Fechou o mercado de transferências (até Janeiro) e agora as águas turvas do mundo do futebol vão acalmar por uns tempos. Foi uma azáfama, uma corrida contra o relógio até à meia noite que deixou alguns negócios surpresas e muitas, muitas dúvidas (ou certezas) sobre como anda o desporto-rei. Começa a ser cada vez mais evidente que a total liberalização do mercado de transferências abriu caminho a um amplio submundo de dinheiro negro, sujo, escondido que o grande público não vê por detrás de negócios hilariantes e sem nenhum sentido desportivo. Portugal continua a ser um exemplo perfeito de como mexer no mercado por todos os motivos, menos pelo jogo em si, mas não é caso único. Sob a inoperância das grandes organizações directivas poucos se atrevem a dizer que... o rei vai nu!
Sempre houve negócios sujos e estranhos nos mercados de transferência, com luvas por debaixo da mesa e comissões por declarar.
Mas o que se viveu este Verão, e nos últimos porque isto vai in crescendo, reforça a teoria de muitos de que o mundo do futebol é cada vez mais um mundo tão perigoso e suspeito como o de qualquer actividade ilegal perseguida e vigiada pelas autoridades policiais. No livro Pay as Yoy Play, um grupo de estudiosos ingleses analisa as contratações nos últimos 20 anos da Premier League e chega a essa conclusão: hoje, uma transferência, é cada vez menos um negócio desportivo e, cada vez mais, uma forma hábil de lavar dinheiro, pagar favores e ganhar influência.
Portugal continua a ser um paraíso de corruptos, seguindo a tradição mediterrânica que se estende por Itália, Grécia, Turquia e Espanha, e como paraíso de corruptos que é, de Norte a Sul, o futebol continua a ser uma arena perfeita para negociar por debaixo da mesa o que ainda é ilegal às claras. Só isso pode explicar mais de uma dúzia de negócios realizados à última hora por parte dos grandes clubes lusos - os pequenos limitam-se a copiar, em menor escala, o que vêm funcionar nos graúdos - que encontraram em agentes FIFA - nomeadamente o todo poderoso Jorge Mendes - e em clubes aliados por essa Europa fora, parceiros idóneos para maquilhar contas, pagar velhos favores, ganhar novos amigos e, sobretudo, agradar a quem realmente manda hoje em dia no mundo do futebol: os empresários desportivos.
Granada, Zaragoza e Atlético Madrid representam em Espanha o que de pior se pode imaginar nesse submundo de trocas e baldrocas desportivas, tão putrefacto que nem as autoridades se atrevem realmente a investigar. Não surpreende, portanto, que tenham sido os parceiros perfeitos para os negócios mais surpreendentes dos clubes lusos que têm realmente algo que ganhar com este mercado de três meses que muitos suplicam que se reduza a um e termine a 1 de Agosto esquecendo-se de que isso é tirar o pão da boca a quem paga o desporto, os milionários que movem o dinheiro e os agentes que lhes servem de intermediários.
FC Porto, Sporting CP e SL Benfica continuam a ser clubes com gestões pouco transparentes e, sobretudo, repletas de manchas no que ao Fair Play desportivo implica, pelo menos segundo os critérios da UEFA que continua a lavar as mãos e a olhar para o lado enquanto assiste, impassível, a este mercadilho.
Não é assim em todo o lado. Em Itália há uma velha tradição de co-propriedade que permite a dois clubes partilhar o passe de um jogador num prazo máximo de dois anos até que um dos clubes, finalmente, compra a percentagem restante. Uma situação muito mais limpa e transparente que dá pouca margem de manobra para negócios surpresa de última hora (um clube estrangeiro tem de comprar os 50% a ambos os clubes para ficar com a totalidade do passe do jogador). Em Inglaterra houve muita agitação e, salvo o caso de Joe Cole (emprestado ao Lille), muitos negócios entre clubes da Liga. Mas tudo às claras, sem comissões escondidas e, sobretudo, sem fundos porque a Premier não permite que um passe seja detido por alguém que não seja um clube, algo que vem dos dias de Tevez e Mascherano. Mas também é certo que a Premier foi a primeira liga a abrir a borbulha e a permitir a chegada dos milhões do petróleo e gás, que encontraram em clubes de futebol a forma perfeita de lavar o dinheiro ilegal que iam ganhando nos seus países de origem. O caso dos argentinos levou a FA e a Premier a acordar a tempo para a nova realidade negocial e a travar - juntamente com a velha exigência de que os jogadores tenham um minimo de internacionalizações pelo seu país - esta derrapagem financeira. Mas esse negócio abriu precedentes.
Como os de Alex Sandro e Danilo, novos jogadores do FC Porto. Os azuis voltaram a romper o mercado graças a Falcao (e recusaram propostas por Alvaro, Fernando e Moutinho até ao fim) mas acabaram por investir pouco do dinheiro ganho (12 milhões em Defour e Mangala e alguns trocos entre Kelvin, Iturbe e percentagens de passes adquiridos). Essencialmente porque os quase 20 milhões que custam os dois brasileiros são cortesia do fundo que comprou ambos os jogadores e que pretende utilizar o clube das Antas como plataforma na Europa. Os jogadores actuam no FC Porto até que uma proposta maior permita aumentar a rentabilidade do investimento e ninguém se surpreenderá se daqui a um ano nenhum dos dois atletas fique na Invicta. Um negócio obscuro que não é nada novo nas manobras de Pinto da Costa no mercado sul-americano que começou há uns anos com a compra de percentagens de passes (algo que em Inglaterra é ilegal, por exemplo) e nos negócios com empresários de reputação duvidosa que utilizavam os seus próprios clubes plataforma, criados ou reestruturados para potenciar jogadores, para sacar o seu lucro. O negócio mais chamativo dos dragões inclui a venda de Falcao por 45 ao Atlético. Uma surpresa porque ambos os clubes estavam de relações cortadas com o caso Paulo Assunção (que chegou até à UEFA) mas que se explica porque nenhum outro clube estava disposto a pagar tanto pelo colombiano. E porque Jorge Mendes estava envolvido na transferência.
O agente FIFA, que fez de Madrid a sua casa (os seis jogadores que tem no Real Madrid, incluindo um desconhecido Pedro Mendes que já se estreou no troféu Bernabeu para rentabilizar um passe que pertence ao próprio empresário), incluiu Ruben Micael no negócio por valores que vão de zero a cinco milhões, dependendo das versões. Um jogador que o Atlético não queria e que acabou no Zaragoza, clube que está em concurso de credores, mas que pode vender e comprar jogadores porque a lei espanhola é assim, uma lei sem lei. O Deportivo que bem se queixou do trato preferencial dado ao clube aragonês já ameaçou denunciar os "maños" à FIFA e com razão. Um clube sem dinheiro, com dividas astronómicas, que acabou por ser o rei do mercado nos últimos dias graças ao dedo miraculoso de Mendes. Um clube que comprou por uns meros 500 mil euros o passe de Helder Postiga, o avançado titular do Sporting. Um clube que adquiriu o jovem Juan Carlos, promessa da cantera do Real Madrid que foi comprado pelo Braga (com ajuda de Mendes) para acabar junto ao Ebro. Isto claro sem falar do negócio Roberto com o Benfica que levou o clube das águias a justificar à CMVM que a venda de 8 milhões de um guarda-redes que custara...8 milhões (num ano em que o seu passo desportivamente se desvalorizou de forma absoluta e inequivoca aos olhos do Mundo) se devia a que Roberto tinha sido adquirido por um fundo (onde também está Mendes) e que o Zaragoza tinha pago umas migalhas. Zaragoza, clube que adquiriu mais 10 jogadores (entre vários internacionais se inclui Fernando Meira) e que vendeu um dos seus dianteiros, Uche, ao Villareal curiosamente pelo mesmo valor que era devido ao Getafe, o clube da sua procedência. Claro que Uche não vai jogar no Villareal mas sim no Granada, outro clube desta trilogia à espanhola envolvido intimamente com o futebol português. Detido por investidores italianos, onde se inclui o dono da Udinese, o Granada estreitou ligações com o Benfica, obtendo Jara, Yebda, Júlio César e Carlos Martins por empréstimo. Zaragoza e Granada, clubes sem dinheiro, com um estádio novo por construir, terrenos por alienar e amigos influentes no mundo da construção civil que se tornam alvos apetecíveis para tubarões de águas profundas.
