E no final 10 pontos eram mesmo demais. O Barcelona não logrou lograr um feito ao alcance de muito poucos e perdeu a Liga para o eterno rival. Um golpe duplo porque não conseguiu paliar o fim de uma série mágica de três titulos com uma nova vitória europeia. Ambas as equipas degladiaram-se até à morte na liga e na Europa pagaram o preço. O fosse entre Madrid e Barcelona é maior do que nunca, o jogo mais plástico de Guardiola não aguentou um ano mais e a eficácia goleadora do contra-golpe de Mourinho deu a estocada final. Um ano que mais do que uma mudança de ciclo, espelha bem a viabilidade de dois projectos antagónicos.
Parece evidente que, apesar do titulo logrado este ano, poucos se atrevam a não pensar no Barcelona como favorito para lograr o titulo da próxima época. É o poder de uma ideia que se sobrepõe a tudo, até aos resultados. O Barcelona sem Guardiola será substancialmente distinto e, no entanto, muito similar ao que temos acompanhado desde que Rijkaard tomou as rédeas do clube em 2004. Uma década de bom futebol, com algumas oscilações, de muitos titulos, dentro e fora de portas, mas sobretudo uma década em que ficou claro a que joga o onze blaugrana.
No meio de tantas certezas a dúvida da derrota torna-se mais perturbadora. Guardiola não logrou emular Cruyff e as suas quatro ligas consecutivas. Nem Cruyff seguramente pensava que o iria lograr, as últimas três conquistadas depois de sprints absolutamente agónicos e erros crassos dos rivais. Primeiro os fantasmas do Real Madrid em Tenerife e depois o medo de Bebeto a fazer história permitiram ao Dream Team dar uma imagem errada da sua real superioridade. Guardiola, perdendo, parece no entanto mais sólido que nunca este adeus do que El Flaco na glória do tetracampeonato.
As derrotas do Barcelona fora do Camp Nou mataram as aspirações ao titulo mas foi o único desaire em casa, frente ao Real Madrid, que confirmou o inevitável. Os blaugrana dependeram mais do que nunca de Leo Messi. O argentino respondeu com uma cifra estratosférica. Vai em 50 golos e com um jogo por disputar ninguém se atreve a prever onde vai acabar. O que logrou o número 10 do Barcelona não tem nome e no entanto, a sua insuficiencia para confirmar um titulo de liga que em Agosto parecia inevitável, explica bem como Guardiola não soube sacar o melhor de Iniesta, Fabregas, Pedro, Sanchez e Thiago na linha de ataque e, sobretudo, que a ausência de um plano alternativo a David Villa e Xavi Hernandez, asfixiou demasiado o jogo catalão. Messi sozinho não pôde com o tridente montado por Mourinho, onde Cristiano Ronaldo foi sempre a figura omnipresente. Se o português manteve até ao fim o seu duelo pessoal com Messi pela Bota de Ouro, a verdade é que o argentino nunca teve uma companhia goleadora tão ilustre como Gonzalo Higuain e David Benzema com quem partilhar os logros. Entre os três jogadores somam-se quase 90 golos, uma cifra superior à dos golos apontados por todas as equipas em prova, salvo o próprio Barcelona. Nesse jogo ofensivo o Real Madrid venceu por K.O. o Barcelona e cimentou um titulo onde pecou sobretudo pelos erros defensivos (em Levante, Villareal, contra o Malaga em casa, frente ao Barcelona no Bernabeu) e pela dificuldade em gerar jogo pelo miolo.
Nuri Sahin foi o flop desportivo do ano, Xabi Alonso perdeu toda a gasolina que tinha por Janeiro e Ozil exibiu-se em momentos pontuais como um génio em potência para depois desaparecer semanas consecutivas. Com esse tremendo hiato no meio, precisamente onde o Barcelona se mostrava iniguável, só se pode explicar o espantoso titulo do Barcelona pela eficácia de um treinador considerado como defensivo mas que apenas entende o ataque como uma sucessão rápida de golpes sem defesa antes que um cerco prolongado, extenuante e fatal. O Real marcou mais golos, gerou mais oportunidades, disparou mais e venceu a prova. O Barcelona venceu a liga alternativa, a plástica, a da bola, a dos admiradores mais incondicionais, um prémio que no futuro talvez faça mais sentido apesar deste ter sido, realmente, o mais fraco projecto da era Guardiola, um projecto que, na hora da verdade, foi silenciado pela tranquiladade de um Cristiano Ronaldo mais solidário, mais lider, mais exigente e, sobretudo, mais determinante do que nunca. O homem da liga.
A mais preocupante novidade é a confirmação do imenso buraco que se gesta entre os dois porta-aviões espanhóis e a restante frota espanhola. O terceiro lugar do Valencia, do sempre contestado Unai Emery, dista uma galáxia dos dois da frente. Atrás dos valencianos uma série de equipas que durante a época viveram momentos de altos e baixos constantes mostrando uma incapacidade tenaz de oferecer uma resistência clara ao duopólio espanhol. Os milhões investidos em Málaga e Atlético de Madrid e as surpreendentes performances de Levante, Osasuna, Espanyol e Mallorca mostram uma classe média espanhola forte mas muito pobre comparada com os ricos do costume.
Decepcionante, por razões distintas, a época de Athletic Bilbao e Sevilla.
No primeiro caso falamos da melhor equipa da Europe League do ano, na equipa que futebol mais espectacular praticou em momentos concretos da época, uma geração de talentos espantosa liderados por um treinador de excepção. Explicar o péssimo posto do Bilbao em liga passa sobretudo por conhecer a dinâmica de Bielsa, homem habituado a trabalhar com poucos jogadores, com poucas rotações que se encontrou como peixe na água nas provas a eliminar, chegando a duas finais no mesmo ano, algo inédito na história do clube. Essa capacidade de socos rápidos e concisos perdeu-se no duelo da liga, com tropeções constantes, especialmente no arranque da época, que custaram muito caro na altura mais importante do ano. O Sevilla, por outro lado, confirma-se como o lado negro da lua do projecto de Del Nido e Juande Ramos que encantou a Europa há cinco anos atrás. Os andaluzes não funcionaram durante todo o ano, nem no terreno de jogo nem fora dele, tentaram liderar uma revolta dos "outros" que não convenceu ninguém e acabaram por cair na depressão de uma profunda nostalgia que os atirou para fora da Europa e atrás, até ao último dia, do eterno rival e recém-promovido Betis.
Atrás do andaluzes o lado negro do futebol espanhol, o das dividas, dos concursos de credores, da péssima gestão desportiva e de um fracofutebol sem pretextos como o que apresentaram demasiadas vezes Villareal, Getafe e Real Sociedad. A tremida época de um Rayo Vallecano onde o dinheiro continua a pecar por escasso não tem comparação com o brutal investimento realizado pelo Zaragoza para acabar num duelo final financeiramente desigual mas pontualmente equilibrado. Na última ronda, no próximo domingo, aos "maños" e "vallecanos" juntam-se os europeus do "Submarino Amarelo", a "mareona" de Gijon e o projecto do Granada, um clube B da Udinese em solo espanhol mas sem a mesma solvência desportiva. Entre ambos jogam-se um bilhete para o abismo, um bilhete de companhia para um Racing Santander que completou uma época tão deprimente como inevitável depois da péssima gestão financeira das contas do clube.
É cada vez mais evidente que o modelo actual do futebol espanhol tem demasiados buracos negros para ter uma solvência imediata. O ano começou com uma greve de jogadores, acabou com mais acusações de irregularidades financeiras e compras de jogos e pelo meio assistiu-se sobretudo a um debate dialéctico entre dois clubes que permite esconder na sombra a depressiva realidade dos restantes 18. No próximo ano ninguém espera que a situação se altere, Mourinho e Tito Vilanova continuaram a sua particular guerra pessoal, madrileños e barceloneses disputaram cada jogo como se fosse uma final de Champions para romper uma vez mais os recordes de golos e pontos e Messi e Ronaldo voltarão a repetir o seu pulso pessoal interminável. Um cartaz atractivo para a maioria dos espectadores de todo o mundo mas que, a pouco e pouco, está a significar o fim da base do futebol espanhol que tanto sucesso deu na última década e que nos últimos quatro anos se transformou no modelo a seguir para o resto da Europa.
O futebol é o desporto colectivo onde a individualidade está mais bem vista. Olhando para o leque de desportos de equipa talvez o basket, pelo mediatismo do mercado norte-americano, goste de sentir-se igualmente rodeado de heróis. Mas no mundo do tapete verde, esférico redondo e 11 contra 11 o poder mediático do "eu" supera talvez demasiadas vezes o mérito logrado pelo "nós". No entanto vivemos uma era onde, pela primeira vez em muitos anos, há um verdadeiro duelo de "eus" que estimula o "nós" que prende a audiência e que, nesta luta de titãs, definirá, de um modo ou de outro, a história.
Faltam cinco jogos para terminar a liga espanhola. Dois para o pontapé final na Champions League.
E a luta continua, prolonga-se pela eternidade mental de dois jogadores que se superam a cada respiração, que exploram todas as falhas do rival, dos rivais, deles mesmos, para continuar a fazer a diferença. E há muitos anos que dois individuos, de forma paralela no tempo e espaço, não eram tão fundamentais em establecer um verdadeiro abismo entre mundos. Se é verdade que o orçamento de Real Madrid e Barcelona é descomunal, mesmo para os padrões europeus, a cada jogo que se sucede fica a sensação de que Messi e Ronaldo jogam cada vez mais outro tipo de jogo. Claro que o colectivo ajuda - e aí Messi ganha com Xavi, Iniesta, Sanchez, Fabregas, Busquets comparado com Higuain, Benzema, Ozil, Kaka e Alonso - e já se viu que sem uma estrutura forte nem um nem outro conseguem romper os maleficios das suas respectivas selecções. Uma lembrança de que este ainda é um jogo colectivo. Mas ás vezes não parece.
Cristino soma 41 golos. Messi também.
Ambos estão a um de igualar o recorde histórico que o português marcou no ano passado, esses números brutais de outra era. E a facilidade com que acumulam hat-tricks, pokers e golos para marcar a história, permite imaginar que não tardará muito e ambos estarão por competir em entrar na meia centena de golos ao ano numa prova onde ainda só há 38 jogos. Messi reina igualmente na Champions League e já superou, com 24 anos, o recorde histórico de César como máximo goleador blaugrana. Em sete anos - e muitos se esquecem que o argentino já anda há tanto tempo na elite - Messi quebrou rotinas, records e percepções, mudou a posição no terreno de jogo, ajudou a mutar o jogo do Barcelona e tornou-se no simbolo de uma geração de futebolistas. O espirito trota-mundos de Ronaldo - Lisboa, Manchester, Madrid - impede-o de ter esse recorde local, mas os números logrados em Manchester, primeiro, e agora em Madrid, não deixam lugar a dúvidas. É o único jogador da história da liga espanhola que supera, em quase três anos, uma média de mais de um golo por jogo.
Registos monstruosos que ajudam a explicar o imenso fosso que se abriu entre Real Madrid, Barcelona e o resto.
O desporto, seja individual ou colectivo, gosta de manos a manos porque, no fundo, deriva da mesma filosofia homérica que toda a Humanidade.
Em cada história desportiva há um Aquiles e um Heitor, um herói e um vilão, uma tendência profunda a catalogar entre Mozart e Salieri quem se defronta com a mesma paixão e emoção na arena.
Desde sempre os dois maiores clubes espanhóis dominaram o torneio nacional e revelaram-se pesos pesados nos palcos europeus. E sempre contaram com grandes orçamentos, técnicos, planteis e, sobretudo, estrelas que marcaram o jogo. Por ambos passaram os melhores jogadores da história com a excepção de Pelé, Garrincha, Best e Beckenbauer. E no entanto, talvez com a excepção de Alfredo Di Stefano, nunca nenhum deles foi tão fundamental em criar um fosso constante com os restantes rivais. Se já é raro na história do futebol espanhol que os dois clubes coincidam nas suas melhores versões no tempo (só entre finais dos anos 50 e principios dos 60 se viveu a mesma realidade), que o buraco pontual aberto com os restantes concorrentes seja recorrentemente de 20 pontos (desde a era Pellegrini) é abrumador. Messi e Ronaldo são a resposta para quem pensa que essa realidade não se prolongará em excesso no tempo. Pelo menos enquanto estes dois monstros do futebol mantenham a sua guerra pessoal contra o outro e contra a história.
