O triunfo do Benfica com golos de dois portugueses que têm sido actores mais do que secundários nos planos de Jorge Jesus reabre a questão de qual é o verdadeiro problema do futebol nacional. Jorge Jesus e os restantes técnicos das equipas de topo pode funcionar como uma boa resposta, particularmente quando afirma sem complexos, mais do que a sua habitual incapacidade comunicativa, que este tipo de jogadores para a prova nacional "vai dando". Um atestado de incompetência ao futebolista português que não deve surpreender. Há uma década que os jogadores nacionais são tratados assim.
Ao mesmo Gil Vicente que foi uma das revelações da passada temporada, graças ao brilhante trabalho de Paulo Alves, o FC Porto não conseguiu vencer com uma equipa que ainda tinha Hulk.
Esse mesmo conjunto de Barcelos acabou derrotado, sem grandes problemas, por um 3-0 contundente com dois marcadores surpresas. Não foram nem Rodrigo nem Cardozo, nem Nolito ou Gaitán. Os golos de Luisinho e André Gomes não foram fruto da casualidade. Pela primeira vez na época, talvez pela primeira vez desde que relançou a carreira de Fábio Coentrão, Jorge Jesus apostou em jogadores portugueses de perfil baixo e obteve lucros. Dois jogadores que, sem ser mediáticos, estiveram à altura das circunstâncias num terreno complicado de visitar e que responderam com golos e qualidade de jogo, algo que tem faltado a uma equipa que não termina de se encontrar. Jesus não se decide pelo modelo de jogo a seguir, depois da saída de Witsel, e muito menos pelo onze titular. Uma rotação constante e talvez excessiva que não permite encontrar um ritmo colectivo comum, talvez consequência dos erros das épocas passadas, épocas em que o Benfica esgotava o balão de oxigénio até metade da época e depois revelava-se incapaz de cumprir os objectivos. Afinal de contas, em três épocas, o técnico tem apenas um título de liga para presumir depois de ter contratado quase meia centena de jogadores.
Jesus, que é um conhecedor profundo da realidade do futebol português, habituado a viver até há bem pouco tempo no universo dos clubes que lutam para sobreviver, deveria ser o primeiro a saber a avaliar a real capacidade de um jogador nacional. No entanto, salvo Fábio Coentrão, a sua gestão como treinador do Benfica levou o último clube a contratar um estrangeiro entre os grandes a deixar de alinhar com portugueses provocando em algum momento da sua gestão a saída de Nélson Oliveira, Carlos Martins, Hugo Vieira, Mika, Ruben Amorim, Eduardo, César Peixoto, Nuno Gomes ou David Simão. Para o seu lugar, dezenas de jogadores estrangeiros com perfil suspeito que, na maioria dos casos, não passam seguramente para a posteridade do livro de honra do clube.
Jesus não é diferente da maioria dos treinadores portugueses. André Villas-Boas, Vitor Pereira, Domingos Paciência ou Jesualdo Ferreira, para centrar-nos nas figuras de topo, não foram propriamente amigos do jogador português, relegando-os demasiadas vezes para um segundo plano mediático e desportivo injustificado. Como consequência dessa realidade, hoje a liga portuguesa continua a ser um oásis de oportunidades para as jovens promessas que procuram, como outros jovens do país, sucesso noutras paragens. Os casos de Bruno Gama, Paulo Machado, Vieirinha, Salvador Agra, João Freitas, Danilo Pereira estão aí e não há nenhum plantel de um grande português que possa presumir de ter, nos seus 25 jogadores, atletas melhores e mais bem preparados do que estes para ter um papel importante na equipa. Agora e amanhã.
Se Jesus não acredita que André Gomes, Luisinho, André Almeida ou Miguel Rosa têm um real potencial de futuro mas encontra-o em Melgarejo, Ola John, Enzo Perez ou Bruno César, parece claro que a realidade dificilmente mudará nos próximos anos.
As equipas B têm dado os primeiros passos para recuperar o tempo perdido e começam a ver-se as diferenças entre a gestão do Sporting, forçado tantas vezes a recorrer à prata da casa (apesar da última gestão presidencial ter mudado a política, para pior), que lidera a Liga Orangina, para a do FC Porto, que há muitos anos que deixou de procurar manter o espírito do dragão em casa e procura nos negócios sul-americanos lucro para manter a estrutura gigantesca criada à volta da sua SAD viva. O Benfica, encontra-se no meio, com jogadores de potencial para explorar mas com um treinador, que apesar do apoio da imprensa, tem-se mostrado incapaz em três anos de o fazer com jogadores nacionais potenciando a sua inevitável saída para outras partes.
Num exercício oportunista de pura retórica, poderia formar-se um onze de jogadores nacionais só com futebolistas lusos descartados ou sem tempo de jogo entre os três grandes para descobrir que Mika, Luisinho, Tiago Ilori, Tiago Ferreira, Nuno Reis, João Mário, Sérgio Oliveira, André Gomes, André Almeida, Bruma, Hugo Vieira, Castro, Nélson Oliveira, Adrien, André Martins ou Ricardo Esgaio estão aí, à espera da sua oportunidade.
Em 1991, quando Portugal venceu o seu segundo Mundial de sub-20, numa tarde inesquecível para o futebol português, a maioria dos jogadores presentes no estádio da Luz já tinha disputado minutos com a primeira equipa do seu clube. Uma época de crise que forçou os clubes a virar-se para a prata da casa. Antes da lei Bosman, antes da liberalização do mercado, sim, mas com um olho agudo numa geração de jogadores que teve oportunidade de mostrar o que valia. Nem todos chegaram longe, muitos ficaram logo pelo caminho e uns tornaram-se Luis Figo e Rui Costa e outros Paulo Alves e Fernando Brassard. Mas o facto de terem tido a oportunidade significou que a base do sucesso da Geração de Ouro se fez à base de minutos nas pernas em jogos competitivos, não de retóricas falsas e oportunistas.
Os realmente bons emigraram cedo, os que tiveram nível para permanecer nos clubes de topo fizeram parte da história da liga portuguesa na década seguinte e houve, inevitavelmente, aqueles que a história esqueceu. Se a situação não se alterar rapidamente, esta lista hipotética de 16 jogadores, uma equipa na sua essência, pode seguir esse caminho.
Jesus teve o mérito de colocar os jogadores em campo mas retirou-se a si mesmo o prazer do sucesso ao criticar o seu real valor e - com ele - o valor da liga portuguesa que é, no fundo - apesar de na sua cabeça o Benfica ser um candidato a vencer a Champions League - o seu objectivo real. Aquele que tem falhado nos últimos anos apesar de ter tido todas as condições para fazer bem melhor. As suas palavras, honestas na sua essência, não deixam de espelhar o que se passa nas entranhas do futebol de um país que teve uma selecção finalista num Mundial de sub-20 para agora não contar com nenhum jogador dessa equipa como, e já nem dizemos titular, suplente regular nas suas formações de topo. Enquanto o Braga se "nacionaliza", com jogadores nacionais descartados pelos grandes (Viana, Amorim, Micael, Coelho, Beto), os grandes mergulham no mercado para procurar soluções que encontrariam mais baratas dentro de portas. Mas sem paciência, sem tempo e sem vontade de remar com um objectivo comum (basta ver o número de jogadores estrangeiros nas equipas B, especialmente na do FC Porto), há pouco mais que se possa fazer.
Portugal, que sobrevive com a mesma geração há largos anos sem poder apresentar alternativas válidas, sofre com a cegueira dos dirigentes e técnicos dos seus principais clubes. Há uma geração de futebolistas que, com minutos nas pernas, como demonstra Pizzi na Corunha, pode dar um salto qualitativo importante que permite uma renovação sustentada à medida que os Moutinho, Ronaldo, Pepe e companhia se comecem a aproximar da idade limite. Nomes com potencial não faltam e aos 16 citados poderiam juntar-se mais uma dezena de jogadores espalhados pelo estrangeiro ou por equipas portugueses de menor perfil. Falta confiança, faltam jogos, faltam erros, faltam momentos que definem carreiras para inverter a tendência. Os golos e exibições de Luisinho ou André Gomes são uma boa notícia para quem acredita que nada está perdido. As palavras de Jesus uma arma útil para os pessimistas que pensam que, apesar da qualidade, o futebolista português está condenado ao ostracismo. Tal e qual como o país e as suas gentes.
A realidade de um país em crise - em todos os sentidos - é perceptível na realidade do seu futebol. No caso português não é só a hemorragia de jogadores de qualidade mas, sobretudo, a necessidade dos clubes de vender para tapar os muitos buracos que aparecem nas suas contas. Todos os candidatos ao titulo desprenderam-se de jogadores fundamentais nas suas equipas da época passada. O campeonato nivela-se, uma vez mais, por baixo.
O ranking da UEFA diz que a Liga Sagres é a 5º mais bem classificada do continente europeu.
Mas as finanças dos clubes e a qualidade dos seus plantéis talvez não estejam de acordo. Os clubes portugueses vivem com a corda na garganta. Os grandes porque os orçamentos astronómicos para a realidade portuguesa começam a pagar factura. Há passivos superiores a 400 milhões de euros (caso do SL Benfica) ou de 200 milhões, como acontece com o FC Porto. Empréstimos obrigacionistas que pagar com juros altíssimos, fundos a quem se devem favores e dinheiro e no caso do Sporting, a situação é tão delicada que os próprios dirigentes sabem que caminham bem ao lado de um perigoso precipício. Mesmo o Braga, um caso de sucesso em gestão financeira, não pode resistir a vender quando o dinheiro aparece porque há sempre contas que pagar.
Do top 4 para baixo a realidade é ainda mais asfixiante, negra e sem perspectivas de melhorar no futuro. Um clube histórico e com uma das maiores massas associativas do país como o Vitória de Guimarães está perto da falência. Na Madeira os clubes sobrevivem porque Alberto João Jardim deu volta atrás numa ideia inicial de retirar parte dos fundos do governo regional aos principais clubes da ilha. E de Olhão a Paços de Ferreira, de Aveiro a Coimbra, os tostões contam-se um por um.
Essa falta crónica de crédito afecta os clubes como a sociedade portuguesa e os problemas de salários em atraso nos grandes, antes uma utopia, tornaram-se reais. Por isso vender, baixar a massa salarial, tornou-se na úncia solução.
Os valores de algumas transferências roçam o ridiculo mas, neste caso, o ridiculo tornou-se na corda de salvação de alguns clubes. Axel Witsel, contratado há um ano ao Standard Liege, rumou para San Peterburg por 40 milhões, o mesmo valor que o Real Madrid pagou por Luka Modric e mais do que o Chelsea pagou por Eden Hazard, a grande estrela do futebol belga. Hulk saiu do FC Porto por igual valor liquido (depois de pagos os gastos de gestão pelo clube russo, num total de 60 milhões) depois de ter sido comprado em várias etapas por um valor total de 19 milhões. Um valor a que clubes como o Chelsea, PSG e Manchester City não conseguiram chegar. O valor dos rublos num país que quer apostar forte no futebol para a próxima década (e a contratação de Fabio Capello é bom exemplo) salvou, pelo momento, a saúde financeira de FC Porto e Benfica (que ainda contou com a venda de Javi Garcia ao Manchester City) enquanto que o Sporting teve de despreender-se de jogadores com salário elevado, perdendo o influente Matias Fernandez para a liga italiana por valores bem mais modestos. Enquanto a Europa se maneja numa realidade, os mercados emergentes jogam noutra divisão. Para os clubes portugueses é a única opção de sobrevivência.
