Quinta-feira, 14.05.09

Justo.

 

É o minimo que se pode dizer do golo de Michael Carrick. É um golo que poderá valer uma Premier League - a terceira consecutiva do Man Utd - se a equipa conseguir um ponto nos dois jogos que faltam (sempre e quando o Liverpool vença os dois encontros). Um desses golos que não possuem o espectáculo necessário para entrar na história mas que marcam um ponto final numa larga série de refregas semanais. E o seu autor é o soldado mais obediente e cumpridor do meio campo de Alex Ferguson. Um verdadeiro sargento contratado para fazer esquecer o mitico Roy Keane. Ontem o seu fantástico golpe confirmou o seu lugar no Hall of Fame de Old Trafford.

 

Michael Carrick nasceu para o futebol na magnifica escola de formação do West Ham United. É da mesma geração de Frank Lampard, Rio Ferdinand, Joe Cole e Jermaine Defoe, uma verdadeira geração de puro talento que levou bem alto a camisola dos westners na Premier League. A falta de poderio financeiro obrigou a que cada um seguisse o seu rumo. O de Carrick demorou um pouco mais que o seu amigo Lampard. Primeiro teve de passar por White Hart Lane, onde comandar uma equipa tão desordenada como o Tottenham era missão demasiado espinhosa para um jovem tão promissor. Já então Ferguson o tinha debaixo de olho - como sempre aliás - e nunca surpreendeu ninguém o preço milionário que estava na face do cheque recibido com agrado pelos londrinos.

 

Depois do dominio do Chelsea de Mourinho o técnico escoces sabia que tinha de criar de novo uma equipa sólida capaz de voltar a levar os red devils à glória. Começou a contratar jovens talentosos (chegaram Rooney, Ronaldo, Ferdinand, Hargreaves, Evra, Vidic) para poder formar uma equipa capaz de subsituir os chamados Ferguson Babes que tinham perdido já Beckham e que tinham em Scholes, Giggs, Neville e afins veteranos com muitos jogos nas pernas. Carrick foi uma dessas contratações base. Coube-lhe a ele tomar a batuta do meio campo mancuniano, o que tem vindo a fazer com uma brilhantez impressionante. Perito em distribuidor jogo e com um posicionamento imaculado, O médio é a balança perfeita para equilibrar, ora com Scholes ora com Anderson, o centro de campo do Man Utd. A sua acção permite ao 4-4-2 transformar-se regularmente num 4-2-3-1 ou num 4-3-3-, ficando sempre no eixo recuado da linha central. Mas o seu poder de fogo torna-o igualmente num elemento determinante na pressão ofensiva. Ontem o Wigan sentiu-o bem na pele. Se há centro-campista que poderá fazer a diferença na final de Roma, esse é Carrick. Terá como missão cair em cima de Xavi ao mesmo tempo em que se lhe pede que solte jogo para lançar os ataques venenosos que são marca da casa. Nada do outro mundo para um talento deste gabarito.

 

A vitória in extremis do Man Utd - como tantas outras este ano - prova que o futebol ingles possuiu um equilibrio que não encontramos em nenhuma outra grande liga europeia. Um ponto em dois jogos (Arsenal em casa e Hull City fora) é suficiente para o Tricampeonato. A equipa de Manchester não começou a temporada com impeto, e até vencer o Mundial de Clubes cumpriu serviços minimos. Parecia que Liverpool e Chelsea disputariam o trono mas hoje, a duas semanas de terminar o ano, o Manchester United pode conseguir a fabulosa marca de cinco titulos. Apenas a FA Cup lhe escapou, até agora. Vitórias no Charity Shield, Mundial de Clubes, League Cup e o previsivel tricampeonato na Premier, provam que estamos claramente diante da melhor equipa mundial de 2009. Falta o duelo com o Barcelona para provar que se há uma equipa capaz de quebrar essa maldição, esse é o Manchester United...de Cristiano Ronaldo, de Wayne Rooney....e de Michael Carrick claro.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 22:03 | link do post | comentar

Sexta-feira, 08.05.09

De Anderson Luís de Abreu Oliveira contam-se, nos meandros do futebol, muitas histórias. A mais célebre de todas reporta-se aos seus dias de júnior, quando já brilhava no Grémio de Porto Alegre. Um dia, o treinador da equipa principal enquanto assistia ao treino ficou impressionado com as suas qualidades, mas ao vê-lo sair do relvado com vários telemóveis na mão, não resistiu em deitar-lhe o sermão sobre a responsabilidade de jovem futebolista. Anderson ouviu atentamente e logo respondeu-lhe que valia mais que os jogadores que ele alinhava e se queria dar-lhe um sermão, que o fizesse depois de lhe dar uma oportunidade. A coragem do jovem impressionou o técnico que decidiu dar-lhe uma oportunidade. Nos relatos desse jogo, o jovem médio foi a estrela da equipa e estreou-se a marcar. Tinha nascido um novo mito na cidade que, pouco tempo antes, já tinha assistido à ascensão gloriosa de um tal Ronaldinho, que por ser dali, era Gaúcho no mundo da bola. Tinha 16 anos.

