonal. Vai até ser travado. Tornou-se demasiado fácil anulá-lo. Basta saber dobrá-lo e esperar que o arbitro, ao vê-lo chocar com um muro imutável, não se deixe levar pelo grito de protesto. Ao contrário do holandês, do argentino e do brasileiro, que rodopiam sobre a bola e sobre si mesmos, desconcertando rivais, o número 7 de Portugal parece estático. Remate sem a inteligência de um jogador que conhece a realidade de um relvado. Egoisticamente quer a bola sempre para si, mas é incapaz de entrar num jogo de associação com Messi faz com o colectivo à sua volta. A bola chega aos seus pés e só acaba fora, nas redes ou no pé do rival. Não há uma quarta via.

Durante muito tempo dizia-se que Cristiano baixara a forma porque não tinha parceiros de associação, como Villa tem Xavi, como Messi tem Tevez como Robinho tem Kaká e como Robben tem Sneijder. Desta vez, nem essa desculpa lhe vale. O olhar dos colegas, a cada remate disparatado, diz tudo. Se alguém quer jogar sozinho, esse alguém é ele.

O Mundial de Futebol é o local da consagração dos mitos. Nem todos o ganharam. mas todos os grandes jogadores da história confirmaram os seus mitos nos Mundiais. Pelé e Maradona ganharam Mundiais praticamente sozinhos. Entre a galeria dos "monstros" que o venceram estão também os Charlton, Garrincha, Muller, Beckenbauer, Romario, ZidaneRonaldos. Os Cruyff, Platini, Eusébio, Puskas, Belanov, Elkjaer, Laudrup, Zico, Socrates, Gascoine ou van Basten não os venceram,  mas marcaram profundamente as edições em que participaram. Em dois Mundiais já disputados, o total da prestação de Cristiano Ronaldo resume-se a dois golos (um penalty e um golo acrobático), duas assistências e pouco futebol. Um fracasso.

Fraude. 

O Los Angeles Times, que de futebol não costuma perceber muito, verdade seja dita, não soube dizer menos.

É esse o sentimento que fica depois da prova. Fraude de liderança. Fraude de futebol em campo. Fraude de espirito de equipa. Fraude de gratidão. Ronaldo atacou o homem que o contratou, ajudou a crescer e acabou por fazer capitão. Atacou os colegas ao referir-se sempre a si e nunca ao colectivo durante a prova (se o ketchup, se os MVP´s, se o "jogo sozinho"). Atacou os adeptos ao virar as costas a mais de 10 milhões de pessoas porque tinha "o direito de sofrer sozinho". E atacou o futebol, o futebol que os admiradores que tem nos quatro cantos do Mundo esperavam ver sair dos seus pés. Nem Messi, nem Robben nem Robinho têm feito um grande Mundial. Ninguém o fez. Até se pode discutir e dizer que Rooney, Ribery, Torres e Kaká têm sido bem piores. Mas nenhum pode ser acusado de não deixar tudo em campo, de respeitar o jogo e fazer-se respeitar a si mesmo.

Cristiano Ronaldo pode ter, porque tem, um talento incomensurável. Uma trajectória de sonho e um futuro brilhante. Mas o que não terá é o respeito de quem via nele o lider desta selecção. O jogador que poderia fazer com este Portugal pautado pela mediania (no banco e no relvado) o que fez Eusébio em 1966. Nesse aspecto, e em tantos outros pequenos grandes detalhes, CR7 transmutou-se em CR0. O CR da fraude!

 



Miguel Lourenço Pereira às 15:03 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Quarta-feira, 30.06.10

No inesquecível "Mostrengo", Fernando Pessoa exalta a coragem de um país a quem "a hora" espera na imagem de un anónimo capitão capaz de encarar o "mostrengo", na vontade que o ata ao leme, "por el-rei D. João II". Essa naus fizeram história do Mundo com a bandeira de Portugal. Hoje a nau foi ao fundo porque nunca teve um capitão assim. Nos instantes finais do jogo, quando Portugal perdia por 1-0, os marinheiros olhavam desalentados. Ao fundo o "capitão", cuspia para o chão e ajeitava as meias. O seu navio é outro. O de Portugal afundava-se. Inevitávelmente!

Acabou o Mundial para Portugal depois de um duelo ibérico que se canta nas ruas quentes de um Madrid sem metro e sem preocupações por 72 horas. Até que chegue o duelo com o Paraguai, que Villa, como o pouco gentleman mineiro asturiano que sempre foi, já anunciou que será muito mais duro que Portugal. Não fosse a virtude dos guarani a mesma dos portugueses: defender muito bem, atacar de vez em quando, marcar muito pouco. Porque esse continua a ser o grande problema estrutural do nosso futebol. Não saber marcar.

