Desde aquela tarde quente de 1958 que o futebol argentino vive numa encruzilhada moral sem solução à vista. O fantasma de La Nuestra continua omnipresente a cada mandato e nem profetas e messias são capazes de criar uma sensação de continuidade e estilo no jogo da albiceleste. A Argentina sofreu na carne a ousadia de Zubeldía e Billardo e a utopia de Menotti e Bielsa mas os hinchas das pampas continuam sem saber a que joga a sua amada Albi.
Na ditadura da sorte pouco há a fazer.
Um penalty acabou com o billardismo quando este já cheirava a mofo. Outro penalty impediu Pekerman de escapar com vida a um dos jogos mais tristes de que há memória da albiceleste. E outro penalty, o de Tevez, acabou pacientemente com o sofrimentos dos hinchas argentinos. Porque, como o abate de um animal moribundo, esta equipa da Argentina precisava que a deixassem partir em paz. A derrota menos dolorosa permitiu a Messi sair aplaudido, a Sergio Batista continuar com o posto e aos argentinos a continuarem a sua própria via crucis moral. Nem no seu próprio torneio se livram desse fantasma de mais de 50 anos.
A sociedade argentina é, por defeito, a mais freudiana de todas as sociedades. Um dos mais belos e mais fascinantes países do mundo, a Argentina é também um quebra-cabeças sem solução, um desenho de Mafalda sem resposta. E o seu futebol está deitado no divã da moralidade há meio século. Passa da depressão à euforia de forma vertiginosa e muitas vezes encontramo-lo submergido num estado quase catatónico. Passou do estupor moral da brutalidade à admiração colectiva de um futebol que se assumia de esquerda e de todos. Conceitos misturados como só os argentinos são capazes. De tudo, menos de responder a essa imensa dúvida moral e existencial que os azota há tanto tempo. A invenção do Cinco, esse sacrificado jogador que a partir de então teve de carregar o peso da organização da selecção encontrou o oposto na glorificação do Enganche, do Diez, o artista, o último pantomino. Uma posição que só existe, de forma pura, no vocabulário futebolístico das pampas desde os dias de Onega até à morte lenta e dolorosa do mítico Riquelme. Nesse Mundial de 1966 a Argentina descobriu o 5 (Rattin) e o 10 (Onega) mas, sobretudo, percebeu que o sistema e o individuo viviam (e viveriam) uma relação de amor ódio. 40 anos depois na Alemanha verificou-se, uma vez mais, o mesmo confronto moral. Pekerman vencia, estava perto de eliminar a anfitriã, e no momento da dúvida preferiu retirar o 10 (Riquelme) e lançar um segundo 5 (Cambiasso) para acompanhar o titular (Mascherano). Foi o confirmar da morte do sistema histórico que Maradona enterrou ao tentar transformar Lionel Messi num falso Enganche, e que Batista confirmou ao lançar o genial Javier Pastore para o anonimato do banco. Com uma equipa partida os argentinos olhavam para o herdeiro de Onega, Ardilles e Riquelme e desesperavam. A que joga realmente a Argentina?
15 de Junho de 1958. O dia que mudou o rosto do futebol argentino. Ponto final.
Nessa gloriosa tarde de sol o mito de La Nuestra chegou ao fim debaixo de uma estrepitosa goleada (6-1) imposta pela modesta Checoslováquia. Os argentinos chegaram à Suécia como campeões continentais, sem os seus "angeles de cara negra" mas com a sensação de superioridade que habitualmente destrói as grandes equipas. Foi o seu pior Mundial de sempre, rematado naquela tarde por um combinado checo que nem se apurou para a fase seguinte. Quando voltaram a casa os jogadores argentinos sofreram humilhação após humilhação e o país renegou a herança cultural da Nuestra, a mentalidade de futebol de ataque que arrancou na década de 20 e que se manteve vigente durante quase três décadas.
Com o final da era de ouro chegou a época das trevas. Osvaldo Zubeldía transformou-se no Fausto do futebol argentino. Vendeu a alma ao diabo, moldou o seu Estudiantes de la Plata numa máquina de vencer e destroçou por completo o ideário artístico dos albicelestes. Definiu o 4-4-2 como táctica base, com o 5 e 10 no miolo como elementos chave na balança mas, sobretudo, deu ao jogo dos argentinos esse carácter de dureza e violência que ainda hoje subsiste. As alfinetadas dos defesas, as entradas dos médios centros e a falta de escrúpulos dos dianteiros valeram vitórias mas, sobretudo, criaram escola. A Argentina nunca mais se esqueceu que há uma forma feia de ganhar e mesmo quando surgiu o Hurácan de Menotti, o profeta da beleza, houve quem renegasse do ideário ofensivo e socialista do mítico técnico de Rosário. Menotti, génio como poucos, defendeu um regresso às origens mas pelo caminho pescou em Zubeldía algumas das ideias que mudaram o rosto, definitivamente, do futebol albiceleste. A sua selecção de 1978 era uma verdadeira mistura entre o talento (e com Maradona de fora, bem longe do ideário corajoso do Brasil de 58 entregue a outro menino genial, Pelé) e a força bruta. Um ideário que podia ser socialista mas que se integrou à perfeição no ritmo dictatorial de Videla, nos treinos intensos, nas vitaminas tomadas até à exaustão e nas vitórias polémicas que levaram a equipa da casa até ao seu primeiro titulo Mundial.
Menotti devolveu o orgulho estético aos argentinos mas nunca soube retirar essa picardia zubeldiana. O fracasso do Mundial de 82, com Maradona perdido no esquema do seleccionador da mesma forma que Messi não se encontra cómodo hoje, abriu portas a uma nova mutação genético, um regresso a um passado recente. Com Billardo chegou a cara mais suja do jogo da albiceleste, o lado mais provocador e violento do verdadeiro herdeiro de Zubeldía. O homem que inventou o 3-5-2 transformou o jogo numa batalha, os seus jogadores em legionários e o seu maior talento individual, num guerreiro de proporções mitológicas. Maradona não venceu sozinho o Mundial de 1986 porque ao seu lado havia uma máquina bem oleada para o proteger, mas foi o único que soube transmitir um pouco de perfume futebolístico a um país que perdia rapidamente qualquer traço de conexão com o futebol arte que sempre se aplaudiu na cancha. Quatro anos depois a Argentina foi ainda mais violenta e ainda mais decepcionante, agora que Maradona, também ele, tinha perdido a sua faceta artística. Billardo foi-se mas Basile continuou o seu legado e nem Bielsa, esse louco, soube romper com o malefício ideológico. O seu 3-5-2 era diferente do utilizado pelo Narigón, entregue à classe dos seus melhores artistas, mas até estes tinham perdido a magia. Quando Riquelme, desaparecido em Berlim, foi substituído e no seu lugar não entrou Saviola nem Messi (nenhum deles um Enganche puro) percebeu-se que a Argentina tinha chegado a uma encruzilhada final.
Desde então o problema deixou de ser o sistema táctico (que passou do 4-2-3-1 ao 4-1-3-2 ao 4-3-3), do lote de jogadores ou do seleccionador de turno. Batista não sabe a que joga a sua Argentina tanto como qualquer hincha. É um problema mental que asfixia o futebol de um país perdido em mil e um problemas do qual o futebol é apenas mero espelho. Contar com a suma individualidade, como é Messi, não é suficiente porque há muito que para os argentinos, ao contrário dos brasileiros, o sistema se tornou mais importante do que o homem. Quando enterrou o espírito da La Nuestra a Argentina enterrou os seus Messis se estes não se vissem rodeados de um esquema que atirasse para o campo a garra, violência e determinação dessa era pós-zubeldiana. Ardilles encontrou-o em 1978, nesse acosso constante que foi o Mundial videliano, e Maradona sentiu-o a cada passo que dava pelos relvados do México. Hoje sem sistema, sem rumo e, sobretudo, sem saber a que joga, a Argentina continua a ser uma presa fácil. O futebol da individualidade há muito que sucumbiu ao futebol colectivo. Messi sabe-o melhor que ninguém porque o seu melhor rosto vê-se quando joga na equipa que melhor sabe trabalhar o espírito corporativo do jogo. A sul do rio La Plata a longa sessão no divã continuará, talvez por mais 100 anos de solidão...
Nas sondagens e listados oficiais sobre os grandes treinadores da história ele nunca aparece. Não surpreende. O desconhecimento na era da globalização é maior do que possa imaginar e o nome de Maslov continua a ser um mistério para muitos. O homem que definiu o futebol contemporâneo morreu sem nunca ter passado pelo passeio da fama, mas 50 anos depois o seu legado é cada vez mais evidente. Talvez nunca tenha havido um treinador tão influente na história do jogo...
A última vez dói sempre mais. A de Viktor Maslov como treinador do Dynamo Kiev deve ter doido mais ainda.
Narra Jonathan Wilson no seu essencial Inverting the Pyramid, que o técnico moscovito foi despedido no hotel de concentração do Dynamo Kiev aquando de uma viagem a Moscovo para defrontar o Spartak local. No final do jogo a equipa saiu do estádio num autocarro rumo ao aeroporto. Ninguém falava. A meio caminho o autocarro parou diante de uma estação de metro. Maslov foi convidado a sair. Baixou pesarosamente as escadas e acenou aos seus jogadores. Chorou. Nunca o tinham visto chorar.
A cena é real e significou um ponto final na carreira do mais influente treinador do futebol moderno ao serviço do clube que serviu de balão de ensaio para os seus esquemas futebolísticos. Maslov ainda viria a vencer uma Taça da URSS com o Torpedo de Moscovo, dois anos depois, e um campeonato com os underdogs arménios Ararat Yerevan, mas a saúde débil já o minava por dentro. Em 1976 morreu na mais absoluta mediocridade e ninguém se lembrou dele durante anos até que alguns estudiosos começaram a analisar o jogo de trás para a frente e descobriram que este treinador a quem os jogadores chamavam carinhosamente de "Avôzinho", como é tão comum na Rússia a quem se tem um imenso respeito, tinha sido o mentor das grandes metamorfoses tácticas do beautiful game.
Maslov era, de certa forma, o oposto moral e emocional do seu sucessor em Kiev, o mítico Valery Lobanovsky. O que o ucraniano fez, partindo do principio cientifico, já Maslov o fazia, partindo do sentido comum que sempre orientou a sua carreira. Um técnico diferente a todos os niveis, o moscovita era conhecido por ser um dos entusiastas do modelo de auto-gestão. Consultava os jogadores para tudo e por várias vezes viu o capitão de equipa recusar que um jogador fosse substituído quando ele já tinha indicado ao suplente que se preparasse para entrar. Anos mais tarde, depois das acusações de falta de disciplina, os seus próprios jogadores vieram a público defendê-lo. Tratava-se apenas de uma mensagem que a equipa em campo recebia e respondia com a tranquilidade de que o jogo se ia resolver com os onze titulares. E sempre foi assim. Os seus registos em Kiev foram históricos e apesar da influência que detinha junto do Partido Comunista Ucraniano - que lhe permitia, entre outras coisas, recrutar vários jogadores de clubes mais pequenos com benefícios estatais - a forma como montou uma equipa capaz de desafiar o poder moscovita transformou para sempre o futebol soviético e estabeleceu as bases do que viria a ser o longevo mandato de Lobanovsky.
Pressing. Marcação à Zona. 4-4-2.
Palavras chave no vocabulário futebolístico de hoje mas que só existem no vocabulário desportivo a partir do momento em que Maslov as passa de um ideário em papel para o terreno de jogo. Durante os dez anos que medeiam a sua viagem ao Mundial da Suécia de 1958 e o zénite da sua equipa de Kiev, o técnico colocou em prática os conceitos que hoje fazem parte da bíblia de qualquer treinador.
