Sábado, 18.07.09
Fez eco em Portugal e um pouco por toda a Europa o que já há tanto se falava em surdina, ou nem isso. O avançado brasileiro Liedson manifesta disponibilidade para defender as cores de Portugal numa carta á Federação Portuguesa de Futebol e abre assim de novo um debate que já foi remoído várias vezes mas que só chegou em duas delas ás últimas consequências.

Os mais realistas sabem que no mundo de hoje raros são as nações que não actuam com jogadores naturalizados. A Espanha campeã da Europa teve em Marcos Senna um elemento fulcral no centro do terreno. A Alemanha e Itália começam, a pouco e pouco, a quebrar o tabu, enquanto que a França ou Holanda há muito que se aproveitam das viagens pelo Mundo dos seus navegadores. Em Portugal, depois da era de ouro dos jogadores vindos das colónias, viveu-se um período túrbio até que chegou a Geração de Ouro e tapou as debilidades de um país com altas ambições mas sem uma base sólida para se manter no topo. Carlos Queiroz, quando assumiu o posto, sabia que estava em marcha um projecto de renovação complexo e que ia deixar a nu as reais debilidades do nosso futebol. Ausência de opções válidas em posições chave, falta de substitutos á altura quando os titulares falham e uma extra-dependência de um jogador que brilha mais quando o exército que o rodeia é de alto nível. Tudo isso sabia o seleccionador e não é por acaso que desde o último ano que têm saído rumores sobre jogadores brasileiros sondados pela federação. Os gémeos Da Silva, o guardião Júlio César...e agora Liedson.
De todos o avançado do Sporting é o único que verdadeiramente tem alguma ligação com o futebol português. Tal como Deco e Pepe - os únicos casos em que se deu o último passo - o avançado joga há vários anos - seis temporadas - em Portugal e sempre criou uma forte empatia com o público. Agora que também está prestes a tornar-se luso-brasileiro, Liedson tem todo o direito de presumir poder seguir o caminho dos dois antecessores, com a agravante da gravissima crise portuguesa para os golos, uma crise que se alastra há vários anos. Um problema que o dianteiro de 31 anos parece ser a solução mais óbvia mas que levanta de novo as mesmas questões: quer realmente Portugal continuar a importar para a selecção nacional jogadores brasileiros, com ou sem presença regular na nossa liga?
A questão sobre o futuro da selecção portuguesa é complexa mas o que está claro é que Portugal não tem, hoje em dia, um futebol de base sólido para suster uma renovação completa. O nivel competitivo da liga baixou enormemente e os titulares de hoje jogam uns furos abaixo do que os seus antecessores. Nem Raul Meireles é Maniche, nem João Moutinho pode substituir Deco nem Pepe adaptado chega ao nível de Costinha, Paulo Sousa, Paulo Bento ou Vidigal. E esse é um fenómeno que se poderia aprofundar noutras posições chave do onze nacional. Essa incapacidade de manter um nivel elevado espelha-se na campanha para o próximo Mundial, onde não se pode culpar apenas Queiroz. O seleccionador cometeu os seus erros mas a realidade é que em muitos dos casos viu-se privado de outras opções para defrontar rivais que apesar de teoricamente acessiveis no papel se revelaram na prática endiabrados. Algo que se já se vira, por exemplo, no apuramento para o último Europeu. Mas a memória é curta. Principalmente no nosso futebol. E agora que já não há colonias para fornecer Peyroteo, Matateu, Águas, Coluna, Eusébio ou Jordão e como a preparação para uma futura geração de talentos de base precisará de mais uma década, que fazer? Apostar por nacionalizar brasileiros ou apostar numa politica de recrutar portugueses ou descedentes directos nos quatro cantos do Mundo?

Enquanto se fala em lançar Liedson para a titularidade na selecção A, as equipas de sub-21 e sub-19 começam a explorar outra solução que, a meu ver, me parece mais lógica e com maiores frutos a médio prazo. Portugal é um país de emigrantes, sempre o fomos e nas últimas décadas o fenómeno acentuou-se. Mas também somos um país de acolhida. Seja por exportação ou importação, o gene português, o sentimento português vive para além do limite geográfico reconhecido por tudo e todos. Amaury Bischof, Daniel Fernandes ou Stanislas Oliveira são apenas exemplos de descedentes de portugueses que, apesar de não terem nascido em Portugal, transportam o pais no sangue e coração. Jogadores que sentem a bandeira e o hino e que estão tão habilitados para defender as cores nacionais como Moutinho, Simão e companhia. E em França, Alemanha, Suiça, Estados Unidos, Espanha ou Inglaterra vivem milhares de portugueses e os seus descendentes, muitos deles praticantes do beautiful game. A Federação Portuguesa de Futebol deveria - como parece, timidamente, estar a fazer - por em marcha um projecto de reconhecimento desse talento português fora das fronteiras. Basta lembrar-nos que a Turquia está, hoje em dia, a fazer o mesmo com muitos dos jovens nascidos na Suiça ou Alemanha. Por exemplo, Gelson Fernandes, médio da selecção suiça, poderia ter jogador por Portugal. Mas nunca foi contactado pela FPF. Ao contrário do seu primo, Manuel Fernandes, internacional português há vários anos.
Da mesma forma há comunidades em Portugal, seja por ligações históricas seja por fenómenos recentes, que podem trazer muito á selecção. Desde Nani ou Bosingwa, nascidos fora do país mas que desde novos vivem em território nacional mas sem esquecer nas comunidades ucranianas ou russas, que se começam a instalar com as familias e que, com eles, podem trazer outro perfume ao nosso jogo. Voltamos ao exemplo alemão, que fez actuar na selecção campeã da Europa de sub21 oito jogadores filhos de emigrantes, do germano-espanhol Gonzalez Castro ao germano-turco Mezut Ozil. Aqueles que aceitam a entrada de Deco, Pepe ou Liedson devem preparar-se para que, no futuro, a selecção possa jogar com um Manuel Yakovenko, François Martins ou Daniel Bradley, apenas para dar exemplos ficticios mas que representam comunidades onde o português é uma realidade. Da mesma forma que Portugal mostrou o Mundo ao próprio Mundo, agora o futebol português deve evitar ao máximo prender-se ao rectângulo nacional ou ás soluções fáceis. Deve reforçar-se para o futuro, apostando primeiro nos luso-descendentes que vivem por esse planeta fora e nos jovens de outras culturas nascidos ou criados em território nacional.

Aceitar imigrantes é uma solução que não deveria ser fechada a 100%, está claro, principalmente com o panorama internacional que vivemos, onde as fronteiras estão cada vez mais difuminadas. Mas devemos ter consciência de que não é com opções como esta que se conquista o futuro. Deco foi uma óptima aquisição mas agora precisa de sucessor e não foi preparado ninguém para herdar o seu papel no terrenod de jogo. O mesmo passará com Pepe e com o avançado leonino. Liedson pode muito bem vir a ser internacional por Portugal (como o foram Deco ou Pepe com toda a normalidade), mas não será essa a solução dos problemas do nosso futebol. Recuperar a identidade mundial portuguesa sim, pode ser um passo importante para garantir o futuro muito antes do que se esperaria.
Terça-feira, 26.05.09
Há cinco anos que não celebrava um título. Ontem, depois de um largo interregno, voltou a celebrar. E com direito a golo. Um remate potente, marca da casa. A imprensa lembrou-se agora que existia, mas ele sempre esteve ali. Sangue, suor e lágrimas é com ele. Desta vez as lágrimas foram de alegria.
É um dos mais completos médios centros do nosso futebol. E também dos menos mediáticos. Campeão da Europa com o FC Porto de Mourinho, sempre foi um dos pilares da variação táctica do técnico setubalense que abandonou o 4-3-3 de Sevilla eplo 4-4-2 de Gelsenkirchen. Ao lado de Maniche, Costinha e Deco, ali estava o sucessor do russo Alenitchev. Tudo indicava que seria o patrão do Porto do futuro. Até que de Londres acenaram com um cheque e o presidente portista nem hesitou. Para que arriscar num português de talento se tenho aqui preparado um lote de argentinos e brasileiros? A ideia de um FC Porto português de Mourinho saiu com o técnico.
Para Londres, para norte de Londres foi esse craque. Pedro Mendes, nome próprio com direito a referencia. No Tottenham não foi feliz. É difícil se-lo num clube há anos perdido no seu próprio historial, com mil e um projectos aventureiros de final infeliz. O centro campista vimaranense era um deles. E depois de se comprovar o erro de casting – do clube, não do jogador – o herdeiro de Afonso Henriques marchou rumo ao sul, onde em Portsmouth o receberam de braços abertos. Com Muntari formou um meio campo de sonho que permitiu aos “pompeys” o milagre de estrear-se em provas europeias. Golos, desmarcações e desarmes invisíveis. Como aquele golo do meio campo que marcou um dia em Old Trafford e que só o arbitro não viu. Esse é Pedro Mendes.