Foi o número 7 espanhol o único a quebrar a barreira portuguesa em quatro jogos. Um golo em fora de jogo evidente, aproveitando uma falha de marcação de Ricardo Costa, Tiago e Simão, mas também um genial toque de calcanhar de Xavi Hernandez, ontem de volta a si, foi suficiente. Para acabar com o sonho de uma equipa que, sejamos justos, nunca fez muito para ganhar enquanto fez tudo para não perder. Se o jogo fosse a pontos, seria fácil dizer que Portugal jogou para o empate. Apesar de lançar Hugo Almeida em campo, a mensagem de Carlos Queiroz foi clara. O avançado seria o primeiro estorvo defensivo, e não o ponta-de-lança que Portugal precisava. Defendeu quase sempre na linha de meio-campo, muitas vezes descaído para a esquerda, enquanto Cristiano Ronaldo ajeitava as meias no miolo. O número 7 de Portugal é o espelho perfeito de um jogador com tudo para singrar, menos o intelecto. CR7, ou como goste de ser conhecido para efeitos de marketing, corre o risco de se tornar num novo David Beckham. Não só porque o seu poder mediático há muito que ultrapassou o seu real poder futebolistico. As suas exibições no Mundial roçaram o sofrivel, salvando-se o jogo da Coreia, e continua a desaparecer nos grandes jogos. O homem que falhou marcar em cinco jogos contra o Barcelona, que falhou um penalty na final de uma Champions League, que marcou 27 golos na Liga Espanhola mas nenhum às equipas qualificadas para a prova rainha europeia e que, por Portugal, tem tido a brilhante média de um golo por prova, foi sempre um homem a menos. No final, espelho do desiquilibrio que reina no balneário de Portugal, culpou o seleccionador da derrota. Como há um ano fizera com o seu "mentor" Ferguson em Roma. E como sempre fará. Cristiano nunca perde. Os outros é que não o ajudam a ganhar.

 

Sem essa figura desiquilibrante que deveria ter sido o extremo, agora assim a jogar na banda, Portugal sobreviveu aos primeiros 10 minutos electrizantes de Espanha com apuros. A equipa entrou desconcentrada e três remates rápidos, o primeiro de Torres e os restantes de Villa, até agora o homem do Mundial junto com o alemão Ozil, deixaram claro que tipo de jogo iamos ver. No entanto a equipa das Quinas soube sacudir a pressão inicial. Fábio Coentrão, o melhor de Portugal ao largo da prova, soube fazer do seu carril uma arma secreta a explorar e foi criando desiquilibrios num meio-campo estático e criado para defender e suar. Se no lado direito a equipa não atacava, apesar de ser o ponto mais débil da equipa espanhola, pela esquerda foram surgindo várias oportunidades, desde o remate de Tiago - depois de uma boa jogada colectiva - e do livre de Ronaldo até ao centro de Hugo Almeida que Puyol quase desviava para dentro. O intervalo podia ter dado uma injecção de confiança aos portugueses que sabiam que os espanhóis estavam nervosos porque Eduardo, acima de tudo, e a defesa, mantinha a defesa impenetrável. Mas não, a equipa voltou sem chispa. 

Queiroz tinha colocado de inicio Ricardo Costa a lateral direito, em lugar de Miguel, e acabou por amputar todo esse flanco. O defesa central nunca soube parar Villa nem ajudar nas transições a Simão e Tiago, duas sombras hoje no terreno de jogo. A saída de Hugo Almeida, fulcral a aguentar a defesa espanhola e a ganhar as primeiras bolas do habitual pontapé para a frente luso, e a entrada pelo inexistente Danny, foi o primeiro tiro no pé. Del Bosque leu bem o jogo e trocou o apagado Torres por Llorente e mudou o ritmo de jogo, sempre a descair pela esquerda. Por aí veio com força Espanha, por Villa e Iniesta, preciso a deambular pelo miolo com Xavi em constante associação. Foi daí que veio o golo. Um lance que atravessou todo o campo, encontrou Sérgio Ramos à direita e depois de um cruzamento onde Portugal não soube coordenar as marcações defensivas, Xavi desvia subtilmente para Villa. O primeiro remate acabou nas mãos de Eduardo, a recarga na baliza. Estava quebrada a defesa de ferro. A nau ia ao fundo.

Com esse golo esperava-se um Portugal mais acutilante, mas quem tomou controla do jogo foi Espanha.

Aproveitando várias desatenções defensivas, os espanhóis estiveram sempre mais perto do segundo golo, com o guardião do Braga a exercer, uma e outra vez, como salvador da pátria. Lançar Pedro Mendes - e não Deco - e Liedson (que não tocou na bola) foi um lance desesperado mas sem sentido. Se no relvado Ronaldo resmungava com tudo e todos sem ser capaz de driblar um só rival (que saudades de Figo naqueles momentos em que Portugal careceu, verdadeiramente, de um lider), no banco Queiroz seguia o jogo impotente sabendo que a melhor qualidade colectiva de uma equipa que se deu ao luxo de lançar o veloz Pedro para os aplausos a Villa era insuperável. Nem o toque de sorte, que sempre escapa às camisolas das quinas, nem a equipa de arbitragem, tão caseira (leia-se, "pro-espanhola"), ajudaram. A explusão ridicula de Ricardo Costa, com óscar para Capdevilla incluido, confirmaram o que se viu durante 90 minutos. Não é por acaso que Villar, presidente da RFEF, é também presidente do conselho de arbitragem da FIFA. Não foi por isso que Portugal perdeu, mas essas coisas contam e deixam perceber qual é realmente o nosso lugar no mundo do futebol.