Quando começou a treinar o Torpedo de Moscovo (na altura liderado pela estrela soviética Eduard Streltsov) decidiu aplicar o ideário táctico que viu na espantosa equipa do Brasil de Zezé Moreira. Entendendo, como poucos na altura, que o sucesso brasileiro dependeu, mais do que Garrincha, Pelé e Vavá, no jogo de Didi e no posicionamento de Zagallo. Ao voltar a Moscovo começou a ensaiar um jogo de toque no meio campo abandonando progressivamente o ritmo vertiginoso do WM. O 4-2-4 foi o seu primeiro sistema táctico - um caso de precocidade na Europa - mas foi, sobretudo, o seu conceito de pressing, que revolucionou por completo a sua forma de analisar o jogo. Observando o espaço que os defensores deixavam a Streltsov, Garrincha ou Kopa, começou a trabalhar o treino de pressão. O seu quarteto defensivo, mais do que esperar pelos rivais, tinha instruções de avançar sobre eles, reduzindo o tempo de manobra do contrário. Com isso melhorou significativamente os registos de golos sofridos do conjunto moscovita, antecipando em muitas ocasiões oportunidades claras de golo. O seu sistema de pressing provocou um aceleramento do jogo e obrigou, por outro lado, a ter um meio-campo capaz de temporizar e controlar os registos de posse de bola com discrição. Maslov procurou durante toda a sua carreira a versão soviética de Didi, o homem que parava o jogo do Brasil quando todos aceleravam. No duro e rígido futebol soviético a sua missão era complicada e essa mutação táctica levou muitas vezes a situações em que a sua defesa se via forçosamente descompensada.
Em 1964, depois de oito anos em Moscovo, aceitou o desafio de orientar o Dynamo de Kiev ucraniano. Aí encontrou as armas que precisava para colocar em prática o sistema que vinha idealizando há muito. Para tal teve de livrar-se de algumas das estrelas da companhia (entre as quais o aclamado Valery Lobanovsky) e a principio a sua presença sofreu com a eterna desconfiança dos ucranianos face a um treinador que tinha feito toda a sua vida desportiva em Moscovo. Mas rapidamente a relação entre técnico e equipa atingiu níveis de imensa cumplicidade e quando Maslov começou a mexer as peças do xadrez, a equipa seguiu-o entusiasticamente. No seu primeiro ano abandonou o 4-2-4 brasileiro e inventou o que hoje conhecemos como 4-4-2. Dois anos antes dos Wingless Wonders de Alf Ramsey, o russo abdicou do jogo de alas, a quem acusava de não terem critério para funcionar no jogo colectivo, e colocou um playmaker puro (o seu Didi) atrás do duo de pontas de lança com três homens no apoio directo atrás de si. Para aprofundar ainda mais o seu sistema de pressing (que apurava com sessões de treino intensas, inusuais à época) começou a desenvolver um sistema de marcação à zona que obrigava os jogadores a estarem atentos ao espaço e não ao homem. Quando um jogador passava pelo seu marcador, para evitar um desgaste físico desnecessário e um desajuste táctico, este simplesmente deixava-o para o homem seguinte. A conjugação do pressing a meio campo, do trabalho de marcação implacável e, sobretudo, da temporização do jogo com a bola no pé, encurtando o espaço, Maslov definiu os conceitos que Rinus Michels adaptaria no seu Ajax e que entrariam no vocabulário comum como "Futebol Total". Com o seu Dynamo Kiev logrou os melhores registos, vencendo duas ligas soviéticas e desafiando os potentados europeus, apesar de ter caído, no seu melhor ano, frente ao Celtic de Glasgow que se sagraria campeão europeu depois de um duplo encontro intenso.
Se na marcação à zona o conceito foi emprestado (e aperfeiçoado do exemplo brasileiro) já a pressão alta e o 4-4-2 são exclusivos absolutos do homem que não foi entendido pelo seu tempo mas que, a médio prazo, abriu o caminho para a evolução táctica que o futebol iria forçosamente seguir. O ritmo de jogo e a ocupação dos espaço, hoje verdadeiro obsessão, era algo tido como supérfluo até que Maslov entendeu todo o seu potencial. A sua influência só se pode comparar a Jimmy Hogan e Herbert Chapman, definidores dos modelos de jogo continentais e britânicos nos anos 20. Enquanto o mundo se debate entre Mourinho e Guardiola, Sacchi e Cruyff, Menotti e Michels, Ramsey, Shankly, Busby e companhia, a verdade é que todos eles são um pouco melhor treinadores porque um dia o "Avôzinho" decidiu inventar o futebol moderno!
Faltavam poucos segundos para acabar. Um livre envenenado de Danny Murphy encontrou a cabeça de Geli, perdido no meio de tantos jogadores. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas mas foi assim que chegou a fim a final europeia mais empolgado da última década. Dez anos depois o Deportivo de Alavés milita na 2º B espanhola. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas. Mas ninguém duvida que a história dos alaveses é digna de uma fábula futebolística.
A boa noticia para os adeptos do Alavés é que o pior parece ter passado.
A equipa de Vitória, capital do País Vasco, está no pote de clubes que irá lutar pela promoção à Liga Adelante, a segunda divisão do país vizinho. Há muito tempo que os alaveses andam perdidos nessa floresta de equipas caídas em desgraça. O seu caso tem uma explicação muito simples, nefastamente comum. Um pretenso milionário ucraniano, Dimitri Pitterman, comprou o clube e desfez o projecto em fanicos. Ficou apenas a memória do futebol de elite. E daquela noite em Dortmund. A noite de um 16 de Maio. Há dez anos atrás.
Numa equipa sem estrelas, que rapidamente seria desmembrada pelo poder de atracção do dinheiro fácil, ninguém esperava uma noite assim. Os jogadores do Alavés sabiam-se outsiders e apenas queriam dar a cara, responder ao orgulho dos adeptos que os acompanharam na sua caminhada europeia. O grande momento, a grande gesta tinha ficado para trás, numa fria noite de 22 de Fevereiro. O San Siro, cheio, testemunhou como o anónimo Alavés batia por 0-2 o poderoso Internazionale, uma semana depois de aguentar um 3-3 em casa. Jordi Cruyff, ao minuto 78, abriu a contagem que Tomic fechou 10 minutos depois para desespero de Marcello Lippi, Christian Vieri e companhia.
Mané, técnico modesto e com aquele espírito guerreiro de antes quebrar que torcer que moldou a escola vasca, nunca esperou a resposta dos seus jogadores depois do grande jogo do Inter em Vitória. Esta era uma equipa onde a estrela, pelo apelido, era Jordi Cruyff. Muitos jogadores espanhóis com largos anos de futebol secundário nas pernas formavam o esqueleto do conjunto. Num 5-3-2 que apostava profundamente no contragolpe, a segurança defensiva de Karmona e Tellez era fundamental. Os dois centrais, decisivos nos lances de bola parada, formavam o esqueleto. Mas era a velocidade do romeno Contra, a qualidade de passe de Desio e o instinto goleador de Javi Moreno que chamavam à atenção. Antes daquele duelo com o Internazionale a equipa tinha eliminado dois conjuntos noruegueses (Lillestrom e Rosenborg) e nas rondas seguintes bateu o igualmente modesto Rayo Vallecano e o Kaiserlautern alemão. Dois anos depois de ser promovido à Liga espanhola, o Aláves estava numa final europeia.
Olhando para trás, é fácil perceber o milagre do conjunto basco.
O espírito de equipa, a natureza dos rivais e a clara aposta do clube na prova da UEFA, o escaparate perfeito para fazer alguns milhões no defeso, funcionou como catalisador. Mané criou um forte sentido colectivo nos jogadores que saiam a jantar juntos com as famílias todas as semanas, comiam “pintxos” tradicionais em pleno balneário e que sentiam que partilhavam tanto as agruras como os elogios. A maioria da equipa tinha subido de divisão dois anos antes, incluindo o técnico. Os poucos que chegavam de forma ao Mendizorrozza integravam-se sem problemas e no final de contas foi esse espírito que permitiu ao clube dar a cara diante do poderoso Liverpool.
A equipa de Gerard Houllier chegava à sua primeira final pós-Heysel com uma das suas mais espantosas gerações. Tinham batido com autoridade o Barcelona, FC Porto e a AS Roma. Contavam com a estrela europeia de moda, Michael Owen, mas também Robbie Fowler, Steven Gerrard, Jamie Carragher, Danny Murphy, Gary MacAllister, Dietmar Hamman e Emile Heskey. Eram favoritos e sabiam-no. Mas não esperavam uma resistência de proporções épicas. Naquela tarde noite no Westfallenstadion a vitória do Liverpool ficou ofuscada pela exibição do modesto Deportivo. Os golos de Babbel, Gerrard, MacAllister, Owen encontravam sempre resposta. Ivan Alonso, Javi Moreno e Jordi Cruyff, no minuto 89, teimavam em amargar a festa dos reds. A tensão começava a tomar conta do banco do Liverpool e os alaveses acreditavam que um milagre, um milagre futebolístico, estava prestes a tornar-se realidade. A três minutos do fim o conto de fadas acabou na cabeça de Geli, nesse desvio para as redes de Herrera e nesse desalento que dura há dez anos. O Alavés esteve perto de fazer história. Sem entender muito bem como, acabou realmente por fazê-la, à sua maneira.
Depois dessa noite épica o mundo nunca mais se esqueceu dos vitorianos. Mas a sorte abandonou o Deportivo com aquele cabeceamento. Dois anos depois o conjunto foi despromovido à 2º Divisão. Voltaria no ano seguinte mas a gestão criminal do ucraniano Pitterman levou a instituição à falência e ao calabouço da 3º Divisão. A pouco e pouco o modesto clube começa a erguer-se. Mas faça o que fizer, sempre que o nome apareça numa noticia em qualquer recanto do mundo, a única imagem que nos saltará à cabeça é a dessa noite onde o futebol foi mais futebol do que nunca e em que ficou claro que os contos de fadas às vezes não acabam como queremos. Mas nunca deixam de ser mágicos.
O rei Kenny escolheu-o pessoalmente como sucessor e durante algumas temporadas parecia claro que estava ungido para tornar-se numa lenda viva do futebol inglês. Mas a decadência do Liverpool e o naufrágio do Newcastle passaram factura e pouco a pouco a Old Albion começou a esquecer-se de um dos maiores génios da sua longa história, um pássaro chamado Peter.
Quando Dalglish trocou o relvado de Anfield pelo mesmo banco por onde andaram Fagan, Paisley e Shankly tornou-se claro que faltava uma referência no ataque dos Reds. Não havia alternativas no balneário para render aquele que foi, muito provavelmente, o mais completo jogador da história do clube. E muitos acreditavam que nem fora de Anfield o consagrado "King" Kenny poderia fazer o mesmo que Paisley logrou com ele quando Keegan partiu para Hamburgo no final dos anos 70. Mas foi precisamente ao lado da velha glória que Dalglish descobriu o seu homem. O Newcastle tinha acabado de subir de divisão e na equipa do Norte pontificava um jovem de 22 anos que já tinha andado pelo Canadá e por Old Trafford, sem fazer muito barulho. Dalglish ficou com ele debaixo de olho durante duas temporadas e quando percebeu que a coisa era séria (e que a concorrência apertava) apostou forte. E ganhou.
Peter Beardsley assinou pelo Liverpool a 14 de Julho de 1987. Uma data difícil de esquecer.