Mais uma vez os negócios entorpeceram a carreira e o recém-europeu Portsmouth teve de vender peças valiosas para manter-se de pé. Mourinho foi lá pescar mas trouxe o guerreiro negro e deixou que o rebelde Pedro rumasse a Norte, às Higlhands. Tal e qual novo William Wallace, cabelo largo ao vento, Pedro Mendes entrou de rompante em Ibrox Park e reinou de imediato sobre o condado protestante de Glasgow. A ferida da equipa, bem fundo no orgulho, depois de anos de derrotas diante dos católicos de verde, estava bem marcada. A derrota, meses antes, no City of Manchester frente aos russos de Arshavin e companhia ainda não sarara. Tranquilizar o mítico Ibrox era tarefa difícil. Mas Pedro Mendes logrou-o. Tornou-se na bússola deste Glasgow implacável que soube trepar pela classificação até se colar aos verdes católicos. Venceu e passou para o primeiro posto. Era esperar pela consagração. Em casa. Diante dos seus. Com um golo de Pedro Mendes. Levantou-se o estádio, levantaram-se os guerreiros. Com Queiroz a inventar em mil e uma convocatórias, Pedro continua a sonhar. O lugar de soldado invisível impediu-o de entrar na “família de Scolari” quando por lá andavam outros guerreiros bem menos valentes.
Para o futuro resta a esperança de que Portugal saiba que ainda há guerreiros nacionais por aí fora, escondidos. Mesmo que não vendam capas de jornais e apareçam numa pequena nota de rodapé, eles estão aí, à espera da hora em que serão chamados para cantar o hino bem alto, desembainhar espadas e partir para a luta…como fez Pedro Mendes uma vez mais neste domingo de festa protestante escocesa.
Segunda-feira, 25.05.09
Tudo termina e mesmo que a nostalgia impeça o esquecimento, a verdade é que vai ficar pouco para recordar com gosto desta Liga Sagres 2008/2009. Uma temporada apagada, morna, onde a grande sensação foi mesmo a campanha do Leixões na primeira volta e a cavalgada final dos tetracampeões. O FC Porto esteve muitos furos abaixo do que nos habituou, especialmente no arranque da temporada, mas acabou por se impor com naturalidade numa prova sem nível competitivo e onde, de ano para ano, se notam cada vez mais as diferenças entres os clubes com projectos bem definidos (FC Porto, Nacional, SC Braga, Sporting, Paços de Ferreira), os clubes à deriva de ideias (SL Benfica, Vitoria Guimarães, Marítimo) e aqueles que, pura e simplesmente, se limitam a esperar que a sorte os salve de um destino pior.

Contas feitas o FC Porto voltou a fazer história – primeiro clube português a repetir quatro títulos consecutivos – e apesar do atraso com que começou deu para celebrar o titulo a três jogos do fim. O Sporting prova que não pode mais, ao continuar com esta politica de contenção salarial que lhe impede de montar um onze verdadeiramente competitivo, por muito boa que seja a Academia de Alcochete. Mais do que Paulo Bento e companhia, em Alvalade o grande calcanhar de Aquiles é a debilidade institucional e a clara falta de ambição e nível competitivo. Que o diga o Bayern ou o Barcelona que humilharam uma equipa que até soube bater, duas vezes, o vencedor da Taça UEFA. Por sua vez o SL Benfica continua igual a si próprio. Independentemente do clube, ver o Benfica à deriva é um espelho da falta de interesse que desperta o próprio campeonato. Os próprios rivais já se deram conta de que, por muitos anúncios pomposos, contratações sonantes e técnicos de renome, a equipa encarnada nunca consegue ser verdadeiramente competitiva. Tropeça nos momentos chave, falha sobre pressão e vive em constante conflito interno. O plantel deste ano das águias era dos melhores da década mas no sprint final viu-se ultrapassado pelo rival da segunda circular e chegou a estar ameaçado por Braga e Nacional. Muito pouco para quem continua sem ganhar uma prova – Taça da Liga à margem – há cinco anos.

Fora do pódio que voltou à normalidade dos grandes depois do brilharete vimaranense do ano passado, os postos da UEFA vão direitinhos para os clubes mais regulares e com os projectos desportivos melhor trabalhados. Por um lado o SC Braga de Jorge Jesus, é um exemplo de austeridade e ambição. Será difícil ver os arsenalistas a lutar pelo título, porque se nota a diferença de plantel, mas a equipa de Braga provou, tanto na Europa como na Liga, ter argumentos para sonhar com mais. Tropeções em momentos chaves, lesões incómodas e uma longa época que arrancou com a Intertoto em Julho justificam a baixa de forma final. Mas a verdade é que o clube pode aspirar a mais no próximo ano. É necessário um título para confirmar esta afirmação como quarto grande, na ausência de Boavista e na irregularidade dos rivais de Guimarães. Por sua vez o Nacional tem um projecto bem distinto, mais volátil, mas igualmente bem definido. Sabendo que é inevitável vender, o mérito dos madeirenses está em saber reforçar-se bem. Maicon e Nene, que chegaram de uma digressão da equipa de reservas do Cruzeiro, ou os jovens Ruben Micael e João Aurélio, são a prova de que Manuel Machado é um perito em construir onzes equilibrados e com forte vocação ofensiva. O regresso à Europa é um prémio justo para um clube bem estruturado.
Ás portas da glória uefeira e com um campeonato razoavelmente tranquilo, Leixões, Marítimo e Vitória de Guimarães espelham bem a realidade do futebol nacional. Os primeiros começaram bem, chegaram mesmo a liderar a prova, mas a venda de Wesley e a baixa de forma física arrebentou com as aspirações europeias dos bebés de Matosinhos. Quanto a Marítimo e Vitória, partiam com claras ambições. Os primeiros chegaram a estar bem dentro da luta até ao tiro no pé que foi a substituição do técnico Lori Sandri a sete jornadas do final. A entrada de Carvalhal não melhorou em nada as prestações da equipa que acabou por perder ritmo. Caso grave é o do Vitória. A equipa caiu na pré-eliminatória da Champions e logo na da Taça UEFA, acabando abruptamente as aspirações europeias. Os pilares da boa época passada saíram e nunca tiveram substitutos à altura e a equipa baixou de forma brutalmente em relação ao brilhante ano passando, tendo andado por lugares na parte baixa da tabela. No final da temporada recuperou para um sprint final rápido mas ineficaz. Para o ano terá de fazer muito melhor.
Na eterna luta pela despromoção encontramos as restantes oito equipas, o que demonstra bem como é o campeonato português. Três lutam pelo título, cinco pela Europa e o resto para não descer. Só mudam os rostos dos dois últimos grupos. Mas costumam ser os suspeitos do costume. Os primeiros a salvarem-se da despromoção foram os surpreendentes jogadores do Estrela da Amadora. Mesmo sem receber regularmente desde o início da época, mesmo sem o treinador inicial e com menos três pontos retirados na secretaria, o Estrela da Amadora merece um especial louvor. Não tinha condições para competir e mesmo assim ficou à frente de clubes com outros orçamentos e expectativas. Salvou-se cedo e bem e apesar de correr o riso de descer na secretaria, pelos salários em atraso, em campo mostrou ter jogadores de carácter. O mesmo que a Académica. Os de Domingos Paciência foram uns autênticos sofredores. Óptimos resultados no Municipal de Coimbra e péssimas exibições fora de casa impediram que a equipa mais sólida dos estudantes dos últimos anos pudesse aspirar a mais. O técnico deverá estar de saída, um golpe duro para um clube histórico que ainda não se habituou ao ritmo da primeira divisão. Por fim sobra o excelente Paços de Ferreira, que por méritos de Taça estará na próxima Taça UEFA. A equipa de Paulo Sérgio mostrou sempre bom futebol e até perdeu o seu melhor goleador bem cedo, mas apesar de alguns altos e baixos mostrou uma interessante regularidade na Mata Real.

Sofredores até ao fim, Naval 1 de Maio, Vitória de Setúbal e Rio Ave tiveram de fazer das tripas coração para garantir a permanência. Os da Figueira sofreram sempre pelo plantel pouco competitivo e a falta de um real apoio dos seus adeptos mas dos aflitos foram os primeiros a garantir a permanência. Foi aliás na Figueira que o Setúbal também evitou a descida, resultado essencialmente de um bom final de época de Carlos Cardoso, um técnico perito já em salvar o seu Vitória de momentos de aflição. A grave crise financeira e institucional do clube do Sado não garante a sobrevivência a curto prazo mas, pelo menos, evita que os setubalenses caiam esta temporada no poço da II. Por sua vez em Vila do Conde fez-se a festa também no último dia. Carlos Brito, salvador da casa sempre, juntou uma equipa de jovens ambiciosos e com Yazalde e Coentrão desenhou um bom final de época que acabou por evitar uma descida de divisão que parecia inevitável a meio da temporada.
A caminho da II Liga estão Trofense e Belenenses. Os primeiros subiram este ano e nunca deram a real sensação de ter um projecto sólido que lhes garantisse a permanência apesar do futuro brilhante que parece ter o seu jovem técnico, Tulipa. Uma descida natural e esperada ao contrário da do Belenenses. Os da Cruz de Cristo há anos que brincavam com o fogo e este ano queimaram-se por completo. Três treinadores, direção demissionária, problemas financeiros e um plantel altamente desiquilibrado foram condenando o histórico clube á descida de divisão. Uma descida consumada em pleno relvado da Luz e que prova, mais uma vez, que os históricos já não conseguem a manutenção pelo seu estatuto se não têm um projecto sólido para apresentar ao longo de uma larga temporada. Resta saber se para o ano a equipa terá forças para voltar ou se cairá no mesmo ritual auto-destructivo de outros clubes do seu nivel.
Sábado, 23.05.09
Depois de na época passada o Boavista ter sido despromovido na secretaria hoje o estádio da Luz confirmou a descida do outro grande real, o outro clube a vencer um campeonato de I Divisão para além do trio Porto, Benfica e Sporting.
Não é a primeira vez que o Belenenses cai na segunda divisão, mas há muitos anos que nos tinham habituado a circular pelo meio da tabela da Primeira Liga e este ano a equipa de Belem partia com mais um projecto ambicioso para tentar voltar á Europa. Orfãos de Jorge Jesus, os do Restelo apostaram em -----. O técnico montou uma equipa quase de raiz e não teve sucesso e o seu substituto, Jaime Pacheco, o tal técnico que quebrou a hegemonia dos grandes no Boavista, tomou controlo da situação mas não soube dar a volta. O Belenenses foi caindo pouco a pouco na classificação e chegou á penultima jornada praticamente condenado. O treinador foi-se embora e o jovem Rui Jorge, vindo dos juniores, tentou o milagre. Á primeira funcionou á segunda não. Diante dos encarnados, desejosos de limpar a imagem de uma péssima época diante dos seus adeptos, o Belenenses provou não ter futebol para estar na divisão maior do futebol nacional. Foram derrotados por 3-1, sem apelo nem agravo, apesar do golo inicial, e os resultados de Setubal e Rio Ave selaram o destino dos azuis. Para o ano a equipa da Cruz de Cristo vai disputar a Liga Vitalis. E onde já foram cinco equipas campeãs a disputar a I Liga Portuguesa, agora são apenas três...as de sempre. Os históricos continuam a cair no futebol nacional. Resta saber se para não mais voltar...

