Quinta-feira, 19.07.12

O grande sucesso do Barcelona na última década parte da base primordial na aposta na formação. Uma área mitificada pela construção da Masia nos anos 70 mas que só com a chegada de Louis van Gaal se tornou numa prioridade para os dirigentes do clube. Mas essa relação histórica entre a primeira equipa e a cantera parte de um principio de desconfiança histórica. O exemplo perfeito são os 65 milhões gastos nos últimos anos para recomprar o producto da formação a quem o clube não viu futuro. Piqué, Fabregas e agora Jordi Alba, nomes próprios de uma história com muitos parêntesis.

Piqué chegou em 2008 ao clube a preço de saldo. 

Alex Ferguson acreditava que a sua incapacidade no jogo aéreo era um problema e deixou-o voltar a Barcelona. O Manchester United tinha contratado o catalão quando este cumpriu 16 anos. O clube blaugrana não lhe augurava futuro e ofereceu-lhe um contrato de tostões. Aconselhado pela familia - históricos dirigentes do clube - Piqué aceitou a proposta dos Red Devils e partiu para Old Trafford. Durante quatro anos tentou entrar nas contas do técnico escocês mas sem grande sucesso, tendo sido emprestado durante uma época ao Zaragoza. Cansado de esperar por aquele que viria a ser um dos melhores centrais do Mundo, Ferguson permitiu-lhe negociar com o Barça de Guardiola. Por 5 milhões de euros.

Cesc Fabregas, amigo de formação de Piqué e de outro rapaz a quem o clube sim prestou mais atenção - um tal de Lionel Messi - também teve de encontrar espaço em Inglaterra porque na Masia pensavam que a sua adaptação às exigências do futebol profissional seria complexa. Fabregas percorreu os mesmos passos de Piqué nas camadas de formação e a custo zero marchou para Londres onde Wenger lhe prometeu protagonismo. E teve-o. Tornou-se no maestro do meio-campo do Arsenal e depois das saídas de Henry e Bergkamp, o lider espiritual do projecto gunner. Referência absoluta do jogo do Arsenal, sofreu ano atrás ano com o desejo de incorporar-se a uma equipa que, pela primeira vez, estava a fazer exactamente aquilo com que ele sonhava de pequeno. Com o seu mentor como técnico, o seu idolo de maestro e os seus colegas de formação de protagonistas, a Fabregas jogar no Barcelona era mais do que um desejo, tinha-se tornado numa necessidade. O negócio, a duras penas, concretizou-se finalmente em 2011 por 45 milhões de euros.

Esta Verão junta-se a esta dupla outro filho rejeitado da Masia. Quando era pequeno, Jordi Alba jogava de extremo e era uma das máximas referências das equipas de infantis do Barcelona. O seu protagonismo era tal que foi escolhido para protagonizar, com Louis van Gaal, o video de inauguração das obras do novo centro de treinos. Mas, de um momento para o outro, o clube desprendeu-se dele e Alba teve de deixar o seu sonho encostado num canto enquanto convencia Unay Emery, em Valencia, de que era o jogador que ele procurava. O técnico basco transformou-o em lateral ofensivo e fez dele uma das referências de futuro para o futebol espanhol. Sem Capdevilla ou Arbeloa, o seleccionador Vicente del Bosque não hesitou em entregar-lhe o flanco e Alba correspondeu com um torneio inesquecível. Pelo meio apareceu, arrependido, o Barcelona e por 14 milhões (um negócio facilitado por este ser o seu último ano de contrato com os che) o jovem lateral cumprirá o seu sonho. 

 

São três casos que exemplificam bem como o clube blaugrana sempre lidou mal com a sua própria essência.

Nos anos 70, quando chegou a Can Barça, Laureano Ruiz, o homem por detrás do espirito de rondo e da Masia - ainda por construir - queixou-se que os dirigentes do Barcelona eram os que menos acreditavam nos seus próprios jogadores. As declarações de Xavi Hernandez, revelando que o clube pensou vendê-lo por várias vezes, antes da chegada de Guardiola, dão-lhe razão.

Apesar de agora vender a aposta na formação como uma imagem quase exclusiva, o Barcelona sempre foi um clube de negócios, de mercado e muito pouco de formação. Quando Johan Cruyff, outro dos teóricos da revalorização da cantera, chegou a Barcelona, a primeira coisa que exigiu a Josep Lluis Nuñez foi a contratação de um batalhão de jogadores bascos, entre os quais Andoni Zubizarretta, Julio Salinas, Andoni Goikotchea e José Maria Bakero porque considerava que os alunos da formação blaugrana não tinham capacidade mental para aguentar a alta competição.

Durante o arranque do Dream Team apostou apenas em três jogadores da casa, Luis Milla primeiro, e depois Josep Guardiola e Albert Ferrer. No meio das estrelas compradas a peso de ouro (Romário, Koeman, Stoichkov, Laudrup) e de jogadores do norte do país, esse foi o impacto real do cruyffismo na aposta determinante pela formação do clube catalão.

Durante a década que mediu a saida de Cruyff e a chegada de Rijkaard, o clube viveu tremendos altos e baixos, financeiros e instituicionais, mas pela mão de Louis van Gaal alguém finalmente compreendeu a importância real da Masia. Quando o técnico holandês - a quem não se lhe conhece sentimentos pró-catalães - declarou que o seu sonho era ganhar uma Champions League com onze jogadores formados na Masia, a imprensa da cidade Condal riu-se, os jogadores riram-se, os directivos riram-se e Guardiola fechou os olhos e sonhou. Dez anos depois, em Londres, quase que logrou cumprir esse sonho. Com os homens a quem van Gaal deu oportunidades. Gaspart quis vender Valdés, Xavi e Puyol para pagar o investimento em Rustu, Christanval e Rochemback mas van Gaal apostou tudo neles. Também deixou depositadas esperanças em Luis Garcia, Oleguer Presas e Andrés Iniesta. Nomes resgatados de um túnel desconhecido para a maioria dos adeptos blaugrana. Rijkaard colheu os lucros imediatos, Guardiola aperfeiçoou o modelo e hoje a imprensa faz eco desse amor histórico entre as "gents" de Barcelona e os filhos da "Masia". Os casos de Piqué, Fabregas a Alba, resgatados a peso de ouro e vendidos agora como filhos pródigos que voltam a casa funcionam num espaço mediático onde a memória é escassa mas como eles há dezenas de outros jogadores que algum dia poderão voltar nas mesmas condições ao Camp Nou. 

 

Tito Vilanova, outro filho da Masia que teve de ir fora para voltar para casa com galões aos ombros, poderá este ano alinhar mais do que um onze de miudos que passaram pela fabrica de formação. Valdés, Fontás, Puyol, Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta, Fabregas, Cuenca, Tello, Thiago, Messi e até Pedro (que chegou a Barcelona já com 17 anos). Mas lembrando os 65 milhões gastos em três jogadores fica no ar a sensação de que se não fosse por dois holandeses como van Gaal e Rijkaard, talvez a directiva de Sandro Rossell tivesse de andar a pescar Iniestas, Xavis, Puyols, Valdés e Messis por esse mundo fora. O FC Barcelona sempre foi um clube com muitos esqueletos no armário. A sua politica de formação é, paradoxalmente, o maior de todos eles e, hoje em dia, a sua melhor arma para uma politica de comunicação que consegue multiplicar fora dos relvados os triunfos logrados sob o tapete verde. 


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Miguel Lourenço Pereira às 10:49 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 17.07.12

Por um lado os clubes da Scotish Premier League fizeram jus à moralidade do futebol escocês ao rejeitar a inclusão do novo Glasgow Rangers na categoria máxima do futebol na Escócia. Por outro, prepara-se um movimento dissidente da liga para criar uma nova competição do zero com as vagas a ser ocupadas por convite. E o Rangers será o convidado principal desta festa. O país que reinventou o futebol há muito que perdeu o conceito de liga de prestigio. Agora tem de decidir entre a sobrevivência financeira e o desastre moral.

Uma liga à escocesa, discutida entre duas equipas anos sem fim, tornou-se parte da terminologia não oficial do jogo.

Exceptuando os anos 80, em que Aberdeen e Dundee United foram realmente equipas capazes de desafiar os dois grandes de Glasgow, o futebol para lá da muralha de Adriano tem sido coto privado do Old Firm. Séries de uma década consecutiva de títulos de um só clube ajudam a explicar bem o fenómeno curioso de um país que recebeu o futebol das planícies inglesas e transformou-o por completo na sua infância. Escócia ensinou o resto do Mundo uma forma de jogar que se afastava do ideário original inglês e na viragem do século XX a cidade de Glasgow não tinha só três dos maiores estádios do Mundo, tinha também três dos maiores clubes.

Mas o Queens Park desapareceu e com o passar dos anos a Celtic e Rangers passou a ser difícil combater o poderio financeiro dos rivais britânicos. A nova Champions League marcou o final da importância da Escócia no futebol europeu, o primeiro país do norte da Europa a vencer a Taça dos Campeões, em 1967, e reduziu a liga escocesa a quatro jogos ao ano, a repetição do Old Firm nesse formato original de todos contra todos quatro vezes ao ano. Os negócios televisivos dependiam sobretudo desses duelos, os sponsors, inversores e o próprio público vivia o ano para poder desfrutar desses 360 minutos de futebol. 

No meio dessa dependência, a falência definitiva dos protestantes da cidade portuária coloca o futebol da Escócia em cheque. O clube desapareceu do mapa e foi refundado, com o mesmo nome, mas forçado a competir a partir da Third Division, o quarto escalão do futebol escocês, o berço do amadorismo das Highlands. A situação do Rangers não é particularmente distinta à do Parma, Fiorentina ou Nápoles, casos similares que nos últimos 10 anos abalaram o futebol italiano. Mas nenhum desses clubes significa o mesmo para o Calcio que o Rangers para a SPL. Num acto de desespero, os novos donos do clube tentaram comprar as acções do antigo Rangers, o que significava ocupar o seu lugar na primeira divisão. Numa reunião dos restantes clubes, a proposta foi vetada. A liga escocesa cometia hara-kiri financeiro mas mantinha os seus padrões morais bem altos.

 

É dificil entender num mundo desportivo a ausência de rivalidades que são, de certa forma, a mecânica do próprio jogo. 

As grandes rivalidades são as que fazem crescer as competições, as que alimentam ilusões, adeptos, imprensa e todo o mundo que se move à volta do futebol. Quando a Juventus voltou do inferno da Serie B, os adeptos do AC Milan, o seu grande rival, receberam-nos com uma tarja que só dizia "Isto não é o mesmo sem vocês!". Em Espanha ninguém pensaria numa liga sem Real Madrid ou Barcelona, em Portugal ninguém se atreveria a despromover SL Benfica ou FC Porto e mesmo em países como Inglaterra, onde há campeões europeus a disputar o Championship, a tradição joga um papel fundamental. Do outro lado do Atlântico, na Argentina, criou-se um sistema rudimentar para evitar a despromoção dos grandes e mesmo quando, nem assim, o River Plate se salvou do abismo, tentou-se tudo até ao último dia para revogar uma decisão estabelecida no próprio tapete verde.