Foi um recorde e levantou dúvidas. Afinal a grandeza do clube de Anfield não se podia encaixar no pequeno projecto regional que era, ainda, o Newcastle. E apesar de já ser internacional (Beardsley esteve na equipa mundialista de 86), o pequeno avançado estava longe de ser uma estrela. Mas não chegou só. Na mesma semana o técnico, desejoso de repetir o titulo ganho na sua primeira temporada como treinador-jogador, apresentou John Barnes e John Aldridge que formariam um dos trios de ataque mais letais da história do futebol moderno. Sem Dalglish e Rush havia suspeitas que a equipa não estaria ao mesmo nível. Os números provaram outra coisa.
Beardsley rapidamente explodiu e tornou-se num dos ídolos da velha Kop.
O seu estilo de jogo, incisivo, técnico e com um potente disparo, foi deixando marcas jornada após jornada. O entendimento com o gigante Aldridge e o supersónico Barnes deram uma profundidade de campo a um conjunto que pode ser visto como um dos mais completos da história do beautiful game. Ninguém imaginava ao principio mas o ritmo demoníaco daquele conjunto Red nascia, muitas vezes, do cérebro de xadrez de Beardsley. A equipa esteve perto da dobradinha mas naquela mítica final frente ao Crazy Gang do sempre criticado Wimbledon a oportunidade de fazer história esfumou-se. Beardsley emergiu claramente como o rosto vivo da nova geração de internacionais ingleses, a viverem ainda o lastre do afastamento das competições europeias. Tornou-se impossível medir o sucesso do conjunto de Dalglish com outras equipas de elite da época, como o Madrid de Butrageño, o Milan de Sacchi, o FC Porto de Artur Jorge, o PSV de Hiddink e o Napoli de Maradona. Mas em Inglaterra a superioridade era inquestionável. Só as lesões (de Rush), os desastres (de Hillsborough, momento que marcou talvez o final da era Red) e o mais puro azar (sob a forma do pontapé de Michael Thomas no último minuto do Liverpool vs Arsenal de 1989) permitiram que o titulo escapasse ao conjunto de Beardsley. Mas, mesmo com a derrota, a sua aura mágica aumentava e na final da FA Cup frente ao eterno rival, o Everton de Howard Kendall, mais uma vez "Beardsie" foi fundamental. Era o principio do fim da história de amor.
Com o regresso de Rush e o adeus de Aldridge, o escocês Dalglish abdicou do espectacular 4-3-3 por um 4-4-2 mais convencional e Beardsley foi perdendo espaço para deambular pelo terreno de jogo. Começou a ver mais jogos desde o banco e sem oportunidades de brilhar na Europa (a suspensão do Liverpool prolongou-se até 1992) o peso da frustração era claro. A explosão mediática à volta de Gascoine também não ajudou. No final de 1991 trocou Anfield Road por Goodison Park. Os adeptos da Kop, em lugar de apupar o traidor, aplaudiram-no de pé no seu regresso. Ele era há muito uma lenda viva.
O final da carreira de Beardsley, depois da passagem pelo Everton, significou um regresso às origens. Keegan recuperou-o para o seu novo Newcastle ao lado de Ginola, Ferdinand, Cole, Shearer e Asprilla e apesar da idade não permitir as mesmas espantosas corridas pelo miolo, o seu estilo ajudou a definir a magia de uma das equipas mais admiradas da década de 90. O Newcastle não venceu um único troféu mas entrou no coração dos adeptos que puderam, por uma última vez, admirar o talento do pássaro rebelde do Tyneside. Quase esquecido, Beardsley ganhou a pulso o estatuto de jogador legendário. Friamente olhando para números, romanticamente deixando-se seduzir pelos movimentos surdos no tapete verde, é difícil encontrar um jogador inglês ao seu nível nos últimos 30 anos. Beardsley foi o génio de quem os ingleses aparentemente se esqueceram...
A muitos surpreende a vitoriosa campanha europeia do Schalke 04 de Raul e companhia. Mas apesar de ser a primeira semifinal da Champions League na história do clube, houve uma época em que os mineiros de Gelsenkirchen faziam parte da nata europeia. Nos anos 30 o futebol espectáculo do Schalke ajudou a definir as bases do futebol alemão do pós-guerra e transformou os seus heróis em ícones da resistência do povo germânico.
Chamaram-lhe "Schalker Kreisel".
E definiu o estilo de futebol de toque que começava a ganhar cada vez mais adeptos no centro da Europa. O estilo de jogo de combinação - primitivo comparado com os padrões de hoje mas enormemente avançado para a época - que se foi forjando na equipa do Schalke nos anos 20 marcou um antes e um depois na história do futebol alemão. Até então o país tinha vivida à sombra de um futebol rápido e de contacto, praticado iminentemente pelas equipas do sul.
Kurt Otto moldou uma equipa feita só com jogadores da casa, muitos deles mineiros e filhos de mineiros da cidade industrial de Gelsenkirchen. Uma equipa que procurava a troca de bola em lugar das habituais cavalgadas rumo à área contrária. E que encontrou no talentoso Fritz Szepan e Ernst Kuzorra, os seus grandes interpretes. Filhos de emigrantes polacos, como tantos outros na cidade, as duas grandes estrelas do futebol alemão do pré-guerra, talvez os jogadores europeus mais completos da sua época - a par de Meazza e Sindelaar - Szepan e Kuzorra deram um brilho especial o jogo de toque dos azuis reais. A equipa começou a crescer em meados dos anos 20, com a chancela do presidente Fritz Unkel, um dos grandes impulsionadores do projecto local. Rapidamente passaram a dominar a Gauliga, a liga da zona do Rhur, a mais forte das ligas regionais alemãs. Uma série de contratempos foram adiando o esperado titulo inaugural do Schalke.
Aliado ao sucesso do clube ficou o nascimento do mítico Glückauf-Kampfbahn, um dos estádios mais frenéticos do futebol teutónico durante largas décadas. O público local transformou os jogos em casa do Schalke em meros trâmites (o clube não perdeu um jogo em casa nos 11 anos seguintes até ao irromper da guerra) e rapidamente a equipa começou a disputar as finais nacionais. Em 1929, um ano depois da inauguração do estádio, chegou o primeiro titulo regional. Mas foi preciso esperar cinco anos até o domínio do futebol do oeste se transformasse em domínio nacional.
Quando tudo indicava que o maravilhoso futebol do Schalke 04 ia terminar com o a supremacia do Stuttgart e Nuremberga, a liga alemã surgiu em cena e baniu o clube durante um ano. O motivo? O pagamento de salários elevados aos seus melhores jogadores, algo impensável num país que lidava tão mal com o conceito do profissionalismo que só nos anos 60 a Bundesliga foi oficialmente fundada como uma liga profissional. Quase 30 anos depois das restantes grandes competições europeias. Por essa altura a Alemanha já tinha até um titulo mundial ganho por falsos amadores. Como eram todos os elementos do Schalke 04.
Por isso só em 1934 a equipa pode finalmente desfrutar do seu primeiro campeonato. Uma época inesquecivel em que ao génio de Szepan e Kuzorra se juntaram outros elementos chave. A final disputada em Berlim confirmou o génio de Bornemann na defesa, Zajons e Urban nas alas e Rothard no eixo do ataque. O Schalke venceu por 2-1 o Nuremberg mas esteve a perder por 1-0. Parecia que a malapata ia seguir quando Szepan, como só ele sabia fazer, marcou o primeiro e inventou o segundo em apenas dois minutos. Os dois que faltavam para o jogo chegar ao fim.
O triunfo iniciou uma saga de vitórias praticamente incontestáveis até ao arranque da II Guerra Mundial. No ano seguinte a vitima foi o Stuttgart, derrotado num festival de golos por 6-4. Por essa altura o técnico já era Hans Schmidt, sucessor do genial Otto e fiel continuador da sua filosofia de jogo curto de toque e desmarcação, algo que se tornara já na moda europeia graças à popularidade do Wunderteam austríaco de Hugo Meisl. Depois do hiato em 1936, dois novos títulos nacionais consecutivos e um dominio que se prolongou até 1941, ultimo ano das competições oficiais antes da entrada na fase determinante da guerra. Durante toda a década o Schalke manteve-se fiel não só ao seu estilo futebolistico mas também à sua filosofia local. O clube protegeu muitos dos seus jogadores judeus durante a perseguição do regime nazi e ajudou os seus melhores jogadores a evitarem a temida frente oriental ao serviço do exército. Muitos deles serviram em bases aéreas em solo alemão, privilegio de poucos. O final da era de glória do Schalke significou um parêntesis na evolução do próprio futebol alemão. O clube tinha sido a base ideológica do jogo teutónico apesar das reservas do seleccionador Otto Nerz que não apreciava o estilo relaxado e de toque de Szepan e Kuzorra. O segundo foi afastado da selecção sem apelo nem agravo. O primeiro viveu uma década de altos e baixos. Mas estava em campo no dia em que a Alemanha se apaixonou pelo seu jogo. Em Breslau, num desafio contra a Dinamarca, o polémico Nerz finalmente alinhou os seus melhores jogadores, incluindo a espinha dorsal do Schalke 04. A equipa venceu por 8-0 - a sua maior vitória até então - e o onze que marcou o verdadeiro inicio da Mannschaft ficou conhecido como Breslau Elf.
Com o pós-guerra o Schalke 04 entrou num periodo de crise da qual nunca recuperou totalmente. Voltou a vencer, uma vez mais, o titulo alemão mas quando a Bundesliga finalmente arrancou o clube começou a perder-se pelos postos do meio da tabela. Depois da surpreendente vitória da Taça UEFA, em 1998, o conjunto alemão volta a estar nas bocas do mundo. Muitos lembram-se já do Bayer Leverkusen. Em 2002 também disputou a meia-final com o Manchester United e do outro lado havia um Barcelona vs Real Madrid. Muita coincidência. Sob o espirito do Schalker Kreisel, sonhar está permitido.
Antes do infame 11/09/01 há muito que as "Twin Towers" estavam presente no vocabulário futebolístico. Pelas torres que albergavam o mítico Wembley. Mas, principalmente, pela dupla mais letal do futebol inglês da década de 90. Só jogaram juntos dois anos mas foi suficiente para entrar para a história do futebol britânico. Definiram uma época em Old Trafford e foram, talvez, o último grande dueto atacante da história do Manchester United.
Quando Dwight Yorke confessa que o seu despertador matinal consistia numa chamada matinal bem disposta de Andrew Cole, torna-se fácil perceber os inúmeros sorrisos cúmplices que as câmaras de televisão captaram entre ambos durante os anos em que vestiram a mesma camisola.
A letal parceria Yorke-Cole era, sobretudo, uma dupla compenetrada até ao mais mínimo detalhe. Não era só a parecença física (daí o nome por como ficaram conhecidos) e a forma de jogar. Era como se entendiam.
Durante duas épocas (1998/1999 e 1999/2000) era recorrente ver passes entre ambos na zona de ataque sem sequer se preocuparem em ver onde o outro estava no terreno de jogo. Não era necessário. Há muito que o sabiam. Uma relação que não foi construída nos treinos diárias mas sim fora do centro de estágio. Cole e Yorke eram, sobretudo, parceiros. E no relvado jogavam como se estivessem num jogo de amigos. Relaxados, compenetrados e sempre com um sorriso. Uma dupla letal que Alex Ferguson montou para fazer esquecer o fantasma de Eric Cantona. E que lhe valeu uma época de sonho onde nenhum titulo foi deixado de lado. Os (muitos) golos de Yorke e Cole, as muitas assistências entre ambos (com a preciosa ajuda de David Beckham e Ryan Giggs) abriram caminha ao histórico Treble de 1999 e ao titulo de 2000. E quando os heróis de Old Trafford falhavam, sempre havia Solsjkaer e Sheringham, os suplentes de luxo que decidiam jogos, para rematar o dia. Eram dias felizes para os red devils.
