Quarta-feira, 13.03.13

A justiça poética no futebol funciona assim. A era dourada de Guardiola terminou sem uma terceira Champions quando Ramires, isolado, não perdoou no duelo com Valdés. Um ano depois, Niang, na mesma situação, apenas acertou no poste e consumou o péssimo partido do AC Milan. O baile de futebol aplicado pelo Barcelona é também um bálsamo para os que reclamavam um regresso rápido às origens. Mais do que nunca, os homens de blaugrana recuaram no tempo, até 2009, e aplicaram todo o ideário desenhado por Guardiola à sua chegada ao banco do Camp Nou. Por isso venceram, por isso humilharam e por isso têm todas as condições para ir até ao fim. Sendo fieis às suas origens.

 

Depois da semana negra dos catalães, escrevi precisamente aqui que o Barcelona tinha tudo para vencer a eliminatória com o AC Milan. "A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. "

Dito e feito.

O jogo de ontem foi uma viagem no tempo patrocinada pela Qatar Airways. O voo saiu do aeroporto do Camp Nou e voou entre as nuvens até 2009, até a essa essência básica onde Xavi é o eixo pendular. Onde Messi não se obcecou com vir jogar atrás do meio-campo e move-se mais e mais depressa que a sua sombra. Onde há uma figura ofensiva mais presente, que obriga os centrais a não distraírem-se apenas com os passos do argentino. Onde o campo se abre e os laterais entram em jogo. Onde a defesa sobe linhas e Valdés coloca a bola jogável, e onde morder, pressionar e recuperar é feito a uma velocidade supersónica.

Tudo aquilo que o Barcelona foi em Fevereiro, todo esse espelho sombrio de cansaço, de falta de forças e motivação, tudo isso desapareceu neste reflexo perfeito do que era a equipa nos seus primórdios, onde cada bola recuperada era ganha com devoção, com ganas. O Barça recuperou mais bolas do que em toda a temporada, pressionou mais intensamente do que nunca. Três dos quatro golos saíram de lances em que a bola é ganha num lance ofensivo contrário. Ganha com timing preciso, impedindo o ataque do rival e transformando uma posse defensiva numa lança ao contrário. Foram três golos dos quais Guardiola, mais do que nenhum outro, estaria profundamente orgulho. Foram três golos para todos aqueles que se levantaram a aplaudir a maravilhosa equipa que Pep lançou ao mundo naquele 2008/09 memorável.

 

O Milan foi a mesma equipa de San Siro, mas numa versão ainda mais lenta, mais conservadora.

Faltou-lhe uma referência ofensiva sólida - como foram Drogba e Milito nas aventuras bem sucedidas de Chelsea e Inter ao Camp Nou - e Niang, claramente, mostrou ser ainda muito verde para estas noites europeias. O seu erro, crucial no desenrolar do jogo, foi a sorte do encontro. Se o Milan tinha marcado naquele lance, o futebol teria sido, sem dúvida, injusto com a equipa catalã, a única que quis entrar em campo para jogar sem complexos e sem pressão. O golo inaugural de Messi - um disparo indefensável - ajudou a tirar de cima os nervos e a lançar os adeptos e os jogadores na cruzada da "remontada" de que falava Xavi. Desde 2000, numa vitória por 5-1 contra o Chelsea, que o Camp Nou não vivia uma noite assim.

E tal como então, foi o jogo coral da equipa que deu lugar a um festival de golos. Messi bisou, partindo de fora de jogo (antes tinha havido já um penalty de Piqué, por mão na bola, e um ligeiro toque de Abate, sobre Pedro, na área), e Villa, um trabalhador incansável e um dos grandes injustiçados do balneário blaugrana, marcou de forma magistral o terceiro golo. Era o que faltava para completar a reviravolta. O Milan era incapaz de reagir. Não tinha nem jogadores nem banco para inverter a tendência do jogo. Ao contrário do duelo de San Siro, onde fez das suas fraquezas virtudes, onde soube anular o jogo do rival e fazer do contra-ataque uma arma capaz de fazer sangue, o Camp Nou foi demasiado para a jovem squadra milanesa. Incapazes de criar perigo, incapazes de aguentar a bola, incapazes de dar essa sensação de querer algo mais. Ao contrário de Inter e Chelsea, equipas de homens maduros e com experiência europeia, capazes de sofrer, o Milan foi inocente e frágil e mereceu ser atropelado por uma equipa do Barcelona que quase nunca tirou o pé do acelerador. O golo final, a lembrar o épico tento apontado à Itália em Junho, coroou mais um grande jogo de Jordi Alba e esse espírito que tanto tem faltado ao clube blaugrana nos últimos meses.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o jogo em Itália não foi um acidente de percurso. O Barcelona que viajou a Itália (e que perdeu o duplo confronto com o Real Madrid) era realmente uma equipa com muitos problemas, físicos e anímicos, incapaz de apresentar algo fresco e inovador no relvado que perpetuasse a sua imensa lenda. O que provocou o triunfo de ontem, mais do que os erros e falta de ambição do AC Milan, foi a mudança de mentalidade da equipa técnica, assimilada pelos jogadores. Só com esse regresso ao passado o 4-0 e o apuramento foram possíveis. Uma réplica do jogo em Itália, de uma equipa pastelenta e previsível teria sido tudo aquilo que os italianos queriam. Não tiveram sorte, nem engenho para adaptar-se.

 

Tudo indica que Bayern Munchen, Borussia Dortmund, Barcelona e Real Madrid partilhem o favoritismo para chegar a Wembley. Cabe agora ao sorteio de amanhã ditar como será o caminho até à final. São as quatro melhores equipas em prova, as que contam com os melhores jogadores, treinadores e planos de jogo. Mas isso nem sempre significa que sejam as finalistas. O sofrimento dos espanhóis em Old Trafford, o toque de atenção ao Barcelona em San Siro e o duelo do Dortmund em Donetsk deixa claro que há pouca margem de manobra para o erro. A Europa do futebol prepara-se para a contagem decrescente. O jogo do ano está quase aí e um Barcelona fiel a si mesmo, capaz de solucionar os seus problemas e apresentar a sua melhor versão, tem de partir como máximo favorito ao ceptro europeu.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 11.03.13

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 27.02.13

Josep Guardiola é o treinador de futebol mais importante da última década do futebol. Mourinho é um vencedor nato e é capaz de replicar o seu modelo em microcosmos imensamente diferentes. Ferguson uma velha raposa, Klopp um treinador ambicioso e empolgante e Wenger um homem coerente e admirável. Mas Guardiola teve o condão de mudar a abordagem ao jogo e levá-lo a uma nova dimensão. A sua ausência no banco do Camp Nou foi maquilhada durante meses com resultados. Mas a qualidade de jogo e o vazio emocional dos últimos meses em Can Barça é evidente. O Barcelona pode ganhar por ter Lionel Messi, mas só pode encantar se estiver liderado por um génio como Guardiola.

 

É mais importante o artista ou o mentor?

Guardiola, no seu estilo habitual, para um pura honestidade para outros uma personagem de contos de fadas, sempre disse que para o Barcelona Messi era muito mais importante do que ele. E o argentino, que explodiu verdadeiramente durante o seu mandato, realmente continua a demonstrar ser capaz de marcar contra tudo e contra todos. Cada vez corre menos com a bola, cada vez empolga menos nos lances individuais, cada vez se abandona do espírito maradoniano com que se apresentou ao mundo para ser mais um do modelo Barça, capaz de ir buscar jogo à linha medular, de se perder entre os médios como um mais. E sobretudo de marcar, sobretudo, com um leve encostar de bola diante de um guarda-redes indefeso e abandonado. Falta-lhe a velocidade, a chispa e a inspiração das grandes noites. Talvez lhe falte Guardiola, como a todos os seus colegas.

Quando Pep chegou ao banco do Barcelona a equipa vinha da pior época em quase uma década, um 4º lugar doloroso, a mais de duas dezenas de pontos do rival, forçado a uma prévia de Champions para participar na prova que acabaria por ganhar. Rijkaard, um grande técnico, tinha preferido ser amigo dos jogadores a dirigi-los e pagou o preço da displicência. Ronaldinho, o génio superlativo do Barça do século XXI, entregou-se aos prazeres da noite e com ele Deco, Silvinho, Etoo e Messi pareciam destinados a seguir o mesmo rumo. Guardiola exigiu uma purificação do balneário. Livrou-se de todos (Etoo aguentou um ano mais) menos de um, a quem chamou de parte e lhe colocou a faca e o queijo na mão: ou seguir o exemplo do seu idolo e amigo Dinho ou transformar-se no melhor jogador do mundo. Messi escolheu a segunda opção e um ano depois tinha merecidamente o Mundo a seus pés. Guardiola nunca se confiou plenamente e mandou vir Milito para seguir o pequeno astro para todos os lados, era o seu guarda-costas emocional. Mandou seguir alguns jogadores, especialmente Piqué, consciente de que velhos vícios podiam voltar com novos e jovens flamantes protótipos de estrelas. Mudou o discurso institucional do clube, recuperou os sinais de identidade do cruyffismo, com o próprio Johan à cabeça. E, mais importante do que tudo isso, redefiniu a forma de jogar da equipa. E levou-a a um patamar de excelência superlativa.