O jogo chegou ao final com o chuveirinho do desespero, as lágrimas de Eduardo, o gesto arrogante de Cristiano Ronaldo e a euforia de uma equipa que acredita estar predestinada para entrar nos livros de história, mesmo se futebolisticamente o seu bom jogo já não tem o mesmo sabor que há dois anos atrás. Portugal pode estar orgulhoso de ter sabido negar a evidência durante tanto tempo. Uma equipa amputada de duas flechas (Bosingwa e Nani), um pensador (R. Micael) e com vários jogadores em final de carreira (Simao, Liedson, Deco, Carvalho, Ferreira), mesmo assim soube trepar o "Grupo da Morte" sem sofrer um golo e cair de pé nos Oitavos de Final. Algo que, por exemplo, a "Geração de Ouro" em 2002 não soube fazer. E apesar desta ser a década chave do futebol português, há sempre a tendência a esquecer que este foi apenas o quinto Mundial de Portugal e o terceiro apuramento da primeira fase. Nas outras duas edições chegou-se às meias-finais. Mas o potencial futebolistico de um país que abandonou a formação (ao contrário de Espanha), que não soube jogar com os emigrantes/imigrantes (como França, Holanda e Alemanha) e que continua perdido em demasiados fait-divers extra-futebol para singrar em grandes provas.

Portugal sai do Mundial como se esperava à partida, com melhor impressão do que seria expectável, particularmente do sector ofensivo. Sai, sabendo que foi uma das seis equipas europeias sobreviventes à razia deste Mundial de toque sul-americano, e olhando em frente para o ataque ao Euro 2012. Uma campanha que será marcada por três elementos chave: a rápida renovação que já se começa a verificar com jogadores como Eduardo e Coentrão; a necessária busca de um goleador eficaz e com margem de crescimento; e o inevitável afastamento de Cristiano Ronaldo, pelo menos do cargo de capitão, sob pena de que a equipa das quinas se transforme num reality show made by MTV com o CR qualquer coisa de protagonista. Até lá, o Mundo continua. Portugal volta ao nevoeiro. Pessoa fica adiado. Não era a hora!


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Miguel Lourenço Pereira às 08:15 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Terça-feira, 29.06.10

Portugal enfrenta hoje um dos desafios mais importantes da sua história. Bater a Espanha, actual campeã da Europa e musa dos puristas do romantismo futebolistico, era a maior bofetada de luva branca que uma geração criticada e cercada poderia dar. Era um golpe na mesa de uma equipa longe do talento individual da "geração de ouro" mas com o espiritio de sacrificio que tanto pedem estas provas.

Espanha está nervosa. Espanha está preocupada. Espanha duvida.

A equipa que chegava à África do Sul com um imenso recorde de invencibilidade (um jogo perdido em dois anos e meio) e com o histórico titulo europeu no bolso. Mas que à primeira se desmoronou, como um castelo de cartas. Contra a Suiça a equipa espanhola jogou como sempre mas perdeu. Algo que parecia impensável e que abalou fortemente a auto-confiança de uma geração que acreditava ser especial. E todos sabemos que a auto-confiança espanhola é, habitualmente, para inglês ver. Por dentro, os nervos dos espanhóis costumam ser uma imensa gelatina, incapaz de manter-se de pé nos momentos dificeis. Aquela tarde fez história e abriu debates até então impossíveis. Questinou-se o modelo idolatrado, perguntou-se sobre a utilidade de dois médios de contenção, da presença de um dianteiro apagado ou se era melhor jogar com extremos. Dúvidas que não existiam antes, numa equipa que parecia que entrava em campo já como ganhadora. Apesar das vitórias nos seguintes jogos, a qualidade de jogo baixou muito. Nem a exagerada imprensa espanhola o consegue esconder. As Honduras sofreram apenas dois golos, um deles num ressalto e o Chile idem aspas, com uma preciosa ajuda do guardião e da equipa de arbitragem. Um penalty falhado, muitos remates ao lado, pouca precisão no passe e jogadores atropelados por colegas no miolo. Esta era a Espanha que ninguém achava que iria ver. Uma equipa marcada profundamente pelo peso da pressão.

 

Portugal, pelo contrário, surge solta. Sem responsabilidades.

Depois da "Geração de Ouro" ter chegado ao seu final, ninguém esperava que a equipa se mantivesse na ribalta. A saída de Scolari parecia deixar entreaberta a possibilidade do terceiro país com melhor média de prestações nas provas da última década, só atrás de Alemanha e Brasil, entrar num periodo de vacas magras. Cristiano Ronaldo, simbolo máximo do futebol internacional, era uma figura mais do que ausente e os seus escudeiros não tinham o perfil de Figo, Rui Costa, Paulo Sousa, Maniche, Costinha, Baía, Jorge Andrade, Nuno Gomes ou JV Pinto.

No meio de tanta critica, Carlos Queiroz apostou na força do colectivo. Montou uma equipa pensada de trás para a frente com um eixo defensivo extremamente sólido. A prova está nos poucos golos sofridos por Portugal nos últimos dois anos. Eduardo, Paulo Ferreira (depois da lesão de Bosingwa), Ricardo Carvalho, Bruno Alves e Duda (agora rendido brilhantemente por Coentrão) deram essa estabilidade que sempre faltava à equipa das quinas. A partir daí cresceu a equipa, com um jogo no miolo sem a mesma classe de algumas formações de renome, mas com tremenda eficácia. O golo continua a ser o grande problema, com a enganadora goleada à Coreia do Norte a tapar as debilidades face a marfilhenos e brasileiros. Mas, mesmo assim, a equipa portuguesa é hoje mais equipa do que era quando chegou à África do Sul, envolta em polémicas internas e criticas externas. É um conjunto dificil de bater, sabedor dos pontos fracos do rival e com uma tremenda paciência para dar a estocada. Talvez o Portugal mais italiano, mais "mourinhiano" que temos visto. E quem não se lembra do que sucedeu ao Barcelona, que até dá oito jogadores a esta equipa espanhola, às mão do técnico português?