Hoje essa pequena anedota serve para ilustrar o carácter competitivo de Anderson. Conheceu três clubes ao longo da carreira, mas sempre trabalhou em progressão constante. Depois de se ter confirmado como a estrela maior do Grémio deu o salto para a Europa. A ponte foi o FC Porto. Os dragões, peritos em descobrir jovens promessas brasileiras, repescaram-no quando já havia vários colossos atrás daquele esguio centro-campista. Mas ao contrário do que muitos pensavam, a adaptação demorou. Co Adriaanse, um perito em camadas jovens na sua Holanda natal, percebeu que faltava muita disciplina táctica ao jovem e mandou-o rodar pela equipa B durante boa parte do ano. Comer o pão que o diabo amassou. O que a muitos podia ser um retrocesso, para Anderson foi uma bênção. Aprendeu a bascular o meio campo com maior rapidez e perdeu algum daquele traço egoísta que todo o futebolista brasileiro tem nos genes. Estreou-se na equipa principal já quando o título estava no bolso, mas deixou apontamentos de craque. No ano seguinte, já com Jesualdo Ferreira no banco, tomou as rédeas da equipa. Com Lucho ao lado, passou a controlar com batuta o meio-campo do campeão. Até que chegou a brutal entrada no estádio da Luz e a lesão confirmando os piores prognósticos. Anderson aprendeu então, bem cedo, o valor da forma física. A recuperação foi rápida e essencial para o tornar num jogador mais disciplinado. E quando tudo estava preparado para que voltasse a ser o patrão dos dragões, chegou um cheque de 30 milhões de euros com Old Trafford como destino final. O FC Porto não hesitou – afinal, não é todos os dias que se paga tanto por alguém com tão poucas provas dadas – e os Red Devils agradeceram.

Hoje Anderson é o novo dínamo do Manchester United. Tal como todas as jovens incorporações no Man Utd, teve de esperar para conseguir o seu lugar. Sir Alex está a reformar, a pouco e pouco, a sua geração dourada. A cantera do United é boa, mas já não surgem jogadores tão decisivos feitos de raiz. É preciso contratar jovens e adapta-los á filosofia do clube. E se Nani, por exemplo (como antes dele nomes como Rossi), é um claro exemplo de falta de entronização, Anderson segue bem as pisadas de Cristiano Ronaldo. Sucessor natural de Paul Scholes, o brasileiro controla o meio-campo com a inteligência de um veterano. Aprendeu a recuperar bolas à entrada da grande área e a distribuir rapidamente para os letais ataques, marca da casa. O primeiro golo na passada terça-feira vem com a sua marca. Ferguson já não abdica de Anderson nos grandes momentos. Com Carrick ao lado, é o pêndulo perfeito desta nova geração vermelha. A irreverência da juventude permite-lhe arriscar. A maturidade que alcançou precocemente dá-lhe primazia sobre os rivais. Aos 21 anos, Anderson é já um dos melhores do Mundo na sua posição. Na próxima final de Roma medir-se-á com Xavi, hoje o rei e senhor do posto a nível mundial. Mas da mesma forma que conquistou Porto Alegre, que reinou indiscutivelmente na Invicta e como chegou à selecção brasileira, onde Dunga sabe que necessita dele para construir um meio-campo sólido e eficaz, a verdade é que o presente já lhe pertence. E o futuro é seu por inteiro.

 

Estamos diante daquele que será, provavelmente, o melhor médio centro do mundo num par de anos. Assistir, semana após semana, à sua evolução, é um privilégio. Com já ganhou quase tudo o que há para ganhar. Falta-lhe brilhar com o escrete. E falta-lhe acima de tudo continuar a vencer. Porque sem desafios, jogadores como Anderson não encontram razão para existir. É por isso que nas horas decisivas, é a eles a quem todos recorrem para salvar o dia.

 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 02:26 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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