 

Guardiola foi treinador, presidente, líder espiritual, comunicador e génio táctico num só.

É uma figura irrepetível na história do futebol e o seu vazio seria sempre imenso. Guardiola era, sobretudo, um filósofo do jogo, mas um filósofo pragmático. Acreditava na teoria da prova por erro. Tentou com Ibrahimovic recriar a ideia do avançado centro mas acabou por preferir Messi no seu lugar. Trouxe consigo Villa para dar mais velocidade e mobilidade ao ataque onde ao lado do argentino jogava um jovem com ordem para ser dispensado no Barcelona B, um tal de Pedro. Atrás de Xavi e Iniesta, actores secundários para Rijkaard, colocou o suplente do médio titular dessa equipa B - então na terceira divisão - filho do seu colega de equipa do Dream Team, Busquets. Confiou a defesa a Valdés e Puyol, com quem jogou, mas também aos erráticos mas geniais Alves e Piqué e sofreu na pele o drama humano do imenso Abidal durante mais de dois anos. Enganou-se em algumas contratações (Chygrinski, Henrique, Ibrahimovic, Afellay, Alexis), falhou tacticamente em alguns momentos, apostou como nenhum outro treinador desde van Gaal na formação do clube e decidiu que ganhando ou perdendo, a equipa o faria com uma ideia de futebol na cabeça.

A bola saía de Valdés (e quão poucos falam na sua anunciada saída) sempre jogável, nos pés dos defesas ou de Busquets. Nada de lançamentos largos, nem de livres transformados em remates longos e sem sentido. Os extremos colados nas bandas, os interiores realizando perpétuas diagonais, os laterais abrindo permitindo ao extremo tornar-se num avançado mais. Recuperou o sonho do falso 9 que desde Sindelaar e Hidgekuti faz parte da bíblia dos pensadores do futebol ofensivo da escola danubiana e defendeu a importância do rondo, da posse, da autoridade com a bola, mas uma autoridade ofensiva. A posse tinha de ter um sentido, tinha de ter a baliza como mira. Cada jogada devia ser acabada, com um passe para a baliza. Cada jogada devia contar porque cada perda deixava expostas as fragilidades de uma defesa que chegou a formar-se apenas com três jogadores. O seu primeiro ano foi perfeito.

A partir de aí a fórmula sofreu actualizações, nem todas elas funcionaram. Provou o 3-4-3, chegou ao 4-6-0 na final do Mundialito contra o Santos e voltou a ganhar títulos, mas nunca com essa frescura, imaginação e autoridade que exibiu no primeiro ano, ainda com Henry e Etoo a acompanhar Messi na história. Quando se foi embora, muitos disseram que eram os jogadores que faziam a diferença, como se não fossem os mesmos do final do rijkaardismo. Que Guardiola tinha-se transformado mais num problema do que numa solução. Que o seu radicalismo táctico era prejudicial para os interesses da equipa, sobretudo os de Messi, que gostava cada vez mais de sentir-se o eixo central dos movimentos dos restantes. E por isso, quando saiu, houve poucas lágrimas para quem tinha dado tanto ao clube. A presença do seu segundo Tito Vilanova dava a sensação ao mundo que o guardiolismo ficava, mas o clube entregou-se ao balneário. Perdeu o seu guru e confiou-se às estrelas.

 

E de repente o pontapé de baliza começou a ser feito em largo.

Os extremos desapareceram e o jogo fluia cada vez mais pelo corredor central, como se não tivesse alternativa. Os laterais tornaram-se ambiciosos mas já ninguém aparecia para lhes proteger as costas. Os médios atropelavam-se e as posses deixaram de ter sentido, de acabar em remate, para ser um perpetuo movimento circular em zonas centrais, inconsequentes e estéreis. A debacle do Real Madrid nas primeiras jornadas de Liga - depois de vencer a Supertaça com superioridade - permitiu uma campanha imaculada, com números melhores que os de Guardiola. Messi marcava mais do que nunca e escondia os defeitos do colectivo, os problemas físicos, a péssima forma de Alexis, o ostracismo que Messi forçou a Villa (que tanta falta fez a Guardiola quando se lesionou no Japão), a fraca aposta na formação e às suas melhores promessas. A equipa vencia - salvo o seu rival directo - a todos os outros e parecia destinada a mais uma página de glória, mais um sexteto de titulos. Mas a filosofia começava a perder-se, o modelo de Guardiola, nas conferências de imprensa, no balneário, no relvado, ia desaparecendo progressivamente e começava a emergir a ditadura do balneário, jogando sempre os mesmos, o núcleo duro, fechando as portas a novas soluções porque o overbooking de médios estelares a isso obrigava. O problema que Guardiola via na chegada de Cesc tornou-se real, a equipa forjou um quase 4-2-2-2, com Busquets e Xavi diante da defesa, longe da área, Iniesta e Cesc sempre a meter direcção para o centro e Pedro/Alexis e Messi a deambular pela área mas sem procurar os espaços.

A doença de Tito, que esperemos que seja de rápida resolução, deixou essa realidade ainda mais a nu porque Roura, o homem que preparava os dvds a Guardiola, não é um treinador principal nem um homem capaz de liderar um balneário de vedetas. À distância, a liderança já questionada de Vilanova desapareceu e em campo a equipa entrou em mutismo táctico, incapaz de apresentar alternativas válidas aos problemas que as equipas lhes colocavam. Se Messi aparecia, tudo parecia igual, sem o estar. Mas quando o próprio Messi, obcecado consigo mesmo, decidiu que teria de jogar todos os 90 minutos do ano, para bater recordes, desapareceu, a equipa sentiu-se órfã.

O físico começou a passar factura - como na época anterior fez em Abril - e o argentino, que já tinha perdido o poder de desequilíbrio em velocidade quando as equipas começaram a perceber a melhor forma de o travar com constantes ajudas, secou e com ele toda a voragem ofensiva da equipa. Os números espantosos desapareceram e o Barcelona foi batido futebolisticamente por Milan e Real Madrid. Sofreu para ganhar a equipas menores como um Sevilla com reservas, e começaram a ouvir-se os primeiros assobios no Camp Nou. As dúvidas reapareceram. Messi, um génio incomensurável, começa a sofrer do mesmo mal que era criticado a Cristiano Ronaldo - a realizar o seu melhor ano individual - o de desaparecer nos jogos decisivos. No duelo contra o Madrid em Camp Nou no ano passado foi um fantasma de si mesmo e voltou a sê-lo contra o Chelsea, na dupla eliminatória. Desaparecido durante a Supertaça perdida contra o Real Madrid voltou a sê-lo na dupla eliminatória de Taça. E em Milão continuam à sua procura. Os seus registos melhoram, mas cada vez mais contra equipas secundárias, nos grandes duelos as equipas encontram forma de o anular e Messi ainda não parece ter devolvido o golpe. Talvez porque não está Guardiola, capaz de desenhar um plano para forçar a sua saída da jaula, dar-lhe o ar que necessita e devolver-lhe a confiança. Messi deixou-se prender numa jaula de ouro que ele próprio ajudou a construir à medida que se foi afastando do seu espaço natural e se envolveu no redemoinho de médios blaugrana.

