Segunda-feira, 03.01.11

Talvez tenha sido o maior guarda-redes da história. Talvez tenha regressado do mundo dos mortos. Mas a mágica carreira de Ricardo Zamora, a primeira grande estrela mediática do futebol europeu, é um constante deambular entre o sol e a penumbra, o claro e o escuro. Simbolo do mágico Barcelona dos anos 20, soube trair por três vezes "a causa" e acabou por cair na hábil teia de Franco para se tornar num dos simbolos do novo regime.

 

 

 

Conta Philip Ball no seu imperdível Morbo: The Story of Spanish Football, que em 1936 a imprensa republicana noticiou que o histórico Ricardo Zamora, o homem que à época era mais popular em Espanha que Greta Garbo, tinha sido morto na fronteira por soldados falangistas quando procurava voltar de França, onde estava refugiado. Zamora era a maior figura do desporto espanhol, conhecido como El Divino, e a noticia era tão séria que os jornais falangistas rapidamente decidiram contrariar a informar e declarar o óbito como culpa das armadas comunistas que patrulhavam a zona basca. No meio de tanta confusão mediática apareceu Zamora, como quem regressa do mundo dos mortos. E por um segundo o país respirou de alívio.

Ricardo Zamora era assim, um bálsamo para um país que gostou sempre de conflitos, nem que fossem dialécticos. Foi a primeira grande estrela espanhola dentro e fora dos relvados. Uma verdadeira vedeta desportiva que encandilava com as suas defesas nos campos pelados de Les Corts como pelas suas passeatas a altas horas com Gardel nas Ramblas barcelonesas.

Filho de espanhóis numa Catalunha em fase ultra-nacionalista, tornou-se rapidamente na grande figura do recém-inaugurado estádio do FC Barcelona. Com Alcantara e Samitier constitui o primeiro grande trio histórico do futebol ibérico. O Barcelona viveu uma das suas décadas mágicas e a fama de Zamora era tal que fora de Espanha chegavam convites de toda a Europa para que o clube entrasse em digressões pelo velho continente, sempre e quando ele fosse titular. Mas ao contrário de muitos dos seus colegas - particularmente o pequeno Alcantara, o Messi da década 20 - não havia nada no sentimento catalão que começava a tomar controlo dos elementos directivos blaugranas que o atraísse. Era um homem da vida, um verdadeiro amante da boémia e a politica não lhe despertava o minimo interesse, especialmente se fosse uma politica nacionalista. Com Primo de Rivera no poder e com o nacionalismo catalão debaixo de fogo, Zamora "traiu" o Barça e atravessou a Diagonal rumo ao modesto Sarriá onde jogava o Español, clube fundado para espanhóis em Barcelona como contraposição ao nacionalismo do clube de Gamper. Ao serviço dos "blanquiazules",  para os quais tinha jogado na sua juventude antes de rumar ao clube azulgrana, Zamora foi, uma vez mais, igual a si mesmo e continuou a ostentar o titulo de maior guarda-redes do Mundo, confirmado com várias exibições de gala com a camisola de Espanha, que chegou a capitanear para escândalo da Barcelona de então, nas Olimpiadas de Antuérpia de 1920 em que a Espanha logrou uma histórica medalha de prata.

 

Ao serviço do Español (assim escrito à espanhola, a versão catalão tem meia dúzia de anos) o portero fez alguns dos seus jogos mais deslumbrantes a ponto que o Real Madrid, então ainda longe de ser uma força suprema do futebol espanhol, não se incomodou com a já sua avançada idade e avançou para uma contratação milionária, a primeira do seu largo historial. 140 mil pesetas, 40 mil das quais directamente para o jogador, marcaram um primeiro recorde em Madrid. Na capital o guardião sentiu-se como peixe na água e começou a deixar transparecer os seus sentimentos pró-falangistas. Esteve até 1936 nas redes do velho Metropolitano. No último encontro da sua carreira, no derradeiro instante, travou sobre a linha de golo um remate de Escolá, dianteiro do Barcelona, para garantir o triunfo por 2-1 do Real Madrid sobre o seu histórico rival. Foi uma doce vingança pelas palavras criticas que ouvia regularmente sempre que voltava à Cidade Condal.

Acabada a carreira começa a guerra. Zamora foge para França, com o seu colega de andanças e traições Pep Samitier, e é capturado pelo exército republicano. Consegue escapar e chega a actuar no Nice durante dois anos até que volta a Espanha para capitanear num jogo não oficial o primeiro encontro da selecção falangista. Foi um reconhecimento internacional que os republicanos nunca perdoariam (eles que tinham, pela figura do presidente Alcalá Zamora, galardoado o guardião no fim da sua carreira com a Ordem de Mérito) e que Franco agradeceria profundamente. O Generalissimo dotou o guardião de todas as honras a partir dos anos 40 e a imprensa afecta ao regime começou a campanha de popularização da figura do guardião junto das novas gerações, com o guarda-redes a surgir em vários filmes com atletas do Real Madrid dos anos 40 (ele que tinha protagonizado já filmes nos anos 20). O recém-criado jornal Marca instituiu também o prémio Zamora para galardoar o melhor guardião espanhol de cada ano, como contraposição ao troféu Pichichi para o goleador de serviço da liga.

 

 

 

Tornado figura oficial do regime, Ricardo Zamora tentou brevemente uma carreira como técnico e foi mesmo apontado como seleccionador nacional em 1952 para surpresa geral. Mais um agradecimento do General Moscardó, então hábil ministro dos desportos de Franco. Depois dessa experiência voltou a Barcelona para ir caindo no anonimato geral do qual foi resgatado já após a Transicion democrática. Politicamente controverso, o talento inato de Zamora era tal que ainda hoje há que se aventure a considerar El Divino como o maior guardião de sempre. Pode ser que tenham razão...



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Sábado, 18.12.10

Os dias de glória do velho Sarriá foram enterrados debaixo do mastodôntico Olimpic do Montjuic. O Espanyol sofreu na pele a solidão angustiante da pedra vazia e fria de um estádio sem sentido. Demorou anos a voltar a recuperar o seu espirito de equipa guerreira até à medula. Desde a inauguração de Cornellá que há um novo RCD Espanyol na liga espanhola. Este ano os "pericos" seguem invenciveis em casa. Esperam o inimigo. Que sabe bem onde vão mergulhar...

 

 

 

Enquanto o mundo se encanta e relambe com a orquestra futebolistica do Barcelona de Pep Guardiola, a cidade condal parece esquecer-se de um fenómeno não menos digno de atenção e louvor. O histórico clube da capital, o abrigo dos catalães e emigrantes que se afastam das correntes nacionalistas daquele que se diz "Més que un club", está de regresso às suas tardes mágicas.