Desportivamente a liga portuguesa baixou uns bons degraus.
Num ano histórico, com as três equipas presentes na fase de grupos da Champions League, o futebol português devia estar de parabéns. Ainda para mais, todas as equipas foram colocadas em grupos acessíveis, com o apuramento para os Oitavos de Final longe de ser uma utopia. Mas isso foi antes de Lima deixar Braga sem um ponta-de-lança, de Jorge Jesus ter perdido o seu meio-campo (não que o Benfica seja uma equipa que perca muito tempo no miolo) e o FC Porto dizer adeus ao seu simbolo dos últimos anos. Agora a realidade vai ser bem mais dolorosa e talvez dragões, águias e arsenalistas tenham de contentar-se com uma luta mais desigual com rivais que não só não perderam jogadores referência como se reforçaram bem como PSG, Dynamo Kiev, Spartak Moscow, Celtic e Galatasaray.
Na Liga Sagres todas as equipas que aspiram ao titulo perderam cartas de luxo. Não só isso piora claramente a qualidade da competição como abre ainda mais a disputa pelo troféu que mora nas vitrinas azuis e brancas pelo segundo ano consecutivo. O Benfica, que apostou forte em recuperar o titulo mantendo Jesus ao leme, preferiu apostar num over-booking de extremos e dianteiros e esqueceu-se de reforçar o eixo medular e defensivo. Se Luisão for suspenso por meio ano, como a sua acção exige, Jesus terá sérios problemas para resolver, sobretudo nos jogos com rivais directos onde a segurança defensiva encarnada vai ser realmente testada.
O Braga já sofreu em Paços o choque de realidade de perder um homem que nos últimos anos era uma garantia de duas dezenas de golo por época. Sem uma referência ofensiva, Peseiro terá de apostar na solidez do bloco bracarense e aproveitar-se dos erros dos rivais para manter as distâncias curtas. O Sporting, que arrancou com o pé esquerdo na temporada, continua a ter de apostar na juventude para resolver os seus problemas financeiros e desequilíbrios no plantel, e Sá Pinto corre contra o relógio para não perder o fundamenta comboio da Liga dos Campeões do próximo ano.
Por fim o FC Porto parte como favorito e apesar de ter perdido Hulk mantém o estatuto. Se o brasileiro era fundamental, sobretudo nos duelos fora de casa em campos de equipas bem organizadas defensivamente, a verdade é que Vitor Pereira tem o plantel mais equilibrado dos quatro candidatos ao título. Uma defesa sólida com Danilo e Alex Sandro definitivamente confirmados como titulares e um meio-campo onde a permanência de Moutinho é a melhor das noticias. Entre James, Varela, Atsu e Jackson a equipa terá de encontrar os golos que dava e marcava o "Incrivel". Esse é o grande desafio do contestado técnico portista.
Como o fosso entre os quatro primeiros e as restantes equipas continua tremendo, apesar das baixas nos planteis dos candidatos ao titulo, ninguém espera uma temporada de grandes surpresas. O título começa a ser discutido a quatro mas é previsível que antes de Dezembro um candidato tenha caído da perseguição e no final seja um mano a mano entre FC Porto e SL Benfica a decidir o troféu. Sem as grandes figuras do ano passado, este pode ser uma temporada onde, mais do que nunca, o papel de gestores humanos e analistas tácticos, dos quatro treinadores se revele ainda mais fundamental no jogo do titulo.
No episódio da silly-season protagonizado por Luisão o que mais preocupa nem é sequer o gesto do defesa brasileiro. Nem a atitude exagerada do árbitro alemão. O mais triste é constatar que o clube que já representou Portugal ao mais alto nível caiu numa crise profunda de valores. Este incidente não só deixa a nu a falta de moral do clube encarnado como abre um perigoso precedente para o futuro imediato.
De suposta agressão a conspiração alemã.
Na família benfiquista o episódio de Luisão transformou-se agora numa conspiração internacional liderada desde Berlim pelo governo alemão contra o Benfica e o futebol em Portugal. Seria talvez o cumulo do absurdo se não fosse provavelmente apenas mais um dos muitos comentários que se seguirão a ouvir sobre este triste caso desde a Luz. Pragal Colaço, homem de confiança da direcção, presença assídua em tertúlias do canal oficial do Benfica, advogado conhecido por achar que a violência é o caminho que os encarnados têm de seguir para recuperar a hegemonia do futebol português, não surpreende com as suas declarações. Mas deixa em evidência a direcção sem norte nem sul de um clube que foi um símbolo de moralidade durante largos anos.
O árbitro do Fortuna Dusseldorf - Benfica, o alemão Christian Fischer, não caiu sozinho. Não foi empurrado pelo ar nem tropeçou na própria sombra. Luisão, capitão ou não, não pode actuar como actuou. Seja isso uma agressão, um encosto premeditado, um choque de peito. O jogador - um internacional com uma carreira de mais de uma década - devia saber que o árbitro é uma figura sagrada no universo desportivo. E no árbitro não se toca. De nenhuma forma. Muito menos com o peito, muito menos com a arrogância de quem vem reclamar razão num lance em que o seu colega de equipa fica muito mal na fotografia. Luisão devia sabê-lo. Esteve no Mundial de 2002, o mesmo em que João Vieira Pinto mostrou aos portugueses o que não fazer a um árbitro num jogo oficial. Pagou por isso. Portugal também. Mas se Luisão depois de tanto anos como jogador não sabe que não pode tratar o árbitro de um jogo, oficial ou não, como um colega de rua, então o Benfica devia sabê-lo. Esse é o grande problema.
Não me admira que na Alemanha estejam estupefactos com este caso.
Com a actuação do benfiquista, com a reacção algo exagerada do árbitro mas, sobretudo, com a actuação do clube.
O Benfica, sob o mandato de Luis Filipe Vieira, tem vindo progressivamente a afastar-se da imagem do clube que foi. Vencer a todo o custo, seja a sustentabilidade financeira ou moral da instituição, tornou-se na palavra de ordem. Foi assim nos últimos anos com queixas de vários clubes à actuação de jogadores, técnicos e directivos dentro e fora do relvado. Foi assim no ano em que se sagrou campeão com Jorge Jesus ao leme, uma equipa que começou o ano a jogar um futebol fantástico e que acabou a temporada asfixiado física e psicologicamente, e a pedir a hora. Foi assim quando impediu o FC Porto de celebrar um titulo apagando as luzes de um estádio que já iluminou o futebol português. E tem sido na forma como tem dado aos jogadores carta branca para agir no relvado com total impunidade moral.
O Benfica que se fez grande era um clube onde não havia espaço para atitudes como a de Luisão.
Antes de qualquer sanção a UEFA, FPF ou FIFA, devia ter sido o próprio clube a recriminar pública e internamente o seu capitão. Há acções que não se podem permitir a ninguém. Devia ter sido o clube a dar o exemplo moral, castigando Luisão com a perda da braçadeira, com uma suspensão interna ou uma multa pecuniária. Qualquer um desses gestos teria sido suficiente para demonstrar uma autoridade moral de um clube campeão que sabe estar no mundo. Não seria uma decisão consensual nem fácil mas as decisões correctas nunca o são.
O que fez o clube foi remar a favor da corrente mas rumo a um precipício. Destroçou, um pouco mais, o escudo que representa ao tratar o árbitro como um actor de comédia, um agente ao serviço de outros interesses, um símbolo do anti-benfiquismo. Ao transformar o agressor em vitima, em herói de resistência, capaz de unir um balneário com um gesto que merecia reprovação de todo o plantel. Agiu no sentido de desculpabilizar e com isso acabou de assumir a culpa de ser uma nau sem capitão, à deriva. Um clube mais pequeno.
Sob a gestão da FPF parece evidente que Luisão não receberá nenhum tipo de sanção desportiva. A justiça desportiva portuguesa não é algo propriamente de que um cidadão se possa fiar. Mas mesmo que o central fosse suspenso, de alguma forma, a atitude do clube já está retratada para a posteridade. Os adeptos e associados do clube que ainda é aquele que mais títulos de campeão nacional ostenta, mandou uma mensagem clara e directa. Contra ventos e marés, custe o que custar, pisando o que seja preciso pisar, o Benfica carrega contra tudo e contra todos. Pode servir para ganhar um votos em Novembro, mas também servirá para que alguém no futuro olhe para trás e diga que os valores deixaram de vestir de encarnado há muito tempo.
Poucos treinadores têm sido tão criticados pelos próprios jogadores nos últimos anos do futebol português como Jorge Jesus. O técnico encarnado tem reconstruído plantel ano atrás anos desde a sua chegada ao SL Benfica mas os resultados apenas têm piorado substancialmente as performances anteriores. Entre os confrontos no balneário e os erros tácticos, o crédito de Jesus esgota-se a pouco e pouco num estádio da Luz que continua sem saber o que é vencer um titulo durante duas épocas consecutivas desde os anos 80.
1983/84.
Esse foi o último ano em que o SL Benfica logrou revalidar o titulo de campeão nacional. Com uma das melhores e mais eficazes formações da sua história, comandadas pelo sueco Sven-Goren Eriksen, o conjunto encarnado confirmou a sua superioridade a nível doméstico batendo pelo segundo ano consecutivo o FC Porto. Uma equipa em que militavam nomes sagrados da história do clube encarnado, de Nené a Chalana sem esquecer Bento, Carlos Manuel, Manniche, Stromberg, Filipovic, Álvaro. Uma equipa desenhada com outra mentalidade e que não encontrou eco nas quase três décadas seguintes. O Benfica voltou a ser campeão - por seis vezes, apenas - mas nunca de forma consecutiva. O saber ganhar e a mentalidade que marcaram a era dourada encarnada tinha desaparecido e sido substituída pela hegemonia do FC Porto a nível interno e externo.
A chegada de Jorge Jesus e o seu título, logrado na primeira época ao serviço do clube, levantou nas hostes encarnadas um profundo desejo de voltar ao passado, a essa filosofia de vitória contra tudo e contra todos. Mas dois anos depois, o legado de Jesus foi desmantelado progressivamente, em parte por culpa da política vendedora obrigatória para qualquer clube português mas, sobretudo, pela gestão do técnico no balneário encarnado. Jesus perdeu Ramires, Di Maria e Coentrão, é certo, mas a essência do plantel do primeiro titulo acompanha-o ainda e pelo caminho na Luz viveu-se uma espiral de contratações e dispensas que relembra mais o desnorte da década de 90, das etapas de Manuel Damásio e Vale e Azevedo, do que de um clube que quer algo mais.