A vitória é o único objectivo aceitável para hoje. O medo não tem razão de ser, a Espanha deixou há muito de ser o papão que todos vendiam. Pode suceder de tudo, afinal isto é futebol, mas não estaremos diante de um David contra Golias como parte da imprensa quer vender. Veremos sim, um jogo tacticamente complexo, onde vencerá a equipa que melhor saiba gerir a pressão. A velocidade portuguesa contra a temperança espanhola. Os nervos poderão decidir. Os de Cristiano Ronaldo e o seu ego ou os do atascado colectivo espanhol. Por aí penderá a balança. Depois virá a fortuna, haverá quem se lembre de Aljubarrota. Mas o jogo é na Cidade do Cabo. O cabo em que dobramos o Mundo!  


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Miguel Lourenço Pereira às 10:02 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Os Mundiais existem em duas etapas muito claras. Aquela onde nos encantamos com pequenos equipas repletas de ambição e bom futebol. E a fase em que os seus sonhos são esmagados por uma potência superior, cinica, incapaz de perceber de que matéria estão os sonhos feitos. O Chile voltou a passar, uma vez mais, por este trágico carroussel. O Brasil acelerou quando foi preciso. Chegou, como sempre.

Durante a primeira meia-hora vimos o Chile de sempre. Na última meia-hora já não havia o minimo resquício daquela equipa.

É o efeito eliminatórias mais do que o peso do rival. O Brasil foi pequeno até ao primeiro golo, demasiado pequeno para uma equipa canarinha. Foi engolido pelo futebol de rápida transição defesa-ataque do esquema montado por Marcelo Bielsa e pode agradecer a ineptitude dos andinos em procurar o remate. Boa troca de bola, excelente movimentações e depois...o nada.

Com o sucessivo falhanço ofensivo do Chile o conjunto pentacampeão foi ganhando o pulso ao jogo. Encostou o rival às cordas e deu mais liberdade a Ramires e Dani Alves no apoio directo a Kaká no meio campo. O médio do Real Madrid continua um jogador vulgar e ontem pode ter agradecido à velocidade de Robinho e ao pulmão do meio-campo montado por Dunga para não ter saído do jogo como um fantasma. Assim estava o jogo quando um mau alivio da defesa chilena originou um canto. A bola, colocada nas alturas, encontrou a cabeça de Juan. O central ganhou com a parede ofensiva de Lucio e Fabiano e rematou para as redes de Claudio Bravo. Um bom golo que chegava de forma injusta quando o Chile ainda era melhor. Durou pouco o suspense. Num contra-golpe, tipico neste conjunto canarinho, a velocidade de Robinho foi chave e o timing de desmarcação de Fabiano perfeito. O dianteiro apontou o seu terceiro golo no torneio e fechou a eliminatória.

 

No segundo tempo o perfeccionista Bielsa, perfeitamente conhecedor da resistência defensiva do Brasil, lançou as suas armas mais ofensivas. Não chegou.

Valdivia trouxe mais toque e rapidez ao miolo mas foi incapaz de mudar o que foi realmente o grande problema dos chilenos. A bola continuava a passar longe de um tranquilo Julio César e apesar da maior posse de bola e pressão do ataque chileno, o Brasil controlava plenamente o jogo. Num desses rápidos lances, em tudo similar ao segundo golo, surgiu Robinho para confirmar o seu óptimo estado de forma e a sua boa relação com o guardião chileno a quem marca em todos os jogos. Nem foi preciso agradecer a Deus.

O 3-0 matou um jogo já de si moribundo porque o Chile perdeu esse toque de desespero que atirou a Espanha às cordas na passada sexta-feira. O 3-3-1-3 perdeu sentido face à movimentação lateral de Bastos e Maicon e os golpes a meio-campo evidenciaram mais a dureza de quem se recusa a cair sentado mas que também não sabe muito bem como cair de pé. Com este resultado, o Brasil voltou a demonstrar que é outra equipa quando decide passar o limite de velocidade urbano pelo ritmo de estrada nacional e que o jogo com a Holanda será um desafio curioso entre duas equipas com imenso potencial que até agora têm, apenas, demonstrado serviços minimos. Um deles tem a final à porta.

A queda da primeira equipa sul-americana era inevitável mas o Chile foi a prova viva de que o futebol do seu continente está bem vivo. Faltou-lhe, como sempre falta a Bielsa, aquele cinismo defensivo que caracteriza Paraguai e Uruguai. E, acima de tudo, capacidade para matar o jogo. Um problema que se tinha percebido já, de antemão, na fase de grupos. No entanto ficam vários nomes e alguns bons momentos para a memória de um país que desde o seu Mundial nunca mais soube o que é passar de Oitavos. Fica para a próxima.


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Miguel Lourenço Pereira às 08:12 | link do post | comentar

Segunda-feira, 28.06.10

A Holanda já não é aquela máquina de futebol de encantar que durante décadas deixou qualquer adepto neutro - se é que isso existe realmente - com um fraquinho pelo modelo Orange. Bert van Maarjwick aplicou um modelo de puro pragmatismo com resultados demonstrados. A Holanda está nos Quartos de Final à espera do Brasil e vontade de desforra.

Por duas vezes a Holanda caiu diante do Brasil nos últimos 16 anos nas últimas rondas do Mundial.