Finalista vencido da UEFA Cup de 2007, esse foi talvez a única noite de memória nos últimos vinte anos para o segundo clube de Barcelona. O Espanyol vivia há muito uma crise financeira e moral que deixava mossa, época atrás de época. Após a venda dos terrenos do mitico Sarriá, um dos estádios mais históricos do futebol europeu, a equipa foi forçada a rumar para o imenso estádio olimpico construido para albergar os Jogos de 1992. Clube com uma massa adepta reduzida e pouco endinheirada, o novo e gigantesco recinto tornou-se num pesadelo logistico e estético para o clube azul e branco. Bancadas tapadas com logotipos gigantes ou placards publicitários, um afastamento irremediável provocado pela gigante pista de tartã...tudo parecia deixar a equipa mais longe dos seus. E os resultados ressintiram-se. Um habitué do topo da tabela classificativa, finalista vencido da UEFA em 1988, numa noite épica contra o Bayer Leverkusen, o clube passou a mergulhar nas profundezas da luta para evitar a despromoção. A lei Bosman deixou, também aqui, as suas baixas e a afirmação definitiva no panorama internacional do seu maior rival, o Barcelona FC, condenou definitivamente o clube ao esquecimento. Passaram-se anos até que, finalmente, a velha ideia de ter casa própria, conceito tão arreigado na mentalidade espanhola, ganhou forma. Em quatro anos fez-se e inaugurou-se Cornellá. Com um novo mentor nos bancos, o antigo internacional argentino Mauricio Pochettino, e com uma geração com vontade de comer o Mundo.

 

A morte de Dani Jarque, figura imperial da defesa dos "pericos", foi o choque que despertou a familia blanquiazul.

Cornella tornou-se na reincarnação latina do velho Anfield Road. Estádio cheio, semana após semana, adeptos de pé, bandeiras e cachecóis ao alto. Música ambiente do principio ao fim e o recuperar de um espirito antigo têm sido parte da fórmula de sucesso que devolveu o Espanyol à ribalta, aos postos da Champions League, aos sonhos europeus e às noites de glória. Mas não só.

Se "This is Cornella" é já um mote impossível de contornar no seio dos adeptos do clube, a verdade é que cabe a Pochettino grande parte do mérito nesta profunda transformação. O técnico chegou nos últimos dias do Montjuic e desde então transformou o novo recinto num fortim intransponível. Graças a investimentos acertados no mercado - o dinheiro continua a ser um problema - e a uma politica de cantera que se assemelha muito à mais badalada e mediática escola do rival de Les Corts.

Só este ano o Espanyol abriu ao Mundo - e à própria Espanha, sempre perdida nos duelos Madrid-Barça para reparar no que de melhor têm o resto - os olhos para uma fornada de jogadores com um potencial tremendo. Aos veteranos Kameni - um guardião para as grandes noites - o histórico Ivan de la Peña ou o argentino Aldo Duscher juntam-se o letal brasileiro Osvaldo - que deverá ser vendido no mercado do Inverno para equilibrar as contas - e ainda os jovens Callejón, Javi Marquez, Forlín, Álvaro e o mais flamante de todos, Victor Ruiz.

O jovem central despontou no final da época transacta e já se assumiu como o lider natural de uma das defesas menos batidas da Europa. Abriu passo pelas selecções jovens espanholas e está chamado a emular o seu vizinho e conterrâneo Gerard Pique. Um jogador com uma técnico invulgar para central que é sinal da maturidade que tem a nova vaga desta equipa. O argentino Forlin traz equilibrio ao sector mais recuado, a velocidade de Marquez e Callejon abrem a zona de ataque e Osvaldo resolve o problema da eficácia, suplantado desde já os números do histórico Tamudo, forçado a abandonar a nau no final da época transacta.

 

 

 

Apesar de ser uma equipa sem grande profundidade de banco e com muito caminho por percorrer, é notório que este Espanyol tem muito pouco a ver com as formações passadas do conjunto barcelonês. Um projecto sólido e bem estruturado que deixa antever um futuro brilhante para uma equipa que soube reinventar-se e rejuvenescer décadas com o simples acto de criar um novo lar para a sua afficion. Hoje o Barcelona chega no meio de uma tensão que só os derbys sabem produzir. Quando entrarem em campo, os artistas de Guardiola saberão que chegaram a Cornellá. E isso, hoje, é dizer muito mais do que imaginam!


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Quinta-feira, 16.12.10

Tique, taque. Uma precisão suiça em pleno relvado de Belgrado. A bola arranque no miolo central e ali fica, a deambular de um lado para o outro, com a exactidão segura de controlar o tempo. O rodeo asfixia, a verticalidade mata. Debaixo da estrela vermelha com fim à vista, uma geração dificil de reeditar colocava em práctica a sua máxima preferida. O futebol belo é exacto. As vitórias são apenas as migalhas que engolhe o tempo.

 

 

 

26 de Maio de 1991, Bari.

Aqui acabou, provavelmente, uma das maiores gestas desportivas da história. O último grande milagre da história do desporto rei, rapidamente trucidado pela guerra, pelos milhões, pela perda total do controlo. Uma noite cinzenta que colocava o ponto final numa história tão colorida como o arco-iris. Uma geração de magos torpedava um velho sonho europeu gaulês e colocava um ponto final na história era da Taça dos Campeões Europeus. A partir do ano seguinte o espirito da Champions League começaria a asfixiar os campeões dos países periféricos. O despertar do velho ódio nos Balcãs tratou de fazer o resto e destruiu uma equipa chamada a fazer história.

20 de Março de 1991, Berlim.

O muro tinha caído e a Alemanha unificada deveria estar em festa. Mas ao minuto 78 do jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Taça dos Campeões, os adeptos do Dinamo Berlim, último representante da RDA na prova, invadiram o relvado onde a sua equipa, hoje perdida nos meadros regionais do futebol germânico, perdia por 2-1. O árbitro espanhol Emilio Soriano deu o jogo por terminado e a UEFA concedeu um triunfo por 3-0 aos visitantes. O mesmo resultado atribuido também por decisão da UEFA a um duelo que se disputava a oitocentos kms de distância, na solarenga Marselha, onde o Olympique local se batia com o campeão europeu em titulo. As luzes foram abaixo, o Milan abandonou o relvado e a UEFA declarou o Olympique ganhador. O destino impediria um revival histórico de um duelo que deixou mossa em Belgrado.

10 de Julho de 1986, Belgrado.

A direcção do Crvena Zvezda aponta como técnico da equipa principal Velibor Vasovic. O ex-selecionador jugoslavo começou o projecto de cinco anos com um objectivo claro: reinar na Europa. Durante os cinco anos seguintes a equipa mudaria de técnico cinco vezes, venceria quatro ligas (com uma derrota pontual em 1989) e espantaria o futebol europeu recrutando progressivamente a melhor geração de sempre da história do futebol de um país a desfazer-se. Com a precisão de um relógio as peças foram chegando a tempo, encaixando na perfeição e funcionando sem surpresas.

 

A geração de Sestic, Ivkovic, Elzner, Mrkela e Durovski foi recebendo sucessivos upgrades a partir de 1986.

Chegaram Robert Prosinecki (para substituir o patrão da equipa, o inimitável Stojković) e a sua alma gémea, Jugovic. Explodiram os génios de Mihajlovic, Belodedic e Stojanovic na defesa. O ataque vibrava com as movimentações do proscrito Savicevic e do rebelde Pancev. E a orquestra funcionava de forma perfeita em conjunto.

