A euforia programada começa a ganhar forma. Duas vitórias obrigatórias e sem glamour transformam-se em êxitos épicos, dignos de coroação à altura. O Portugal de Paulo Bento mudou muito pouco (ou quase nada) o Portugal de Carlos Queiroz. Mas os resultados e, acima de tudo, a pressão mediática, contribuem para uma lavagem de imagem. Num país onde continuam a existir sempre dois pesos e duas medidas, Portugal continua a sua caminhada, com mais sombras do que luzes, rumo a uma prova onde a sua presença é, ou devia ser, inevitável.

Dois triunfos por 3-1 com duas exibições bem diferentes, nunca a passar da mediania, são suficientes. O país já tem o seu salvador da pátria. Todos podem dormir descansados, sem motivos para preocupações. Exageradamente, como tudo neste país, multiplicam-se as declarações de personalidades que secundam a nomeação de Paulo Bento e elogiam a sua gestão nestes dois primeiros jogos quando o próprio e os seus jogadores admitiram que o seleccionador pouco teve a ver com os dois triunfos frente aos rivais nórdicos. Como seria de esperar, com quinze dias de cargo, Paulo Bento tem tanto a ver com as vitórias lusas como Queiroz teve com as derrotas nos jogos em que a equipa foi orientada por Agostinho Oliveira. O ex-seleccionador pagou do seu bolso a sua viagem à Noruega e foi proibido pela própria FPF de comunicar-se com o banco. A mesma FPF que deveria estar interessada, acima das quezilias pessoas, no sucesso da equipa das Quinas e que agora está à morte com o novo técnico. De tal forma que Gilberto Madaíl está pondera recandidatar-se a um cargo que, há um mês atrás, com o espectro da eliminação bem presente, fez questão de anunciar que não lhe interessava. Dois pesos, duas medidas sem dúvida.
Portugal jogou contra a Dinamarca e contra a Islândia com diferenças minimas com base à equipa orientada por Agostinho Oliveira.
João Pereira rendeu Miguel e Silvio, as duas opções nos primeiros jogos, e fez duas exibições sem encher o olho, não comprometendo mas também não entusiasmando. Um posto que deverá pertencer a Bosingwa, quando recuperado, e que foi uma peça nuclear (pela sua ausência) durante todo o 2010, Mundial incluido. Pepe recuou para central e mostrou-se uns furos acima do que Ricardo Carvalho, desastroso nos dois encontros. Como Eduardo, a anos-luz da imagem que deixou no Mundial. No meio-campo surgiu João Moutinho, peça nuclear no FC Porto de Villas-Boas e com uma forma fisica e mental que não tinha em Junho passado. Carlos Martins completou o triângulo com Raul Meireles numa escolha feita para ganhar a galeria. O médio do Benfica é, à largos anos, um jogador sem estatuto de selecção. Suplente habitual no clube encarnado, ganhou protagonismo com os problemas fisicos de Aimar e pelo simples facto de ser dos poucos atletas portugueses do campeão nacional. Paulo Bento, o homem que o dispensou no Sporting por entender (e bem) que Carlos Martins rende menos do que deve, quis mostrar que é o seleccionador de todos. Entregou o posto a um jogador transparente que durante 180 minutos foi um holograma. Nada de novo portanto. Foi em Nani e Cristiano Ronaldo que se viram as principais diferenças com respeito aos dois primeiros jogos. Se Hugo Almeida continua a ser a prova viva de que Portugal e o golo é um casamento conflictivo, os dois extremos exibiram-se uns furos bem acima do habitual. Nani matou o jogo com a Dinamarca. Ronaldo ajudou a resolver o duelo na Islândia. Determinantes como se lhes pede sempre. E que só agora, finalmente, cumprem. Em dois jogos cuja a vitória era, independentemente do seleccionador, o objectivo minimo. E que, mesmo assim, foram conseguidas depois de muito sofrimento. No Dragão foi preciso dois erros infantis da defesa dinamarquesa (que até foi a pior equipa europeia do último Mundial, para quem se esqueceu já). Na Islândia, uma selecção que alinhou sem seis titulares que foram ajudar os sub-21 a estrearem-se no Europeu da categoria, sofreu-se e muito. Depois do golo e da pressão dos nórdicos, acabou por ser Raul Meireles a disparar contra a crise, tal como na Bósnia há um ano atrás. Quem ainda se lembra? Bolas que entram e bolas que saem, no fim está aí a diferença. A qualidade de jogo continua a ser a mesma, demasiado mediocre para uma selecção de alto nível.

No entanto a fálacia está aí e quem quer agarra-a como pode. Queiroz perdeu, logo não serve (mesmo tendo estado afastado dos dois polémicos jogos inaugurais pela própria FPF). Bento ganhou, logicamente é o maior. Mesmo que jogue igual, conte exactamente com os mesmos jogadores e continue a deixar em evidência os problemas estruturais da selecção. Os dois anos de vacas magras do mandato de Queiroz saldaram-se com um Mundial em que Portugal foi nono e uma série de ameaças à estrutura dirigente do futebol português que despoletaram a execução sem piedade do técnico. Neste conto da carochinha, enterrado pela imprensa e pelos opinion-makers, Queiroz será sempre o lobo mau do futebol luso, odiado por dirigentes, jogadores, jornalistas, bloggers e adeptos. Paulo Bento é o novo caçador, o homem que "empolga a nação" a altos voos com jogos mediocres e vitórias sofriveis e de serviços minimos. Portugal continua igual, a precisar de vencer todos os jogos. Continua sem criativo, sem ponta-de-lança e com muitas dúvidas lá atrás. Os mesmos problemas, os mesmos resultados, dois técnicos diferentes. Dois pesos, duas medidas. Até Junho tudo seguirá igual. São assim os contos infantis por cá...
Num país dominado pela macrocefalia da capital é dificil encontrar pólos urbanos dispostos a exercer de alternativa. A progressiva decadência da cidade do Porto permitiu a emergência do burgo do lado esquerdo do Douro. Mas no aspecto desportivo, apesar de ter todas as condições, Vila Nova de Gaia continua a ser um deserto. A cidade vive desfigurada por dezenas de pequenas instituições enquanto procura o seu particular porta-estandarte.

Não é por acaso que o centro de estágio do FC Porto se encontro em Gaia. Nem que algumas das maiores legiões de admiradores dos dragões vivam do outro lado do rio. O dinamismo social da cidade gaiense é um dos grandes fenómenos urbanos do Portugal pós-1986. O crescimento da urbe, hoje já a terceira maior do país em população, foi acompanhada de um novo pulso social, que tanto abriu espaço ao urbanismo como ao consumismo, ao turismo ribeirinho, ao desenvolvimento da maior costa lusa de bandeiras azuis e, também, a parques empresariais de primeira ordem. No meio de toda esta politica concertada de crescimento também o desporto encontrou o seu lugar. Nos últimos 10 anos foram várias as infra-estruturas de bom nível que foram nascendo nos quatro pontos do concelho. E no entanto, desportivamente, a cidade continua a ter um papel inexpressivo, incompatível com a sua nova posição social no país. Gaia assume-se cada vez menos como uma cidade-dormitório do Porto e mais como um pólo de crescimento alternativo da zona Norte. Mas para tal ganhar forma, é necessário criar vários simbolos locais, porta-estandartes da urbe, capazes de competir com o nome Porto e tudo a que ele vem associado, do vinho que até descansa na margem gaiense ao clube que tem dominado o futebol português (e não só) dos últimos 30 anos.
Nesse aspecto Vila Nova de Gaia é hoje o que sempre foi. Uma cidade sem vida desportiva para lá da sombra do FC Porto que agora reina só na Invicta, depois de ter perdido a concorrência de Salgueiros e Boavista. Essa macrocefalia desportiva dos azuis e brancos num espaço urbano de mais de um milhão de pessoas. Um cenário que deverá mudar, caso a urbe queira assumir o seu papel.
Gaia é uma soma de pequenos retalhos, ainda dispersos pelos bairros e freguesias que dão cor à aguarela urbana gaiense. Clubes, muitas vezes, sem relações entre si, a não ser antigas rivalidades que não desaparecem mesmo quando embates são, cada vez mais, apenas a nivel local. Que uma cidade da dimensão de Gaia não tenha nenhuma equipa entre as 32 que participam nos campeonatos profissionais, é algo a reter. Que nunca tenha tido, é um sinal de que este fenómeno é antigo e de dificil solução.
A ideia promovida, há vários anos, pelo Governo Regional da Madeira, de unir os três principais clubes do Funchal (Maritimo, Nacional e União) esbarrou com a vontade popular e a administração dos três clubes. Mas a Madeira conta com dois desses conjuntos na prova rainha do futebol português há vários anos e é uma força desportiva por excelência. Em Gaia os muitos clubes que existem são inexpressivos, tanto na sua base de apoio popular, como no seu historial. Uma união séria e concertada entre muitos desses clubes de bairro poderia ser o primeiro passo para a criação desse porta-estandarte. Um cenário que nunca ganhou forma a não ser nos sonhos de pouco.
Entre os conjuntos gaienses o mais popular será provávelmente o Vilanovense Futebol Clube.
Fundado em 1914, o quase centenário clube, foi o que mais perto esteve por várias vezes de ascender aos escalões profissionais. Sem nunca o lograr. Os seus imensos problemas financeiros levaram o clube a acabar com a equipa sénior e recomeçar do zero, na 1 Divisão Distrital do Porto, depois de se ter apresentado este ano a apenas dois jogos. Desportivamente o conjunto viu-se superado na última década por um modesto clube de Sandim, o Dragões Sandinenses. Fundado numa das freguesias rurais do concelho, com o Douro à vista, o clube é naturalmente por nome facilmente associado ao FC Porto. Também ele, depois de vários anos na 2 Divisão B, está agora condenado a disputar o campeonato distrital portuense. No centro histórico sobrevive o Coimbrões, pequeno clube local que tem sobrevivido à razia dos clubes cêntricos, tendo garantido a promoção à II Divisão.