O Rangers acabou porque foi um dos clubes piores geridos da história do futebol. Num país sem mercado, viveu-se acima das expectativas demasiadas vezes e os azuis foram até ao extremo. A mesma situação talvez que o Leeds United, outro grande a passar horas de amargura, mas que não significou a despromoção efectiva no terreno de jogo porque o abismo entre clubes continua a ser imenso. A razão - e por razão entendemos os aspectos financeiros - diz que sem o Glasgow Rangers na elite durante quatro anos, o futebol profissional escocês pode estar perto do fim, tal como o conhecemos. Não apenas porque não haverá discussão pelo titulo mas porque a injecção de dinheiro, já de por si escassa, acabará e a maioria dos clubes poderá ter que fechar portas. Com os dois grandes de Glasgow na liga o dinheiro chega a todos e permite que clubes em situações problemáticas se mantenham vivos. E no entanto foram esses mesmos clubes que votaram contra o regresso do novo Rangers. Uma decisão moralmente perfeita que espelha bem a natureza de uns povos face a outros. Despromovido porque tinha de o ser, de acordo com a legislação em vigor, o Rangers não pode estar acima da lei apenas pelo que representa. Ou então não haveria lei. Por muito que doa ao bolso e às emoções do futebol na Escócia. 

E no entanto, como é previsível, isto não acaba aqui. Aqueles que dependem do dinheiro para manter-se vivos no negócio, aqueles que trocam a moralidade do jogo pela amoralidade do cartão de crédito, procuram agora alternativas. A mais forte seria a da criação de uma nova prova, independente da liga ou da federação, num principio, funcionando por convite. O convite seria enviado a todos os clubes que estão actualmente na SPL, incluindo o Rangers. Inicialmente o grupo por detrás da iniciativa, fortemente ligado ao Celtic Glasgow - o clube que mais tem a perder, paradoxalmente, com esta situação - ponderou não convidar aqueles que vetaram o regresso dos protestantes mas numa medida de conciliação a ideia é, pura e simplesmente, de clonar a Scotish Premier League num novo formato, acima da lei.

 

Esta novela está só nos primeiros capitulos e ninguém é capaz de antever, com claridade, como irá terminar. Se a moral do jogo, que a maioria esmagadora dos adeptos escoceses defende a capa e espada, prevalecer, o novo Rangers terá de cumprir com a sua particular via crucis antes de voltar à elite. Mas com o contrato televisivo com a Sky por assinar e o fantasma da crise internacional sobre as suas cabeças, o dinheiro poderá falar mais alto e a lei talvez acabe por ser guardada numa gaveta de tão incómoda que ás vezes é!



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Domingo, 15.07.12

Não deixa de ser paradoxal que o clube mais bem sucedido do futebol espanhol esteja há mais de uma década a remar contra a ideologia que trouxe os maiores triunfos e elogios ao futebol do país vizinho. Mas a chegada de Florentino Perez provocou uma profunda mudança na mentalidade desportiva do Real Madrid, o primeiro clube de topo do futebol mundial a utilizar a sua cantera como fonte de negócio rentável.

 

Cantera, cantera e cantera.

O futebol espanhol não se cansa de repetir, de peito feito, a palavra que está por detrás da base dos últimos titulos logrados. O trabalho de formação do futebol espanhol foi fundamental para o salto qualitativo que, a final dos anos 90, a esmagadora maioria dos clubes espanhóis deu. Hoje é sinónimo da politica de sucesso do FC Barcelona (com alguns pontos negros que analisaremos nos próximos dias), mas também do Espanyol, Villareal, Real Sociedad, do Sevilla, do Athletic Bilbao, do Rayo Vallecano e com clubes que a utilizam menos do que deveriam, casos de Valência, Atlético de Madrid ou Mallorca. É o que está por detrás da mutação táctica do futebolista espanhol, da politica de valores morais que alterou profundamente o rosto do desportista do país vizinho. E no entanto, para o Real Madrid, o mesmo da geração dos Ye´s-Ye´s (campeão europeu em 1966) ou da Quinta del Buitre, a cantera tem outro objectivo: nutrir os cofres do clube.

Desde 2000 até agora, época em que começou o episódio galáctico de Florentino Perez (com um breve hiato de três anos de Ramon Calderon), só Iker Casillas cumpriu o sonho de tornar-se em figura importante do plantel principal depois de ter sido promovido de forma directamente do Real Madrid Castilla, a única equipa B da história que disputou uma final da taça do seu país, em 1980, contra o próprio Real Madrid. Mais ninguém!

La Fabrica, como Di Stefano baptizou as camadas de formação dos merengues, tal como La Masia, não deixa de produzir ano atrás ano novos talentos, dignos de entrar nos quadros da maioria dos clubes do futebol mundial. E porque é que em Madrid não há espaço para o producto local? Onde vão todos estes talentos? A resposta está espalhada um pouco por esse mundo fora.

 

Roberto Soldado, dianteiro internacional do Valencia. Juan Mata, campeão europeu com o Chelsea. Alvaro Negredo, campeão europeu do Sevilla. Juanfran, vencedor da Europe League com o Atlético de Madrid. Rodrigo, Ruben de la Red, Javier Portillo, Miguel Torres, Pablo Sarabia, Diego Lopez, Esteban Granero, Alvaro Arbeloa, Javi Garcia, Dani Parejo, Jose Callejon ou Dani Carvajal.

Nomes próprios que o adepto comum conhece mas dificilmente os associa com o clube da capital.

Salvo os casos de Arbeloa, Granero e Callejon, recomprados nos últimos anos por 7,5 milhões no total, a totalidade dos restantes jogadores (a lista completa inclui outros 20 nomes que disputam as principais ligas da Europa) vestiu apenas de forma ocasional, a camisola do Real Madrid. O caso mais paradigmático foi o de Negredo. Vendido ao Almeria com opção de recompra, prática habitual dos clubes espanhóis, foi adquirido pelo clube no último dia do prazo depois de dois anos de excelente rendimento. O objectivo: revendê-lo ao Sevilla de forma definitiva.

Desde 2000 até hoje, o Real Madrid vendeu um plantel inteiro de jogadores formados na sua casa por valores que rondam os 80 milhões de euros.  Um valor que não chega sequer aos 100 milhões gastos em Cristiano Ronaldo mas que têm sido fundamentais para equilibrar as contas do clube. Anualmente o clube logra receber entre 5 a 12 milhões de euros vendendo apenas jogadores do Castilla, números que muitos clubes são incapazes de igualar se falamos em jogadores do seu plantel principal. Ao contrário do Barcelona, que procura colocar no plantel principal anualmente jogadores da sua cantera, Iker Casillas ainda espera sucessor. 

Com a saída de Raul Gonzalez e Guti, é o último porta-estandarte da formação e não perpectiva um sucessor nos próximos tempos. Originalmente o pretexto estava na divisão por onde jogavam os jogadores do Castilla, a Segunda Divisão B. Mas durante a mesma década o clube esteve por duas vezes (foi promovido este ano) na Liga Adelante, motivo que não foi suficiente para aproveitar algumas das suas mais valias. Os adeptos merengues, habituados a ver os mais sonantes jogadores do futebol mundial, sentem agora a diferença com o projecto do Barcelona e pedem mais jogadores da casa na primeira equipa. Mas a verdade é que esse fenómeno é bastante recente e no primeiro mandato de Perez eram vários os que defendiam a politica de vender cantera para comprar com a "cartera llena", os Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham e companhia. 

Os homens do clube defendem que cada venda conta com uma opção de recompra a baixo preço (usada nos casos supracitados) e que se um jogador desponta o Real sempre pode recuperá-lo. Mas a verdade é que esses casos têm sido pontuais. E com o fantasma da regra do 6+5 que a UEFA tanto quer fazer valer, há algo nesta politica desportiva que terá de mudar para que, finalmente, os "milros" do Castilla possam sentir na pele o verdadeiro peso da camisola branca.



Miguel Lourenço Pereira às 14:49 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 13.07.12

A decisão da Liga Portuguesa de Futebol apanhou todos de surpresa. Numa situação económica sem paralelo na história do desporto português, a Liga acabou com uma das fontes de sustentabilidade da esmagadora maioria dos clubes profissionais portugueses. Mas também colocou o ponto final a uma politica de obscuro controlo politico por parte dos clubes grandes sobre a imensa minoria dos pequenos e médios clubes. Financeiramente desastrosa a medida de acabar com os empréstimos na Liga Sagres não deixa de ser moralmente necessária.

Podem os clubes portugueses sobreviver a uma medida que eles próprios aprovaram contra o seu interesse?

Esse espiro auto-destructivo do nosso futebol é único no Mundo. Numa prova onde mais de 80% dos clubes contam com jogadores emprestados (na esmagadora maioria mais do que 3 até), terminar com os empréstimos parece um contra-senso. E financeiramente é mais do que isso, um verdadeiro hara-kiri. Equipas da segunda metade da tabela que vivem sobretudo do fluxo de empréstimos que chega dos grandes terão agora de encontrar plantéis competitivos pagando do seu próprio bolso o que até agora era maná dos céus. Terão de procurar dinheiro onde ele não existe - na situação actual, com emprestados, ele já é uma utopia - para fechar os plantéis para a próxima temporada e para arcar os gastos salariais de 100% dos jogadores, algo que até agora só seis clubes em Portugal o faziam.

 

E isso quando é hoje em dia bastante proveitoso apostar o que quer que seja no www.casinoonline.pt ou num outro site de apostas num jogador português.

 

A medida, de tão drástica que é, pode parecer anedóctica. Afinal, se a ideia era acabar com a politica de empréstimos havia sempre opções mais tolerantes, como proibir o número máximo de jogadores emprestados num clube ou proibir igualmente a proveniência de mais do que um jogador do mesmo clube de origem. Mas nenhum desses cenários, à inglesa, foi contemplado. De um golpe só a Assembleia Geral, numa proposta do Nacional da Madeira secundada pelo Sporting CP, declarou guerra ao poder instituído de FC Porto e SL Benfica tentando minimizar assim a sua asfixiante influência junto dos clubes pequenos do nosso futebol. Porque se há algo que é evidente neste conflicto é a absoluta falta de moralidade de um sistema que foi criado para ajudar a desenvolver jovens jogadores das equipas grandes e para resolver problemas pontuais dos clubes médios e pequenos e que acabou por se tornar numa forma controlada de exercício de poder por parte de águias e dragões.

 

O cenário é fácil de analisar.

FC Porto e SL Benfica descobriram há alguns anos que melhorar as relações com clubes "aliados" passava, muitas vezes, pelo simples gesto de garantir facilidades em empréstimos dos seus excedentes. Desde 2002 até hoje o tamanho dos quadros oficiais de jogadores de ambos os clubes duplicou e com mais de 20 jogadores sob contrato e sem colocação, a politica de emprestar para ganhar influência na tomada de decisões da Liga tornou-se evidente. Ambos os clubes estabeleceram laços com várias instituições, emprestando dois, três, quatro, cinco e até seis jogadores num só ano. Jogadores de talento, jogadores cujo o salário era habitualmente pago na totalidade pela casa mãe e jogadores que saiam duplamente grátis o que permitia, a curto prazo, que um plantel de 25 composto por seis ou oito emprestados levasse os clubes a gastar o que não tinham noutros jogadores, especialmente estrangeiros, muitas vezes com comissões de empresários afiliados aos clubes grandes com quem mantinham relações. Essa forma de mover dinheiro e influência resultou enquanto a crise não apertou forte.