O projecto da Trofa
Pequena localidade, até há bem pouco tempo parte de Santo Tirso (onde anda o histórico Tirsense?), a Trofa festejou eufórica o ano passado a estreia na primeira divsão portuguesa. O Trofense era uma equipa quase desconhecida para a maioria dos portugueses e a subida foi resultado de uma excelente época na II Liga, quando ninguém apostava um centimo pelo clube dos suburbios do Porto.
Este ano o Trofense terminou em último. Treinado pelo jovem Tulipa, a equipa da Trofa até conseguiu roubar pontos aos grandes e exibir bom futebol. Mas ficou claro, desde a primeira jornada, que o projecto do clube trofense era pouco para a exigência da I Liga. Um pequeno estádio com pouco público, uma equipa pouco ambiciosa com um Hugo Leal em final acentuado de carreira e onde o único ponto de destaque acabou por ser o jovem Tiago Pinto, um nome a ter em atenção para a defesa esquerda de Portugal do futuro. O Trofense desceu naturalmente e isso é um aviso á navegaçao a equipas da II Liga, como o Olhanense. Subir de divisão é muitas vezes um choque muito forte para equipas que não estão preparadas a nivel económico e competitivo para lutar entre os grandes. Não me admirararia que este clube não voltasse a por os pés na Liga Sagres, como aconteceu com tantos clubes da zona Norte (Famalicão, Aves, Vizela, Fafe, Moreirense, Tirsense) que resultam em projectos pouco sólidos e inviáveis. Fica o aviso á navegação!

Segunda-feira, 11.05.09
Foi o primeiro campeão nacional do novo milénio. Um feito que nem a mais deprimente das dívidas poderá apagar. Juntou-se ao exclusivo clube de campeões depois de uma vitória categoria sobre o Desportivo das Aves. Um triunfo no seu estádio, reinaugurado pouco tempo antes para o Euro 2004, nascido a tempo de ver a festa axadrezada. Durante anos tinha ameaçado várias vezes os chamados grandes. Em 2001 deu a estocada letal. Hoje está a um pé de cair dos campeonatos profissionais. E muitos continuam sem perceber como pode estar prestes a cair no poço o clube das camisolas esquisitas.
Durante anos viveu à sombra do FC Porto. Clube da zona rica da cidade, sempre foi olhado com despeito pela maioria portista e pelo esquadrão mais popular do Salgueiros. Foi crescendo a pulso e nos anos 70 a chegada de Valentim Loureiro deu uma reviravolta aos destinos do clube do então pequenino campo do Bessa. A contratação de José Maria Pedroto, esse treinador dos milagres impossíveis, fez nascer o primeiro “Boavistão”. Por pouco não arrecadou a liga ao SL Benfica. Mas deixou o aviso. A saída de Pedroto para o rival voltou a mergulhar o Boavista no meio da tabela, mas não voltou a cair de divisão. A pouco e pouco o Bessa tornava-se num forte cada vez mais complicado de conquistar. A começar os anos 90 a chegada de Manuel José renasceu o espírito do “Boavistão”. Dupla presença na final da Taça de Portugal, uma vitória sobre o recém-coroado campeão FC Porto e uma geração de talentos liderada por João Vieira Pinto, Nelo, Rui Bento, Barny, Timofte, Artur e Ricky tornaram na equipa axadrezada no quarto grande do futebol nacional. As primeiras idas à Europa foram marcadas por jogos inesquecíveis, especialmente contra equipas italianas (Inter, Nápoles, Torino), e daí nasceu a alcunha de equipa com camisolas esquisitas. Mas marcantes.
O final dos anos 90, já com João Loureiro a orientar o clube de fora e Jaime Pacheco no banco, voltou a ver a equipa do Bessa disputar o troféu até ao fim. Voltou a cair, após uma noite para esquecer em Faro, mas deixou o aviso. Com Ricardo, Litos, Pedro Emanuel, Martelinho, Sanchez, Douala ou Fary, este Boavista era um misto de raça e atitude com um genuíno talento para vencer no mais complicado dos campos. Aquele golo de Martelinho no Bessa, no virar da primeira volta do campeonato 2000/2001 frente aos azuis e brancos, decidiu o destino final desse campeonato. Nunca mais ninguém conseguiu acompanhar o ritmo demoníaco de um clube a viver uma profunda remodelação, com direito a estádio renovado, equipa de primeiro nível e uma direcção aparentemente sólida. A conquista do campeonato foi o resultado de uma evolução constante, aquilo que exactamente devia passar com mais frequência nos nossos relvados com equipas da mesma dimensão como os Vitórias, Bragas e afins. O Boavista era já um grande de pleno direito e para além das grandes performances na Champions League, logrou ir a uma meia-final da Taça UEFA, onde a amarga derrota frente ao Celtic impediu uma final tripeira em Sevilla. Foi o zénite final do clube da zona nobre da Invicta.
O fantasma do pai Valentim sempre pesou sobre a sombra do filho e não foram poucos os que atribuíram à presidência da Liga do anterior presidente axadrezado os triunfos conquistados em campo. Partidos polémicos, quase sempre decididos a favor da equipa do Bessa, alimentaram a polémica de um país habituado a ver esses roubos de igreja só a azul, vermelho e verde…nunca com marca de xadrez. Surgiram as suspeitas desse pequeno feito grande elevado ao céu e daí, com muita fruta incluída, começou a desenhar-se a base do apito banhado a ouro…falso. A decisão final teve dois pesos e duas medidas, nos que se podem tocar e nos que são intocáveis. Ao FC Porto retiraram-se pontos inofensivos, ao Boavista relegaram para a segunda divisão, depois de em campo ter garantido a custo a manutenção. A saída precipitada do filho Loureiro terminou com uma dinastia de quatro décadas e abriu as arcas deixando a nu o vazio de liquidez e a abundância de dívidas. De um momento para o outro o exemplo Boavista desapareceu e ficaram só os milhões por pagar. A equipa foi impedida de inscrever jogadores, envoltos em múltiplos pagos pendentes, e teve de arrancar para a época com uma equipa treinada por um antigo veterano e uma série de miúdos inexperientes. A falta de salários, as bancadas vazias, um plantel sem capacidade de encarar uma subida de divisão a pulso foi arrastando os axadrezados para o abismo.
Depois de anos a serem acusados de serem favorecidos pelos árbitros, a campanha deste ano ficou marcada por acusações de uma equipa que não quer ser cabeça de turco. Em dúvida, agora, os árbitros apitam contra. Para não haver confusões com um passado ainda sem esclarecer bem. A dois pontos da salvação a equipa ameaça agora não voltar ao relvado. E assim consumar-se-ia a descida de divisão. O que significava abandonar os campeonatos profissionais e seguir o rumo de outros históricos agonizantes. Ou pior, o fim…para sempre…dessa pantera que soube bater o pé ao tridente antropófago do nosso futebol. Mas isso era se no futebol existisse o fado das inevitabilidades.
Quinta-feira, 07.05.09
O futebol pode ser uma verdadeira roleta russa. Em Portugal começa a tomar – uma vez mais – a forma de uma ciência exacta. São 16 equipas ao principio e no final o titulo fica onde está, por muito tarde que chegue a taça a casa. A três jogos do final da época o FC Porto é campeão nacional. Ainda não…matematicamente. Faltam 3 pontos…em 9. E isso, se o Sporting não voltar a repetir a sina da última década…tropeçar nas noites chave. A Liga Portuguesa está em queda livre. Em prestígio, em qualidade, em interesse…e cada vez mais parece ser uma crónica de um campeão anunciado.

A imprensa até esfregou as mãos. Chegados ao Natal, o tricampeão nacional andava pelo segundo lugar, a lamber as feridas de uma primeira volta desastrosa.O SL Benfica liderava a Liga, e segundo os ilustres opinion-makers, vencia e convencia a caminho do primeiro titulo da era Rui Costa...claro, isso foi até ao dobrar de ano. A partir daí os encarnados caíram pela tabela aos trambolhões e foram ultrapassados pelo titubeante rival de Alvalade, que nunca recuperou da humilhação contra o Bayern e da polémica da Taça da Liga. No primeiro lugar já estava o FC Porto e daí não voltaria mais a sair. A equipa portuense prepara-se para repetir um feito apenas logrado pelos leões dos Cinco Violinos e pela equipa azul e branca de António Oliveira, em 1998, liderada pelos golos de Mário Jardel.
Quatro campeonatos consecutivos é um feito em qualquer liga. Repetir a dose num espaço de quinze anos é assumir um dominio absoluto no panorama desportivo nacional. E tudo resultado de um projecto bem definido, há já mais de trinta anos. Um plano que tem funcionado e, como em equipa que ganah pouco se mexe, apenas ajustado ao longo do mandato presidencial de Jorge Nuno Pinto da Costa. Só nos paises latinos os Presidentes conseguem ter tanto ou mais protagonismo que os artistas, mas alguns conquistam-na a pulso. Pinto da Costa é dessa casta. Desde cedo percebeu que o FC Porto, para vingar em casa e brilhar fora, teria que saber que há que vender os aneis para nunca perder os dedos. E ao largo de tres décadas foram alguns dos melhores anéis que alguma vez passaram pelos relvados portugueses. E sempre se soube recuperar equipas aparentemente desfeitas. Este ano foi particular. Este ano custou mais ainda. E por isso o triunfo dos dragões sabe ainda melhor.