O estilo de jogo rendilhado dos jugoslavos ganhava outro dinamismo nos grandes palcos europeus. Os passes letais de Prosinecki, talvez o maior embaixador desta geração, encontravam sempre o caminho mais rápido para o golo. A equipa vermelha e branca dominou o campeonato local - apenas com o Dinamo de Belgrado de Boban como rival à altura - e começou a desafiar o status quo europeu.

Em 1988 estiveram a breves instantes de terminar com a lenda do AC Milan de Sacchi antes mesmo de esta ter arrancado. O conjunto eslavo vencia por 1-0 o conjunto italiano, privado do génio de Gullit, quando o nevoeiro invadiu o imenso Marakana levando o jogo a ser interrompido. Quando reatado, os italianos surpreenderam os locais e lograram empatar, selando o apuramento. A desforra ficaria adiada até 1991. O Crvena Zvezda, popularmente conhecido como Estrela Vermelha por cá, estava determinado a reencontrar os bicampeões europeus. Mas aquela noite fria de Março ditou outro destino. A lenda italiana acabava e os jugoslavos, depois de baterem o Bayern Munchen, encontraram previsivelmente na final aquele Olympique Marseille galáctico onde Wadle, Pelé, Papin, Olmeta, Mozer, Tigana e Stojkovic davam cartas. O duelo, agendado para o San Nicola de Bari, passou para a posteridade pelas piores razões. As duas espectaculares formações ofensivas preferiram especular e o espectáculo ficou adiado. O marcador avançava e Goethels, técnico dos franceses, lançou Stojkovic contra a sua antiga equipa. O jogo mergulhou então nos penaltys e o jugoslavo, provavelmente o maior especialista no terreno de jogo, recusou-se a marcar. Não contra os seus.

Os franceses avançaram temerosos. O internacional Amoros falhou o primeiro remate que caiu nas mãos de Stojanovic. Os franceses tremiam. Mas Prosinecki não. Nem Binic, nem Belodedic, nem Mihajlovic... nem Pancev. E foi suficiente. O plano funcionou, a história encontrou o seu último campeão do leste - cinco anos depois do Steaua Bucaresth - e o futebol despediu-se com uma ovação de uma das suas últimas grandes equipas.

 

 

 

Dias depois a guerra e os milhões do Ocidente desmantelaram o histórico clube de Belgrado. Separados, os artistas de Belgrado nunca voltaram a render ao mesmo nível, nem em Espanha, nem em Itália nem em Inglaterra. O clube jugoslavo pagou o preço da destruição do velho gigante de leste e mergulhou na mais profunda depressão. Esta semana, vinte anos depois de ter arrancado a sua mais gloriosa campanha europeia, o clube nomeou a maior glória daquela noite, Prosinecki, como novo Manager. O tempo não volta para trás mas a precisão de relógio do mago de Belgrado tem com vista tempos pretéritos. Só assim se poderá resgatar a chama de um conjunto que rasgou a cortina antes de tempo para mostrar o lado mais belo do futebol.




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Quarta-feira, 15.12.10

Hoje cumprem-se 50 anos da chegada de Eusébio da Silva Ferreira a Portugal. Ontem cumpriram-se 10 desde que Lionel Messi aterrou em Barcelona. Dois nomes que já ganharam merecidamente o seu lugar na história do jogo. Duas aventuras intercontinentais que marcaram uma era desportiva e que explicam também como um jogador na equipa certa e no momento certo pode ser suficiente para definir uma era.

 

 

 

Eusébio tinha cumprido há poucos os 18 anos e chegou a Lisboa escondido sob um falso nome, de mulher, para escapar à vigilância dos dirigentes do Sporting. Passou umas férias forçadas no Algarve e teve de contemplar de longe a primeira grande noite de glória europeia do Benfica, do seu Benfica. Quarenta anos depois um pequeno argentino com um grave problema de crescimento colocou-se nas mãos do destino e com o pai, rubricou num guardanapo de papel a sua tremida assinatura que iria definir toda a sua vida. Duas aterragens sem pompa e circunstância, sem o poder da ribalta das milionárias apresentações do Real Madrid de Florentino Perez, da revolução moral que significou a chegada de Johan Cruyff a Barcelona ou sem a esperança recuperada dos milhares de napolitanos que acorreram a vitoriar Maradona. Não, estes dois humildes da bola chegaram incógnitos e assim ficaram durante meses, até chegar a hora de dizer presente.

Se houve um futebolista que pode ter rivalizado de igual para igual com Pelé e Di Stefano, esse foi Eusébio da Silva Ferreira. Se há jogador hoje que gera facilmente consensos no mundo do desporto, esse é Leo Messi. Dois atletas profundamente distintos na forma de interpretar o jogo mas com demasiadas similaritudes de caracter e historial para serem produto de um mero acaso. Eusébio e Messi marcaram (o argentino ainda o faz) uma era na história do futebol. Porque destilavam genialidades a cada momento no relvado. Mas essencialmente porque aterraram no sitio certo, à hora certa. Porque encontraram os projectos idóneos para crescer e explodir no momento exacto. Porque o Benfica dos anos 60 e o Barcelona contemporâneo foram, na sua medida, os expoentes máximos do futebol de ataque, do futebol espectáculo, do futebol que apaixonava os adeptos onde quer que estivessem. No filme In the Name of the Father, história de um irlandês injustamente acusado de pertencer ao IRA, as paredes de uma prisão britânica de alta segurança estão forradas com posters de Eusébio e galhardetes do Benfica, adorado em terras de sua Majestade desde que vergou as potências espanholas e bateu o popular Tottenham. Hoje Messi é o espelho do herói global, atleta reconhecido e apreciado onde quer que caminhe, com admiradores que vão das ruas de Rosario aos bairros de lata de Bangkok. Ambos tiveram rivais dignos à sua altura. Messi cresceu com Xavi e Eusébio com Coluna. O jovem moçambicano aterrou numa equipa campeã europeia onde gravitavam já grandes nomes (José Aguas, Germano, José Augusto) e grandes promessas (Torres, Simões). O argentino cresceu à sombra imensa de Ronaldinho e Etoo e viu explodir a seu lado o talento inato de Iniesta ou Busquets. Nada é obra do acaso.