Messi sofreu durante alguns anos a suspeita de que era fruto exclusivo de uma grande geração de jogadores, a mesma que ajudou Rijkaard a ser campeão europeu e que depois foi a base do triunfo da Espanha em 2008 e 2012. E isso não deixa de ser verdade. Em 2010 a vitória do argentino na corrida ao Ballon D´Or foi mais mediática que real e no ano anterior Xavi Hernandez foi a verdadeira batuta do primeiro Pep Team, quando Messi ainda jogava colado à banda direita com assiduidade e a veia goleadora de Etoo ainda se fazia notar. Mas ninguém pode questionar que, desde há ano e meio para cá, é o argentino que leva a sua equipa ás costas. A idade e os problemas fisicos de Xavi e Iniesta (muito irregular este ano) não se têm notado porque Messi tem resolvido como nunca e os seus números, em golos e assistências explicam-no bem. Num Barcelona sem Villa e com demasiados problemas para formar uma defesa sólida, esperava-se mais de Pedro e Fabregas, muito irregulares. Também Sanchez alterna semanas intensas com meses fora de combate. E no meio de tudo é a linha Valdes-Puyol-Busquets-Messi que tem sustentado o ano mais curioso da história do Pep Team. O ano em que o Barcelona deve muito mais ao argentino que este deve ao entorno que sempre o potenciou.
Ronaldo viveu um processo mais complexo. Saiu de uma equipa feita à sua medida para entrar num ninho de vespas onde teve de ganhar o lugar de estrela a pulso contra a imprensa, muitos dos adeptos e os detractores do presidencialismo de Perez. No primeiro ano uma lesão manteve-o fora dois meses da luta e dos números mágicos de Messi. No segundo bateu o recorde histórico do Pichichi e superou o trauma de falhar contra o rival nos duelos directos, ganhando uma Copa del Rey com o golo decisivo. Esta temporada foi sempre o melhor blanco contra os blaugranas (marcando três golos nos últimos três encontros) e agora mede-se de igual para igual com a sua nemésis em todos os titulos em disputa. Uma progressão real que também se explica na forma como Ronaldo pegou no Real Madrid quando o conservadorismo táctico de Mourinho e os claros problemas fisicos do plantel se começaram a fazer sentir a partir de Fevereiro.
Mantendo o ritmo intenso de jogos nas pernas e de golos nas redes, a monstruosidade dos números dos dois jogadores promete superar-se jornada após jornada. O próximo fim-de-semana vivierá mais um duelo directo entre ambos, um jogo onde o colectivo certamente será mais importante que o individuo, mas em que todos os focos estarão nestes dois génios do futebol contemporâneo. É dificil dizer quando jogadores tão próximos em todos os niveis quem é melhor. Garrincha foi mais artista que Pelé mas talvez este tenha sido mais completo. Beckenbauer e Cruyff tinham a mesma inteligência e carisma, o holandês mais velocidade e o alemão mais regularidade. Entre Zidane, Ronaldo e Ronaldinho explica-se a metamorfose fisica e táctica do jogo. Messi e Ronaldo vivem esse jogo da eterna comparação, dessa mistura entre números e ideias, desse jogo de reflexos e reacções. O que Guardiola diz, e com toda a razão, é que o facto do génio de um alimentar o génio do outro forçosamente permite antever um duelo titânico sem fim à vista. A diferença entre os dois jogadores e os seus respectivos emblemas pode aumentar, mas nenhum deles se vai dar conta. Estão demasiado preocupados a tentar não ver o outro no espelho reflectido e a olhar para a história com a autoridade dos inquestionáveis.
Há jogadores que se recusam a morrer. A engolir a relva pela última vez com a raiva e impotência de quem sabe que é a última oportunidade. Incombustíveis que não acreditam no fado, no destino ou na mortalidade. Esses jogadores valem muito mais do que as estatísticas e os cifrões podem calcular. São, de certa forma, a base mitológica de um jogo que sempre se ergueu entre génios e guerreiros. Didier Drogba é um elefante com memória, incapaz de aceitar a sua idade e o final de uma carreira brilhante. Tinha a lembrança de uma noite que lhe custou mais caro do que qualquer outra e foi pela enésima vez aquilo que faz dele um futebolista fundamental. Um jogador nunca supera onze, mas uma alma em chamas pode muitas vezes com o melhor desenho táctico.
Imagino José Mourinho a mandar uma mensagem de telemóvel a Didier Drogba ao intervalo como se ainda fosse o seu treinador.
Imagino Didier Drogba a sentir o entusiasmo do treinador por quem se confessou ter apaixonado e sacar forças onde não as tinha no corpo para aguentar outros 45 minutos de luta. O marfilenho não ouviu sequer o que Roberto Di Mateo tinha a dizer. O italiano não está no banco do Chelsea para falar, especialmente a jogadores que fazem da sobrevivência a sua maior virtude. Está claro como a água que Petr Cech, Ashley Cole, John Terry, Frank Lampard e Didier Drogba estão longe de ser o que foram e nunca voltarão a ser, os melhores do mundo na sua posição. Esses dias distantes, no entanto, permitem um reflexo de saudade no espelho e como com Cinderela, até à meia noite a abóbora transforma-se numa carruagem elegante.
A vitória do Chelsea foi, futebolisticamente, a vitória dos Gianni Brera do mundo. Uma vitória que doi para aqueles que abominan que o jogo que apaixonou o povo se tenha transformado num encontro de xadrez. Para Di Mateo, italiano de cêpa, e para o exército de guerreiros que Mourinho montou em 2004 e que ainda se aguanta, o xadrez tem sempre mais interesse que as damas. A movimentação do bloco londrino foi tão lenta e previsível como a dos peões do tabuleiro. Mas o Barcelona de Guardiola que, este ano, é cada vez mais o Barcelona de Messi, não teve a habitual fluidez do jogo de damas. E pagou o preço. Di Mateo abdicou da bola, definiu o espaço onde se ia jogar - fora da grande área de Cech e nunca mais além da linha do meio-campo - e passou os 90 minutos do encontro a garantir que o seu exército, o mesmo que expulsou Villas-Boas, mantivesse as fileiras cerradas. O objectivo de não sofrer um golo em casa era evidente, o de marcar era uma sorte. O futebol que tanto tem penalizado o Chelsea (o tropeção de Terry em Moscovo, o golo fantasma de Luis Garcia, o golo de Iniesta no último suspiro, as polémicas arbitragens...) sorriu-lhe por uma vez. Num dos poucos lances com profundidade ofensiva, a bola circulou entre Lampard e Ramires antes de encontrar o elefante com memória. E foi suficiente. Se Guardiola, na sua filosofia de apostar no jogo interior de médios, abdica habitualmente da figura do avançado de referência, hoje Didier Drogba deu um mestrado de 90 minutos de como essa posição pode ser tremendamente eficaz.
Drogba era o braço-direito de Mourinho.
Sofreu como nenhum a sua saída, nunca mais se reencontrou e naquela noite em que Iniesta pontapeou a malapata e Tom Ovrebo ganhou um lugar entre os malditos da história do jogo, ele pagou como ninguém. Uma derrota, uma suspensão imensa e uma imagem ferida de morte. Três anos depois dessa noite muitos se lembravam desse jogo mas nenhum com a raiva de Drogba. Durante os 90 minutos ele nunca quis jogar futebol. Para ele o encontro era uma guerra, sem nenhuma dúvida, uma guerra onde a bola entrava em jogo mas em que o escalpe do rival também servia como prémio. Encontrou-se com Busquets, Mascherano, Puyol e Adriano vezes sem conta e sempre que foi ao chão voltou a erguer-se. Aos seus 34 anos (imaginemos que essa é a sua idade, suspeitamos que não), o jogo de hoje é irrepetível porque a raiva contida em Drogba finalmente saiu. Com aquele oportuno golo, com aquele destelho de glória irónica que à distância de um sms deve tanto ter agradado a Mourinho.
Drogba venceu o jogo porque foi o primeiro defesa e o último avançado, o espelho do típico avançado completo capaz de ler o jogo como qualquer defesa e com o talento suficiente para fazer a diferença nos momentos difíceis. Em várias ocasiões livrou-se de dois ou três rivais. Depois, sabendo-se só, aguentou como pôde. Fernando Torres, talvez mais virtuoso, passou os 90 minutos no banco. Seria incapaz de fazer algo sequer similar a este esforço sobre-humano do marfilenho. Torres gosta de ter a equipa a jogar para si (e até com a selecção espanhola o sofre), Drogba joga para a equipa.
A vitória do Chelsea deveu-se à garra dos seus jogadores, à disciplina táctica pactuada entre o técnico e o onze, à sorte absoluta de que por duas vezes o poste tenha servido de guarda-redes e, muito, aos erros de Pep Guardiola.
Neste ano o Barcelona tem aumentado tremendamente a sua dependência de Leo Messi. O argentino cometeu o erro que propiciou o golo dos Blues e tentou redimir-se, como grande jogador que é, mas entre Cahill, Terry e Mikel, nunca se sentiu cómodo. E quando Messi está em baixo, o Barça desaparece. Demasiadas vezes para quem tem um plantel tão equilibrado. Guardiola sabia-o perfeitamente e leu mal o jogo desde o apito inicial. O Chelsea fechou-se num quadrado que seguia o espaço que delimitava a área com o grande circulo. Aí posicionou o seu 11 deixando abertas as alas e sobrepovoando o jogo interior. Asfixiou Messi, Iniesta, Fabregas, Busquets e Xavi, todos eles a anos-luz do seu melhor. Mas deixou mais do que espaço para o jogo de Alexis, Dani Alves e Adriano. Só que estes nunca procuraram causar desequilíbrios por fora e Guardiola, em lugar de abrir o campo como tem feito, só colocou Cuenca em campo aos 85 minutos. Pedro Rodriguez caiu na tentação de ir caindo para dentro e Thiago foi mais um interior no meio de muitos.
Em lugar de apostar em Tello (que nem no banco estava) e Cuenca, que tantos problemas têm resolvido esta época, sobretudo fora do Camp Nou, afunilou o jogo como Di Mateo queria. As damas funcionam bem em diagonal e bem abertas. O xadrez é mais eficaz com um tabuleiro reduzido ao mínimo. E letal quando quem joga é um elefante com memória.
Tal como a derrota do Real Madrid no Allianz Arena, o favoritismo do Barcelona encontrou-se com um excelente jogo táctico do adversário e uma fraca exibição da equipa favorita. Ninguém impede o sonho de muitos de uma final 100% espanhola em Munique porque, futebolisticamente, tanto o Barça como o Madrid têm argumentos para vencer os jogos da próxima semana. Mas o cansaço de um Clássico no fim-de-semana e a clara falta de argumentos tácticos de ambos face a rivais teoricamente inferiores foi evidente. Mourinho errou com Coentrão, com a saida de Ozil, com a entrada de Marcelo e Granero, com a falta de paciência no jogo de meio-campo. O Barcelona fechou-se demasiado na sua concha e na dependência de um leão atropelado por um elefante. Tudo muda em 90 minutos e talvez este tenha sido o espelho de uma ilusão, mas a história sempre recordará a saudação militar do guerreiro Drogba para a câmara, talvez para o seu general ausente, com dedicatória especial a todos os elefantes.
Hoje pode ser o seu último jogo nos palcos europeus. Essa frase tem sido repetida até à exaustão desde há dois anos. Mas o mais polémico jogador espanhol da história teima em esconder o segredo da eterna juventude só para si. Se hoje há jogo em San Mamés é porque Raul não se rende nunca e saca os mais apaixonantes artilúgios futebolisticos para desafiar o fantasma da retirada.
Quando Jorge Valdano pegou no miudo de 17 anos a quem chamavam Raúl e o lançou num jogo em La Romareda sentiu que estava a fazer história.
O então técnico merengue referiu-se por diversas vezes ao caracter competitivo de "Rulo". Nunca foi o mais dotado dos jogadores, nunca foi um matador de área, um génio com a bola nos pés, um atleta incansável ou um perito em lances de bolas paradas. Mas sem ser um divino em cada uma destas caracteristicas fundamentais para arriscar entrar na história, foi grande em todas elas. E enquanto os outros se iam perdendo para o tempo e para o corpo que os sustentava, o sete negava-se a desaparecer nos volumes da história.