O arranque de época foi, no mínimo, desastroso. Perdida a Supertaça, à beira da eliminação da Champions e com duas derrotas consecutivas no Dragão (algo inédito), o FC Porto parecia estar a caminho da hecatombe. Da equipa autoritária do ano passado, nem rasto. A crítica apontava a saída de três anéis brilhantes: o desiquilibrador Bosingwa, o cérebro do meio-campo Paulo Assunção e o criativo Quaresma. Jogadores cujos suplentes (Sapunaru, Fernando, Rodriguez) não terminavam de convencer. E uma equipa cujas contratações (Benitez, Bollati, Hulk, Tomas Costa) pareciam ser ignoradas tranquilamente pelo treinador, que mantinha o musculo do meio campo do ano passado. Só que El Comandante já não era tão capitão e “Licha” Lopez tão letal.
No meio do tempora, um rosto de tranquilidade. Sempre pacífico, sempre calmo, Jesulado Ferreira ia lançando avisos a quem queria ouvir. Que a equipa era nova, que era preciso esperar, adaptar, reconstruir...enfim, o dia a dia do FC Porto das últimas décadas. Novos aneis para os velhos dedos. E no final, resulta que, uma vez mais, tinha razão. Fernando começou a limpar o meio campo. Hulk corria e deixava para trás quem quer que se atrevesse a persegui-lo. Os malditos Farias e Gonzalez mostravam-se letais e a chegada de Cissokho e a recuperação de Sapunaru, trouxe equilibrio a uma defesa antes sólida e onde agora, até Helton - há pouco titular da canarinha - era fortemente contestado. O onze instável tornou-se numa bússola certa de conhecer o seu próprio Norte. E tranquilamente chegaram os triunfos - mais fora de portas do que em casa, é certo - e até na maldita Champions se sonhou com repetir Gelsenkirchen. Muito para quem esperava tão pouco depois daquele frio Outono na Invicta.

Não sou capaz de adivinhar se o FC Porto celebrará em casa o triunfo, diante do Nacional. Provavelmente voltará a passar o habitual esta época. Apesar de justo campeão, este FC Porto está a anos-luz do que pode e deveria ser. Essa análise fica para mais tarde, fica a promessa. Mas os falhos constantes diante dos seus adeptos carecem de explicação lógica. E o Nacional é a equipa revelação (se é que ainda se pode dizer isso) do ano. Mas estamos a falar de detalhes. A este FC Porto assenta-lhe melhor vencer o título fora de portas. Foi assim todo o ano, brilhar fora e sofrer em casa. Os fiéis adeptos merecem festejar este fim-de-semana e aproveitar o espírito festivo da Queima das Fitas. Detalhes, uma vez mais.
O título está entregue, nem é preciso vencer mais nenhum jogo para o lograr. A Final da Taça, outra matéria onde Jesualdo, esse timoneiro tranquilo, tem de aprovar, está ao virar da esquina. O ano que parecia maldito vai ser mais dourado que nunca. E nos corredores do Dragão já se sonha com o novo Penta. Cedo demais para sonhar tão alto? De momento continua a máxima bem viva….a próxima liga dificilmente será excepção…e esta crónica de uma morte anunciada pode continuar a ser repetida, ano após ano…a bola está do lado dos velhos novos campeões nacionais. Porque essa é a verdade do nosso futebol. O próximo campeão só depende do próprio campeão…os outros, são como abutres, à espera dos restos.
Segunda-feira, 04.05.09
É provavelmente a profissão mais ingrata do meio futebolístico. Longe do calor dos relvados, semana após semana. Sem possibilidade de acompanhar, passo a passo, a evolução dos seus jogadores, o seleccionador de futebol é essa ave rara que levanta suspeitas onde quer que passe. Nunca ninguém confia verdadeiramente no seu seleccionador. É uma espécie de prenda envenenada. Mourinho sabe-o bem. Rejeitou a oferta da F.A. e no caso português fala sempre num futuro longínquo…longe das tentações. Pudera. Ser seleccionador implica jogar com as emoções de um país inteiro, mais do que com um clube. Há pouco falamos do facto do futebol hoje ser o palco de batalha do passado. Sob essa perspectiva as guerras entre as nações passarão para os relvados e os seleccionadores são os novos generais. E quem não gostaria de ter um Napoleão a treinar as suas tropas?
Carlos Queiroz tem uma tarefa ingrata. É hoje, provavelmente, o homem mais injustiçado do futebol português. Mas esse era um risco que sabia que ia correr ao deixar a tranquilidade de Old Trafford pela instabilidade crónica do futebol nacional. O seu consulado assenta em duas premissas complexas que podem ser suficientes para destruir as suas ambições. Dois pontos chaves, para os dez milhões de adeptos da selecção, para a critica “especializada” e para os seus próprios jogadores. Em primeiro lugar é um general sem vitórias, um homem sem títulos. Uma carreira demasiado em low profile que não empolga ninguém. E é também o sucessor do período de maior sucesso da história do futebol nacional. Muitos dos defeitos da actual equipa das quinas vem com o selo de culpa do anterior dono do posto, que saiu airoso quando mais lhe convinha. Mas a verdade é nua e crua. A última década foi dourada para a selecção, e salvo o Mundial de 2002 e estes Quartos de Final de mau sabor de boca, a selecção esteve sempre entre as quatro melhores, da Europa e Mundo. Tanto faz se essa foi a época da geração de ouro. Gerações constroem-se e reconstroem-se. É assim que se fazem as grandes equipas.
Queiroz foi o pai desta geração que agora acabou. Em 1989 ele era o rosto do sucesso que dava esperança ao futebol português. Saiu da Federação em confronto directo com os podres instituídos e jurou não voltar. Voltou, mas os podres ainda aí estão. E o que é pior, agora não há margem para recomeçar do zero. Porque acreditem ou não, Portugal terá de recomeçar do zero. Pode contar com Cristiano Ronaldo – para muitos era até melhor nem contar com o avançado do Man Utd, e as ultimas exibições dão-lhe toda a razão – mas o que é preciso fazer com a selecção é também o espelho do que é preciso fazer com o futebol português: voltar à estaca zero.
A aposta dos clubes em estrangeiros (de segunda e terceira linha) destruiu muito do trabalho dos anos 70 e 80 na cantera nacional. Hoje é raro ver equipas com jogadores formados na casa a titulares indiscutíveis. Os mais novos não encontram espaços nos grandes e acabam por nunca chegar ao nível a que podiam. Ou emigram demasiado cedo e perdem-se por aí ou transformam-se em vedetas mesmo antes do tempo. O polémico penalti de Pereirinha, a atitude de Miguel Veloso ou Quaresma são apenas exemplos de jogadores que sem provas dadas já vivem com o rei na barriga. Atitude muito diferente aquela geração de Riade e Lisboa que cimentou a afirmação internacional de Portugal. Essa falta de referências – Cristiano Ronaldo não é nem será nunca uma referência positiva por muito talento que tenha – mina desde logo o espírito de balneário para os mais novos. Mas o problema vem antes. Onde descobri-los? As equipas de formação foram abandonadas durante o consulado Scolari e agora é preciso voltar a começar de novo. Mas isso leva tempo, demasiado tempo. E é precisamente isso que Queirós não tem. A fase de apuramento para o Mundial está bastante mais complicado do que teoricamente se esperava. Mas na falta de opções credíveis em posições chave, o seleccionador pouco mais pode fazer. O povo não perdoa e os jogadores – especialmente o capitão – também não já que não ir à Africa do Sul supõe um retrocesso na imagem de conquista que fomos dando nos últimos anos. E para ir ao Mundial é preciso vencer e ter sorte. Mas o que Portugal precisa agora, se calhar, é de perder e pensar. Talvez o apuramento mantenha velhos hábitos. Talvez, e só desta vez, a derrota sirva para algo positivo. Se ao seleccionador o deixarem fazer o trabalho para que veio – mais do que levar a selecção ao Mundial, Queiroz está para recomeçar o que deixou para trás há 20 anos – pode haver ainda alguma esperança de que algo mude.