 

A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. A liga está ganha, se não nos preocupamos em excesso com a matemática, e merecidamente porque ao contrário dos rivais, os blaugrana nunca falharam verdadeiramente. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. Mas se a equipa falhar o assalto a vencer a máxima prova europeia pelo segundo ano consecutivo, começa a ser necessário para aqueles que se revêem na fórmula intocável para seitas e obtusos de "melhor de todos os tempos", que se recordem que as equipas que realmente marcaram um antes e um depois na história da competição fizeram-no vencendo recorrentemente a competição, cinco vezes consecutiva no caso de uns (Real Madrid), três vezes no de outros (Ajax e Bayern Munchen) e até duas vezes (Liverpool e AC Milan). A este Barça falta-lhe essa consistência na vitória e se perder o troféu este ano ficará com o magro espólio de duas taças em meia década, algo que dista da imagem que deram nos relvados e ecoaram nas páginas escritas por todo o planeta futebol. Com Guardiola o caminho para o êxito fazia-se pensando, sobretudo, em si mesmos. Nas fragilidades do colectivo e como melhorar a forma de jogar e de as ultrapassar. Perdia-se (Sevilla, Inter, Madrid, Chelsea), mas com a cabeça alta e asfixiando o rival. Com Vilanova - e Roura, que passava por ali e não tem culpa do peso que lhe está a cair em cima - o Barça abdicou da essência guardiolesca, decidiu defender-se com a bola, rodear-se de artesões e esperar, esperar e esperar e como o físico não permite mais e a cabeça parece ter-se bloqueado, talvez hoje muitos dos adeptos do clube se tenham dado realmente conta do quão importante era para o projecto um génio chamado Guardiola.

 

PS: Eu defendo a liberdade de expressão de qualquer pessoa, mesmo que não esteja de acordo com nada do que diz. Faz parte da minha educação e dos meus valores. Se alguém quer acreditar e afirmar que 1+1 são 24, quem sou eu para lhe tirar essa alegria de viver num mundo particular? A seita que rodeia a cultura do Barça porque é cool e vanguardista presumir de saber tudo sobre a biblia blaugrana (quando no fundo nem sabem quem é Laureano Ruiz), continua a achar que 1+1 são 24. Que o Barcelona joga melhor que todos, que joga particularmente melhor que as equipas que o derrotam, que o sistema é perfeito e suficiente, que Messi nunca se engana e tem um mau mês...quem o diz está no seu direito absoluto. Que muitos defendam os seus pontos de vista a partir do insulto pessoal, simplesmente deixa a nú as suas carências, a diversos níveis, a cobardia do mundo virtual permite comportamentos que cara a cara seriam impensáveis. E este grupo no fundo é uma seita porque parte para um debate com a premissa "eu certo, tu errado; eu o bem, tu o mal" e isso, no fundo não é um debate, é um monólogo. Não conheço ninguém que não defenda que este Barcelona do último lustro é uma das melhores equipas de todos os tempos, e nos debates trocam-se opiniões que nos enriquecem a todos porque colectivamente, e eu o primeiro, cometemos sempre erros. Mas só quem vive na base do monólogo e do 1+1=24 é capaz de achar-se dono absoluto da razão. Felizmente a realidade acaba sempre por colocar a cada um no seu sítio e quando for cool e vanguardista mudar a cassete muitos irão fazê-lo porque na realidade, não é de futebol que gostam: é deles próprios!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:25 | link do post | comentar | ver comentários (24)

Domingo, 10.02.13

agora a nata da Europa se vai começar a reunir para acertar contas com o calendário continental. Os oitavos de final da Champions League arrancam, e com eles os jogos que os adeptos mais esperam. Porque a competição, a nível interno, em 2012-13 não existiu. Pela primeira vez em muitos anos, as principais ligas europeias têm os seus campeões do curso praticamente definidos. São muitos jogos, muitos meses para cumprir calendário, com margens de erro imensas e uma diferença abismal que permite levantar várias questões sobre a realidade actual do futebol do Velho Continente.

Barcelona, Manchester United, Bayern Munchen e Juventus.

Estamos a meados de Fevereiro e desafio alguém a fazer pública a crença, quase sebastiânica, de que alguma destas equipas não vá ser campeã nacional em Maio. Não é uma previsão muito dificil de fazer. Basta olhar para as tabelas classificativas, ver os calendários de jogos pendentes e fazer contas. As grandes ligas europeias já fecharam as portas e agora, até ao final da época, a atenção será progressivamente desviada pela imprensa para disputas secundárias. Importantes, mas longe do sonho de glamour profundo que é sagrar-se campeão. Uma realidade preocupante e que dista bastante do que vimos no ano passado. Só a finais de Abril o Real Madrid deu o golpe definitivo no seu título, ao vencer o rival directo em Camp Nou. O Manchester City precisou do último segundo da época para ganhar um título que lhe escapava há cinco décadas. Em Itália a Juventus nunca se distanciou tanto como para poder celebrar com mais de uma quinzena de distância do final da temporada e só o Borusia Dortmund encontrou o autoritarismo que encontramos este ano!

Nesta temporada tudo se desenrola em moldes muito diferentes. Há uma autoridade inquestionável nas ligas de topo, onde três dos actuais lideres na época anterior ficaram-se pelo segundo lugar no campeonato. Há, sobretudo, uma qualidade de jogo manifestamente inferior na maioria dos casos de quem lidera e persegue. E, sobretudo, uma dependência excessiva do génio individual para compensar os problemas do colectivo. Se em ligas da segunda divisão europeia, como é o caso da francesa, portuguesa e holandesa, há um esboço de equilíbrio, entre os suspeitos do costume, o que se passa nos gigantes europeus para a luta ter acabado tão cedo?

 

O caso mais flagrante é, sem dúvida, o espanhol.

Não surpreende ninguém que o Barcelona seja o líder. A equipa que era orientada por Pep Guardiola partia como favorita, apesar do título perdido, simplesmente porque é um projecto continuista, moldado em princípios assimilados e com um plantel fabuloso. A derrota contra o Real Madrid no ano anterior interrompeu um ciclo de vitórias mas não a percepção do Barcelona ser uma equipa com mais futuro. O problema está que os blaugrana, agora orientados por Tito Vilanova, semi-ausente durante largas semanas pelo seu problema de saúde, nunca tiveram rival. Nas primeiras oito jornadas do campeonato a vantagem já era de oito pontos e quando os dois candidatos se cruzaram para um jogo memorável, no Camp Nou, o empate apenas deixou claro que o título estava praticamente entregue antes da disputa sequer começar. A isso contribuiu o espirito auto-destrutivo de José Mourinho, os péssimos desempenhos do colectivo, com erros individuais grosseiros, e a seca goleadora de Cristiano Ronaldo durante o Outono. Sob essa realidade, esse hara-kiri, o Barça estabeleceu uma liderança cómoda que só o Atlético de Madrid, um surpreendente e merecido segundo, tentou desafiar, sem sucesso como a vitória clara dos catalães no duelo directo deixou evidente. O Barcelona sabe-se e sente-se campeão nacional e agora pode concentrar esforços em recuperar a Champions League (seria a terceira em cinco anos) e manter no bolso a Copa del Rey, as únicas duas competições que interessam, precisamente, ao seu histórico rival. 

Em Inglaterra o Manchester United lidera com 12 pontos de vantagem sobre o campeão. Está em todas as corridas, entre FA Cup e Champions League, e demonstra uma voracidade goleadora inquestionável. Mas como o Barcelona, a vantagem pontual construiu-se, sobretudo, porque o City se mostrou muito mais irregular do que na época passada. E claro, se os catalães contam com o génio e golos (muitos golos) de Messi para fazer a diferença, em Old Trafford a dupla Wayne Rooney e Robie van Persie (e as aparições decisivas de Javier Hernandez) têm escondido muitos problemas na defesa e no meio-campo, que os duelos europeus colocarão à prova. Os homens de Ferguson só por uma vez perderam um título com uma vantagem pontual desta magnitude, precisamente no ano em que a suspensão de Eric Cantona permitiu ao Blackburn Rovers de Shearer recuperar na tabela e vencer o título confortavelmente. Sem esse fantasma presente, ninguém duvida que os mancunianos farão, outra vez, a festa em Maio.

Celebrações que também já estão a ser preparadas na Baviera. Na expectativa da chegada de Guardiola, o Bayern é cada vez mais campeão. O modelo de Heynckhes, profundamente ofensivo e demolidor, beneficiou da aposta clara do campeão em título, o Dortmund, na edição deste ano da Champions League. O atraso pontual dos homens do Rhur é insalvável (15 pontos) e todos, na Bundesliga, estão conscientes de que a luta muda agora para os palcos europeus onde os dois clubes têm boas perspectivas de se cruzarem mais à frente. Em Itália, são conscientes de que a Europa é um sonho quase utópico num campeonato em reconstrução moral e financeira. A Juventus continua a demonstrar ser o mais aplicado dos alunos, e depois de ter vencido a primeira liga em oito anos à base de uma regularidade espantosa (15 empates em 38 jogos), continua a ser um osso duro de roer. Napoli e Lazio são os surpreendentes perseguidores, com os grandes de Milão de novo em modo autodestrutivo, e ninguém imagina, sobretudo depois das vitórias nos duelos directos entre o líder e perseguidores, que a Vechia Signora vá perder um campeonato com uma vantagem pontual de cinco e onze pontos, respectivamente.