Em 2010 o conjunto encarnado venceu a liga com um bloco forte e um modelo extremamente ofensivo. Mas já então se percebia a falha na estratégia de Jesus. Depois de uma primeira volta intensa, com várias goleadas pelo caminho, a equipa perdeu gasolina. A incapacidade do técnico de dosificar os seus principais jogadores permitiu uma aproximação dos rivais directos. O FC Porto, em modelo auto-destructivo e sem Hulk, afastado da competição durante largos meses, venceu o confronto directo que os distanciava mas então a luta já era com o Sporting de Braga, uma equipa com menor plantel mas que soube administrar bem as pernas e manteve o duelo aceso até ao fim. Na euforia da vitória poucos foram os que viram os sinais que se repetiriam no ambicioso projecto do ano seguinte.
Em 2010/11 o Benfica pecou como nunca. Pecou de arrogância e pecou de gula.
Jesus dispensou o guarda-redes do titulo com uma frieza que repetiria no futuro e apostou tudo num espanhol que chegou à Luz num negócio difícil de explicar. Pecou nas contratações - especialmente para tapar as baixas de Di Maria e Ramires - e pecou no esquema que adoptou, partindo literalmente a equipa entre o ataque e a defesa, especialmente a partir do momento em que o homem encarregado de apagar todos os fogos, Ramires, já não estava. E pecou de arrogância quando declarou que ambicionava o titulo europeu e concentrou as suas atenções na prova rainha, desgastando fisicamente os seus jogadores de uma forma demencial. Quando a eliminação precoce na prova dos milhões se confirmou, já o FC Porto levava uma profunda vantagem pontual e emocional - com goleada ao rival directo incluida - e as pernas dos encarnados não permitiam sonhar com uma recuperação. Começaram a sentir-se as primeiras fissuras no balneário e Jesus, em vez de surgir como elemento aglutinador, especializou-se em ser o causante das fricções.
No final do ano desfez-se do útil Carlos Martins, da aposta Roberto e foi afastando dos seus planos os determinantes Saviola e Cardozo apesar deste, inevitavelmente, continuar a disputar a titularidade á base de golos. Na última temporada foram Eduardo e Ruben Amorim a cair em desgraça com um técnico que não os poupou publicamente abrindo ainda mais o fosso entre plantel e corpo técnico. Os resultados, nem assim, chegaram. Não podiam. Tacticamente a equipa continuava perdida, órfã da ideia original, e quando a vantagem pontual parecia ser suficiente, uma vez mais a péssima preparação física dos titulares e os erros tácticos de Jesus entregaram de bandeja o troféu ao rival, o improvável FC Porto de Vitor Pereira. Dois anos depois tudo aquilo que tinha feito de Jesus um treinador popular nas bancadas da Luz começava a virar-se contra ele. A direcção encarnada manteve a aposta no treinador - uma decisão que tem tanto de lógica como de inevitável, depois do discurso presidencial se ter unido de tal forma ao destino do técnico - e a máquina mediática continuou a lançar mensagens de optimismo mesmo quando o clube encarnado passou largos jogos da época 2011/12 sem utilizar um só português (antes um conceito profundamente defendido pela massa adepta encarnada, o último clube a contratar um estrangeiro no futebol português).
Assemelhando-se a técnicos de outro tempo, Jesus tem-se dedicado a comprar e dispensar jogadores com uma voracidade ilógica para quem quer criar um projecto de futuro. Emerson foi o último a sofrer o seu chicote, dispensado sem perdão depois de ter chegado apenas há um ano do campeão francês Lille. Ao espanhol Capdevilla espera-lhe talvez um destino similar. Dos jogadores actualmente no plantel, 21 foram contratados pelo técnico em três anos. Entre 2009 e 2012 chegaram 40 jogadores novos ao clube. Uma média inédita nos clubes de topo europeu e uma lista onde se contam enésimos erros de autor, escolhas pessoais de Jesus como Patrick, Shaffer, Carole, Wass, Jara, Fábio Faria, Roberto, Felipe Menezes, Weldon, Kardec, Airton, Djaló, Emerson ou Perez.
Jogadores que chegaram, não triunfaram e foram dispensados, encostados, emprestados ou inutilizados. Sob a mitologia de técnico de jogadores, técnico capaz de valorizar jogadores de baixo perfil, esconde-se o verdadeiro rosto de um técnico que erra muitíssimo mais do que realmente acerta.
Jesus entregou ao Benfica um dos dois títulos da última década, um feito notável tendo em conta as últimas três décadas do clube encarnado no futebol português. Mas há muito tempo que mais um problema do que a solução. A sua actuação no mercado e os problemas tácticos crónicos têm prejudicado claramente a progressão de um clube que gastou o que tinha e o que não tinha para reduzir a distância competitiva com o principal rival nacional. Mais do que erros semânticos e uma politica de comunicação anedóctica, em cinco anos de gestão, não só a diferença se mantém em títulos conquistados como na gestão desportiva. Jesus chegou como o profeta que ia igualar a balança. Com ele ao leme ela parece mais desequilibrada do que nunca.
A decisão da Liga Portuguesa de Futebol apanhou todos de surpresa. Numa situação económica sem paralelo na história do desporto português, a Liga acabou com uma das fontes de sustentabilidade da esmagadora maioria dos clubes profissionais portugueses. Mas também colocou o ponto final a uma politica de obscuro controlo politico por parte dos clubes grandes sobre a imensa minoria dos pequenos e médios clubes. Financeiramente desastrosa a medida de acabar com os empréstimos na Liga Sagres não deixa de ser moralmente necessária.
Podem os clubes portugueses sobreviver a uma medida que eles próprios aprovaram contra o seu interesse?
Esse espiro auto-destructivo do nosso futebol é único no Mundo. Numa prova onde mais de 80% dos clubes contam com jogadores emprestados (na esmagadora maioria mais do que 3 até), terminar com os empréstimos parece um contra-senso. E financeiramente é mais do que isso, um verdadeiro hara-kiri. Equipas da segunda metade da tabela que vivem sobretudo do fluxo de empréstimos que chega dos grandes terão agora de encontrar plantéis competitivos pagando do seu próprio bolso o que até agora era maná dos céus. Terão de procurar dinheiro onde ele não existe - na situação actual, com emprestados, ele já é uma utopia - para fechar os plantéis para a próxima temporada e para arcar os gastos salariais de 100% dos jogadores, algo que até agora só seis clubes em Portugal o faziam.
E isso quando é hoje em dia bastante proveitoso apostar o que quer que seja no www.casinoonline.pt ou num outro site de apostas num jogador português.
A medida, de tão drástica que é, pode parecer anedóctica. Afinal, se a ideia era acabar com a politica de empréstimos havia sempre opções mais tolerantes, como proibir o número máximo de jogadores emprestados num clube ou proibir igualmente a proveniência de mais do que um jogador do mesmo clube de origem. Mas nenhum desses cenários, à inglesa, foi contemplado. De um golpe só a Assembleia Geral, numa proposta do Nacional da Madeira secundada pelo Sporting CP, declarou guerra ao poder instituído de FC Porto e SL Benfica tentando minimizar assim a sua asfixiante influência junto dos clubes pequenos do nosso futebol. Porque se há algo que é evidente neste conflicto é a absoluta falta de moralidade de um sistema que foi criado para ajudar a desenvolver jovens jogadores das equipas grandes e para resolver problemas pontuais dos clubes médios e pequenos e que acabou por se tornar numa forma controlada de exercício de poder por parte de águias e dragões.
O cenário é fácil de analisar.
FC Porto e SL Benfica descobriram há alguns anos que melhorar as relações com clubes "aliados" passava, muitas vezes, pelo simples gesto de garantir facilidades em empréstimos dos seus excedentes. Desde 2002 até hoje o tamanho dos quadros oficiais de jogadores de ambos os clubes duplicou e com mais de 20 jogadores sob contrato e sem colocação, a politica de emprestar para ganhar influência na tomada de decisões da Liga tornou-se evidente. Ambos os clubes estabeleceram laços com várias instituições, emprestando dois, três, quatro, cinco e até seis jogadores num só ano. Jogadores de talento, jogadores cujo o salário era habitualmente pago na totalidade pela casa mãe e jogadores que saiam duplamente grátis o que permitia, a curto prazo, que um plantel de 25 composto por seis ou oito emprestados levasse os clubes a gastar o que não tinham noutros jogadores, especialmente estrangeiros, muitas vezes com comissões de empresários afiliados aos clubes grandes com quem mantinham relações. Essa forma de mover dinheiro e influência resultou enquanto a crise não apertou forte.
Poucos questionavam os planteis gigantescos dos dois grandes, poucos criticavam os negócios pouco claros entre grandes e pequenos com jogadores que surgiam do nada e poucos pensavam que o dinheiro que os pequenos e médios clubes podiam ter poupado com isto estivesse a ser mal gasto em negócios com empresários escolhidos a dedo. Mas a crise chegou e para todos.
Primeiro os clubes grandes começaram a perceber que ter tantos jogadores sob contrato podia ser um problema e começaram a emprestá-los para clubes estrangeiros que, esses sim, já se faziam cargo de partes substanciais da sua ficha salarial. Por outro, os clubes pequenos deixaram de ter dinheiro liquido para investir e tornaram-se ainda mais dependente dos empréstimos. O caso da União de Leiria é paradigmático mas não é único.
Mas é preciso ver realmente quem está por detrás desta ideia. Clubes como o Feirense, que apostam em jogadores a custo zero, jogadores nacionais e jogadores que pertencem ao clube. Clubes que são incapazes de acreditar como há equipas que ano após ano se salvam agonicamente da despromoção com planteis cuja metade dos jogadores vem de um dos grandes, num autêntico acto de concorrência desleal. Clubes que, na segunda divisão, sabem quanto custa fazer um clube sustentável e competitivo e que, quando entram na elite, têm dificuldades em sobreviver se não entram no esquema de protecção de um dos grandes.
A reunião da Assembleia Geral contou com 9 votos contra, 1 abstenção e 19 votos a favor. Os clubes que apoiaram a iniciativa foram, esmagadoramente, os clubes da Liga Orangina. Eles, que este ano não terão de se confrontar com a lei, sabem que subir à primeira divisão será complicado mas, uma vez aí, o fosso entre os que já estão a lutar pela despromoção e eles será claramente inferior com esta medida.
O fim dos empréstimos é um caos financeiro mas é também uma porta aberta para o futebol português.