Os seus dois golos em Gelsenkrichen, a passada quinta-feira, foram a prova viva de que o mesmo jogador que mandou calor o Camp Nou e se tornou em simbolo do Real Madrid continua exactamente igual. O oportunismo de área, o descaro no remate, a contenção na liderança que exerce com uma naturalidade pasmosas. Raúl conviveu com os melhores jogadores dos últimos 20 anos, de Butrageño e Laudrup a Zidane e Cristiano Ronaldo e nunca se deixou sequer atropelar pela imagem de um deles. Quando Florentino Perez, ansioso por construir a sua Galáxia, quis retirar-lhe o sete para entregar o número a Luis Figo, ouviu o que nunca imaginaria ouvir de um jogador de futebol no seu gabinete. Figo foi apresentado com o 10, Beckham com o 23, Zidane foi o 5 e Cristiano Ronaldo o 9. Nenhum deles conquistou os adeptos do Bernabeu, sentou tão bem á imprensa e deixou uma marca tão profunda como o jovem que estava predestinado a ser uma estrela no Atlético de Madrid.
Se a carreira de Raúl é um espelho da sua glória e do seu fracasso, dos seus três titulos europeus com o Real Madrid e os seus repetidos erros com a selecção espanhola, é com as cores do Atlético de Madrid e o Schalke 04 que a sua vida desportiva faz sentido como espelho da personalidade de um herói do silêncio.
Raul podia ter emigrado para as Arábias ou para a liga norte-americana quando Florentino Perez, de volta ao trono, lhe fez saber que nem ele nem José Mourinho contavam com os dois filhos predilectos da cantera local, ele e Guti. O inconstante José Maria Gutierrez deixou-se atrair pela música e pelas mulheres turcas mas o profissionalismo absoluto de Raúl levou-o a procurar o melhor para o seu nome profissional. Foi exactamente a mesma decisão que tomou 15 anos antes. Jesus Gil y Gil estava determinado a acabar com a formação do clube para poupar em gastos e fez várias propostas a jogadores locais por valores insignificantes de empréstimos a clubes da região com a eventual promessa de, num futuro, integrar os quadros dos colchoneros. Raúl não gostou dos números, do destino que lhe estava reservado e da palavra de um presidente reconhecido por não a ter em absoluto. Sem vergonha na cara bateu á porta do eterno rival e foi acolhido como um filho pródigo. Quando deu ao clube a sua segunda Taça Interconintental com um golo que se tornaria imagem de marca, já ninguém se lembrava de onde vinha. Quando enfunda a camisola azul do Schalke ninguém se esquece de donde vem um jogador que transformou radicalmente a imagem de uma equipa com potencial mas demasiado irregular para triunfar ao mais alto nível. A sua exibição em Milão levou o Schalke a umas históricas semi-finais da Champions League e só os seus golos impediram o Athletic Bilbao de estar a marcar hotéis e bilhetes para a próxima fase. Ao principio e ao final a sua visão vai mais além do mero futebolista de prestigio. Recusou-se a ser homenageado pela selecção espanhola por despeito á forma como Luis Aragonés fez dele o bode espiatório que permitiu aos espanhóis acabar com a sua maldição desportiva. No fundo ainda acalenta a esperança de voltar a vestir La Roja e os seus números, este ano, posicionam-no como o melhor avançado espanhol do ano. Não será suficiente, nem por muito que o seu amigo Josep Guardiola o declare como melhor jogador espanhol da história, epiteto onde Gento, Suarez, Butrageño e Xavi têm algo que dizer.
Ver jogar Raúl sempre foi ver um desporto á parte. O avançado estudas as capas, lê as sequências, salta-se os parágrafos e remata o ponto final com a autoridade de um decano universitário que vê passar pelas suas salas de aula gerações de génios em potência. Sem nunca insistir na mitologia a forma como evitou a odiosa comparação com os seus conterrâneos e o seu agastado fim já lhe vale o reconhecimento de muitos que antes lhe torciam o nariz. Os outros, os raulistas, contam as horas passar temendo que chegue o dia em que a fonte da eterna juventude se esgote e Rulo se canse de ser eterno.
Quando era jogador nunca foi um exemplo fora do campo e nunca deixou de ser um génio dentro dele. Negou-se a treinar com a anuência de Cruyff, chegou de helicópetro ás concentrações, disputou a soco o titulo de "bad boy" do futebol brasileiro com Edmundo e passou tantas horas no ginásio como em festas em favelas e hotéis de luxo de Copacabana. Com todo esse historial nas costas era dificil imaginar o que viria a passar mas Romário está decidido a salvar o futebol brasileiro.
Era dificil de acreditar mas Ricardo Teixeira encontrou finalmente a sua nemésis.
O enteado de João Havelange, talvez o pior dos directivos de quem falava Juca Kfouri quando dizia que Deus deu ao Brasil os melhores jogadores e piores dirigentes do Mundo, foi forçado a sair finalmente do seu trono sagrado na CBF. A pressão da investigação jornalista da equipa de Andrew Jennings e do próprio Kfouri, a inimistade com Dilma Roussef foram elementos fundamentais na sua saida. Mas quem deu o tiro de graça foi Romário.
O "Baixinho" foi o herói de um futebol brasileiro orfão de lideres depois da debacle emocional do Mundial de 90 quando a nostalgia do futebol arte da geração de Telé Santana já era um longo adeus. O país perdoou-lhe tudo. A sua indisciplina crónica, a sua falta de profissionalismo absoluta, os casos com as mulheres, as discussões com os colegas e os rivais, as suas amizades com alguns dos traficantes mais perigosos do Rio de Janeiro e, sobretudo, do seu ódio crónico á imagem sagrada de Pelé. Em troca Romário deu-lhes o melhor futebol que o país viu nas eras entre Zico e Ronaldo. Terminou com a seca de 24 anos sem vencer um Mundial de Futebol, nuclear na campanha dos Estados Unidos em campo e fora dele. Tornou-se no terceiro maior goleador da história do país, apenas atrás do "Rei" e de Friedenreich, por muito que muitos dos golos fossem abertamente questionados por todos. Passou pela Europa onde se doutorou com Cruyff e enimistou com Robson, Ranieri e Aragonés voltou ao Brasil como semi-deus. Depois fez-se politico. As más linguas, e no Brasil a má lingua é um desporto nacional como jogador futvoléi nas suas praias perfeitas, diziam que a sua carreira politica, como a de muitos nomes ligados ao futebol, era apenas uma forma de se proteger face aos problemas fiscais que há anos o enfrentavam a Brasilia. Provavelmente teriam razão mas na capital artificial do gigante sul-americano Romário transformou-se, como Pelé, no rosto mais claro de oposição á CBF. O histórico avançado do Santos não teve o poder politico e mediático para vencer a luta com Teixeira e num último acto de desprezo o ex-presidente da Confederação recusou-se a convidá-lo para a cerimónia de apresentação da fase de apuramento para o Mundial de 2014. Mas com Romário, o homem que viveu com ele um dos episódios mais tristes da história da CBF na ressaca do Mundial dos EUA, não encontrou forma de vencer.
As criticas do "Baixinho" começaram por centrar-se na organização do Mundial.
Romário utilizou o seu lugar em Brasilia e o seu poder nas redes sociais para atacar violentamente a organização do torneio. Um torneio onde todos, incluido o próprio Sepp Blatter (que aprovou em 2000 a rotatividade de continentes também a pedido expresso de Teixeira), começam a termais dúvidas do que certezas. As obras levam um atraso histórico, há ainda sérios problemas de financiação com estádios e infra-estruturas, aeroportos e estradas por construir e um pais com uma tremenda pujança financeira que começa a questionar-se, na pessoa da sua nova presidente, se gastar tanto dinheiro para enriquecer a FIFA - da qual Teixeira continua a ser membro honorário - é realmente um bom investimento.
Das criticas ao torneio - que a imprensa brasileira apoia entusiasticamente- o ex-dianteiro apontou baterias a Teixeira. Criticou a sua gestão de mais de duas décadas, a profunda desorganização do futebol nacional no Brasil, o mitico e polémico contrato com a empresa americana Nike e, sobretudo, o investimento paralelo que pode fazer valer a Teixeira e alguns dos seus principais colaboradores contratos milionários com a própria FIFA. O mano a mano durou meses e inicialmente Teixeira, habituado a ser desafiado por tudo e todos, se mostrou condescendente. Aceitou colaborar com o avançado na sua campanha a fazer dos que padecem de sindrome de Down (como uma das filhas de Romário), declarando um investimento de 32 milhões de reais e uma série de bilhetes gratuitos para as organizações patrocinadas pelo deputado. Mas não chegou. No final o cerco mediático organizado por Romário deu ainda mais destaque ás revelações da Folha de São Paulo sobre os seus negócios paralelos. A má performance do Brasil em campo, as queixas de corrupção secundadas pela procuradoria geral e a perda de apoio na FIFA obrigou Teixeira a ceder o seu posto ao seu braço-direito, José Maria Marin. O novo dirigente não só garantiu que a filha do seu antecessor, directiva na CBF, iria manter-se no cargo onde foi colocada pelo pai, como garantiria uma reforma milionário para o ex-presidente até 2030.
Os que pensavam que a luta de Romário era apenas com Teixeira ficaram surpreendidos quando o homen do PSB-RJ anunciou que continuaria o seu combate até limpar a CBF de todo o rastro de "teixeirismo", declarando publicamente o apoio a Ronaldo Nazário como eventual candidato presidencial para a federação brasileira de futebol, no próximo ano.
Com a reeleição praticamente garantida, Romário emulou Pelé em campo e fora dele. Nos anos 90 o histórico jogador brasileiro desafiou os poderes da CBF com a lei que levou o seu nome e que tinha como objectivo reformular totalmente o mais caótico campeonato do Mundo. O poder do lobby da CBF no Senado destroçou uma lei prometedora. Passados quase 15 anos outro homem de 1000 golos prepara-se para continuar a luta para salvar o seu futebol. Entre festas, jogos de futvolei em Copacabana e sessões do Senado, o "Baixinho" revelou-se ser maior que a sua própria lenda. Os cartolas do futebol brasileiro que se cuidem...
De Messi o mais simples que se pode dizer é que é um jogador consensual. Poucos na história lograram ter tanta gente rendida aos seus pés ao mesmo tempo. O recorde logrado na passada noite é apenas um detalhe na sua longa e espantosa biografia como futebolista. Aos 24 anos Messi bateu todos os recordes de precocidade e a esmagadora maioria dos registos de absoluta maturidade. A forma como o mundo do futebol se rende facilmente aos seus pés explica também o seu impacto social e a dura herança que deixará a um Barcelona habituado a estrelas cadentes.
César tinha o recorde e a César o que é de César.
Mas nem nessa maravilhosa equipa das "Cinc Copes", talvez uma das maiores da história do jogo, César era a estrela da companhia, o icone que todos pretendiam emular. Os seus números (232 golos) eram de um goleador nato, de um Dixie Dean á espanhola, mas nem Dean nem César nem Pichichi simbolizam uma era. Messi sim.
O Barcelona está habituado a ter nas suas filas a jogadores de elite. Dois dos quatro ases de poker da história do jogo (Cruyff e Maradona), os dois mais espantosos jogadores das últimas duas décadas (Ronaldo e Ronaldinho) e um leque de glórias que começam nessa equipa de César com o hungaro Kubala e que terminam no jovem argentino. Pelo meio Suarez, Liniker, Laudrup, Stoichkov, Romário, Guardiola, Figo, Rivaldo, Etoo, Xavi ou Iniesta ajudam a entender o nível de classe técnica e talento a que o Camp Nou se habituou nas últimas cinco décadas. E no entanto nenhum desses jogadores conseguiu alguma vez recolher a unanimidade de Lionel Messi. Esse é, sobretudo, o seu grande triunfo.