 

Talvez o mais grave, neste cenário, não seja a inevitabilidade de ter os campeões das principais ligas do continente decididos a três meses do final da temporada. O problema é mais profundo. A qualidade de jogo dos quatro, a sua excessiva dependência em génios individuais (salvo no caso do Bayern), e a profunda decadência futebolística dos seus mais directos e habituais perseguidores (Real Madrid, Valencia, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Schalke 04, AC Milan, Inter), deixa claro que apesar de se baterem cada vez mais recordes, a qualidade do futebol europeu dista muito de estar a passar pelos melhores momentos. Urge uma mudança de ciclo, clara e evidente, um novo puzzle de sensações, momentos e protagonistas que volte a devolver à Europa os seus grandes clubes nas suas melhores versões.



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Segunda-feira, 07.01.13

Poucos prémios têm o condão de atrair tanta atenção pública como o Ballon D´Or. E tão poucos se têm transformado num circo de variedades nos últimos anos como o Ballon D´Or. O quarto triunfo consecutivo de Lionel Messi não discute o seu génio. Pelé e Maradona não precisaram de 4 Ballons D´Or para ser considerados os melhores de sempre. Messi também não precisa. Ele está há muito nesse olimpo de génios e por muitos troféus individuais que ganhe, eles não o vão fazer melhor jogador. Mas vão torná-lo um eucalipto, a última coisa que o futebol e este prémio precisam.

 

Quem precisa de um prémio individual num jogo colectivo para consagrar um jogador precisa, sobretudo, de ver mais futebol.

Quando apareceu pela primeira vez na ribalta, em 2006, Lionel Messi já deixava antever que era um jogador especial. Cresceu no melhor sistema de formação do Mundo, foi tratado e mimado como poucas promessas da história do futebol e aprendeu em loco com um jogador que podia ter ido tão longe como ele se tivesse tido a cabeça necessária, Ronaldinho. Quando chegou Guardiola, Messi estava preparado para tomar de assalto o futebol Mundial. E fê-lo com estilo, com classe e com malabarismos que poucos tinham visto.

Messi tem um pouco de quase todos os grandes jogadores da história.

A finta de Garrincha, a mobilidade de Di Stefano, o faro goleador de Pelé, o espirito potrero de Maradona e a mudança de velocidade de Cruyff. Parece feito por encomenda. Ao contrário deste quinteto irrepetível, conseguiu prolongar nos anos a sua carreira fruto ao trabalho de um clube que o soube rodear de um grupo de génios especializados em não aparecer. Di Stefano rivalizou com Puskas e Pelé com Garrincha, mas Messi sabe que dentro da mesma equipa não há rival. 

Os demais jogam, à consciência, para ele e não há nenhum drama nisso. Quando tens um dos melhores jogadores da história na tua equipa, aproveita-o. Mas o génio de Messi supera, por muito, a necessidade de vencer, ano após ano o prémio Ballon D´Or. 

Porque nem o prémio foi criado para premiar o melhor jogador do Mundo, nem lhe faz bem atribuir, ano após ano (e sempre com considerável diferença pontual) o troféu. Não que não seja merecedor, o seu génio é o seu melhor cartão de visita. Mas porque antes dele todos os grandes, todos os gigantes, e Messi não é o único, partilharam os seus triunfos como uma forma, inclusive, de se fazerem ainda mais grandes.

A história faz-se de heróis individuais e, sobretudo, de disputas icónicas. É assim em todos os desportos e mesmo naqueles em que houve hegemonias claras, sempre se encontrou espaço para a concorrência. Era bom para o negócio, era bom para o ego e era mais de acordo com a realidade. Porque Lionel Messi pode ser o melhor jogador individual do Mundo mas não foi o melhor jogador individual em 2012 e as duas coisas, por muito estranho que pareçam, não são sinónimos.

 

O palmarés do Ballon D´Or está repleto de exemplos que explicam bem esta realidade.

Zinedine Zidane venceu apenas uma vez e durante quase uma década foi considerado o melhor do Mundo. No seu "mandato", venceram o prémio  aqueles que brilharam mais num ano em concreto, de Nedved a Ronaldo, de Figo a Rivaldo. Ninguém discute que hoje é Zizou quem está no top da história e que não foram precisos vencer de forma consecutiva vários prémios para o reclamar. O mesmo podemos dizer de Ronaldinho (venceu apenas uma vez), de Beckenbauer e Cruyff (que dividiram entre si cinco prémios, em seis anos) ou da década de 60, onde nenhum jogador repetiu o triunfo apesar de todos saberem que Eusébio e George Best - entre os nomeáveis - estavam um furo por cima de Masopoust, Albert, Law ou Suarez.

O Ballon D´Or tornou-se popular porque premiava os feitos de um ano. Da mesma forma que os Óscares premeiam uma performance em concreto  (Brando venceu dois, em 1954 e 1972, e ninguém quer saber quem ganhou os que estavam pelo meio), os Grammys um trabalho musical, os Ballon D´Or premiavam temporadas. Um génio podia ter um mau ano, o melhor podia ser superado numa época em concreto e os títulos colectivos, a natureza do futebol, contavam e muito porque no fundo, apesar de tudo, é isso que um jogador profissional quer ganhar.

Messi podia perfeitamente vencer estes quatro e mais quatro, que não terão muita discussão. Mas é legitimo pensar que em 2010 não foi o seu ano. Falhou nos momentos decisivos da temporada, onde mais se exige aos maiores. Não é um drama, é uma realidade. O mesmo sucedeu este ano. Em ambos os anos a legião espanhola (Xavi, Iniesta, Casillas) merecia ter tido outro tipo de reconhecimento e o talento individual e brilhante de um ano (como teve Sneijder em 2010 e Ronaldo e Falcao em 2012) superou em 365 dias o seu génio individual mais consensual.

Mas a metamorfose do Ballon D´Or num prémio da FIFA tem destas coisas.

Em 2010 os votos dos jornalistas dariam o prémio a Sneijder mas na votação juntaram-se os capitães, jornalistas e seleccionadores de todo o Mundo, do Vanuatu à Guiné Conacrky, de St. Nevis and Ketis às ilhas Samoa. E isso, forçosamente, transformou o prémio num concurso de popularidade. E não há ninguém mais popular do que o argentino. Nem ninguém mais impopular que Ronaldo. Nem ninguém com mais low profile do que Xavi e Iniesta. E assim sendo, é fácil prever que este cenário se vai repetir até que algo mude a própria carreira do argentino. E o Ballon D´Or vai perder, progressivamente, o glamour e importância que chegou a ter.

 

No final de tudo, o mais triste destes prémios, não está nos aplausos aos vencedores mas na atitude de muitos adeptos que celebram mais uma derrota do que uma vitória. É um velho mal do ser humano, do adepto que prefere ver o rival perder a ver os seus ganhar. A internet voltou a encher-se de imagens de um estóico Cristiano Ronaldo, que esteve correctíssimo em toda a gala (ao contrário do que passou noutros casos). É caso para pensar que se o prémio já é um concurso de popularidade neste modelo, se fosse aberto ao público podia tornar-se num verdadeiro MTV Awards em versão Star Wars. Já há um Jedi branco e um Darth Vader negro. E em todas as grandes rivalidades - e houve-as mais intensas, provocativas e brutais do que esta - uma vez as pessoas esquecem-se que quando dois chegam a um determinado nível, acabam por se alimentar mutuamente. Quando se vive só, como um eucalipto, a tendência natural é para o empequenicmento. Messi é imenso porque sabe que joga contra outro jogador tremendo da mesma forma que Senna e Prost superaram limites para superar-se um ao outro, que Borg e McEnroe treinavam com mais afinco para se baterem um ao outro e Johnson e Bird sabiam respeitar-se mutuamente quando subiam ao campo. Ás vezes a memória e os arquivos ajudam a perceber as muitas realidades de um só dia. 

 

PS: Superlativo o prémio a Vicente del Bosque, um excelente treinador, com um curriculum espantosa e uma figura das que fazem muita falta ao circo mediático que rodeia o jogo. A nomeação de Guardiola, no entanto, acaba por espelhar a mesma realidade que atrás explico. Num ano em que Prandelli, Klopp, Di Mateo ou Simeone superaram-se de uma maneira brutal, o politicamente correcto para os votantes do mundo é escolher o profeta da nova era. Guardiola pode até ser, como Messi, o melhor treinador em actividade (ainda que suspensa), mas em 2012 não foi de longe o seu ano.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 19:09 | link do post | comentar | ver comentários (9)

Sexta-feira, 04.01.13

Um clube corre o risco de perder o seu melhor jogador sem receber um só cêntimo em troca no mês de Julho. Recebe uma oferta de 6 milhões de euros para antecipar a saída em meio ano. O jogador não é opção do técnico e recebe mais dinheiro do que qualquer outro jogador fora do leque de futebolistas das duas gigantes multinacionais do pais. E no entanto, não o vende. É isso e muito mais o que lhe passa a Fernando Llorente.