Juntamente com o aparecimento das equipas B e a necessária reorganização dos direitos televisivos, é uma medida que não só ajuda a limpar moralmente a competição como contribuiu, na sua essência, para uma nova aposta na formação. Os clubes, sem poder viver dos empréstimos, e sem dinheiro para ir ao mercado terão, forçosamente, de recorrer aos jogadores da casa. O mais provável é que se assista a uma maior quota de jogadores portugueses de formação própria nos clubes nos próximos anos. Mais, os clubes grandes, até agora habituados a comprar os jogadores que mais rapidamente se destacavam em emblemas inferiores, sabendo que os podiam usar como isco durante os anos seguintes, terão agora de pensar duas vezes. Contratar um jogador que não funcione no esquema da equipa principal acontece a qualquer um, mas nem todos estarão preparados para passar para a equipa B (o caso do benfiquista Djaniny é um bom exemplo) nem para ser emprestados ao estrangeiro, movimentos que aos clubes não traz nenhum lucro financeiro e politico. Sendo assim, com o dinheiro a escassear, os planteis a emagrecer, o aparecimento das equipas B como ponte de transição para os juniores, os grandes deixam de ter necessidade de atacar o mercado da mesma forma e jogadores como Hugo Vieira ou Fabiano, poderiam passar mais uns anos no seu clube de origem o que, a médio prazo, significa uma profunda melhoria dos clubes da classe média portuguesa, os que desapareceram nos últimos 10 anos, clubes como o Boavista e Belenenses, Vitória de Guimarães ou Maritimo, a maior parte dos quais passando a depender de uma politica de sobrevivência sem qualquer tipo de ambição.
Uma liga mais transparente é no entanto um conceito utópico no mundo do futebol. Seguramente que haverá manobras para contrariar a lei. Em Itália utilizam o método da co-propriedade, em Espanha o da venda com cláusula de recompra por valores irrisórios e ninguém põe de parte que uma nova directiva da Liga, pura e simplesmente procure eliminar a medida para agradar a águias e dragões. Mas o primeiro e necessário passo foi dado. Haverá clubes que irão sofrer mais do que outros com esta medida porque têm dependência crónica dos empréstimos e esses serão os primeiros a desaparecer. Mas a médio prazo a medida pode não só agilizar a aposta na formação e nos jogadores nacionais como restabelecer um equilíbrio no meio da tabela que só ajudará a fazer da Liga Sagres uma prova ainda mais competitiva.
Foi um ano em que se confirmaram velhas ideais do futebol português. A mais óbvia é que em Portugal a frase de Gary Liniker é facilmente adaptável a "e no final ganhamos os dragões". Num dos anos em que o FC Porto se mostrou menos seguro de si mesmo o bicampeonato logrado por Vitor Pereira deixa em evidência uma vez mais os erros dos rivais directos. Uma péssima gestão, por parte do Sporting, uma má planificação de época pelo Braga, que arrancou tarde, e claro, os ovos em diferentes cestos de um Jorge Jesus que teve o titulo na mão e deixou-o escapar das mãos. Isso num ano em que o futebol português, entretido com ampliações, esqueceu-se de pagar as contas e subiu ao terreno de jogo da forma mais vergonhosa de que há memória.
Não foi um FC Porto vintage, nem de longe nem de perto.
Mas foi uma versão profissional quando teve de ser. Em 18 pontos contra Benfica, Braga e Sporting, os dragões amealharam 16. E com isso selaram mais um titulo de campeão nacional, confirmando a hegemonia quase ditatorial que o clube do Dragão tem vindo a exercer sobre o futebol português nos últimos 30 anos. O sucesso dos azuis e brancos, visível também no espaço europeu, é um eucalipto que seca tudo à sua volta e esse domínio asfixiante que reduz a três os títulos do Sporting, um ao Boavista e sete ao Benfica, em 30 anos, é uma realidade preocupante para quem acredita, ou quer acreditar, que a Liga Sagres é realmente competitiva.
E no entanto dos titulos ganhos pelos azuis e brancos, este foi talvez o mais surpreendente porque parecia perdido muito cedo - um arranque de época penoso dentro e fora de portas, com a colaboração da gestão desportiva da SAD e da pouca vontade de um plantel que só acordou realmente em Fevereiro - para o Benfica de Jesus.
O técnico não conseguiu bater Villas-Boas em nenhum dos seus duelos com o anterior técnico portista. Mas para a Liga também foi incapaz de ganhar ao adjunto deste, Vitor Pereira, confirmando uma vez mais que o seu talento como treinador, exacerbado em 2010, continua a ser mais um problema que uma solução para o Benfica. A forma como exprimiu o plantel, deixando-o sem forças para o sprint final, repetiu o mesmo problema das últimas duas épocas (mesmo a do titulo) e deixa claro que o técnico encarnado acaba por ser o grande responsável pelo titulo azul e branco. A vantagem que o Benfica detinha em Dezembro parecia, numa liga tão pouco equilibrada como a lusa, suficiente. Não o foi. O Benfica não só perdeu o titulo em casa como voltou a viver com o bafo de um atrevido Sporting de Braga nas jornadas finais. Conseguiu um segundo lugar que sabe a pouco mas que em dinheiro vale muito. A sensação de supremacia moral dos azuis e brancos ficou, assim, imaculada, apesar da venda de Falcao ter aberto um cisma no balneário e um problema sério que Vitor Pereira teve dificuldades em resolver.
Para o FC Porto ter sido campeão também ajudou o mau arranque do Braga, que quando se lançou ao sprint final já partia com atraso, e o enésimo tiro no pé do Sporting, mudando um plantel de forma integra para depois deixar de apostar no treinador que liderava o projecto. O quarto lugar conquistado por Sá Pinto é um mérito, tendo em conta o desastre emocional dos leões em Janeiro, e reafirma a ideia de que a liga lusa é uma questão de um clube, que perde mais quando quer do que quando os demais realmente podem.
Do outro lado do mundo da Alice a União de Leiria tornou-se apenas o espelho da pobreza genuína de um futebol que abandonou a sua formação, os seus adeptos e a sua história para entregar-se a projectos insolventes, jogadores importados de terceiro nível e bancadas vazias graças aos preços e horários impostos por clubes e estruturas directivas.
Nesse mundo de loucos a Académica, que se salvou no último dia de descer de divisão, conquistou um lugar na Europe League porque todos os clubes, do 6º ao 13º posto, decidiram não inscrever-se previamente para disputar as provas da UEFA. Uns por decisão pessoal - os gastos das viagens a Israel ou Cazaquistão não são atractivos - e outros pelas dividas acumuladas que, fosse a liga portuguesa uma prova séria, significava a despromoção automática de quase metade dos participantes no torneio.
E no entanto 2011/12 foi o ano em que se falou da ampliação a 18 equipas, do regresso das equipas B, de empréstimos interessados de clubes grandes a "falsas" filiais para fintar a legislação e, sobretudo, da profunda crise de governabilidade num órgão onde os pequenos elegeram um presidente que não consegue governar sem o apoio dos grandes.
No meio desse cocktail molotov útil para um hara-kiri pirotécnico, muitos se esquecem de Pedro Martins e do seu Maritimo, da sustentabilidade dos projectos de Gil Vicente, Olhanense, Paços de Ferreira e mesmo do despromovido Feirense e do "aportuguesamento" do Braga, esquecido por Paulo Bento e pela maioria dos grandes com orçamento. Razões positivas para acreditar que há sustentabilidade futura, noutras condições organizativas e económicas, do futebol português. Mas o mais provável é que essa situação, quando se realize, não impeça o dragão de impor a sua lei. Com o plantel mais débil e o treinador mais contestado, o FC Porto revalidou o titulo nacional e nas Antas já começam a contar os anos que faltam para superar o histórico registo de um Benfica que teima em não dar uma versão alternativa sólida ao império do dragão.
Jogador do Ano
James Rodriguez
Hulk é o lider moral do FC Porto mas a dois jogos do fim do campeonato o jovem colombiano James Rodriguez tinha tantos golos como o brasileiro. Em metade dos jogos. Depois de uma grande segunda volta no ano de Villas-Boas, muitos esperavam que este fosse o seu ano. Vitor Pereira nunca o utilizou como titular absoluto, talvez interessado em lançá-lo mais como arma secreta pelo miolo em vez de o manter preso à ala. A sua exibição na Luz valeu um titulo, os seus golos e assistências foram nucleares para algumas das vitórias fundamentais do bicampeão e a sua afirmação deixa claro que com a inevitável saída do brasileiro, o projecto azul-e-branco crescerá nos seus ombros.
Revelação do Ano
Lima
O Braga contratou-o ao Belenenses ultrapassando todos os outros e pagando tão pouco dinheiro que ainda hoje na Luz, Alvalade e Dragão muitos devem estar preocupados com o seu staff de prospecção. O brasileiro foi fundamental no grande ano dos bracarenses, com os golos, assistências e posicionamento em campo, uma mobilidade que explorava bem a ideia de jogo de Leonardo Jardim, dando espaço aos jogadores de segunda linha para aproveitar os espaços que deixou para trás. Jogador de grande potencial, será dificil que fique em Braga muito mais tempo.
Onze do Ano
Helton salvou o FC Porto de muitos apuros durante longas jornadas, aquelas onde o onze de Vitor Pereira parecia estar perto de perder todas as possibilidades de revalidar o titulo.
Se olharmos para a defesa do campeão nacional é dificil encontrar jogadores que tenham estado ao máximo nível durante todo o ano, mas no lado esquerdo Alvaro Pereira continua a ser um jogador sem igual na liga lusa. E esse problema extende-se à maioria das equipas de topo da liga lusa. Ezequiel Garay, bónus na transferência de Coentrão para o Real Madrid, destacou-se sobre a mediania na Luz e João Pereira manteve-se a bom nível em Alvalade. Em Braga a confirmação de Nuno André Coelho foi uma boa noticia
Descartado pelo Sporting, o médio-centro Custódio encontrou em Braga em Hugo Viana, outro ex-leão, o parceiro ideal para um meio-campo sólido e tremendamente eficaz. À dupla de Braga podemos juntar outro médio minhoto, Hugo Vieira, revelação do Gil Vicente.
Lima, serpente no Minho pescada por poucos tostões, e James Rodriguez, arma-secreta no manual táctico de Vitor Pereira, dançam à volta de Hulk, que mais uma vez foi o jogador mais determinante no bicampeonato azul e branco, jogando ora descaido na ala ou como o falso-avançado que os defesas nunca conseguiram bem travar.
Treinador do Ano
Leonardo Jardim
Herdou um projecto sólido, com o melhor resultado nacional e europeu logrado por um técnico que deixou saudades mas em quem poucos na estrutura confiavam. Pedia-se-lhe que mantivesse o rumo. Cumpriu. Durante 17 jogos consecutivos manteve-se invencível e aproximou-se da disputa por um titulo que fraquejou nos jogos com os rivais directos. Mesmo assim, segundo apuramento para a Champions League em três anos, e um passo em frente em qualidade de jogo, mérito indiscutível de um treinador que está chamado a treinar um dos grandes nos próximos anos.
A partir de hoje e até ao próximo dia 1 de Junho o Em Jogo dedica a sua programação em exclusiva à análise das seis principais ligas do futebol europeu.