Entre as restantes freguesias há várias instituições de forte implantação local mas sem expressão desportiva histórica. Do Valadares ao Avintes, do GD Candal (que durante vários anos teve uma forte ligação com o Boavista) ao SC Canidelo, passando por Arcozelo, AD Grijó, São Félix da Marinha, CF Serzedo, Gulpilhares FC, todos eles a militar nas provas da AFP, são vários os nomes mas poucos os triunfos. Para que se tenha uma ideia, o clube desportivo com mais sucesso da zona vive na fronteira com o concelho. O Sporting de Espinho foi, durante alguns anos, equipa de 1 Divisão. Mas a localidade, já do distrito de Aveiro, sofreu também na pele a crise económica que destroçou os pequenos clubes portugueses a partir de meados dos anos 90. E hoje milita na II Divisão
Face a este pobre cenário, é legitimo pensar que dificilmente Gaia alguma vez terá expressão no panorama desportivo português. E no entanto todas as condições estão reunidas para que a situação se inverta. Seguindo o exemplo de algumas cidades europeias, até há bem pouco tempo igualmente inexpressivas no panorama desportivo, a aposta nas infra-estruturas e na formação juvenil pode ser o pontapé de saída para uma maior profissionalização das instituições. Não é natural, nem sadio, que coexistam tantos clubes num espaço tão pequeno. O processo natural, por muito largo que possa vir a ser, tenderá a reforçar um a dois pólos centrais com o natural desaparecimento ou empobrecimento dos restantes. Uma politica que poderia eventualmente receber o apoio camarário e que certamente daria as armas financeiras e estruturais para que um destes clubes emerja como o simbolo futebolistico do concelho nortenho. Se há vários anos essa posição poderia ter sido assumida pelo Vilanovense, clube cêntrico e mais antigo da zona, agora o mais provável é que esse pólo de decisão se centre na periferia do centro histórico gaiense.

Quando, a meados dos anos 90, o futebol português descantralizou-se para os subúrbios, permitindo a subida às primeiras divisões de clubes das cidades satélites de Porto, Coimbra e Lisboa, procedeu-se ao natural esvaziamento do futebol da zona interior. De todas essas urbes periféricas, apenas Vila Nova de Gaia se manteve longe da ribalta. Hoje o cenário é, aparentemente desolador, particularmente para uma cidade que quer ser o outro peso na balança da Área Metropolitana do Porto. A emergência de uma potência desportiva regional com âmbito nacional é, portanto, um elemento chave na própria afirmação do concelho. As condições estão reunidas. Será suficiente?
A lembrança ainda dos dias da outra senhora ecoam sob o designio de estádio "Nacional", nos terrenos erguidos no Jamor por um país que queria afirmar-se pelas obras públicas. Tal e qual como hoje. Mas se há anos que a selecção, essa sim, nacional, não põe lá os pés, que futuro tem um estádio reformado por fora mas destroçado nas suas entranhas. Receber um jogo ao ano é o justificante da sua quase não-existência. E o espelho de um país mais centralista do que nos dias em que o Jamor se enchia semana sim, semana também.

Na época passada o FC Porto e o Paços de Ferreira surgiram como finalistas da Taça de Portugal.
Ao contrário da Taça da Liga, ancorada ao igualmente vazio e sem sentido estádio do Algarve, a Taça de Portugal é uma prova organizada pela Federação Portuguesa de Futebol. E como tal, por representantes de todos os clubes e associações. Esperar-se-ia, portanto, alguma sensibilidade face a uma situação que, apesar de não ser inédita, teria de ser tratada de forma distinta. Duas equipas a norte do Douro, que coexistem num espaço de 50 kms, eram forçados a carregar armas e bagagens para mergulhar no betão e cimento da A1 rumo à capital do reino imperial. Houve pouca contestação, que nisto de fazer finca pé os portugueses têm muito ainda que aprender com o país vizinho, e o jogo lá se disputou com muitos lugares vazios nas bancadas. Ninguém se lembrou, por exemplo, que utilizar recintos como o estádio de Braga, Coimbra ou Aveiro, bem mais próximos da sede de cada equipa - e do seu nucleo de adeptos - teria feito mais sentido. Não, o regime exige que, uma vez ao ano, quem quer que seja - e aqui incluimos as ilhas, os transmontanos, os das beiras, os alentajanos, algarvios, minhotos e durienses - se desloque ao estádio "nacional". Um estádio onde nem a selecção treina, quanto mais joga. Um estádio onde nem a equipa nacional de rugby diz ter condições para trabalhar. Mas essa imagem da tribuna de pedra, com o presidente de Taça na mão, é estampa obrigatória no curto calendário desportivo luso. Podem-se mudar sedes de Supertaças, Taças da Liga e afins. Mas no Jamor ninguém toca.
Este ano, com a eterna cumplicidade das equipas do centro-sul-ilhas do país, a final lá se volta a disputar entre duas equipas lá bem do Norte.
O FC Porto, ferido no orgulho, volta a marcar presença para revalidar um trofeu que é cada vez mais seu. O Chaves chega com a tristeza da despromoção e o espectro do fim. É um clube modesto, de uma cidade pequena, que está mais perto do suspiro final do que da imensa vitalidade que significaria uma final que, em última analise, até lhes daria um posto europeu. Os flavienses mereceram chegar ao Jamor mas não sabem como lá ir. Auto-estradas não faltam, os sucessivos governos trataram disso. Mas as suas gentes poderão não suficiente, e ainda não há SCUTS, para pegar no lanche, almoço e jantar e partir rumo a Oeiras.
Sabendo que flavienses em Lisboa haverá bem poucos (portistas são cada vez mais segundo se consta) a FPF poderia ter tido o detalhe, importante em questões como estas, de dizer que o Jamor poderia descansar um pouco. Um ano, dois, para sempre...e realizar o encontro num estádio neutro, mas mais perto das duas formações. Das suas gentes. Da festa, que deveria significar, da taça. O Chaves protestou, voz baixa que sabe ser pequena. O Porto nem se imutou, habituado a pregar aos peixes. No final Madail e a sua prole foram inflexiveis. E lá a Brisa ganhará uns cobres, os cafés à volta do estádio "nacional", outros tantos, e as gasolineiras temem a invasão da horda bárbara do norte. Pelo menos os da capital podem passar a tarde alegremente a ver um "match", como antigamente, nos tempos em que o Jamor se enchia com os grandes duelos Belenenses-Benfica, Sporting-Benfica ou Belenenses-Sporting. Antes da febre do estádio e a paixão pelo cimento levassem o país a construir os seus coliseus de lés a lés.
Jamor, espelho de uma realidade fantasma, já ninguém te quer.
Um recinto velho, abandonado por dentro - por muito que as camaras continuem a focar as suas bancadas acinzentadas - e sem alma dentro. Um estádio sem vida, marcado apenas uma história que tem tanto de imposta como de meritória. Jamor, espelho da atitude autista de um centralismo enojante, verás um jogo murcho, com um público ausente e equipas que não te dizem respeito. Receberás a final, mas não a festa. A tua hora chegou à muito. Mas as cartas às vezes chegam tarde. Algum dia receberás a nota de defunção.
Com mais uma edição (quantas já vão) da Liga Sagres pautada pela mediocridade, é dificil ir vendo os jogos nos relvados empapados lusos e descobrir algo que realmente seja relevante. O Benfica caminha em velocidade de cruzeiro para um titulo em que todos quiseram colaborar, desde a Liga de Clubes às SAD do FC Porto e Sporting. O Braga vai começando a mostrar a habitual fraqueza lusa. E os outros "grandes" vivem o ambiente oposto ao que experienciavam no início do ano. Logo atrás está o renascido Vitória. Uma boa noticia. Das poucas que Portugal nos guarda.

A contundente vitória por 2-0 diante do Nacional da Madeira confirmou o que se vinha suspeitando há meses que, inevitavelmente, ía suceder. O Vitória de Guimarães está já tranquilamente em postos europeus. Com o Sporting a apenas dois pontos (ambas as equipas têm as mesmas vitórias, nove) é legitimo para o conjunto vimaranense sonhar em recuperar um quarto lugar que, durante anos, foi a sua posição natural. Poucos se lembram hoje, mas o Vitória de Guimarães foi a única equipa portuguesa que este ano logrou derrotar os dois primeiros classificados da prova. O Benfica caiu na Taça de Portugal, o Braga sofreu no D. Afonso Henriques a sua primeira derrota da temporada. Sinal claro de que na "cidade-berço" está uma equipa talhada para os momentos decisivos. E que, como é sempre habitual nos conjuntos lusos, perde pontos quando menos se espera. O Vitória sofreu este ano demasiado com esse fado. Capaz de bater o pé aos primeiros, os vimaranense têm tido dificuldades contra clubes que nem são do seu campeonato. Porque com os da sua liga, como o Nacional, sabem o que querem. E vencem com claridade. E se o Nacional sem Ruben Micael e com um Manuel Machado ainda alheado, é efectivamente uma equipa mais inofensiva, a verdade é que a progressão vimaranense tem sido espantosa. E tudo começou com o erro da praxe.
A direcção vitoriana de Emilio Macedo arrancou a época com Nelo Vingada no banco.
Um técnico desactualizado, sem carisma e que nunca soube montar um onze atractivo e eficaz. Saiu cedo, como se esperava, deixando para trás meses de trabalho deitados borda-fora. Para o seu lugar, Paulo Sérgio. O jovem e ambicioso técnico do Paços de Ferreira tinha mostrado que a capital do móvel parecia já pequeno para a sua ascendente progressão. No D. Afonso Henriques encontrou um desafio à sua altura. Perdeu pontos importantes e chegou a estar no limbo onde vivem muitos dos técnicos portugueses. Aguentou-se. Apresentou bons resultados e um jogo atractivo. Fazendo esquecer aos adeptos o fosso financeiro onde volta a estar o clube e a peripécia das eleições que, adivinha-se, voltarão a servir como tiro no pé, montou uma equipa sólida e séria. Com Nuno Assis e Rui Miguel soltos no apoio ao único avançado, Roberto. E com Desmarets como falso extremo. Um quarteto desiquilibrante que acenta também no trabalho cirúrgico do meio-campo, com João Alves e Moreno. A ajuda dos laterais - o regressado Alex e o rapidíssimo Andrezinho - e a segurança do brasileiro Nilson fazem o resto. E mesmo que os centrais não tenham a segurança de outra dupla, o trabalho de equipa nota-se tanto a atacar, como a defender. O Vitória que andou nos primeiros meses na zona baixa da tabela, a ver a despromoção ali bem perto, sabe agora que pode voltar ao seu lugar natural na classificação. E não fosse a notável campanha do eterno rival minhoto, e este seria um ano para festejar.