 

Llorente queria sair em Junho. O clube não o deixou.

Tinha uma cláusula de rescisão de 40 milhões. E um ano mais de contrato. O clube ofereceu a renovação fazendo dele o jogador mais bem pago da liga. De todos os que não são do Barcelona ou Real Madrid, claro. Mais bem pago do que Falcao, mais bem pago do que Soldado, do que Isco, Joaquin ou Adrian. E Llorente disse que não. O clube tentou fazer o mesmo com Javi Martinez e este também lhes disse que não. Apareceu o Bayern Munchen com 40 milhões de euros na mão para pagar a cláusula de rescisão e mesmo assim, com o maior encaixe de sempre da história do futebol espanhol (salvo dos grandes), o Bilbao foi queixar-se à UEFA de que as coisas não tinham sido bem feitas. Llorente sabia o que o esperava.

Quando Bielsa soube que o avançado riojano não queria renovar, decidiu mandá-lo ao banco de suplentes.

Ele que tinha sido fundamental na época espantosa dos bascos, com duas finais perdidas em Bucareste e Madrid, mas com performances memoráveis, agora era suplente descartado. O clube voltou a contratar Aduriz - isto de só jogar com bascos obriga a vender e voltar a comprar bastante gente - e Llorente passou a primeira volta mais tempo no banco do que em campo. Em Agosto apresentou ao clube uma oferta de Juventus. Eram 10 milhões de euros em dinheiro vivo pagos imediatamente. O clube disse que não. A honra valia mais do que o dinheiro.

 

Se a postura do Bilbao, reforçado pelo dinheiro para pelo Bayern, podia fazer sentido em Agosto, agora não o faz.

O clube tentou voltar a convencer Llorente a renovar. Mas este recusou-se sempre. Está no seu direito. Os seus argumentos são mais do que lógicos. Conhece as limitações de um clube especial e quer provar outras realidades, ouvir o hino da Champions League, manter-se nas opções de Vicente del Bosque para o Mundial do Brasil. Mas o autoritarismo absoluto do Bilbao transformou-se numa gestão negativa para o próprio clube.

Llorente sairá, queira o clube ou não.

Pode sair a zero ou pode sair por seis milhões. Dinheiro que podia ser utilizado, entre outras coisas, para pagar o empréstimo para a reconstrução do novo estádio. Para perdoar as quotas aos muitos sócios no desemprego, um mal que afecta o Pais Basco como o resto de Espanha onde há 5 milhões de desempregados. Melhorar a ficha salarial de outros jogadores. Baixar o preço das bebidas no novo estádio. O que quiserem.

Ao rejeitar esses seis milhões agora, o clube quer mostrar que está por cima do bem e do mal, do dinheiro e das comodidades que ele traz. Continuarão a não utilizar Llorente, salvo em momentos pontuais (já só estão na liga, eliminados precocemente de Taça e Europe League), nos vinte e dois jogos que faltam disputar até Junho. A Juventus continuará sem um avançado de referência. E no final os adeptos serão confrontados com uma realidade curiosa. Uma directiva que saca peito de uma negociação que perdeu no primeiro dia, fazendo valer a sua lei autista. E um buraco nas contas que ficou por tapar por pura teimosia. É também assim o futebol quando gerido apenas no coração e não na cabeça. O Bilbao pode dar-se a este tipo de luxos. É um clube que não gasta muito no mercado porque tem um critério exclusivo de profissionais. É um clube que sempre teve as contas mais perto do verde, está no coração da zona mais rica de Espanha depois de Barcelona e Madrid. E está associado ao movimento independentista basco, o que lhe dota de muito prestigio na sociedade local.

 

Llorente tornou-se vitima dessa tripla realidade. Perdeu um ano da sua carreira desportiva por uma birra desportiva. O Athletic Bilbao perdeu entre 10 a 6 milhões de euros. No final de contas, o clube consegue o que quer. Provoca mais dano ao jogador mal amado, à antiga estrela de San Mamés do que a si mesmo. Uma birra infantil que custa dinheiro e momentos de prazer a um profissional que, enquanto lá esteve, deu tudo pela camisola. Quando dizem que aos jogadores lhes falta gratidão com os clubes muitas vezes é verdade. Mas nem sempre é um mal que percorre a auto-estrada do futebol na mesma direcção. Há clubes com muito passado mas com muito pouca memória!


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Segunda-feira, 03.12.12

Chega ao fim o ciclo de Mourinho no Real Madrid. A partir de agora o treinador português contará os dias para o final do seu mandato como um miudo conta os dias que faltam para acabar o ano lectivo. Com ansiedade. O sadino poderia ter feito da sua estadia na capital espanhola um êxito a todos os níveis, algo sem precedentes na memória de um clube que vive de e para a história. Em vez disso sai como o destruidor de uma herança única e como o mais directo responsável do seu próprio fim, dentro e fora do campo.

 

Não é preciso a imprensa espanhola avançar com o divórcio entre Florentino Perez e José Mourinho para saber-se que esta história tinha um final previsível. Nem que seja pelo próprio historial de técnico e presidente, dois homens que lidam muito mal com relações duradouras num universo onde tudo muda talvez demasiado depressa. Fizeram um esforço, mais a figura presidencial do que o técnico, para coabitar por um objectivo comum. Quando o individual se sobrepôs ao colectivo, o divórcio tornou-se tristemente inevitável.

Mourinho sai de Madrid da pior forma possível. Sai como um huno, como o destruidor de uma imagem que a imprensa espanhola reverenciou durante a sua carreira em Inglaterra e em Itália, tratando-o como ele gosta de ser tratado, o eleito. A imagem de um grupo de adeptos entregados, de um plantel que soube por de parte as suas diferenças para remar em conjunto. Tudo isso o português teve nas mãos. Tudo isso deitou a perder. Por culpa própria.

Na historial do Real Madrid a figura do treinador nunca existiu. Ninguém se lembra dos nomes dos técnicos que venceram as seis primeiras Taças dos Campeões Europeus (Villalonga e Muñoz) mas todos sabem a equipa titular de memória. Figuras como Benhaker, Capello, Heynckhes, Del Bosque ou Schuster foram tratados abaixo de cão por dirigentes, imprensa e adeptos mesmo quando os triunfos surgiam. Em troca, os jogadores eram reverenciados e idolatrados, nos momentos altos e baixos. Mourinho mudou isso. Foi o único homem que se tornou protagonista na história clube não desde o palco, não desde o relvado, mas no banco.

Centrou à sua volta o organigrama do clube, despediu e contratou quem quis, transformou o presidente num holograma vazio e oco, e auto-proclamou-se Deus e Senhor, o único capaz de derrotar o infiel, o demónio. O homem que ocupava os pesadelos dos adeptos merengues, um tal Guardiola.

Nessa cruzada santa, o maniqueísmo tornou-se fundamental. O contra mim ou por mim tornou-se santo e senha. Saíram Valdano, saíram ajudantes, saíram médicos, saíram cozinheiros. Os adeptos, fartos da hegemonia do eterno rival, entregaram-se de coração e perdoaram tudo. A goleada por 5-0 no Camp Nou, a primeira liga perdida antes do tempo, as duas semi-finais da Champions League (entre erros arbitrais, azar e um péssimo planeamento táctico) em troca de um mísero espólio. Uma Supertaça, uma Copa del Rey e uma Liga.

Contra a maior equipa de sempre, diziam, era muito, era inaudito. Uma equipa com um orçamento inferior, uma equipa que nos doze confrontos directos só perdeu duas vezes. Uma equipa que a história aprendera a amar pelo futebol, mais que pelo extra. Mas os titulos avalavam a sua gestão. Mourinho foi perdendo tudo o que ganhou porque nunca soube comportar-se como um cavalheiro do futebol. Foi um rufia, um hooligan. As conferências de imprensa, um insulto constante a quem não o apoiava, utilizando o exemplo da vergonhosa imprensa catalã. Para ele o jornalismo militante devia ser obrigatório, mas só vale quando a seu favor. Contra os rivais faltou repetidas vezes, desde treinadores de pequeno perfil mas grande coração como Manuel Preciado a rivais directos. E o dedo no olho foi o culminar da sua atitude de rufia de bairro, espelho de uma gestão autodestrutiva na essência. Ao menos se no campo o futebol falasse mais alto...