Pelé foi talvez o único futebolista da história incontestado. Pelo seu aparecimento precoce e espantoso e pela forma como construiu do nada uma equipa que se tornou símbolo de magia e qualidade durante todos os anos 60 até á sua despedida dos grandes palcos com o mais memorável Mundial de que há memória. Por essa época passaram Garrincha, Eusébio, Rivera, Charlton, Best, Fachetti, um precoce Beckenbauer, um veterano Di Stefano e nunca ninguém se lembrou de questionar a supremacia de Edson Arantes de Nascimento. Cinquenta anos depois sucede um fenómeno similar. Excepto os mais acérrimos defensores de Cristiano Ronaldo, a maioria dos adeptos reconhece que o estado de graça de Messi nos últimos quatro ou três anos tem sido espantoso. Não é a primeira vez que um jogador se mantém no mais alto durante tanto tempo, Di Stefano, Cruyff, Beckenbauer e Platini que o digam. Mas quem se lembra disso? Na era moderna, na era global, o mundo habituado a estrelas cadentes surpreende-se com algo que dura mais do que um nano-segundo. Muitos ainda olham de lado para o génio de Ronaldo, Zidane ou Ronaldinho porque, pelo paradigma contemporâneo, sempre parece uma memória efémera. Messi repete-se a si mesmo semana sim semana também, marca golos com a facilidade de um matador, gera jogo com a perspicácia de um playmaker e quando o Barcelona mais débil da era Guardiola se parece afundar, o argentino sai ao seu resgate. Este ano, mais do que nenhum outro, o Barça deve-se a Messi mais do que Messi se deve á espantosa orquestra montada á sua volta.
De Messi já se disse muito e pouco ficará sempre por dizer.
Os titulos somam-se no final da carreira e se as suas três Champions (a primeira como elemento secundário, é preciso relembrar) empalidecem ainda com as cinco de Di Stefano a verdade é que o recorde de Cruyff, Beckenbauer e van Basten já foi igualado. Os prémios individuais, essencialmente o prestigioso Ballon D´Or, colocaram-no lado a lado com Platini e Cruyff e a partir de agora será fácil que a história pende para o seu lado. E no entanto Messi, esse símbolo de uma cultura futebolística que se transformou de contra-cultura a espelho dominante, tem aquilo que nenhum outro grande clássico do passado teve. Uma Némesis á sua verdadeira altura.
O futebol está habituado a reinados curtos mas de uma só personalidade. Durante esse breve ocaso uma estrela brilha de uma forma incontestável enquanto lá em baixo, no firmamento, outras tentam imitar sem sucesso os mais grandes. Mas os números espantosos de Messi encontram-se todas as semanas com os números não igualmente depreciáveis de Cristiano Ronaldo. O português perde em relação ao argentino sobretudo em três apartados que, no final, vão ser suficientes para criar uma imagem de eterno segundo que muitas vezes é tremendamente injusta.
Ronaldo, ao contrário de Messi, vai no seu terceiro clube em sete anos. O recorde de César é possível para quem cresceu e fez-se génio na melhor versão histórica de um clube, onde uma orquestra de génios (primeiro Ronaldinho, Deco e Etoo, depois Xavi, Iniesta, Henry, Alves, Pedro, Fabregas e Villa) permitiu o seu aperfeiçoamento. Ronaldo poderia, se tivesse tido a perspicácia mental, repetir esse feito de Red Devil. Mas a ambição pode mais que a razão e em Madrid o seu nome será sempre comparado com Di Stefano e isso são palavras maiores para qualquer um. E no entanto o português hoje pode fazer o seu 100 golo em Liga com o Real Madrid, em apenas duas épocas e meia. Uma média de um golo por jogo é o seu registo actual no clube e isso sem ter atrás de si estrelas tão brilhantes e (sobretudo) regulares como as do seu rival. Se a Cristiano lhe perde essa comparativa entre cantera vs dinheiro e sentido de pertença vs arrivismo, é sobretudo o caracter do português que lhe faz perder a luta mediática onde se decide a história. Messi vive também dos seus silencios, geridos habilmente pelo clube, e longe de ser um simbolo mediático como foi Pelé o Di Stefano, um profeta como Cruyff, um rebelde como Maradona é, sobretudo, um triunfo do anonimato. Naturalmente que os seus rendimentos publicitários falam de alguém preparado a sacar até ao último euro do seu mediatismo mas a incapacidade de brilhar fora de campo com a palavra como o faz dentro com o pé transforma-o num ser que não ameaça ninguém e que, por efeito oposto, se torna facilmente atractivo. A sua unanimidade ganha-se, sobretudo, com a capacidade que tem o argentino de não gerar anticorpos. Quando cospe em rivais, dispara a bola contra adeptos, protesta sobre a independência arbitral ou é assobiado na sua pátria o enfoque é ligeiro e rapidamente substituído por vídeos das suas eternas e perfeitas diabruras. A máquina propagandística que o Barcelona tão bem sabe levar e que capturou a atenção de mais de meio mundo transformou-se no melhor exercido de relações públicas que um atleta pode querer. O perfil de Ronaldo é mais conflictuoso porque simboliza o novo-riquismo do jogo que os mais românticos desprezam. Para esses, os logros de uma máquina física, como muitos o apelidam, nunca poderão ter o mesmo valor que os de um jogador feito na rua contra todas as adversidades do corpo humano.
A história do desporto fez-se sempre de grandes duelos. César é um nome que evoca um passado brilhante mas cujo o registo goleador pertence a outra era, outra simbologia. Messi, por outro lado, ambiciona ir mais além, talvez os 1000 golos de Pelé e sobretudo causar nos adeptos as mesmas sensações que Maradona, Di Stefano ou Cruyff lograram. Mas para ser o herói deste filme tanto o jogador como o clube que o transformou sabem que qualquer história precisa de um vilão. Ali e Frazier apenas combateram um par de vezes. Borg e McEnroe não disputaram tantas finais como a memória nos faz lembrar e mesmo Prost e Senna foram rivais apenas por um triénio em que dispuseram de armas similares. No desporto-rei esse duelo nunca existiu realmente porque nunca dois jogadores estiveram simultaneamente ao máximo das suas capacidades. O resultado final parece importar pouco porque o Mundo já decidiu quem ganhou á partida mas a contenda vai prolongar-se e continuar a entusiasmar os mais apaixonados adeptos. O génio superlativo de Lionel Messi existe por si só mas ganha ainda mais valor quando se relembra, semana atrás semana, contra quem se mede.
O futebol espanhol vive a sua era mais dourada e a rapidez com que se descobrem novas pérolas no país vizinho há muito que se transformou num case-study profissional. Mas é em Lisboa que vive e deslumbra talvez o avançado espanhol com maior projecção futura. Rodrigo rompe as regras e desafia os cânones, une os dois lados do “charco” e, sobretudo, eleva o futebol à condição de arte imaculada.
Nelson Rodrigues, um dos mais certeiros filósofos futebolisticos brasileiros, explicava a facilidade que os seus conterrâneos tinham em controlar a bola com o fascinio brasileiro pela dança. Essa paixão pela herança negra da capoeira, pelo ritmo trepidante do samba metamorfoseou-se num futebolista incapaz de estar quieto, hábil de pés, rápido nos gestos e sublime no movimento. Essa escola centenário produz com espantosa regularidade novos talentos mas o traço distinctivo continua a ser o mesmo.
O que faz de Rodrigo um caso especial é que à sua herança genética brasileira, demasiado evidente na forma como encara o rival e pisa a bola, está também a sua formação europeia, a sua cultura colectiva à espanhola que aprendeu em Vigo e Madrid e que o transformam num jogador colectivo com rasgos individuais espantosos. Uma mistura sempre dificil de conseguir, especialmente nesta era de re-fordização do futebolista, e que o transforma ainda mais num caso raro. O papel de Rodrigo no terreno de jogo não se prende a nenhum dispositivo táctico. A sua facilidade de dar e receber permite-lhe mover-se com total liberdade pelo tapete verde sem sentir-se preso a nenhum esquema. Rápido, intuitivo e com um sentido posicional tremendo, a forma como encara a baliza é só uma consequência da sua maturidade como futebolista e não apenas a causa do seu sucesso. Os seus golos, tantas vezes espantosos pela sua audácia, transpiram o mesmo controlo interior com que trata cada lance, cada passe, cada corrida nunca dada por perdida. Nele vemos reflectido o espelho perdido da glória passada e a imagem do protótipo romântico do futuro.
O crescimento futebolistico de Rodrigo está associado ao do jovem Thiago Alcantara. Ambos aprenderam a caminhar e a dar os primeiros pontapés na bola juntos e durante anos foram parceiros inseparáveis nos niveis de formação do Celta de Vigo. Quando chegou a hora de decidir, Thiago preferiu migrar a La Masia. Rodrigo optou pela Fabrica de Valdebebas.
Desde então percebeu-se que a sua relação era a metáfora perfeita da forma como as canteras dos dois maiores clubes espanhóis são espelho da importância que estes dão à sua formação. Thiago foi mimado e educado para entrar na primeira equipa desde que começou a dar nas vistas na equipa juvenil. Rodrigo brilhou talvez mais ainda nas suas etapas de formação em Madrid. Mas nunca teve minutos nos séniores e foi despachado com surpreendente facilidade. O Benfica aproveitou o brinde (o mesmo sucedeu com Javi Garcia) e conseguiu o passe do dianteiro por uma infima parte do seu valor actual. Mas a adaptação não foi fácil e depois de um empréstimo pouco fructifero ao Bolton Wanderers muitos pareciam tentados a vender o jovem talento. Jorge Jesus acabou por inclui-lo no plantel e depois de um brilhante Mundial sub-20, o hispano-brasileiro deu-lhe razão. Apesar da explosão de Nolito, da classe de Gaitan e da preponderância de Aimar, o conjunto encarnado não tem um jogador nas suas filas com a mesma qualidade individual e potencial de crescimento como Rodrigo.
O seu papel na boa temporada do clube da Luz é inequivoco e a sua facilidade de associação com a linha avançada do meio-campo encarnado espelha bem a sua cuidada e esmerada formação na escola espanhola que tão bons jovens jogadores tem apresentado ao Mundo.
Parece evidente que o nivel de Rodrigo significa que dificilmente o Benfica o conseguirá segurar para o próximo ano. Em Espanha o seu nome começa a ser reclamado pela imprensa para La Roja e vários clubes de primeiro nivel europeu sonham com os seus serviços. A passagem por Portugal pode revelar-se curta, mas fundamental na sua afirmação profissional. O que parece evidente é que o futuro de Rodrigo, como o do seu amigo Thiago, não parece ter limites.
Se há uma nação com uma relação quase freudiana com o golo é a francesa. Num país que sempre olhou com desconfiança para o “jogo dos ingleses”, a devoção pela bola muitas vezes deixa para um infinito segundo plano a importância do golo. But foi sempre uma palavra capaz de gerar a desconfiança de muitos e provocar a glória de poucos. A caminho de uma nova década os dianteiros gauleses continuam a ser a infantaria do exército, longe do estatuto dos marechais a cavalo.
O “Hexágono” é, sem dúvida, um país de contrastes. Lille e Montepelier são dois paises debaixo da mesma bandeira. Just Fontaine e Guivarch, dois avançados que passaram por um Mundial com sensações opostas. No final a memória colectiva ficou com o nome do dianteiro de origem magrebina na cabeça. Mas o campeão do Mundo foi Guivarch. Sem marcar um só “but”.
De Fontaine a Guivarch a história do futebol gaulês parece caminhar paralela, mais do que em companhia, com o complexo universo do golo. Em França sempre foi complexo encontrar jogadores que tenham especial relação com a baliza contrária e na esmagadora maioria das vezes quanto mais proliferos eram mais desprezo coleccionavam do público critico. De certa forma o adepto francês sempre se rendeu mais facilmente ao trabalho de um médio, fosse de criação (Platini, Cantona, Zidane, Giresse...) como de destrução (Fernandez, Tigana, Deschamps, Vieira), do que ao do goleador. Batteaux, o mentor do Reims dos anos 50, queixava-se de que os adeptos criticavam em demasia o espirito livre de Kopa e a passividade goleadora de Fontaine. E tinha razão, mas a tendência vinha de antes e prosseguiria nas décadas seguintes. Durante os anos 70 nunca esse afastamento se tornou tão evidente. À medida que o futebol gaulês entrava numa profunda depressão de resultados (12 anos sem marcar presença num Mundial ou Europeu), o público foi-se abraçando a fenómenos mais nacionais como o ciclismo e o ténis. A desconfiança das elites intelectuais, tanto de direita com de esquerda, sempre levantou multiplas suspeitas por um jogo demasiado saxónico. Ate ao periodo entre-guerras o jogo ainda era desconhecido por uma grande parte da população e esse fascinio pelo “But” demorou a entrar na psique gaulesa.