Na próxima jornada a visita a Alvalade servirá como tira-teimas para os adeptos do Vitória. Na melhor das hipóteses o conjunto vimaranense pode sair de Lisboa com o quarto lugar no bolso, a sete jogos do fim. O calendário que tem não é o mais favorável, mas a vantagem seria significativa. Qualquer outro resultado manterá tudo em suspenso. Há cinco equipas para dois lugares. Num ano onde os históricos do nosso futebol confirmam que o nome é cada vez menos sinal de sucesso, começa a ser hora do Vitória de Guimarães reinvindicar o seu estatuto e voltar a encarar, olhos nos olhos, para a Europa.
No único jogo da era Jesualdo Ferreira em que o técnico portista deixou de lado o seu habitual modelo conservador e burocrata, o FC Porto esmagou com uma facilidade abrumadora um Sporting que no papel viajava ao Dragão como uma equipa corajosa mas que, na prática, foi uma inevitável avestruz. A vitória por 5-2, mais do que pelos números, reafirma mais uma vez o poder da supremacia creativa no tabuleiro de jogo.

Em teoria o 4-3-3 de Jesualdo Ferreira é mais cuidado e conservador do que o arrojado 4-1-3-2 que Carlos Carvalhal está a tentar implementar até Junho em Alvalade. O técnico do Sporting tinha feito uma interessante recuperação na liga mas a derrota em Braga deixou, uma vez mais, a nu, todas as debilidades da sua equipa. Por isso o seu esquema muitas vezes era um 4-3-1-2 disfarçado, com Moutinho e Veloso a serem forçados a recuar para ajudar um desamparado Adrien. Com Saleiro estático e Liedson domado, a boa vontade de Carvalhal esbarrou com a incapacidade de por em prática o seu plano mais ambicioso. E, acima de tudo, com a perfeita organização táctica do melhor FC Porto dos últimos meses. Jesualdo, que deixou em casa a membros-chave do exército portista, deixou de parte a sua tendência mais calculista e arriscou. E saiu-lhe bem, especialmente porque na sua nova equação mora um jogador capaz de trazer o equilibrio necessário às transições tão do seu agrado. Se até à chegada de Ruben Micael o FC Porto vivia em três secções totalmente separadas, ontem a equipa exibiu-se com uma harmonia inédita. O madeirense pautou o jogo no ataque, trouxe balanço ao sector defensivo e basculou o jogo à sua vontade. O resultado final não poderia ter sido outro.
O jogo começou com a tendência ofensiva dos da casa que esbarrou com a habitual inércia frente aos redes do rival. Foi sol de pouca dura. Por essa altura já João Moutinho era adormecido pelo rápido jogo do triângulo composto por Fernando-Micael-Belluschi. Pela primeira vez alinharam dois elementos criativos, o chamado número 10, num onze azul-e-branco. O Sporting nunca conseguiu lidar com essa dinâmica preparado que estava para mais um jogo de musculo como os muitos duelos entre leões e dragões nos últimos anos. Apesar da boa dinamica foi num confuso lance de bola parada que Rolando abriu o marcador. Um golo justo que ficou ensombrecido pelo empate, um potente remate de Izmailov que Beto não agarrou da melhor forma. O empate era um injusto prémio à passividade sportinguista e rapidamente a equipa da casa levantou cabeça e partiu para uma noite que ficará nos anais do recinto azul e branco. O oportunismo do colombiano Falcao, com dois tentos de belo efeito, e o movimento de Varela, destroçando pela enésima vez a um péssimo Grimi, ampliou a vantagem do FC Porto para 4-1. Por essa altura já Pongolle tinha rendido, sem que se tivesse feito notar, Saleiro e Adrien dava lugar a Matias Fernandez. O modelo de jogo do Sporting manteve-se igual e a dinamica portista também. Num lance atipico na sua atribulada relação com as bancadas do Dragão Mariano Gonzalez marcou um golo de bandeira. A braçadeira de capitão, por uma vez, acentou-lhe bem.

A vitória por 5-2 - Liedson reduziu já depois dos 90 - espelhou de forma clara a diferença de nivel entre Porto e Sporting. Os azuis e brancos conseguiram o lider de meio campo que necessitavam e dão boas sensações para os próximos desafios. Estão em quatro frentes e repletos de problemas internos e externos. Mas no campo a equipa desconectou e funcionou como nunca. Manter o nível será complicado. Mas possível. Já o Sporting foi vitima de uma clara supremacia creativa deixando bem claro que o musculo e o pulmão ajudam mas nunca são suficientes para uma equipa que em Agosto ambicionava em fazer deste o seu ano.
Apesar de ainda faltarem 13 jogos para terminar a edição 2009/2010 da Liga Sagres a prova chegou ao seu ponto final. O futebol que possa seguir aos eventos desenrolados no último mês é inconsequente. A liga portuguesa deu um salto para trás no tempo e voltou a decidir-se na secretaria lembrando eras passadas que há muito tinham sido enterradas. Uma equipa que podia ter sido justa campeã no relvado ficará com a mancha de provavelmente vencer com golpes debaixo da mesa.

Num país onde se silenciam jornalistas por uma virgula de discórdia e onde uma maioria silenciosa sufraga uma minoria suicida e com um ego do tamanho de um império imaginado, o futebol sempre foi um escape com caracteristicas bem particulares. Este ano, mais do que nunca, o futebol manchou-se com a mesma cepa que tem rasgado as entranhas do país. No campo a qualidade desportiva tem seguido a tendência da década. As equipas grandes a um nível baixo. As equipas médias sem grandes argumentos. As equipas pequenas cada vez mais minusculas. No meio desto oásis de desespero desportivo surgiu um Sporting de Braga revigorante. Cheio de imaginação e disciplina, com uma atitude guerreira e ofensiva, o Braga marcou claramente o ano desportivo. Independentemente da posição final na classificação geral, este é o seu ano. Porque até ao dia de hoje, dia do ponto final da Liga, o Braga liderava. O Braga encantava. O Braga era o melhor. Até ao ponto final.

Um futebol manchado por Apitos Dourados e por constantes problemas financeiros de grandes e pequenos é um futebol murcho. Se a essa conjuntura se junta uma intervenção clara e posicionada dos orgãos que gerem a competição, então o resultado final fica claro. O SL Benfica será, muito provavelmente, a equipa campeã nacional. E chegou a ser, lá para Setembro e Outubro, a equipa que melhor jogou nos relvados lusos. Mas a febre goleadora esmoreceu rapidamente, as derrotas chegaram (Braga, Guimarães, empate com Sporting) e rapidamente a magia ofensiva deu lugar ao calculismo táctico. E ás vitórias enganosas. Aos jogos que terminam regularmente contra 10, 9 ou 8. Aos jogos decididos com lances irregulares, que não duvidosos. Aos jogos que decidem campeonatos. E o aspecto desportivo, significativo no renascimento futebolistico de um grande há anos perdido na mediocridade, caía para segundo plano. Mas não foi suficiente. Foi preciso algo mais. Algo que ninguém contava. Um desses golpes rasteiros. Golpes de uma era que Portugal já tinha enterrado. Mas que vai renascendo, na politica e no desporto. De mão dada o velho país emerge das sombras e dita o ponto final.
Nunca na história do futebol português uma equipa se viu envolvida em dois tunéis tão negros e misteriosos e cujo o resultado sai, em ambos os casos, tão claramente a seu favor. Que dois dos mais determinantes elementos dos seus rivais directos sejam suspensos por três meses é algo inédito. Algo que nem o mais optimista poderia esperar. No caso do FC Porto a suspensão a Hulk foi imediata, antes sequer de haver qualquer decisão tomada de forma oficial. No caso do SC Braga o sadismo de suspender um dos seus elementos nucleares, Vandinho, até ao final da prova precisamente no dia seguinte a fechar o mercado de transferências é, no minimo, insultante. E no entanto, aí estão as coisas. Um clube, dois tuneis, nenhuma suspensão. Nenhuma multa significativa. Nenhuma contra-indicação. O caminho livre rumo ao titulo que tantas figuras públicas, com a habitual falta de vergonho que grassa em Portugal, dizem que salvará a economia nacional. Por outro lado Braga e FC Porto, feridos pelas costas, sabem que o jogo está viciado. A Liga Sagres chegou ao seu ponto final porque assim foi decidido. Não se esperou que o relvado, que a bola, que os 90 minutos fizessem a sua justiça. O medo superou o suspense. A verdade desportiva desapareceu. De vez!

Portugal continua a ser a cauda da Europa em tantos aspectos que surpreendia como é que o futebol tinha escapado a essa nova centralização politico-social do país. A época que poderia ter significado um passo importante para a descentralização emocional e desportiva dá meia volta e mantém o mesmo e triste fado de prisão que amarra todo um país. O futebol continua numa qualquer liga por esse mundo fora. Em Portugal a bola continuará a rolar por mais treze semanas. Mas a Liga Sagres acabou. Ponto final!
É um verdadeiro globetrotter do futebol português. Aos 28 anos prepara-se para dar inicio a novo ciclo. Em seis anos marcou presença nas principais ligas europeias, sempre em clubes de topo. Mas nunca deu verdadeiramente o salto para o patamar que prometia quando ainda deambulava pelo meio-campo do Braga. Terá ainda um final feliz a história de Tiago?