Mas até históricos caem nesta rede de dinheiro que se move à velocidade da luz, aparece e desaparece, e permite a máquina continuar a funcionar. O Atlético de Madrid é o exemplo perfeito nas mãos de Gil Marin, filho do polémico Gil y Gil, e com a colaboração de Mendes. A chegada de Falcao é um exemplo perfeito mas mais interessantes são os casos do esquadrão bracarense e de Julio Alves. O irmão mais novo de Bruno Alves, que apenas jogou na Liga Sagres pelo Rio Ave, foi contratado para ser imediatamente emprestado ao Bessiktas onde, curiosamente (ou não), já jogam Simão, Manuel Fernandes, Bebé, Quaresma e Hugo Almeida. Todos "homens Mendes"!
De Braga chegou Silvio e um contrato de preferência sobre Pizzi, revelação no Paços, que acabou por aterrar no Calderon por um valor que pode chegar aos...15 milhões de euros, impensável para um jogador sem mercado, mais o empréstimo de Fran Merida, revelação espanhola por confirmar desde os dias do Arsenal. Mas se no Manzanares entram jogadores a preço de saldo, tal como sucedeu com Roberto - o Atlético também tem um novo estádio a ser preparado, relembro - saem jogadores com preços de mercado inflacionados. É o caso de Elias, descartado, raramente utilizado desde a sua chegada em Janeiro, que aterra em Alvalade pelos 8,5 milhões que custou. O Sporting, que mudou por completo o plantel de um ano para o outro, gastou pouco em muitos jogadores. Em Elias gastou mais do que arrecadou com todas as vendas e começam a voltar as suspeitas sobre a real saúde das finanças leoninas.
Casos graves que passam ao lado de investigações policiais sérias e independentes.
Mas que não são exclusivos de clubes lusos ou pequenas plataformas espanholas. Até um clube como o Real Madrid hoje depende dos empresários para confeccionar o seu plantel. Vejam o caso de Altintop. Um jogador livre, dispensado pelo Bayern Munchen, com uma grave lesão nas costas que acaba no Real Madrid de forma surpreendente. Para muitos talvez o que surpreenda é que o turco provavelmente nunca jogue com os merengues já que está prevista a sua venda ao Galatasaray no próximo Verão depois de um empréstimo de seis meses a começar em Dezembro. E porque chegou Altintop ao Real Madrid?
Porque o seu empresário é o mesmo de Nuri Sahin, a grande promessa turca que o clube merengue contratou ao Dortmund. Uma exigência do empresário (e do jogador, que é o "protegido" do capitão da selecção turca) foi sempre de chegar a Madrid acompanhado por Altintop para valorizar o seu passe de forma a que este pudesse voltar à Turquia sem problemas, já curado da sua lesão que, garantidamente, iria impedir a sua colocação durante o Verão em qualquer clube. O Real Madrid lutou contra a situação mas rendeu-se à evidência. E hoje oficialmente, Altintop é jogador merengue. Como Bebé foi jogador do Manchester United - sem o clube o ter visto sequer jogar - ou como Tevez ainda se move por Inglaterra sem saber-se realmente bem a quem pertence o seu passe.
Essa ditadura dos empresários, aliada à sagacidade de alguns dirigentes, tem condicionado por completo um mercado enlouquecido.
Na maioria dos casos os jogadores são conscientes do circulo vicioso em que entram. Aceitam contratos chorudos para paliar o mínimo impacto desportivo nas suas carreiras mas muitos deles voltam rapidamente ao ponto de origem, como virgens arrependidas. Outros deixam-se levar pela conversa de empresários e dirigentes e perdem-se completamente para o futebol, entregues aos excessos do dinheiro e ao mínimo controlo que o clube receptor exerce na sua carreira. A maioria dos casos são jogadores sem futuro a quem lhes custa muito recuperar. O caso de Ricardo Quaresma é, sem dúvida, o mais gritante. Negócio Mendes a três niveis, passou do FC Porto ao Inter, do Inter ao Chelsea por empréstimo e daí para o Bessiktas, desaparecendo a pouco e pouco o destelho de arte que o converteu numa das grandes promessas do futebol mundial. O mesmo se pode dizer de mil e um atletas, carne para canhão neste mundo de milhões que transformam presidentes de clubes em milionários, empresários em semi-deuses e treinadores em cúmplices de projectos desportivos que se desfazem. Manzano, Vitor Pereira, Jorge Jesus, Domingos Paciência, Javier Aguirre ou Leonardo Jardim são treinadores que viram os seus planteis aumentar e diminuir de forma descontrolada durante o último mês, sem saber realmente com quem contavam para trabalhar. Domingos ficou com um plantel praticamente novo. Jesus desmontou, quase definitivamente, a sua equipa campeã. Vitor Pereira ficou sem opções para zonas do terreno onde o FC Porto vive órfão e Leonardo Jardim limitou-se a acenar que sim quando António Salvador apareceu com o dinheiro no bolso. Realidades que os adeptos não entendem e que se estendem em clubes menores com compras em paquetes express a clubes sem expressão ou com o regresso de futebolistas perdidos em ligas como a romena, cipriota, grega, russa ou ucraniana e que tentam recomeçar do zero depois de terem sido abandonados, como cordeiros no altar, ao sacrifício do Dom Dinheiro.
O futebol continua a caminhar perigosamente para um túnel sem saída. O dinheiro que se move é cada vez maior e, sobretudo, cada vez mais oculto. Não se pagaram mais de 50 milhões por um jogador - como sucedeu nas últimas épocas - mas pagou-se muito dinheiro que ficou por declarar e justificar tendo em conta o rendimento de mais de um atleta. Projectos como o do Zaragoza sobrevivem com a cumplicidade da legislação, já de si construida para beneficiar quem mais tem a ganhar com ela. Clubes como o Benfica e Sporting entregam-se a negócios obscuros que dificilmente poderiam justificar e entidades como o FC Porto ou Atlético de Madrid continuam a utilizar os empresários e os misteriosos fundos para manter-se na ribalta quando financeiramente vivem na corda bamba do resultadismo. No caso dos portugueses, na constante presença na Champions League, no caso dos espanhóis nos empréstimos bancários e na borbulha imobiliária que definiu a vida de muitos clubes de futebol no país vizinho na última década. Olhando para estes nomes, números, para estas coincidências que não o são, para tantas suspeitas por justificar, é irónico ouvir a UEFA falar de fair play e as autoridades policiais a assobiar para o lado quando um negócio como o futebol, talvez uma das indústrias mais poderosas da actualidade, continua a ser pasto para corruptos e corruptores passearem à vontade sabendo que o risco é minimo e o lucro gigantesco. À medida que esses jogadores se movem, ocupando lugares em plantéis onde muitas vezes nem contam, os clubes abandonam a formação, a aposta em jogadores da casa ou em negócios desportivos realmente relevantes, ideias que se tornaram, na mente dos directivos de SADs quimeras quixotescas quando existe a possibilidade de ganhar milhões. Enquanto o mundo do futebol continuar a vier neste limbo muitos Julio Alves e Bebés acabarão na Turquia depois de sonhar com a glória da Liga Espanhola ou da Premier e muitos veículos desportivos, viagens de luxo, terrenos em zonas privilegiadas ou negócios bem mais perigosos passarão pelas mãos de quem realmente tem a bola debaixo do braço.