 

A história já nos tratou de ensinar mil vezes a vida de um jovem moçambicano que se fez estrela e acabou por se tornar no icone futebolistico dos anos 60, a meio caminho entre o génio inato de Pelé e Di Stefano e o futebol total dos Beckenbauer e Cruyff. Ultrapassou Best, Charlton, Suarez, Fachetti, Garrincha, Gento, Greaves e companhia e pegou num pequeno clube e num pequeno país e fez deles alguém no panorama internacional. As condições daquele Benfica foram inigualáveis. Clube bem estruturado, com importante apoio estatal e financeiro, o clube encarnado aproveitou-se de Eusébio para despegar da luta de galos no futebol luso durante os quinze anos de mandato do marechal luso. Montou uma equipa de talentos à sua volta, explorou-o fisicamente para lá dos limites e afirmou um estilo e um modelo de jogo impar no panorama europeu. Utilizou a "cantera" africana como nenhum outro clube e definiu um projecto que durou até ao final dos anos 70. No meio dessa associação,

Quarenta anos depois, quando o pequeno argentino Messi chegou a Barcelona, a Masia vivia a sua época mais apagada, com os sucessivos mandatos de Louis van Gaal a deixarem para segundo plano o projecto de formação arrancado dez anos antes com Cruyff e Rexach. O desenvolvimento sustentado do jovem, auxiliado por um programa de crescimento hormonal fulcral para a sua sobrevivência como desportista, ocorreu tranquilamente longe dos holofotes. Com ele cresceram os génios de Pique, Fabregas, Iniesta, Busquets, Pedro e companhia, num estilo de aprendizagem que hoje espelha o trabalho de bastidores que há por detrás. Como Eusébio, o argentino foi recrutado novo e no estrangeiro e passou por um processo de assimilação que explica bem as similiaritudes entre a politica daquele Benfica e do actual conjunto blaugrana. Quando se estreou, quatro anos depois, no estádio do Dragão, bem ao lado de um terreno onde Eusébio exorcizou muitas vezes os seus fantasmas com tardes de gala, a formação estava completa. Com professores de luxo e essamentalidade incutida desde cedo, Messi transformou-se e com ele o jogo do Barcelona. O seu encontro com Guardiola funcionou como uma dessas raras simbioses que existe na história do jogo, muito similar à relação entre Michels e Cruyff, mentor do catalão. Pep pegou num jovem já consagrado e fez dele a peça nuclear do seu projecto. Retirou-o da ala, onde já se podia afirmar como  um dos mais completos futebolistas da história, e soltou-o no meio do terreno de jogo. Precisamente como Eusébio.

O luso não tinha posição no terreno de jogo. Num 4-2-4 clássico, Eusébio era a incógnita que destruia qualquer equação rival. Deambulava pelo terreno de jogo a seu belo prazer, associava-se com os colegas do miolo, das alas e da frente de ataque. E quando era necessário, decidia sozinho o que o colectivo era incapaz de fazer. Usava o seu temido arranque, a sua incomum força e o seu remate indefensável. Um estilo hoje mais similar ao do português Ronaldo do que aquele que destila o matreiro argentino, sempre de regate curto, bola colada ao pé, dribles estonteantes e remates colocados, mais em jeito que força, como uma suave brisa em comparação com o tornado africano.

Mas ambos tornaram-se vectores fulcrais na evolução táctica das suas equipas. Messi é hoje tudo  no ataque do Barça. Funciona como falso 9, apesar de estar Villa em campo. Descai para as alas para procurar a velocidade e vem até ao miolo começar o processo criativo que mamou desde pequeno, desde aqueles 13 anos com que aterrou em Can Barça. Por conhecer a história de trás para a frente, sabe onde tem de estar quando a jogada acaba. E por isso marca como poucos jogadores do seu estilo marcaram, aliando a técnica da criação, a diferença da explosão ao espirito certeiro do golo. Exacto, precisamente como...

 

 

 

Há 50 anos a história do futebol português conheceu uma reviravolta inesperado que se materializaria seis anos depois com a presença quase imaculada no Mundial de 66. No curriculum do "rei" Eusébio tinham ficado duas taças europeias, um Ballon D´Or, Botas de Ouro e uma admiração impar no Mundo, habituado a ouvir falar dos feitos de Pelé à distância. Messi continua por aí, a deambular sobre o tapete verde com o olhar perdido no mais abstracto dos sentidos. Depois a bola chega-lhe aos pés, e futebol acontece. Como há 50 anos. Como há 10 anos. Como sempre que a faísca da magia toca enrabietada na superfice da bola. Se na Luz ou se no Camp Nou, se na era gentleman dos 60 ou no exarcebado globalismo de hoje.  Génios e circunstâncias, assim se definem eras.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:33 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Terça-feira, 23.11.10

Longínquo vai o dia em que um jovem Zinedine Zidane passeou o seu precoce talento contra o histórico Salgueiral. Vinte anos depois o Salgueiros continua submergido numa crise sem fim à vista. Perdeu o técnico e a possibilidade de abandonar os escalões regionais. Mas não perdeu a esperança. A "Alma Salgueirista" há muito que está carpida no sofrimento.

Os mais nostálgicos lembram-se da noite em que os franceses do Cannes foram derrotados por uma bola a zero no velho Estádio do Bessa (o saudoso Engenheiro Vidal Pinheiro não tinha para a UEFA condições para albergar o jogo).

Um resultado que não permitiria ao histórico Salgueiros ultrapassar uma eliminação precoce naquela que foi a sua única presença numa prova europeia. Na equipa contrária começava a dar de si um jovem de 19 anos, Zinedine Zidane, que anos mais tarde havia de ser o melhor do Mundo. Mas quem o poder adivinhar? Do outro lado lutava a legião de honra do clube mais popular da cidade Invicta, clube dos mais pobres e desfavorecidos face ao elitismo dos vizinhos da Boavista e das Antas. O trabalho de Pedro, Abilio e companhia não foi suficiente para travar os gauleses. Mas honrou o espirito lutador de um clube pequeno que passou a sua vida a lutar entre a subida e descida de divisão dos principais escalões do futebol luso.

Hoje, vinte anos depois, o Sport Comércio e Salgueiros já nem existe nas provas competitivas. No seu lugar, por culpa das dividas acumuladas pela megalómana gestão de José António Linhares, o clube compete com um novo nome- Salgueiros 08 - nos campeonatos distritais do Porto. Teve de começar do zero como se atrás não houvesse um passado centenário, uma massa adepta fiel e um coração que sofre.

O projecto Salgueiros 08 demorou a gestar-se, enquanto que o histórico "Salgueiral" definhava. Quando arrancou foi retumbante. Subiu em três anos os escalões mais baixos do futebol portuense, lutando contra rivais que nunca disputaram um só jogo nos estádios grandes de Portugal. Até este ano. Estancado na Divisão de Honra da AFP, o objectivo de subir finalmente aos campeonatos nacionais (III Divisão) está já comprometido, com menos de metade da prova cumprida. O técnico, uma velha glória do clube, Renato Assunção (ex-jogador também de Sporting e União de Leiria e irmão do notável cronista desportivo do jornal Público, Manuel Assunção) abandonou o projecto. Tinha rendido o histórico capitão Pedro Reis, arquitecto da dupla promoção dos encarnados. E deixa um cenário complicado de gerir, com o espectro da despromoção demasiado presente.

 

Este Salgueiros é um clube profissional num mundo amador. Mas sem dinheiro nem os mais profissionais dos amadores resistem.