A neve em Madrid congelou o Vicente Calderon.
No meio do manto branco que cobre a capital espanhola chega Tiago. Depois de um negócio surreal, como só o Atlético é capaz - o jogador assinou, voltou a Turim para disputar o derby e acabou por ser apenas apresentado ontem pelo temporal que cancelou a sua viagem inicial na segunda-feira - finalmente o português aterrou no estádio madrileño. Um estádio habituado a grandes jogadores e com uma profunda relação com o futebol português. Desde os dias de Lourenço. Hoje o atleta, que continua ligado à Vechia Signora, procura uma nova oportunidade. Porque à quinta liga distinta que prova continua a ideia de que Tiago pode sempre dar algo mais. Será aqui?
Em Braga deslumbrou com o seu estilo de jogo elegante. Certeiro no passe, atrevido no remate, foi uma das grandes revelações do inicio da década. A Luz foi o patamar seguinte e aí confirmou o que se suspeitava. Mais do que potencial, ali havia um toque de classe distinto que fazia de Tiago um médio com um futuro de excepção. Se fosse na direcção certa.
A forma como liderou um Benfica destroçado por constantes hara-kiris trouxe-lhe a maturidade que em Braga não tinha ainda provado. Na cidade dos Arcebispos era a jovem promessa. Em Lisboa tinha de ser um lider à força. Conseguiu-o de tal forma que José Mourinho, recém-chegado a Londres, não hesitou em convocá-lo para o seu projecto ganhador com o Chelsea. Muitos se surpreenderam com a escolha do técnico. Em lugar de Maniche, que conhecia bem melhor desde os dias da Luz, o técnico preferiu o jovem bracarense. A principio parecia que Tiago destoava naquela equipa repleta de estrelas e operários puros. Makelele e Lampard dominavam o meio-campo e fechavam-lhe as portas à titularidade. Teve de sofrer. No banco. Na bancada. Em casa. Parecia ver o tempo passar e as oportunidades a escaparem-se-lhe das mãos. Foi paciente e acabou recompensado. Começou a jogar. A cumprir as missões delineadas no caderninho do Special One. E fez-se notar. Mas o mundo das estrelas de Londres nunca o entendeu verdadeiramente e depois de dois anos preferiram o musculo de Essien à classe de Tiago. A viagem de troca acabou por ser a lufada de ar fresco que o médio necessitava. Em Lyon foi feliz. Foi um pêndulo. Foi o sócio perfeito do brasileiro Juninho. E voltou a um meio mais de acordo consigo. Pequeno, modesto mas repleto de ambições. Em França Tiago foi verdadeiramente Tiago.

Sem espaço na selecção - e quando o tinha nunca o aproveitava verdadeiramente - e com o Lyon a precisar de fazer dinheiro pensou que viajar a Turim e afirmar-se no meio campo da Juventus. Seria o salto mediático que faltava numa carreira ascendente. A principio parecia que as coisas corriam bem. Mas o futebol pensado e repleto de preciosismo de Tiago não parecia quadrar com a escola mais musculada do Dell Alpi onde Zanetti, Poulsen, Camoranesi, Sissoko eram mais apreciados. E do campo passou ao banco. À bancada. A ter de ter paciência uma vez mais. Aos 28 anos. Pensou que não. Pensou que era a oportunidade ideal de sair bem. Sem dar um passo atrás. Surgiu o Atlético de Madrid. Um clube desesperado, sem identidade e que vive num mundo surreal. Mas onde encontra um velho amigo. E um estilo de jogo que mais se adequa ao seu. Tem seis meses para convencer uma afficion triste e desperada. Tem todas as condições para o lograr. E dar finalmente aquela imagem prometida há largos anos de um jogador que tinha o mesmo perfume de jogo de Rui Costa e a insolência de João Vieira Pinto.

Com o 5 às costas Tiago quer ser um dos nomes próprios desta La Liga. Quer voltar a ser um dos nomes próprios do futebol português. Durante meia década foi mais promessa do que realidade. Agora o tempo escapa-se-lhe das mãos. É hora de reencontrar-se consigo mesmo!
Mais do que preocupantes, o estudo publicado pelo site Futebol Finance espelha uma realidade desoladora. O producto que mais vende nas televisões nacionais e que, supostamente, é o "ópio do povo" luso, é mais visto in loco nos estádios da Bundesliga 2, a segunda-divisão alemã, do que na liga portuguesa. Afinal, em Portugal há ainda quem goste de futebol?

O Século XX português ficou cunhado com a popular expressão "Portugal dos Três F´s". Havia Fado, havia Fátima e sobretudo, havia Futebol. Havia estádios repletos, semana atrás semana, com adeptos de pé durante hora e meia num apoio incessante da equipa. Havia jogos de reservas e juniores com mais espectadores que muitos encontros de equipas da I Divisão e raro era o adepto que não tinha visto mais de 15 jogos ao ano no estádio do seu clube ou em oportunas deslocações. O país respirava efectivamente o jogo pelos poros e apesar de ser conhecido por toda a Europa pela sua impaciência, também é verdade que os grandes jogos europeus em estádios como a Luz, Alvalade ou Antas eram um verdadeiro pesadelo para os mais fortes rivais. Mas isso era dantes. Quando Portugal era, efectivamente, uma liga de dimensão internacional. Uma prova respeitada e que era capaz de impor o seu nome. Apesar da popuñação, apesar dos negócios milionários, apesar das estrelas. Hoje, o cenário é totalmente o oposto.

O estudo divulgado pelo Futebol Finance indica que a Liga Sagres portuguesa é a 12 mais vista nos estádios da Europa. Isto num estudo onde se analisaram 15 provas. A média de adeptos nos estádios portugueses ronda os 10 000 espectadores. Uma média que depende, excessivamente das habituais assistências no Dragão ou na Luz, onde regularmente se superam os 35 mil espectadores. Imediatamente depois está Alvalade e logo a seguir um imenso hiato até cair nas degradantes assistências que ás vezes nem roçar o milhar de adeptos.
Problemático não é apenas o baixo valor de adeptos que se deslocam aos recintos para ver, in loco, o jogo. Nessa mesma classificação, liderada pela Bundesliga - hoje em dia uma das mais dinamicas provas europeias - com 42 833 adeptos de média por jogo (a média de ocupação dos 18 estádios é de 48 mil, o que indica uma presença superior aos 90% em cada jogo) - Portugal encontra-se atrás da Premier League, La Liga, Serie A e Ligue 1. Mas também da Liga Escocesa, Belga e Suiça. E pasme-se, da Division One e Bundesliga 2, as segundas divisões de Inglaterra e Alemanha. Um resultado que coloca em cheque o adepto e o futebol português.
Já muito se leu e escreveu sobre o porquê da fraca assistência nas bancadas portuguesas. Um país que se diz tão amante do beautiful game não pode, pura e simplesmente, ter uma assistência inferior a um país como a Suiça ou Bélgica, muito inferiores em população mas também a nivel desportivo. As habituais desculpas dadas em Portugal não funcionam no resto da Europa. É verdade que em Portugal se joga de sexta a segunda-feira, maioritariamente em horários nocturnos para agradar à cadeia de televisão que tem os direitos da prova. Uma situação impensável em Itália e Espanha, onde só se jogam sábados e domingos e preferencialmente pela tarde. Mas em Inglaterra há jogos quase todos os dias da semana, com jornadas em atraso e encontros para várias provas. Nas principais divisões. E todos os jogos estão com as bancadas cheias.
Também há quem fale nas deficientes condições de alguns recintos. Um argumento válido talvez para pequenos estádios como a Mata Real ou o estádio dos Arcos. Mas incompreensível quando a prova recebe jogos em estádios construidos para um Europeu de Futebol há menos de uma década. Ver um jogo da liga escocesa, belga ou suiça é encontrar-se muitas vezes com estádios de mais de 50 anos. E que o aparentam.