Um pequeno resumo, eleição do Melhor Jogador, Treinador, Onze e Revelação do Ano e as imagens que marcaram a temporada 2011/12 em Inglaterra, Espanha, Alemanha, França, Itália e Portugal.
Bem vindos, ao Em Jogo!
No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro.
Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.
Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.
O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.
Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.
Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.
Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.
Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.
Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.
Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim.
Não acreditar no poder psicológico de uma troca de treinador é não conhecer o futebol como um profundo fenómeno humano. O jogo faz-se de rotinas, de estados de ânimo e, sobretudo, de sensações. O tapete verde espelha o trabalho semanal e mescla o talento genuino com a profunda necessidade de dar um sentido grupal ao colectivo. O sucesso desportivo do Sporting de Sá Pinto no final de temporada explica bem essa realidade e deixa igualmente no ar a legitima dúvida sobre o efeito a longo prazo de uma vitamina de sucesso imediato.
Problemático como jogador, lider como técnico.
Sá Pinto não é o primeiro que, sentado no banco, lê os problemas com a experiência de quem os causou tantas e tantas vezes no passado, para depois analisá-los com a frieza do presente. Johan Cruyff foi talvez um dos jogadores mais conflictivos da história do jogo e o seu papel como treinador espelhou perfeitamente a sua maturidade táctica e humana. Conciliou egos irreconciliáveis e formou uma das melhores e mais bem sucedidas equipas da história. É dificl pensar que este Sporting chegue a esse nível, mas os últimos dois meses com o portuense ao leme de Alvalade têm transformado a equipa verde e branca na revelação da época. Sem ter sequer o quarto lugar assegurado, como se torna isso possível?
Essencialmente o Sporting vive há vários anos a dramática situação de ser um histórico no nome, com as respectivas ambições, mas uma equipa desestruturada da cabeça aos pés para sobreviver num mundo da alta competição onde um rival dá aulas sobre organização desportiva e o outro investe quantidades incomportáveis para manter o ritmo. Ao Sporting desta época, honestamente, não se podia pedir o mesmo que a Benfica e FC Porto porque nem a nova directiva nem a nova equipa técnica, de Domingos Paciência, tinha armas para lutar de igual para igual.
Um plantel radicalmente novo, um novo lider e uma nova gestão desportiva exigem um pensamento a longo prazo.
Mas o Sporting é o que é também porque a nivel de gestão tem uma profunda tendência ao desespero imediato e depois de uma série de tropeções que não espelhavam tanto a forma de jogar da equipa mas sim a incapacidade de coordenar tantas caras novas em tão pouco tempo, a Domingos foi-lhe aberta a porta da rua. O enésimo técnico na última década a sofrer do espirito de hara-kiri leonino podia até suspeitar que o final de temporada seria sempre melhor, nem que seja pelo maior entrosamento entre treinador e equipa, e entre os veteranos e as novas incorporações. Mas o papel psicológico da novidade no futebol tem um poder dificil de negligenciar. São raras as vezes que uma troca de técnico empeora uma situação e quando isso sucede, está claro que há problemas tão graves, dentro e fora do balneário, que não há capacidade humana para superar. Domingos podia alegar que sabia perfeitamente o que Schaars, Elias, van Wolfswinkel, Capel ou Izmailov podiam trazer á equipa no final do ano e que as baixas no sector defensivo em jogos importantes não o ajudaram. Mas sofreu o fatalismo do imediatismo futebolistico que talvez para ele seja mais dificil de compreender depois de se ter formado como jogador no clube mais estável do futebol português e ter atingido o zénite como técnico no clube mais paciente da actualidade na Liga Sagres.
Sá Pinto não trouxe ao Sporting um radicalismo técnico ou uma profunda remodelação táctica que possa justificar uma alteração tão significativa de comportamento por parte dos jogadores. A antiga glória do velho Alvalade conta praticamente com os mesmos nomes que o seu antecessor e mesmo o dispositivo táctico continua a ser o mais parecido possível a um 4-3-3 que priveligia a velocidade nos flancos e a segurança nas transições no miolo.
A vitória futebolistica, à parte do resultado, frente ao rival da Luz foi um espelho desse ideário, adaptado especialmente ás caracteristicas de jogo de um rival sem alma (sem Aimar) e sem cérebro (Jesus, outra vez). Elias engoliu um Rodrigo que se sente mais cómodo à frente. Schaars e Matias Fernandez, com mais preocupações defensivas, controlaram os tempos e deram, quase sempre em condições, as poucas bolas que tiveram nos pés por mais de dois minutos ao veloz ataque liderado por Izmailov e Capel. O resultado foi curto para as oportunidades mas foi o fiel reflexo do pragmatismo de um Sá Pinto que sabe com que conta e, sobretudo, com quem conta. Trocar André Santos ou Carriço, membros habituais na medular, pelo jogo mais fisico e curtido de Elias foi algo com que um Jorge Jesus mais preocupado em fazer bluff com os centrais disponíveis não conseguiu entender. Talvez o técnico encarnado tenha sofrido do mesmo mal de Roberto Mancini, outro treinador que não pensou ser possível perder em Alvalade e que acabou por não encontrar forma de ganhar face à teia defensiva mas com objectivos claros nas transições que o técnico montou na dupla eliminatória e que repetiu, com mais autoridade, num confronto dificilissimo contra um Metalist que pode, daqui a poucos anos, ser um novo Shaktar Donetsk.
Sá Pinto encontrou a motivação do balneário, talvez espelho do seu caracter bem distinto ao do seu antigo colega de selecção nacional, e as condições ideais para triunfar. Sem a pressão dos resultados, a época está praticamente ganha com uma histórica semi-final, apenas a segunda em vinte anos na história do clube nas provas europeias, e com um quarto lugar que não deve escapar, apesar da notável época de outro velho amigo do ex-jogador do Salgueiros, o técnico Pedro Martins.
Mas da mesma forma que Sá Pinto resultou melhor do que se esperava como solução urgente numa situação caótica é preciso imaginar como será o seu trabalho a médio e longo prazo. Paulo Bento chegou numa situação distinta (no arranque da época) e aguentou-se mais do que seria imaginável mas sempre com serviços minimos numa época em que o Benfica ainda não era um rival à altura do FC Porto de Jesualdo Ferreira. Depois do enorme investimento do último defeso cabe pensar que o plantel do Sporting não pode sofrer muitos ajustes no Verão e que esta será a base de trabalho de Sá Pinto. A diferença de qualidade com os rivais directos continua lá, a profundidade de banco ainda é justa e a formação leonina, sempre capaz de resolver problemas, não parece estar tão fina como em anos anteriores.
Ultrapassado o papel emocional do regresso do filho pródigo, agora pede-se a Sá Pinto que seja mais treinador do que apenas gestor humano. O final de temporada será sem dúvida um teste à emocionalidade do clube leonino mas é a preparação para uma nova época sem Champions League e com a expectativa alta que deve preocupar o técnico, dirigentes e adeptos do Sporting. Se o clube de Alvalade souber encontrar a dose certa de paciência que tanto lhe tem faltado, Ricardo Sá Pinto pode encontrar o habitat perfeito para desenvolver-se como técnico. No entanto, se o seu talento se manifestar apenas em situações de alto risco emocional, o futuro leonino continua a ser demasiado cinzento.
Portugal é um país de hipócritas. Um país de falsos liberais, de complexados revolucionários, de amargados sociais e de brandos costumes onde a aparência vale sempre mais que o conteúdo. Um país de faz-de-conta que continua a acreditar, na era de abertura social em que vivemos, que é possível manter os espartilhos sociais e morais de outros tempos não tão distantes. O futebol português sofre, em demasia, desses condicionantes que servem como um dos muitos entraves para um genuino desenvolvimento estrutural que termine, de uma vez por todas, com a profunda incapacidade que existe no país de se olhar no espelho e ver-se tal e qual como é.
O país gosta de ser imaginar como uma virgem de outras eras, incapaz de pronunciar certos nomes e ideias sob pena de aparentar ser menos pura do que é. Na realidade é uma velha rancorosa, incapaz de se assumir como é, com rugas, estrias e pecados escondidos que utiliza a falsa moral social para esconder tudo o que lhe vai por dentro. O futebol nacional, como reflexo perfeito do país, é exactamente igual. Não só no terreno de jogo mas em todos os meios que o fazem, popularizam e internacionalizam.
Esta semana o país que ainda não se decidiu se vai ficar sem subsidios de férias, se aceita manter-se acorrentado por mais anos do que o inicialmente previsto escandalizou-se com mais dois eventos ligados ao universo futebolistico. Fait-divers, como se diz na giria jornalistica, que ganham importância social precisamente por essa clara e preocupante falta de maturidade social e desportiva de quem vive de e para o meio. Primeiro foi a celebração de um comentador desportivo da RTP ao golo de Bruno César, nos instantes finais do Benfica-Braga, que suponha a ultrapassagem do clube encarnado na tabela classificativa aos arsenalistas. Dias depois foi o Telejornal da RTP a ser acusado de fazer propaganda ao mesmo clube, utilizando os jogos europeus da passada semana como exemplo de porquê apostar numa agência de controlo de audiências em detrimento de outra, escolhida por um canal da concorrência. Em nenhum dos casos, como diria Maradona, "se ha manchado la pelota". Mas o grito social, essa imaturidade crónica, transformou o futebol no pretexto para resolver contas pendentes.
Noutros países europeus, para fechar o circulo á volta do mesmo espaço social, politico, económico e histórico onde se move Portugal, há muito que esses pruridos sociais deixaram de fazer sentido. Há uma abertura social, no aspecto desportivo e não só, que em lugar de criar guettos sociais contribuiu para uma crescente e factável pluralidade. Se a imprensa como orgão independente continua a ser o elemento fundamental, o posicionamento ideológico, base do jornalisto do século XIX, é cada vez mais uma nova realidade. É fácil distinguir em Espanha, Itália, França, Alemanha ou Inglaterra a jornais de esquerda ou direita, progressistas ou conservadores, nacionalistas ou regionalistas, apoiantes deste ou daquele clube, deste ou daquele politico, deste ou daquele personagem. Esse posicionamento não só é mais transparante, honesto e frontal, sem medos, como deixa claro uma coisa ao público: aqui não se engana ninguém.
Portugal é o país dos enganos e dos desenganos mais do que do desassossego que tanto preocupava o génio Pessoa.
João Gobern era comentador do programa Zona Mixta há cinco anos. Durante cinco anos foi o que tinha sido nos anos anteriores e o que continuará a ser, adepto de um clube. Qualquer pessoa, seja um árbitro, jornalistas, técnico, jogador ou opinion-maker que escreva sobre futebol tem uma orientação clubistica da mesma forma que qualquer pessoa que se dedique á politica tem uma ideologia, que qualquer escritor tem uma corrente literária que mais o influencia e qualquer cineasta um autor que lhe serviu de inspiração e admiração durante o seu periodo formativo. Negar essa realidade, como só se faz em Portugal, é acima de tudo brincar com o público.