Que a selecção joga mal, é indesmentível. Mas também o é a falta de qualidade da oferta. Experimentar é natural em quem chega do nada, por muito que digam o contrário. Para jogarem os mesmos, não valia a pena mudar uma vírgula. Experimentar a jogos a doer é complicado, mas neste momento não há alternativa. E muitas mais são precisas. No lote de seleccionáveis é difícil encontrar jogadores que podem ser fixos nas suas posições. Os “veteranos” não possuem substitutos à altura e insistir num sistema táctico que não beneficia em nada o jogo da selecção. A falta do ponta de lança é crónica – e sem solução à vista – mas jogar sem um avançado não é viável. A crise na baliza não resolvida de vez, o lateral esquerdo continua a ser uma incógnita (Bosingwa poderá passar para lá como aconteceu com o Chelsea no Camp Nou) e Pepe não é um médio defensivo fiável a 100% (provou-o todo o ano em Espanha com faltas desnecessárias e comprometedoras). Deco e Maniche não possuem alternativa digna (Raul Meireles e João Moutinho são esforçados…e pouco mais). E Cristiano Ronaldo ameaça tornar-se num problema, e não na desejada solução.
São demasiadas coisas ao mesmo tempo para um homem só.
Problemas que os anteriores seleccionadores, que herdaram a equipa montada por Queiroz em Riade, nunca tiveram. Salvo um caso pontual (o ponta de lança sempre foi o mais significativo), Portugal sempre teve um bom leque de alternativas para a equipa das quinas. A ironia suprema é que o seleccionador está nesta situação exactamente porque durante quinze anos os seus antecessores deixaram de lado a sua filosofia que tão bons resultados deu a Portugal. Resta saber se há tempo para recuperar esta equipa ou se voltaremos a estar condenados a ver as grandes provas pela televisão á espera de um novo grupo de valentes capazes de dizer presente nas horas mais importantes.
Domingo, 03.05.09
Com a forte crise que vive o país, o futebol, antigamente o suporte moral da nação, é hoje também um dos sectores onde mais se nota a perde de competitividade dos produtos made in Portugal.
Clubes, jogadores, dirigentes, árbitros e o próprio público deixam uma pobre imagem do nosso futebol para o exterior e os resultados das prestações das nossas equipas é de tal forma pobre – continuando a viver ás custas dos brilharetes do FC Porto – que a liga portuguesa já foi ultrapassada em importância por campeonatos claramente inferiores como são o russo, ucraniano, holandês e turco. Hoje o futebol português pertence à segunda metade da tabela, cada vez mais longe dos líderes do pelotão. Um problema que é muito mais do que um simples reflexo da crise económica nacional, que, como podemos comprovar, foi determinante à hora de estabelecer as diferentes geografias do nosso campeonato ao longo dos anos.
Se nos tivéssemos de preparar para um cenário de futuro, hoje em dia, sem nenhuma alteração substancial à forma como é organizado o futebol português, pouco mudaria. Os grandes centros urbanos a sul e a norte continuariam a produzir os clubes de primeira linha – Lisboa e Porto – com algum que outro histórico a ocupar lugares de honra, mais pelo aspecto moral e institucional do que propriamente por poderio financeiro. E a dura verdade é que hoje em dia não existe, em Portugal, um projecto digno desse nome capaz de pegar numa instituição e consolidá-la entre os maiores do nosso mundo da bola, com legitimas aspirações europeias. A verdade é que não é necessário ter muito dinheiro para singrar no futebol, sempre e quando se tenha muita cabeça. O Villareal é um desses exemplos claros. Um clube de uma localidade muito mais pequena que muitas cidades portugueses, surgiu do nada, sem história nem instalações capazes de albergar um campeão. Uma politica pensada ao milímetro, desde a formação até ao investimento controlado, permitiu ao clube de Castellon criar uma equipa capaz de lutar pelo acesso à Champions League ano sim, ano não, onde tem obtido óptimas prestações. Sem uma grande base social de apoio e sem esse historial que outros clubes se orgulham de possuir, é um caso claro de gestão inteligente que dá os seus frutos. Em Portugal não existe nenhum projecto do género e não há, no horizonte, sinais de que isso venha a acontecer.