Poucos questionavam os planteis gigantescos dos dois grandes, poucos criticavam os negócios pouco claros entre grandes e pequenos com jogadores que surgiam do nada e poucos pensavam que o dinheiro que os pequenos e médios clubes podiam ter poupado com isto estivesse a ser mal gasto em negócios com empresários escolhidos a dedo. Mas a crise chegou e para todos.

Primeiro os clubes grandes começaram a perceber que ter tantos jogadores sob contrato podia ser um problema e começaram a emprestá-los para clubes estrangeiros que, esses sim, já se faziam cargo de partes substanciais da sua ficha salarial. Por outro, os clubes pequenos deixaram de ter dinheiro liquido para investir e tornaram-se ainda mais dependente dos empréstimos. O caso da União de Leiria é paradigmático mas não é único.

Mas é preciso ver realmente quem está por detrás desta ideia. Clubes como o Feirense, que apostam em jogadores a custo zero, jogadores nacionais e jogadores que pertencem ao clube. Clubes que são incapazes de acreditar como há equipas que ano após ano se salvam agonicamente da despromoção com planteis cuja metade dos jogadores vem de um dos grandes, num autêntico acto de concorrência desleal. Clubes que, na segunda divisão, sabem quanto custa fazer um clube sustentável e competitivo e que, quando entram na elite, têm dificuldades em sobreviver se não entram no esquema de protecção de um dos grandes.

A reunião da Assembleia Geral contou com 9 votos contra, 1 abstenção e 19 votos a favor. Os clubes que apoiaram a iniciativa foram, esmagadoramente, os clubes da Liga Orangina. Eles, que este ano não terão de se confrontar com a lei, sabem que subir à primeira divisão será complicado mas, uma vez aí, o fosso entre os que já estão a lutar pela despromoção e eles será claramente inferior com esta medida.

 

O fim dos empréstimos é um caos financeiro mas é também uma porta aberta para o futebol português.

Juntamente com o aparecimento das equipas B e a necessária reorganização dos direitos televisivos, é uma medida que não só ajuda a limpar moralmente a competição como contribuiu, na sua essência, para uma nova aposta na formação. Os clubes, sem poder viver dos empréstimos, e sem dinheiro para ir ao mercado terão, forçosamente, de recorrer aos jogadores da casa. O mais provável é que se assista a uma maior quota de jogadores portugueses de formação própria nos clubes nos próximos anos. Mais, os clubes grandes, até agora habituados a comprar os jogadores que mais rapidamente se destacavam em emblemas inferiores, sabendo que os podiam usar como isco durante os anos seguintes, terão agora de pensar duas vezes. Contratar um jogador que não funcione no esquema da equipa principal acontece a qualquer um, mas nem todos estarão preparados para passar para a equipa B (o caso do benfiquista Djaniny é um bom exemplo) nem para ser emprestados ao estrangeiro, movimentos que aos clubes não traz nenhum lucro financeiro e politico. Sendo assim, com o dinheiro a escassear, os planteis a emagrecer, o aparecimento das equipas B como ponte de transição para os juniores, os grandes deixam de ter necessidade de atacar o mercado da mesma forma e jogadores como Hugo Vieira ou Fabiano, poderiam passar mais uns anos no seu clube de origem o que, a médio prazo, significa uma profunda melhoria dos clubes da classe média portuguesa, os que desapareceram nos últimos 10 anos, clubes como o Boavista e Belenenses, Vitória de Guimarães ou Maritimo, a maior parte dos quais passando a depender de uma politica de sobrevivência sem qualquer tipo de ambição.

 

Uma liga mais transparente é no entanto um conceito utópico no mundo do futebol. Seguramente que haverá manobras para contrariar a lei. Em Itália utilizam o método da co-propriedade, em Espanha o da venda com cláusula de recompra por valores irrisórios e ninguém põe de parte que uma nova directiva da Liga, pura e simplesmente procure eliminar a medida para agradar a águias e dragões. Mas o primeiro e necessário passo foi dado. Haverá clubes que irão sofrer mais do que outros com esta medida porque têm dependência crónica dos empréstimos e esses serão os primeiros a desaparecer. Mas a médio prazo a medida pode não só agilizar a aposta na formação e nos jogadores nacionais como restabelecer um equilíbrio no meio da tabela que só ajudará a fazer da Liga Sagres uma prova ainda mais competitiva.



Miguel Lourenço Pereira às 18:49 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Terça-feira, 01.05.12

No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro. 

Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.

Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.

O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.

Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.

 

Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.

Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.

Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.

Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.

 

Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim. 



Miguel Lourenço Pereira às 12:50 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Terça-feira, 03.04.12

Durante a última década a UEFA tem sofrido criticas de todos os quadrantes do futebol europeu relativamente ao formato aplicado á Champions League. Á medida que Leonardt Johanssen foi devolvendo favores ás grandes federações do continente e ampliando o número de clubes dos principais países ás custas dos mais pequenos, o torneio foi-se transformando no protótipo da Euroliga que Platini tem vindo a combater. Paralelamente as criticas á falta de qualidade da edição deste ano, que chegam invariavelmente dos mesmos sectores, deixam claro uma severa contradição. Numa época em que os quartos de final se assemelham, como nunca, ao modelo da antiga Taça dos Campeões, qual é o futuro ideal para o maior torneio de clubes do Mundo?

Perdi a conta ás vezes que ouvi jornalistas, dirigentes e adeptos queixarem-se dos moldes da Champions League.

Inicialmente queixavam-se pelo excesso de equipas das grandes ligas, esse poker de clubes de Espanha, Itália, Inglaterra e agora Alemanha. Depois as queixas passaram a ser a atacar a base da politica de Michel Platini que tem feito de tudo, é preciso dizê-lo, para abrir o torneio aos pequenos países. Claro que o francês não o faz por ser um bom samaritano. Ter clubes como o Basel, APOEL ou BATE Borisov na prova é um dardo envenenado á ECA - a organização dos clubes europeus que antes era conhecida como G-14 - e um piscar de olhos ás dezenas de pequenas federações que foi quem realmente conseguiram a sua eleição e que serão a sua base de apoio no assalto ao trono da FIFA.

Os senhores do futebol que fizeram de tudo para ter uma Champions League para as elites, com Real Madrid, Barcelona, Manchester United, Arsenal, Chelsea, AC Milan, Inter e Bayern Munchen á cabeça, têm agora de conviver com uma realidade que, nesta época, mais do que nunca faz lembrar a Taça dos Clubes Campeões Europeus.

A imprensa afim a estes clubes sempre criticou o antigo modelo queixando-se de uma falta real de competitividade. Realmente, durante os anos 70 e 80, principalmente, a Taça UEFA parecia mais equilibrada e exigente que a própria Taça dos Campeões. Mas o prestigio desta manteve-se inabalável e mesmo com os triunfos de Aston Villa, Hamburgo, Steaua, FC Porto, PSV e Estrela Vermelha face a rivais de maior prestigio e de países mais poderosos o torneio continuou a ser considerado como a prova de elite do futebol europeu. A jogada de Johanssen, patrocinada pelas grandes federações, quase que matou o futebol europeu e atirou para o esquecimento alguns dos países mais influentes das décadas anteriores ao aparecimento da Champions League. Os rankings UEFA e FIFA, as fase pré-eliminatórias e o reparto de fortunas fizeram da prova um coto privado que só Ajax e FC Porto souberam contornar em 20 anos de existência. Mas que dirão os mesmos que criticaram esse modelo do torneio - e os seus campeões - quando chegue a final do Allianz Arena no próximo mês de Maio?

 

Em oito equipas só um país se repete.

Um cenário que foi a constante em 90% das edições da Taça dos Campeões Europeus entre 1955 e 1991, sendo que habitualmente o país que se repetia apresentava o campeão europeu em titulo e o campeão nacional (ou vice-campeão se fosse o caso). A Espanha, neste caso, conta com o campeão em titulo, FC Barcelona, e o Real Madrid, algo que sucedeu, por exemplo, em 1961-62 quando os merengues foram eliminados pelos blaugrana nas meias-finais, sendo impedidos de defender o titulo que afinal acabou nas mãos, pela primeira vez, do SL Benfica.

Exceptuando o dueto espanhol, máximo favorito em todas as casas de apostas, os restantes seis clubes chegam de seis países diferentes. Pela primeira vez na história da Champions League. Um clube português, um alemão, um francês, um inglês, um italiano e um cipriota que bem podia ser turco, grego, russo ou holandês, para citar apenas ligas de destaque do futebol europeu. O mesmo cenário que se vivia na antiga versão da prova e o mesmo que é agora alvo de criticas sobre a falta de interesse e competitividade de um torneio que se tem habituado a meias-finais com dois ou três clubes do mesmo país - entre ingleses, espanhóis e italianos - e apenas um que outro filtrado de nações com menos poder financeiro e mediático. Em 2003-04, a última vez que um clube fora do top 5 ganhou o torneio, a esta altura da competição ainda havia duas equipas espanholas (Deportivo e Real Madrid), duas equipas inglesas (Arsenal e Chelsea), duas equipas francesas (Monaco e Lyon), uma italiana (AC Milan) e uma portuguesa (FC Porto). E mesmo esse ano foi considerado, pela imprensa em geral, o mais fraco da última década. Talvez, como disse antes, pelo peso mediático da imprensa inglesa, alemã, italiana ou espanhola que não viu nenhum dos seus clubes chegar a uma final inédita entre lusos e gauleses.

Se é provavel que a final de Munique se dispute entre dois potentados do Velho Continente (Barcelona ou Milan, Bayer, Real Madrid ou Chelsea), não menos verdade é que o torneio desta época deixou a nu a hipocrisia da maioria dos analistas que defende um regresso nostálgico ao passado e que, quando deparado com um torneio de características similares, opta pela critica fácil e incoerente. Tanto Benfica como APOEL ou Marselha fizeram méritos mais do que suficientes para chegar tão longe e os erros dos clubes de Manchester, de Valencia e Villareal, de Inter ou Dortmund não podem colocar em questão uma evolução legitima que a Champions tem vivido nos últimos anos. O futebol europeu é, cada vez mais, de todos os países da UEFA e cada vez menos um projecto similar á Euroliga que Florentino Perez e Uli Hoeness imaginaram há mais de dez anos. 

 

O modelo da Taça dos Campeões proporcionou duelos históricos, finais inesquecíveis e impediu grandes equipas de se medirem pelo maior torneio continental com maior regularidade. Mas durante os últimos vinte anos o futebol centralizou-se em demasia em meia dúzia de clubes todo-poderosos e esqueceu-se que é um bem colectivo de um continente que o organizou e apresentou ao Mundo. Com os milhões em jogo que, na realidade, sustêm essas máquinas de gastar dinheiro que são os clubes de top da Europa é inverosímil acreditar que a Champions League vive o seu ocaso desportivo. Mas as cirúrgicas alterações de um Platini oportunista mas equitativo trazem essa mais do que necessária viagem a uma era onde o dinheiro não era tudo e em que grandes equipas de pequenos países podiam sonhar com algo mais do que fazer seis jogos ao ano junto das elites. Esta Champions à moda antiga pode ser um breve parêntesis, mas também é um sinal de esperança.