 

Futebolisticamente o que tem sido a equipa de José Mourinho em dois anos e meio de gestão desportiva?

Mourinho fez-se notar em Leiria e no FC Porto com equipas ofensivas, atrevidas, um 4-3-3 ousado, rápido, directo e com o pressing como principal arma. Em Londres mutou para um 4-4-2 mais conservador que logo se transformou entre 4-2-3-1 e 4-3-2-1 na sua passagem por Itália. Quando chegou a Espanha, havia muito pouco do técnico original e muito do cinismo do homem que vergou Itália. Incapaz de dar minutos a todos os homens do ataque com medo a perder o equilíbrio defensivo, condenou Benzema e Higuian a uma guerra fratricida. Fez de Xabi Alonso o pau para toda a obra, destroçando-o fisicamente. Não abdicou nunca de um médio mais defensivo, mais fisico, obrigando a uma rotação excessiva entre dois postos do ataque porque Cristiano Ronaldo, já se sabe, jogava todo e qualquer minuto disponível.

Entregou-se a Jorge Mendes e permitiu que este triplicasse o número de jogadores que tinha no balneário, triplicando assim a sua influência. Permitiu a formação de clãs entre jogadores para aumentar a competitividade, tudo à base do confronto, do desgaste, do ódio disfarçado. Desafiou os homens da casa a vergarem-se ao seu domínio e quando estes preferiram a amizade dos colegas de selecção do outro bando, nunca mais lhes perdoou a traição. 

Em campo a equipa perdia-se sem um fio de jogo, apostando sobretudo na brutalidade do seu arsenal ofensivo e na eficácia goleadora crescente de Cristiano Ronaldo, que sob o seu comando bateu o seu próprio recorde de golos em dois anos. Mas não conseguiu criar uma escola de jogo, não conseguiu definir padrões de comportamento para além dos rápidos contra-golpes e do jogo directo de Pepe e Alonso pelo ar para as costas dos rivais onde a máxima qualidade dos avançados fazia a diferença. Nos duelos europeus e contra o eterno rival recuava linhas, predominava o trabalho defensivo e até hoje ficamos sem ver um só desses jogos épicos que definem a história de uma equipa.

A saída de Guardiola, em parte provocada pelo desgaste mental que suponha a guerra do gato e do rato com Mourinho fora dos relvados, mudou tudo. Acabou a cruzada santa, a vitória parecia ser sua por desistência do contrário. Aí Mourinho decidiu o seu futuro, longe de Madrid.

As condições que tinha permitiam-lhe tornar-se no Manager do clube para a próxima década, o Ferguson da Casa Blanca.

Mas o seu egocentrismo, o seu espírito auto-destructivo foi mais forte. Criou guerras com tudo e com todos. Como fraco abusou da sua força contra os mais débeis e calou-se contra os mais fortes. Minou o trabalho da formação - algo que na sua carreira nunca está nas suas prioridades - acusou a imprensa, um sector de adeptos e a própria directiva. Publicamente dividiu o balneário com o seu apoio directo a Cristiano Ronaldo na luta pelo Ballon D´Or e pelo segundo ano consecutivo o dinheiro investido não resultou em nada beneficioso para o jogo da equipa. No campo o futebol nunca esteve presente e os resultados, desta vez, deixaram de o acompanhar. Teve um arranque de época similar ao da sua quarta época com o Chelsea. Mas a indemnização de despedimento é bem maior e o sonho da Décima ainda acalenta os corações de muitos adeptos e directivos. Com ela, Mourinho poderá ainda tentar sair como um herói, sem ela acabará da pior forma um mandato curto e aos anais da história insignificante.

 

José Mourinho é um dos grandes treinadores da história e tem um curriculum imaculado. Mas também tem um grave problema de personalidade, um culto do ego que relembra em muito Helenio Herrera. O fim de ambos tem semelhanças evidentes. O desgaste do balneário, o titubear da relação com os outrora apóstolos da imprensa, público e directiva e a ausência de resultados. O seu arqui-rival, de ontem, de hoje e de sempre, saiu num ano de derrotas mas com uma aura de vencedor. Mourinho pode acabar o seu mandato em Madrid com títulos, principalmente nas competições a eliminar, mas deixará sempre atrás de si uma sombra de perdedor, de um homem que se perdeu a si mesmo e consigo a possibilidade de transformar o Real Madrid num clube diferente, longe da gaiola de prima-donas em que sempre viveu.



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Terça-feira, 30.10.12

Tito Vilanova tinha o peso da herança sobre os ombros e decidiu-se pelo caminho mais difícil. Abdicou de muitos dos conceitos do seu antecessor e companheiro, Pep Guardiola, e apresentou uma colecção 2012/13 com um traço seu, sem perder com isso a essência real do modelo Barcelona que remonta às ideias de Laureano Ruiz e aos ensinamentos de Johan Cruyff. É com o holandês que Vilanova mais se quer parecer e é graças a essa verticalidade que o Barcelona tem assinado um arranque de época excepcional ao mesmo tempo que apresenta mais dúvidas que nunca no seu sector defensivo, fundamental na estratégia de Guardiola.

 

Quando Cruyff decidiu implementar o 3-4-3 da escola holandesa fê-lo segundo a velha ideia de Rinus Michels que defendia que uma equipa pode sofrer três golos, sempre e quando seja capaz de marcar quatro. Esse ideário futebolístico holandês permanece nos dias de hoje na Eredevise e foi santo e senha do Dream Team, uma equipa super-ofensiva capaz de sofrer cinco golos em viagens a Logroño, Tenerife ou Corunha mas sempre com a capacidade de responder sempre com mais um golo. Eram os dias de bolas largas, pelo ar, de Guardiola a rasgar para Romário, com Laudrup a mover-se como Messi, solto no ataque, e a defesa adiantada, consciente da sua fragilidade, até porque Zubizarreta não era um guarda-redes à Valdés, com essa capacidade notável de incorporar-se ao jogo como um falso libero. Vilanova não conseguiu ter lugar nessa equipa como jogador - foi descartado por Cruyff quando ainda estava na Masia - mas isso não significa que tenha perdido essa influência como técnico.

Onde Guardiola premiava o passe, a posse de bole, os rondos, esse "tiki-taka" revisitado da herança centro-europeia, Tito prefere a verticalidade cruyffiana. Onde Pep centrava o jogo nos homens do meio, nas centenas de passes de Xavi Hernandez para os defesas laterais, que se incorporavam ao miolo, com um Messi muito recuado, de forma a criar, em certos momentos, uma linha de seis num espaço extremamente reduzido do coração do relvado, Vilanova gosta de transições onde os passes sejam orientados sempre para a frente, para procurar o golo. Vilanova não quer que a equipa tenha a bola tanto tempo mas sim que faça da posse de bola o caminho mais rápido para o golo. As possessões deixaram de ser uma protecção para ser uma arma. Xavi já não dá 200 passes por jogo com a mesma facilidade. Em Vallecas, na goleada por 0-5 do último fim-de-semana, deu apenas 64. E no entanto todos eles tiveram sentido, um sentido ofensivo num modelo onde ele deixou de ser o protagonista. Vilanova treinou Cesc e Messi (e Pique) nos juvenis e é neles, nessa geração de 1987, que coloca o peso da equipa. Iniesta e Xavi, os homens de confiança de Guardiola, os seus herdeiros, continuam a ser fundamentais - como não podiam ser - mas já não são a espinha dorsal do jogo ofensivo da equipa, hoje distribuído entre Cesc, Pedro e Messi, um tridente mais dinâmico, veloz e orientado para a baliza contrária. 

 

Vilanova deparou-se com uma defesa de remendos. 

Tem culpa o clube de não ir ao mercado procurar um defesa quando está disposto a gastar uma fortuna num médio com Song, tapado pelo gigantesco futebolista que é Busquets, especialmente tendo consciência que Puyol fisicamente não é o mesmo e que o grande Abidal, que como central é tão competente como lateral, terá um regresso complicado à alta competição. O carácter mais volátil de Gerard Piqué, que perdeu muito do seu talento inicial quando chegou a Can Barça em motivos extra-futebolisticos, transformou essa realidade defensiva num problema. Dani Alves, que Guardiola quis vender (junto com Cesc, Villa e Pique) caso tivesse ficado ao cargo do clube, perde-se entre lesões musculares e noites que terminam já entrada a manhã pela costa catalã. 