Mais, em todos esses países que citei há programas desportivos, como os há de tertúlias politicas, onde os convidados são-no, precisamente, pela sua filiação. João Gobern, com o qual raramente estou de acuerdo quando o leio ou ouço, limitou-se a fazer o que qualquer adepto de futebol faz, um gesto contido de celebração num momento importante para o seu clube. Não fez nenhuma declaração, não gritou, não interrompeu o colega de mesa. E não teve consciência de que o director, nesse instante, tinha optado por um plano largo em vez de um grande plano, como é habitual na maioria das intervenções tertulianas. Em lugar de aceitar essa reação com normalidade, como sempre, caiu o Carmo e a Trindade e o comentador foi despedido pela mesma estação que o contratou sabendo da sua orientação futebolistica. A hipocrisia é perigosa porque a questão não está no clube e na pessoa afectadas mas sim na falta de sentimento democrático que ainda vive á volta do futebol português onde um jogador, um treinador e um jornalista não podem ainda assumir as suas preferências clubisticas com medo a que sejam crucificados para sempre.
O FC Porto cresceu nos anos 80 a galopar contra esta tendência, com jornalistas que rodeavam a equipa e que se assumiam como tal, muitos deles ainda no activo e com corpos técnicos, directivos e jogadores que faziam do seu "portismo", uma arma de união e comunhão com os adeptos. Hoje o clube detém uma percentagem maioritária num canal televisivo mas fá-lo a medo, sem assumir o canal como seu e com pézinhos de lã, para não ofender as virgens ofendidas. As mesmas que criticam que no canal do clube rival existam tertulias onde os adeptos desse clube defendem o seu posicionamento lógico num contexto de rivalidade desportiva. Os mesmos que criticam que a RTP, a mesma que despede um adepto de um clube por celebrar um golo em silência agora é acusada de propaganda ao mesmo clube quando utiliza um exemplo de dois jogos para provar que a companhia a quem contrata a medição de audiência é mais fiável. A hiprocrisia é tal que mesmo os adeptos mais racionais que sabem que, sem dúvida alguma, o clube com mais simpatizantes em Portugal continua a ser o SL Benfica - ainda que longe dessa mitologia dos 6 milhões que tanto se proclamou - e a competição de clubes mais popular do Mundo têm maior probabilidade de ter mais audiência que o jogo de um clube rival, o Sporting CP, também com uma franja significativa de adeptos mais em clara decadência face à sua época de esplendor social, e uma competição onde Portugal se tem dado muito bem nos últimos anos mas que mediaticamente não possuiu o mesmo peso.
É intelectualmente desonento fazer destes dois casos uma arma de arremesso porque o pior está no posicionamento dúbio e interesseiro dos jornais desportivos, de canais de televisão privados e de vários nomes da praça que falam dando a impressão que nada devem, nem a Deus nem ao Diabo. Em Espanha, um país que viveu também uma ditadura politica e um dominio futebolistico de um clube durante grandes periodos dessa ditadura, hoje a abertura social é evidente. A imprensa da capital, afecta aos clubes da capital, exerce de facto como uma imprensa nacional e a imprensa regional reforça o caracter independentista dos seus clubes, sejam galegos, valencianos, euskeras ou catalães. As tertulias televisivas são transparentes, os jornais claros e ninguém se atreveria sequer a tomar uma posição de virgem ofendida em casos similares aos que tanto têm preocupado os adeptos lusos.
Os fantasmas dos portugueses são mais profundos e traumáticos do que se possa pensar e a forma como o futebol ainda é visto pela maioria da população é apenas um espelho. O país mais centralista da Europa é incapaz de conviver com os distintos sentimentos regionais e vive debaixo do espartilho das aparências que têm moldado todos os governos democráticos dos últimos 35 anos. Todos sabem que jornal X, jornalista Y e jogador Z são aficionados de um clube mas é preciso manter o silêncio, o medo continua a ser mais importante que a honestidade. As proprias instituições, sejam clubes ou empresas de comunicação gostam de jogar ao esconde esconde, confundir o público, emitir notas criticas, levantar polémica, para depois á mesa, como fazem os deputados da nação, resolver tudo com um sorriso e um vinho de colheita vintage. Não me preocupa que a RTP tenha despedido um comentador ou que haja na internet plataformas a acusar o canal público de servilismo clubistico. O que realmente me incomoda é que o futebol português seja ainda, mentalmente, uma criança.
Num desses gestos de genuina indignação que tantas vezes dão verdadeiro sentido ao universo das claques organizadas, um grupo de adeptos do Schalke 04 mostrou o seu estupor com a politica de preços da directiva do Athletic Bilbao para o jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Europe League. Um cartaz gigante comparou o preço de um jogo de futebol com o de uma chamada de sexo telefónico e não esteve nada longe da verdade. Hoje em dia o preço de um bilhete de um jogo de futebol é uma verdadeira prostituição imoral dos ideais de um jogo que já foi de todos e que agora é de muito poucos.
90 euros. 1 euro por minuto.
Este é o preço para os adeptos alemães que queiram ir a San Mamés na próxima quinta-feira ver a sua equipa sonhar com uma reviravolta no marcador frente ao magico Bilbao. 1 euro por minuto assemelha-se muito ás chamadas eróticas que enchem os canais televisivos pela noite e as páginas interiores dos jornais. Assemelha-se também a todas as promoções de sms´s que invadem os nossos telemóveis ou o roubo á mão armada em Portugal que são as SCUTS. É o preço de um bilhete de metro em Madrid e de uma garrafa de água em Londres. E no entanto é também o habitual na maioria dos estádio europeus. O futebol que já foi de todos, que se afirmou como fenómeno social e politico por ser de todos, é hoje de uma imensa minoria, aquela que tem dinheiro suficiente para desafiar as razões que a própria razão desconhece.
A indignação veio de um grupo de adeptos alemães talvez porque a Bundesliga é a única, a única, liga europeia que ainda respeita os adeptos. Os preços de um bilhete médio para assistir a um jogo no campeonato alemão anda entre os 10 e os 20 euros e pode custar a sócios menos de essa quantia em variadas ocasiões. É uma liga onde o lugar anual não pode ocupar mais do que 55% dos estádios para garantir que há sempre espaço para os adeptos em geral do clube e para os clubes rivais que costumam deslocar grupos de fãs de mais de 2 mil pessoas todos os fins-de-semana. O lugar anual mais caro num estádio como o Allianz Arena ou o Westfallenstadion pode ser mais barato que o mais barato dos lugares anuais no Camp Nou, Old Trafford, San Siro ou Santiago Bernabeu. Talvez por isso a percentagem mais elevada de lotações esgotadas esteja na Bundesliga. Talvez por isso o futebol alemão viva um novo esplendor, dentro e fora do campo. Talvez por isso, como em tantas outras coisas, os alemães sigam por um caminho racional enquanto o resto da Europa se empenha a utilizar o público em geral para pagar as loucuras de uns poucos. Os adeptos do Schalke 04 conhecem bem os estádios europeus, são presença assídua nas provas da UEFA, mas segundo o porta-voz dos adeptos do clube nunca tiveram de pagar tanto por tão pouco, nem mesmo quando viajaram a Old Trafford nas meias-finais da Champions League da época passada onde o preço mais caro de um bilhete era de 60 euros.
Espanha, como em muitas outras coisas, vive no extremo do descontrolo financeiro.
Os clubes da "Liga de las Estrellas" devem mais de 1500 milhões de euros ao estado e a maioria deles está (ou se não está pouco falta) perto da falência técnica. Os novos estádios do Valencia e Atlético de Madrid estão há anos parados. O Deportivo, histórico galego, afundou-se na segunda depois de destroçar todo o rendimento acumulado desde o inicio dos anos 90. O mesmo sucede com Villareal, Mallorca, Bétis ou Real Sociedad. O dinheiro estrangeiro salvou o Málaga da asfixia e uma profunda reestruturação financeira permitiu a sobrevivência ao Espanyol. O Rayo e o Levante, sensações no campo, foram protagonistas nos últimos anos de tristes episódios onde ninguém, excepto o presidente, recebia o seu vencimento a final do mês.
Num pais com quase 6 milhões de desempregados, onde a crise financeira mundial se encontrou com uma borbulha imobiliária suicida e onde há cada vez mais familia completas no desemprego, praticam-se os preços mais altos da Europa. Quando o Real Madrid ou Barcelona viajam pelo país fora os preços sobem aos 80 euros para o público em geral. Em Vallecas, um estádio minúsculo e com poucas condições, não há bilhetes mais baratos para o público que os 40 euros anuais. Este fim-de-semana quem quiser ver o Atlético de Madrid - Getafe, sem dúvida um clássico do futebol espanhol, terá de pagar entre 30 e 120 euros, dependendo de onde se quiser sentar no Calderon. No Bernabeu o preçário é ainda mais elevado, rondando os 45 e 150 euros de média. Por menos de 25 euros é impossível ver um jogo de futebol em Espanha e os estádios começam a esvaziar-se paulatinamente. As boas épocas desportivas de alguns clubes compensam o afastamento do público mas as transmissões televisivas não enganam e hoje ver um jogo da La Liga é cada vez mais parecido a seguir um jogo da Serie A ou da Liga Sagres. Duas ligas onde a politica de preços é igualmente desproporcional face ao estado económico de ambos os países e da qualidade de jogo oferecida e onde, habitualmente, mais de metade do estádio está vazio.
Mesmo na Premier League os elevadíssimos preços praticados começam a fazer-se sentir em clubes da parte baixa da tabela. Os mesmos que nasceram, cresceram e fizeram-se com base no forte apoio popular local, em classes operárias e classes médias baixas que hoje, simplesmente, não podem pagar um bilhete para ir ao futebol. Nos anos 80 por 1 libra era possível ver-se um jogo de pé (uma politica que a Bundesliga já recuperou) e por 5 libras sentado nas secções centrais de Anfield, Old Trafford ou Highbury. Hoje por menos de 40 libras é impossível. Os estádios, habitualmente recheados de famílias, jovens que aprendiam a adorar os seus ídolos de perto, são hoje palco de classes médias altas de meia idade endinheiradas ou, no caso dos grandes clubes, turistas que querem presenciar a história de perto e estão dispostos a pagar o que for preciso para dizer que estiveram no "Teatro dos Sonhos" ou na Kop. Para esses adeptos de ocasião ou para aqueles que pagam hoje o mesmo por um jogo retransmitido pela televisão que os seus antepassados pagavam por um espectáculo no Royal Albert Hall, o futebol continua a ser possível. Para todos os outros é algo proibitivo.