Miguel Lourenço Pereira às 14:30 | link do post | comentar

Sábado, 17.03.12

Em 1996 a Premier League começava a despontar, a afastar-se da penumbra dos días de luto da First Division. Talvez nem os mais optimistas pensavam então no caracter singular e icónico que a prova teria uma década depois. Esse foi o último ano em que os ingleses não lograram colocar nenhuma equipa nos Quartos de Final da Champions League. O milagre de Ivanovic pode ter evitado que, 16 anos depois, o cenário se volte a repetir. Mas das sete equipas que começaram a temporada europeia só resta uma. E esta realidade não é nova. O modelo da competição e a saúde financeira e desportiva dos clubes da Velha Albion volta a estar no centro das atenções. A debacle anunciada transformou-se em realidade, os velhos fantasmas voltam a pairar pela Mancha...

 

O Blackburn Rovers de Dalglish, Sutton, Shearer e dos milhões de Jack Warner logrou o milagre em 1995.

A vitória na Premier League deveu-se mais ao hara-kiri desportivo do Manchester United, orfão do genial Eric Cantona a pagar as penas do seu mitico golpe de kung-fu, do que propriamente ao talento dos Rovers. O triunfo foi também o ocaso de uma era. Foi a última vez que um clube fora do binómio Manchester-Londres venceu um titulo. Foi também, de certa forma, o último suspiro da First Division onde equipas como Everton, Aston Villa, Nottingham Forrest e Derby County podiam bater o pé aos grandes. Na temporada seguinte os homens de Ewood Park lograram o ridiculo na Champions League, um quarto posto na fase de grupos com 4 pontos em seis jogos, num grupo onde estavam Spartak Moscow, Legia Warsow e Rosenborg. Foi o ocaso da velha Inglaterra, o final de um ciclo negativo que a partir do ano seguinte se iria começar a converter numa tendência positiva com as meias-finais logradas pelo Manchester United, equipa que venceria duas vezes a prova nos dez anos seguintes. Os Red Devils, mais do que qualquer equipa, simbolizaram a supremacia moral e real da Premier League sobre a decadente Serie A e uma La Liga demasiado pendente do duelo Barça-Madrid para crescer no escalão médio, onde a maioria dos clubes só conseguiam sobreviver com ajudas públicas. Dezasseis anos depois dessa data que muitos já tinham esquecido, o futebol inglês volta a ficar demasiado longe do máximo palco europeu. Das sete equipas que arrancaram a temporada europeia (Arsenal, Tottenham, Chelsea, Manchester United, Birmingham, Stoke e Manchester City), só os Blues lograram apurar-se para os Quartos de Final da sua respectiva competição (depois de despedir o treinador e obrar um verdadeiro milagre em Stanford Bridge). E o pior de tudo foi a imagem deixada com eliminações precoces primeiro (United, City, Tottenham) e com sérios correctivos no resultado e no jogo (Arsenal-Milan, United-Bilbao, City-Sporting). O mais curioso é que ninguém parece demasiado surpreendido.

 

Depois da final inglesa entre Manchester United e Chelsea, a tendência de supremacia da Premier começou a inverter-se na Champions League. Nesse ano tinham estado três equipas nas meias-finais. Em 2007 tinham sido três, e em 2006, 2005 e 2004 uma. Na temporada seguinte o Manchester United repetiu o lugar na final e voltaram a encontrar-se três equipas inglesas na fase prévia à final mas o triunfo do Barcelona anunciava uma nova era. Em 2010, pela primeira vez em sete temporadas, nenhum clube inglês esteve nas meias-finais da prova. Em 2011 foram apenas os Red Devils a chegar tão longe. Já ninguém falava de supremacia britânica.

Não eram só os grandes jogadores (Cristiano Ronaldo, Thierry Henry, Arjen Robben) que partiam. Não era só o descontrolo financeiro absoluto da maioria dos clubes, a falta de treinadores ingleses de nível, a clara baixa de qualidade nos niveis de excelência da formação local ou a sobrelotada presença de jogadores estrangeiros de segundo e terceiro nivel, bem diferente do que se viveu nos anos 90. Era algo mais do que isso, uma sensação que se podia palpar.

A eliminação dos dois gigantes ingleses na fase de grupos surpreendeu, mas confirmou essa tendência gritante. O Manchester City, apesar de todos os milhões invertidos, deixou claramente evidente a sua falta de estofo europeu ao cair diante de Bayern Munchen e Napoles. O United repetiu a péssima performance de 2006 e ficou de fora num grupo acessível mas que acabou por ser desprezado por Alex Ferguson até que já não havia volta a dar. O facto dos dois clube serem, ao mesmo, tempo os que dominam claramente a competição nacional explica o desfaze real que começa a existir entre a Premier de há meia dúzia de anos e a Premier League actual.

Na Europe League – competição onde nenhuma das equipas apostou forte e que nenhum clube inglês vence há mais de uma década – a imagem foi ainda mais penosa. O Manchester United sofreu demasiado contra o Ajax e foi futebolisticamente ridicularizado pelo jogo do Athletic Bilbao. Isto utilizando um 11 com a maioria dos seus jogadores titulares. O City eliminou o FC Porto, sofrendo no Dragão e rematando a eliminatória apenas nos dez minutos finais da segunda mão, mas foi incapaz de dobrar a raça e determinação do Sporting. Também neste duplo confronto Mancini usou cartas que valem milhões. O nivel máximo da Premier League é agora questionado por equipas que não lutam pelo titulo em Espanha, Portugal e Holanda e projectos desportivos constantemente questionados como o do AC Milan. Enquanto Espanha continua a demonstrar a sua força com as campanhas de Barcelona e Real Madrid na Champions e o trio Valencia-Atletico Madrid-Athletic Bilbao na Europe League, o fosso entre os conjuntos ingleses e os continentais começa a aumentar.

Apesar do sucesso económico da Premier League, a maioria dos clubes parece incapaz de competir com o poderio financeiro dos grandes clubes espanhóis. Cada vez menos os principais conjuntos da Premier conseguem atrair jogadores de top que joguem no continente (os casos de Hazard, Gotze, Sneijder, Forlan, Falcao, Neuer, Ribery são evidentes) e acabam por ver os orçamentos de transferências inflacionados pelas movimentações entre jogadores da própria liga ou compras realizadas directamente a ligas menores como a portuguesa, holandesa ou francesa. A qualidade dos planteis dos grandes clubes tem vindo a decrescer, os sucessivos empréstimos obtidos junto das entidades bancárias com juros cada vez maiores cercam as contas da maioria das instituições e os elevados preços das entradas começam a aumentar o fosso entre clubes e adeptos a números pré-Relatório Taylor. Uma encruzilhada que não deixa de ser acompanhada pela decadência de uma geração que foi vista por muitos como a “galinha dos ovos de ouro” do futebol inglês e a incapacidade de surgirem nomes com força suficiente para substituí-los. Ferdinand, Gerrard, Carragher, Terry, Lampard, Cole continuam a ser as figuras de referências locais já bem passados a casa dos 30.

 

Neste contexto parece evidente que a qualidade média do jogo da Premier League se transforma progressivamente numa tendência negativa a médio prazo. O imenso vazio entre os milhões de Manchester e os restantes clubes vai aumentando, a liga parte-se cada vez mais em três lotes (um segundo com Chelsea, Arsenal, Tottenham, Liverpool e um terceiro onde se incluem todos os outros) e nos palcos europeus essa crescente debilidade faz-se notar. Se é provável que nos próximos anos alguma equipa inglesa consiga colocar-se de novo numa final europeia, também é cada vez mais evidente que o seu papel hegemónico, como sucedeu com a Itália dos anos 90 e a Espanha do virar de século desapareceu por completo.



Miguel Lourenço Pereira às 11:53 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 13.03.12

No arranque do século XX Glasgow era o centro nevrálgico do universo futebolistico. Hoje, uma das cidades mais decadentes do futebol internacional. A ameaça de desaparecimento paira sobre o Glasgow Rangers, mas os sinais de depressão económica e desportiva vêm de há muito. O futuro é cada vez mais cinzento e parece cada vez mais evidente que os esforços dos grandes da cidade em forçar a sua entrada na Premier League selaram, de certa forma, o seu negro destino.

 

Os ingleses organizaram o futebol e os escoceses dedicaram-se a ensiná-lo.

A importância de Glasgow no virar de século era tal que no mesmo espaço urbano coexistiam os três maiores estádios do Mundo (Hampden, Ibrox e Celtic Park) e três dos maiores clubes da Europa de então (Queens Park, Rangers e Celtic). Durante as décadas seguintes o futebol escocês manteve-se como um dos bastiões fundamentais do jogo e a vitória do Celtic na final de 1967 da Taça dos Campeões marcou também a migração do sucesso desportivo da zona mediterrânica para as fronteiras a norte. A hegemonia asfixiante dos dois clubes da cidade sobre a liga escocesa consolidou o seu papel no panorama internacional, mas, por outro lado, atrasou o seu crescimento desportivo e económico numa liga que perdia, ano após ano, importância e competitividade. Quando o dinheiro começou a jorrar na Premier League a divisão entre as duas ligas tornou-se de tal forma evidente que nunca mais um clube escocês se mostrou capaz de competir com qualquer clube a sul da muralha de Adriano.

Entrar na Premier League transformou-se numa profunda obsessão para os gestores de Rangers e Celtic. Ambos os clubes viviam crises financeiras durante os anos 90 e enquanto o Celtic foi comprado por Fergus McCann que apostou sobretudo na reforma do Celtic Park e no saneamento de contas, o Glasgow Rangers de David Murray apostou sobretudo no reforço do plantel começando pela contratação do primeiro treinador estrangeiro, o holandês Dick Advocaat. Os resultados apareceram, as dividas também. Mas competir na débil SPL impedia as equipas de preparar-se a sério para os duelos europeus e habitualmente as performances dos clubes da cidade na Europa eram, como minimo, confrangedoras. A final de Sevilla de 2003 para o Celtic e a final de Manchester em 2008 para o Rangers foram oásis desportivos no meio de uma tremenda mediania. Entre 2005 e 2008 as equipas escocesas conseguiram superar a barreira dos Oitavos de Final da Champions League. Depois, como diria Luis XV, o diluvio...

 

Rangers e Celtic alternam-se no dominio da prova nacional mas na Europa transformaram-se em pequenos anões. Eliminados sucessivamente nas fases de pré-eliminatórias da Champions League, há três temporadas que não há um clube escocês na fase de grupos do torneio. O país caiu em três anos cinco lugares no ranking da UEFA e se os grandes de Glasgow falham, os restantes clubes nacionais (Abardeen, Dundee, Hearts, Hibernian. Motherwell) são ainda mais decepcionantes.