Não aterra num planalto desconhecido mas o plano de voo de André Villas-Boas certamente que sofreu mais de uma correcção desde que o técnico começou a desenhar o seu futuro. A sua chegada a Londres está marcada por lembranças pretéritas, traições mal explicadas e uma ambição tremenda. O português tem tudo para consagrar-se no futebol inglês como um treinador de excepção. Tudo menos o mais importante. AVB já corre contra o relógio.
Apesar da fama da Premier League de respeitar o trabalho do Manager acima de todas as coisas, o Chelsea não é o melhor exemplo a seguir.
Nos últimos sete anos o clube já contou com sete treinadores, com Avram Grant, Luis Filipe Scolari e Guus Hiddink a não completarem sequer uma só época. O israelita e o russo foram opções alternativas e chegaram para sanar as feridas deixadas pelas saídas inesperadas (ou talvez não) de Mourinho e Scolari. Mas não tiveram tempo, oportunidade ou vontade de continuar. O Chelsea consegue ser um projecto muito stressante.
Villas-Boas sabe-o e muito bem. Chegou em 2004 com o resto da comitiva anónima que seguiu com José Mourinho do Porto para Londres. Por essa altura chamava menos à atenção que o possante Silvino ou o inseparável número dois, Rui Faria. Mas o seu trabalho de prospecção revelou-se chave na preparação das três épocas de Mourinho, nas contratações de Essien, Diarra, Cole e companhia. Quando Mourinho saiu, a Villas-Boas não lhe teria incomodado ficar um pouco mais numa cidade onde se sentia em casa. Mas decidiu seguir o seu mentor. Por pouco tempo. Esse ano sabático de Mourinho permitiu ao portuense ver o seu futuro como treinador principal. E foi aí que o jovem olheiro começou a desenhar o seu futuro. Mas nem ele imaginaria que voltaria à capital inglesa tão depressa. Não fosse por Guus Hiddink e talvez o seu regresso nunca tivesse acontecido de todo. Uma questão de timing!
O holandês, actual seleccionador da Turquia, foi cortejado por Abramovich durante meses a fio. Nem o fracasso com a selecção russa retirou prestigio a um homem que já foi uma vez chamado pelo bilionário russo para tapar os buracos de gestão em Stamford Bridge. A Hiddink o projecto não lhe deve ter achado muita graça. Nem quis continuar ao leme do clube, abrindo caminho para a chegada de Carlo Ancelloti, nem sequer mostrou grande interesse em voltar. As negociações arrastaram-se até que o técnico disse finalmente não ao seu amigo Roman. O dono do Chelsea olhou para o mercado e viu poucas possibilidades em carteira. O relógio continuava o seu curso e o tempo escasseava. O timing era tudo e havia pouco por onde pescar. Decidiu sacar o livro de cheques e recuperar um velho conhecido, com quem falava alegremente no escritório de José Mourinho quando baixava ao centro de treinos para ver que tal ia a sua equipa. Villas-Boas conhece bem Abramovich e sabe o que o espera. Para ele sair do FC Porto era algo inevitável, por muito que tenha entretido os adeptos azuis e brancos com declarações de amor eterno que já nem se usam. Talvez não imaginasse que o salto fosse tão precoce. Nisso teve culpa própria, afinal a época azul e branca não passou desapercebida ninguém. Nem o timing da sua escolha.
O novo treinador do Chelsea saiu da sua cidade como um traidor e chegou à sua admirada Londres debaixo de muita suspeita.
Os adeptos do FC Porto dificilmente irão perdoar o inevitável. A Invicta, apesar de ser a sua cidade, tarde ou cedo acabaria por ficar pequena para as suas ambições, declaradas ou não. O seu problema foi esse maldito timing, a única coisa que não controlou ao longo do defeso. A oferta do Chelsea foi repentina (os contactos prévios que Pinto da Costa referia dizia apenas respeito a um trabalho como treinador de campo) e irrecusável. Tanto pelo dinheiro envolvido - e Villas-Boas, como qualquer outro, é um profissional - como pelo projecto. Tal como com Mourinho em 2004 (que recusou o Inter como Villas-Boas porque Abramovich prometeu muito dinheiro para reestruturar a equipa), o portuense chega com a ilusão de começar do zero.
Lampard, Terry, Cole, Cech, Anelka e Drogba estão mais perto do final das suas carreiras (ou do seu zénite, pelo menos) do que do arranque. A espinha dorsal sobre a qual Mourinho construiu o seu projecto começa a dar lugar a novos rostos. Torres, Bosingwa, Alex, Ivanovic, David Luiz, Obi Mikel, Ramires ou Benayoum já lá estão. Mas os muitos milhões que o russo promete colocar à disposição do seu novo técnico permitem imaginar um plantel totalmente reestruturado a que se podem juntar também os jovens que Ancelloti foi lançado (Sturridge, van Aaholt, McEachran, Kakuta, Bruma) e que foram sendo recrutados pelo departamento de prospecção, como o brasileiro Lucas Piazon. Para ele, em Londres, o timing é perfeito para começar uma nova era, sem o peso do passado nos ombros e com a expectativa de um futuro brilhante pela frente.
Villas-Boas seguirá os passos de todos os treinadores quando rumam ao estrangeiro e certamente levará consigo um ou dois dos seus ex-jogadores. Com isso enriquecerá ainda mais o seu ex-clube e saldará qualquer conta pendente. O seu karma foi talvez o optimismo (ou oportunismo) das suas declarações ao longo do ano. Que talvez fossem genuínas mas que condicionaram forçosamente qualquer decisão futura. Mas AVB não deixa de ser o mais significativo negócio na história do clube azul e branco e pode, com o seu poder de decisão em Londres, permitir ao seu antigo clube reestruturar totalmente o seu orçamento desportivo. Mérito da sua gestão como treinador e da sua saída.
Em Londres vai encontrar, sobretudo, desconfiança. Um Special Two sem sentido - até porque Mourinho e o seu Special One chegaram com o glamour de uma Champions debaixo do braço - mas que terá bem em cima a lupa de adeptos, gestores, imprensa e jogadores. Se com os primeiros Villas-Boas tentará emular a relação que tinham com Mourinho (e que perderam nos últimos quatro anos) com os restantes o braço de ferro será mais interessante. Particularmente com os nomes duros do balneário, Terry à cabeça, responsáveis da queda em desgraça do seu anterior mentor.