Quando a dupla se desfez - em 2001, ano em que Yorke caiu em desgraça com Ferguson pela sua polémica razão com a modelo Jordan - o Manchester United ressentiu-se. Yorke ficou, mas a chegada de van Nistelrooy significou menos minutos de jogo para o caribenho. Cole foi vendido ao Blackburn Rovers - apesar dos protestos dos adeptos - e rapidamente se assumiu como a nova estrela da equipa, guiando os rovers à vitória na League Cup, com golo determinante incluído. No Verão de 2002 o seu amigo Yorke juntou-se-lhe uma vez mais e a velha dupla voltou a brilhar no Lancashire levando a equipa de volta às competições europeias depois de uma década de ausência.
Dwight Yorke sempre foi um avançado muito especial.
Corria como poucos dianteiros no futebol britânico e tinha um sentido posicional exímio. Despontou ao serviço do Aston Villa em 1990 depois do manager dos villains, Graham Taylor o ter descoberto numa tour realizada pelo clube em Trinidad e Tobago. Com 19 anos a sua adaptação foi lenta e durante muito tempo Yorke actuou longe da sua posição natural. Mas em 1995 começaram a chegar os golos e durante três anos disputou até ao final o prémio de melhor marcador da Premier League. No Verão de 98, e depois de um ano marcado pelo titulo do rival londrino Arsenal, Alex Ferguson, ainda orfão de um líder depois do abandono do futebol a finais de 97 de Eric Cantona, decidiu sacar do livro de cheques. Juntou o tobaguenho a um leque de reforços certeiros (Stam e Blomqvist) para atacar o titulo.
Em Old Trafford o já veterano (28 anos) dianteiro encontrou a sua alma gémea: Andrew Cole.
Cole tinha-se tornado numa estrela por direito próprio do futebol inglês depois de fazer parte da grande equipa do Newcastle United, liderada por Kevin Keegan, que começava a dar nas vistas. Produto da formação do Arsenal, Cole era um avançado móvel e extremamente eficaz que combinava bem com o futebol-champange de Peter Beardsley e o ritmo veloz de Asprilla e Ginola. Subitamente, em plena corrida dos magpies pelo titulo, o clube não resistiu a uma oferta milionária . Cole chegou, viu e venceu e mostrou-se rápido a combinar com Cantona e Sheringham, os seus parceiros de ataque nos anos seguintes. Mas com Yorke o feeling era outro. Era especial. Desde o primeiro jogo juntos, em Setembro de 1998 que se notou que havia algo que relembrava as grandes duplas atacantes da história do clube como Law-Charlton ou Hughes-Cantona. Uma compenetração que foi rapidamente correspondido com golos (Yorke marcou 23, Cole marcou 19) e com exibições antológicas como os jogos em Barcelona, Milão e Turim que marcaram a caminhada para a noite histórica que deu o segundo titulo europeu ao clube. Nessa noite os heróis foram outros, mas as "twin towers" voltaram a ser um pesadelo para a defesa bávara. No final do momento 93 já tinham entrado na história.
A história do futebol está eternamente marcada por grandes parcerias. E é sempre dificil encontrar dois jogadores que transpareçam no relvado a boa disposição que os acompanha no dia a dia. Num futebol (principalmente o inglês) marcada por vedetismos, wags, problemas financeiros e uma boa dose de marketing, é sempre uma boa noticia quando o olhar cúmplice e relaxado de dois jogadores de alto nível garantem ao espectador a certeza de que os próximos 90 minutos serão de um espectáculo garantido. As "Twin Towers" fizeram sonhar mais do que um adepto. No fim de contas talvez tenha sido essa a sua maior conquista.
Hoje os investidores estrangeiros são os únicos capazes de injectar dinheiro em projectos desportivos, muitas vezes, absurdamente estagnados. Petro-dolares, rupias indianas, rublos russos, tudo vale. No entanto, o modelo dos magnatas com dinheiro, ilusões mas muito pouca paciência não é novo e no passado deixou as suas vitimas. Poucas terão tido o mesmo impacto mediático do que o Matra Racing Paris. Durante dois anos tentou comprar o sucesso. Falhou e caiu na penumbra do esquecimento...
Quando em 1981 o milionário francês Jean-Luc Lagardére se juntou a Daniel Filipachi para comprar o espólio do grupo de revista Hachete, brincou com os amigos comentando que só lhe faltava mesmo comprar um clube de futebol. O homem que relançou a revista Elle era já então dono de uma imensa fortuna, graças à sua posição na empresa Matra (com considerável sucesso no automobilismo). Por essa altura, gastava essencialmente o seu dinheiro na grande paixão da sua vida, os cavalos de corrida. Mas o futebol também lhe tocava na alma e na cidade-luz de Paris não havia uma equipa que apoiar. O PSG vivia a sua primeira década, rodeado de incertezas, e a ideia começou a matutar na mente do empresário. Quatro anos depois comprou o quase extinto Racing Club Paris, um dos primeiros grandes do futebol gaulês que tinha caido praticamente no anonimato nos anos do pós-guerra. O clube estava na Ligue 2, lutando por sobreviver. Lagardére colocou o dinheiro à disposição da direcção com um objectivo claro: fazer do Racing um colosso europeu.
Começou assim a subida ao céu do clube azul e branco. O presidente conseguiu o apoio da Matra e mudou oficialmente o nome do clube para Matra Racing Club, o primeiro caso de uma instituição desportiva europeia que viu o seu nome alterado para incluir uma designação comercial. Um nome que se assemelhava, e muito, ao já usado pela empresa na sua etapa na F1 e que levantou suspeitas sobre o real interesse de Lagardére num negócio com muitos "ses". O projecto, no entanto, começou a dar os seus frutos. Em 1986 o clube venceu o titulo da segunda divisão do futebol gaulês e chegou, pela primeira vez em largas décadas, à elite. Era preciso dinheiro para permitir ao Matra - então alvo de uma imensa campanha de marketing nas revistas e jornais do grupo Hachette - competir com os maiores da época (o Bordeaux de Jacquet, o Marseille de Goethels ou o Monaco de Wenger). E com o dinheiro chegaram as estrelas.
Recém-coroado campeão europeu, o português Artur Jorge foi o primeiro a ser seduzido pela ambição de Lagardére.
Trocou a cidade do Porto pelo conforto de uma vida de luxo em Paris com um recorde milionário para qualquer treinador à época. O objectivo era vencer a prova que o tinha coroado num prazo de quatro anos e para tal chegaram ao modesto Stade des Colombes, nomes à altura. O alemão Piere Litbarski e o uruguaio Enzo Francescoli juntaram-se aos gauleses Pascal Olmeta, Luis Fernandez ou um jovem David Ginola. Mais tarde chegariam ainda o holandês Sonny Silooy, o uruguaio Ruben Paz e o camaronês Eugene Ekéké.
Artur Jorge pediu tempo para formar um onze ganhador - ainda estavamos na época em que só podiam jogar três estrangeiros - mas os resultados demoraram demasiado em chegar. A meio da temporada 1987/1988, o Racing Matra andava perdido na segunda metade da tabela, apesar do talento indiscutivel dos seus artistas, particularmente Francescoli, que confirmou as suspeitas que tinha deixado ao serviço da selecção do Uruguai e que mais tarde inspiraria a Zidane. A segunda volta foi bastante melhor, com a equipa a trepar até ao sétimo posto mas, mesmo assim, fora das provas europeias e a onze pontos do primeiro lugar. O dinheiro de Lagardére começou a desaparecer e os ingressos das bilheteiras do diminuto estádio parisino (7 mil pessoas) e do contracto televisivo eram insuficientes para arcar com os salários principescos das principais estrelas. Artur Jorge partiu (ele que voltaria a Paris para cumprir o seu sonho de campeão com o PSG dois anos depois) e o director desportivo, René Hause, tomou o seu lugar. Mas sem dinheiro, também Francescoli e Litbarki se foram, sem deixar grandes saudades, para brilhar em Marselha e Colónia, respectivamente. E a equipa ressentiu-se em demasia. O projecto começou a desmoronar-se e a equipa terminou a época seguinte num decepcionante 17º posto, salvando-se por um golo da despromoção. Para a Matra e para o seu presidente, era demais. Lagardére demitiu-se, vendeu a sua parte do clube e levou a Matra consigo, deixando o clube em estado de bancarrota. Os melhores jogadores da equipa saltaram do navio em movimento e apesar de ter chegado à sua única final da Taça em 1990, rapidamente a equipa caiu nos escalões do futebol amador francês, onde ainda milita. O dinheiro de Lagardére foi desviado para a France-Galop, empresa especializada em desportos hipicos e nunca mais se aventurou no mundo do futebol.
O projecto do Matra Racing Paris é um aviso a navegantes. Hoje, num mercado mergulhado em negócios obscuros e milionários que entram e saiem com demasiada facilidade, a nefasta gestão do pequeno clube parisino que quis dar um passo maior que a própria sombra podia transferir-se a um qualquer desses clubes com gestões milionárias. O fracasso do Portsmouth inglês, as dividas de West Ham United, o quase desaparecimento do Deportivo Alavés são apenas reflexos desse episódio. Quando o dinheiro quer comprar o sucesso, muitas vezes o único que acaba por conseguir é comprar o fim...lenta e dolorosamente.
Viveu profundamente a metamorfose do futebol alemão, ferido no orgulho menos pela guerra e mais pela ascensão estética dos seus grandes rivais do centro europeu. Esteve em dois dos momentos chaves da história do futebol europeu, sempre do lado que a história preferiu esquecer. Mas o homem que engoliu a "Laranja Mecânica" merece bem o seu lugar na história de um jogo que também ajudou a moldar.
Quando o árbitro britânico Graham Taylor apitou para o final do encontro que marcava o fim do Mundial de 74, os alemães deitaram as bandeiras aos céus em delirio. O resto do Mundo olhou estupefacto. Como era possível que a selecção, consensualmente considerada não só como a melhor do torneio mas também como uma equipa que tinha marcado um antes e um depois do jogo, tivesse caído de forma tão clara aos pés de outra equipa. Essa outra equipa era a RF Alemanha. A selecção, já se sabe, a Holanda. A equipa que o mundo aprendeu a amar profundamente e que entraria para a história, efectivamente, como a percursora do jogo moderno. Só um homem, provavelmente, podia entender a importância daquela vitória. Helmut Schön, então seleccionador alemão, tinha estado sentado no banco - como adjunto - 20 anos antes, em Berna, quando o mesmo cenário colocou um fim às ambições da equipa dos mágicos magiares. A vitória da RFA então sobre a Hungria foi, para os anos 50, o mesmo que a mesma vitória dos germânicos, diante da Holanda, para o futebol da década de 70. O dedo de Schön esteve em ambas. Personagem extraordinário, ele foi quem definiu o ritmo e o espirito de sobrevivência, da metamorfose do futebol alemão ao largo da segunda metade do século XX.
Como ajudante de Sepp Herberger, pertence ao ex-jogador do Dinamo Dresden, a táctica de marcação homem a homem ao mentor do jogo hungaro, Hidgekuti. Vinte anos depois, os seus onze jogadores exploraram bem os espaços deixados pelo estilo de jogo veloz e móvel da mitica "laranja mecânica". Dois triunfos históricos que definiram o futebol europeu, marcando num primeiro caso, o último suspiro do WM. E no segundo, a vitória do 4-4-2 sobre o mais anárquico 1-3-3-3, imposto por Michels.