O conjunto que compete na prova da AFP com equipas do Grande Porto (incluido o Felgueiras, que também passou pela I Divisão a meados dos 90) está agora no 15 posto, a três apenas da despromoção. E com menos 20 que o líder incontestado, o Infesta. Na última ronda, num relvado pelado, frente ao modestíssimo Vilarinho, a equipa salgueirista esteve a ganhar 2-0. Em quinze minutos deixou-se bater por um rival que luta para não descer. Golpe demasiado duro para um projecto que ambiciona estacionar num prazo de quatro anos na II Liga, de onde caiu há cinco anos por não ter condições financeiras para suportar os pagos que levaram à penhora de quase tudo o que tinha a ver com o clube.

Vendidos os terrenos do Vidal Pinheiro (estádio histórico do futebol luso hoje transformado em paragem de metro) e com o delirante projecto do recinto de Arca d`Água no papel, a equipa joga em terrenos emprestados na área metropolitana portuense. Sem casa, sem profissionais a corpo inteiro mas com alma, assim segue a luta.

Com a subida à III Divisão quase hipotecada, o esforço da direcção passa por garantir, pelo menos, a manutenção. Perder um ano mais entre descidas e subidas é algo que este projecto não consegue suportar. A fuga em frente para sofrer um abrandamento, nunca uma travagem em seco. Lembrando-se do que sucedeu ao Boavista, velho rival com quem disputou imensas lutas no Bessa e Vidal Pinheiro desde os anos 50, o Salgueiros sabe que os campeonatos amadores da FPF são mais um problema do que uma solução. Saltar divisões e etapas é fundamental numa equipa sem estrelas, com muitos jovens e sem experiência alguma.

Lembrando as origens do histórico Salgueiral é fácil que o caminho sempre foi feito com poucos tostões no bolso. Os fundadores da equipa cantaram cantigas de Natal para juntar dinheiro para comprar a primeira bola, em 1911, e escolheram vestir de vermelho para não serem confundidos com os rivais azuis da cidade Invicta. A partir daí os seus caminhos correram campos diametralmente opostos. Os mais velhos estão habituados ao sofrimento, os que cresceram com o clube como um fixo da I Divisão desesperam e os mais novos há muito perderam o conceito de identificação. Mas o mural da Alma continua de pé e a luta é algo a que não se renuncia em Paranhos.

 

Num clube por onde passaram figuras históricas do futebol luso como Sá Pinto ou Deco, talentos como os de Abilio e Edmilson, homens de luta da talha de Chico Fonseca, Pedro ou Alberto Augusto e guardiões internacionais como Silvino ou Pedro Espinha o passado conta e muito. Já não há o dedo táctico de Zoran Filipovic, Carlos Manuel ou Mário Reis mas o futuro continua a ser visto com uma dose de optimismo que só a fanática Alma encarnada é capaz de sentir. Ninguém sabe onde estará o Salgueiros daqui a dois ou três anos. Mas a memória de um clube popular como poucos em Portugal perdurará eternamente.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:03 | link do post | comentar | ver comentários (5)

Quinta-feira, 11.11.10

Na época dourada do futebol alemão e das taças europeias conquistadas pelo Bayern Munchen do torpedo Muller e do kaiser Beckenbauer havia uma figura que brilhava por direito próprio numa constelação só sua. Gunter Netzer, profeta do futebol estético, foi a resposta germânica ao génio de Cruyff e um verdadeiro marechal do bom gosto na ponta dos pés.

Conta-se muitas vezes que um dia o Borussia Monchenlagdbach foi jogar ao Estádio Chamartin contra o poderoso Real Madrid. Os directivos do clube merengue tinham ouvido maravilhas de um tal Netzer, alemão alto e loiro, com um talento fora do normal. Na bancada presidencial tornavam-se os directivos ao lado do imponente Santiago Bernabeu para lhe dizerem maravilhas do homem que jogava com o número 4, o que tinha sido atribuido na ficha a Netzer. O presidente, que gostava pouco de conselhos alheios, no final do jogo virou-se para os dirigentes merengues e rematou a tarde com um "O vosso número 4 é uma boa merda mas quero contratar o tipo que joga com o 6, encantou-me". Era Netzer, com a camisola trocada. O seu talento, como o algodão, nunca enganou ninguém.

Para muitos, a quase quarenta anos de distância, o seu génio nunca teve comparação no futebol germânico. Nem Seeler, nem Walter, nem Muller, Rummenige, Mathaus ou o próprio Kaiser. Nenhum parecia ter o toque de classe que o organizador de jogo que deu o pontapé de saída à equipa mais exitosa do futebol alemão (que durante 12 anos só falhou a final de um torneio, a do Mundial de 78). Quando a guerra dava os seus últimos suspiros, o jovem Netzer nascia num dia de bombardeamentos em Monchenlagdbach. Viveu as agruras do pós-guerra e o fausto da reconstrução. Com 18 anos foi chamado à primeira equipa do F.C. Monchenlagdbach, onde chamou à atenção do grande clube da cidade, o Borussia. Com 20 anos era já titular absoluto na formação verde-negra do oeste da RFA. E muito cedo começou com os seus recitais de pura música clássica.

 

Chamado pela primeira vez à Mannschaft com 22 anos, em vésperas do Mundial de 66, o então jovem médio centro falhou a lista dos eleitos finais, preterido então por outra estrela em ascensão, Franz Beckenbauer. Alheio às disputas estelares tão do agrado do "kaiser", Netzer continuou a dar os seus festivais no relvado. Quatro anos depois fez história ao capitanear o Borussia ao primeiro titulo na Bundesliga. No ano seguinte repetiu o triunfo, no primeiro clube a vencer a prova sem derrotas. Numa equipa onde deambulavam génios como Jupp Heynckhes, Berti Vogts e Herbert Wiemer, Netzer encaixava como uma luva. A equipa orientada por Hennes Weisweiler era o reclame perfeito do futebol atractivo que inspirava a Europa. O rival estético do ascendente Ajax Amsterdam, os de Monchenlagdbach tiveram as provas europeias como assinatura pendente. Netzer, por outro lado, começava a ganhar o seu espaço no futebol alemão. Depois da ressaca do Mundial de 70 tornou-se na trave-mestra da equipa formada por Helmut Schon que dois anos depois venceria o primeiro Europeu de Futebol para os alemães. Melhor jogador do torneio, Netzer vencer pela primeira vez o prémio de Melhor Jogador Alemão (repetiria no ano seguinte), perdendo para Cruyff o Ballon D´Or da France Football (tal como sucederia um ano depois). Quando os problemas pessoais com o técnico Weisweiller se tornaram incontroláveis, o médio, pura e simplesmente, decidiu partir. Despediu-se com uma exibição épica saindo do banco, frente ao FC Koln, na final da Taça da Alemanha de 73 (2-1, com dois golos seus) e partiu para Madrid. Aí esperava-o um público desconfiado e um presidente autoritário que vivia o ocaso da sua grande carreira. Resposta do clube madrileño à contratação de Cruyff pelo Barcelona, num duelo estético e mediático que hoje se podia perfeitamente equiparar ao que existe entre Messi e Ronaldo, o médio tornou-se elemento nuclear na equipa merengue. Perdeu o primeiro titulo para os blaugrana, numa noite inesquecível do holandês, mas desforrou-se conseguindo os dois titulos seguintes numa equipa que já contava com Paul Breitner e que viria a receber outro alemão, Ule Stilike. Mas nenhum deles deixou tantas saudades como o marechal louro da chuteira de tamanho 47, tão estranho para os espanhóis que todo o seu calçado vinha importado da RFA.