Da mesma forma que a televisão (ainda que de pago) trouxe o futebol a todas as casas e a todos os continentes, ir ao estádio, esse ritual primário e fundamental para qualquer amante do beautiful game, tornou-se num pesadelo. Adeptos entusiastas abdicam de muito para poder seguir a sua equipa, pais vêm-se impossibilitados de partilhar com os filhos o que os seus pais partilharam com eles e a massa de adeptos começa a desprender-se do vocabulário sagrado que constituiu uma verdadeira massa adepta de um clube. Aos que pensam que esse cenário exclusivo, como se de um torneio de golf se tratasse, é inevitável basta olhar para o caso da Alemanha (ou da Holanda, ali ao lado) e ver quem preenche as bancadas cheias, semana atrás semanas. Mulheres, crianças, famílias, idosos, todos encontram forma de comungar da sua imensa paixão. Fora esse paraíso para o adepto o futebol vivido, cheirado e sentido há muito que deixou de ser para mim e para ti.
O futebol português continua a trepar postos nos rankings UEFA e FIFA, a ter jogadores e treinadores coroados entre os melhores do Mundo. E, no entanto, quando a bola começa a rolar no tapete verde do rectângulo mais ocidental do velho Continente o futebol peca, demasiadas vezes, pela sua triste ausência. Numa das épocas mais pobres e desesperantes das últimas décadas repete-se um cenário demasiado frequente, demasiado desalentador. Esta Liga, assim parece, ninguém a quer ganhar.
Hoje o Sporting de Braga pode colocar-se como líder isolado da Liga Sagres.
A seis jogos do final da época, 18 pontos e um duelo de 90 minutos contra a Académica separam os bracarenses do topo do pelotão. Provavelmente os arsenalistas falharão. Não porque não mereça, não porque não sejam talvez a equipa que mais méritos recolhe para sagrar-se campeã nacional 2011-12. Simplesmente porque, ao longo deste ano, sempre que uma equipa parece ter na mão ganhar a liga, tropeça.
Essa vertigem á tabela classificativa é aflictiva mas não é nova. Em 2004-05 FC Porto, Sporting e Benfica foram tropeçando entre si até que a sagacidade de Giovani Trapatonni valeu mais que o descalabro emocional de José Peseiro e a natural incompetência de José Couceiro para quebrar com uma fome de dez anos do Benfica. Dois anos depois o cenário voltou a ser similar mas desta vez foi Jesualdo Ferreira a superar a Fernando Santos e Paulo Bento nesse desesperante sprint final. Emoção, seguramente. Qualidade, muito pouca.
O nível exibicional médio das 16 equipas da Liga Sagres, diga o que disser o ranking UEFA que apenas contabiliza o que fazem os quatro europeus habituais nos palcos internacionais, é pobre. Os portugueses exportam os melhores jogadores e técnicos que têm e em troca ficam com jogadores de terceira e quarta linha internacionais, fazem de jogadores de nível médio alto estrelas que nunca o serão e adormecem o mais tenaz dos espectadores com duelos onde os golos, a emoção e o futebol ofensivo primam, habitualmente, pela sua ausência. Os problemas financeiros que destruíram a classe média do futebol nacional e abriram ainda mais o fosso entre os grandes e os pequenos não ajuda seguramente a reequilibrar o cenário. E no entanto nunca como este ano os pequenos roubaram tantos pontos aos chamados grandes onde dá pena incluir um Sporting que, mais uma vez, continua a ser o terceiro clube nacional apenas em adeptos e nada mais. Com uma divida descomunal, um plantel desorganizado, um staff técnico que vai e vem ao sabor do vento e uma directiva incapaz de se fazer respeitar, os leões são o caso mais freudiano que o futebol português já gerou e merecem, como tal, diagnóstico á parte.
Nivelada por baixo como nunca a Liga Sagres pode cair nos braços de qualquer um do trio da frente e seguramente que a sensação de mérito e orgulho seja bem diferente a outras conquistas (no caso de Porto e Benfica) do passado. Os campeões nacionais cometeram o logro de destroçar em poucos meses um conjunto que muitos analistas colocavam na segunda linha do futebol europeu, apenas por detrás de United, Real Madrid e Barcelona. Á parte das péssimas performances europeias, o FC Porto de Vitor Pereira não é só o tigre mais domesticado e inofensivo que já passou pelo Dragão, ás vezes quando joga fora transforma-se mesmo num gatinho recém-nascido, presa fácil até de roedores e outros répteis que povoam a parte baixa da tabela. O empate em Paços de Ferreira impediu os dragões de dar um murro na mesa, algo que o clube do Dragão foi incapaz de fazer durante todo o ano. Nem depois de vencer na Luz, nem depois do enésimo tropeção pré-jogo europeu do Benfica em Olhão e, imagina-se, nem nos jogos que faltam. Apesar de liderar se há equipa nesta disputa que mais carece de espírito de liderança esse é, sem dúvida, este FC Porto.
E no entanto, no meio de tudo isto, e com 24 jogos compridos - salvo o duelo de Braga - o campeão é líder. Situação suficiente para embranquecer os cabelos á maioria dos adeptos encarnados, á moda de Jorge Jesus, provavelmente o maior perdedor do ano. Jesus até pode conseguir o seu segundo titulo nacional, sem dúvida, mas depois de o ter á mão de semear, desperdiçar uma vantagem incrível e correr o risco de dormir hoje no terceiro posto é suficiente para que os críticos adeptos do técnico tenham mais argumentos relativos á sua profunda desorganização táctica e incapacidade de gerir os esforços físicos de um plantel onde muitos jogam muito e alguns jogam muito pouco. Com talvez o plantel mais equilibrado dos três em disputa, Jesus tentou equilibrar o meio-campo com a inclusão de Witsel e Bruno César no apoio a Cardozo mas perdeu o efeito surpresa e, sobretudo, a eficácia de outras épocas. Em campo esta é a sua versão mais débil, a mais mentalmente instável e, portanto, a menos apta para sofrer até ao último minuto da liga como os sucessivos empates e derrotas conseguidos este ano têm demonstrado.
Se na Luz ninguém parece estar determinado a ganhar a Liga, pelo menos há uma óptima campanha europeia para justificar a falta de oxigénio e sagacidade mental. Em Braga a Europa este ano não foi empolgante como na época passada mas teve o mérito de permitir a Leonardo Jardim manter a cabeça e os pés bem assentes no chão. O Braga fez um campeonato de trás para a frente, durante algumas jornadas andou atrás do Sporting e depois arrancou num sprint silencioso que seria ineficaz se FC Porto e Benfica fossem tão autoritários como o dinheiro gasto e a qualidade dos dois planteis justificava. Com os tropeções pontuais e as crises mentais dos dois grandes o Braga encontrou preciosos aliados para desafiar a história. Pode acabar campeão ou juiz do campeonato, mas como o Boavista do virar de século, já não pode passar desapercebido. São muitos anos a manter a bitola alta e tarde ou cedo António Salvador pode suspeitar que o percurso similar ao dos axadrezados pode ser emulado. Até porque o nivel dos chamados grandes continua, ano após ano, a baixar assustadoramente.
Em Maio o titulo será atribuido ao melhor dos piores e disso poucos duvidam. A distância do primeiro ao quinto (FC Porto a Maritimo) é igual á do sexto (Vitória) com o 14º (Beira-Mar) e isso explica também o imenso buraco pontual, moral, financeiro e desportivo que ano após ano afunda o nivel qualitativo do futebol português. Com uma diferença pontual tão clara surpreende que situações como a de este fim-de-semana se repitam vezes sem fim esta temporada. FC Porto e Benfica venceram apenas 17 vezes numa liga onde só quatro equipas têm um goal-average positivo. Vitor Pereira e Jorge Jesus transformaram-se mais em dores de cabeça do que bálsamos para os seus adeptos e Leonardo Jardim acredita na lei do silencio para evitar construir o seu próprio cadafalso. No final deste sprint onde haverá ainda demasiados tropeções o freudiano Sporting pode ter a chave para medir a resistência futebolistica e moral dos candidatos que teimam em não querer ganhar este campeonato.
O futebol espanhol vive a sua era mais dourada e a rapidez com que se descobrem novas pérolas no país vizinho há muito que se transformou num case-study profissional. Mas é em Lisboa que vive e deslumbra talvez o avançado espanhol com maior projecção futura. Rodrigo rompe as regras e desafia os cânones, une os dois lados do “charco” e, sobretudo, eleva o futebol à condição de arte imaculada.
Nelson Rodrigues, um dos mais certeiros filósofos futebolisticos brasileiros, explicava a facilidade que os seus conterrâneos tinham em controlar a bola com o fascinio brasileiro pela dança. Essa paixão pela herança negra da capoeira, pelo ritmo trepidante do samba metamorfoseou-se num futebolista incapaz de estar quieto, hábil de pés, rápido nos gestos e sublime no movimento. Essa escola centenário produz com espantosa regularidade novos talentos mas o traço distinctivo continua a ser o mesmo.
O que faz de Rodrigo um caso especial é que à sua herança genética brasileira, demasiado evidente na forma como encara o rival e pisa a bola, está também a sua formação europeia, a sua cultura colectiva à espanhola que aprendeu em Vigo e Madrid e que o transformam num jogador colectivo com rasgos individuais espantosos. Uma mistura sempre dificil de conseguir, especialmente nesta era de re-fordização do futebolista, e que o transforma ainda mais num caso raro. O papel de Rodrigo no terreno de jogo não se prende a nenhum dispositivo táctico. A sua facilidade de dar e receber permite-lhe mover-se com total liberdade pelo tapete verde sem sentir-se preso a nenhum esquema. Rápido, intuitivo e com um sentido posicional tremendo, a forma como encara a baliza é só uma consequência da sua maturidade como futebolista e não apenas a causa do seu sucesso. Os seus golos, tantas vezes espantosos pela sua audácia, transpiram o mesmo controlo interior com que trata cada lance, cada passe, cada corrida nunca dada por perdida. Nele vemos reflectido o espelho perdido da glória passada e a imagem do protótipo romântico do futuro.
O crescimento futebolistico de Rodrigo está associado ao do jovem Thiago Alcantara. Ambos aprenderam a caminhar e a dar os primeiros pontapés na bola juntos e durante anos foram parceiros inseparáveis nos niveis de formação do Celta de Vigo. Quando chegou a hora de decidir, Thiago preferiu migrar a La Masia. Rodrigo optou pela Fabrica de Valdebebas.
Desde então percebeu-se que a sua relação era a metáfora perfeita da forma como as canteras dos dois maiores clubes espanhóis são espelho da importância que estes dão à sua formação. Thiago foi mimado e educado para entrar na primeira equipa desde que começou a dar nas vistas na equipa juvenil. Rodrigo brilhou talvez mais ainda nas suas etapas de formação em Madrid. Mas nunca teve minutos nos séniores e foi despachado com surpreendente facilidade. O Benfica aproveitou o brinde (o mesmo sucedeu com Javi Garcia) e conseguiu o passe do dianteiro por uma infima parte do seu valor actual. Mas a adaptação não foi fácil e depois de um empréstimo pouco fructifero ao Bolton Wanderers muitos pareciam tentados a vender o jovem talento. Jorge Jesus acabou por inclui-lo no plantel e depois de um brilhante Mundial sub-20, o hispano-brasileiro deu-lhe razão. Apesar da explosão de Nolito, da classe de Gaitan e da preponderância de Aimar, o conjunto encarnado não tem um jogador nas suas filas com a mesma qualidade individual e potencial de crescimento como Rodrigo.