A dificuldade da Premier League - uma Premier League espicaçada com o fluxo de dinheiro do Manchester City, a renovação do Manchester United, a prometida nova politica desportiva do Arsenal e até mesmo o reforço dos projectos de Tottenham, Liverpool, Everton e Aston Villa - será muitíssimo superior do que Villas-Boas possa hoje imaginar. A isso junta-se uma Champions League dominada moralmente pelos colossos espanhóis, mais fortes do que nunca, depois da era dos clubes ingleses ter, aparentemente, chegado ao seu final. A Villas-Boas prometem tempo, dinheiro e paciências mas todos irão exigir títulos históricos (vulgo, Champions League) resultados imediatos (sem tempo para estados de graça) e futebol de primeiro nível. Seria uma missão temível para qualquer um, mais ainda para um treinador que, apesar de tudo, ainda é um rookie. Talvez por isso a sua chegada faça todo o sentido. Villas-Boas não tem nada a perder e tudo a ganhar. Se o seu projecto falhar continua a ter mercado um pouco por todo o Mundo e tempo para dar a volta por cima. Se vencer, supera todas as expectativas (outra vez) e cria um precedente histórico. Um desafio destes era impossível de recusar. Resta saber se é impossível de concretizar!
Em 24 horas o FC Porto mudou de treinador. Pode parecer anedóctico mas é precisamente o contrário. A prova de que uma estrutura desportiva bem organizada está preparada para todas as circunstâncias, mesmo as mais imponderáveis. Ao contrário de 2004, o FC Porto não encerrou um ciclo desportivo. Mas a licção de então foi bem aprendida pelo grupo gerido por Pinto da Costa. A sucessão de André Villas-Boas não só foi imediata como, a frio, surge como algo absolutamente natural e que garante, com os devidos ajustes, que o projecto não começa do zero para a próxima época. O FC Porto demonstra, numa situação altamente complexa, que a chave do seu sucesso continua a ser a primazia da estrutura colectiva sobre a figura do individuo.
André Villas-Boas chega a Londres como o treinador mais caro de sempre.
É a oitava transferência mais alta do futebol português, um êxito que merece ser analisado com detalhe noutro momento. O portuense realizou uma época perfeita, a todos os títulos, e decidiu que o seu projecto de vida precisava de um salto de dois degraus. A saída de AVB era esperada por todos os adeptos e dirigentes portuenses. Como é habitual com Pinto da Costa, os ciclos dos seus treinadores ganhadores habitualmente ficam-se pelos dois anos (salvo Fernando Santos (três) e Jesualdo Ferreira (quatro) e as perspectivas para 2011/12 eram promissoras. Havia uma genuína onda de optimismo que não era exclusiva do estádio do Dragão. Por essa Europa fora muitos esfregavam as mãos com o duelo entre FC Porto e Barcelona em Agosto, no Mónaco, e com a presença dos azuis e brancos na Champions League. Os azuis de Villas-Boas, mas também de Falcao, Hulk e Moutinho. Esse projecto chegou ao fim no momento em que o individuo, Villas-Boas, entendeu que a estrutura não lhe oferecia armas suficientes para apaziguar a sua tremenda ambição. O técnico recebeu uma oferta fabulosa do Chelsea (perdido durante semanas em negociações com Guus Hiddink) e decidiu que era o passo certo no momento certo. Ai repete o percurso de Mourinho, com um pequeno, mas importante detalhe. O sadino chegou a Londres como um treinador maduro, com duas taças europeias debaixo de cada braço e uma aura única. Villas-Boas é visto, ainda hoje, como um clone e por muito que se queira distanciar do seu antigo protector, a verdade é que nem chega com os mesmos títulos nem a sua presença funciona como uma atracção de novidade. Terá muito trabalho pela frente.
O técnico que deu ao FC Porto um dos mais bem sucedidos anos da sua história deixou também atrás de si um problema gordo nas mãos dos dirigentes. Pinto da Costa apostou, e muito, no jovem portuense. Desportivamente venceu a aposta, financeiramente fez o negócio da sua carreira desportiva. Mas moralmente a sua conexão com o treinador, de quem várias vezes anunciou que não repetiria o comportamento de Mourinho (e de Robson, que também saiu do FC Porto pela porta pequena) e que o "portismo" do técnico garantia uma longa relação, talvez inspirada pelo modelo de Guardiola no Barcelona. Para Pinto da Costa o jovem Villas-Boas poderia ser uma reencarnação da imagem de Pedroto, aquilo que Artur Jorge e Mourinho, por diferentes motivos, não quiseram ser. A saída abrupta, silenciosa e quase hostil do treinador abriu uma ferida emocional que os adeptos terão dificuldade em sarar. Mas a estrutura do clube, habituado a esta necessidade do clube de vender para sobreviver, estava preparada.
Pinto da Costa manobrou o problema com mestria.
Sob o seu comando o FC Porto transformou-se numa das instituições mais bem sucedidas do futebol europeu. Um modelo presidencialista, inspirado no mandato de Santiago Bernabeu em Madrid e que levou um clube iminentemente regional ao estrelato europeu. Um clube gerido de forma empresarial, muito similar à gestão do Bayern Munchen dos anos 80, com todos os prós e contras. Durante esses 30 anos passaram pelo clube da Invicta várias figuras individuais de inquestionável mérito desportivo. Treinadores do nível de Pedroto, Artur Jorge, Tomislav Ivic, Bobby Robson, José Mourinho ou André Villas-Boas. Dirigentes como Teles Roxo, Reinaldo Teles ou Fernando Gomes, actual presidente da Liga de Clubes. E uma imensidão de futebolistas de Oliveira e Gomes a Hulk e Falcao. No entanto, todos eles tiveram o seu ciclo - habitualmente curto - e o clube continuou a ganhar. Porque a aposta do staff presidencial sempre foi enfocada no poder da estrutura.
Villas-Boas sai do Porto e para o seu lugar entre o treinador-adjunto. Em 24 horas uma mudança que noutros clubes seria um caos que duraria meses, ficou resolvida. A acreditar nas palavras do dirigente portista - e conhecendo-o é perfeitamente possível que assim seja - a sucessão do treinador jovem mais cobiçado do futebol europeu, há um mês que estava definida. Porque a estrutura directiva soube ler os astros e entendeu que o que parecia uma declaração de amor eterna afinal podia transformar-se num pesadelo.
Pinto da Costa jogou bem as suas cartas e a sua aposta pessoal em Vítor Pereira dá agora os seus frutos. Quando Villas-Boas foi apresentado, perante o incredulidade de muitos, poucos foram os que prestaram atenção à sua equipa técnica, escolhida pelo próprio presidente. Um ex-jogador e o ex-técnico principal dos açorianos do Santa Clara. O primeiro, Pedro Emanuel, responsável pelas tarefas de treino, partiu para Coimbra, onde tentará emular o que se passou com Jorge Costa, Domingos e o próprio Villas-Boas, todos portistas com passagem pelo banco da Briosa. O outro, Vitor Pereira, espinhense e formado pela universidade da cidade, foi escolhido a dedo para precaver, precisamente, uma situação de crise. Ou de fracasso na aposta Villas-Boas ou, no extremo oposto, de um sucesso em toda a linha. Durante o ano Vitor Pereira foi a mão invisível que ajudou a criar condições para a brilhante época. Villas-Boas, ele também com uma curtíssima experiência como treinador, encontrou no seu adjunto o braço-direito ideal, da mesma forma que Paisley e Fagan secundaram Shankly, quando este tomou o leme do Liverpool. Quando o escocês anunciou abruptamente a sua saída a direcção de Anfield não procurou outro treinador de prestigio e decidiu recorrer ao tranquilo assistente, que melhorou os registos do seu mentor. Não que Vitor Pereira tenha esse peso sobre os ombros, o mandato de Villas-Boas foi curto e beneficiou de um contexto concreto. Mas deixa entender que a estrutura directiva, uma vez mais, tinha antecipado a inconstância humana que rege a figura individual de um treinador.