Just Fontaine tinha sido o expoente máximo da paixão pelo golo mas a sua origem emigrante (magrebino como Ben Barek) permitia-lhe afastar-se desta relação complexa com o golo. Durante largas décadas, e à medida que o futebol francês ia progressando rapidamente (como o Saint-Etienne e a selecção da década de 80 evidenciava) continuava a faltar ao país uma estirpe de goleadores puros e determinantes. A liga gaulesa, nunca goleadora, nunca prolifera em Botas de Ouro, sobrevivia com golos emprestados de fora, sobretudo o esquadrão argentino (Onnis e Bianchi) que nos anos 70 e 80 invadiu o país. A mágica selecção de Platini bateu o recorde de golos marcados num Europeu, mas foi o “petit Napoleon”, desde a posição de trequartista, quem marcou a esmagadora maioria. Nem Didier Six nem Dominique Rocheteau entusiasmavam o mais céptico.
A chegada de Jean-Pierre Papin, dois anos depois, pareceu anunciar uma nova tendência. Mas a popularidade de JPP sempre foi mais uma questão de atitude dentro e fora do campo do que uma questão de golos. O seu Ballon D´Or em 1991 uma questão de ego nacional mais do que um reencontro com a paixão pelo golo. E os anos 90 não foram diferentes dos 80. Cantona, Ginola, Djorkaeef e Zidane nunca foram goleadores natos e Loko, Pedros e Guivarch apresentavam soluções tão pouco convincentes que muitos se perguntam como não se lembrou Jacquet de antecipar em dez anos a evolução táctica de Prandelli e optar por um 4-6-0 em lugar do 4-3-2-1. Depois da recusa de Cantona em voltar a vestir a camisola dos Bleus, os gauleses quebraram o velho axioma que dizia que não se pode ganhar um Mundial sem um guarda-redes e um goleador de primeiro nível.
Se Barthez não era propriamente um guarda-redes de nivel, que dizer de Stephen Guivarch. O avançado do Auxerre não só não marcou em nenhum dos jogos como deixou a pálida, mas certeira imagem do que realmente é o ponta-de-lança made in France. Uma imagem que não mudou muito até hoje. Nem Anelka, nem Trezeguet, nem Benzema se revelaram pontas-de-lança goleadores, antes jogadores móveis, colectivos e dificeis de posicionar. Henry, provavelmente o mais subvalorizado jogador francês, com Wenger tornou-se no protótipo do futebolista total, dez anos antes de Cristiano Ronaldo e Lionel Messi, e foge também destas contas. E depois o fantasma passou a pairar sobre cada nova promessa, fosse o possante Gomis, o promissor Gignac e agora a dupla Gameiro-Giroud. Nenhum deles apresenta nomes tão entusiasmantes que permitam pensar que Fontaine tem, realmente, um sucessor. Nenhum deles dá a sensação de ser o jogador com força moral e emocional suficiente para mudar esta estranha relação do francês, seja adepto seja jogador, com o fantasma do golo.
A caminho da Ucrânia o trabalho de Laurent Blanc tem-se concentrado, sobretudo, em explorar novas vertentes de jogo, de organização defensiva e controlo da bola. O golo, como sempre, ficou relegado para um segundo (perigoso) plano. Em 2006 os gauleses marcaram nove golos, seis a partir da fase de grupos. Dois anos depois, no Europeu de 2008 marcaram um. Em 2010, na África do Sul, também. A escassez é evidente e já não há médios capazes de esconder a fraca prestação dos dianteiros. Benzema será o dianteiro titular mas ele, como se viu em Madrid, gosta de deambular e associar-se e a companhia (Nasri, Ribery, Menez) não é propriamente especialista na arte do golo. Giroud e Gameiro podem ter a sua oportunidade. Serão mais necessários do que nunca. Nem que seja para dar outra vida à soporifero explicação do but!
Cinco golos num jogo de futebol profissional é algo tão raro que qualquer que se atreva a lograr o feito tem, forçosamente, de ser aplaudido de pé. Quando o gesto se torna recorrente, aplaudir já não chega. Lionel Messi já está nessa lista de grandeza onde coabitam dezenas de magos deste jogo que é mais do que um desporto. Por momentos de absoluta simplicidade como os que destroçaram o Bayer Leverkusen. Por situações de extrema complexidade que ajudaram a construir a sua lenda. Messi tem méritos para sentir-se grande, mas para enquadrá-lo no último degrau olimpico é necessário contextualizar o seu jogo com o de aqueles que, quase unanimemente, por lá andam.
Qualquer lista é subjectiva e peca por injusta, seja o tema que for. Mas a consensualidade faz a história e se Alexandre, Júlio César e Napoleão têm mais prestigio que Alcibiades, Pompeu e Frederico é porque há mais gente – com ou sem justa causa – que os considera superior no seu mister. O futebol não escapa - como podia - a estes jogos de café e desde há trinta anos que há um poker de ases que parece ser inquestionável para uma grande maioria nem sempre silenciosa. Nos últimos anos a trajectória ascendente de Leo Messi fez recuperar esse debate que, de tempos a tempos, um jogador consegue despertar da letargia. O do quinto grande.
O curioso, nestas listas, é que o quarteto mais habitual e omnipresente não representa, apenas, o futebol como jogo. Para entrar no Olimpo não basta ter sido imensamente dotado, tremendamente decisivo, imperialmente triunfador. O talento, por si só, é pouco para establecer uma linha difusa entre o grande e o imenso. Falta algo mais, algo profundamente anacrónico e que só se entende quando se consegue dar um passo para trás e analisar o contexto de aparecimento e consolidação do jogador no tempo cronológico e no espaço geográfico, politico e socio-cultural. Uma lista de 100 jogadores tremendos é dificil de ser feita porque outras centenas ficarão de fora e a diferença entre uns e outros não é, manifestamente, significativa. Mas muito poucos foram os que souberam levar o jogo para fora do relvado e transformá-lo noutra dimensão. Foi, sobretudo, essa realidade, que definiu esse poker consensual e é essa realidade que impede a Lionel Messi de ambicionar juntar-se a essa elite. Messi tem a grandeza dos maiores, de isso há poucas dúvidas. Mas não tem essa bagagem moral que lhe permite escancarar as portas da eternidade como antes dele não tiveram Ronaldinho, Zidane, Ronaldo, Rivaldo, Bergkamp, Cantona, Baggio, van Basten ou Gullit, para citar apenas os maestros das duas últimas décadas.
Di Stefano, Pelé, Cruyff e Maradona.
O que os define? O que os une? O que faz de cada um destes quatro génios seres especiais, referenciais incontornáveis, nomes indisputados. Sobretudo a contextualização da sua genialidade no tempo e a forma como marcaram o mundo que os rodeava. Nesta era de twitter e facebook, de ipads e low-cost, Messi encanta, mas não aporta nada de novo. Nem definiu a sua profissão como Pelé. Nem é um lider espiritual como Cruyff. Nem um maverick solitário como Maradona. E muito menos o jogador completo que foi Di Stefano. Tal como Garrincha, Charlton, Beckenbauer, Ronaldinho, van Basten, Ronaldo, Zidane, Platini, Kopa, Best, Sindelaar, Muller, Zico, Mathews, Hidgekuti, Mazolla, Rivera, Eusébio ou Puskas, ele é, sobretudo, um talento descomunal, um génio superlativo e um artista do impossível. Mas o que Messi faz hoje nem é inédito nem inovador e para entrar na história pela porta grande é preciso saber definir um antes e um depois.
Di Stefano foi o primeiro futebolista assumidamente total. Com o River Plate, Milionarios e, sobretudo, com o Real Madrid, ele transformou o papel da estrela em campo na de general. Ao contrário de Puskas – talvez mais dotado tecnicamente que ele – o argentino estava ao mesmo tempo em todo o lado. A equipa de mil estrelas respondia apenas ao som da sua voz. Di Stefano jogava onde queria e como queria, perdia-se como médio mais defensivo, surgia como criativo, rematava como falso nove e zarandeava as defesas nos sprints pelas laterais. Impossível de marcar, dificil de lidar, Di Stefano ajudou também a criar um mito, o do Real Madrid, e beneficiou, sobretudo, da televisão para distingui-lo com a sua pronunciada calvice, dos génios que o precederam e que o Mundo mal conseguiu vislumbrar.
Pelé, dentro de toda a sua genialidade, definiu o futebolista profissional contemporâneo e ajudou a definir a mitologia nacional brasileira. Ao contrário da maioria dos futebolistas, Pelé foi primeiro um idolo nacional e só depois um herói local. Quando em 1958 aterrou na Suécia ainda não era a máxima estrela do Santos mas os seus golos, principalmente na fase a eliminar, fizeram dele o principe do Brasil. Ultrapassou os seus problemas de adaptação e afastou-se dos fantasmas que destroçaram (e destroçariam) a maioria dos génios do Brasil adoptando uma vida imaculada onde a preparação fisica, mental e a gestão da imagem de marca se tornaram tão importantes como a própria bola. A marca Pelé ajudou a prolongar o mito muito depois das chuteiras terem deixado se calçar os pés do astro e o seu comportamento exemplar estableceu o padrão do futebolista de futuro.
Cruyff, Johan, foi o profeta que todo o desporto precisa. O holandês está para o futebol como Lennon está para a música contemporânea e há sempre um antes e um depois da sua mensagem de futebol absoluto, lucrativo e intelectual ter rasgado os relvados de Amesterdam. Que o holandês tenha sido o único dos quatro a brilhar como treinador (e só Pelé não o tentou) explica bem a forma como abordou o jogo. Numa era onde o profissionalismo começava a ser a nota dominante e o futebol total se vislumbrava, Cruyff soube conciliar ambos, transformou o génio numa forma de vida bem remunerada, mexeu com a consciência social de dois países, desafiou o monopólio das marcas desportivas e reensinou o mundo a olhar para o campo de jogo e a ver triângulos e diagonais onde antes apenas estava erva.
Maradona foi o seu oposto, o último potrero, o último dos romanticos. O único jogador capaz de ganhar as duas provas mais dificeis da sua época (o Mundial e a Serie A) só, com um bando de jogadores medianos e bem treinados atrás de si. Maradona desafia a táctica, o conceito colectivo de Cruyff e o profissionalismo de Pelé e sai a vencer em cada equação. Depois de ele nunca nenhum jogador foi grande sem estar envolvido num projecto de outras grandes individualidades, nem Ronaldo, nem Zidane, nem Ronaldinho, nem Messi.
Nada disso retira mérito ao génio de Messi que é, com Cristiano Ronaldo, o simbolo mediático desta nova década. Os seus números individuais e o projecto colectivo onde cresceu e se tornou parte nuclear são, por si só, história. A união do ideal potrero com a formação tecnocrática europeia é talvez única. Mas se já vi outros jogadores serpenterem, se já vi outros enganarem seis defesas, se já vi desafiarem números e estatisticas, como vejo regularmente a Messi, a verdade é que não vi ainda o astro argentino a romper com a ordem natural das coisas, a rasgar preconceitos e establecer tendências como lograram o poker de asas que muitos aprenderam a recitar de memória. 24 anos é idade mais do que suficiente para surpreender, mas para ser algo mais do que genialmente perfeito a Messi é necessário, mais do que ganhar um Mundial (Di Stefano e Cruyff também não o ganharam), romper com as verdades mais absolutas. Parece pouco, mas há uma lista de cem, como ele, que não chegaram lá...
Rafa Benitez uma vez soltou uma dessas confissões que raramente escutamos de treinadores e que nos ajudam a entender a diferença do jogo visto de dentro e de fora. Para o espanhol o primeiro nome que colocava no alinhamento de cada jogo importante que tinha pela frente não era nem o do espanhol Torres, do guardião Reina ou do capitão Gerrard. Para ele, e muito poucos, o equilibrio do seu "Pool" dependia de um holandês pouco convencional que sabia impor a sua lei.
Dirk Kuyt faz mais lembrar os grandes dianteiros nórdicos do passado, os Tore Andre Flo, Keneth Anderson, Niels Liedholm, Hans-Peter Nielsen e companhia do que, propriamente, uma estrela do futebol mediático contemporâneo. E no entanto há poucos futebolistas tão supremamente decisivos nos esquemas tácticos das equipas onde jogam como ele. O anti-divo é também o anti-holandês, com todos os preconceitos que isso pode trazer na imagem pública de um jogador que entende como muito poucos o conceito de desporto de equipa.