Pensamos então noutra queixa habitual, a falta de qualidade desportiva. Realmente a qualidade de jogo do futebol português tem vindo a cair ao longo dos últimos anos. Mas também está claro que as equipas do meio da tabela em Portugal podem ombrear com os rivais escoceses, suiços, belgas e, certamente, com as divisões inferiores de Alemanha e Inglaterra. Não se pede - de momento - assistências ao nivel da Premier League ou La Liga, mas todas as semanas há bons e maus jogos em qualquer liga do Mundo. Só que os portugueses não perdem tempo em ir vê-las.
Por fim chega a questão final: os preços das entradas.
Num país que vive praticamente em crise desde a sua génese, a principal queixa é a falta de sensibilidade dos clubes à hora de colocar os preços dos bilhetes à venda. Afinal os jogos no bar custam um café ou pouco mais. Mas se virmos que já houve várias iniciativas de entrada gratuita, descontos e bilhetes a baixo preço - e que os preços mais altos são praticados em jogos com os grandes clubes, que já por si mobilizam sempre o grosso dos adeptos - continua sem ser perceber o vazio dos lugares durante um encontro de futebol. E fica a dúvida instalada. Será que os portugueses gostam mesmo de futebol?
Imaginar uma equipa despromovida em Portugal é um pesadelo. Insultos, lenços brancos, cânticos insultuosos. Já se viu de tudo. Viajamos a Inglaterra e vemos 55 mil pessoas de pé no St. Jame´s Park a aplaudir o onze do Newcastle que levou o histórico à despromoção. Parece que estamos num filme de ficção-cientifica. Quem nunca saiu do rectângulo pode achar que o comportamento do adepto português é comum lá fora. Não o é. Os milhares de adeptos que seguem a equipa em jogos fora em Espanha, França, Itália, Alemanha e Inglaterra são impressionantes. A "Mareona" de adeptos do Sporting Gijon, um histórico espanhol que só na época passada voltou à I Liga depois de largos anos nas categorias inferiores, leva aos recintos que a equipa visita mais de 5 mil adeptos quinzenalmente. O Leeds Utd, a militar na terceira divisão inglesa, logra deslocar em jogos fora mais de 10 mil adeptos. Em Inglaterra aplaude-se uma derrota, se a atitude for boa. Assobia-se, grita-se, mas ainda se vive a cultura de que o adepto vai ao estádio para apoiar. Em Portugal vigora a tese de que é a equipa quem tem de puxar pelo adepto. O comodismo supera a devoção.
Depois de todas as inovações, das pipocas, bebidas e aquecimento central, das coberturas caras e dos lugares primorosamente desenhados para dar mais e mais comodidade, cada vez menos se vê um adepto português nas bancadas. Cada vez menos se vêm miudos a jogar nas ruas. Sempre é melhor a Playstation. O futebol de formação está destroçado, não só nos grandes clubes. Os pequenos clubes de bairro que subsistiam formando os jovens da zona nas suas primeiras etapas fecham portas ano atrás de ano. E históricos como Boavista, Farense ou Beira-Mar caem nas últimas divisões sem apoio nem interesse por parte dos seus associados. Há excepções como a Alma Salgueirista, os adeptos do Vitória de Guimarães ou o grupo de adeptos do Leixões. Mas são exiguas para uma realidade preocupante. E o problema não está já em decidir ficar em casa ou num café a seguir um jogo que podia ser visto ao vivo. Está na consequência dessa decisão. O adepto português tornou-se num adepto de bar sem cheiro do relvado. Vive das trifulcas dos presidentes - que só em Portugal têm tanto mediatismo - das arbitragens e das decisões dos técnicos. Nunca da táctica, do jogo, da experiência. Vivem de costas voltadas para o relvado.

Portugal está a atrvessar uma crise existencial em muitos sectores da sociedade. E sempre se tentou veicular a ideia de que o futebol era a salvação. A selecção nacional, os tais seis milhões de adeptos do SL Benfica que nunca ninguém viu, tudo isso rodeava a aura de imensa popularidade do jogo. O Euro 2004 ainda hoje é lembrado em toda a Europa como uma das provas desportivas com maior mobilização popular. Mas hoje em dia, no futebol português, as bancadas nuas, os adeptos desconectados e os jovens sem uma bola nos pés, contam-nos outra história. Bem mais triste. E é cada vez mais seguro poder dizer-se que há cada vez menos gente em Portugal que realmente ame o mais belo dos jogos.
Domingos Paciência ganhou já o tique de culpar elementos externos dos tropeções bracarenses mas depois de adiar para o final do ano uma eventual candidatura ao título, hoje fica evidente que as ambições do SC Braga são outras. A venda de João Pereira ao Sporting abre um novo ciclo na temporada arsenalista e espelha bem a mentalidade que ainda subsiste no futebol português.

João Pereira estava na lista dos transferiveis no Verão. A SAD do Braga falava num encaixe de 10 milhões de euros no total de vendas mas os números ficaram muito além do ambicionado. Em vez de dinheiro na caixa o conjunto bracarense ganhou uma equipa. Que demorou a arrancar, como provou a eliminatória precoce da Liga Europa. Mas que agora funciona de forma oleada e mecânizada na Liga Sagres levando os arsenalistas a liderar, pela primeira vez na sua longa história, a prova no final de ano. Ao contrário do Boavista, que há uma década se sagrou campeão sem chegar ao final do ano nos primeiros lugares, o Braga tem mantido uma regularidade impecável. Apenas uma derrota, vitórias diante dos três grandes, e os habituais tropeções de quem tem um plantel curto e rivais que apenas procuram perder por poucos. Longe do espirito guerreiro baseado no contra-ataque do Boavista de Jaime Pacheco, o Braga é uma equipa bem organizada a meio campo e que gosta de jogar com as linhas a subirem de forma colectiva. O meio campo pressiona em cima, os avançados são solidários nas tarefas defensivas e a defesa tem-se revelado exemplar. Talvez essa realidade comece a ser posta em causa.
É verdade que o Sporting pagou na integra a cláusula de rescisão do jogador, cerca de 3 milhões de euros. E também é verdade que num país como Portugal nenhum jogador é devidamente respeitado se não joga num dos três grandes. Passa o mesmo, por exemplo, com o nacionalista Ruben Micael que não entra no lote de seleccionáveis para Queiroz de forma curiosa. Espera-se que em Janeiro ganhe asas e que as portas da selecção se escancarem quando a camisola que vista for do FC Porto, Sporting ou de qualquer clube pequeno europeu por onde andam Duda ou Edinho. João Pereira tem ambições. Legitimas no melhor lateral-direito da liga portuguesa. O jovem formado nas escolas do Benfica sucumbiu à pressão de actuar numa equipa que destroçava a sua própria formação. Depois de militar no Gil Vicente, reencontrou-se em Braga e até hoje fazia com Evaldo parte de uma estratégia bem montada por Domingos. Uma equipa que usava ao máximo o poder ofensivo dos seus laterais. Tapado na selecção por Bosingwa, Paulo Ferreira e Miguel, a falta de mediatismo prejudicava por completo a ascensão sustentada do lateral. Depois de goradas as transferências para o estrangeiro, João Pereira sabe que terá poucas dificuldades a impor-se a Abel ou Pedro Silva em Alvalade. E que isso joga a seu favor para o futuro. Mas como fica o Braga neste cenário?
Sabe-se que na cidade dos Arcebispos ninguém assumiu a luta pelo titulo, mas a equipa bracarense tem consciência que na conjuntura actual será muito complicado que baixe da terceira posição. Seria necessário um verdadeiro hara-kiri face à vantagem pontual que leva sobre o grupo de perseguidores do trio da frente. Isso significa automaticamente uma posição de entrada directa na Europa - algo que não logrou o ano passado - e o sonho que alimentou o rival de Guimarães há dois anos atrás: a Champions League. Todos esses sonhos podem traduzir-se em milhões, dinheiro fresco em caixa de uma SAD que tem tido uma evolução bastante sustentada ao largo da década. Mas para isso a equipa precisa de manter altos os niveis de competitividade. Vender uma das suas pedras angulares a meio da temporada é navegar para o lado oposto. E se as comparações com o Boavista são inevitáveis, será também lógico entender que no ano do titulo os axadrezados cerraram filas e não deixaram sair nenhum elemento nuclear do plantel. A equipa arrancou para uma notável segunda volta e fez história. As vendas foram posteriores, quando o êxito e os milhões da Europa estavam já assegurados. E se o clube está hoje na triste situação que se encontra é mais pelos erros administrativos posteriores do que por essa politica que se revelou acertada. O Braga sem João Pereira é, inevitavelmente, menos Braga. Como o seria sem Eduardo, Hugo Viana, Alan, Mossoró, Evaldo ou Vandinho. São pedras chave na estratégia e jogadores sem suplentes à altura num plantel necessariamente curto.

Por outro lado o Sporting dá o primeiro golpe de efeito no mercado ao que pode seguir a chegada de Ruben Micael. É curioso que Paulo Bento não tinha nem um cêntimo para gastar e agora a Carlos Carvalhal são entregues os jogadores que realmente o plantel necessita. Será provavelmente insuficiente - a larga lesão de Liedson não ajuda - para a equipa trepar na classificação até aos primeiros postos mas prova a desacertada gestão de uma direcção incapaz de planear uma época com pés e cabeça. Quanto ao Braga, entrará nos próximos 16 jogos com o país atento. Domingos terá de fazer ginástica e os jogadores correr mais do que nunca. O exemplo recento do Boavista prova que vencer é possível. Sempre e quando a estratégia a seguir seja a correcta. E a ambição não se deite pela borda fora por uns poucos milhões.
É o máximo duelo do futebol português. Por muito que a imprensa lisboeta teime em valorizar o valor do derby da Segunda Circular, a bola desloca-se com outra dinâmica num duelo que ultrapassa as quatro linhas. É um espelho de uma Nação em constante conflito adormecido. É um jogo de gerações e orgulhos. É o retrato de um país que continua a viver o preto e branco do contra ou a favor. Sem meios termos. Porque nem os empates o são na realidade. Hoje a Luz voltará a iluminar o futebol nacional.

Historicamente os duelos SL Benfica e FC Porto disputados em Lisboa pendem a favor dos encarnados. Mas a estatistica não perdoa e denuncia um equilibrio total na última década. 3 vitórias dos locais, 3 vitórias visitantes, 3 empates. Por isso este jogo desempatará as contas. Mas aqui as estatisticas contam pouco, muito pouco. Um duelo Benfica-Porto é pura emoção. Apesar de não ter o mesmo poder mediático é um duelo ao nível dos grandes clássicos do futebol. Uma longa tradição de conflito institucional, dois clubes que representam duas visões totalmente opostas do desporto. E da sociedade. E para culminar, as duas equipas que dominaram os últimos 50 anos do futebol português. Vinte e cinco anos de dominio encarnado e vinte e cinco anos de supremacia azul e branca. Os portistas procuram o seu segundo Pentacampeonato. Os benfiquistas acreditam, pela primeira vez em muitos anos, na ressurreição desportiva a longo prazo. Já não é só a questão do titulo - quebrada que estava em 2005 a malapata de 11 anos. É o futuro dominante de uma liga que nos últimos anos tem sido tingido com azul e branco. A prova caminha para o seu equador e o lider até é outro, um surpreendente Sporting de Braga que começa a provar o amargo sabor da exigência daqueles que vêm dois empates consecutivos e acham isso estranho. Quando é a situação mais normal do mundo num clube que não ambiciona a nada mais que voltar à Europa. E apesar disso, lidera. Mas mais do que a liderança, na Luz disputa-se outra guerra.
O FC Porto chega em alta. Depois de um mês de Outubro muito complicado, os portistas ressuscitaram. A equipa recuperou jogadores chaves que passaram o Outono lesionados. Casos de Fucile, Varela e Rodriguez. A qualificação europeia e as últimas vitórias na liga levaram os portistas ao terceiro lugar, a apenas um ponto da liderança. Algo impensável para os mais criticos há pouco mais de um mês. Mérito para Jesualdo Ferreira, que finalmente impôs o seu modelo de jogo às novas incorporações. No entanto, apesar da subida de forma, o conjunto do Dragão tem manifestado grandes dificuldades em vencer em Lisboa com Jesualdo no banco. Será provavel que a abordagem do treinador seja mais cautelosa, trabalhando um 4-4-2 que utilize o contra-ataque como arma principal. Talvez até sem um ponta-de-lança fixo na área, utilizando a velocidade de Varela e Hulk. O técnico sabe que deve aproveitar as baixas do rival mas ao mesmo tempo não quer perder a luta do meio-campo. Precisamente o ponto forte do rival. E precisamente onde está mais frágil.