A ditadura dos três grandes parece eterna e a resposta é simples. A diferença de orçamento é tal e a influencia nas organizações é tão grande, que até com sucessivas gestões mal sucedidas e políticas desastrosas, é raro chegar ao final de cada época e não ver FC Porto, Sporting e SL Benfica nos lugares de topo. Aqui e ali uma equipa faz o brilharete de subir umas posições, mas a verdade é que o peso parece ser demasiado grande, e no ano seguinte volta ao seu local do origem…ou pior ainda. Esta situação insustentável é a base da falta de qualidade do futebol português. O domínio de um FC Porto medíocre, a impotência de um Sporting, sem capacidade financeira para dar um empurrão ao saudável politica assente nas camadas jovens, e os constantes devaneios da direcção benfiquista, que cada ano começa da estaca zero um novo projecto que não chega a lugar nenhum, são o próprio mecanismo de bloqueio do futebol português. O poder financeiro permite-lhes “roubar” qualquer jogador que destaque num clube inferior, viciando imediatamente as regras do jogo. Nem que seja para o fazer rodar anos a fim, até acabar por dispensa-lo. São tantos os casos que nem vale a pena especificar.
Por outro lado não existe uma autêntica classe média no futebol português. Todos jogam, a principio do ano, para não descer, e depois, logo se vê. Mesmo clubes com atitude mais virada para a afirmação definitiva (SC Braga, Nacional da Madeira, Vitória de Guimarães, Marítimo) são uma incógnita a cada início de temporada. O vai e vem de jogadores, a constante importação de desconhecidos sem provas dadas e o desaproveitamento do talento nacional, provoca essa constante incerteza. A prova dada está nas competições europeias onde, salvo o SC Braga deste ano, todas as equipas que representam Portugal acabam, inevitavelmente, por ser eliminadas por conjuntos claramente inferiores em historial e potencial, mas com outra atitude.
A Madeira assume-se uma vez mais como um caso claro de gestão desportiva de sucesso. Dois clubes a competir pelas competições europeias num espaço tão pequeno, é um feito. O Nacional destaca-se pela capacidade em encontrar pérolas desconhecidas, mas mesmo assim ainda contrata demasiado para o lucro final que tem. O Marítimo tem os seus altos e baixos, mas consegue manter-se a um nível elevado graças a um forte espírito competitivo, presente desde os anos 90. O Minho é o outro pólo de resistência com o SC Braga e Vitória de Guimarães a tentar assumir-se como alternativa aos grandes. A boa época dos vimaranenses na época transacta deixou boas sensações. É afinal um clube com uma enorme massa associativa mas que acaba de vir da II Liga. A venda de alguns dos jogadores chaves foi chave para a enorme perda de competitividade. Quanto ao SC Braga verificou-se a situação inversa. Contratou bem, manteve a estrutura e está na luta pela UEFA. Com a potencial venda de alguns dos seus craques, suspeita-se de que o cenário para o próximo ano não seja o melhor.
Fora esta realidade (FC Porto, Benfica e Sporting, Marítimo-Nacional e Braga-Vitória), o futebol português não existe. É uma constante luta a contra-relogio para sobreviver, para não cair no poço. Uma luta que envolve históricos (Belenenses, Vitória Setúbal, Académica, Leixões) e projectos que assentam nessa filosofia geográfica que premeia clubes com capacidade de arrancar sustento para sobreviver (Paços Ferreira, Naval 1 Maio, Estrela Amadora, Rio Ave e Trofense). Sempre que um destes clubes baixa, sobe outro exactamente com as mesmas características, independentemente da localização geográfica. O que hoje é o Trofense e o Estrela, ontem foi o Alverca e Moreirense. Mudam os nomes, ficam os vícios.
O futebol português é portanto um futebol viciado. Não precisamos de baixar ao submundo das arbitragens. Basta avaliar as gestões desportivas das instituições, a fraca ambição dos clubes e a baixíssima qualidade apresentada em cada desafio. É portanto um futuro negro aquele que espera o futebol nacional que para recuperar a aura de grandeza de um passado cada vez mais distante, mais do que pensar na questão económica tem de se concentrar numa clara mudança de mentalidade. Como o resto do país entenda-se!
Sábado, 02.05.09
Desde os anos dourados dos clubes da margem sul até á ascensão e queda dos clubes do vale do Ave e Sousa, o futebol português viveu uma constante mutação geográfica. Que FC Porto, SL Benfica e Sporting tenham sido os únicos clubes a participar em todas as edições dos campeonatos de futebol é a prova viva de que, apesar da chamada ditadura dos grandes, houve constante evolução no que diz respeito aos palcos do futebol nacional. E como pudemos ver, essa evolução é resultado também das mutações socio-económicas que viveu Portugal. Dos anos dourados dos estaleiros de Almada e da Margem Sul, donde saíram craques como Chalana ou Futre até ao aparecimento dos pequenos clubes da zona Norte passaram quase vinte anos. E rapidamente tudo voltou a mudar com a queda abrupta do país numa forte crise económica que afectou essencialmente esses tecidos urbanos, hoje a viver em forte degradação social e económica e sem soluções à vista. Instituições históricas fecharam as portas e clubes miticos militam nas mais obscuras divisões.
O futebol português do presente é, efectivamente, o espelho deste nosso país.
Projectos-piloto, baseados no investimento deste ou daquele nome, resultaram em progressivos falhanços. O Campomaiorense da familia Nabeiro, que durante alguns anos logrou trazer de novo a festa do futebol ao Alentejo, terminou abruptamente. Quase todas as capitais de distrito vivem hoje sem um clube nas principais divisões do futebol nacional. Basta fazer as contas. Que dizer do destino actual de clubes como o Vianense, Chaves, Académico de Viseu, Vila Real, Lusitano de Evora. Farense, Benfica de Castelo Branco ou Sporting da Covilhã?
O Portugal interior desapareceu da vida social do país e também do futebol. Os campeonatos da II e III Divisões sobrevivem com clubes com uma forte base de apoio local, mas incapazes de conseguir captivar patrocinios de forma a preparar uma subida de divisão bem orquestrada. Duas excepções: o Olhanense, que sob o comando de Jorge Costa se prepara para devolver o futebol de primeira ao Algarve num projecto pensado com rigor e o Santa Clara, que pode fazer o mesmo com os Açores, depois de já ter passado uma temporada na I Divisão. Casos raros num meio onde povoam clubes a quem lhes parece faltar sempre algo e que, quando chegam ao escalão maior, notam enormemente a diferença competitiva.
O fenómeno presente do futebol português é hoje e uma vez mais, espelho do país que temos. Um país de suburbios com toda a acção centrada de novo em Lisboa, cada vez mais macrocéfala e com um Porto a tentar resistir, pelo menos a nivel desportivoica. Só assim se explica que clubes como o Estoril e Alverca, há uns anos, e Estrela da Amadora, na grande Lisboa, e Trofense, Rio Ave e Varzim no grande Porto, tenham sido e sejam hoje presença regular no campeonato principal. Se o Porto vive o seu próprio drama - reflexo igualmente da pobreza moral e humana que vive a massa social da cidade e de que aqui falamos em detalhe - é importante analisar também que a maioria dos projectos pensados para a I Divisão da zona Norte falharam por completo. Gondomar, Maia, Moreirense, Felgueiras ou esse clube de Vila Nova de Gaia que nunca chegou a aparecer realmente (Dragões Sandinenses e Vilanovense foram os que mais sonharam) foram projectos-piloto com o objectivo de tornar o Grande Porto no mesmo que foi Lisboa nos anos 50 e 60. Sem sucesso, hoje a cidade vive do seu campeão e do surpreendente Leixões. O Minho perdeu quase todos os seus participantes - o Gil Vicente ainda luta honradamente na Liga Vitalis, mas os restantes clubes desapareceram do mapa - e o mesmo passou com a margem Sul, onde só o Vitoria de Setubal vai sobrevivendo, a custo.
Estamos portanto num Portugal onde os principais eixos do nosso futebol passado - Lisboa, Porto, Margem Sul de Lisboa e Minho-Ave - estão em grave crise.
Salvo os grandes clubes e um ou outro caso excepcional de hábil gestão, o futebol nacional vive espalhado em pequenas entidades, sem ambições e capacidades de potencializar todo o seu poder de influência na sua zona geográfica.
A Naval 1 de Maio é um caso claro. Estádio constantemente vazio, equipa de nivel médio baixo mas uma enorme capacidade de sobrevivência. É um clube de uma cidade que cresceu muito nos últimos anos mas que carece da base de apoio social que garante a subsistência a longo prazo e que permite, por exemplo, que à Academica de Coimbra não lhe passe o mesmo que acontece com União de Leiria - que apesar das infra-estruturas foi sempre um dos clubes com menos massa associativa da primeira divisão - e Beira-Mar. Dois clubes com estádios feitos a pensar no Euro 2004 mas que vivem entre dividas, má gestão desportiva e económica e sem capacidade de mobilizar a sua zona de influência. O sucesso de Trofense, Estrela da Amadora e afins não deriva dos apoiantes locais, a maioria deles sócios de clubes grandes, mas sim da capacidade económica que possuem hoje em dia os suburbios e que fazem com que sejam projectos mais rentáveis que os desaparecidos Tirsense, Famalicao, Montijo ou Alverca.
A Madeira afirma-se portanto como esse oásis, muito graças a um forte apoio do Governo Regional, hábil em perceber a importância do futebol num país de ilusões. Ao contrário dos Açores, que salvo a dinâmica do Santa Clara, nunca existiu verdadeiramente no nosso futebol, na Madeira há um longo historial e o sucesso europeu de Maritimo e Nacional é reflexo de politicas de vários anos. Sem essa ajuda - como acontece com o União da Madeira - seriam provavelmente clubes de segunda linha, até porque a base de apoio local é restricta. Mas é essa capacidade que lhes permite lutar por postos altos na classificação, por cima de clubes que, pela sua história e localização, deviam ambicionar a mais. O Minho que sobrevive com este Braga europeu e o Vitória em regeneração afunda-se cada vez mais e o vale do Ave e Sousa subsiste graças ao poder financeiro da capital do móvel (Paços de Ferreira) e da zona costeira (Rio Ave), mas sempre com a corda na garganta.
Resta olhar para as zonas desaparecidas. Hoje Portugal parece não querer existir para lá da A1.
Esse eixo rodoviário é também o eixo da economia e da sociedade portuguesa. O futebol teria certamente poder para alterar a situação mas tal como aconteceu em Inglaterra com o desaparecimento dos colossos históricos do norte industrial (Nottingham Forrest, Leeds Utd, Sheffield Wednesday) ou com as desérticas capitais de provincia espanholas (Burgos, Santiago, Real Sociedad, Oviedo, Salamanca ou Albacete) a sociedade e a economia de cada Estado dita, hoje, mais do que nunca, a presença na alta roda do futebol profissional. Não surpreende portanto que entre os grandes da Champions League joguem equipas de três das maiores cidades europeias. Hoje estamos limitados por essa mentalidade e postura, face à correlação de forças que coordena o nosso país...e amanhã, que passará?
Continua...
Sexta-feira, 01.05.09
Portugal ameaça tornar-se claramente numa ave rara no espectro do futebol europeu. Obviamente, não pelos melhores motivos. Há muito tempo que deixamos de ter verdadeiro motivo de orgulho do nosso futebol. As constantes suspeita de corrupção, as subidas e descidas administrativas, as sanções, os arquivamentos e toda a burocracia que mina o que se faz dentro das quatro linhas conseguiu destruir a pouca credibilidade que ainda tínhamos lá fora. Para dentro de portas as guerras entre clubes tapam a poeira e a falta de ideias e projectos capazes de fazer do nosso futebol algo respeitado no meio europeu.
Talvez a situação mais preocupante deste actual futebol português, a que mais choca aos olhos daqueles que ainda vem o futebol como algo sério, é a questão dos patrocínios. Os patrocínios aos chamados três grandes, para ser mais concreto.
É absolutamente impensável imaginar que o Real Madrid e Barcelona, ou Inter, AC Milan e Juventus para não falar dos grandes de Inglaterra, arranquem para o inicio de uma temporada desportiva exibindo o mesmo patrocínio nas camisolas. É mais, uma empresa aposta num clube quando o subvenciona e aposta forte, faz do seu projecto seu. Apostar nos únicos três reais candidatos (ou dois, ou quatro) a vencer o principal troféu é, já de si, sinal da falta de qualidade dessa própria competição. Porque, e deixemos as coisas bem claras, um cenário que não existe, nem sequer no terceiro mundo. Procurem vídeos no You Tube de jogos na Roménia, Bulgária, Chipre ou Israel e encontrem equipas com o mesmo patrocínio nas camisolas. Só por cá era possível viver-se uma situação de tamanha cumplicidade entre uma que outra instituição económica e as maiores instituições desportivas.
O patrocínio em Portugal chegou no final dos anos 70 princípios dos 80 com a Revigrés nas camisolas do FC Porto. Uma novidade que fez escola. O clube portuense manteve o seu patrocínio até ao seu período de glória europeia, tendo mesmo disputado uma época com um patrocinador (PT) para as provas nacionais e outro (Revigrés) nos jogos europeus. Acabou-se a nostalgia e ficou o (pouco) dinheiro de um nome com mais impacto a nível nacional. Os restantes grandes cedo copiaram o modelo azul e branco e tarde ou cedo chegamos aos patrocínios nas camisolas, nas costas, nos calções, nas meias, nas bancadas…o naming ainda é relativamente uma novidade, mas lá chegaremos a larga escala. Até aí, nada a dizer. Os clubes precisam de se sustentar economicamente e não há clube grande europeu que não tenha um importante contrato publicitário. Mas o que se passa em Portugal roça a vergonha pura e a impunidade moral e a falta de contestação das próprias massas adeptas é igualmente espelho deste povo para o qual nada nunca está verdadeiramente mal.
Imaginemos que amanha o Real Madrid sai ao campo com o mesmo patrocínio que o seu grande rival. O coro de assobios no Bernabeu seria de tal forma ensurdecedor que a direcção rapidamente teria de tomar uma decisão. Mas nunca o precisarão de fazer, porque quando existe uma cultura desportiva de competitividade, procura-se sempre elementos diferenciais. Por algum motivo os clubes tem as suas cores, o seu estádio, o seu bom nome a defender. No momento em que um patrocínio entra na camisola de um clube, passa a fazer para dessa mística, mesmo que só lá esteja para pagar os cheques no fim de cada mês. O que se passa actualmente com a TMN a dar cor ás camisolas dos três grandes é sintomático do país que temos. Em primeiro lugar da falta de iniciativa de empresas para apostar numa das poucas plataformas rentáveis que ainda tem Portugal: o futebol. Em segundo, a falta de moralidade e espírito de competitividade das próprias instituições, que se perdem nesta uniformização estética e moral. E claro, das próprias instituições que deviam ser as primeiras a estar atentas a este monopólio como o que tem a PT e o BES no futebol nacional.