A derrota em 1994 (3-2, com a Holanda a lograr uma notável reviravolta) e em 1998, nos fatidicos penaltys, deixaram marca no actual seleccionador holandês que já disse, por diversas vezes, que está interessado mais na vitória do que no jogo. Por isso talvez esta Holanda especule mais e arrisque menos. É uma equipa de serviços minimos, que se esforça quando sente necessidade, mas que sabe controlar os tempos de jogo de uma forma que o conjunto orientado no último Europeu, por exemplo, nunca foi capaz. E acabou destroçado pela veloz Rússia quando todos já os viam com o ceptro na mão. Essa abordagem não podia ser, no entanto, real não fosse o trabalho herculeo realizado pelos homens fortes da equipa. Van Persie, Kuyt, Sneijder, van Bommell, De Jong e até mesmo Arjen Robben, foram hoje, uma vez mais, incansáveis na aplicação prática dessa nova teoria holandesa. Se o génio do extremo do Bayern Munchen decidiu o jogo, a verdade é que o ataque holandês tentou de todas as formas e feitios evitar sofrer até ao fim perante uma Eslováquia heróica que podia ter feito mais para ferir a ainda débil defesa holandesa.

 

O jogo começou, precisamente, com uma Eslováquia super-ofensiva.

Vladimir Weiss arriscou, sabendo das debilidades atrás dos holandeses, e colocou o seu onze mais atacante com o seu filho, Miroslav Stoch e Marek Hamsik atrás do ponta-de-lança revelação, Vittek. Os primeiros minutos pareciam dar-lhe razão porque o onze holandês não se encontrava cómodo e Sketelenburg acabou por ter de prestar mais atenção ao jogo do que poderia esperar. Mas a revolução inicial foi sendo controlada pelo trabalho no miolo de van Bommell e Sneijder que rapidamente lançaram o vendaval ofensivo holandês. Várias ocasiões de golo e finalmente o tento número 1 de Robben na prova. O extremo holandês está no seu ano de glória e conseguiu em 55 minutos o que Messi não logrou ainda em 360.

Depois do golo os holandeses não abrandaram e Mucha, o guardião eslovaco, foi testado de diversos angulos, acabando sempre por sair como o herói do filme. Com a segunda parte surgiu mais uma vez a Eslováquia lançada, mas a Holanda voltou a mostrar uma maturidade nem sempre presente nas provas anteriores e soube neutralizar e adormecer o jogo rival. As entradas de Elia e mais tarde de Huntelaar, foram importantes para dar ar fresco ao ataque da Laranja Mecânica. A dez minutos do fim, Wesley Sneijder, a outra grande estrela holandesa, arrancou o aplauso do banco de suplentes, onde van Maarjwick podia respirar, por fim, tranquilo. Nem mesmo o infantil penalty marcado, de forma errada, pelo árbitro espanhol Undiano Malenco (felizmente poupou o vermelho ao guardião holandês), e o consequente golo - o quarto, os mesmos de Higuain - de Vittek foram suficientes para travar a festa e merecido apuramento holandês.

Uma vitória como todas até agora, marcadas pelo profissionalismo extremo e ritmo frenético do bloco ofensivo holandês, que deixa água na boca para o duelo dos Quartos de Final. É essa a eliminatória mais problemática que a Holanda tem neste Mundial. Superado esse desafio, que é possivel com o bom jogo oferecido por Sneijder e Robben hoje, e os holandeses podem começar realmente a sonhar com uma noite de glória. A última vez que estiveram numa final, há 32 anos, foi precisamente no hemisfério sul. Será um sinal do que nos espera?


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Miguel Lourenço Pereira às 16:39 | link do post | comentar

 

12: 01 - Em Espanha há mais respeito do habitual.

Esta geração de jogadores e técnicos nada tem a ver com os arrogantes membros de equipas passadas, que entravam em campo já a vencer por 10-0...minimo. Há aqui muita cabeça e todos têm consciência de que o bom futebol de Espanha não o tem sido, realmente, e que há muitos problemas por resolver, desde a fatiga de uma larga época ao peso de serem favoritos. Portugal pode jogar com isso. Cansando-os, fisica e mentalmente, antes da estocada. Porque, sejamos honestos, de peito feito, a equipa lusa tem poucas possibilidades de seguir em frente.

11 : 57 - A Holanda tem um largo historial de fazer grandes fases de grupo e sofriveis rondas a eliminar. Até acabar por cair cedo demais.

Este ano, apesar de ter vencido os três jogos, a Laranja não foi tão mecânica. Talvez seja, como diz o seleccionador van Maarjwick, um sinal de que os jogadores estão a aprender a dosificar-se. Todos se lembram do último Europeu, onde humilharam França, Itália e Roménia para serem depois esmgadados pela Rússia.

 

11: 50 - Depois de um merecido descanso, regressa o South, Africa Stop num dia de emoções fortes.

No rescaldo do escandalo arbitral que marcou o segundo dia dos Oitavos de Final, os ingleses e mexicanos preferem queixar-se do jogo pobre das suas equipas, Maradona tem a lata suprema de dizer que a albiceleste foi prejudicada pelas (inexistentes) "constantes patadas" ao ausente Messi e a FIFA continua muda e calada. Normal portanto.