As expulsões de Di Maria e Fábio Coentrão no jogo frente ao Olhanense - o pior jogo do ano do Benfica, em que Jesus se mostrou absolutamente vulgar - abrem uma série de dúvidas. A isso há que juntar a débil condição fisica de Ramires e Aimar. Os encarnados que tiveram dois meses ao mais alto nível perderam o gás. Depois da derrota em Braga e frente ao Vitória e com os empates diante de Sporting e Olhanense provou-se que a febre goleadora tinha data de caducidade. O Benfica não deixa de ser um conjunto organizado mas tem-se tornado mais previsível. As polémicas arbitrais também não deixam de acompanhar os encarnados, com vários erros a acabarem por revelar-se determinantes num bom punhado de jogos. A aura de invencibilidade esmorece-se. Mas uma vitória diante do rival directo pode mudar tudo. Será o grande teste de fogo para o técnico. Se o duelo com o Sporting mostrou um Jesus temeroso frente ao leão mais débil da década, muitos se perguntam que Benfica esperar diante do temível dragão. Uma equipa de contenção e calculista com Carlos Martins e César Peixoto? Ou a máquina de ataque que tem encantado gregos e troianos?
Os últimos anos têm servido para diminuir o ruido à volta do derby. A polémica à volta do Apito Dourado levou ao presidente azul e branco, Pinto da Costa, a afastar-se da ribalta. E sem o seu cinismo viperino os azuis e brancos ficaram orfãos de um espirito de guerrilha que esteve também na base do seu sucesso desportivo a partir dos anos 80. Por sua vez o Benfica vive uma tranquilidade institucional inesperada, apesar das eventuais consequências desastrosas que possa vir a ter a gestão desportiva e financeira da equipa presidida por Luis Filipe Vieira. Na realidade ambos os presidentes jogam à defesa e abrem caminho ao duelo no relvado. Aí falarão mais alto os sentimentos. O duro Bruno Alves contra o voraz Cardozo. O hábil Aimar frente ao implacável Fernando. O alto Luisão contra o furacão Hulk. O esguio Varela e o adaptado David Luiz. Duelos, pessoais e colectivos, num jogo que vai estar a ser observado à lupa. A polémica nomeação de Lucilio Baptista volta a desenterrar todos os fantasmas da arbitragem portuguesa e apesar das criticas azuis e brancos a verdade é que o FC Porto venceu a esmagadora maioria dos derbys apitados pelo polémico setubalense. Como sempre no futebol a estatistica conta pouco.

O estádio estará repleto. A emoção à flor da pele. É o estandarte do Norte do País contra o clube do povo que não conhece fronteiras. É o duelo gastronómico, cultural, moral e social de dois lados da uma mesma moeda chamada Portugal. Dois elementos irreconciliáveis que perdem valor se o outro não existe. O histórico Norte-Sul é bem mais real do que os pragmáticos querem supor. O duelo do actual Imperador com o Rei deposto é bem mais sentido do que os outsiders conseguem sentir. O titulo não está em jogo porque o equador da prova não foi ainda ultrapassado. Mas o prestigio e a moral são objectivos bem mais valiosos a esta altura da prova. Uma vitória azul e branca é uma injecção de moral apreciável e significa que, pela primeira vez este ano, os dragões ultrapassariam o rival directo. Por sua vez um triunfo encarnado volta a colocar a diferença que separou as duas equipas durante grande parte do periodo outonal. No final a estatistica diz-nos que o resultado mais provável é o empate. Mas como dissemos, isto é um Benfica-Porto. Que interessa a estatistica?
Terminou a primeira ronda da Liga Sagres 2009/2010 e os piores augúrios voltaram a confirmar-se. Depois de uma larga pré-época repleta de amigáveis, trofeus a feijões e muitos milhões, o futebol português apresenta-se tal e qual o deixamos. Pesado, lento, vagaroso...sem ritmo.

Foi a liga europeia que melhor soube vender (fruto obviamente dos muitos milhões que os franceses deixaram nos cofres do FC Porto) mas também das que mais importou, inevitavalmente da América do Sul. Continua a ser a única que segue de perto a Premier League com relação aos estrangeiros a actuar nos relvados nacionais mas, por outro lado, é também a única que conta com 32 técnicos nacionais nas duas divisões de futebol profissional. Houve a maquilhagem dos sorteios, o ano de transição para a perda de pontos por dividas, as descidas e subidas administrativas e a euforia benfiquista. Tudo o que sempre nos habituou o nosso defeso nos últimos anos. Mas em nenhum momento se notou uma melhoria do nosso futebol, a nivel individual ou colectivo. Em Portugal a primeira jornada espelhou o que fomos acompanhando nas últimas edições da prova e o que podemos antever do que veremos até Maio. É claro que mudanças drásticas nunca aconteceriam da noite para o dia e a mentalidade portuguesa continua a ser bastante pequena em muitas coisas. Mas havia a esperança de uma pequena mudança de atitude. E de ritmo.

O ritmo do futebol português não está ao nivel do futebol praticado no resto do continente. E já não nas grandes ligas (Espanha, Itália ou Inglaterra). Apesar da eliminação (milagrosa) do Twente ás mãos do Sporting, é invejável acompanhar uma jornada na Eredivise e comparar com o que temos por cá. Em Portugal abrimos o campeonato com oito jogos para adormecer. Sete empates, sem chama nem glória. Sete jogos onde ninguém conseguiu destoar da imensa e pobre mediania. Pode-se elogiar a audácia de Paulo Sérgio, a inteligencia de Manuel Machado ou o chico-espertismo do autocarro bem luso de Carlos Carvalhal, mas os grandes não têm desculpa para exibir-se de forma tão pouco competitiva quando começam os jogos a doer. Voltamos ao cenário onde a liga portuguesa se nivela cada vez mais por baixo. Um único ganhador (o sonolento SC Braga que nem pedalada teve para o actual lider do campeonato sueco) e muitos empatas. Muitos pontinhos que é o que se preza verdadeiramente em Portugal, onde país onde todos ganham e ninguém perde. Olhanense-Naval? O empate satisfaz a ambos. Leiria-Rio Ave? Um ponto é bom para arrancar. Vitória Setubal-Vitória Guimarães? Estamos contentes. Belenenses-Leixões? É importate arrancar sem perder. Enfim, sempre o mesmo discurso.

Mudamos de canal, seguimos agora a liga holandesa. Não há grandes estrelas mas há o cuidado de apostar na formação e em pescar pérolas em todo o mundo. Não há grandes estádios vazios. Não há três diários desportivos nem o sindrome dos grandes. Mas há paixão futebolistica. Ali o jogo disputa-se a outro ritmo. Duelo entro dois gigantes do futebol das tulipas. Ajax e PSV, equipas campeãs europeias mas afastadas do titulo no ano transacto muito cedo. Querem vencer, não contam um ponto quando sabem que há três em disputa. Jogo disputado, dinâmico...resultado final: 4-3 a favor dos de Eindhoven. Espectáculo, emoção, golos, futebol ofensivo. Duas equipas sem medo. Outro ritmo, outra mentalidade. Imaginar um jogo assim entre os nossos "grandes" é utopia. Na Holanda é normal, repete-se ano após ano. Grandes vencem por 6-2 e depois perdem por 5-2. Entre eles não desistem nunca dos três pontos. A nivel histórico está abaixo da liga portuguesa. Apesar de contar com 6 Champions League (4 do Ajax, 1 do Feyennord e 1 do PSV) tem tido presenças discretas na Europa. Mas, no entanto, é um constante viveiro de talentos, um campeonato ofensivo e atractivo. Com audiências em casa e público no estádio. Ali nunca se está contente a não ser que haja golos e espectáculo. Os pontos somam-se no fim. Aqui começam a contar-se desde o primeiro dia. É por isso que - apesar de modesta - a liga holandesa tem todas as caracteristicas das ligas europeias menos os milhões que a poderiam agigantar. Nós por cá, mesmo com os milhões a entrar e sair, somos cada vez mais uma liga parada, estática e triste. Sem vida e sem ritmo. Sem a magia do futebol!
Andar desengonçado, pose de vedeta. António Luis Alves Ribeiro Oliveira é um desses casos onde a publicidade (ou falta dela) impediu transformar um grande jogador numa lenda. Um dia José Maria Pedroto, o técnico que melhor soube sacar o seu rendimento, não teve problemas em dizer que, na sua posição, Oliveira era o melhor jogador do Mundo. E então talvez fosse mesmo...