A saída do banco do mundo dos patrocinios abriu uma porta para combater esta situação. Na passada semana o Sporting antecipou-se e anunciou um novo patrocinio com a Unicer - detentora das marcas SuperBock e Vitalis, que, curiosamente, já patrocina a II Liga (o que é, também um caso vergonhoso de promiscuidade empresarial com instituições desportivas) para a parte de trºas das camisolas e para os equipamentos das diferentes secções. Esta semana foi o FC Porto a seguir-lhe os passos. Mais uma vez, no próximo ano, num jogo de andebol FC Porto-Sporting, ambas as equipas jogarão com a marca Vitalis no peito. E o nome de Bruno Alves e de João Moutinho será acompanhado, centimetros acima, pela designação "SuperBock".
Imaginem agora isso suceder com Del Piero, Ibrahimovic ou Kaká. Não conseguem pois não? Isto é o futebol português. E não é preciso dizer mais nada...
O futebol é o fenómeno de massas por excelência do século XX e já neste século confirmou todo o seu potencial económico-social.
Hoje em dia os jogos disputados entre as selecções são o equivalente ás guerras nacionalistas do passado. As rivalidades antigas, abafadas nos corredores de Bruxelas, Washington, Brasilia ou Teerão, ganham forma quando as equipas entram em campo. Os duelos Brasil-Argentina, França-Inglaterra, Holanda-Alemanha e claro, Portugal-Espanha são acima de tudo o reflexo do vivido no passado noutras arenas, bem mais sangrentas. Dentro dos países sucede o mesmo, com os torneios de futebol (que nome tão acertado) a reflectirem essas rivalidades históricas, regionais, locais...o Homem igual a si próprio portanto.
No território nacional o futebol sempre foi - desde a sua implementação - o desporto mais popular por excelência. Já antes dos celebres 3 F´s (Fado, Futebol e Fátima), o desporto-rei tinha conquistado o povo e a alta burguesia, espalhando-se rapidamente pelos quatro cantos do país, ilhas e provincias ultramarinas (ou império colonial, fica ao gosto do freguês). E se está claro que os grandes centro urbanos foram, desde sempre, os grandes dinamizadores do futebol português, a verdade é que a geografia do nosso futebol mudou muito desde as suas origens até ao dia de hoje. Mudanças que reflectem a evolução social do país e que também servem para deixar a nu as carências de uma nação sem rumo e sem orgulho próprio.
Lisboa, já se sabe, sempre foi - ou quis ser - o centro de tudo. O futebol não foi nenhuma excepção. E se a formação dos seus três emblemas máximos - SL Benfica, Sporting e Belenenses - até foi um processo tardio, em comparação com outros clubes do país, a verdade é que o futebol teve aí uma rápida penetração. Desde o principio dos campeonatos até hoje, Lisboa teve sempre a sua presença fortemente assegurada. Por sua vez o Porto viveu altos e baixos, resultado da afirmação da própria Invicta. O FC Porto sempre foi o baluarte da cidade, mesmo nos tempos de vacas magras, mas o surgimento de uma forte segunda linha tardou em confirmar-se, acontecendo precisamente quando a cidade começava a emergir, cada vez mais, como o eixo productivo do país.
Se em retrospectiva analisar-mos os periodos chave do futebol português podemos também perceber as mutações da sua geografia.
Desde o periodo do pós-II Guerra Mundial e até à Revolução de Abril, o eixo geográfico do futebol nacional estava localizado em Lisboa. As boas relações dos clubes da capital com as suas filiais de além-mar permitiam-lhes sempre captar os jogadores que mais depressa despontavam (Peyroteo, Vicente, Matateu, José Aguas, Coluna, Eusebio são apenas exemplos mediáticos de uma prática comum). Não espanta, portanto, o dominio avassalador dos três clubes da capital nesse periodo. De igual forma, a forte concentração populacional na margem sul permitia a afirmação de pequenos clubes locais que se transformaram em viveiros de craques. A CUF, Barreirense, Montijo, Seixal, Vitória de Setubal - e na zona norte o Oriental e o Atlético - eram presenças mais ou menos regulares no campeonato nacional, fazendo com que a maioria dos desafios fossem disputados na área da grande Lisboa. Por esses dias as ilhas eram um ausente constante e o Algarve tinha, aqui e ali, um representante (o Olhanense) enquanto que o Alentejo vivia da rivalidade dos dois clubes de Évora, o Juventude e o Lusitâno. A zona centro - onde se concentrava muita da indústria da época - era igualmente outro eixo de forte dinamismo, do Marinhense à Sanjoanense, do Beira-Mar ao Torreense sem esquecer a mitica Académica de Coimbra. No interior havia a presença mais ou menos certa do Académico de Viseu, Benfica de Castelo Branco ou Sporting da Covilhã. A zona Norte não tinha, nem de longe, o peso de hoje. Da Invicta apenas o FC Porto era presença regular, com Leixões, Boavista e Salgueiros ocasionalmente promovidos á I Divisão. O Minho vivia das lutas entre Braga, Guimarães e Vianense enquanto que o Chaves e Vila Real disputavam a primazia da zona transmontana. É importante ressalvar que então, até bastante tarde, os participantes no campeonato passavam antes por uma poule distrital que garantia essa homogeneidade na liga nacional.
Com a revolução de Abril a geografia de Portugal e do nosso futebol mudou por completo. Lisboa perdeu o eixo de influência que detinha e as nacionalizações e sucessivos encerramentos de muitas das empresas da grande Lisboa provocou o desaparecimento de históricos clubes. A CUF tornou-se primeiro em Quimigal antes de acabar, o Atlético, Barreirense e Montijo aguentaram alguns anos, antes de cair nas distritais.
Surgiu então um novo fenómeno: o Norte têxtil.
O eixo da produção economica tinha-se transferido para o império têxtil que na zona do vale do Ave, Vouga e Sousa começava a ganhar força. Os anos 80 e principios dos anos 90 foram os de clubes como o Famalicão, Tirsense, Penafiel ou Gil Vicente, a par da afirmação do Rio Ave, Varzim e consolidação definitiva do Vitória de Guimarães. O Porto superava Lisboa em clubes, com o FC Porto, Boavista e Salgueiros como habituais, e Leixões e Espinho como convidados surpresa. Um periodo que dividiu claramente o futebol nacional em Norte e Sul.
O Algarve recuperou protagonismo (é a era dourado do Farense e Portimonense) mas o Alentejo e as Beiras desapareceram do mapa. De Trás os Montes ficou apenas o Desportivo de Chaves enquanto que a zona centro foi igualmente afectada na sua parte sul (fim do Torreense e Marinhense na alta roda, e ganhou na zona norte: Beira-Mar, Oliveirense, Feirense). Outro fenómeno foi a progressiva afirmação do futebol madeirense: Maritimo e União da Madeira primeiro, e logo o Nacional, subiram à alta roda.
Estavamos a desenhar um novo país onde as diferenças sociais se acentuavam de ano para ano. A desertificação do interior encontrava eco no nosso futebol e o final das colónias potenciava o aparecimento de um novo tipo de jogador, menos atlético e mais fino no trato de bola. Estavam aí também as bases da geração de ouro de 89 e 91 e da afirmação definitiva do FC Porto como potência número um, em troca com o consulado Benfica-Sporting, os grandes prejudicados por esta metamorfose.
Continua...
Quinta-feira, 30.04.09
Sempre considerei que as segundas divisões são mais interessantes e competitivas do que as primeiras. Para começar, aqui não há papões. Não há grandes. Os melhores são promovidos e os que descem não são favoritos. Tem de se juntar ao grupo e mostrar o seu valor. Quem vem debaixo trás garra e quem cai ao poço quer voltar. Isso passa com qualquer campeonato. Aqui não se joga para o título, para a Europa ou a feijões. É matar ou morrer. Subir ou descer. Ficar um ano mais por aí não interessa a ninguém.
Este espírito rebelde faz com que a incerteza seja sempre mais clara do que em qualquer outra divisão. Mais abaixo o desnível é maior, mais acima já começamos a viciar o espírito do jogo. A Championship em Inglaterra é capaz de produzir jogos de antologia. A Série B do Cálcio já provocou campanhas únicas de equipas que deslumbravam pelo seu futebol. E se seguimos vamo-nos perder por aí. E Portugal, que se passa com a nossa segunda vaga?
Desde que a Liga decidiu acabar com essa ideia de subir directamente os clubes da II B à primeira divisão, um por cada região do país, começou a notar-se que algo de errado passava no futebol nacional. Aquela que já foi conhecida por vários nomes (II Divisão, Liga de Honra, Liga Vitalis, etc…) foi criada para servir como filtro, entre o fraco futebol praticado nos campeonatos regionais (Norte-Centro-Sul) e as equipas de primeiro nível. Seria uma espécie de divisão de transição. Uma queda mais suave para quem descia, um período de adaptação mais cómodo para quem subia e para os outros, um ponto intermédio. A ideia, em si, tinha as suas virtudes. Seguia o exemplo das grandes ligas europeias e vinha acompanhado de mudanças estruturais a nível dos campeonatos nacionais e regionais. Mas como sempre, de boas intenções, está o inferno cheio. Longe de subir o nível qualitativo do futebol nacional, a II Liga reduziu-o drasticamente. Passou a ser uma prova onde equipas vagueavam ano após ano, sem nunca lutar verdadeiramente pela subida de divisão, mas mantendo os míseros tostões atribuídos pelo organizador, a Liga.
Criou-se o vício da subida e descida de várias equipas, que ao baixar de divisão encontravam um nível de tal forma baixo, que pouco lhes custava dar de novo o salto à primeira. Para corrigir esse grave défice qualitativo – e porque essa podridão já se tinha instalado também há muito na I Divisão, particularmente a partir do ano 2000 com o aparecimento das SAD, a chegada em massa de brasileiros de quarto nível e da fuga dos melhores talentos nacionais, fruto da aplicação da lei Bosman – decidiu cortar-se o mal pela raiz. Menos duas equipas na I equivalem a menos quatro em total nas chamadas competições profissionais. Mais uma vez a intenção era boa (a própria FIFA há anos que anda a pedir campeonatos de 14 ou 16 equipas como máximo) e mais uma vez falhou por completo. A medida não subiu a qualidade das equipas e dos projectos, limitou-se a retirar financiamento a quatro clubes que antes dele beneficiavam. A falta de coordenação a nível organizativo, o poder das transmissões televisivas, mal negociadas, transmitidas fora de horas e os estádios vazios como consequência dos preços exorbitados e da fraca qualidade de jogo, esvaziaram por completo o futebol nacional. E mais, a desorganização total do futebol amador, nas mãos de uma Federação mais preocupada com projectos megalómanos (Europeu, Mundial, campanhas da selecção) do que propriamente em por ordem na casa, fizeram o resto. Hoje uma equipa como o Gondomar ou a Oliveirense, que lutam para sobreviver na II Liga, nunca poderia aguentar na I Divisão. O fosso é demasiado grande.