Sendo assim, Tito mais motivos encontrou para recuperar o ideário de Cruyff que sabia ter, já então, na defesa, o seu calcanhar de Aquiles. Adriano, Bartra, Mascherano e Song têm sido os centrais utilizados, todos eles com um comportamento que não está à altura da grandeza da equipa. Os quatro golos sofridos na Corunha, a fragilidade defensiva contra um Real Madrid inofensivo e a forma como equipas como o Celtic conseguem fazer sangue das poucas oportunidades que dispõem seriam um problema que a outro treinador dariam múltiplas dores de cabeça. Mas Vilanova é consciente de que não pode remediar essa realidade sem a sua defesa tipo e que é provável que ao longo do ano o quarteto guardiolano Alves-Pique-Puyol-Abidal não jogue nunca ao mesmo tempo. Por isso coloca todas as fichas nos seus homens de confiança. Nos que usam a bola para marcar e não só para controlar.

A equipa é muito mais ofensiva e vertical mas durante menos tempo. Se com Guardiola a posse de bola chegava, habitualmente, aos 80%, e prolongava-se durante quase todo o jogo, sem grandes variações, o Tito Team é mais volátil e concentra-se em momentos pontuais do jogo a sacar petróleo da qualidade individual do seu plantel ofensivo. Não estranha que a maioria dos golos catalães cheguem nos últimos vinte minutos, nos últimos suspiros como sofreram na pele os jogadores do Celtic Glasgow. A equipa não só não desiste como utiliza esse tornado ofensivo para atacar o rival quando o sente mais débil. É uma equipa mais ofensiva mas, ao mesmo tempo, mais cínica, porque escolhe os momentos em que ataca com mais cuidado e de forma mais declarada. Com Guardiola era impossível pensar que o Barcelona não estava a atacar, mesmo que esse ataque fosse simplesmente um espelho de uma situação controlada com toques de bola que deixavam o rival k.o. Com Vilanova há momentos do jogo em que a bola desaparece dos pés dos blaugranas e os rivais têm as suas opções, aproveitando-as mais do que seria de esperar. Mas são momentos concedidos à consciência, momentos que se revelam insignificantes comparados com os período em que o Barcelona decide cercar a área rival e deixar Messi aumentar a sua lenda goleadora. O Barcelona sofre mais com Tito e por isso marca mais. Tem de o fazer. Se não, corre o risco de cair nos erros que marcaram o final da era Cruyff, quando os golos sofridos se mantiveram nos mesmos valores mas os marcados decresceram grandemente.

 

Vilanova sabe que será incapaz de construir uma equipa tão sólida como Guardiola. Pep tinha o seu núcleo no meio-campo, no trio Xavi-Busquets-Iniesta, e na qualidade da sua linha defensiva que quase nunca concedida opções aos rivais para marcar. Nos seus últimos dois anos a equipa marcou muito mas sofreu ainda menos e foi assim que em muitos campos saiu com vitórias pela mínima mas sempre debaixo de controlo. Tito prefere a voragem vertical incerta de jogar um combate de boxe a golpes. Sabe-se possuidor de uma série de jogadores capazes de decidir qualquer jogo a seu favor e aposta tudo nisso. Uma lesão de Messi, Cesc ou Pedro colocaria em cheque o seu modelo de jogo mas a sorte parece estar do lado dos blaugranas e os problemas repetem-se, sim, mas atrás. De certa forma, ao aproximar-se de Cruyff, o que Vilanova faz é fechar o circulo do guardiolismo, um modelo inovador que procurou ir mais longe das ideias do seu mestre e procurar algo novo e actual. Vilanova não descarta totalmente a herança do seu anterior número 1 mas regressa às origens e repete a ideia de Cruyff, vencedor de três ligas no último suspiro, que a sorte procura-se à base de golos e não de posse de bole.



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Quarta-feira, 10.10.12

Cansa ouvir falar de prémios, de goleadores e artistas a esta altura do campeonato e ter de voltar a repetir a mesma conversa de sempre como se o futebol fosse, exclusivamente, um fenómeno ofensivo. Sabendo que para um jogador defensivo vencer um prémio individual tem de vir acompanhado de um sonante prémio colectivo de selecções (Cannavaro, Sammer) convém ter em presença que vivemos a era de um eixo defensivo perfeito e um dos mais completos da história do futebol internacional. Em Madrid o talento de Casillas, Pepe e Sérgio Ramos vale tanto ou mais do que os golos de Ronaldo, as assistências de Ozil ou a magia de Di Maria. 

 

Imaginem a gala do Ballon D´Or sem Messi, Ronaldo e Iniesta em palco.

Sem Falcao e Drogba, sem Xavi e Ozil, sem Pirlo e Silva, sem Schweinsteiger e Neymar. Parece impossível e no entanto, se os adeptos e os votantes entendessem que no futebol é tão difícil defender como atacar, talvez o pódio pudesse ter três rostos inesperados. Mas igualmente justos. Talvez comece a ser a hora de pensar em valorizar, como se merecem, os outros artistas do beautiful game.

Iker Casillas é, como foi Gianluigi Buffon, vitima de si mesmo, da sua grandeza, omnipresença. Do seu carácter de líder e do seu low profile como estrela mediática. Em 2006 muitos não entenderam o Ballon D´Or de Cannavaro quando em campo tinha estado Buffon. Em 2008, 2010 e 2012 alguém poderá dizer o mesmo porque se houve um guarda-redes na última década que esteve ao nível do italiano, foi Casillas. O "santo" não se limitou a salvar Espanha nos momentos decisivos, consequência da sua especulação com o resultado, como também é o melhor exemplo de integração e amizade que reina no balneário de uma selecção que com Aragonés se aprendeu a unir e que sobreviveu mesmo à "guerra cívil" Barça-Madrid dos últimos anos com a cabeça erguida. Casillas merece mais do que qualquer outro jogador o prémio de este ano e se o futebol fosse realmente um desporto de onze contra onze, o prémio seria seu. Infelizmente, a maioria dos analistas, jornalistas e adeptos, pensa no jogo apenas partindo do principio do 4-4-2, jogo de dez, onde o guarda-redes é um bicho à parte. Uma sina que só Lev Yashin, demasiado grande para estas coisas, conseguiu fintar. 

Em Madrid, Iker continua a ser o melhor, de longe, e o mais excitante dos guarda-redes. Não tem a escola de libero blaugrana que destaca Valdés, outro guarda-redes imenso, mas é o mais completo e fascinante dos números 1 mundiais. Em 2014 será a primeira grande arma de Espanha para atacar o quarto título consecutivo. Em 2013 quererá cumprir o ciclo que começou em Hampden Park, 2002, e vencer a sua segunda Champions. Na época passada fez tudo, até parar dois penaltys, e até nisso se destacou por cima de qualquer colega. De qualquer jogador.

 

Mas se Iker é um guarda-redes maravilhoso, Pepe e Sérgio Ramos são uma dupla invejável, um seguro de vida para qualquer equipa de estrelas.

Em 1988, o técnico italiano Arrigo Sacchi foi increpado pelo holandês van Basten. Perguntou-lhe o avançado porque é que Sachi elogiava sempre a defesa nas conversas de equipa se ele é que era o goleador da equipa, o homem que fazia a diferença. Sachi ouviu, tranquilamente, e depois desafiou van Basten a escolher outros cinco colegas para jogar contra a sua defesa de quatro intocável num jogo a meio-campo. No final do treino, os avançados não tinham sido capazes de marcar um só golo e van Basten percebeu que se ele era a estrela, o trabalho de Baresi, Maldini, Costacurta e Tassoti era fundamental.

Ramos e Pepe complemetam-se. São os dois melhores centrais do mundo, cada qual na sua especialidade.

Pepe é o mais guerreiro dos dois, aquele que joga mais no limite, mas também o mais importante para o jogo de pressão que procura Mourinho. Sobe as linhas defensivas, exerce de trinco com facilidade e não tem problemas em utilizar o seu poder físico para ganhar a batalha do meio-campo surgindo, várias vezes, a pressionar o médio defensivo rival sem perder olho à sua posição. Apanhar Pepe desprevenido é raro e que lhe ganhem no um contra um inédito. Pepe tem defeitos. É um defesa duro, da escola Nobby Stiles, ao mesmo tempo que impõe liderança, como Baresi. É o verdadeiro líder do Real Madrid, no terreno de jogo e junto dos adeptos. É o único capaz de mandar calar as vedetas, como Ronaldo, e de dar o corpo pela causa, o gladiador perfeito para um Mourinho que sabe que a defesa é a base do sucesso de qualquer técnico.