O destruidor de mitos, como poderia ser conhecido, nasceu em Dresden no lado oriental alemão e jogou largos anos pelo Dinamo local, chegando a internacional na equipa que viveu os dias mais sombrios do futebol germânico. Ao serviço da Mannschaft conheceu Herberger, eleito seleccionador no pós-guerra, e tornou-se no seu braço direito depois de em 1952 ter sido eleito, interinamente, seleccionador do Sarre, provincia independente alemã do pós-guerra. Farto de viver na recém-criada RDA, desertou pelo arame farpado que dividida a cidade e rumou a Munique. Com o seu mentor, em 1954, teceu uma teia à equipa hungara de Gustav Sebes, alinhando uma equipa propositadamente débil no primeiro jogo, na fase de grupos, onde foram goleados, para depois apresentarem-se na máxima forma no jogo decisivo. Uma tarde perfeita para Rhan, Seeler, Walker e companhia e que significou o primeiro titulo futebolistico da então RFA. Acima de tudo, foi a vitória do parente pobre do futebol centro-europeu. Os alemães tinham crescido a ver os elogios do mundo ao jogo dos austriacos de Meisl nos anos 30 e aos hungaros de Sebes na década de 50. Mas nem o Wunderteam, nem os Magiares chegaram a vencer um titulo mundial, e os alemães sim.
A vitória foi tão importante para a federação da RFA que Herberger e Schön tornaram-se intocáveis. O primeiro seria seleccionador nos dois Mundiais seguintes - onde a RFA foi absolutamente relegada para um terceiro plano - e Schön ficaria com o posto a partir do fracasso do Euro 64, quando se cumpriam 10 anos da glória de Berna. Prometeu uma nova atitude e demonstrou-o rapidamente. Em Inglaterra chegou até à final, graças a um 4-2-4 móvel, com Beckenbauer como elemento nuclear na transição defesa-ataque. Quatro anos depois, no México, só a lesão do capitão e o cansaço acumulado impediu os alemães de aguentarem o ritmo da Itália. Mas em 1972 ninguém os conseguiria parar. Schön tinha adoptado, finalmente, o 4-4-2, inspirando-se na série de talentos que emergiam entre Munique e Monchenlagdbach. Deu a batuta do jogo a Netzer, apostou na eficácia de Heynckhes e Muller e transformou Beckenbauer no lider, recuando-o para a posição de libero, onde o Kaiser estava destinado a comandar o jogo. A vitória no Europeu, frente à URSS, foi o inicio da grande era do futebol alemão. Dois anos depois, com o Mundial organizado em solo germânico, a responsabilidade era máxima e o sucesso mediático da Holanda de Cruyff, aliado à derrota inicial com a vizinha RDA (no único jogo entre as duas Alemanhas da história) minou a confiança dos adeptos. Mas o seleccionador tinha as suas ideias. Abandonou o virtuosismo dos jogadores do Borussia e apostou na velocidade e força d consagrando Holzenbhein, Bonhof, Overath e Grabowski atrás do possante Hoeness e do ágil Muller. Os alemães chegaram merecidamente à final e no jogo decisivo começaram a perder desde o primeiro minuto. Mas souberam controlar os ritmos, explorar os erros defensivos da linha mais recuada dos Orange e antes dos 45 já tinham dado a volta ao marcador. Uma vitória histórica, que só Schön seria capaz de explicar.
O homem que definiu o gene competitivo dos alemães ainda seria finalista vencido do Euro 76 (o tal penalty de Panenka) e só uma má performance na Argentina, dois anos depois, o motivaria a deixar um posto que conhecia de memória. Mas a sua herança competitiva e táctica ficou, de tal forma que o conjunto orientado pelo seu adjunto, Jupp Derwall, repetiu os ensinamentos de Schön até à exaustão quando venceu o Europeu de 80 e marcou presenças na final de 82. Seria um dos seus melhores alunos, aquela cuja ruptura mais lhe custou, que levaria as suas ideias um pouco mais longe para devolver a Alemanha aos titulos mundiais: um tal de Beckenbauer.
Como se passa de ser um herói aclamado nos conturbados finais dos anos 60 nos relvados argentinos a ter direito a uma página de ódio no Facebook do século XXI? A carreira de Roberto Perfume, um dos centrais icónicos que definiram uma era do futebol che, está marcada pela polémica. Dentro e fora dos relvados. A sua grandeza como futebolista tornou-se diametralmente oposto à sua popularidade como comentador desportivo. A lenda do Mariscal, tenta sobreviver no meio de tantas dúvidas...
Foi o grande critico de Lionel Messi na Argentina e por isso muitos não lhe perdoam. Foi o transbordar do copo de água que levou a que muitos dos seus maiores criticos se juntassem ao grupo online "Odio Los Comentários de Perfumo", que tem aumentado a sua lista de seguidores numa popular rede social. Não seria de estranhar. Aquele que já foi idolo de massas numa Argentina convulsa tornou-se hoje num dos alvos preferidos daqueles que querem esquecer uma era onde o futebol argentino passou primeiro pela violência e só depois pelo amor pela bola.
Perfumo é filho da geração que viu morrer "La Nuestra", o ideal desportivo filho da Maquina do River Plate e que a 15 de Junho de 1958 se desfez implacavelmente aos pés da Checoslováquia. Naquela tarde a Argentina disse adeus ao Mundial da Suécia e o país entrou em depressão. A consequência foi drástica e mais do que despedir um técnico que levava dez anos no seu posto, despediu-se uma ideia de jogo que se aproximava muito ao futebol estético da escola danubiana. Emergiram as figuras fisicamente possantes, aguerridas e dispostas a tudo para ganhar. Poucos jogadores se identificaram tão bem com essa escola como Roberto Perfumo.
Começou a sua carreira no River Plate mas foi a escola do Racing de Avellaneda que fez dele o central aguerrido e implacável que abriria uma escola que ainda hoje sobrevive (basta pensar, por exemplo, em Walter Samuel). Ao serviço dos celestes venceu um titulo nacional e uma Copa dos Libertadores e mais tarde a Intercontinental. Deslocado no lado direito do eixo central da defesa, tornou-se determinante na regenerada selecção albiceleste que viajou até Inglaterra em 1966. O conjunto sul-americano tinha adoptado finalmente o 4-4-2, com Rattin como médio defensivo e Olmeda como médio mais criativo, mas era o papel de Perfumo, como defesa bloqueador, que garantia a estabilidade defensiva que iria permitir aos argentinos chegar ao duelo com os locais nos Quartos de Final. No meio de muita polémica a equipa argentina voltou para casa, mas o modelo e, acima de tudo, o posicionamento chave do central porteño, ficou na retina. Mas em casa o futebol tinha mudado e o sucesso de jogadores como Perfumo entrava mais de acordo com o espirito guerreiro (e até violento) do jogo praticado também então pelo Estudiantes de la Plata do que na tradição romântica dos centrais das pampas. E isso acabou por lhe fazer pagar, a longo prazo, uma pesada factura. A violência das suas entradas aos jogadores do Celtic, na Intercontinental de 67 a três jogos ficaria na memória dos europeus que seguiram o jogo. Venceu a taça (e tive direito a um carro novo depois de ter sido expulso no terceiro jogo por agredir Archie Gemmill) mas perdeu, provavelmente, a imortalidade.
Quando os argentinos se esqueceram de que a bola era o principal, como diria anos mais tarde Menotti, o sucesso imediato transformou-se a pouco e pouco numa vergonha nacional. Entre a debacle estética chegou a falta de resultados e a derrota com o Peru - numa péssima tarde do central, ultrapassado facilmente por um tal Teofilo Cubillas - significou também o afastamento precoce da Argentina do Mundial de 70. O ambiente era de cortar à faca, a imprensa tinha perdido a paciência com o jogo duro que Perfumo tão bem demonstrava no terreno e começou a exigir cabeças. O central acusou o toque, entrou em profunda depressão e pediu a transferência para o vizinho futebol brasileiro.
Aí, ao serviço do Cruzeiro, voltou a saborear o sucesso. O seu estilo foi domado pelo ritmo de jogo brasileiro e com os de Belo Horizonte sagrou-se tricampeã brasileiro antes de voltar a uma Argentina à procura de reencontrar-se consigo própria. Absolvido pela imprensa e pela direcção técnica da selecção, chegou a tempo de voltar a integrar (e capitanear) o grupo que viajou à Alemanha para o Mundial de 74. Os titulos com o River Plate, para onde tinha migrado depois da aventura brasileira, ajudaram, mas o seu estilo duro continuava a ser uma imagem de marca dificil de suportar com a progressiva ascensão de defesas mais elegantes - apesar de igual de brutais quando queriam - como Daniel Passarella. Na Alemanha Perfumo jogou, mas foi impotente para travar o futebol eléctrico da Holanda de Cruyff. As sucessivas faltas que era obrigado a cometer ao carroussell ofensivo dos holandeses espelhavam a incapacidade que tinha demonstrado em adaptar-se a este novo ritmo de futebol total.
A carreira na Argentina prolongou-se quatro anos mais (com titulos) mas antes do Mundial que consolidaria a Argentina romantica de Menotti (onde não havia lugar para jogadores como ele), decidiu abandonar o jogo e começar uma carreira de director desportivo primeiro e, mais tarde, comentadores televisivo. Polémico fora dos relvados como dentro, criticou sempre que pôde os jogadores mais virtuosos saídos das pampas, desde Ortega e Riquelme a Messi. Agradava a um sector duro, defensor do billardismo, que o tinha como profeta inicial do futebol de choque argentino mas, ao mesmo tempo, via a sua lenda de El Mariscal tocada junto do grande público.
Perfumo é, como poucos jogadores, o exemplo de uma era. A Argentina desencontrada com o seu coração romântico apelou, como espelho claro da ditadura militar que vergava o país, a que tudo valesse se a glória fosse o resultado final. Talvez o seu estilo duro, implacável e demolidor não cabesse num desenho de Quino, mas ele era também, de certa forma, e como essa irreverente Mafalda, o outro lado do espelho de um periodo que os argentinos ainda não sabem muito bem como digerir e que, em muitos casos, preferiam poder esquecer.
Durante largas décadas o lado de lá da "cortina de ferro" foi um poço de mistérios e suspense que escondia surpresas inquetantes que deixavam sempre demasiadas perguntas no ar. Mas nenhuma realidade soube ser tão constante e enigmática como a aventura cientifica de um canalizador de Kiev que transformou o clube local no alter-ego desportivo do Bloco de Leste.
Nos dias cinzentos e obscuros da União Soviética era dificil escapar ao centralismo imposto por Moscovo.
No mundo desportivo, a realidade não era de todo distinta e o futebol soviético cresceu com alguns êxitos pontuais de clubes de terras distantes da praça vermelha (Lituania, Geórgia, Arménia, Ucrânia), mas eram as entidades da capital, bem distribuidas entre o poder dominante, quem impunha o ritmo de uma competição de que se sabia muito, muito pouco no Ocidente. O dominio quase asfixiante da capital chegou ao fim nos anos 70 e durante os últimos quinze anos de vida do império soviético, Moscovo tornou-se na excepção, em vez de se manter como a regra.
O motivo de tamanha desfaçatez com as autoridades do regime, um regime já de si caquético e a fraquejar claramente, começou a desenhar-se numa sala deserta da Universidade de Dniepre. Nas tardes de 1971, um antigo canalizador tornado treinador e um professor universitário com formação de cientista astrofísico passavam horas a procurar encontrar a fórmula cientifica certa para tornar um jogo conhecido pela sua imprevisibilidade, num facto consumado de rigidez matemática e cientifica.
Juntos, e durante anos, desenvolveram as suas teorias que depois foram passadas à prática. Programas computorizados, testes psico-técnicos dignos de cosmonautas e uma politica férrea de disciplina - tanto desportiva como humana - moldaram o grande caso de sucesso do futebol de leste europeu: o Dynamo de Kiev.