Relegado pelo seu amigo Overath para um segundo plano no Mundial de 74, o génio alemão fartou-se da fria Madrid dos últimos suspiros do franquismo e quando acabou o contrato rejeitou a renovação e partiu para a tranquila Suiça onde rematou a carreira ao serviço do Grashoppers. Quando acabou a carreira pôs o seu talento ao serviço do Hamburg SV tornando-se no Director Desportivo responsável pelos três titulos e pela Taça dos Campeões ganhos pela equipa do Norte. Depois reciclou-se em comentador televisivo e cronista num dos principais diários germânicos. No papel, como no relvado, continua a destilar as suas memórias e pensamentos, relembrando os dias em que cirurgicamente decidia jogos, ligas e taças com a precisão de um marechal que não gostava de ganhar se não o fazia com um toque de classe.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Terça-feira, 02.11.10

A vitória por 2-0 frente ao surpreendente Mainz confirma as grandes sensações dadas no arranque de época por um ressuscitado Borussia Dortmund. O campeão europeu de 1996 ainda está a anos-luz daquela fenomenal equipa orientada por Ottmar Hitzfeld, mas depois de ter descido aos abismos da crise financeira, é impactante ver a raiva que destila cada grito de golo no mágico Westfallenstadion. O Dortmund quer voltar a ser um grande.

A época passada já tinha aberto a perspectiva de um Dortmund renascido.

O conjunto histórico do Rhur superou as expectativas e logrou alcançar um posto europeu à frente de favoritos como Stuttgart, Hoffenheim ou Wolfsburg. Um regresso aos palcos europeus conquistado com um brilhante sprint final onde começou a ganhar forma a legião de jovens lobos que o técnico Jurgen Klopp preparou ao longo da época. Mario Gotze, Neven Subotic, Nuri Sahin, Matts Hummels, Kevin Grobkreutz, Sven Bender e Lucas Barrios começavam a encontrar o seu lugar na estratégia do flamante técnico germânico. O público entusiasta do Westfallenstadion voltou a rugir como antigamente. E os resultados apareceram.

O fantasma do final, que rondou o clube a mediados da década e que obrigou até à venda do estádio e do seu naming - hoje conhecido oficialmente como Signal Iduna Park - parece um pesadelo distante. A equipa joga bem, ganha e recupera a ilusão perdida. Aproveitando a onda de regeneração que vive a Bundesliga, Klopp aproveitou o exemplo da equipa nacional e lançou uma série de jovens promessas que começam a ser cada vez mais certezas. Sem dinheiro para gastar no mercado (o japonês Kagawa foi a única inclusão sonante), foi preciso usar a imaginação. E o futebol de formação. Daí surgiu o possante Gotze, o avançado da moda na liga germânica. Mas também a classe do genial Sahin, o jovem turco-germânico que muitos comparam já com Ozil (apesar de Nuri preferir actuar pela selecção otomana), e a rapidez de Grobkreutz. Repescado Hummels do Bayern Munchen e suficientemente amadurecidos os talentos de Subotic e Barrios e o cocktail de talentos ganha forma. E sentido.

 

O arranque de época do Borussia Dortmund tem superado a mais ambiciosas expectativas.

Relegado inicialmente para um segundo plano depois do espectacular começo do modestíssimo Mainz, a vitória no passado fim-de-semana sobre o conjunto liderado pelo jovem talento Lewis Holtby confirmou a superioridade dos amarelos. No estádio com melhor média de assistências do futebol europeu (superando inclusive Old Trafford ou o Camp Nou), a emoção está em alta. Um triunfo por 0-2 no terreno do rival mais directo pela liderança (os grandes nomes, este ano, estão bem mais longe), e com classe. Aos 25 minutos já Gotze tinha aberto a contagem. Aos 67 foi a vez do paraguaio Lucas Barrios, uma das revelações da época transacta, a fechar a contagem. A passe do inevitável Gotze está claro. Por essa altura já Weidenfeller tinha parado o frouxe penalty de Polanski e acabado com a frouxa reacção do até então lider. Pelo meio o jogo aberto e ofensivo de Klopp com Kagawa no apoio directo à dupla de dianteiros e com Bender e Sahin, a jovem dupla de moda, a pautar o ritmo do miolo. A velocidade fica a cargo de Grobkreutz, que deixou várias vezes em apuro a defesa do desastrado Bungert. Um 4-4-2 bastante móvel que está de moda na Bundesliga e que consagra Klopp como um dos treinadores do momento. O homem que perdeu nas duas últimas jornadas a possibilidade de devolver o Borussia à Champions League já afirmou várias vezes que há que ir passo a passo, relembrando o que sucedeu com o Wolfsburg ou o Sttuttgart, que pagaram bem caro o preço de tentar dar ums alto maior que as próprias pernas. Agora é esse o desafio máximo do clube do Rhur.

A liderança parece inquestionável e até que os favoritos decidam aplicar-se a fundo, com o Bayern Munchen à cabeça, a situação está totalmente sob controlo. Mas a equipa também milita na Europe League onde quer fazer boa figura, apesar do grupo complicado que o sorteio destinou aos germânicos. E há o receio do mercado de Inverno ser um verdadeiro pesadelo para uma equipa de jovens promessas mas ainda com buracos a tapar no orçamento. Muitas curvas no trajecto a precorrer até Maio, até ao suspiro final.

Sonhar com um regresso aos titulos não é impossível para a equipa de Klopp. O plantel é curto mas de qualidade e a explosão momentânea de várias das suas pérolas (o estado de forma de Gotze, Subotic e Bender é notável) tem ajudado a compensar as naturais debilidades do plantel, especialmente nas posições mais recuadas. Resta saber se o Dortmund tem estofo para aguentar a maratona até ao fim ou se o espantoso arranque acaba por se tornar em mais um passo seguro dado na dificil reestruturação de um gigante adormecido.  



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:35 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Segunda-feira, 25.10.10

Houve uma época em que viajar à "Banheira" de Roterdão era mergulhar no próprio Inferno. Hoje quem vive escaldado debaixo da terra são os adeptos do Feyenoord. O primeiro grande do futebol holandês vive há largos anos uma crise financeira que ameaça já a própria sobrevivência do clube. A derrota humilhante por 10-0 em Eindhoven apenas reforça o inevitável. O gigante de Roterdão fez-se imensamente pequenino.

Em 1983 o Feyenoord perdeu por 8-2 contra o PSV. Naquela equipa militava já um jovem flamante Gullit. A derrota destrozou as opções do clube na corrida ao titulo mas a curto prazo significou um "reboot" da equipa. Dois anos depois o clube de Roterdão dava a volta por cima e fazia história. Mas aquela tarde foi como uma pequena excursão ao inferno.