Em Setembro de 1970 o FC Porto vivia mais uma das suas constantes guerras civis que levaram o clube a viver um hiato de 19 anos onde só se conquistou uma Taça de Portugal. A equipa tinha acabado de terminar a época em 9 lugar e os azuis e brancos estavam destroçados. Das camadas jovens, onde brilhava há já quatro anos, surgia para treinar com os seniores, um rapaz franzino, de Penafiel, cabelo comprido e ar de estrela. Escolhido a dedo pelo técnico brasileiro Paulo Amaral, a verdade é que ninguém lhe deu muito crédito mas ali estava a lenda do futebol portista dos anos 70 e um dos máximos jogadores a alinhar com a camisola azul e branca. António Oliveira era o seu nome e rapidamente fê-lo notar. O seu estilo de jogo entrava em contradição com a confusão portista de então. Oliveira organiza na sua mente cada lance de ataque, cada movimentação. Uma visão espantosa permitia-lhe antecipar cada lance e o seu faro de golo tornavam-no num perigo constante para o adversário. As bolas paradas, onde era especialista, resumiam perfeitamente o perfume do seu futebol: simples, prático e genial.
Durante nove anos Oliveira foi o lider azul e branco. Partilhou com Cubillas, esse mago peruano, o meio campo portista mas foi a chegada de José Maria Pedroto que o levou para o estrelato. Em 1977 o técnico de Lamego voltou a casa depois de ter estado banido por quase uma década. Com Jorge Nuno Pinto da Costa como director desportivo, Pedroto montou uma equipa campeão do primeiro ao último elemento. Acabou com os "andrades" e deu forma aos "dragões". Acabou-se o medo a atravessar a ponte D. Maria e o que antes era uma equipa atabalhoada tornou-se num exemplo de organização táctica. Ao lado de Octávio, Rodolfo, Murça e Fernando Gomes, o genial Oliveira tomou a batuta da orquestra e levou o clube para o seu primeiro titulo em dez anos, uma Taça de Portugal. Na época seguinte, a da consagração absoluta do FC Porto de Pedroto, o médio ofensivo alinhou em todos os jogos e apontou 19 golos, lutando até ao fim da prova pela Bota de Prata. Na temporada seguinte os milhões de pesetas que o Bétis pôs na mesa desviaram-no para a Andalucia fazendo de Oliveira a contratação estrela do defeso espanhol. Mas em Sevilla o seu futebol murchou e o próprio Oliveira acabou por pagar do próprio bolso para voltar ao FC Porto onde chegou a tempo de celebrar nova vitória no campeonato. Em 188 jogos, apontou 69 golos. Números que espelham a importânica de um jogador que então era dos mais desiquilibrantes do futebol europeu, como diria mais tarde Di Stefano, técnico de um AEK Athens humilhado numa eliminatória da Taça dos Campeões pelo clube de Pedroto.
O seu regresso ás Antas foi, no entanto, de curta duração. Os problemas internos que obrigaram à demissão de Pedroto e Pinto da Costa levaram-no, num acto de fidelidade com os dois mentores, a deixar o clube assinando pelo Penafiel, onde assumiu o cargo de jogador-treinador. No clube da sua terra Natal, Oliveira continuou a fazer a diferença e acabou mesmo por cometer a "traição" de assinar em 1982 pelo rival azul e branco, o Sporting. Em Alvalade formou com Manuel Fernandes e Jordão uma tripla ofensiva de sonho que garantiu o último titulo leonino durante um periodo de...17 longos anos.

No final da sua etapa no Sporting, onde também assumiu o posto de jogador e treinador, Oliveira abandonou ainda a selecção, onde tinha sido o principal referente durante mais de uma década. Ainda passou pelo Maritimo antes de trocar o relvado pelo banco de suplentes. Aí teve uma série de experiências mal sucedidas (Vitória, Gil Vicente, Braga) até ser nomeado seleccionador nacional. Foi ele que lançou as bases da "Geração de Ouro" na equipa A, ao levar Portugal ao Euro 96. No final da prova voltou ao clube de sempre, desta feita como técnico, conquistando por duas vezes o campeonato, naquela que foi reconhecidamente a melhor formação azul e branca da década. A fatidica campanhã de Portugal no Mundial de 2002 atirou-o para fora dos bancos e depois de uma etapa como presidente do Penafiel, aquele que Pedroto baptizou como um dos melhores jogadores de todos os tempos e o melhor nascido em Portugal continental, retirou-se.
A polémica imagem como técnico apagou o passado brilhante como executante e hoje são poucos os que se lembram dos titulos, dos golos, dos jogos...dos momentos em que Oliveira parava a bola e todos ficavam em suspenso para seguir o seu próximo truque de magia.
Condicionar o sorteio da próxima edição da Liga Sagres é a proposta da Liga Portuguesa de Futebol para abanar a estrutura do futebol nacional. Depois de ver os clubes chumbar algumas das propostas mais precisas e necessárias na última Assembleia, e face à recusa em aprovar a proposta do SL Benfica relativamente aos empréstimos dentro dos campeonatos profissionais, este decisão final de Herminio Loureiro é como uma pequena pedra no oceano, mais um exemplo de que em Portugal o importante é anunciar medidas de poder mediático deixando debaixo do tapete os problemas verdadeiramente preocupantes.
Nesta luta a LPFP comparte a culpa com os próprios clubes, na maioria dos casos avessos a qualquer mudança mais exigente que possa destapar o imenso buraco financeiro e estratégico que vive o futebol português. A verdade é que desta feita não haverá nenhum Plano Mateus para salvar o futebol em Portugal e que o destino do Estrela da Amadora (e do Boavista, e do Farense, e Salgueiros e tantos outros) pode rapidamente alargar-se a outras entidades que hoje em dia passam por pagantes, a tempo e horas, mas que vivem com uma mão à frente e outra atrás, desesperados por um negócio brilhante ou um encaixe surpresa que permite branquear as contas. Hoje em dia o futebol português (num fenómeno que está longe de ser nacional) está bem perto da bancarrota. Os chamados três grandes acumulam um passivo impressionante, que em nada condiz com a forma como vivem e encaram cada temporada. O FC Porto apesar dos brilhantes negócios vive com um fantasma de um passivo que ninguém consegue explicar. Os empréstimos, as comissões, os prémios aos directivos da SAD e outros negócios obscuros ajudam a explicar o aparentemente inexplicável. Que o único clube português desportivamente bem sucedido, autor de alguns dos melhores negócios da década, seja também o que possui o passivo mais significante. Já o SL Benfica acumula um passivo histórico, que vem desde os dias das presidências de Manuel Damásio e Vale e Azevedo e que parece não ter cura, apesar dos empréstimos e das iniciativas de marketing desportivo, que inclui até um canal próprio, bicho raro por estes lados. Quanto ao Sporting, vive ainda o peso do plano Roquette que se saldou por um falhanço em toda a linha e que condicionou a própria estratégia desportiva do clube na última década, relegado a ter de viver da formação e sem capacidade de investir no mercado.
Essa é a realidade dos chamados grandes e daí para baixo a situação piora. Sem a capacidade de gerar ingressos, os restantes clubes das duas ligas profissionais vivem constantemente com a corda na garganta. Dividas ao fisco, à segurança social, ordenados recorrentemente em atraso, prémios de jogo inexistentes...no futebol português há de tudo um pouco e quase nada que se aproveite. Bancadas vazias de estádios sem condições ou construções principescas sem equipas que as aproveitem. Jogos transmitidos a horas proibitivas e negócios obscuros de patrocinadores que controlam o mercado como um autêntico monopólio fazem o resto. O futebol em Portugal está gravemente doente e face a estes sintomas o cirurgião de serviço, Herminio Loureiro, decide sacar um coelho vistoso da cartola.
Sem derbys em jornadas consecutivas, equipas da mesma região impedidas de jogar em casa na mesma ronda, são as propostas da Liga. O presidente da instituição fala em dinamizar a indústria do futebol mas não se percebe realmente que impacto possam ter estas condicionantes ao sorteio de uma prova que pura e simplesmente não é rentável. Portugal vive hoje o mesmo problema que tiveram outras ligas em diferentes etapas. A mais celebre, a liga inglesa que em 1992 mudou radicalmente e tornou-se Premier League, lançando as bases para aquela que é hoje reconhecidamente a maior prova futebolistica nacional do mundo. A Bundesliga, que durante anos viveu uma grave crise financeira com estádios vazios e jogos com baixíssima audiência é hoje um dos mais atractivos e competitivos campeonatos da Europa, resultado igualmente da postura colectiva de clubes e federação que adoptaram uma série de medidas com vista a revitalizar um dos históricos campeonatos europeus. Por outro lado em Itália os clubes negoceiam de forma a devolver a Serie A ao seu lugar, depois de anos de total abandono desportivo e financeiro por parte das grandes instituições, patrocinadores e do Estado italiano que levaram à fuga em massa de talentos e à baixa qualitativa do futebol italiano. Em Portugal condiciona-se o sorteio e nada mais...absolutamente nada mais.
Por um lado é necessário apontar o dedo acusador aos clubes, que vivem as suas constantes guerrilhas individuais, incapazes de olhar mais longe do que o próprio umbigo e perceber que uma prova rentável é um beneficio para todos e não só para os mais pequenos. Mas a FC Porto, Sporting e SL Benfica não interessa perder o dominio, ou melhor, o falso dominio, que detêm de uma prova acabada. Os empréstimos fora do controla que permitem ao FC Porto controlar clubes, ou condicionar directamente as relações nas assembleias da Liga são a prova viva do que nasce torto não se endireita. Enquanto as instituições desportivas não perceberem que a inação é o primeiro passo para o fim, o cenário não mudará. Enquanto isso a própria Liga está de mãos atadas mas tem a função moral, como minimo, de denunciar a situação actual, a irresponsabilidade dos clubes e lançar propostas na mesa que não se fiquem pela superficie. Contratos televisivos colectivos são a pedra base para salvar um futebol moribundo.
Apostar na formação nacional, reavaliar as infra-estruturas desportivas, desenvolver o marketing institucional, penalizações imediatas e exemplares aos clubes não cumpridores e criar condições para ter os estádios cheios (mudar horários e preços de bilhetes e reduzir as transmissões televisivas) serão obrigatoriamente os próximos passos. Criar Taças da Liga que não interessam a ninguém, condicionar sorteios e lamentar a sorte de quem é apanhado (e não de quem pervarica) só servirão para enterrar ainda mais o futebol nacional. A Liga Portuguesa de Futebol Profissional tem de funcionar como o cirurgião do nosso futebol e não como o coveiro de uma competição que caminha a passos largos para o seu final.
Após a saída de Lucho Gonzalez o FC Porto prepara já o assalto á próxima época de novo com os olhos postos no futebol das "pampas". No preciso dia em que a época termina na Argentina, os dragões parecem estar prestes a atacar mais dois atletas argentinos que se juntem assim á imensa delegação que já vive no Dragão. A iminente saída de Lisandro - o outro argentino bem sucedido do Dragão - significará também que das várias apostas azuis e brancas, o clube perde os primeiros e únicos jogadores a chegarem via Buenos Aires ao Porto que realmente foram bem sucedidos. O exemplo de Bollati serve de precedente para os azuis e brancos. Nem sempre brilhar no futebol argentino significa brilhar na Europa.