Desde 2000 que tanto o Celtic como o Rangers apostaram todas as cartas numa viagem a sul. Os clubes contactaram os principais dirigentes da Premier e durante algum tempo estudou-se realmente a possibilidade de que os clubes se unissem à elite do futebol inglês. Mas a proposta, se bem que financeiramente apetecivel para o duo de Glasgow, nunca convenceu os clubes ingleses e foi sendo adiada até que acabou por descartar-se definitivamente. Celtic e Rangers tinham gasto o que tinham e o que não tinham pensando na galinha dos ovos de ouro (e em muitos casos para impressionar os próprios clubes a sul) e viram-se com um sério problema nas mãos. No caso do Rangers os problemas crónicos dos anos 90, nunca resolvidos, foram agravados ao extremo e a situação transformou-se num drama.

O clube foi vendido, as dividas ficaram por pagar, uma nova venda tornou-se inevitável e pela primeira vez na história um clube escocês acolheu-se à lei concursal, o segundo caso nas ilhas britânicas depois do Portsmouth. A liga retirou 10 pontos aos Blues, então a disputar o titulo com um Celtic que se tornou em campeão antecipado, e a UEFA ameaçou negar a licença desportiva para competir na Europa na próxima época. A situação, já dramática o suficiente, piorou quando o staff técnico e o plantel recusou aceitar um corte salarial necessários para o clube pagar a divida fiscal acumulada nos anos anteriores. A genuina ameaça da falência e consequente final da entidade desportiva transformou-se quase num cenário inevitável.

 

Para salvar o pescoço o Rangers precisa de um milagre financeiro e de um profundo renascimento desportivo. Competir numa liga tão inconsequente como a escocesa é um drama para qualquer clube que ambiciona ser algo mais nos palcos europeus. A qualidade média do futebol escocês, no passado um dos faróis do futebol ocidental, hoje não difere muito de ligas anónimas como as dos países nórdicos ou do leste europeu. No entanto o dinheiro que o Glasgow Rangers maneja na gestão desportiva assemelha-se mais ao universo da Premier, realidades incomportáveis mesmo para o maior mago financeiro que Ibrox possa encontrar. O final do Glasgow Rangers seria o golpe de misericórdia para o futebol escocês e um sério aviso ao futebol continental que nos últimos anos foi seguindo, em muitos casos, o caminho do duo de Glasgow. Para os mais nostálgicos seria mais do que isso, a prova viva de que o futebol, na sua imensa magia, também pode morrer.



Miguel Lourenço Pereira às 16:13 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.02.12

poucos jogadores europeus com tamanha margem de progressão como Kevin de Bruyne e Xherdan Shaqiri. Não são apenas talentosos, jovens e extremamente bem sucedidos. Revelaram-se também surpreendentes exemplos de negócios em tempos de crise. Chelsea e Bayern Munchen mostraram o caminho e deixaram em evidência a habitual politica de desbarato de alguns dos clubes de top do futebol europeu. Dois cracks, uma forma de fazer negócios que entra em sintonia com os novos tempos.

 

Fábio Coentrão custou 30 milhões ao Real Madrid. Falcao custou 40 milhões ao Atlético de Madrid. Alexis Sanchez trouxe às arcas da Udinese cerca de 40 milhões, tanto como as movimentações de Fabregas ou Aguero. Negócios milionários num ano de crise economica crescente que transparecem bem a teoria de que muitos se valem para criticar o universo futebolistico. Sem dúvida há clubes que trabalham à margem da realidade. Com dinheiro emprestado, com dividas crescentes e pagamentos a prazo que muitas vezes se atrasam sucessivamente. Raros são os bons negócios, raros são os negócios realistas que capturam tanto a essência de uma politica desportiva sustentável como a dinâmica económica da actualidade. No meio desta troca constante de divisas por valores astronómicos que poucas vezes traz uma verdadeira rentabilidade a longo prazo, há sempre excepções. Sadias e esperançadoras excepções. Por cada Sanchez ou Coentrão existe um De Bruyne ou Shaqiri.

O potencial tanto do extremo belga como do craque suiço não está longe do que podemos imaginar com o defesa português e o dianteiro chileno. E no entanto Chelsea e Bayern pagaram a metade de Real Madrid e Barcelona pelos jogadores. Negócios rápidos, silenciosos e que se afastam cada vez mais da ideia mediática da contratação para a ergonomia sustentável de uma gestão quase empresarial que começa a tomar forma em Londres e que há muito faz escola em Munique. Se o Bayern é o exemplo perfeito de como um clube de futebol deve ser gerido, ao Chelsea há que reconhecer que, progressivamente, o clube vai dando passos similares nessa direcção e se afasta, cada vez mais, do fantasma milionário de Abramovich como bolsa sem fundo. De Bruyne e Shaquiri, como sucedeu com Lukaku, Mata, Oriol Romeu, Courtois, Boateng, Rafinha ou Luis Guztavo são espelhos de uma politica de contratação racional e profundamente orientadas para o futuro.

 

De Bruyne é o terceiro belga a aterrar em Stanford Bridge num ano.

Há muito que o Chelsea soube identificar no outro lado da Mancha um verdadeiro viveiro de talentos a que se podem incluir Hazard, Defour, Witsel e Verthogen. O extremo do Genk tem sido nos últimos anos uma das principais atrações da Jupiler League e apesar dos seus tenros 20 anos há muito que estava referenciado pelos clubes de top do futebol europeu. Em Brugge tentaram aguentar as investidas de Arsenal, Milan e Bayern mas acabaram por ceder aos argumentos do Chelsea. O clube londrino pagou a misera quantia de 9 milhões de euros por um jogador com um valor potencial de mercado capaz de rondar o triplo. O negócio não só garantiu ao clube inglês um substituo à altura para Kalou – de saída do clube – como ainda beneficiou o Genk que ficará com o jogador como empréstimo até ao final da temporada.

O mesmo acordo foi establecido entre Bayern Munchen e Basel FC.

É dificil encontrar um extremo tão entusiasmante na praça europeia nos últimos dois anos que Xherdan Shaqiri. Desde que brilhou com as cores helvéticas num Europeu de Sub-19, o extremo tem deixado a salivar os olheiros dos grandes nomes do Velho Continente. O seu clube de formação foi rejeitando ofertas tentadoras de Espanha e Inglaterra. Por detrás da decisão dos gestores do Basel estava a expectativa numa boa campanha europeia que se veio a concretizar. Shaqiri liderou o melhor Basel da história numa fase de apuramento empolgante que acabou com a eliminação do Manchester United, garantindo aos suiços a presença nos Oitavos de Final. Por 10 milhões de euros os bávaros garantiram a sua contratação para reforçar uma temivel linha ofensiva onde já estão Robben, Ribery, Muller, Kroos e Gomez. A capacidade técnico e a velocidade do suiço transformam-no obrigatoriamente numa das grandes sensações dos encarnados para a próxima temporada. O negócio entrou na dinâmica recente do Bayern, o único clube a conseguir um lucro no exercicio anual pelo 15 ano consecutivo, algo inédito na história de um desporto onde a maioria das instituições vive mergulhada em dividas.

 

Com estes dois negócios tanto Bayern Munchen como Chelsea não garantem apenas dois elementos que farão parte do futuro do futebol europeu a um baixissimo preço. Ambos clubes establecem uma linha de gestão económica que nos dias do Fair Play establecido pela UEFA deve marcar o futuro das negociações desportivas. Enquanto existirão sempre clubes dispostos a recorrer ao chamado “doping financeiro” e sem esquecer que o desnivel do mercado é real, negócios como este abrem uma esperança para um futuro mais sustentável, realista e ao mesmo tempo empolgante para o futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 20:13 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Domingo, 26.02.12

Ser adepto do Arsenal podia ser aborrecido até ter aparecido Arsene Wenger. Hoje é um verdadeiro caso freudiano. Os gunners passaram numa década de ser a inveja intelectual da Europa a ser uma equipa incapaz de viver à altura dos seus melhores momentos. Wenger não perdeu o dom, mas a conjuntura onde se move é cada vez mais rasteira e dificil de gerir. A sua gestão nunca foi tão criticada e os dirigentes do clube londrino têm de tomar uma decisão que pode marcar profundamente o futuro do clube.

 

Quando Wenger chegou a Londres o “boring, boring Arsenal” era um destino tão pouco apetecivel que muitos técnicos ingleses nem se atreviam a aproximar-se. Apesar dos titulos da era George Graham o clube era mal visto pelos adeptos, mesmo os mais “hornbianos”, e a maior parte das suas estrelas viviam mergulhadas em alcool, calmantes e escândalos. A imprensa sensacionalista pode ter chamado ao gaulês “Arsene who?” no dia da sua apresentação mas o curriculum de Wenger no Monaco falava por si. O espectáculo estava garantido.

17 anos passaram. Muitos, em qualquer país, em qualquer clube, em qualquer filosofia desportiva. Muito mais neste mundo veloz e devorador, qual Saturno, dos seus próprios filhos. Wenger prometeu espectáculo e titulos e cumpriu. A equipa jogou como não o fazia desde os dias de Herbert Chapman e logrou mais vitórias que nas últimas cinco décadas juntas. Faltou o ceptro europeu para confirmar a sua hegemonia estética e emocional e esse karma acompanhou Wenger nos últimos anos como talvez nenhum outro. Se tivesse ganho uma Champions League com a magnifica geração dos Invencibles talvez as criticas de imprensa e adeptos fossem menos crueis. Mas frente a Barcelona e Chelsea a sorte e a frieza faltou-lhe e o fracasso europeu transformou-se, inevitavelmente, numa das suas imagens de marca. Agora, sete anos depois do seu último titulo essa lembrança doi mais do que nunca. A eliminação na FA Cup e na League Cup têm-se tornado realidades quase inevitáveis tal como a incapacidade dos gunners de lutar pelo titulo nacional. Se a vitória categórica sobre o Tottenham Hotspurs (depois de estar a perder por 2-0) parece devolver a esperança aos adeptos, a lembrança da derrota humilhante em Milão transformou-se na real vara de medir dos adeptos à gestão actual de Wenger.

 

Poucas equipas conseguiram destroçar tão facilmente o Arsenal de Wenger como o AC Milan de Allegri.

Não que os italianos tenham feito o jogo do ano. Apesar do resultado brilhante, notaram-se bastantes debilidades no conjunto rossonero para pensar que há uma diferença assim tão grande na realidade. O problema esteve em Wenger e, sobretudo na falta de espirito competitivo dos seus. Não se pode medir este Arsenal ao de há dez anos porque, inevitavelmente, a qualidade do plantel é infinitamente superior. Quando Wenger chegou ao clube dedicou-se a duas tarefas. Contratar jogadores de top infra-valorizados no futebol europeu (Petit, Overmars, Henry, Anelka, Vieira, Lehmman, Pires, Ljunberg) e lançar as bases para as equipas de futuro, formadas em casa. À medida que a primeira geração se esgotou os adeptos começaram a perceber que os substitutos, apesar de seleccionados criteriosamente, eram incapazes de igualar os feitos dos seus antecessores. Nem Diaby era Vieira, nem Walcott era Pires nem Bendtner podia aspirar a ser Henry. A qualidade de Fabregas, Nasri e Whilshere era evidente mas o talento individual era incapaz de encontrar um colectivo à altura. A equipa perdeu jogadores maturos, capazes de controlar os tempos de jogo. Perdeu calma, perdeu cordura e perdeu punch.