Vitor Pereira conhece o grupo, conhece o clube e há muito que estava a ser preparada para este momento. Cresceu sob a asa protectora da direcção e sabe o que esperam dele. Pode ver-se sem alguns jogadores influentes, como Moutinho e Falcao, mas essa circunstância faz parte da história do clube. O próprio Villas-Boas perdeu Bruno Alves e Raul Meireles e soube reinventar-se com Moutinho e Otamendi. O dinheiro que o clube encaixará, provavelmente 80 milhões entre os três, garante liquidez suficiente para atacar o mercado com a habitual sabedoria que permite aos azuis e brancos transformar porcos em pérolas num fechar de olhos.
Villas-Boas emergiu como a figura individual indiscutível do ano, e no FC Porto sabiam-no bem. Mas também entendeu que num clube onde a estrutura sempre está por cima do individuo, o seu caminho seria breve. Saiu de uma forma que se enquadra com os mecanismos do futebol contemporâneo, mecanismo que privilegiam o aspecto financeiro como no mundo empresarial, entrando em confronto com a imagem que criou durante um ano, a imagem de um treinador-adepto, romântica e impossível de funcionar neste mundo do futebol. A sua ânsia de emular (e bater) os registos de Mourinho pregaram-lhe uma partida mas ao contrário de 2004, em que a saída de um José Mourinho mas bem sucedido e sem essa aura de adepto acabou por se revelar mais traumática, a estrutura directiva do clube soube antecipar-se ao lance e de um problema sacou duas soluções. O FC Porto tem um treinador da casa para um projecto estável e um encaixe milionário no banco. De uma derrota emocional aparente, Jorge Nuno Pinto da Costa transformou um evento traumático e surpreendente numa dupla vitória. O sucesso do FC Porto explica-se por momentos assim. No próximo ano não transmitirá certamente o mesmo sex-appeal, mas como fera ferida, será duplamente mais temível.
André Villas-Boas transformou o ano desportivo num regresso ao futuro. A sua juventude, questionada ao principio, deixa antever um futuro brilhante para o técnico portuense. A forma como se instalou, confortavelmente, na cadeira dos seus sonhos, permitiu recuperar os sinais de identidade do passado. Com Villas-Boas ao leme o FC Porto voltou a ser rei de Portugal e da Europa, sob aplauso generalizado e admiração genuína. AVB tornou-se, por direito próprio, no treinador de moda do futebol europeu. E no Homem do Ano para o Em Jogo.
Aprendeu muito com Mourinho mas agradeceu a Guardiola a inspiração. E certamente não se esqueceu de beber um bom copo de vinho à saúde de Bobby Robson. Onde tudo começou. Para ele. E não só. No momento da consagração, André Villas-Boas podia sentir-se um homem completo. Logrou o inédito a uma idade precoce e no lugar onde sempre quis estar. Aí, sem dúvida alguma, traça um precioso paralelo com o treinador do Barcelona. Ambos voltam a casa, antes do tempo prevista, para ganhar tudo o que havia para ganhar e com uma filosofia e um estilo próprio que os afastam da figura em comum que os une, mas também, que os separa, José Mourinho.
Villas-Boas aprendeu do técnico sadino muito mas o seu talento precoce vinha já das suas conversas com Bobby Robson, dos seus relatórios adolescentes e das muitas horas perdidas a ver jogos atrás de jogos. Durante essas tardes, no velho estádio das Antas, sonhou com a cadeira de Pedroto, de Artur Jorge, de Ivic, Carlos Alberto...de Robson. Deu sempre passos mais longos que as pernas mas pensados ao mais minimo detalhe. E mesmo quando embarcou na cosmopolita viagem europeia com Mourinho nunca perdeu a Invicta de vista. Fez um desvio por Coimbra (por onde passaram também Pedroto e Artur Jorge) antes de aterrar no Dragão para por ordem na casa. Manteve os jogadores, mudou os principios. E ganhou a aposta. Em 365 dias mudou o rosto do futebol português. Os seus quatro titulos colocaram um ponto final na ambição do Benfica de emular algo que não consegue desde 1984, vencer dois titulos consecutivos. Numa especie de O Império Contra-Ataca, restaurou a normalidade na Liga Sagres com registos impensáveis na era moderna. 30 jogos, 27 vitórias, 3 empates, 73 golos marcados e 16 sofridos não caem do céu. Definem sim uma época.
O sucesso de Villas-Boas recai também na sua atitude.
Não é só um técnico que domina os distintos aspectos do jogo - do conhecimento táctico à gestão de balneário - mas é também um homem que sabe controlar todos os aspectos que rodeiam a vida do clube. Essa lição foi bem aprendida com Mourinho, o mentor de quem se afastou, e que soube colocar em prática durante todo o ano, tanto dentro como fora de portas. O sucesso interno do clube - em três provas, sempre à custa do Benfica - teve mais eco no futebol europeu pela caminhada vitoriosa até Dublin. Como sucedeu em 2003 os grandes da Europa ficaram prendados com o talento de gestão de um treinador mais novo do que o próprio capitão de equipa, mais novo ainda de que os precoces Mourinho e Guardiola, os dois rostos que comandam hoje em dia as hostes quando se fala em gestores de primeiro nível.
Villas-Boas não se limitou a bater recordes de precocidade. Definiu um estilo. Num FC Porto habituado nos últimos anos a um jogo temeroso, dependente em excesso do contrário ele manteve apenas o desenho táctico. Trocou os lançamentos rápidos pelo futebol pensado no miolo, recuperou principios da mistica azul e branca dos dias de Artur Jorge e a eterna fome de golos que fez parte dos ensinamentos de Bobby Robson. Uma equipa com tracção à frente mas com uma defesa segura e fiável. Uma equipa sem medo de ter a bola nos pés e com a clareza de mente suficiente para saber o que fazer com ela. E, sobretudo, uma equipa repleta de valores individuais imensos com uma forte dimensão colectiva. Esse espirito de pastor de homens - de que o Dragão estava orfão desde a debandada de Mourinho - significou um profundo regresso à filosofia do passada, cultivada desde a chegada do duo Pedroto-Pinto da Costa. Um FC Porto autoritário, ofensivo e profundamente carismático.
Não é casualidade que os grandes da Europa tenham o nome de AVB no topo das suas listas. Muitos lembram-se do que sucedeu da última vez que um jovem e desconhecido técnico despontou ao serviço dos dragões. Por muito que Villas-Boas se queixar distanciar dessa imagem, a verdade é que o jovem técnico já superou o registo ganhador do seu mentor e essa realidade está bem presente tanto em Portugal como para lá da raia fronteiriça. O treinador tem possibilidades de emular o trajecto de Artur Jorge e José Mourinho mas há algo no seu caracter tripeiro que deixa antever que se prepara para inverter a tendência. Sente-se cómodo na sua cadeira de sonho e não vê motivos para sair. Já viu o Mundo uma vez agora quer que seja o Mundo a vê-lo a ele. Este ano conseguiu-o e transformou a cidade Invicta - com autorização de Barcelona, que vive ainda noutra dimensão - na capital do futebol europeu.