E a comparação é evidente face ao baixissimo nivel exibido pela grande promessa que era Bollati no dia em que chegou ao Dragão. Catalogado como a nova grande promessas che, o jogador nunca se conseguiu impor ao lado do seu compatriota e Raul Meireles no miolo do meio campo azul e branco. Devolvido á procedência, o jogador tornou-se na chave do ataque ao titulo do surpreendente Huracan, treinado por Angel Cappa, que hoje pode voltar a sagrar-se campeão depois de um larguissimo jejum de titulos. Bollati é de tal forma uma das figuras do campeonato que Maradona está a preparar-se para leva-lo á selecção celeste. Nessa perspectiva os portistas nem imaginam em repescar o jogador. Pelo contrário, preparam-se para utiliza-lo de forma a abaratar mais uma investida num mercado que não lhe tem sido bem sucedido e que se tornou na grande mina de ouro, depois da era portuguesa de José Mourinho e as constantes viagens ao Brasil. Quer Tomás Costa, quer Nelson Benitez, quer Mariano Gonzalez (esse via Itália), quer Ernesto Farias foram apostas totalmente falhadas para o que se esperava realmente deles por parte dos adeptos azuis e brancos. Se a isso juntar-mos o uruguaio Fucile (acompanhado agora por Alvaro Pereira9 e o colombiano Guarin, torna-se mais evidente da excessiva dependência do tetracampeão nacional do mercado hispânico da América Latina.
E agora há toda uma nova geração de jogadores vindos directamente do campeonato argentino ou com nacionalidade argentina, que podem começar o ano de azul e branco. De Fernando Belluschi, promissor médio do River Plate que actua no Olympiakos grego, a Diego Valeri, médio igualmente promissor de 23 anos que actua no modesto Lanus mas já com um historial de lesões complicado que o impediu há dois anos de dar o salto á Europa, são vários os nomes na mesa. Sem esquecer a tentativa de contratar o colombiano Falcão, actualmente no River Plate, ou de roubar ao Palermo o médio Pastore, parceiro de Bollati no meio campo do Huracan. Uma autêntica legião de jogador, na maioria, promessas ainda por cumprir.
Depois da forte dependência do mercado brasileiro entre os anos 90 e o principio da última década, a direcção do FC Porto começou a olhar mais para baixo no mapa e trocou o sotaque português pelo castelhano argentino. Ibarra foi o primeiro falhanço mas a boa experiência com a dupla Lucho e Lisandro instigou os dragões a voltar a pescar no mesmo rio. Sem qualquer tipo de sucesso ou descoberta que indique que ali há uma real mina de ouro. Que há jogadores argentinos de grande futuro, isso não há dúvida. Mas aqueles que chegam ao Dragão, misteriosamente, perdem-se e deixam de exibir o mesmo futebol fluído e alegre que encontramos nos videos dos seus jogos mais aplaudidos no campeonato de origem.

Apesar desses constantes flops - e tem sido mais que um por temporada nos últimso anos - a direcção de Jorge Nuno Pinto da Costa continua a apostar misteriosamente no mercado argentino como se fosse um exclusivo mundial azul e branco, isto quando o grande rival no ataque ao titulo, já dispõem da própria conexão argentina para atacar o titulo. A confirmarem-se as duas ou três entradas de novos jogadores argentinos que a imprensa local e portuguesa avançam nas últimas edições, a equipa portista ficaria com um autêntico exército argentino no plantel. E como já dizia José Maria Pedroto em relação aos jogadores brasileiros, um é bom, dois são excelentes mas três já fazem uma escola de samba...será que no Dragão se pretende abrir uma escola de tango ou haverá algo de mais misterioso nestas constantes viagens ao rio de la Plata?
Numa liga onde os recursos são escassos e onde o dinheiro flui com dificuldade, os clubes que não na castradora categoria de "grandes" vêm-se aflitos por manter-se à superficie e disputar de igual para uma igual uma prova quase viciada à partida. Entre todos a última década viu destacar dois modelos de gestão de resultados distintos. Por um lado está o Nacional da Madeira, habilmente gerido por Rui Alves que encontra nas suas frequentes viagens ao Brasil, pequenas pérolas atlânticas que logo se tornam em negócios da China. Desta forma os alvinegros têm-se afirmado nos patamares superiores da Liga depois de décadas a viver na sombra dos rivais União e Martimo.

Já no continente e bem a norte está a politica seguida pelo Sporting de Braga. O clube da cidade dos arcebispos tem feito, ano após ano, uma forte aposta desportiva que o consagre no tal "quarto grande" que lhe permita disputar titulos, adeptos...e rendimentos que a condição actual não consegue gerar. Apesar de época após época a aposta ser cada vez maior, a verdade é que à parte da vitória na Taça Intertoto (tornando os bracarenses o quarto clube português...a vencer uma prova oficial da UEFA) e a boa campanha na Taça UEFA da passada época, a nivel interno o Braga nunca conseguiu realmente disputar os primeiros postos até ao fim da temporada regular, tendo mesmo sido surpreendido, há dois anos, pelo eterno rival de Guimarães que, chegando direitinho da Liga de Honra, passou a maior parte do ano no segundo posto acabando por ficar com o posto mais baixo do pódio. Um lugar que os bracarense ainda não lograram alcançar. A equipa do Sporting Braga tem sido, ano após ano, das que melhor futebol tem praticado no terreno de jogo, mas as falhas em jogos decisivos têm impedido sempre de sonhar com algo mais. A falta de resultados desportivos obrigou António Salvador a abrir o plantel para realizar um encaixe que permite evitar que o clube entre numa espiral que destroçou outros projectos ambiciosos para lograr esse mitico titulo de "grande".
A assinatura do protocolo de cooperação estratégica com o Manchester United é a primeira etapa para a nova vida dos bracarenses. O clube que curiosamente até equipa à Arsenal, um dos rivais históricos dos Red Devils, vai tornar-se no novo parceiro estratégico no continente do tricampeão inglês depois de vários anos a trabalhar directamente com o Antwerp belga. A equipa de Sir Alex Ferguson sempre apostou em ter um clube a disputar um campeonato competitivo na Europa dentro da sua esfera de influência. A aposta no Braga resulta da boa campanha europeia dos bracarenses mas também do crescente interesse do técnico e do seu staff em relação ao mercado português (e sul-americano principalmente), uma relação que não surpreende face à passage de Carlos Queiroz por Old Trafford num periodo onde os Red Devils contrataram três jogadores a actuar em Portugal (Cristiano Ronaldo, Nani e Anderson) e se voltaram claramente para o mercado brasileiro. Sabendo bem que Portugal é a ponte priveligiada para os jovens brasileiros darem o salto ao futebol europeu, ter uma parceria estratégica com um clube da Liga Sagres é o ideal. Por outro lado, para o Braga, é fundamental ter um parceiro forte capaz de emprestar jogadores de alto nivel e margem de progressão sem ter necessariamente de depender de um rival directo (Benfica ou Porto) dentro de portas. Um novo modelo de parceria estratégica que pode ser a solução para muitos clubes a nível mundial que não lograram ainda dar o salto à elite desportiva. Um núcleo onde o Braga se encontra há já meia década.

Rodrigo Possebom é o primeiro exemplo de como o clube arsenalista pode crescer com esta relação. O médio brasileiro mas com passaporte italiano (já actuou pela selecção sub20 da azzurra), é um dos jogadores com mais potencial do plantel do Manchester United. Com excelente visão de jogo e fino recorte, tem uma imensa margem de progressão tendo mesmo sido estreado já na equipa titular do United na época transacta. Uma estreia contra o Newcastle onde actuou no posto de médio box-to-box. No entanto poucas semanas depois, num jogo contra o Midlesborough, sofreu uma selvagem entrada do austriaco Pogatetz que lhe provocou a fractura da perna e o abandono da competição até ao final do ano. Contratado em 2007 (no mesmo ano que chegaram a Manchester os gémeos Fábio e Rafael da Silva e o portista Anderson, a primeira vez na história do clube que o United contou com 4 brasileiros) ao Internacional de Porto Alegre onde já destacava, o jovem jogador foi uma aposta pessoal de Queiroz que chegou a tê-lo na lista dos futuros "nacionalizáveis" para a equipa portuguesa. O médio de 20 anos não é o primeiro jogar do United a chegar ao AXA Estádio (a distinção cabe ao angolano Evandro Brandão, outro avançado jovem de grande potencial do United) mas será um elemento fundamental na estratégia de Domingos Paciência.
Uma nova etapa na vida do clube que encontrou um excelente desvio para contornar os problemas financeiros sem perder a competitividade do seu plantel mantendo-se assim como um dos sérios candidatos a disputar os primeiros postos da Liga Sagres 2009/2010.