Vulgarizou-se e essa dura realidade começou a fazer ressentir-se nos resultados. À medida que o clube gastava o dinheiro que tinha a construir o Emirates, Wenger ficava despojado de recursos para combater com os seus rivais directos. O atraso, calculado, tornou-se irreversivel. Hoje o Arsenal não só não tem um plantel à altura da sua história. O seu destino é cada vez mais o do Liverpool. Numa Premier League inflacionada pelos milhões de Chelsea, Man City e Man Utd, os gunners são incapazes de manter as suas estrelas e ambicionar em contratar os grandes nomes de fora. A rejeição de Eden Hazard e Mario Gotze em deixar Lille e Dortmund por Londres é sintomático do real valor internacional do clube. As partidas de Nasri, Clichy e Fabregas consequência inevitável dessa perda de competitividade.

 

Friamente os adeptos do Arsenal podem estar gratos a Wenger. Há mais de cinco anos que o clube não tem nem o plantel nem o poder financeiro de estar regularmente na fase a eliminar da Champions League e no top 4 da Premier League. Este ano o banho de realidade custa mais do que nunca pelo sucesso desportivo do rival Tottenham. Mas a vitória dos gunners no duelo directo entre ambas as equipas espelha perfeitamente, não só a bipolaridade em que vive o clube, mas o importante papel de Wenger como comandante da nau. Contratar um novo treinador só funcionaria com uma injecção de dinheiro que nas últimas épocas foi negada ao francês e que permitiria recuperar o atraso financeiro com os clubes de topo. Na previsivel incapacidade de aumentar o orçamento, o clube tem de ser frontal com os adeptos e deixar claro, como fez o técnico, que os dias de ambicionar por troféus terão de esperar por tempos melhores. O Arsenal tem todas as condições para voltar a ser grande. Mesmo depois de sete anos sem nada vencer a paciência continuará a ser a melhor aliada dos adeptos gunners.



Miguel Lourenço Pereira às 16:34 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 22.02.12

Pode parecer paradoxal, mas são as leis do jogo. O futebol não respeita tempos e é inimigo natural da paciência e dos projectos a longo prazo. É preciso ter coragem para remar contra a corrente para poder ler as entrelinhas. O Chelsea nunca demonstrou ser um clube com visão de futuro, mas há claros sinais de que algo está a mudar na estrutura directiva do clube londrino. No entanto essa metamorfose só pode funcionar se a paciência admnistrativa se transladar ao terreno de jogo. Mas os idos de Março estão aí e as facas nunca estiveram tão afiadas...

 

Pode ser irónico que o duelo entre Chelsea e Napoles em Londres se disputa nas vésperas dos Idos de Março, mas é uma noite perfeitamente apropriada.

Não que Villas-Boas seja um César, mas seguramente porque todos os senadores – jogadores e directivos – do clube estão desejosos de espetar a sua adaga no cadáver já moribundo do técnico português. Ontem, aos pés do Vesúvio, Villas-Boas parecia-se mais com os restos petrificados pela lava do Vesúvio que podemos encontrar alguns kilómetros a sul na belissima Pompeia do que propriamente um treinador de futebol de topo. O técnico perdeu há muito o controlo do balneário – algo fundamental para sobreviver em Stanford Bridge – e arrisca-se a perder também a paciência de Abramovich. A exibição dos Blues foi desoladora.

Mata abriu o marcador num lance fortuito, mas nem aí parecia que o Napoles tinha perdido o absoluto controlo do jogo. O jogo pelas alas dos laterais ofensivos destroçou a estratégia de Villas-Boas – que apostou num conservador 4-2-3-1 – e o jogo de Hamsik entre Ramires e Meireles foi superlativo. Os golos sucederam-se com uma naturalidade confrangedora, podiam ter sido mais e muitas culpas ficaram por atribuir tanto a um decadente Cech como a uma defesa inadmissivel. David Luiz na Luz já tinha deixado antever que era um central com muitos pontos débeis. Em Londres a sua ineficácia tem sido ainda mais regular. O facto de AVB não ter conseguido establecer uma linha de quatro estável, entre lesões e conflictos internos com Terry e Cole, não tem ajudado. A defesa dos ingleses é o seu calcanhar de Aquiles, mas a verdade é que a incapacidade de trocar a bola e de manter uma larga possessão é cada vez mais evidente e problemática. O projecto de futuro do clube está em cheque, a destituição do portuense é questão de dias e o status quo ameaça destroçar o profundo trabalho de reestruturação interna em que o Chelsea se envolveu de corpo e alma.

 

Quando Abramovich começou a entender que despejar fortunas nos cofres do clube não era suficiente para transformar o Chelsea num projecto ganhador a curto, médio e longo prazo, os Blues começaram a desenhar uma estratégia para cumprir com as regras de Fair Play da UEFA sem perder a competitividade no terreno de jogo.

O histórico “double” conseguido por Ancelloti no seu primeiro ano era um sinal de que o fantasma de Mourinho parecia ter ficado para trás mas a idade do plantel assustava o mais optimista. Em dois anos a directiva decidiu soltar-se da legião montada por Mourinho e seguida por Scolari e apostar no futuro. Os contratos dos veteranos não foram renovados e as saídas multiplicaram-se. Belleti, Deco, Ballack, Carvalho e Anelka foram os primeiros. Drogba, Paulo Ferreira, Kalou, Malouda, Cole e Essien viram as suas pretensões salariais recusadas e os contratos em suspenso. Alex foi vendido ao PSG em Janeiro e em dois anos o clube apostou, sobretudo, em jogadores jovens, com elevado potencial de crescimento e uma cultura futebolistica diferente à do choque e musculo cultivada por Mourinho e Kenyon. Os espanhóis Mata e Romeu, os belgas Lukaku, De Bruyne e Courtois, o repescado Sturridge e o inglês Cahill juntaram-se a um trio lusófono composto por David Luiz, Meireles e Ramires e a um velho sonho do magnata russo, Fernando Torres. Uma verdadeira revolução que ajuda a explicar a situação actual do clube. A velha guarda local – Terry, Lampard e Cole – responsáveis pelas saidas de Mourinho e Scolari – não aceitaram a politica directiva e as opções de Villas-Boas, que os condenou regularmente ao banco de suplentes. Aqueles que viam o contrato expirar criaram um circulo de bloqueio e as novas incorporações nunca demonstram força suficiente para impor-se no balneário. O falhanço desportivo de Torres, Ramires e David Luiz não ajudou a alterar a percepção dos adeptos. Em Stanford Bridge o tempo custa dinheiro. Mais de dois terços dos habituais detentores de lugares anuais ganham mais de 60 mil libras ao ano, são pessoas a que lhes importa muito pouco o amanhã e, sobretudo quando as mudanças implicam questionar o relicário de uma geração que devolveu o clube à glória. Com esse apoio de fundo, o balneário sentiu-se forte. A direcção nunca se postulou definitivamente do lado do técnico – como seria de esperar num projecto construido a pensar nos próximos dois anos – e a posição do sósia de Mourinho, ainda respeitado nas bancadas e no balneário, foi-se debilitando de uma forma que só resultados categóricos poderiam contrariar. Os resultados transformaram-se na consequência da guerra interna e conderam o luso. Salvo que Abramovich, homem de negócios caprichoso mas homem de negócios de todas as formas, saiba ter a paciência que tantas vezes lhe faltou e que sempre significou o imenso abismo que existe entre o Chelsea e o Manchester United, para por um exemplo.

 

Villas-Boas chegou a Londres com uma aura de sucesso talvez precipitada, tanto pela imprensa inglesa como pelo próprio técnico portuense que saiu do casulo do Dragão ainda muito verde. No entanto parece evidente que o problema do Chelsea é muito mais profundo e problemático do que um simples erro de casting de um técnico pode supor. Os Blues têm de saber ser consequentes com a sua politica de rejuvenescimento do plantel e da mutação do sistema e modelo de jogo aplicado. Se as adagas dos conspiradores fizerem sangue nos próximos Idos de Março, o grande prejudicado acabará sempre por ser o clube que dará mais um passo em falso rumo ao futuro. Villas-Boas pode não ser a solução definitiva mas sinceramente é o número menor nesta problemática equação. A lava do Vesúvio pode ter deixado petrificado o técnico, mas é do dono russo que se espera que contenha o seu habitual vulcão auto-destructivo.



Miguel Lourenço Pereira às 12:29 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Segunda-feira, 20.02.12

As lágrimas de Angelo Palombo no final do último jogo da Sampdoria da passada temporada foram um dos momentos icónicos do ano desportivo. Meio ano depois o capitão da Samp deixou o clube que jurou defender até ao fim e voltou à ribalta. É a ultima oportunidade para um dos melhores médios italianos da última década, o último comboio rumo ao estrelato que nunca encontrou no mitico Luigi Ferraris.

 

Viajou à África do Sul e sofreu na pele a paupérrima imagem deixada pela Azurra no Mundial de 2010. Podia ter sido o seu torneio, mas não havia condições para que um jogador italiano tivesse sucesso numa espiral assumidamente destructiva. O annus horribilis que se seguiu em Genova pareceu dictar sentença sobre o destino de Palombo.

Em 2002 a jovem promessa que a Fiorentina tinha contratado em idade de juvenil foi vendido por uma módica quantia a uma Sampdoria que militava então na Serie B. O destino quis que uma década depois fosse nessa divisão que Palombo se despedisse do seu clube do coração. Durante  esse imenso periodo de tempo foi a alma mater de um projecto de altos e baixos que quase logrou o céu, leia-se Champions League, e acabou por cair nas trevas inesperadamente depois de um péssima acto de gestão desportiva do presidente, Ricardo Del Ara, ao dispensar Antonio Cassano quando o clube ainda não militava nos postos de despromoção. Palombo transformou-se no tipico médio italiano de baixo perfil mediáticomas profundamente influencial na manobra de jogo da equipa. Os anos transformaram-no num inteligente box-to-box, poderoso remate, excelente controlo de bola e acima de tudo, um espirito de liderança inimitável. Cresceu ao lado de Volpi no coração do Luigi Ferraris e ganhou o carinho dos adeptos e o respeito de cada corpo técnico que chegava e partia. 

 

Em 2005 ajudou a Samp a chegar às provas europeias pela primeira vez numa década, capitaneando o conjunto numa impecável temporada na Serie A. Começou a ser convocado por Roberto Donadoni para a Squadra Azurra e foi elemento integrante da equipa que se apurou para o Euro 2008 e o Mundial de 2010, mas sem conseguir establecer-se como titular ao lado de Gennaro Gattuso e Andrea Pirlo, elementos nucleares da então campeã do Mundo.

Durante vários anos foi tentado pelos grandes de Milão, mas manteve-se fiel ao projecto da Samp, sendo recompensado em 2008 com a braçadeira de capitão, titulo que manteve durante quatro anos. Ao lado de Andrea Poli, em 2010, realizou a sua melhor temporada, um ano de pura épica que entrou para a história do clube. Aos 29 anos parecia que, finalmente, o destino lhe ia proporcionar um bilhete dourado para os grandes palcos da Europa. Os seus golos e assistências de última hora foram os catalizadores de uma parceria letal com o duo de ataque Cassano-Pazzini no 4-3-3 desenhado por Del Neri. Um ano e meio depois de realizar a melhor época desde o titulo de 1991 nenhum dos três continua em Genova. Palombo manteve-se ao leme do navio durante o inicio desta temporada, mas no último dia de Janeiro chegou uma oferta irrecusável do Inter, um empréstimo de meio ano com opção de compra. Uma última oportunidade de brilhar.