Kuyt define-se não pelos golos que marca nem sequer pelos passes que realiza, ambos com certeira regularidade. O espaço é o verdadeiro medidor da sua real influência, tanto na sua etapa holandesa no Feyenoord como mais tarde tanto em Anfield como de laranja ao peito. Dentro do panorama internacional é dificil encontrar um dianteiro que saibai tão bem entender o espaço como ele. E essa caracteristica tão holandesa parece escapar áqueles que se ficam pelo exterior e por esse aspecto de bom gigante que o afastam do herói romântico cultivado por Cruyff e prolongado mitologicamente por van Basten, Bergkamp, Sneijder ou van Persie.
Sem ter a magnitude histórica de Ruud Gullit - um desportista mais do que um simples futebolista - este é o verdadeiro espelho onde se deve medir a influência de Kuyt sobre os padrões contemporâneos. Quando o futebol do Liverpool começou a empalidecer, nos últimos dias de Benitez ao leme e durante o curto mandato de Hogdson, mais do que a falta de golos de Torres, da irregularidade de Reina e das lesões de Gerrard, os adeptos da Kop lamentavam a perda de influência de Kuyt no manejo do ritmo de jogo colectivo. Posicionado habitualmente nos extremos, Kuyt abre e fecha o campo com a autoridade de um general que decide quando mandar a cavalaria atacar o flanco adversário ou penetrar as linhas centrais da infantaria com uma carga determinante.
Ao apontar o segundo golo no histórico confronto contra o Manchester United o holandês ganhou o direito de voltar ás capas dos jornais e revistas. Mas poucos têm medido a recuperação do clube pelo reencontrar do melhor ritmo de jogo do dianteiro. Kenny Dalglish, treinador mais inteligente do que muitos querem conceder, sabe que tem em Suarez e Carroll uma dupla importante no ataque mas que sem o jogo de Kuyt o trabalho do inglês e do uruguaio vê-se, demasiadas vezes, multiplicado por dois.
Kuyt nunca ganhou um titulo ao serviço dos Reds mas esta temporada já foi parte importante na campanha que levará o Liverpool a defrontar o Cardiff na final da League Cup e agora revelou-se instrumental em garantir a passagem ás derradeiras etapas da prestigiosa FA Cup, dois troféus em que os homens de Dalglish podem, legitimamente, sonhar em vencer. Se a liga há muito que é uma miragem - e mesmo um lugar na Champions League - coleccionar troféus aparentemente secundários pode resultar num estimulo revigorante para a psique de Merseyside, profundamente depressiva depois de mais de duas décadas sem levantar um troféu ligueiro. Kuyt viveu toda essa maré de descontentamento mas, paradoxalmente, sempre pareceu ser uma das mais eficaz soluções para ambicionar a algo mais. Tal como van Marjwick, o seleccionador holandês, entendeu, ter um jogador das suas caracteristicas, tanto fisicas como tácticas, é uma mais valia que nenhuma equipa moderna pode desprezar. O seu sentido de oportunidade já faz parte da lenda de Anfield e apesar dos seus 31 anos não permitirem a mesma frescura quando soube ao tapete verde de vermelho ao peito, a sua influência na estrutura táctica de uma equipa que este ano deambula entre o 4-4-1-1 e o 3-5-2, já se revelou determinante. A lembrança das suas parcerias com Kalou em Roterdam, Torres em Liverpool e van Persie com a selecção holandesa trará sempre á memória a lembrança de jogadores como John Toshack, Teddy Sheringham ou Chris Sutton, elementos fundamentais no sucesso goleador dos seus colegas de ataque que acabaram por não receber o aplauso mediático que tanto mereciam. Tal como o galês do Liverpool com Keegan, também Kuyt soube transformar-se um mago do espaço e da oportunidade e fez-se mais jogador cada vez que deixou o caminho livre para o seu parceiro de ataque brilhar. Anfield, como sucedeu com Toshack, sempre lhe reconhecerá essa generosidade que o transforma, ao mesmo tempo, num dos jogadores tacticamente perfeitos para qualquer treinador. Benitez soube-o, Dalglish sabe-o e van Marjwick, que o conhece bem dos dias de vermelho e branco, talvez saiba-o mais e melhor do que ninguém.
Se em Liverpool o génio de Kuyt encontra-se perfeitamente reconhecido, o próximo Europeu dará ao holandês uma oportunidade de ouro para vencer o primeiro grande troféu numa carreira que, curiosamente, se fez quase sempre sem titulos. O seu lugar no quarteto ofensivo da Laranja Mecânica parece inquestionável mesmo que isso provoque a suplência de algum dos grandes artistas que os holandeses levarão com armas e bagagens para conseguir o que em Joannesburgo ficou por lograr. Enganar o fantasma da história!
Poucas siglas no futebol são tão facilmente reconhecíveis como o mítico trio de letras que fez de Jean Pierre Papin um dos jogadores mais amados do futebol europeu a final dos anos 80. O eterno goleador de Boulogne-sur-Mer não só desafiou a razão ao vencer um Ballon D´Or como transformou-se num ícone para um futebol gaulês rodeado de pontos de interrogação. O seu faro para o golo marcou profundamente a sua carreira mas foi o seu estilo simples e honesto que lhe permitiu distanciar-se dos enfant terribles que França teimava em produzir com insuspeita assiduidade.
Em 1986 a revista Onze realiza uma reportagem sobre um flamante dianteiro que surgia surpreendentemente na lista de Michel Hidalgo para o Mundial do México. O jogador aparecia vestido como um camponês, com boina e casaco à altura do majestoso cajado, e um ar que lhe permitia confundir-se com qualquer outro filho da província do hexágono. Longe do glamour de hoje ou do ar rebelde da maioria dos seus contemporâneos, essa imagem de JPP eternizou-o ao longo da carreira. O mais humilde dos guerreiros gauleses tornou-se também num dos mais bem sucedidos futebolistas da sua geração.
Papin viajou ao México junto a Platini, Giresse, Genghini, Tigana e companhia. E marcou, como só ele sabia, o golo da vitória frente ao Canadá e um dos tentos que confirmaram o terceiro posto da França no torneio. Seria o seu primeiro Mundial. E o último também. Com o ocaso azteca a selecção gaulesa entrou numa espiral destructiva que a afastou de dois Mundiais consecutivos. O futebol internacional perdeu assim um dos seus grandes nomes nas grandes noites. A Papin restou-lhe o seu icónico papel na história dos clubes que melhor representou, os belgas do Brugge e os gauleses do Olympique Marseille. No final desse Mundial o jogador que o futebol francês tinha olhado com suspeita depois de dois anos brilhantes ao serviço do modesto Valenciennes, voltou a casa. O ano na Bélgica, com a camisola do Brugge, tinha convencido tudo e todos. 20 golos em 31 jogos foram suficientes para que Hidalgo o visse como um potencial dianteiro para uma selecção com um fortíssimo meio-campo mas sem alma de golo nos últimos metros. Apesar de ter apontado apenas dois golos no torneio a sua performance foi suficiente para convencer o polémico Bernard Tapie que ele era o homem certo para o seu ambicioso projecto em Marselha. Começou uma história de amor que durou meia década.
Durante esses seis anos a conexão entre JPP e o público marselhês tornou-se na base da sua popularidade.
Os números eram incapazes de mentir e a veia goleadora de Papin, ponta-de-lança da velha escola, raposa de área, consagrou-o como um dos melhores dianteiros do Velho Continente. Em 215 jogos pelos azuis apontou 135 golos, contribuiu para a conquista de um Tetracampeonato entre 1888 e 1992 e ajudou o onze gaulês a chegar à sua primeira final europeia.
Papin viveu a era mais dourada mas também conflictiva da história do clube. Inicialmente o objectivo de Tapie era aproveitar para a sua equipa a parceria que tão bons resultados parecia dar ao serviço dos Bleus de Michel Platini. Ao lado de Eric Cantona o goleador sentia-se cómodo e com o apoio directo de Chris Wadle e Abedi Pelé, a máquina goleadora marselhesa era verdadeiramente inalcançável. Mas os problemas de Tapie com Cantona - emprestado dois anos consecutivos a Bordeaux e Montpellier - e as suspeitas de doping e jogos comprados (como se provou na polémica OM-VA) ensombraram a magnifica carreira do dianteiro que venceu por cinco anos consecutivos o prémio de Melhor Goleador da Ligue 1. Se em Marselha a sua parceria com Cantona se desfez, ao serviço dos Bleus foi o jogo combinado de ambos que permitiu a Michel Platini lograr um apuramento histórico para o Euro 92 (depois de falhadas as classificações para o Mundial de Itália e o Euro da Alemanha) com oito vitórias em oito jogos e Pappin como máximo marcador da ronda de apuramento. Mas na Suécia, apesar dos seus dois golos (os únicos dos Bleus) a França desiludiu num grupo que parecia feito à sua medida. Depois do empate com Inglaterra e Suécia, a derrota com a surpreendente Dinamarca condenou os gauleses a uma eliminação precoce que só ia anunciar a depressão maior de ser eliminada em casa, pela Bulgária, na corrida ao Mundial dos Estados Unidos. Por essa altura JPP já era um ícone global, o primeiro francês desde Platini a lograr convencer os jornalistas da France Football a atribuírem-lhe o prémio Ballon D´Or.
Resultado de uma época memorável, o triunfo foi polémico porque ficou claro que a divisão de votos entre os jogadores do Estrela Vermelha - Dejan Savicevic e Darko Pancev - facilitou a vitória de um homem que mostrou o seu lado mais cinzento nessa mítica final de Bari. Depois de várias tentativas - incluida a da meia-final do ano prévio com a mão de Vata a eliminar os gauleses - o Marseille de Tapie finalmente logrou o apuramento para a final. Cantona estava castigado pelo clube, Papin foi deixado só na frente de ataque e o jogo entre os excitantes jugoslavos e os habitualmente ofensivos franceses transformou-se na mais aborrecida final da história. Os penaltis decidiram o titulo e a sorte (e o carácter) deu o triunfo aos encarnados.
Foi o canto do cisne para JPP que disputaria mais uma época triunfal em Marselha antes de rumar a Milão onde outro megalómano empreendedor, Berlusconi, já tinha pensado nele para o futuro do seu AC Milan, orfão do génio de Ruud Gullit e preso pelas lesões de Marco van Basten. O presidente pagou 10 milhões, o recorde à época, pelo Ballon D´Or mas o investimento nunca esteve à altura das expectativas.
Em Milão Papin deixou de ser o protagonista a que estava habituado. Começou a viver entre o relvado e o banco com perigosa assiduidade já que o seu técnico, Fabio Capello, entendia que era um jogador que não ajudava o colectivo nos aspectos defensivos da mesma forma que Massaro ou Simone. Papin terminou o ano com 13 golos (a sua pior média em oito anos) tantos como van Basten que passou mais de metade da época (lesão que acabaria com a sua carreira definitivamente). O opúsculo chegou na final de Munique. O "seu" Olympique Marseille seria o rival do AC Milan e para cúmulo da sua desgraça os franceses venceram - com um golo de Boli, de cabeça - e JPP não saiu do banco. Mais tarde o titulo foi retirado aos franceses mais isso não apagou a dor do dianteiro que ficou ainda mais um ano ao serviço dos italianos (cada vez mais como figura secundária com apenas três golos) antes de partir para Munique onde marcou três golos em dois anos ao serviço do Bayern (marcados pelas lesões) e Bordeaux, um clube que marcou o seu regresso a França que se eternizaria nos oito anos seguintes por clubes de segundo nível como Guingamp, Saint-Perroise ou Cap-Ferrat.
Ofuscado pelo sucesso tremendo da geração que o seguiu, a de Zidane e companhia, a JPP custou-lhe dizer adeus aos relvados e mais ainda arrancar na sua nova etapa como treinador. O herói loiro de Marselha conseguiu promover o Strasbourg à Ligue 1 em 2006 mas uma revolta no balneário afastou-o do comando do projecto do clube do Sarre no ano seguinte. Curtas passagens por Lens e Chateroux não deixaram saudade e a história teve de contentar-se com a imagem, de braços no ar, cabelo ao vento, de um homem que apontou 225 golos em 420 jogos, um dos registos mais implacáveis da história de um futebol gaulês que nunca mais conheceu um avançado com tanto apetite pela baliza alheia.