O aprendiz de canalizador em causa era Valery Lobanovsky. O seu ajudante, mentor do projecto que transformou o clube ucraniano no santo e senha do futebol soviético, o professor Anatoly Zelentsov. Juntos criaram o ideal do desportista comunista, mecanizado até ao limite.
Os treinos do Dynamo de Kiev não eram iguais aos das restantes equipas soviéticas. Antes de cada época o professor Zelentsov fazia os jogadores passar uma série de testes fisicos e psicotécnicos para controlar ao máximo a margem de erro que estes podiam cometer em cada jogo. Lobanovsky defendia que uma equipa que tivesse no final dos 90 minutos uma margem de erro entre os 12 e 15% seria invencivel. O problema estava em chegar a esses números, aparentemente sobre-humanos e, principalmente, incapazes de ser contabilizados e estudados. Os programas de dados, totalmente computorizados, estudavam as abilidades naturais dos jogadores e as suas reações ao treino fisico e psicológico. Os jogadores tinham não só de saber onde se movimentar como também eram forçados a memorizar todos os movimentos dos seus colegas. Como jogadores de futebol americano, os homens de Kiev sabiam durante os 90 minutos onde estaria cada um dos seus colegas a cada momento. Não havia espaço para a improvisação neste projecto. Mecanizados, adestrados e fisicamente preparados, os atletas de Lobanovsky tornaram-se máquinas no tapete verde. E passaram a dominar mais do que o futebol soviético.
No primeiro ano ao serviço do clube pelo qual jogou - em 1974 - Lobanovsky levou para casa o titulo, apenas o quarto do clube em quarenta anos de história. Venceria o troféu mais oito vezes até 1989. Pelo meio também ficaram as conquistas na Taça da URSS (seis no mesmo período) e os triunfos na Europa. Se o modelo parecia claramente funcionar no mercado interno (só uma bela geração do Dynamo Tiblissi e a habitual corrupção interna que permitiu pontuais vitórias do Dynamo e Spartak de Moscovo quebraram o reinado dos ucranianos) foi na Europa que Lobanovsky provou a eficácia da sua teoria. Em 1975 o Dynamo de Kiev, liderado pelo veloz e brilhante Oleg Blokhin, o primeiro jogador ucraniano a vencer o Ballon D´Or, destroçou os rivais até sumar a sua primeira Taça das Taças. Onze anos depois, em Lyon, repetiu a dose, com um claro 3-0 frente ao Atlético de Madrid. Um veterano Blokhin agora acompanhado pela geração mágica, moldada desde a raiz pelo técnico e liderada por Igor Belanov, consumou o triunfo europeu num ano dominado totalmente pelas equipas do Bloco de Leste. Faltou apenas a Taça dos Campeões, perdida em duas meias-finais, em 1977 e 1987, caindo aos pés de Borussia Monchenlagdbach e FC Porto, duas equipas onde primava...o virtuosismo individual.
O projecto de Lobanovsky não encontrou eco apenas no seu clube local. Seleccionador soviético durante dois periodos distintos, o técnico transformou uma titubeante selecção numa potencia mundial com performances brilhantes em 1986 e 1988, onde se sagrou vice-campeã europeia. Uma equipa composta, quase exclusivamente, por jogadores do seu Dynamo. Com a queda do Muro e a chegada da perestroika os atletas do velho lobo saltaram a cortina de ferro apenas para falhar totalmente no futebol ocidental. Nem Zavarov (Juventus), nem Mikailichenko (Sampdoria), nem Aleinikov (Rangers) nem mesmo Belanov, Ballon D´Or em 1986, (B. Monchenlagdbach), sobreviveram ao regime dictatorial e cientificamente calculado do seu mentor. Num futebol dinamico, colectivo mas com esboços constantes de individualismo, eles eram um grão de areia no meio do oceano. E naufragaram estrepitosamente. Tardou dez anos ao técnico em recriar um esboço do seu projecto original. Mas os Shevchenko e companhia já eram productos do futebol ocidentalizado. O experimento cientifico ficou escondido por debaixo dos ares da cortina, das pedras do muro, da bruma do tempo...um tempo onde foi soberano.
O Liverpool não é campeão inglês há 21 anos. Sim, tanto tempo. Kenny Dalglish não é campeão inglês há 15. Sim, tanto tempo. Mas a história de uns e outro está de tal forma ligada que não há, provavelmente, nenhum nome vivo tão adorado pela Kop como o do mago escocês que, de vermelho ao peito, venceu tudo o que havia para vencer. De pé, no relvado. Sentado, no banco que pertenceu durante 20 anos ao "Boot Room" e que a que só ele soube dar continuação. Uma história de amor eterno que conhece um novo e inesperado capitulo. Pode o filho pródigo ressuscitar o pai moribundo?
É bastante provável que Kenny Dalglish seja o melhor jogador da história do Liverpool.
Melhor que Keegan, Toshack, Hughes, Barnes, Souness, Hanssen, Owen, Gerrard, Torres...? Sim, provavelmente, nunca houve uma simbiose tão perfeita entre um jogador e um clube em terras de sua Majestade como esse amor eterno de um escocês que chegou num Verão quente para substituir uma estrela em ascensão (Keegan) e que acabaria por se tornar no simbolo de uma era. Agora, 20 anos depois, Dalglish está de regresso a Anfield. E com uma missão aparentemente impossível: demonstrar aos donos do clube que ele é o homem certo para emular um feito que assinou há precisamente duas décadas: devolver os Reds ao panteão dos campeões.
O último treinador campeão saiu cedo demais de um estádio que o glorificava como poucos. Eram dias dificeis. A tragédia de Heysel Park provocou um ostracismo injustificado para com os campeões ingleses. Os adeptos de Steaua e PSV sabem bem que os seus titulos europeus se devem, em grande parte, à ausência da equipa que então reinava no futebol europeu das provas da UEFA. Durante esse hiato, Dalglish tomou o controlo do clube. A retirada precoce de Joe Fagan significou o fim do Boot Room iniciado por Shankley e continuado por Paisley. O então jogador, já no final da sua carreira, aceitou o desafio da direcção e tornou-se treinador-jogador daquela que era possivelmente, a mais forte equipa do futebol mundial. E fê-lo nos bancos com o mesmo sucesso que demonstrou no terreno de jogo. Ganhando. E assim esteve meia década, aprimorando uma equipa que conhecia demasiado bem. Até Fevereiro de 1991. Um ataque de stress e Dalglish anuncia a sua retirada do futebol. Deixou o Liverpool só, na frente da First Division, mas o titulo seria eventualmente perdido. E o técnico acabaria por reconsiderar, tomando controlo do recém-promovido Blackburn Rovers. Quatro anos depois tornou-se no terceiro técnico a vencer a Liga Inglesa com dois clubes diferentes. Era parte da história. Mas o sucesso ficou-se por aí.
Depois de passar sem sucesso por Newcastle e Celtic, o seu outro clube do coração, o eterno dianteiro voltou a casa como conselheiro da direcção dos Reds em 2009.
Propôs-se a si mesmo para liderar o novo projecto na era pós-Benitez mas acabou por ser colocado de lado. A direcção preferiu Roy Hogdson. Sem sucesso. Na véspera do duelo com o eterno rival, o clube que em vinte anos recuperou o atraso perdido e igualou o Liverpool em titulos, o anterior técnico do Fulham recebeu guia de marcha. E Dalglish um bilhete na primeira fila. Até ao final do ano.
Em Liverpool sabe-se que Dalglish é apenas uma opção de emergência. Sem taças para vencer, com a Liga longe demais, pouco pode o técnico fazer para convencer a equipa directiva a dar-lhe uma nova oportunidade. Relembrar os dias de glória do primeiro Double da história do clube não toca no coração dos donos americanos, apesar de comocionar sempre uma Kop nostálgico pelos grandes dias do passado. O técnico terá o dificil trabalhar de obter resultados imediatos enquanto revive nos adeptos e, principalmente, nos jogadores, o espirito do Boot Room que tão bem soube transmitir em 1985.
Brilhante analista de mercado (as compras que trouxe para o Liverpool - Beardsley, Aldrige, Barnes, Houghton, Walsh - e Blackburn - Shearer, Sutton, Flowers e Batty), apoiante do futebol de formação (lançou Redknapp, McManaman e companhia) e um virtuoso técnico de ataque, o escocês conseguiu como jogador e treinador superar sempre a sombra que o perseguia. Não é por acaso que nas devotas bancadas do Merseyside, ele é ainda o King Kenny de sempre. Pronto para mais um reinado, por muito curto que seja, com a esperança de devolver o maior clube inglês ao lugar mais alto do panteão. Mas sem dinheiro, sem confiança e sem tempo, a tarefa parece hérculea.
Os mais nostálgicos lembram-se do homem que venceu três Taças dos Campeões europeus, duas Intercontinentais, um sem fim de ligas e taças domésticas e que bailava sobre o relvado com uma classe nunca vista. Voltar a ver o mesmo rosto sério, a lembrar os ares de galã de Robert Redford, no banco de Anfield é um verdadeiro sopro de melancolia. O filho pródigo está de volta. Resta saber se é um olá um adeus tão longo como o que resta de temporada...
O futebol europeu arrancou durante os anos 90 debaixo de um imenso feitiço de sedução. Chamaram-lhe Dream Team em homenagem à equipa norte-americana de basket que ali se coroou no inesquecível verão de 92. Meses em que era impossível passar um dia sem se ouvir ecoar na memória a palavra Barcelona. Mas o mito de Cruyff, a lenda que se seguiu, tem, como toda a épica lendária, uma forçosa reflexão a ser feita, capaz de quebrar uma mitologia consensual e enganadora.
Naquela quente noite de Atenas o Dream Team morreu. Desmoronou-se em mil pedaços. Perdeu toda a essência.
E ficou a nu toda a debilidade de uma equipa que durante quatro anos se tornou a inveja do Mundo. Da mesma maneira que ascendeu ao Olimpo, caiu pela montanha rasgada do Partenon. O conceito perduraria, a imprensa europeia trataria disso, e hoje o Pep Team procura resgatar a respeitabilidade que significa ser herdeiro de Cruyff e companhia. Mas que herança é essa? Como nasceu essa ideia de perfeição chamada "Dream Team"?
Para muitos está nos titulos. Quatro ligas consecutivas (histórico no que ao Barcelona diz respeito), a primeira Champions League da história (tão pouco para um clube tão grande) e vários titulos domésticos ganhos aos rivais de Madrid. Para outros era o modelo de jogo. Esse espirito ousado de atacar sem olhar a consequência, esse jogo de toque e resposta, rápido, eficaz e certeiro. Esse amor pelo risco que destoava totalmente do espirito conservador de um mundo futebolistico acabado de sair do traumático Itália 90. E haverá sempre quem aponte o dedo às pessoas. Ao "visionário" Johan Cruyff, esteta como técnico como era como jogador, ao seu fiel escudeiro Rexach, portador do espirito catalão, ou à tropa de artistas encarregados de pintar a obra: Stoichkov, Romário, Laudrup, Salinas, Zubizarreta, Bakero, Alexanko, Eusebio, Beguiristain, Nadal, Ferrer, Sergi e Guardiola, sobretudo, Pep Guardiola.
Esses condimentos estavam lá, foram reais e únicos. O Barcelona foi, de facto, a equipa que mais belo futebol praticou entre 1990 e 1995 no continente europeu. Um futebol atractivo para o público televisivo que começava a tomar contacto com novas realidades e maior exigência. Era a resposta ao dominio sufocante do Real Madrid em Espanha e da Serie A na Europa numa era em que a Premier League, a recuperar do trauma de Heysel, dava ainda os seus primeiros passos. Era uma equipa com uma táctica diferente, uma camisola diferente e um ritmo de jogo endiabrado. A lenda, como diria John Ford, faria o resto e suplantaria a realidade.