Explicar o que sucedeu em 2010/2011 com o FC Porto pode resumir-se apenas numa palavra: mistica.
Os dragões realizaram na passada época uma das mais suas mais lamentáveis temporadas, reflexo de um profundo desgaste interno com a bem sucedida gestão de Jesualdo aliados à clara melhoria de dois rivais, Braga e Benfica, e também ás polémicas arbitrais que marcaram um antes e um depois no torneio. Sem Jesualdo, mas com o esqueleto do seu projecto, o FC Porto transformou-se radicalmente numa equipa autoritária, possessiva e profundamente atacante. Mérito total de André Villas-Boas, o primeiro técnico portuense (e portista) desde António Oliveira, que soube recuperar essa mistica sem alterar profundamente os cimentos da equipa. Villas-Boas transformou o jogo de transição de Jesualdo num jogo de possessão, adiantou o quarteto defensivo, deu mais liberdade ao duo mais avançado do triângulo do miolo e apoiou-se no espirito goleador do colombiano Falcao e nos desiquilibrios constantes provocados por Hulk. E ganhou.
A forma autoritária como o FC Porto arrancou para a época dictou os tempos posteriores.
Beneficiando do atraso do Benfica, que foi perdendo pontos inimagináveis por culpa própria, a goleada frente ao rival no Dragão praticamente fechou as contas do titulo e obrigou os azuis e brancos a gerir, com tranquilidade, uma vantagem que acabou em números absolutamente escandalosos e que não reflectem a real diferença entre os rivais directos. Villas-Boas, motivador por excelência da escola de José Mourinho, soube também gerir um plantel que conheceu apenas três adicções significativas relativamente ao ano anterior. Se a Otamendi e James Rodriguez o técnico foi dando tempo, revelando-se fundamentais na segunda metade da temporada, já João Moutinho foi o interprete perfeito do seu ideário desportivo, a balança que permitiu a fluidez de jogo dos novos campeões nacionais, afastando definitivamente os fantasmas dos seus últimos anos em Alvalade. Num plantel sólido e bem preparado o técnico soube igualmente explorar os momentos de forma ideias dos seus jogadores. Recuperou Belluschi na primeira parte da temporada para entregar-se a Freddy Guarin, um dos nomes próprios da segunda volta da equipa. Viveu do pulmão de Varela até que este não aguentou mais e cedeu o palco a Cristian e James Rodriguez que se foram alternando em grande parte do final da época.
Pouco se pode apontar a uma equipa que olha para trás com a consciência de que logrou fazer história. Vencer um campeonato de 30 jogos sem qualquer derrota (93 golos marcados, apenas 16 – a metade do segundo classificado – sofridos) é um feito em qualquer liga europeia. Mesmo no profundamente debilitado campeonato português não deixa de ser um logro espantoso. Basta recordar que só o Benfica de Haggan logrou o feito, já lá vão quase quarenta anos. Se ao titulo ganho de forma simbólica no estádio de Luz se juntam as vitórias em mais três provas (Supertaça, Taça e Europe League) é fácil entender que estamos ante uma das equipas mais importantes da história do futebol português. Anos asssim são como os cometas. Mágicos e que se repetem de tempos a tempos para espanto dos comuns mortais...
A certa altura o Jamor parecia o recreio da escola em que um grupo de miudos se preparava para mais um desses jogos de "muda aos cinco e acaba aos dez". Não se chegou a esse extremo e o jogo até esteve mais equilibrado do que possa imaginar pelos números frios do resultado final mas ficou evidente que o FC Porto em 2010/11 caminhou num mundo à parte. Na final da Taça de Portugal quiseram deixá-lo bem claro, esmagando outro rival minhoto sem pedalada para esta tremenda equipa azul e branca.
Nunca o FC Porto tinha ganho três Taças de Portugal de forma consecutiva.
Sempre contra rivais do Norte, sempre num estádio, como diz Villas-Boas, histórico mas a cair de velho. Mas nunca com tamanha superioridade. Depois das vitórias de Jesualdo Ferreira, a consagração de Villas-Boas e o broche perfeito a uma época inesquecível. Se em Dublin a exibição tinha sido pouco entusiasmante, muito por culpa do jogo cuidado e táctico do Braga, no Jamor foi o espelho perfeito da filosofia robsoniana a que Villas-Boas acude quando gosta de falar de origens. O FC Porto passou uma tarde solarenga em Oeiras com o pé constantemente no acelerador e saiu do estádio Nacional com mais do que um troféu nas mãos. Saiu com o sentimento do dever cumprido, de uma vitória que completa um "Poker" histórico que nem José Mourinho logrou conquistar. Uma época que começou na Supertaça de Aveiro frente ao Benfica e que terminou no abate ao Vitória de Guimarães que nunca soube por cordura num jogo eléctrico e de causa-efeito. Os vimaranenses chegavam com a esperança que os festejos europeus dos dragões passassem factura mas a verdade é que encontraram com uma equipa mais desperta e dinâmica do que nunca. Sem uma referência fixa no ataque, pela ausência por lesão de Falcao, o FC Porto destroçou o jogo defensivo do Vitória com as sucessivas trocas de posição entre Varela, Hulk e James Rodriguez. O colombiano não se limitou a marcar o hat-trick e a ser o homem do jogo. Foi também o espelho moral em que se mediu esta equipa, com uma fome tremenda de glória. Começou por ter poucos minutos mas foi encontrando o seu espaço na estrutura montada por Villas-Boas e é, inequivocamente, uma das figuras chave deste final de temporada confirmando tudo aquilo que deixava antever nos seus dias do Banfield.
O jogo começou frenético com um golo azul e branco aos 4 minutos.
James foi oportuno e abriu a contenda mas pouco depois o Vitória mostrou que não vinha a festa alheia e com a ajuda de Álvaro Pereira igualou o choque. A bola dançava nos pés dos azuis e brancos que evidenciavam pouco cansaço de uma semana histórica, talvez porque havia a consciência de que o último jogo era também um dos mais importantes do ano e que havia a forçosa necessidade de ir buscar forças onde fosse possível. Varela, fisicamente em baixo desde Março, levou a filosofia à prática e ampliou de novo a vantagem antes que um imenso Edgar, nos ares, voltasse a desfeitear Beto. Foi a última vez em que se ouviu falar do Vitória de Guimarães. A partir de aí o jogo passou a ser um monólogo azul e branco com Rolando e Hulk, este de canto directo com muitas culpas para Nilsson, a ampliarem a vantagem para os 4-2.
O jogo estava aparentemente decidido quando Edgar teve nos pés a oportunidade de levar para o balneário uma sensação de alivio para os vitorianos e de preocupação para os homens de Villas-Boas. Não só desperdiçou o penalty (na segunda parte falhou outros tantos golos) como na continuação o demoniaco James marcou o quinto. Como miudo deve ter-se lembrado dessas peladinhas de muda e troca e saiu para os balneários com o resto da equipa exultante. A final tinha acabado, a goleada não.