Foi a última vez que o gigante de Roterdão viveu uma noite de enfarto. Até hoje. A era de ouro já tinha passado mas a pouco e pouco os de Roterdão foram recuperando o seu prestigio perdido. Mas nada era como antes. Em 1969 os vermelho e brancos tinham feito história ao sagrar-se campeões europeus, o primeiro clube do norte da Europa não britânico a lograr um feito que marcaria tendência para a década e meia seguinte. Foi o inicio de uma era de quatro ceptros europeus consecutivos para a Holanda. Mas seria o único do Feyenoord. Superado pelo Ajax de Johan Cruyff, os de Roterdão passaram a um inevitável segundo plano interno e europeu. Mesmo assim reconquistaram o ceptro holandês várias vezes durante a década e em 1974 voltaram a uma final europeia, a Taça UEFA, ganha diante do Tottenham Hotspurs. Em 1984 o clube viveu a sua última grande época. Com Johan Cruyff e Ruud Gullit no ataque, os de Roterdão fizeram a dobradinha pela última vez na sua longa história e quebraram uma fome de dez anos de titulos domésticos. A ascensão financeira do conjunto patrocinado pela empresa Philips, o PSV Eindhoven, durante os inicios dos anos 80 foi um duro golpe para o conjunto do imenso De Kuip. O PSV sagrou-se campeão europeu em 1988 e o Ajax voltou a vencer em oito anos três provas europeias (a Taça da Taças em 1987, a Taça UEFA em 1991 e a Champions League em 1995), relegando definitivamente Roterdão para o terceiro posto na lista dos grandes clubes orange. Uma queda acompanhada por graves problemas financeiros que foram abalando as estruturas do "gigante adormecido". A equipa especializou-se em ganhar Taças da Holanda (sete em nove anos) vendo-se no entanto incapaz de acompanhar o ritmo dos eternos rivais na Eredivise. Em 1999 a equipa surpreendeu tudo e todos e voltou a sagrar-se campeã nacional. Pela primeira vez desde 1984. Pela última, até hoje.

 

Não foi na majestuosa "banheira" de Roterdão. Foi no estético Philips Stadion, transformado em inferno durante 90 minutos.

O Feyenoord chegou a Eindhoven com problemas. Seguia 14º (numa liga de 18) e sem grandes perspectivas de voltar a lutar por um posto europeu, uma realidade cada vez mais utópica para uma equipa habituado às altas andanças. Os graves problemas financeiros dos últimos anos significaram a aplicação de uma politica de zero investimento. O Feyenoord sobrevive, hoje, graças às suas pérolas de formação. Luc Castaignos e Georginio Wijnauldum têm as horas contadas no De Kuip. O clube sabe que terá de os vender para abater o gigante passivo mas sem as duas grandes promessas do futebol holandês a situação adivinha-se ainda mais critica. Ontem estavam os dois no relvado. De pouco lhes valeu.

O PSV, lider invicto da prova com 21 pontos, estava na máxima força para o derby. Ao intervalo os de Eindhoven já venciam por 2-0, com golos de Jonathan Reis e Ibrahim Afellay. A expulsão de Leerdam facilitou o trabalho aos eternos rivais mas foi a apatia dos jogadores de Roterdão que acabou por fazer toda a diferença. No segundo tempo o PSV marcou oito golos em....40 minutos. O brasileiro Reis voltou a fazer o gosto ao pé por duas vezes (47 e 59), e o sueco Toivonen (49), os holandeses Lens (55 e 87) e Engelaar (69) e o hungaro Dzsudzsak (62 e 77) juntaram-se à festa. Perante o olhar impávido dos cinco mil adeptos do Feyenoord que não sabiam como reagir perante o desmoronar histórico da sua equipa. A maior derrota de sempre, uma goleada imprópria, até para uma liga onde os golos costumam fluir em abundância. 10-0, impensável, inevitável, bem real. Um aviso muito sério para o duro amanhã de uma equipa que já roça os postos de despromoção com um quarto da época já ultrapassada.

Sem rumo, o projecto do Feyenoord começa a entrar numa perigosa espiral. Ausente da Europa, ausente dos primeiros postos, suplantado pelos renovados projectos dos eternos rivais e pela ascensão de equipas sem um passado glorioso mas com um sustentado projecto de futuro, o clube de Roterdão começa a correr sérios riscos de sobrevivência. Entre planos megalómanos de um novo estádio de 130 mil lugares, os adeptos desesperam. A equipa corre o risco de descer de divisão, pela primeira vez na sua centenária história. Perder 10-0 pode ser só uma anedócta. Mas é também um simbolo. O inferno desceu à terra em Roterdão.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:25 | link do post | comentar

Sexta-feira, 03.09.10

Pediu uma vez que o deixassem sonhar mas a memória atraiçoou-o e reservou-lhe um final que não se merecia. José Torres, o eterno "Bom Gigante", figura chave do futebol luso, faleceu hoje aos 71 anos, depois de uma longa e perdida luta contra o Alzheimer. Passou pela era dourada do futebol luso como uma das suas máximas estrelas acabando por testemunhar o final de um dos maiores pesadelos da história do futebol português.

Uns recordarão o Torres técnico, e as suas esperançosas declarações previas à viagem de Estugarda que garantiu o histórico regresso de Portugal a um Mundial. Outros lembram-se dele no primeiro Campeonato do Mundo de Portugal, dos seus golos, assistências e gestos técnicos primorosos. Em qualquer caso, Torres foi uma figura impar.

O ponta de lança que o SL Benfica contratou em 1959 ao Torres Novas fez parte da equipa encarnada que dominou por completo o futebol português nos anos 60. A sua altura (media 2 metros e 3 cm) garantiu-lhe o apelido que o eternizaria, mas a verdade é que durante três anos foi presença mais assidua na equipa de reservas do que no onze tipo daa equipa treinada por Bella Guttman. Depois do triunfo europeu de Berna, Torres passou a ser figura chave na estrutura ofensiva encarnada, rendendo a pouco e pouco o histórico José Águas. Ao lado de Eusébio, António Simões e José Augusto, compôs a mágica dianteira que venceu seis ligas nacionais em oito anos e chegou a três finais da Taça dos Campeões Europeus, todas perdidas. Na sua primeira época como titular absoluto apontou 26 golos, o que lhe valeu então a Bota de Prata, prémio que não voltaria a vencer apesar de ter estado perto dos números atingidos pelo seu parceiro de ataque, Eusébio.

Em 1963 Torres foi pela primeira vez chamado à selecção nacional, onde rapidamente reeditou o quarteto ofensivo que maravilhava o estádio da Luz. Com essa linha atacante Portugal chegou a Inglaterra e tornou-se no conjunto revelação do torneio. Durante a prova Torres sagrar-se-ia como o segundo melhor marcador da equipa portuguesa, com 3 golos, só atrás de Eusébio. No final da década de 60, com as chegadas de Toni e Artur Jorge, começou a revolução geracional que ditaria o final da etapa do "Bom Gigante" na Luz. Determinado a demonstrar a sua valia, o dianteiro rumou ao Vitória de Setúbal, então orientado por Fernando Vaz.