Verdadeiramente o Dream Team era um projecto repleto de importantes falhas que foram escondidas habilmente durante quase vinte anos.
Olhando para trás no tempo é dificil acreditar que há ainda quem pense naquele como o melhor Barcelona da história. Não só pelos logros actuais do Pep Team, uma versão actualizada e aprimorada do conceito cruyffiano, bastante mais coerente e perfeccionista. Mas sobretudo pela mágica geração de 50 que os catalães aprenderam a esquecer quando surgiu Di Stefano vestido de branco. O conjunto que Cruyff orientou durante quase uma década teve o seu momento mais alto na noite de 20 de Maio em Wembley. Mas mesmo essa noite, a da consagração, explica muito dos fantasmas que rodeiam o adorado conjunto culé.
Cruyff era um excelente jogador, o melhor talvez no seu posto, e como técnico tornou-se numa das figuras mais consensuais e sobrevalorizadas da história recente do futebol europeu. Chegou a um Barcelona em crise, devastado por mais um tropeço europeu com Terry Venables e em combustão interna entre os jogadores e a direcção do autoritário Josep Luis Nuñez. Ao contrário do que se pensa não havia praticamente catalães naquela equipa. E os que havia eram maus demais para aguentar. O holandês, que como jogador tinha feito história durante um ano (e vivido à sombra dela nos seguintes), exigiu investimentos. Trouxe os melhores (excepto os que militavam no eterno rival de Madrid) e perdeu três anos a moldar um sistema de jogo original. Um 3-4-3 elástico, que apostava nas transições rápidas e no futebol de toque curto e asfixiante até inebriar o rival. E levá-lo a ceder. O truque estava no trabalho de meio-campo que devia suportar uma defesa mais débil e um ataque com mais liberdades do habitual num futebol cada vez mais rigidio e organizado. Com essa ideia, os médios deveriam, tal como na Holanda de 74, surgir muitas vezes como os finalizadores. Para isso era determinante que fossem jogadores de alto nível. O técnico contratou José Maria Bakero, Michael Laudrup e lançou para a ribalta um escanzelado Josep Guardiola, a quem juntou o outro catalão de serviço, Guillermo Amor. Os quatro eram a medular de uma equipa que aproveitava a visão de jogo de Guardiola para apostar igualmente em laterais ofensivos (Ferrer e Sergi), recuando o centro-campista no apoio directo a Miguel Angel Nadal, único central inicialmente. Rapidamente acompanhado por Ronald Koeman e Andoni Zubizarreta (outras apostas pessoais do técnico), o sector defensivo passou a ser o primeiro elemento de apoio ofensivo, onde brilhavam Stoichkov, Beguiristain e Salinas. O último acabou por pagar cara a sua indolência e falta de mobilidade sendo substituido por outra compra milionária, o brasileiro Romário.
Esse Dream Team desmentiu a origem do conceito de jogo da Masia, tão defendido (e tão real) hoje em dia por uma verdadeira constelação de compras anuais que iam melhorando, a olhos vistos, a equipa. Nos dois primeiros anos o Barcelona venceu apenas uma Copa del Rey, ficando a anos-luz de Madrid e Atlético e uma Taça das Taças, em 1989, frente à Sampdoria. Mas dois anos depois, numa nova final da Taça das Taças e contra outro projecto a dar o seu arranque, o Manchester United de Ferguson, a equipa espanhola não aguentou o ritmo inglês. A ideia ousada de Cruyff era falivel. Mas faltavam nessa noite algumas das peças chave dos sucessos posteriores.
De 1991 a 1994 a história é de sucesso. Mas com interrogações.
O Barcelona venceu quatro ligas consecutivas mas ao contrário da primeira época, onde o dominio foi absoluto, as restantes foram autenticos sufocos, ganhos no último suspiro. Duas contra o Real Madrid, no mesmo cenário, Tenerife. Em ambos os casos os merengues lideravam a classificação. Em ambas as tardes perderam diante do conjunto canário oferecendo de bandeja os titulos à equipa de Cruyff. O quarto caso foi ainda mais dramático. O Deportivo la Coruña liderou quase durante toda a época e na jornada final precisava apenas de um empate frente ao Valencia. Perdia por 1-0 quando, no último minuto, um penalty colocou tudo em suspenso. Bebeto, o marcador habitual, escondeu-se da responsabilidade e o central Djukic rematou sem alma, falhando. O Barça ganhou ao Sevilla e conquistou o Tetra. Sem entender bem como, uma vez mais.
Pelo meio ficavam as sensações mixtas de uma equipa capaz de vencer por 5-0 no Bernabeu e depois perder por 6-0 diante de um Logroñes. Altamente irregular, o conjunto de Cruyff tinha um problema de esquizofrenia táctica. Uma defesa demasiado débil (que levou muitas vezes o técnico a apostar num 4-3-3, base do modelo actual de Guardiola), um ataque que tinha tardes de desesperante ineficácia e, acima de tudo, um problema com os estrangeiros. Numa época em que só podiam jogar três, a equipa contava com quatro jogadores de classe Mundial. O holandês fez de Koeman e Romário as peças chave e foi alternando entre Stoichkov e Laudrup. O dinamarquês, peça desiquilibrante no miolo, saiu desgostado. Para liderar a revolta merengue. Antes tinha sido o farol da grande noite europeia frente à Sampdoria, equipa que dominou grande parte do jogo mas não conseguiu marcar. Uma vez mais a sorte protegeu os culés, depois do golo épico de Bakero frente ao Kaiserlautern, que evitou uma precoce eliminação meses antes. A mesma sorte não teve o conjunto blaugrana nas outras duas edições do torneio. Em 1993 a equipa nem chegou à fase de grupos, eliminada pelo CSKA Moscow nos Oitavos de Final. Foi o culminar de um ano negro depois do festival futebolistico aplicado pelo São Paulo de Raí numa histórica final da Taça Intercontinental. Um ano depois, em 1994, os culés voltariam à final. Foi aquela noite de 18 de Maio. Aqueles quatro golos deixaram a nu todos os aspectos negativos do conjunto blaugrana. A fragilidade defensiva com as bolas nas costas da defesa, a inoperância ofensiva, a ausência de um criativo, o sacrificio de Guardiola e, sobretudo, a incapacidade de Cruyff, que nunca soube reagir à teia de Capello. Foi o fim. A alcunha ficou, o prestigio também, a admiração não se esmoreceu. Mas os factos eram claros.
No ano seguinte Laudrup, o despeitado, liderou a revolta do Real Madrid com 5-0 incluido no pacote. Na Europa o conjunto catalão repetiu, pela enésima vez, erros do passado. Superado no Grupo pelo IFK Goteborg, o Barça sofreu a humilhação de cair nos Quartos frente ao PSG francês. O ano seguinte, já sem estrelas, foi mais negro ainda e o holandês foi despedido e anunciou a sua posterior retirada passando a viver da honra e glória perdida. Tacticamente pouco inovador, o conceito de Cruyff era apenas uma variação da táctica criada nos anos 70 por Michels. Aprimorada por Guardiola (que aprendeu muito daquela noite em Atenas), a filosofia do "Futebol Total" continua a ser o santo e senha no Camp Nou. Mas se o mito consolidou o Dream Team como a equipa perfeita, a verdade é que o espelho apresenta muitos riscos e falhas para não passar por um subtil engano. A grandeza da lenda está, precisamente, na forma proporcional como se afasta da realidade. Aquele Dream Team era mágico. Tão mágico como frágil. Como todos os castelos de cartas, acabou por cair.
Talvez tenha sido o maior guarda-redes da história. Talvez tenha regressado do mundo dos mortos. Mas a mágica carreira de Ricardo Zamora, a primeira grande estrela mediática do futebol europeu, é um constante deambular entre o sol e a penumbra, o claro e o escuro. Simbolo do mágico Barcelona dos anos 20, soube trair por três vezes "a causa" e acabou por cair na hábil teia de Franco para se tornar num dos simbolos do novo regime.
Conta Philip Ball no seu imperdível Morbo: The Story of Spanish Football, que em 1936 a imprensa republicana noticiou que o histórico Ricardo Zamora, o homem que à época era mais popular em Espanha que Greta Garbo, tinha sido morto na fronteira por soldados falangistas quando procurava voltar de França, onde estava refugiado. Zamora era a maior figura do desporto espanhol, conhecido como El Divino, e a noticia era tão séria que os jornais falangistas rapidamente decidiram contrariar a informar e declarar o óbito como culpa das armadas comunistas que patrulhavam a zona basca. No meio de tanta confusão mediática apareceu Zamora, como quem regressa do mundo dos mortos. E por um segundo o país respirou de alívio.
Ricardo Zamora era assim, um bálsamo para um país que gostou sempre de conflitos, nem que fossem dialécticos. Foi a primeira grande estrela espanhola dentro e fora dos relvados. Uma verdadeira vedeta desportiva que encandilava com as suas defesas nos campos pelados de Les Corts como pelas suas passeatas a altas horas com Gardel nas Ramblas barcelonesas.
Filho de espanhóis numa Catalunha em fase ultra-nacionalista, tornou-se rapidamente na grande figura do recém-inaugurado estádio do FC Barcelona. Com Alcantara e Samitier constitui o primeiro grande trio histórico do futebol ibérico. O Barcelona viveu uma das suas décadas mágicas e a fama de Zamora era tal que fora de Espanha chegavam convites de toda a Europa para que o clube entrasse em digressões pelo velho continente, sempre e quando ele fosse titular. Mas ao contrário de muitos dos seus colegas - particularmente o pequeno Alcantara, o Messi da década 20 - não havia nada no sentimento catalão que começava a tomar controlo dos elementos directivos blaugranas que o atraísse. Era um homem da vida, um verdadeiro amante da boémia e a politica não lhe despertava o minimo interesse, especialmente se fosse uma politica nacionalista. Com Primo de Rivera no poder e com o nacionalismo catalão debaixo de fogo, Zamora "traiu" o Barça e atravessou a Diagonal rumo ao modesto Sarriá onde jogava o Español, clube fundado para espanhóis em Barcelona como contraposição ao nacionalismo do clube de Gamper. Ao serviço dos "blanquiazules", para os quais tinha jogado na sua juventude antes de rumar ao clube azulgrana, Zamora foi, uma vez mais, igual a si mesmo e continuou a ostentar o titulo de maior guarda-redes do Mundo, confirmado com várias exibições de gala com a camisola de Espanha, que chegou a capitanear para escândalo da Barcelona de então, nas Olimpiadas de Antuérpia de 1920 em que a Espanha logrou uma histórica medalha de prata.
Ao serviço do Español (assim escrito à espanhola, a versão catalão tem meia dúzia de anos) o portero fez alguns dos seus jogos mais deslumbrantes a ponto que o Real Madrid, então ainda longe de ser uma força suprema do futebol espanhol, não se incomodou com a já sua avançada idade e avançou para uma contratação milionária, a primeira do seu largo historial. 140 mil pesetas, 40 mil das quais directamente para o jogador, marcaram um primeiro recorde em Madrid. Na capital o guardião sentiu-se como peixe na água e começou a deixar transparecer os seus sentimentos pró-falangistas. Esteve até 1936 nas redes do velho Metropolitano. No último encontro da sua carreira, no derradeiro instante, travou sobre a linha de golo um remate de Escolá, dianteiro do Barcelona, para garantir o triunfo por 2-1 do Real Madrid sobre o seu histórico rival. Foi uma doce vingança pelas palavras criticas que ouvia regularmente sempre que voltava à Cidade Condal.