No FC Porto contou com Ricardo Carvalho e Jorge Costa (a sua ideia original era manter o capitão com Jorge Andrade) e soube rodear-se de um Pedro Emanuel para os jogos mais complicados, também ele um líder no terreno de jogo. Em Inglaterra fez da dupla Terry-Carvalho a melhor do Mundo, muito similar à actual, com Terry como defesa mais de confronto e Carvalho mais táctico. Em Itália foi a vez de Lucio e Samuel darem corpo ao ideário táctico de Mourinho e depois de Ricardo Carvalho desligar do futebol profissional, o português encontrou em Ramos o protótipo do defesa do futuro.

Ramos cresceu como lateral e foi nessa posição que singrou em Sevilla e na selecção espanhola antes de chegar ao Real Madrid, perdido no meio de tantas contratações galácticas. Foi ganhando peso no vestuário e mais do que vice-capitão, é a alma do colectivo. No campo exibe-se de forma imperial. Com a bola nos pés tem o critério dos grandes liberos do passado e sem ela tem um posicionamento táctico invejável. Quando Pepe sobe sabe varrer a linha defensiva e quando é preciso incorporar-se, lembrando-se da sua veia de lateral ofensivo, maneja-se muito bem nos "rondos" de meio-campo. Nas bolas paradas, tanto um como outro, são peritos em surpreender as defesas contrárias e marcar golos oportunos. Sem eles, seguramente, o Real Madrid de Mourinho nunca teria batido o Barcelona de Guardiola.

 

Se o projecto de Tito Vilanova começa a deixar a nu as deficiências da sua linha defensiva, com um Piqué irreconhecível e um Puyol massacrado pelas lesões, em Madrid é na sua linha defensiva que Mourinho tem de armar a recuperação da sua equipa. Com Marcelo definitivamente instalado como lateral e com Arbeloa como elo mais fraco, no lado direito, o trabalho de Pepe e Ramos, junto à eficácia de Casillas, é fundamental para que os merengues sonhem em repetir os sucessos do ano passado. Para os amantes do futebol, como jogo colectivo, a presença de um destes nomes na gala de um prémio como o Ballon D´Or não seria apenas justo. Na verdade seria mais do que isso, necessário, para acreditar que o futebol é mais do que estrelas de videojogos e anúncios publicitários.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 22:00 | link do post | comentar | ver comentários (18)

Domingo, 30.09.12

O arranque da era Vilanova tem superado as expectativas a nível de resultados mas a qualidade de jogo blaugrana baixou claramente em relação aos quatro anos com Guardiola ao leme do clube. A essa realidade, que pouco parece preocupar os eufóricos catalães, contribui seguramente o desastre defensivo em que se transformou o projecto Tito. Apostar por dois médios defensivos como centrais não só destroi a concepção original do modelo como abre as portas a que os rivais acreditem que asfixiar a área de Valdés é o caminho mais curto para a vitória.

 

O projecto Guardiola consagrou-se na fantástica linha medular e ganhou títulos graças à classe de Valdés nas redes e de Messi na área contrária. 

Mas para o técnico de Santpedor o trabalho defensivo era fundamental para garantir vitórias e por isso a sua confiança no quarteto Alves-Puyol-Pique-Abidal foi uma constante. Para azar do técnico blaugrana, esse foi também o sector que mais dores de cabeça lhe deu em quatro anos. E o seu sucessor vive agora a mesma situação.

Com Eric Abidal fora dos relvados até 2013, como mínimo, e com Charles Puyol a sucumbir lesão atrás de lesão a um físico que não lhe permite voltar aos seus melhores momentos, Guardiola já teve de adaptar Mascherano a central e recolocar Adriano como lateral alternativo. Foram opções forçadas com fracos resultados. Com o Jefecito, a defesa blaugrana ficou mais permeável ao jogo rival, mais débil no jogo áereo e menos sólida na construção de jogo. Com Adriano pela esquerda os extremos encontraram espaços que não existiam quando era o francês o responsável pela posição. Duas circunstâncias que explicam a fragilidade defensiva do Barça, principalmente na época transacta. E que continua.

Resulta estranho que, face a esta dura realidade, o Barcelona não se tenha movido no mercado nos últimos dois anos para resolver este problema. 

Jordi Alba chegou, é certo, mas o ex-canterano é um lateral com vocação de extremo, tal como Alves, e a sua incorporação permite mais aumentar a asfixia ofensiva do que resolver os problemas defensivos dos catalães. Já no Euro 2012, onde foi uma das maiores revelações, Alba foi pouco testado nas tarefas defensivas e encontrou no ataque uma comodidade inusual para um lateral. O cansaço acumulado pelo Europeu e Jogos Olimpicos custaram-lhe a titularidade neste arranque de época apesar de ser expectável que, pouco a pouco, Vilanova lhe entregue o flanco esquerdo livremente. Mas no centro, nem no último ano de Pep nem no primeiro de Tito, não houve novidades. Um desleixo, sabendo sobretudo que Puyol já não é o que era e que Piqué, como se viu no ano passado, tem sofrido por manter-se ao mais alto nível como um dos centrais referência do futebol europeu.

 

Entretanto foram saindo opções. 

Muniesa tinha prevista a cedência ao Ajax antes da grave lesão que sofreu e que o manterá fora dos relvados até ao próximo ano. Botía foi cedido, primeiro ao Gijón, e depois vendido acabando em Sevilla. E a Marc Bartra, as oportunidades continuam a ser negadas ano atrás ano, deixando a dúvida de que o clube realmente acredita que ele pode ser, como se previa, o sucessor de Puyol na linha defensiva. 

Face aos erros de mercado que foram Henrique e Chygrinski, o sector central da defesa tornou-se no grande quebra cabeças do Barcelona que no mercado manteve-se inactivo apesar de Vermaleen, Verthogen, Criscito e até Vidic terem sido hipóteses estudadas pelo clube. No final os esforços financeiros ficaram-se por Alba e Song. A chegada do camaronês permite aumentar, ainda mais, os receios e dúvidas dos adeptos blaugranas. 

O ex-Arsenal afirmou-se sempre pela sua posição de médio defensivo, com uma capacidade fisica tremenda e capacidade de cobertura superlativa, dando a Diaby, Cesc, Whilshere ou Arteta, espaço e ar para poder manejar a bola com segurança. Um jogador com o perfil africano de médio possante bem definido que Vilanova quer, forçosamente, face à lesão de Piqué, reconverter em central. Uma posição onde, está claro, se maneja com muitos, muitos problemas. Da mesma forma que Mascherano é um central perigoso, pela forma como não sabe controlar o jogo aéreo e sair com a bola controlada, elementos fulcrais no modelo de jogo de Tito e da escola guardiolista, colocá-lo lado a lado com um jogador com sérios problemas de adaptação a um posto nuclear é um risco muito sério que só uma equipa com o arsenal ofensivo do Barcelona seria capaz de realizar sem temer as repercursões. 

Para já o clube da cidade Condal soma vitórias por jogos disputados mas a maioria delas sofridas. E com golos concedidos que em anos anteriores seriam impossíveis. Frente ao Sevilla o Barcelona encontrou-se a perder 2-0 em dois lances em que a defesa tem sérias responsabilidades. O mesmo passou nos jogos da Supertaça, com o Real Madrid. E mesmo nas vitórias mais claras e expressivas a defesa nunca deu sinais de absoluta segurança. Sem a frieza de Piqué, que continua longe da sua melhor forma, e do espirito de liderança de Puyol, o Barcelona encontra-se com um problema que não soube resolver no mercado e que tem falhado em resolver no relvado. Na próxima semana o Clássico abre as portas à especulação, particulamrnete porque foi a linha defensiva a que permitiu a reviravolta na eliminatória que terminou com a Supertaça a cair para o lado do Real Madrid na última vez que mediram forças.

 

Para um clube que conta com o melhor plantel ofensivo do mundo, com jogadores no meio-campo que ajudam a redifinir o conceito do futebol moderno, que a linha defensiva seja a actual é um problema sério para o futuro. A época é longa e haverá jogos onde os génios do ataque estejam menos inspirados e que o rival seja mais ousado, como foi o Sevilla no primeiro tempo do duelo de ontem. Nesses momentos a frieza dos defesas será fundamental e com Mascherano e Song o cenário não é o mais optimista. Será o grande duelo de Vilanova consigo mesmo, encontrar as peças do puzzle para reequilibrar uma equipa que aspira a mais um ano histórico.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:43 | link do post | comentar | ver comentários (6)

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