Miguel Lourenço Pereira às 10:50 | link do post | comentar

Domingo, 27.06.10

Apesar de ser, justamente, uma das máximas potências do futebol mundial, os dois titulos mundiais conquistados pela Argentina ficaram marcados pela mão de Videla, o lider da Junta Militar de 1978, e pela mão de Diego Armando Maradona em 1986. Esta noite os argentinos têm mais uma mão "divina" a juntar á sua particular colecção. O México volta para casa com um bilhete carimbado directamente por Sepp Blatter, organizador de uma prova que teve de tudo até agora, menos futebol.

Estava a ser, na primeira ronda, o Mundial dos erros dos guarda-redes, da bola indomável e das irritantes vuvuzuelas.

Passou a ser o Mundial dos Europeus em desgraça e agora é, como em 2002, o Mundial da Arbitragens. Das más, subentenda-se. Depois do erro da tarde, no vibrante Inglaterra vs Alemanha (talvez o único jogo bom de toda a prova) foi a vez do italiano Rosseti decidir entrar na prova em grande. Um erro imenso da equipa de arbitragem ofereceu a uma pobre, muito pobre, Argentina, o golo inaugural. Um golo que custaria a chegar frente a um onze mexicano que estava a demonstrar ser um osso bem duro de roer. Três potentes remates, com Salcido como protagonista, deixaram Romero em suspenso e Maradona em desespero. O meio-campo sul-americano não encontrava o seu espaço e o jogo rápido dos mexicanos deixava nervoso o combinado celeste. E chegou Rosseti.

Um lance confuso na área, falta de Tevez sobre Perez não assinalada, e a bola nos pés de Leo Messi. O número 10, ausente de todo o jogo uma vez mais, pica a bola sobre a defesa para o golo mas Tevez desvia-a para as redes. Sozinho, com dois defesas atónicos atrás de si, espantados com a clara posição de off-side do argentino. Rossetti validou o golo, depois consultou o quarto árbitro e o fiscal de linha, enquanto o estádio via nos ecras gigantes a repetição do claro fora de jogo. Nem assim a equipa de arbitragem mudou de ideias. FIFA obliges.

 

Depois do erro imenso do arbitro chegou o erro da defesa mexicana.

Osorio, nervoso do primeiro ao ultimo instante, falhou um toque simples e entregou a bola a Gonzalo Higuain. O dianteiro do Real Madrid, totalmente ausente do jogo, driblou bem o guardião e não desperdiçou a oferta. Em cinco minutos, o árbitro e a inocência defensiva azteca tinham escancarado o apuramento dos argentinos para um quente duelo com a Alemanha. A mesma a quem Maradona ganhou um Mundial. A mesma que lhe devolveu, orgulhosa, o golpe, quatro anos depois.

O segundo tempo surgiu, como um pesadelo para os desalentados mexicanos. O golo, imenso esse sim, de Carlos Tevez, parecia ter morto de vez a eliminatória. Um remate estratosférico, fruto da insistência do jogador mais em forma do conjunto albiceleste. Depois foi substituido e saiu furioso com o seu técnico, sabendo que tinha o hat-trick a um golo. Tudo porque Messi, um fantasma, ficava em campo para marcar o seu primeiro golo na prova. E se Messi não marcava - nem jogava - já a jovem promessa mexicano, Javier Hernandez, rasgava, finalmente, as redes de Romero com um belo remate que deixava os sul-americanos em suspense. Teriam de sofrer, vinte minutos, da pressão mexicana. Que nunca chegou.

 

Com este resultado final a FIFA volta a ficar na mira dos mais criticos que vêm, e com razão, demasiadas semelhanças entre este Mundial e o de 2002, tristemente marcado pelas decisões arbitrais. Começa a parecer claro que o futebol continuará a ser prato ausente, e que a ideia de uma final Brasil vs Argentina ou Espanha, começa a forjar-se. A Alemanha, o Chile e Portugal têm a próxima palavra.


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Miguel Lourenço Pereira às 20:51 | link do post | comentar | ver comentários (3)

A Inglaterra já tem um golo do tamanho do Wembley para se queixar para o resto dos seus dias. Nisso, britânicos e germânicos acabaram empatados. Porque, no resto, o repasso monumental que Joachim Low deu a Fabio Capello, o homem contratado para fazer história, não teve igual. Vitória estrondosa e merecida de uma das mais belas equipas alemãs da história.

Beckham tinha razão quando ao intervalo interpelou o árbitro. O espantoso remate de Frank Lampard, que fez hoje o que quis com a Jabulani, entrou bem no coração das redes de Michael Neuer. Podia ter sido o empate, o equilibrio num jogo em que os ingleses se mostraram melhores que nos encontros da primeira fase. Mas acabou por não valer. Para a Alemanha, que jogava melhor e que tinha liderado o jogo com um justo 2-0, antes de Upson ter reduzido a vantagem, foi a doce desforra. Daquela tarde de 1966, a única em que os ingleses levaram a melhor sobre a equipa teutónica.

No final Capello, o homem que prometeu mundos e fundos, levou para casa a maior derrota num Campeonato do Mundo para a equipa inglesa. E uma eliminação bem antes das que condenou Sven Goren Eriksson em 2002 e 2006. Uma derrota trágica para uma das melhores gerações do futebol britânico (Terry, Lampard, Gerrard, Barry dificilmente terão outra ocasião) e um correctivo histórico para uma equipa que sacrificou a sua maneira de jogar pelo espirito resultadista do técnico italiano, acabando por oferecer a sua figura mais triste num Mundial de Futebol desde...1958.

 

A Alemanha continua a dar o seu particular show.