O Ballon D´Or é um abrumador banho ao ego. Qualquer prémio individual num desporto colectivo acaba por sê-lo, seja por factos objectivos (golos, assistências, defesas) seja pela opinião alheia. Em Barcelona, talvez a equipa mais coral da história, sobrevive apenas um ego. O que sobe ao estrado para recolher a nome individual o prémio que Guardiola insiste no balneário que é de todos. Como Platini antes dele, Lionel Messi é o rosto do valor colectivo e o espelho de uma era.
Muitas criticas receberam os directivos da publicação France Football quando Michel Platini foi fotografado com o seu terceiro Ballon D´Or consecutivo. Apesar de ser indesmentível que o francês era, por direito próprio, o jogador da sua época, muitos apontavam o dedo ao favoritismo nacionalista da publicação (afinal ele era o orgulho francês) e a falta de critério num prémio que não se decidia sobre se votavam no melhor ou no que fosse o protagonista principal do melhor ano. Platini tinha vencido nessa época (1985) a sua única Taça dos Campeões Europeus, onde apontou o golo decisivo nessa tarde para nunca esquecer em Bruxelas, por outros e muito mais sérios motivos. No ano anterior tinha sido a vitória superlativa no Europeu a justificar a atribuição do galardão. E em 1983, quando abriu a sua série, ficou no ar a ideia de que, simplesmente, era uma compensação por ter perdido o prémio no ano anterior para Paolo Rossi depois de realizar um notável Mundial em Espanha. Foi a última vez.
Depois de Platini surgiram jogadores que a história certamente colocará no seu devido lugar e alguns deles (Marco van Basten, Ronaldo, Ronaldinho, Zinedine Zidane) possam até ser considerados como superiores ao gaulês. Mas exceptuando o bailarino holandês (não de forma consecutiva), nenhum deles venceu por três vezes o galardão que qualquer futebolista ególatra gostaria de receber.
O Ballon D´Or é o que sempre foi, um prémio ao individuo num desporto onde este, para ser alguém, tem de saber estar ao serviço do colectivo. Valorizam-se os troféus ganhos pelos jogadores quando estes realmente são ganhos pelas equipas. Salientam-se as estatisticas individuais quando passa desapercebido que atrás de cada golo há um passe, atrás de cada assistência há uma recuperação e por cada finta genial há, de certa forma, o trabalho de outros 10 que possibilitam o tempo e espaço necessário para brilhar. Há jogadores que nunca ganharam ou ganharão um troféu destas características porque não entram nesse leque de egos no qual o futebol tanto gosta de se apoiar. E há outros que nunca ganharão prémios suficientes para aplacar o seu imenso ego. Messi é um deles.
O argentino sabe que na história do FC Barcelona nunca nenhum jogador teve tanto poder.
Pode passar desapercebido mas o papel de Messi no balneário do Camp Nou é superlativo. Foi à volta dele que Guardiola decidiu montar o seu projecto depois de obter da Pulga a concordância com um novo estilo de vida longe dos perigos da noite, da droga e do álcool onde começava a mergulhar. A partir dessa reunião Messi renasceu como jogador e Guardiola conseguiu o que necessitava. Dos velhos lideres do balneário, os homens da casa, como Xavi, Iniesta ou Valdés conseguiu o consentimento absoluto para as liberdades individuais de um jogador que, desde o primeiro momento, aprendeu a valorar o conjunto. Nesse aspecto a grandeza de Messi é inquestionável e aproxima-o muito mais aos grandes.
Platini soube sempre, mesmo debaixo do seu ego, que o seu triunfo era o de Tigana, Giresse, Girard, Rocheteau, Boniek, Scirea e companhia. Ele era o rosto, as mãos que recolhiam um troféu que existia por todos. Messi sabe-o e demonstra-o.
Guardiola podia ter optado por uma luta de egos porque seguramente a Andrés Iniesta, Xavi Hernandez, Gerard Pique, Victor Valdés, David Villa e até mesmo Samuel Etoo e Zlatan Ibrahimovic, poderiam reclamar muito mais protagonismo do que alguma vez tiveram. Os dianteiros foram afastados por isso mesmo, os restantes foram, de certa forma, forçados a aceitar como reconhecimento os triunfos colectivos, mesmo que os seus currículos superem os do próprio Messi com esses títulos de campeões da Europa e do Mundo com a Espanha que Messi nunca logrou emular nem de longe nem de perto. Por pertencerem a essa casta coral, é mais fácil para Xavi - dono de um ego descomunal que utiliza, como Guardiola, não para recolher prémios mas para se tornar numa espécie de guru da filosofia blaugrana - e Iniesta suportarem o sucesso de um colega e amigo do que para Messi ver-se superado individualmente por um colega que fez tantos ou mais méritos para ser considerado isso de melhor. Secretamente Guardiola, que viveu os dias complicados do Dream Team com Laudrup, Koeman, Stoichkov e Romário em eterna disputa, desejaria que Messi vencesse sempre, Xavi e Iniesta se contentassem com as nomeações e os pódios e todos felizes e contentes. Parte da sua labor está em manter esse equilibrio da mesma forma que van Basten foi eleito símbolo do AC Milan de Sacchi, que Cruyff representou o Ajax e a Holanda de Michels, que Beckenbauer (e não Muller) foi a cara do Bayern e da RFA ou que Platini representou o perfume do futebol champagne gaulês. Para um grande projecto, um só rosto, nenhuma luta (visivel) de egos e um bilhete para posteridade.
Este troféu - talvez o mais merecido dos três que já ganhou - confirma Messi e este Barça nesse planeta especial onde jogadores que pensam exclusivamente no ego individual nunca conseguirão estar. O génio individual de Ronaldinho, Cristiano Ronaldo, George Weah, Rivaldo ou Hristo Stoichkov é premiado ocasionalmente pela sua inevitável grandeza (da mesma forma que há prémios que só se explicam pelo "momento" em questão como os de Owen, Nedved, Cannavaro, Kaká ou Sammer) mas torna-se dificil repetir-se porque não assenta nesse espírito colectivo que é o que permite establecer esse porta-estandarte. Zidane, Figo e Ronaldo vencerem Ballon D´Ors ao serviço do Real Madrid mas nunca por estar a jogar de branco mas sim porque quem eram no panorama internacional. Este Barcelona optou por outro caminho, o de concentrar todos os focos num dos seus génios mais expressivos e guardar para o segredo do balneário as verdades sobre o real valor de cada um. Como a história já demonstrou, esse foi sempre o caminho dos grandes projectos, das grandes gestas. O triunfo do ego único para a sobrevivência do colectivo.
Há algo curioso nos regressos de velhas glórias. Uma sensação do passado perdido que se encapsula num momento que não é real. Thierry Henry decidiu entrar nessa perigosa viagem. Durante dois meses (como minimo) voltará a ser o gunner que todos aprenderam a admirar. Aquele que foi, talvez, um dos mais espantosos jogadores da década passada quer voltar a encantar Londres com a sua magia. Mas à sua volta estará sempre a inultrapassável sombra da sua grandeza...
Há um mês, na inauguração da sua estátua à frente do novo Emirates Stadium, Henry chorou.
Sentiu-se profundamente a ligação entre o jogador francês e o clube que o acolheu e transformou numa estrela mundial. Henry e Arsenal são sinónimos do mais belo futebol que se disputou nos terrenos europeus na última década e meia. O francês, perdido nas reservas da Juventus, ajudou a transformar o clube londrino numa potência continental. Com Arsene Wenger encontrou o seu estilo e fez-se referência máxima do futebol champagne dos gunners que sem ele já tinham quebrado o dominio do Manchester United. Com ele lograram algo mais. A eternidade.
Henry liderou a equipa londrina na chamada época dos Invencibles. Levou o clube à sua única final da Champions League e no final do jogo, com a transferência para o Barcelona apalavrada, adiou por um ano a mudança de ares por sentir que devia algo aos adeptos. Uma relação assim não se constroi com o tempo, nasce de forma expontânea. E entre Thierry Henry e o Arsenal a felicidade superou sempre a tristeza.
Depois de 10 anos no clube o gaulês mudou-se para Barcelona, um velho sonho, e depois de três anos complexos decidiu migrar aos Estados Unidos, país por que sempre professou uma sentida devoção. Agora, na pausa da MLS como já o fez David Beckham, decidiu voltar. A casa. A Londres. Ao seu Arsenal.
E no entanto é sempre perigoso voltar onde já se foi feliz.
Poucos jogadores causaram tanto impacto numa equipa como Henry quando chegou a Londres. Tornou-se no herdeiro de facto de Ian Wright (depois da experiência de Anelka) e no parceiro perfeito para as diabruras de Dennis Bergkamp. O técnico francês Arsene Wenger, que o lançou às feras no seu baby Monaco, colocou-o como falso dianteiro, descaido no flanco esquerdo, e causou uma verdadeira revolução no estilo de jogo dos gunners. Com Ljunberg, Pires, Bergkamp e Vieira o francês formou um quinteto perfeito que marcou um antes e um depois na evolução táctica do futebol inglês. Como outro francês, Cantona, anos antes, quebrou com o hermetismo táctico da Premier e ajudou o Arsenal a ganhar o pulso de hegemonia ao Manchester United. Foi sol de pouca dura mas enquanto brilhou foi resplandecente.
No final da sua etapa em Londres o fisico já começava a dar sinais de cansaço mas como provou no Mundial de 2006, a sua inteligência de jogo tinha há muito superado as suas habilidades fisicas e agora o mitico 14 era um jogador mais completo do que nunca. Foi quando decidiu partir, de mutuo acordo com o seu mentor (resignado como sempre e já preparado para dar a batuta da equipa a Cesc Fabregas) para um projecto que sempre o apaixonou, o Barcelona. Os adeptos do Arsenal podiam ter lamentado a sua partida mas visto o que conseguiu em Can Barça o certo é que podem guardar a sensação de terem tido o melhor Henry de sempre.
Agora, cinco anos depois, Henry está longe de ser um jogador de top. O fisico abandonou-o totalmente, a mente já pensa mais na luxuosa reforma a que tem direito e daquela chispa que fez dele um num milhão ficaram as lembranças. Os adeptos do Arsenal certamente sentirão algo no estômago quando o voltarem a ver a entrar em campo com o canhão no coração mas talvez, secretamente, as suas esperanças de ver algo mágicamente henryano se transformem numa doce decepção. Tal como Beckham provou no regresso do seu auto-imposto exilio, as velhas glórias quando regressam aos palcos europeus parecem pertencer a outra era, a peças de museu sagradas, brinquedos de antiquário misturados com modernices contemporâneas.
Talvez tudo isso passe pela cabeça de Henry. Talvez não. Como se pode discutir um grande amor? Mas o passado ensinou-nos que estes regressos á gruta perdida do tempo perfeito e pretérito muitas vezes transformam-se numa memória que só queremos esquecer. Para a esmagadora maioria dos adeptos e amantes de futebol, Henry pertence a outra era a outro mundo, este clone seu poderá tentar emular os seus dias de glória, os dias em que foi o maior atleta europeu do Mundo. Mas secretamente sabemos que o original continua lá, no passado, a rasgar o mundo com um sorriso...
Nas últimas semanas era um segredo mais ou menos bem escondido que a relação de David Villa com o FC Barcelona tinha conhecido melhores dias. A sua ausência para o que resta de temporada não só resolve um problema que ameaçava tornar-se sério em Can Barça como abre as portas definitivas à "barcenalização" definitiva da selecção de Vicente del Bosque.
A capa de quarta-feira do jornal Marca anunciava que Villa estava à venda. Guardiola declarou que o jornal da capital, com quem tem uma relação de ódio de largos anos, mentia. Mas a verdade é que o asturiano, peça fundamental na sua estratégia da época passada se tinha transformado num actor secundário neste blockbuster de sucesso com critica e público que é o Pep Team. Depois de co-protagonizar o último capitulo trilogia alguém esqueceu-se de avisar o dianteiro que no quarto filme o seu tempo em cena seria consideravelmente reduzido. Mas poucos pressagiavam que fosse quase nulo.