O seu papel na boa temporada do clube da Luz é inequivoco e a sua facilidade de associação com a linha avançada do meio-campo encarnado espelha bem a sua cuidada e esmerada formação na escola espanhola que tão bons jovens jogadores tem apresentado ao Mundo.
Parece evidente que o nivel de Rodrigo significa que dificilmente o Benfica o conseguirá segurar para o próximo ano. Em Espanha o seu nome começa a ser reclamado pela imprensa para La Roja e vários clubes de primeiro nivel europeu sonham com os seus serviços. A passagem por Portugal pode revelar-se curta, mas fundamental na sua afirmação profissional. O que parece evidente é que o futuro de Rodrigo, como o do seu amigo Thiago, não parece ter limites.
No meio do deserto de ideias em que vive o futebol português a hipotética ideia de ressuscitar as equipas B num formato distinto ao seu modelo original é uma lufada de ar fresco. Insuficiente, dentro de um contexto muito mais lato, mas um passo correcto para uma realidade indismentível e que exige uma resposta imediata por parte de clubes e organizações directivas. No entanto a forma como se arranca o ideário deixa no ar algumas dúvidas pertinentes sobre um outro - e tão grave problema - do futebol luso como é o eventual fim de muitos projectos desportivos que até hoje sobrevivem por um fio.
Em 1999, quando a Federação Portuguesa de Futebol, através de uma equipa de trabalho que incluia Jesualdo Ferreira, apresentou a ideia das equipas B (um modelo já praticado em Espanha há décadas), capaz de emular a politica de equipas de reservas que existiram durante muitos anos no futebol português e que subsistem, ainda hoje, no futebol britânico, os aplausos foram generalizados.
Mas o projecto foi um fracasso imediato. A forma como se estruturou o projecto tornou-o imediatamente num nado morto. O impedimento das equipas serem promovidos a uma Liga de Honra a 18 equipas condenava no fundo os jovens futebolistas de FC Porto, SL Benfica, Sporting CP ou Maritimo a actuar eternamente contra jogadores amadores da 2º Divisão B. Perante esse cenário frustante tornou-se evidente que o projecto das equipas B era mais um encargo que uma solução. Os clubes acabaram por entender que era mais prático recuperar a velha fórmula do empréstimo, tão em voga desde finais dos anos 80, do que perder rendimento com um projecto sem futuro. Doze anos depois só a equipa do Maritimo sobreviveu, provavelmente devida à sua particular condição insular, e com um sucesso digno de menção honrosa.
Resgatar então o ideário das equipas B pode parecer um erro à primeira vista. Mas o contexto é outro. E a necessidade evidente.
Em 1999 o futebol português ainda não tinha entrado na sua era de ouro. A selecção A estava prestes a apurar-se para o Euro 2000, apenas a sua quinta grande competição em 80 anos. Os clubes portugueses não marcavam presença numa final europeia há uma década e os grandes nomes lusos contavam-se pelos dedos das mãos. A vitalidade de clubes de médio nivel era evidente na figura do Boavista, Guimarães, Maritimo e Braga de então e a liga lusa, apesar da invasão brasileira, ainda era maioritariamente composta por jogadores da casa. Doze anos depois, o dilúvio, como diria Luis XV, é evidente.
Entre a ilusão de uma década imaculada da selecção A, de três titulos europeus (e dois finalistas vencidos) e da consagração mundial de Figo, Mourinho e Ronaldo esconderam-se os problemas graves e estruturais do futebol nacional. Do descontrolo das contas dos clubes, do desaparecimento das equipas médias, da redução de equipas do futebol profissional, dos excedentes de jogadores estrangeiros e, sobretudo, do abandono da formação, aquilo que, precisamente, ajudou a transformar Portugal numa nação periférica num país capaz de olhar nos olhos das grandes potências desportivas. O final da herança do projecto Queiroz, apoiado pelos clubes nas suas próprias estruturas internas e, sobretudo, alimentado pelos clubes médios, abriu um fosso tremendo que começa agora a ser evidente. Entre as decisões mais importantes para reverter o rumo a formação ocupa um papel fulcral num país sem rendimentos para competir com o poderio financeiro doutras ligas. As equipas B são uma das soluções possíveis. Não a única, não a mais importante mas, seguramente, uma das mais certeiras, especialmente com a confirmação da UEFA da utilização definitiva da regra 6+5.
Segundo o projecto que será levado à próxima reunião da Liga de Clubes, o projecto federativo propõe o ressuscitar das equipas B apoiado por seis clubes. Ao Maritimo juntam-se Braga, Guimarães e os três grandes. As equipas só poderiam inscrever por cada jogo a três jogadores com mais de 23 anos (para recuperar atletas fora de forma da equipa principal, como sucede nas ligas de reservas inglesas) e tinham de ter inscritos 22 jogadores de formação do próprio clube que nunca poderiam alinhar pela equipa principal num periodo minimo de 72 horas.
A grande questão das equipas B foi a sua colocação errada num contexto amador como é a 2º Divisão B. Por isso foi fundamental a ideia de abrir definitivamente as portas da Liga Orangina com o inevitável impedimento de promoção à Liga Sagres, como sucede em Espanha ou Alemanha, por exemplo (o Barcelona B, na época passada, não só alimentou os campeões da Europa com jogadores como Thiago ou Fontás como terminou em lugares de play-off a liga regular). No entanto a forma como se introduzem as equipas obriga às habituais soluções de compromisso das entidades lusas. Em lugar de estruturar a competição a Liga toma o caminho mais fácil e aumenta para 22 equipas a competição, insinuando que pode contribuir também para mudar o número de promovidos e despromovidos entre as ligas profissionais de dois para três conjuntos bem como a despromoção progressiva de mais uma equipa para a 2º Divisão B nos próximos seis anos até voltar a nivelar os seus números de participantes a um minimo de 18.
Na prática esta medida revela condições importantes. Hoje clubes como Sporting, Benfica ou FC Porto têm listas de dezenas de jogadores emprestados por vários clubes lusos e estrangeiros. Esta medida permitirá a Domingos, Jesus e Pereira a possibilidade de trabalhar lado a lado com esses Miguel Rosa, André Almeida, Nuno Reis, Cedric, Atsu ou Diogo Viana que significam, de certa forma, o futuro dos grandes de Portugal. Uma medida que também permitirá aos clubes grandes aligeirar a ficha de gastos no plantel principal já que dispõem de uma equipa alternativa que pode alimentar o plantel principal. Para os jovens de 18 anos saídos dos juniores (ou alguns titulares menos usados) competir com Belenenses, Leixões, Santa Clara ou Oliveirense não será muito diferente do desafio de defrontar os Feirense, Olhanense ou Gil Vicente que irão encontrar na Liga Sagres. Enquanto competem com rivais de maior nivel estão às ordens da equipa principal em lugar de passar um longo interregno, longe de casa, muitas vezes passando desapercebidos dos directivos e técnicos. Assim acabaram os Paulo Machado, Helder Barbosa, Vieirinha, Fábio Paim, Danilo Pereira e companhia do passado.
Se essa medida é importante para reforçar o papel dos jovens de formação nos seus clubes base (recordamos o gritante exemplo do FC Porto que não conta com um só jogador da sua formação na equipa principal o que implicou a penalizou da UEFA de inscrever apenas 21 jogadores na Champions League) a verdade é que também tem o seu reverso da medalha.
Desde há vários anos para cá que a politica de contratações dos clubes lusos se tornou numa máquina de importação fora do controlo. Os grandes (mais o FC Porto e menos o Sporting com o Benfica a inverter, agora, a tendência) lideraram o processo mas os pequenos e médios rapidamente os imitaram e de certa forma abandonaram também a sua formação. Se Figo, Baía e Rui Costa sairam dos grandes, Pedro Barbosa, Sá Pinto, Nuno Gomes ou Costinha sairam de clubes médios e pequenos. Esse fenómeno tornou-se um oásis no Bessa, Restelo, D. Afonso Henriques, AXA, Bonfim, Municipal de Coimbra...desde há muitos anos. Os clubes passaram a limitar-se a importar de forma impulsiva e a depender dos empréstimos dos jovens (e erros de casting) dos grandes para fechar os planteis. Isso significava menos gastos e uma dependência politica que Porto e Benfica souberam aproveitar bem criando verdadeiras relações de dependência com várias instituições.
Sem dinheiro, sem jogadores da casa, muitos desses clubes irão passar graves problemas quando os grandes deixarem de emprestar jogadores, desviando-os para a sua equipa B. Terão de encontrar rapidamente soluções para não cair no erro do Boavista ou Belenenses, clubes que andaram anos na corda bamba até que a corda finalmente se rompeu.
Um problema que terá consequências em projectos que acabarão como os Salgueiros, Alverca ou Estrela da Amadora do passado mas que será inverso na Liga Orangina. Com rivais das equipas B as equipas da segunda liga terão mais atenção, mais espaço mediático e estarão mais expostos aos clubes de primeira que queiram observar as jovens promessas em acção. Um aumento do interesse pelas equipas da prova pode equilibrar, e muito, o equilibrio da balança desportiva de várias instituições até hoje relegadas para segundo plano.
No fim de isto tudo está o futebol nacional como tal. A presença de equipas B dinamiza uma liga profissional abandonada, fomenta a formação, especialmente entre os grandes e sobretudo dá espaço e minutos para jogadores jovens começarem a ganhar o seu espaço. Se essa foi a bandeira do futebol luso até 2002 - e a base do seu sucesso - esse terá de ser o ponto de partida desta nova etapa. Se Nelson Oliveira, Miguel Rosa, André Almeida, Mika, Nuno Reis, Cedric, Sanu, Atsu, Viana e companhia começarem a ter minutos nas pernas, chamadas às equipas principais e reconhecimento público pode ser que a renovação geracional que se adivinha tão dificil se transforme num processo menos turbulento.
Claro que a ideia no papel funciona sempre melhor do que na prática, especialmente se falamos num futebol como o português, cheio de ratoeiras, armadilhas e corrupção activa e passiva. O projecto tem todas as pernas para andar (o sucesso do Barça ou do Villareal B em Espanha e das equipas de reserva na Alemanha, Inglaterra e Holanda assim o diz) e pode ser uma alavanca económica e social para reinventar o futebol luso. Mas é apenas uma solução de base que necessita muito trabalho estrutural por trás e muita vontade para funcionar. As equipas B são parte de uma ponte para um futuro melhor mas a margem é longa e vai ser necessário muito mais cimento, pedra e alcatrão para chegar ao outro lado do rio...
Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!
Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.
Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.
Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.
Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.
FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.
Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.
Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.
O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.
Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!
De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.
Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.
Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?
Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.
Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.
Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.
O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.