Uma equipa rápida, espantosa nas transições, com Schweinsteiger em plano estelar, e com um maestro a pautar o jogo como Ozil. Entre ambos se desenharam os lances mais belos do encontro. Apesar disso, foi um pontapé á inglesa que a Alemanha se adiantou no marcador. Neuer coloca a bola em campo, ninguém alivia e Miroslav Klose, mais rápido do que tudo e todos, antecipa-se no duelo a Upson e encosta para o 1-0. Um resultado justo que, rapidamente, Ozil tratou de orquestrar num 2-0. Passe para o jovem Mueller que viu, do outro lado, a corrida de Podolski. O centro foi perfeito, a finalização do dianteiro do Koln também. A Inglaterra estava a ser atropelada pelo panzer mais belo de que há memória nos últimos 26 anos de futebol alemão.

Aí surgiu o orgulho inglês em jogo. A equipa, com Millner, Lampard e Gerrard atrás da linha de dois avançados, foi subindo no terreno. Começou a controlar o jogo e foi criando ocasiões. Defoe enviou a bola á barra, mas o lance acabou anulado. Pouco depois, um centro hábil de Gerrard encontrou a cabeça de Mathew Upson. O central aproveitou o erro garrafal de Neuer e reduziu as distâncias. Até que chegou o remate de Lampard, esse imenso golo que entra na galeria dos grandes remates que não contam. A Alemanha suspirou. E voltou do intervalo com outra disposição. A Inglaterra era, efectivamente, uma versão melhorada da fase de grupos. Mas não chegou. Em quinze minutos, duas licções de como contra-atacar um rival descoberto atrás (caracteristica nas defesas da Argentina e Espanha, possiveis rivais alemães) deram a Muller a oportunidade de fazer história. Dois belos golos, dois momentos de grande futebol. Dois socos na mentalidade perdida de Capello, um dos maiores derrotados deste Mundial aziago para os renomes europeus.

Com este esmagador triunfo, a Alemanha reforçou a sua condição de favorita e deixa antever o próximo duelo como o grande duelo dos Quartos de Final. Um duelo onde pode sair o futuro campeão, tal a esmagadora diferença de qualidade face ao outro lado das eliminatórias. O melhor jogo do Mundial 2010 acabou com uma Alemanha reforçada e uma Inglaterra com dois anos para pensar no futuro. Naturalmente, com outro homem ao leme. Capello, desta vez, não soube como ganhar.  


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Miguel Lourenço Pereira às 17:25 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Sábado, 26.06.10

Passamos de um extremo ao outro. Um Mundial em África com cinco equipas eliminadas na primeira fase é um fracasso? Claro que sim. Mas uma equipa africana, uma vez mais, ás portas das meias-finais é um sucesso? Também. O Gana salva in extremis a FIFA de uma humilhação total e bate uma formação norte-americana mais débil que há um ano. O presente do continente negro defronta o mais glorioso passado da América Latina num jogo apaixonante.

O golo de Asamoah Gyan decidiu, já no prolongamento (o primeiro de alguns,espera-se), o apuramento da equipa que conta agora com o apoio de todo um continente. O Gana entrou na máxima força, com vontade de fazer história e superar o seu registo do último Mundial. Se já na CAN tinha ficado a ideia de que os ganeses eram - a par do Egipto - a única equipa africana organizada e com pedigree para brilhar no Mundial, o jogo de hoje foi o exemplo perfeito de como um conjunto que vale essencialmente pelo colectivo é capaz de aguentar duas horas de máxima tensão e carimbar um apuramento histórico.

E isto que os EUA, como sempre, foram um osso muito duro de roer, particularmente depois de Bob Bradley repetir a sua jogada táctica preferida. Ao intervalo, a perder por 1-0 (golo de Kevin Price-Boateng, o polémico causante da lesão de Michael Ballack), o técnico americano lançou um médio centro para o lugar de um ponta de lança. O conjunto venceu o duelo no meio campo no inicio da segunda parte e tomou controlo de um desafio que parecia decantado totalmente para o lado africano. Foi nesse momento que Mensah rasteirou Dempsey na grande área e ofereceu ao herói Donovan a oportunidade de marcar. E Lance não falhou. Uma vez mais.

Com esse tento, há muito merecido, os americanos encostaram o Gana ás cordas. Mas não foi suficiente para quebrar o espirito ganês. No prolongamento, a velocidade de Ayew e a alma de Gyan encontraram o golo certeiro que permitia ao Gana sonhar, um pouco mais.

 

Com este resultado os ganeses estão a 90 minutos de tornar-se a primeira formação do continente negro a chegar ás meias-finais de um Mundial. O duelo contra o Uruguai será um dos pratos-fortes dos quartos de final. Sem estrelas sonantes mas com quatro dos melhores dianteiros da prova e com um continente atento. Como diz Shakira, "it´s time for Africa". Is it?


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Miguel Lourenço Pereira às 23:04 | link do post | comentar

Ninguém marcou mais golos do que ele nesta época europeia, mas o renome de Forlan deixou-o reduzido a parceiro de luxo. Até hoje. Dois soberbos tentos de Luis Suarez decidiram o primeiro duelo dos Oitavos de Final deste Mundial e abriu as portas a um regresso dos uruguaios às meias-finais, 40 anos depois.

Era, à partida, um duelo equilibrado. E foi-o, até que Suarez apareceu pela primeira vez no Mundial.