Villa viu a sua margem de manobra reduzida pelas chegadas de Alexis Sanchez e Cesc Fabregas, jogadores que, somados, custaram 80 milhões ao clube que só aposta pela formação como imagem de marca. Apesar do excelente ano 2010 atrás das costas - incluindo golos decisivos na final da Champions League, na Supertaça contra o Real Madrid e durante a campanha ligueira que permitiu o tri a Guardiola, o seu lugar no onze titular evaporou-se. Em dezoito jogos disputados pelos blaugrana a Villa coube-lhe apenas oito no reparto num sexteto onde também estão Alexis (lesionado dois meses), Pedro, Cuenca, Thiago, Iniesta e Cesc. Claro que, no meio disto tudo, Messi e o seu papel de intocável jogaram um papel fundamental. A má relação do argentino com Samuel Etoo marcou o fim de feeling entre Guardiola, que elegeu centralizar o seu projecto desportivo à volta do argentino, e o camaronês. Depois foram os problemas com Ibrahimovic, despeitado porque Messi entrava demasiado na sua zona de acção e só a ele é que lhe apontavam o defeito contrário, de ocupar espaços da estrela culé. E por fim Villa. O melhor marcador da história da Roja sempre foi um dianteiro que fez do arranque nos últimos metros a sua melhor arma, tal como sucede com o goleador Messi. A sua chegada ao Camp Nou obrigou-o a bascular pelos extremos, jogando no limite do fora de jogo mas demasiado longe da área para poder manter os seus níveis de eficácia goleadora das épocas em Zaragoza e Valencia. Com menos golos, Villa foi perdendo protagonismo, ilusão e magia. Mas também ganhou um inesperado problema no balneário com Messi, que sentiu que algum do protagonismo do asturiano frente à baliza lhe roubou a possibilidade de voltar a bater Cristiano Ronaldo na luta pelo Pichichi, e por consequência, na Bota de Ouro, hoje por hoje o único troféu que o português ainda supera o argentino. Essa má relação ficou evidente já esta época entre ambos nos poucos jogos onde coincidiram e depois de um duelo contra o Viktoria Plizen a própria imprensa de Valencia fez eco das queixas do seu antigo ídolo. A suplência no duelo com o Real Madrid (onde Alexis Sanchez foi brilhante) agudizou o problema, levou ao duelo dialéctico Marca-Guardiola e ameaçou tornar-se num problema sério. Até à lesão em Tóquio.
O Barcelona será certamente quem menos sofrerá com o afastamento previsível do asturiano até ao final da época.
Dentro de portas é expectável até que Guardiola sinta que um peso lhe saiu de cima porque não só tem margem de manobra suficiente para essa posição (especialmente com o lançamento de Cuenca) mas também porque gerir o ego de um avançado de top não parece ser algo que se lhe dê bem. Etoo e Ibrahimovic foram pesadelos do dia a dia, Villa será um fantasma distante, longe suficiente para não incomodar mas presente o suficiente para reforçar a ideia de união de um balneário cujos egos são tão complexos como o de qualquer outro clube. Provavelmente, como sucedeu com o Ajax dos anos 70, os problemas do dia a dia só cheguem mais tarde, nas memórias dos seus protagonistas e os mitos caiam inevitavelmente por terra.
O problema tem-no sobretudo Villa. Aos 31 anos o seu ocaso profissional está cada vez mais perto e uma lesão desta gravidade, na tíbia, onde já tinha sofrido moléstias durante grande parte da época passada, pode passar uma pesada factura. E claro, à parte da questão interna do Barcelona e até mesmo uma eventual venda no final do ano a um clube da Premier (falou-se em Chelsea e Liverpool) está o Euro 2012. Para o melhor marcador do anterior torneio esta seria provavelmente a sua última grande prova internacional. Ele que sempre esteve na lista de fundamentais de Vicente del Bosque e que, sobretudo, mostrou ser fundamental a partir do momento em que o estado de forma de Fernando Torres decaiu enormemente. Sem um Torres em forma - como continua a ser o caso - e Villa a verdade é que Del Bosque parece ter um sério problema nas mãos, sabida que é a sua má relação com Roberto Soldado e tendo em conta que tanto Llorente como Negredo ou Adrián são demasiado inconstantes para ser vistos como última solução.
A lesão de Villa pode acabar por ser redentora e permitir ao seleccionador campeão do Mundo aproximar ainda mais o seu modelo ao do próprio Barcelona, que entre Guardiola e Aragonés, definiu esta simbiose Espanha-Barça tão inesperada como certeira. Na falta de um Messi mas com o coração dos blaugrana (Pique, Puyol, Busquets, Xavi, Iniesta, Cesc, Pedro) presente, podemos ver no próximo Europeu uma Espanha a apostar claramente pela ideia do falso 9, a que revitalizou Messi. Um ideário táctico já testado nos últimos jogos da Roja mas que pode ser aperfeiçoado agora que Cesc se encontra muitas vezes nessa situação de jogo no Camp Nou. Sem um avançado puro e com uma lista de médios quase perfeitos infindáveis, a Espanha que viajar à Polónia poderá ser talvez a mais forte de que há memória. Ao lado de Busquets e Xabi Alonso (imprescindíveis na biblia delbosquiana) podem jogar ao mesmo tempo Xavi, Iniesta, Silva e Fabregas, levando ao extremo o jogo dos "bajitos" que Aragonés idealizou na Áustria há quatro anos. Com Pedro, Llorente, Negredo, Thiago e Torres como alternativas, esta ausência de Villa pode significar o empurrão que Del Bosque necessitava para evitar a imagem estagnada de uma campeã mundial e europeia que começa a perder gás face ao jogo mais dinâmico e mais atractivo da Alemanha de Low.
Se o Barcelona tem em Messi o seu santo e senha é também porque Guardiola soube instruir o argentino a comportar-se como um centro-campista mais. Para o técnico de Santpedor o futebol perfeito seria jogado com onze centro-campistas e a vitória no Bernabeu, com uma espécie de 3-6-1 reforçou ainda mais a sua crença. Uma visão ondes os avançados como Villa ou Torres não têm espaço e que sempre gerou dúvidas no coração de uma selecção que sempre foi vista como o "Barcelona sem Messi". Sem o eficaz dianteiro asturiano Del Bosque tem a possibilidade de ir ainda mais longe que Guardiola e levar o culto do centrocampista espanhol a outro nível, algo que pode ser fundamental para os espanhóis fecharem com chave de ouro o mais brilhante capitulo desportivo da sua história. Um mito que Villa ajudou a criar mas no qual pode acabar por revelar-se prescindível!
Qualquer adepto seria capaz de citar de memória um eventual top 3 do futebol holandês. Há Cruyff, há van Basten, há Gullit...mas, faz este pódio (ou qualquer outro) algum sentido quando não há espaço para aquele que foi, provavelmente, o jogador tecnicamente mais dotado da história recente do futebol europeu? Para Dennis Bergkamp o futebol era, sobretudo, uma questão de arte...
Não era ballet mas tinha traços desse movimento de pés súbtil e perfeccionista. Mas também não era propriamente futebol.
Certamente que a definição do jogo de Bergkamp estaria sempre a meio caminho de qualquer coisa. Na sua Holanda natal a vide mede-se em ângulos exactos, em regras rigidamente definidas pelo tempo, pela história e pelo espaço. Os holandeses aprendem desde cedo o que custa manter um país ganho ao mar, o que vale cada centimetro de erva. Um país sem montes, um país sem curvas que contornar, onde todos seguem em frente, onde todos podem olhar para lá do horizonte. Mas onde nem todos são capazes de ver tudo o que o horizonte é capaz de esconder.
Sem necessidade de correr, os holandeses aprenderam o valor de fazer as coisas andando. Bergkamp mais do que nenhum outro. Se Cruyff ficou célebre pelas suas arrancadas, se van Basten se posicionava com pequenos passos enquanto Gullit corria de um lado ao outro, o jovem Dennis sempre trabalhou a uma velocidade diferente de todos os outros. Nem demasiado rápido, nem excessivamente lento. E sempre entendeu o valor de uma linha recta.
Como um quadro de Piet Mondrian, esse revolucionário que os holandeses entendem melhor do que se imagina, o jogo de Bergkamp moldou-se sempre na simplificação do complexo. No poder do fácil. Cada gesto técnico era executado com a frieza e limpeza de um cirúrgião, de um verdadeiro profissional. Bergkamp não era um matador, o desfrute dele não fazia sentido num jogo pautado pelo conflito. A sua experiência falhada em Itália, ao serviço do Internazionale, espelhou bem o seu desencontro com um mundo onde a arte, a estética, eram relegados sempre para um apagado segundo plano. Tecnicamente, Bergkamp continuava a ser melhor do que todos. Mas os outros 21 jogadores, pura e simplesmente, estavam a jogar outro jogo. E só, como quase sempre se sentiu, o prazer perdia-se.
A sua fama de filósofo moderno dos relvados embate com a crença actual de que um jogador de futebol pode ser tudo menos um artista culto.
Bergkamp pode sentar-se num qualquer café de Amesterdam e debater sobre o mais erudito dos temas sem que deixe transparecer que foi na verdade um futebolista de elite. Entre todos os seus treinadores só Arsene Wenger o entendeu, só ele soube falar o mesmo idioma.
Nem Cruyff, o seu primeiro técnico, dono de um vocabulário e uma mente própria, nem Hiddink, o seleccionador que não o soube aproveitar da melhor forma ao serviço da Orange, souberam decifrar o seu eterno enigma. O do homem que não voava por pavor a morrer numa queda violenta mas que era capaz de adentrar-se na selva de pernas dos defesas napolitanos num derby quente no San Paolo.
Quando chegou a Inglaterra, em 1995, a Premier League ainda não era no que se tornou e salvo Eric Cantona e David Ginola, dois franceses desterrados, os estrangeiros continuavam a ser olhados com desconfiança. Com ele o "boring Arsenal" transformou-se numa ópera clássica de requinte especial. O seu jogo de pés, a sua visão e, sobretudo, a parceria que estableceu com o cosmopolita Ian Wright, mudaram a face do jogo nas ilhas britânicas e transformou radicalmente o rosto de um clube adormecido.
Ao serviço do Arsenal o genial holandês executou as suas maiores obras de arte. Para Bergkamp um golo não era mais do que uma tela nua, preenchida com o seu apurado pincel e depois exposto com orgulho diante dos olhares atónitos do mundo. Essa falta de espirito killer provocou-lhe demasiadas criticas mas, por outro lado, reforçou ainda mais a sensação de grandeza cada vez que Dennis se transformava em Bergkamp.
Perder a conta aos golos, passes, desmacarcações ou sublimes remates de Bergkamp tornou-se num hobby tão respeitável como o de passar horas sentados no Louvre a contemplar, em adoração, as obras mais ousadas de da Vinci. A forma como abria e fechava o campo com um só gesto, autoritário como um general, diletante como um pintor da rive gauche parisina, tornaram-no num jogador especial. Wenger posicinou-o atrás do ponta-de-lança, primeiro Wright e depois Henry, dois jogadores que falavam o mesmo idioma intelectual e refinado que o holandês. Emulou assim a Cantona, que então se retirava, num gesto táctico que significou a morte definitiva (mas não imediata) do histórico 4-4-2 britânico. Esse posicionamento, que não repetiu numa Holanda repleta de outros artesões com egos muito maiores que o seu, permitiu ao Arsenal voltar a saber o que era ser campeão e durante meia década tornou-se igualmente no santo e senha dos amantes do futebol champagne, que os gunners herdavam do Milan de Sacchi com uma tremenda e insuspeita naturalidade.
Como muitos dos grandes génios, o seu reconhecimento passou ao lado dos grandes momentos. Com a sua Holanda falhou um Mundial que lhe parecia destinado, especialmente depois de, com três movimentos astairianos, desmembrar a jugular da nação argentina. Com os "gunners" faltou-lhe a consagração europeia que tinha servido à santa trindade holandesa que citamos ao inicio para confirmar o seu papel como estrela absoluta do jogo. Num desporto baseado em números, os de Bergkamp parecem efectivamente menos impressionantes que os dos seus compatriotas. Mas como a arte, essa revolta interna de um homem contra o mundo, ainda não se pode medir, é possível que haja sempre alguém corajoso o suficiente para proclamar Bergkamp como a tulipa mais resplandecente que o horizonte pode contemplar...