Acabada a carreira começa a guerra. Zamora foge para França, com o seu colega de andanças e traições Pep Samitier, e é capturado pelo exército republicano. Consegue escapar e chega a actuar no Nice durante dois anos até que volta a Espanha para capitanear num jogo não oficial o primeiro encontro da selecção falangista. Foi um reconhecimento internacional que os republicanos nunca perdoariam (eles que tinham, pela figura do presidente Alcalá Zamora, galardoado o guardião no fim da sua carreira com a Ordem de Mérito) e que Franco agradeceria profundamente. O Generalissimo dotou o guardião de todas as honras a partir dos anos 40 e a imprensa afecta ao regime começou a campanha de popularização da figura do guardião junto das novas gerações, com o guarda-redes a surgir em vários filmes com atletas do Real Madrid dos anos 40 (ele que tinha protagonizado já filmes nos anos 20). O recém-criado jornal Marca instituiu também o prémio Zamora para galardoar o melhor guardião espanhol de cada ano, como contraposição ao troféu Pichichi para o goleador de serviço da liga.
Tornado figura oficial do regime, Ricardo Zamora tentou brevemente uma carreira como técnico e foi mesmo apontado como seleccionador nacional em 1952 para surpresa geral. Mais um agradecimento do General Moscardó, então hábil ministro dos desportos de Franco. Depois dessa experiência voltou a Barcelona para ir caindo no anonimato geral do qual foi resgatado já após a Transicion democrática. Politicamente controverso, o talento inato de Zamora era tal que ainda hoje há que se aventure a considerar El Divino como o maior guardião de sempre. Pode ser que tenham razão...
Israel ainda não é um país muito dado à magia do desporto-rei. Apesar das boas sensações do Hapoel Tel-Aviv, poucos são capazes de contar pelos dedos das mãos as principais figuras do futebol jogado pelos filhos das doze tribos. Mas essa odisseia, como a marcha de Moisés, teve um inicio. Nos pés de Avi Cohen, um lateral capaz de fazer a diferença, um jogador capaz de ultrapassar barreiras insondáveis, um profeta antes do tempo...
Há uns anos o mundo maravilhava-se com os golos de Revivo, então a grande estrela do melhor Celta de Vigo da história. Recentemente o You Tube ofereceu aos mais incautos os talentos de um tal Gui Asulin, que o Barcelona não quis guardar e que acabou na folha de pagamentos dos árabes - e viva a ironia - do Manchester City. Pelo meio estão os nomes que ninguém se lembra, as gestas inombráveis e os clubes que todos confundem com os rivais cipriotas, gregos ou turcos. É essa a sina do futebol de um país encrustado nas provas europeias para não ter de defrontar a cada duas por três os seus vizinhos árabes. Uma decisão politica que pouco fez para alterar o futebol em Israel e pouco impacto causou no circo europeu.
Quando a liga israelita ainda era totalmente amadora, o Liverpool, rei da Europa e do Mundo, do incumensurável Bob Paisley, espetou uma lança no coração de Tel Aviv e recrutou o primeiro de uma curta linha de profetas que ainda não fez do país criado à medida da diáspora hebreia, uma potência futebolistica.
Avi Cohen era um defesa de primeiro nível. Capaz de entrar no onze mais admirado do futebol europeu do final da década de 70. Nascido no Cairo, quando os pais procuravam forma de entrar no recém-criado estado israelita, cresceu na capital Tel Aviv, onde começou a actuar pelo Maccabi local. Rapidamente emergiu como uma das grandes figuras da liga local, vencendo duas ligas consecutivas, e chamou a atenção de alguns olheiros europeus. O Liverpool tomou a dianteira e contratou-o por 200 mil libras, valores significativos para um defesa à época.
Em Anfield Road moravam os melhores entre os melhores e Cohen demorou a entrar no onze titular.
Na equipa onde Dalglish era o farol, Johnson o goleador e Souness a alma viva, o israelita tornou-se num elemento importante da manobra defensiva, feudo de Thompson, o veterano capitão. Na sua primeira época o israelita entrou para a história dos Reds com um inusual e oportuno golo no derradeiro encontro frente ao Aston Villa. Um tento que deu o titulo aos de Anfield diante do eterno rival Manchester United, terminando com o curto reinado do Nottingham Forrest de Brian Clough. O golo valeu ao israelita um imenso prestigio na sua terra natal mas no ano seguinte Cohen tornar-se-ia persona non grata para a sociedade israelita ao aceitar jogar no Yom Kippur, dia sagrado para os hebreus. O Liverpool jogava em Southampton e o lateral jogou no empate a duas bolas contra uma equipa então liderada por Kevin Keegan. Os adeptos reconheceram-lhe o gesto mas no final da época um par de lesões e a ascensão meteórica de Alan Kennedy, autor do golo da vitória do Liverpool na final da Taça dos Campeões contra o Real Madrid, fecharam-lhe as portas de Anfield.
Cohen voltou então ao seu Maccabi antes de terminar a carreira em Glasgow, onde actuou durante duas épocas ao serviço do Rangers por convite pessoal do seu velho amigo dos dias à beira do Mersey, Graeme Souness, então treinador-jogador dos escoceses. O internacional israelita - jogou 51 vezes pelo seu país natal, um recorde à época - pendurou definitivamente as botas em 1990 e tornou-se primeiro técnico e mais tarde presidente da Associação de Jogadores Israelitas.
Considerado unanimemente como um dos maiores desportistas da história de Israel, Avi Cohen não sobreviveu aos ferimentos de um acidente de moto e depois de dias de incertidumbre, acabou por falecer. Das bancadas de Anfield ao Rebook Stadium de Bolton, onde o seu filho joga actualmente, passando por cada recanto de Israel, a sua morte sentiu-se profundamente. Afinal, ele foi o primeiro profeta de uma nação por descubrir. Um profeta que sabe que nunca caminhará só...
Tique, taque. Uma precisão suiça em pleno relvado de Belgrado. A bola arranque no miolo central e ali fica, a deambular de um lado para o outro, com a exactidão segura de controlar o tempo. O rodeo asfixia, a verticalidade mata. Debaixo da estrela vermelha com fim à vista, uma geração dificil de reeditar colocava em práctica a sua máxima preferida. O futebol belo é exacto. As vitórias são apenas as migalhas que engolhe o tempo.
26 de Maio de 1991, Bari.
Aqui acabou, provavelmente, uma das maiores gestas desportivas da história. O último grande milagre da história do desporto rei, rapidamente trucidado pela guerra, pelos milhões, pela perda total do controlo. Uma noite cinzenta que colocava o ponto final numa história tão colorida como o arco-iris. Uma geração de magos torpedava um velho sonho europeu gaulês e colocava um ponto final na história era da Taça dos Campeões Europeus. A partir do ano seguinte o espirito da Champions League começaria a asfixiar os campeões dos países periféricos. O despertar do velho ódio nos Balcãs tratou de fazer o resto e destruiu uma equipa chamada a fazer história.
20 de Março de 1991, Berlim.
O muro tinha caído e a Alemanha unificada deveria estar em festa. Mas ao minuto 78 do jogo da segunda mão dos Quartos de Final da Taça dos Campeões, os adeptos do Dinamo Berlim, último representante da RDA na prova, invadiram o relvado onde a sua equipa, hoje perdida nos meadros regionais do futebol germânico, perdia por 2-1. O árbitro espanhol Emilio Soriano deu o jogo por terminado e a UEFA concedeu um triunfo por 3-0 aos visitantes. O mesmo resultado atribuido também por decisão da UEFA a um duelo que se disputava a oitocentos kms de distância, na solarenga Marselha, onde o Olympique local se batia com o campeão europeu em titulo. As luzes foram abaixo, o Milan abandonou o relvado e a UEFA declarou o Olympique ganhador. O destino impediria um revival histórico de um duelo que deixou mossa em Belgrado.
10 de Julho de 1986, Belgrado.
A direcção do Crvena Zvezda aponta como técnico da equipa principal Velibor Vasovic. O ex-selecionador jugoslavo começou o projecto de cinco anos com um objectivo claro: reinar na Europa. Durante os cinco anos seguintes a equipa mudaria de técnico cinco vezes, venceria quatro ligas (com uma derrota pontual em 1989) e espantaria o futebol europeu recrutando progressivamente a melhor geração de sempre da história do futebol de um país a desfazer-se. Com a precisão de um relógio as peças foram chegando a tempo, encaixando na perfeição e funcionando sem surpresas.
A geração de Sestic, Ivkovic, Elzner, Mrkela e Durovski foi recebendo sucessivos upgrades a partir de 1986.
Chegaram Robert Prosinecki (para substituir o patrão da equipa, o inimitável Stojković) e a sua alma gémea, Jugovic. Explodiram os génios de Mihajlovic, Belodedic e Stojanovic na defesa. O ataque vibrava com as movimentações do proscrito Savicevic e do rebelde Pancev. E a orquestra funcionava de forma perfeita em conjunto.
O estilo de jogo rendilhado dos jugoslavos ganhava outro dinamismo nos grandes palcos europeus. Os passes letais de Prosinecki, talvez o maior embaixador desta geração, encontravam sempre o caminho mais rápido para o golo. A equipa vermelha e branca dominou o campeonato local - apenas com o Dinamo de Belgrado de Boban como rival à altura - e começou a desafiar o status quo europeu.
Em 1988 estiveram a breves instantes de terminar com a lenda do AC Milan de Sacchi antes mesmo de esta ter arrancado. O conjunto eslavo vencia por 1-0 o conjunto italiano, privado do génio de Gullit, quando o nevoeiro invadiu o imenso Marakana levando o jogo a ser interrompido. Quando reatado, os italianos surpreenderam os locais e lograram empatar, selando o apuramento. A desforra ficaria adiada até 1991. O Crvena Zvezda, popularmente conhecido como Estrela Vermelha por cá, estava determinado a reencontrar os bicampeões europeus. Mas aquela noite fria de Março ditou outro destino. A lenda italiana acabava e os jugoslavos, depois de baterem o Bayern Munchen, encontraram previsivelmente na final aquele Olympique Marseille galáctico onde Wadle, Pelé, Papin, Olmeta, Mozer, Tigana e Stojkovic davam cartas. O duelo, agendado para o San Nicola de Bari, passou para a posteridade pelas piores razões. As duas espectaculares formações ofensivas preferiram especular e o espectáculo ficou adiado. O marcador avançava e Goethels, técnico dos franceses, lançou Stojkovic contra a sua antiga equipa. O jogo mergulhou então nos penaltys e o jugoslavo, provavelmente o maior especialista no terreno de jogo, recusou-se a marcar. Não contra os seus.
Os franceses avançaram temerosos. O internacional Amoros falhou o primeiro remate que caiu nas mãos de Stojanovic. Os franceses tremiam. Mas Prosinecki não. Nem Binic, nem Belodedic, nem Mihajlovic... nem Pancev. E foi suficiente. O plano funcionou, a história encontrou o seu último campeão do leste - cinco anos depois do Steaua Bucaresth - e o futebol despediu-se com uma ovação de uma das suas últimas grandes equipas.
Dias depois a guerra e os milhões do Ocidente desmantelaram o histórico clube de Belgrado. Separados, os artistas de Belgrado nunca voltaram a render ao mesmo nível, nem em Espanha, nem em Itália nem em Inglaterra. O clube jugoslavo pagou o preço da destruição do velho gigante de leste e mergulhou na mais profunda depressão. Esta semana, vinte anos depois de ter arrancado a sua mais gloriosa campanha europeia, o clube nomeou a maior glória daquela noite, Prosinecki, como novo Manager. O tempo não volta para trás mas a precisão de relógio do mago de Belgrado tem com vista tempos pretéritos. Só assim se poderá resgatar a chama de um conjunto que rasgou a cortina antes de tempo para mostrar o lado mais belo do futebol.