 

Em 1971 chegou ao Sado onde disputou quatro épocas com os sadinos, conseguindo aí as suas últimas convocatórias para a equipa das Quinas, despedindo-se num Portugal-Bulgária de 1973, curiosamente no mesmo dia que os seus eternos parceiros, Simões e Eusébio. Depois da aventura em Setúbal, Torres retirou-se definitivamente do futebol ao serviço do Estoril-Praia, em 1980. Aí arrancou igualmente a sua carreira como treinador principal.

Orientou o Estrela da Amadora, Varzim e Boavista antes de ser chamado, surpreendentemente, em 1984 para o cargo de seleccionador nacional. A Federação Portuguesa de Futebol procurava um técnico de baixo perfil depois dos graves problemas vividos pelo quadriuvirato composto por Toni, Morais, José Augusto e Cabrita durante o Europeu de França. A escolha do simpático Torres tinha como principal propósito, desanuviar as tensas relações entre a FPF e os jogadores, e entre os atletas do Benfica e FC Porto. Um trabalho nada fácil que teve de ser compaginado com a dura qualificação para o Mundial de 1986. Depois de vários resultados adversos, Portugal beneficiou da sorte, com a derrota da Suécia diante da Checoslováquia o que levou o técnico a proferir a célebre frase "deixem-me sonhar" à partida para Estugarda. Portugal precisava de ganhar à já apurada RF Alemanha e assim o fez, com um remate monumental de Carlos Manuel. Conseguido o apuramento, voltaram os problemas. Em Fevereiro de 1986 começa a gestar-se o que viria a ser a base do caso Saltillo, circunstância em que o seleccionador nunca soube impor a sua voz. Falhou como o mediador que a FPF e os jogadores precisavam e falhou depois no terreno de jogo. Após a vitória inaugural contra a Inglaterra, num jogo em que Portugal foi claramente inferior, e das declarações explosivas de Paulo Futre, o seleccionador perdeu o controlo da situação e Portugal viu-se superado por Polónia e Marrocos. À chegada a Lisboa a equipa federativa não lhe perdoou a falta de apoio no conflito com os jogadores e Torres foi despedido.

A partir daí a sua carreira tornou-se errática até que abandonou, definitivamente, o futebol quando lhe foi diagnosticado um principio de Alzheimer que marcou profundamente os seus últimos anos de vida. A morte de um dos melhores pontas-de-lança do futebol marca assim o dia que deveria significar um renascimento da equipa nacional por quem tanto lutou. Quanto a José Torres, o jogador e o técnico, há muito que garantiu o imortal lugar na história do nosso futebol. Como poucos lograram antes dele.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:22 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Domingo, 30.05.10

Depois de França ter aberto o Mundial a 32 equipas, a FIFA decidiu começar a emendar o atraso de décadas e levou, pela primeira vez, o torneio ao continente asiático. A dupla Coreia do Sul-Japão emergiu como organizadora e montou um torneio onde houve pouco futebol, menos público mas muita emoção. No final o Pentacampeonato ficou no pano de fundo de uma prova marcada pela arbitragem e pelas misteriosas aspirinas dos velozes coreanos.

 

Na fase de grupos caiu a melhor selecção do Mundo. Aparentemente. Cairam também argentinos e portugueses. A Holanda nem viajou. De um só golpe a ordem establecida de favoritos começou a inclinar-se para o campo das improbabilidades. E assim foi até à inédita final de um Brasil surreal e uma Alemanha demasiado cinzenta para ser verdadeira. Dessa final de Ronaldo, e de poucos mais, ninguém se lembra. Da campanha de ambas formações também não há vivalma que se recorde. Da forma como o Brasil superou a Bélgica, passou por cima da frágil Inglaterra e acabou por derrotar - pela segunda vez - a surpreendente Turquia. Dos alemães a história lembrará apenas os golos de Klose ao passar por cima de Paraguai, Estados Unidos e Coreia do Sul. Paramos aqui. Na selecção coreana. A sensação da prova. Por mil e uma razões.

Quando o torneio arrancou poucos apostavam nas equipas da casa. Eram selecções historicamente frágeis e sem historial de sucesso. No entanto as fichas estavam todas no Japão de Nakata. Ninguém pensou na Coreia de Hiddink. O mago holandês. A pouco e pouco, no entanto, a balança foi mudando. Os coreanos mostraram-se aguerridos. Estranhamento velozes. Irredutivelmente resistentes. E sempre com um piscar de olho ao homem de negro de turno. Assim, a passo e passo, fizeram história. Que provavelmente nunca igualarão.

Primeiro empataram com a Polónia. Resultado normal. Logo a seguir foram vencer os Estados Unidos, que por sua vez tinham espantado o Mundo ao bater um débil, eternamente débil, combinado português. No jogo final o empate servia às duas equipas. João Vieira Pinto deu uma ajuda, Park Ji Sung fez história. Portugal para casa, Coreia do Sul em frente. No duelo dos Oitavos começou a outra parte da história.

 

Na primeira fase poucas equipas tinham realmente entusiasmado. O Brasil mostrou-se eficaz e a Espanha voltou a dar o seu melhor rosto. A Itália, sempre presente, surgia como uma possível outsider graças aos golos de Del Piero e Vieri. Relembrando o feito dos vizinhos do norte, em 1966, os coreanos lograram bater o onze italiano por 2-1. Com a diferença de que, por várias vezes, a equipa de arbitragem foi negando o empate à azzurra depois da Itália ter começado o jogo praticamente a vencer. Começava um debate cruel que, a seguir, levou a Espanha a voltar a cair antes de tempo. O jogo foi um longo e agonizante duelo com vários foras-de-jogo e penaltys por assinalar a favor dos espanhois. Estoicos, os coreanos aguentaram até aos penaltys. Aí a malapata voltou a levar consigo o exército castelhano para casa. E pela primeira vez uma equipa asiática cometia o feito de chegar até às meias-finais. Tudo podia acontecer. Em Seul sonhou-se demasiado. Do outro lado, apesar de cinzenta, estava a Alemanha. Uma equipa que não entende de arbitros ou favoritismos nem de misteriosas aspirnas. O cinismo alemão funcionou, o sonho coreano terminou.

 

O Brasil agradeceu as ajudas externas. Sem grandes rivais pelo caminho suou apenas o necessário e indispensável. Rivaldo esteve a serviços minimos, Ronaldinho ainda não era ele e Ronaldo ia facturando rumo à história. Chegado o dia final já ninguém se lembrava do Senegal, da Turquia ou até mesmo do onze coreano. Mas poucos queriam lembrar-se desde escrete que acabou por conquistar o histórico Penta. O futebol recebeu um fraco favor da FIFA nesta viagem ao Oriente e jurou não voltar a viver tamanha aventura. Agora prepara-se para mergulhar em África.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:34 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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