 

Palombo representa o perfil exacto e certeiro do jogador low profile que contraria a tese de que o Calcio é um ninho de jogadores sem classe e técnica. O actual médio neruazurri viveu a última década a reinvindicar o perfil do tuttocampista, capaz de defender e atacar como o melhor defesa e o melhor atacante, nunca desistindo de uma bola, nunca resistindo ao mais intenso cansaço. O Luigi Ferraris sente-se hoje mais orfão que nunca.  Jogadores como Palombo podem vender poucas camisolas mas cosem muitas almas!


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Miguel Lourenço Pereira às 18:19 | link do post | comentar

Domingo, 22.01.12

Durante os últimos 40 anos a Bundesliga viveu sob uma eterna realidade. O livro de cheques do Bayern Munchen. O clube a quem muitos chamam, despectivamente, FC Hollywood, tornou-se no pesadelo dos seus rivais. Dentro e fora de campo. Estrela que irrompia em hostes alheia, estrela que os bávaros tentavam capturar para o seu castelo. Marco Reus quebrou uma tendência crónica e, sem sabê-lo, pode até mesmo ter invertido uma longeva realidade. Hoje quem contrata são os outros, quem cultiva a formação são os ogres de vermelho.

No magnifico plantel desenhado por Louis van Gaal e que este ano é orientado por Jupp Heynckhes os números de contratações de estrelas locais empalidecem em comparativa com o leque de jogadores que chega dos escalões inferiores. Salvo a recém-chegada de Michael Neuer, indubitavelmente o melhor guarda-redes europeu do último ano, e o olfacto goleador de um Mario Gomez que chegou há três anos vindo do Stuttgart, o Bayern Munchen parece ter abandonado a sua velha politica de roubar as estrelas emergentes aos rivais para cuidar mais do seu quintal. Talvez a politica de formação que tanto (e tão bem) transformou o olhar que temos da Bundesliga também tenha realmente começado a fazer sentido para Uli Hoeness e Karl-Heinz Rummenigee, os homens fortes do futebol do Bayern.

Aos já veteranos Bastian Schweinsteiger e Philiph Lahm juntam-se actualmente Thomas Muller, Holger Badstuber, David Alaba, Toni Kroos, Diego Contento e Maximillian Riedmuller, todos eles formados nas camadas jovens do clube. Nove jogadores da casa no plantel principal, um êxito que não era logrado desde os anos 80 e que espelha bem a inversão da politica desportiva do clube. Se a isso juntar-mos que as mais recentes contratações foram relativamente low profile (o sueco Nils Petersen, o japonês Takashi Usami, emprestado e Anataly Timostschuk) temos um retrato bem diferente do que era habitual. E no entanto o caso Reus podia ter alterado essa imagem redentora.

 

Poucas figuras individuais pareceram tão relevantes no panorama desportivo alemão do último ano como Marco Reus.

O jovem médio-ofensivo emergiu como o líder de uma geração irreverente que transformou o decrépito Borussia Monchengladbach, outrora grande do futebol alemão, numa equipa capaz de lutar pelos primeiros postos da tabela. Rosto visível desta Nova Alemanha, junto a Ozil (Real Madrid), Muller (já no Bayern) e Gotze (estrela do Dortmund), o médio era também o valor mais apetecível do mercado, capaz de captar o interesse dos grandes da Europa...e do Bayern Munchen.

Apesar de ter várias opções para essa zona do terreno (incluindo Kroos, Muller, Ribery e Robben) o apetite bávaro perante uma pechincha (17 milhões de euros de cláusula) tornou-se evidente ao longo da primeira metade da temporada e muitos imaginavam um regresso às origens, ao período em que cada estrela jovem que despontava, como sucedeu com Michael Ballack, Sebastian Deisler, Steffen Effenberg, Oliver Kahn e tantos outros, acabaria no Allianz Arena. E no entanto, à medida que Hoeness tratava de vender a sua nova politica de formação (e estão Emre Can e Dennis Cheesa a caminho), o livro de cheques encarnado voltava a surgir como fantasma de dias pretéritos.

Mas Reus, inadvertidamente, mudou as regras do jogo. Entre Bayern Munchen e Borussia de Dortmund elegeu a segunda opção. O clube que se decidiu a formar para sair da crise financeira e descobriu em Nuri Sahin, Kevin Grosskreutz e Mario Gotze as armas para um titulo histórico decidiu inverter a tendência do mercado e pagar a cláusula por um jogador que, curiosamente, já fez parte da sua célebre formação e que saiu para Monchengladbach para procurar fortuna (como sucedeu com Ozil com o Schalke 04 ou Kroos e o Bayern). A chegada de Reus ao Welfastsadion tem um significado implícito previsível, nada menos do que a partida de Mario Gotze no próximo Verão por valores que certamente cobrirão este gasto surpreendente. Há muito que o Borussia estava longe das altas contratações (Jerome Boateng e Luis Gustavo, hoje no Bayern, foram exemplos de jogadores que se lhe escaparam) e só a frescura financeira com o dinheiro da Champions League e as vendas de Sahin, e previsivelmente, de Gotze poderiam justificar esta aventura.

 

No fundo este golpe na mesa significa, definitivamente, que há um novo ideário nesta nova Bundesliga onde nem todos os jogadores se rendem à atracção de Munich. A partida de Khedira, Ozil, Reus, Aogo e a incapacidade de atrair as jovens estrelas do Dortmund reflecte, de certa forma, uma mudança de imagem no papel de papão dos homens de Munich. É certo que homens como Neuer, Gomez e Boateng (via Manchester)o  continuam a espelhar esse desejo do clube bávaro de se nutrir dos melhores jogadores alemães mas o processo começa a distanciar-se da omnipotência pretérita. Uma lufada de ar fresco para um campeonato que se converteu por direito próprio na grande sensação dos últimos anos. A forma como projectos sólidos em Dortmund, Gelsenkirchen, Bremen, Leverkusen ou Hoffenheim se vão formando, resistindo às acometidas do eterno campeão, ajudam também a explicar este novo perfume que jogadores como Reus, seguramente destinado a marcar o futebol alemão da próxima década, trouxeram aos campos da Bundesliga.



Miguel Lourenço Pereira às 14:06 | link do post | comentar

Sábado, 17.12.11

Sabia André Villas-Boas que trocar a cadeira de sonho por uma cadeira electrocutada tinha os seus riscos e apesar de parecer uma mudança fácil a decisão de trocar o FC Porto pelo Chelsea sempre pareceu mais complexa do que se possa imaginar. O projecto desportivo de Abramovich chegou a uma dessas encruzilhadas onde realmente se julga a condição de grandeza de um clube. O técnico português foi chamado mais por essa crença do magnata russo nesse futuro respeitável do que propriamente numa filosofia de resultadismo que orienta projectos onde o dinheiro fala sempre mais alto. Resta saber quanto vale a fidelidade do russo a uma ideia...

Pouco fica quando o dinheiro acaba e, mais tarde ou mais cedo, ele acaba mesmo.

Treinar um projecto desportivo que está assente no livro de cheques é um risco porque a cobertura pode um dia falhar e revelar uma realidade cheia de cinzentos escuros e negros. Hoje ninguém aceitaria treinar um Blackburn Rovers endinheirado e no entanto isso foi o que Kenny Dalglish fez quando os Rovers eram o Chelsea dos 90s e quebraram um mandato dictatorial do melhor United de Ferguson. Equipas como o Manchester City ou o Chelsea, por muito passado respeitável que tenham, sempre foram membros dessa classe média futebolística, irmãos pequenos dos grandes rivais urbanos e, portanto, perdendo o prestigio tinham de o compensar com algo. O dinheiro.

Só que projecto assim normalmente têm prazo de validade. Se o dinheiro é curto - e quem se lembra de Peter Risdale? - acabam depressa quando o banco começa a exigir mais do que o que dá. Se o dinheiro dura vários anos é, habitualmente, quem o investe que se farta de mais do mesmo e procura uma noiva loira de mamas falsas, um novo iate de luxo, um clube nas Américas e um hotel nas Arábias. Quando o dinheiro se vai vai-se tudo com ele e só os clubes que apostaram no prestigio histórico - por muito mal que andem de dinheiro - conseguem sobreviver com dignidade em dias de penúria. Os outros - lembram-se do Matra Racing? - caem no esquecimento. Esses clubes vivem o momento, o sonho e precisam de homens que sintam essa necessidade de armar tenda em qualquer lado para triunfar. José Mourinho foi o homem ideal para Abramovich porque era um treinador com a vista noutro lado desde o primeiro dia. O seu impacto é imediato, o seu sucesso exprimido até ao tutano e depois, et voilá, o adeus a tempo e horas prevê a catástrofe. O Chelsea pós-Mourinho até fez melhor figura na Europa (foi a uma final da Champions, perdida pelo azar de Terry e a fraqueza mental de Anelka) e voltou a vencer a Premier, mas essa aura de projecto novo atractivo perdeu-se. Mais do que Abramovich se fartar - e o dinheiro começou a chegar em menor quantidade - foi o mundo que se fartou do Chelsea. Os adeptos procuraram outros ódios de estimação (olá City), os jogadores descobriram que havia destinos mais atractivos e os rivais perderam-lhe o respeito. Em quatro anos o Chelsea deixou de ser um ogre temido a ser mais um de muitos clubes de top que têm prazo de validade quando os cheques deixaram de chegar definitivamente. O iate de Abramovich já conheceu melhores dias.

 

No meio deste cenário de luxúria desportiva, chega com uma garrafa de Porto vintage um tal André Villas Boas a Londres.

Não é um Special One porque as imitações raramente funcionam e o seu sucesso no FC Porto deveu-se a muitos factores e só um deles lhe corresponde directamente. Cómodo no clube do coração, chegou a um momento da sua vida onde podia perspectivar um futuro repleto de titulos portugueses e alguns brilharetes europeus aqui e ali. Mas esse prestigio que é treinar o FC Porto não deixa de ser enganador num mundo de tubarões da alta finança e como o mais cínico dos Humphrey Bogarts podia presumir, isso não era suficiente. Londres atraía pelo passado mas sobretudo pelo futuro. O problema, está claro, era o presente.