Hermínio Loureiro, que desde que se tornou presidente da Liga já conseguiu fazer pior que aquilo que se acreditava ser possível, vem agora com uma nova decisão. Uma nova tábua de salvação. E, como suspeitamos, um novo flop. Em lugar de preocupar-se em fazer com que Liga funcione como uma verdadeira organização de todos os clubes – negociando directamente com patrocinadores, transmissões, logísticas, … - tenta tapar o sol com a peneira propondo uma nova remodelação da II Liga. Que não se deve começar a casa pelo telhado, isso já se sabe. Mas viver ao relento também não ajuda ninguém. O problema do futebol nacional é de base, e aí a culpa é da FPF. Mas a base do futebol profissional é a II Liga e a proposta da criação de duas divisões – cada qual com 10 clubes divididos, supostamente, em critérios geográficos – é dar um salto para trás de quase vinte anos. A ideia do apuramento posterior por play-off é de tal forma ridícula que só encontra paralelo na confusão gerada nas II e III Divisões com a divisão a meio da época, das zonas em duas pequenas ligas. Invenções que vendem jornais mas que não resolvem problemas. Que exista um play-off para promover equipas, isso não é novo – basta ver Inglaterra – mas voltar ás divisões regionais não resolve absolutamente nada. Essa situação vai, em primeiro lugar, provocar conflitos desnecessários sobre quem entra onde. E por outro manter projectos que, numa competição a 14 ou 16 não teriam lugar, apenas porque estão numa zona menos competitiva. Está claro que o peso da zona Norte hoje é superior na II Liga e esta alteração o que faria, inevitavelmente, seria falsear a qualidade da segunda linha do futebol português.
Quando uma equioa é promovida a um campeonato de um país bem organizado podem dar-se casos como os do Málaga - promovido em Espanha e com um pequeno projecto que hoje luta pela Champions League. Quando se tentam fazer as coisas sobre o joelho, apenas com o pretexto de mostrar serviço, o resultado pode ser desastroso. A imaginação começa a acabar-se e os dirigentes continuam sem perceber que para mudar algo é preciso muito mais do que uma reestruturação competitiva. É preciso mudar a própria noção de competição. Até aí chegaram, vamos sempre ter mais do mesmo!
Sábado, 25.04.09
O destino é a fatalidade da condição humana e persegue-nos a todos, qual sombra pegajosa. O de Virgilio Mendes encontrou-o ontem. Não sabemos se estava preparado ou se o apanhou de surpresa, como esses desarmes fora de horas que nos deixam estonteados com tamanha rapidez. Virgilio era um desses mitos que sabia o que encontrava, quando se encontrava no vestuário, antes de um grande desafio. Nessa altura chamavam-lhe desafios a esses encontros repletos de emoção e incerteza que faziam parte desse nosso futebol dos anos 40 e 50.

Durante toda a vida Virgilio foi dragão. Na época, ainda se vivia o fantasma dos andrades, mas o poderoso jogador do FC Porto não temia a vivos e mortos e em campo impunha a ordem numa equipa que teimava em encontrar-se. Fez parte dessa equipa que viveu o primeiro grande oásis e lançou as bases do único team campeão azul em muitos, muitos anos. Mas ficaria para a história como leão. Não de verde ao peito, mas de raça. Essa raça que marcaram a vida dos grandes defesas azuis e brancos. Foi em Génova, frente á toda poderosa Itália com as quinas ao peito. O resultado final aqui conta pouco (4-1 para os mais curiosos...a favor dos italianos, claro). Foi a exibição de Virgilio que enlouqueceu os italianos, mais predispostos que quaisquer outros a elogiar defesas talentosos. A imprensa portuguesa aproveitou a fama e catalogou-o como "Leão de Génova" para apagar a má imagem colectiva da derrota, mas a verdade é que de Itália e Espanha começaram a soar os temidos cantos da sereia. Mas Virgilio ficou. Tinha inaugurado o novo Estádio das Antas e estaria presente na celebre dobradinha de Yustrich e mais tarde nas vitórias com Guttman.
Mais do que o seu papel chave no FC Porto e na selecção nacional desses turbulentos anos 50, Virgilio foi sempre o espelho do jogador gentlemann que começava a desaparecer. Para muitos o melhor lateral direito de sempre a actuar em relvados nacionais, Virgilio tinha ao clube que o acolheu em 1947 essa devoção de outros tempos.Tornou-se na prata da casa e ganhou um lugar na história de um desporto que sempre viveu mais de mercenários do que de abnegados. Aqueles 8 contos ao mes que ganhava contra as 15 mil pesetas que lhe ofereceu o Celta de Vigo são, ainda hoje, uma lição de devoção num mundo cada vez mais pobre de valores.

Sexta-feira, 24.04.09
É quase paradoxal que a época mais dourada da história do Futebol Clube do Porto (que se vem arrastando há quase três décadas), tenha ocorrido ao mesmo tempo que vivemos praticamente o fim do futebol na cidade do Porto. Para lá dos dragões, está claro!
A Invicta sempre foi um dos pólos nucleares do futebol nacional. Nunca chegou a ter o impacto da capital, onde SL Benfica e Sporting disputaram, até meados dos anos 70, a primazia do futebol a nível nacional, mas a verdade é que a partir dessa mesma década tanto o Boavista como o Salgueiros se afirmaram como habitues dos principais palcos nacionais. Com Pedroto e Valentim Loureiro o Bessa tornou-se num forte quase inexpugnável enquanto que a “Alma Salgueirista”, alimentada pelo lado mais popular da cidade, mantinha sempre o Salgueiros entre os grandes. Durante quase vinte anos o Porto conseguiu ombrear com Lisboa e a vitória do Boavista no campeonato nacional – numa era onde o FC Porto já era claramente o primeiro clube português dentro e fora de portas – confirmou esse afirmar definitivo do futebol portuense.
Mas hoje a Invicta é uma cidade fantasma para o futebol.
Envoltos em dividas, escandalos e gestões no mínimo condenáveis por presidentes com muitos anos de casa, Salgueiros, primeiro, e o Boavista agora, rapidamente começaram a sua particular descida aos infernos. Hoje o primeiro já nem existe, pelo menos competindo sobre essa designação. As dívidas e os escândalos forçaram o mítico “salgueiral” a competir nos escalões mais pequenos do futebol distrital com uma nova designação: Salgueiros 08. A equipa, amadora por completo, tenta agora recuperar uma imagem que pertence ao imaginário do futebol português. A sede, um degradante cubiculo onde se acumulam papeis, velhas camisolas usadas e galhardetes do passado, é o espelho desse vazio administrativo, dessa incapacidade de reagir e mostrar que há esperança para o futuro. A pensar assim, pelo menos, não há hoje esse sinal de ressuscitar, qual fénix, esse clube histórico. O velhinho Vidal Pinheiro já não existe. O megalómano estádio novo nunca chegou a ter sequer uma viga. E por aí passeia a “alma”, perdida nas ruas mais escondidas da capital do Norte.
Já o Boavista vive uma situação ainda mais dramática. Se o Salgueiros sempre conviveu bem com a sua condição de pequeno (apenas logrou uma presença na Taça UEFA, no longínquo ano de 90/91, eliminado à primeira pelo Caen de Zidane), já o Boavista habituou-se mais ás vitórias. Foi o primeiro campeão do novo século, chegou ás meias-finais da Taça UEFA em 2003 e deixou sempre boa figura nas prestações na Champions League. O Bessa, reconstruído de raiz, tornou-se num dos melhores estádios do país e as panteras eram já, claramente, o quarto grande. Até que chegou o Apito Dourado, as demissões apressadas, os buracos nas contas, a descida de divisão e agora o fantasma do fim. Que um clube que há dez anos quebrava um domínio de cinquenta anos dos três grandes esteja perto do final é sintomático da realidade do futebol português. Que o Porto esteja perto de perder mais um dos seus três clubes, é espelho da pobreza de espírito e de falta de iniciativa que paralizou a “capital do Norte”.
O Leixões – outro histórico –, o Rio Ave e o Trofense são clubes dos subúrbios, tal como o Penafiel ou Varzim, outros históricos com muitos anos de I Divisão. Mas o coração da cidade, sem sopro de sangue nas veias, subsiste agora, qual sanguessuga, do sucesso dos dragões. Sem isso hoje o Porto desaparecia do mapa do futebol, como teima em querer fazer o mesmo com quase todas as áreas da sociedade. Mais, a cidade e a sua gente merece algo mais do que um clube simbolo. Merece que ressurjam outros simbolos, defensores de sectores que não se vem representados no colosso azul e branco. O FC Porto é, hoje em dia, o maior clube portugues. Mas isso deveria ser pouco para os portuenses. O destino de Salgueiros e Boavista, no entanto, apenas demonstram resignação. Do futebol portuense e da Invicta. E esta para já continua aí, uma cidade fantasma!