O segundo tempo deu para celebrar, para homenagear Mariano Gonzalez, um dos mais amados jogadores do balneário azul e branco, e também para marcar o sexto golo, de novo por James, deixando o Porto a apenas dois tentos de igualar o recorde histórico do Benfica de golos marcados numa só final (8, ao Estorial Praia). Os azuis e brancos confirmavam a sua 16º vitória na prova, superando aqui também os números do Sporting, e ao mesmo tempo igualavam (ou superavam, tendo em conta o que se possa pensar da Taça Latina) o eterno rival Benfica em titulos. Muitas razões para celebrar e o ambiente era de festa evidente, muito mais do que se podia antecipar com uma vitória na Taça depois de vencer Liga e Europe League nas semanas prévias. É essa sensação de fome de titutos que distingue este FC Porto de Villas-Boas do do seu antecessor (que venceu 3 ligas e 2 Taças em quatro anos) e dá sinais inequivocos de que, para o ano, o FC Porto continua a ser o máximo favorito nos troféus domésticos, por muito que se espera melhoras substanciais de Benfica e Sporting. No outro lado do campo, derrotados pela quinta vez em cinco finais, os adeptos do Vitória voltaram resignados à cidade-berço com o consolo de mais uma participação nas provas europeias e a sensação do dever cumprido.
Triunfal, o FC Porto soube esmagar o Vitória de Guimarães sem abdicar da sua filosofia de futebol cuidado mas tremendamente ofensivo. Soube ter a bola nos pés para pautar o ritmo e soube pisar o acelerador para moldar o jogo à sua medida. Mais do que os golos foi a avalanche ofensiva que diferenciou este Porto dos seus antecessores e que, de passo, serviu para confirmar a imensa superioridade do conjunto azul e branco face aos rivais directos. Bateu o Benfica na Liga, o Braga na Europa e o Vitória na Taça. Em todas as competições foi claramente superior em todos os momentos da época. E se muitos querem imaginar um segundo ano à Mourinho, com vitória na Champions League incluida, o mais sensato é pensar que a hegemonia doméstica, resgatada por um ano pelo Benfica de Jesus, é o objectivo prioritário e mais acessível para os dragões. Este ano já está escrito a letras de ouro na história do futebol português. O próximo promete ser ainda mais apaixonante!
Nunca uma liga portuguesa tinha sido ganha com tamanha autoridade. A vitória do FC Porto significou um regresso às origens para um clube habituado a mandar com autoridade no torneio. Na sombra do campeão invicto, um Benfica que só tem a si mesmo que culpar-se e um Sporting e Sporting de Braga ziguezagueantes que rapidamente mostraram que a liga deles é outra.
O simbolismo do triunfo na escuridão do FC Porto em pleno estádio da Luz resume bem o espirito da temporada.
Depois de uma época em que o Benfica venceu o trofeu e acreditou que podia interromper, de forma definitiva, o dominio autoritário do FC Porto na liga portuguesa (17 titulos em 30 anos), os azuis e brancos restauraram a normalidade com uma superioridade insultante que arrancou no primeiro jogo oficial da época e só terminou com a consagração europeia. Pelo meio a Liga Sagres foi o tapete perfeito para a equipa de André Villas-Boas demonstram que caminhava num mundo à parte. O FC Porto venceu 27 jogos, empatou três, um dos quais já depois de confirmar o titulo de campeão. Numa liga com 30 jornadas, o clube do Dragão foi campeão a cinco jogos do fim e no terreno do eterno rival a quem sacou uma vantagem de 21 pontos. Uma diferença abismal em comparação com o ano anterior em que o Benfica perdeu a hipótese de carimbar o titulo no Dragão e acabou por ter de sofrer até à última jornada para fazer a festa. Benfica que contribuiu, e muito, para que a corrida ao titulo do novo campeão fosse mais fácil. As derrotas surpreendentes nas jornadas inaugurais, o pior arranque de que há memória, deram ao FC Porto um colchão confortável, ampliado pela histórica goleada de 5-0 no Dragão. A partir daí o clube da Invicta geriu a vantagem sem pressão e concentrou-se noutros objectivos. O Benfica passou toda a época num sprint louco e desesperado que arrasou fisicamente com uma equipa já de si mal planificada. Quando as pernas começaram a faltar o rival deu a estocada final. Sem contestação.
No meio deste triunfo histórico pouco espaço houve para os outros.
No quadro europeu, Sporting e Braga mantiveram um pulso durante todo o ano pelo último lugar do pódio. O Sporting realizou a sua pior época de sempre em percentagem pontual mas na última jornada venceu o rival directo e evitou o descalabro de terminar dois anos consecutivos no quarto lugar. A instabilidade directiva, a venda de Liedson, o plantel mas planificado e os péssimos registos goleadores da equipa permitiram ao Braga, que arrancou a época com a cabeça na Europa, recuperar um grande atraso pontual para chegar a sonhar com o 3º lugar, perdido quando a equipa já tinha a cabeça na final de Dublin. Não muito longe pontualmente, mas num outro campeonato, o Nacional da Madeira garantiu o regresso à Europa batendo a concorrência directa de Maritimo, Rio Ave e União de Leiria. No entanto a grande sensação da metade de tabela pertenceu ao Paços de Ferreira. Os minhotos nem se inscreveram na Europa mas mereciam ter-se qualificado para a Europe League pela qualidade do seu jogo – muito bem orientado por Rui Vitória, com um grupo de jogadores jovem que foi premiado com a final da Taça da Liga – e pela gestão directiva dos pacenses. No quinto posto, com a tranquilidade de ter carimbado o seu lugar europeu através da Taça de Portugal, o Vitória de Guimarães soltou-se dos fantasmas recentes e realizou um ano sóbrio, sem entusiasmar, mas também sem desiludir o exigente público do D. Afonso Henriques.
A diferença abismal entre o FC Porto e os outros acentuou ainda mais o nivelamento por baixo que vai tomando conta do futebol luso.
Naval 1º de Maio e Portimonense foram despromovidos mesmo antes da última ronda, mas o pobre futebol de Olhanense, Académica, Beira-Mar e Vitória de Setubal leva seriamente a questionar a realidade competitiva de um torneio que viveu o seu ano de ouro na Europa mas que continua a ser mal gerido dentro das fronteiras. O fosso entre candidatos ao titulo, candidatos europeus e os demais é cada vez maior e não há nenhuma indicação de que a situação se possa vir a alterar. O FC Porto tem condições para restaurar a sua hegemonia e o Benfica continua a ser o rival a abater. Braga, Sporting e Vitória terão anos complicados pela frente e os demais procurarão sobreviver e recolher as migalhas pelo caminho. Triste sina para uma liga que continua com estádios vazios, preços proibitivos, horários televisivos anedócticos e uma federação que não sabem a que joga.
No meio de todo este pesadelo freudiano, o FC Porto foi igual a si próprio, o SL Benfica pagou o preço de uma ambição desmedida e o futebol português ficou pouco a ganhar com o asfixiante dominio dos clubes que mais investem no mercado. A sustentabilidade financeira da Liga Sagres está, cada vez mais, em cheque e a politica quase suicida dos grandes clubes só contribuiu para empequenecer os demais ao mesmo tempo que, lamentavelmente, mata o futebol de formação português. Em 2010/11 voltou a não haver um goleador luso (salvo o veterano João Tomás) nem sequer uma jovem estrela a despontar verdadeiramente (se excluirmos o promissor André Santos). A Liga enfraquece-se ano após ano e continua sem se dar conta. Na Invicta poucos se importam. O clube voltou a impor a sua lei. Com total naturalidade.