Villas-Boas viveu na pele a era Mourinho. Sabe o efeito do sadino nos seus ex-jogadores e sabe que depois deste sair estes nunca mais voltam a ser os mesmos. Essa orfandade emocional, esse físico destroçado por anos de exigência máxima são difíceis de compensar e o Chelsea de Mou continuava a ser o mesmo cinco anos depois, anos em que Abramovich tentou vários modelos sem nunca se sentir satisfeito. O problema dos novos-ricos do futebol não é o dinheiro que gastam mas a sensação de que o fazem sem ter uma só ideia. O Barcelona gasta todos os anos verdadeiras fortunas mas, pelo menos, vive uma ideia de jogo à que é habitualmente fiel e que lhe permite dar continuidade à estrutura do clube. No caso de entidades como o Chelsea (olá City) vê-se o enfoque no imediatismo e nunca se pára para pensar o que se quer para o amanhã. O Chelsea é um clube de possessão ou de contra-golpe? De pressão alta ou de deixar jogar? De jogadores com uma entidade técnico-fisica evidente ou uma miscelânea? Ninguém, nem o próprio Abramovich, sabe ou pensa sequer nisso. Por isso os Mourinhos do futebol funcionam tão bem porque eles trabalham com o que há para o hoje. O amanhã é para os lorpas que vêm a seguir resolverem. Villas-Boas não quer ser o lorpa de turno, o novo Grant, Scolari ou Ancelloti mas para isso terá de medir os seus tempos com frieza e determinação.

Já na época passada se tinha começado a reestruturar o plantel do clube londrino mas, uma vez mais, sem ideias de futebol presentes. A contratação de Torres, David Luiz e Ramires deixaram a nu essa incerteza. Um avançado que joga em velocidade num plantel onde abundam os avançados. Um defesa de choque mas com propensão para o erro ocasional ao lado de uma dupla Terry-Ivanovic, de primeiro nível. E um médio pulmão sem critério com a bola que deixa antever que o toque não será uma prioridade. E no entanto, meses depois, chegam Mata, Meireles, Oriol e com eles Villas-Boas a defender o critério, a posse e o jogo entre-linhas. O 4-3-3 da era Mourinho, compacto, de jogo lateral e veloz transformou-se num 4-3-3 de defesa alta, linhas móveis e ataque continuado. Mas a filosofia no papel contrasta com a falta de critério no balneário.

 

As derrotas dos Blues frente ao Manchester United, Liverpool e Arsenal foram mais do que derrotas no plano futebolístico. O Chelsea perdeu contra equipas de prestigio, instituições que sabem ao que jogam e que, por muito mal que estejam no presente, têm um ADN a que são fieis e que sacam a reluzir em jogos de máxima importância. O Chelsea vive perdido nesse meio porque Villas-Boas ainda não teve habilidade para manobrar esses tempos de gestão fundamentais para que um blockbuster se transforme num êxito de larga duração. Mais do que reformular o plantel onde abundam jogadores em fim de carreira o que o português tem de lograr é persuadir Abramovich a esquecer o iate por um instante e pensar que a sua paixão de uma noite se transforme num longo casamento, cheios de dias rotineiros, jantares de família aborrecidos e sessões de sexo esporádicas e sem paixão. Villas-Boas sonha sobretudo em criar à sua volta o mesmo prestigio que logrou Wenger que soube manter longevos os homens do "boring Arsenal" como Keown, Adams, Dixon e Parlour ao mesmo tempo que ia imprimindo o seu cunho com Henry, Pires, Ljunberg, Vieira, Cesc e companhia. Vencer o Manchester City é um logro importante no imediato mas não deixa de ser um duelo de iguais, de duas equipas cheias de egos mas sem uma identidade. Mais do que disputar o titulo ao novo-rico do momento a liga do Chelsea deveria ser a do amanhã, a que lhe permita um dia sentar-se ao lado do trio histórico que define o futebol britânico e esperar a ser servido como um membro mais da família.



Miguel Lourenço Pereira às 20:14 | link do post | comentar

Segunda-feira, 05.09.11

Uma semana depois da derrota mais dolorosa, Arséne Wenger parece um treinador muito mais tranquilo do que seria de supor. O técnico do Arsenal foi seriamente contestado por um sector bastante forte dos adeptos gunners mas soube reagir com a prontidão que se esperava. Depois de mais de dezasseis anos à frente do clube londrino, Wenger continua a ser um homem que deixa sensações contraditórias. O francês soube reeducar o gosto futebolístico dos filhos do "boring Arsenal" mas continua a ser contestado pela falta de resultados. É o preço pagar por ter sabido esconder os graves problemas de um clube que há largos anos está longe da elite britânica.

Parecia uma gralha. Um erro gráfico talvez.

8-2 não seria realmente um 0-2? Não se teriam os senhores enganado? Quantos adeptos não devem ter pensado isso - e muito mais - quando se conectaram para saber do resultado do histórico confronto de Old Trafford entre gunners e red devils. Os que viram o jogo, no entanto, levaram com a crua realidade em directo. Uma realidade enganadora mas, não por isso, menos dolorosa.

Quando David de Gea parou o penalty de Robbien van Persie o jogo estava ainda tremendamente equilibrado apesar do 1-0. Como se de uma espécie de cerco se tratasse, esse foi o momento em que a fortaleza cedeu. O plus de confiança transformou o jogo ofensivo do Man Utd (foram oito, podiam ter sido doze) e descaracterizou por completo um Arsenal que, em momentos, se assemelhava mais ao Brighton and Hove do que à equipa que tem marcado presença de forma consecutiva entre a elite europeia na última década. Num dia inspirado de Wayne Rooney, Ashley Young, Nani, Phil Jones, Tom Cleverley ou mesmo Anderson pouco mais havia a fazer. Para piorar mais a situação - ou justificando-a, em parte - os gunners jogavam contra o eterno rival repleto de baixas da máxima importância. Só isso justificou a estreia de Alex Chamberlain, os minutos de Coquelin, Jenkinson e Traoré e a falta de critério colectivo de um onze orfão do talento de Nasri e da cerebralidade de Fabregas

Sem os seus dois maestros (e sem Vermaelen, Sagna, Gibbs, Whilshere ou Song) era fácil de imaginar que o Arsenal seria derrotado por um Manchester há largas semanas a evidenciar que Ferguson conseguiu reerguer, uma vez mais, das cinzas, um clube a quem muitos estão mais do que fartos de passar a extrema unção.

8-2 foi um resultado tremendo mas Wenger é um pragmático. Sabe que o jogo pode ter deixado uma marca profunda nos adeptos, mesmo naqueles mais fiéis que contradizem o discurso do resultadismo, mas aos jogadores transmitiu a ideia de que, no máximo, perderam-se três pontos e um confronto directo difícil de igualar. Nada mais. Uma derrota aparentemente previsível nos seus cadernos e que, simplesmente, acelerou o inevitável. Três dias depois o Arsenal mostrou-se hiper-activo no fecho do mercado com as chegadas do veterano Meertesacker, os talentosos  Benayoun e André Santos e o homem que terá por obrigação liderar a carga do meio campo, o espanhol (ironia das ironias) Mikel Arteta. Quatro nomes a que se podiam ter juntado outras (Cahill do Bolton, Gotze do Dortmund, Hazard do Lille), não fossem as ofertas dos gunners rejeitadas sem qualquer opção de negociar.

 

Se Wenger já montou e desmontou equipas de alto standing é difícil pensar que o alsaciano perdeu a habilidade de repetir o feito.

Até porque o Arsenal pós 2008 é tudo menos uma equipa de top. Em 2006 a equipa chegou ao mais alto. Uma final de Champions League, a única espinha ainda atravessada no historial do clube e do técnico. Desde dois anos antes que o clube não vencia um troféu doméstico e desde então a razia foi in crescendo. À medida que os artífices dessa campanha foram deixando o clube, as caras novas foram incapazes de manter o ritmo. Mas, sobretudo, e isto para um homem como Wenger é fundamental, a balança do poder financeiro da Premier mudou drasticamente as regras do jogo.

Quando o clube decidiu gastar todas as fichas numa só jogada não foi capaz de prever o que o fenómeno Abramovich seria capaz de fazer ao futebol inglês. Estávamos em 2003, o ano em que se forjou a lenda dos Invencibles, e ao Manager foi-lhe dito que o dinheiro para transferências iria acabar durante os anos seguintes. Todos os rendimentos do clube seriam redirigidos para a construção (e pagamento) do novo estádio, o Emirates Stadium, ele também uma petição expressa de Wenger, cansado de ver um Old Trafford com 75 mil almas contra as 32 mil que abarrotavam o velho Highbury. Economista, apaixonado das finanças e gestor de elite (basta ler Moneyball para entender como Wenger mudou o rosto do futebol moderno), o técnico gaulês traçou um plano de futuro que contradizia em grande parte o que tinha feito nos anos anteriores. Apostou nas camadas jovens do clube (reforçadas por contratações de promessas em todo o planeta graças a uma aplicação informática que lhe permitia estudar em detalhe características chave nos jogadores mais interessantes que os seus olheiros descobriam), apostou em jogadores desconhecidos do grande público e, sobretudo, apostou em reduzir a carga salarial do plantel.

Simon Kuper defende (e no meu entender, correctamente) a teoria de que é o que um clube gasta em salários o que determina o seu real posicionamento no mercado e nas expectativas que pode ter. No arranque da década o Arsenal era o clube que mais gastava em salários, só ultrapassado pelo Manchester United. Uma década depois o clube caiu para um sétimo lugar por detrás de United, Chelsea, City mas também Aston Villa, Tottenham ou Liverpool. Sairam os pesos pesados, os mais novos cobram relativamente pouco comparado com os de outros clubes e sempre que um jogador com o perfil, digamos, de Nasri (o caso de Fabregas é muito especial) quer renegociar o contrato em alta, o clube prefere vender. Essa politica marcou a segunda etapa do técnico no clube e de certa forma os seis anos sem titulos ou os 8-2 em Old Trafford apenas espelham essa realidade. O Arsenal não tem poder financeiro para competir pelo titulo. Nem sequer pela Champions League. Hoje, tecnicamente, os gunners são uma equipa de Europe League e têm-no sido nos últimos anos. Mas a boa gestão de Wenger, o seu estilo de jogo, as grandes descobertas do técnico foram mantendo o Arsenal acima do esperado, dando a ilusão de poder que realmente não tinha. O clube nem pode gastar 40 milhões num jogador nem sequer - e isso é o mais problemático - gastar as fortunas em salários anuais que recebem os mais bem pagos, os jogadores de top. Uma realidade que começa a mudar agora. Mas só agora. Agora porque o clube acabou de pagar o estádio (seis anos depois). Agora porque o clube pode voltar a investir. E agora que o inferno passou, agora que o clube pode voltar ao seu rumo depois do mais difícil, agora Wenger perde a confiança?

 

O certo é que Arsene Wenger continua a ser o santo e senha para a maioria dos gunners. E com todo o sentido. O "boring Arsenal" de George Graham venceu títulos mas nunca convenceu ninguém. Wenger venceu títulos também mas sempre encantou, mesmo nas mais cruéis derrotas, até ao mais imparcial dos adeptos. Tacticamente é um treinador de top mas é como gestor de recursos - humanos e financeiros - que o seu papel na história está assegurado. Transformou o Arsenal numa potência real e deixou as bases de futuro para um projecto sólido e sustentável. Sem o dinheiro de sheiks ou magnatas, sem o background económico do Man Utd (que antecipou em 15 anos tudo o que os restantes clubes fazem hoje) conseguiu dar luta até ao fim ano após ano. Ninguém pode dizer que 2011/12 vai ser diferente. Arsene já nos surpreendeu outras vezes no passado. O desafio é difícil mas se há alguém que se sente estimulado por jogar contra as expectativas é o homem em que os gunners ainda confiam.



Miguel Lourenço Pereira às 11:04 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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