O avançado do Ajax, destinado a ser um dos nomes próprios desta próxima década, apontou os dois golos dos charruas e fechou, com chave de ouro, uma semana histórica para o futebol uruguaio. Afinal, a equipa bicampea do Mundo desde 1970 que nao chegava tao longe. Nessa altura ficaram-se pelas meias-finais, derrotados pelo Brasil. Um duelo que se pode repetir. Para os uruguaios, pelo menos, falta apenas um jogo.

O conjunto orientado por Tabarez, assinou um jogo de qualidade, demonstrando maior eficácia e maturidade que os coreanos. A equipa capitaneada por Park Ji Sung esteve à altura das circunstâncias, mas perdeu na eficácia ofensiva onde há, actualmente, poucas equipas com a capacidade goleadores dos azuis celestes.

 

Se a Coreia até começou bem, com Chu-Young como lider de orquestra, a equipa do Uruguai soube sempre controlar o jogo.

Aos 8 minutos o primeiro golo de Suarez deixou os sul-americanos mais relaxados. Afinal, este Mundial tem sido deles, que serao também os protagonistas daqui a quatro anos. A FIFA claramente deixa um sinal à Europa. O futebol quer deixar de ser eurocêntrico.

A Coreia do Sul tinha ainda na memória a épica caminhada de 2002 e nao desistiu. Young acertou na barra, Park Ji Sung e Ki controlavam o jogo no miolo, mas faltava sempre algo. E se a equipa uruguaia tinha chegado aqui sem sofrer golos (tal como Portugal), Muslera acabou por ser batido num lance em que os orientais se têm revelado especialistas. As bolas paradas. Um golpe mal defendido e um ressalto que o guardiao da Lazio nao soube como travar. O empate de Yong deixava o jogo em suspenso. E com a Coreia a acreditar no impossível. As oportunidades foram-se sucedendo até que surgiu, uma segunda vez, o génio do jovem Suarez. Um remate impossível que encontrou do outro lado a história. O Uruguai quer recuperar o passado. Já.

Com este triunfo, o futebol sul-americano continua a demonstrar a sua total superioridade (pode colocar quatro equipas nos quartos de final, mais do que os europeus, que neste ronda jogam sempre entre si) e o Uruguai sabe que tem o caminho relativamente facilitado até às meias-finais. Depois é só sonhar. Afinal, nao foram eles que calaram o Maracana?


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Miguel Lourenço Pereira às 18:06 | link do post | comentar

Durante a primeira parte parecia dificil ver quem era realmente "La Roja". A Espanha, disfarçada de azul, deixava-se levar pelo melhor jogo e espirito dos andinos e vergava-se perante um Chile superior. Mas vieram ao de cima as debilidades defensivas dos chilenos e viu-se, pela segunda vez no dia, a mao da FIFA. Espanha e Brasil só se podiam cruzar lá para o fim. Mensagem recebida.

A nomeaçao do polémico árbitro mexicano para um jogo de alto risco era o aviso da FIFA. Cumprido.

Desde o inicio do jogo que o árbitro condicionou o mais rápido futebol de ataque chileno, demoniaco na criaçao, impreciso à hora de finalizar. À meia hora de jogo o Chile podia estar a vencer por mais de un golo, asfixiando uma Espanha necessitada, e muito, de oxigenio. Fisicamente a Espanha, como tantas outras equipas europeias, está de rastos, e isso nota-se. Xavi, fora da sua posiçao natural pela presença em campo de Xabi Alonso, nao pauta o jogo ofensivo e a equipa ressente-se. Del Bosque nao larga o 4-3-3, quando tem em maos uma equipa que brilhou pelo seu 4-5-1 e os problemas de jogo espanhóis estao à vista. Mas bastou Bravo cometer um dos erros do Mundial para que David Villa, oportuno como poucos, destapasse o ferrolho chileno e virasse o jogo do avesso. O árbitro aproveitou a deixa e deu o remate final. Os cartoes começaram a cair sobre toda a linha defensiva chilena e num lance infantil da defesa andina, Torres aproveitou para simular uma falta que o arbitro condenou num vermelho escusado. Que nesse mesmo lance, Andrés Iniesta tenha feito o segundo golo, prova bem que há equipas que nascem com sorte...e outras que nao. A Espanha sabe de que lado está neste Mundial a partir desse fatidico minuto que acabou com o jogo.

 

Com a Suiça a dar razao a quem acreditava que a sua proposta futebolistica era meramente um producto para consumo minimo, e com as Hondurenhas a espelharem a necessidade da FIFA em distribuir melhor os lugares mundialistas, a Espanha entrou para o segundo tempo mais nervosa do que seria de esperar de um conjunto que levava 2-0 de vantagem no marcador. De isso se aproveitou o Chile que, mesmo com menos um, foi sempre mais e melhor equipa sobre o terreno do jogo. O golo chileno fez tremer o país vizinho, já que era apenas o espelho de uma maior vontade de vencer (e jogar) por parte dos sul-americanos. Del Bosque defendeu o resultado até ao fim, consciente de que jogava com o fogo se os suiços marcassem. Mas nao aconteceu nada mais. O Chile percebeu que estava apurado com esse resultado e baixou o contador e os rivais espanhois agradeceram. Esperam-lhe um Portugal de serviços minimos e o fantasma do Brasil fica adiado até ao fim. Graças a Blatter and Co.


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Miguel Lourenço Pereira às 09:54 | link do post | comentar

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