André Villas-Boas tem motivos para lamentar-se numa noite histórica para o FC Porto. Foi a quarta vitória europeia, a sétima conquista internacional do clube português. Mas foi também a exibição mais cinzenta, nervosa e calculista de toda a temporada. Pouco para uma equipa que deixou a Europa com mel na boca e que na grande noite desiludiu os que imaginavam uma equipa de tracção dianteira com fome de golos pronta a romper todos os recordes. O Braga não estava pela labor mas a verdade é que o justo vencedor da Europe League também não procurou esforçar-se em demasia. O titulo é mais do que justo mas, na ressaca da vitória, fica a ideia de uma final que teve mais de jogo da Liga Sagres do que a glória de uma noite europeia.
No final dos 90 minutos o delírio apoderou-se dos adeptos do FC Porto.
Mas foi um delírio contido de uma equipa que tem consciência de que a imagem dada não tinha sido a esperada. O técnico confirmou-o por palavras mas não era preciso. A falta de inspiração foi evidente.
Depois de uma campanha espantosa, com goleadas históricas e pouco habituais, o FC Porto mostrou-se em Dublin não como uma banda nova capaz de entusiasmar os fãs em concertos históricos. Foi antes um desses grupos de veteranos que sobe ao palco para tocar os greatest hits com pouca vontade e menos engenho. Ao contrário de Gelsenkirchen e Sevilla - nisto Viena foi um caso à parte - nunca houve essa sensação de superioridade que se podia esperar. Entre a comitiva azul e branca, adeptos incluidos, havia uma sensação de superioridade natural depois de um campeonato perfeito e um apuramento categórico para Dublin. Muitos imaginavam outro FC Porto alegre, vistoso, ofensivo e asfixiante no palco irlandês. Uma exibição para o mundo ver. Porque se muitos não viram como o campeão português desfez o Spartak ou o Villareal, muitos seriam os que acompanhariam com interesse a consagração dos homens de Villas-Boas.
No final, por mérito do Braga também, ficou uma imagem pálida de uma equipa que rematou uma vez à baliza. Bastou-lhe para vencer o troféu, mérito de Falcao, mas não para convencer os amantes do futebol de ataque que o jovem técnico tão bem soube explorar durante o ano. Villas-Boas estava nervoso. Os jogadores mais. Normal numa grande final. Caíram na teia táctica montada pelo Braga, que preferiu não deixar jogar a encarar o rival e assim tornou o jogo mais monótono e contido. O golpe de Falcao evitou uma mudança profunda ao intervalo que certamente já deveria andar pela cabeça do técnico. Poupou o risco que o FC Porto nunca teve no segundo tempo. Quando entrou Belluschi, foi para o lugar de Guarin, o melhor de um miolo sem espaço para pensar. Quando lançou James foi para render Varela, apagadíssimo, mas o jovem colombiano foi incapaz de acelerar com critério e dar mais largura ao terreno de jogo.
Villas-Boas perdeu o jogo táctico mas ganhou o duelo no terreno de jogo.
Não soube como responder ao previsível planteamento recuado de Domingos, reforçando o seu jogo a meio-campo desde o inicio (a equipa azul e branca esteve em constante inferioridade numérica) onde lhe faltou sempre um homem. Onde sobrava um inconsequente Varela fazia falta um Belluschi ou Micael com critério. Fiel ao seu ideário táctico o portuense esperou por um golpe de génio dos seus jogadores, a classe que os homens do Braga não tinham. Sabia à partida que sofrer um golo era difícil e que marcar tornar-se-ia mais provável à medida que o tempo fosse discorrendo. Mas sofreu na espera e sem corrigir o posicionamento no terreno de jogo. Hulk nunca soube aproveitar o pouco espaço que teve e perdeu-se, demasiadas vezes, em lances individuais. Abdicou de lances de bola parada estudados por remates sem sentido e foi o espelho da falta de alegria e classe desde FC Porto campeão comparado com a equipa que chegou até à final.
Mas no meio de todo este cinzentismo - e o FC Porto sabia-se superior e jogava com isso, sem procurar nunca o risco - o Braga nunca soube reagir à altura e deixou os azuis e brancos ainda mais cómodos. Villas-Boas foi mais Mourinho e menos Robson do que nunca e com a entrada do médio argentino deu um claro sinal de estar satisfeito com o rumo do jogo. Um segundo golo não era, nem ia ser, uma prioridade.
Depois do susto de Mossóro, com um Helton imenso (na sua melhor época em Portugal), o Braga demonstrou que o quarteto defensivo do Porto (especialmente Otamendi e Sapunaru, os mais desastrados) joga mal sob pressão. Mas os poucos erros individuais não tiveram continuidade e sempre que a bola chegava a Moutinho ou Fernando o jogo adormecia outra vez. Os médios do FC Porto nunca procuraram as diagonais a rasgar, a velocidade dos flancos e contribuíram, e muito, no afunilar do jogo ofensivo. A certa altura dava quase a sensação de haver um pacto de não-agressão entre todos, evidenciado várias vezes pela atitude de Helton, aplaudindo os rivais efusivamente. Ao clube do Porto não interessou nunca procurar uma vitória expressiva, o Braga nunca lhe deu demasiados espaços mesmo quando perdia e o golo de Falcao poupou a Villas-Boas exercer mais como táctico e menos como psicólogo.
No final, a sua desilusão, é algo que só pode atribuir a si mesmo e aos seus homens. Pouco incomodados é certo, para eles - e para muitos adeptos - as finais são só para ganhar. Mas depois de ter surpreendido os adeptos neutrais e ter ganho uma considerável legião de adeptos fora de Portugal (como sucedeu com o Dortmund alemão), fica a sensação de que vencer era quase um trâmite e era a imagem de uma equipa descomplexada e atacante que o clube deveria ter procurado dar. Optou pelo cinismo calculista de quem se contenta com a glória do sucesso e talvez com razão. Mas ninguém dúvida também que o clube do Dragão perdeu uma oportunidade de ouro para deixar ainda mais vincada a sua marca no seu impressionante historial europeu.
Em Dublin o Sporting de Braga apresentou a sua cara mais cinzenta. Foi uma equipa sem recursos e incapaz de dar a volta a um FC Porto muito nervoso e sem a solvência habitual. Domingos Paciência tentou vencer o jogo no tabuleiro de xadrez com Villas-Boas mas o golo de Falcao obrigou a sua equipa a fazer o que pior sabe e em 90 minutos o Braga nunca deu a sensação de poder ir mais longe. Uma carreira europeia com um mérito colectivo tremendo que terminou com a exibição mais pequena do ano.
Será fácil num futuro próximo catalogar esta final da Europe League como uma das mais pobres dos últimos tempos.
Faltou-lhe, quiçá, a emoção do prolongamento a que o Fulham obrigou o Atletico de Madrid na época passada ou a solvência das vitórias de Zenith St. Petersburg, Shaktar Donetsk ou Sevilla nas edições anteriores. Para muito contribuiu a postura do Braga.
O conjunto minhoto sabe quais são as suas limitações. No passado sábado não teve pulmão e know-how para dar a volta a um Sporting que foi tudo, menos entusiasmante. Ontem voltou a defrontar-se com os seus próprios fantasmas.
Uma equipa perfeita na organização defensiva (só cometeu um erro, mas para Falcao isso é suficiente) mas que depois tem muitas dificuldades no processo criativo. Domingos Paciência tentou prolongar ao máximo o marcador a zero, deixar os jogadores mais nervosos do que já estavam e tentar aproveitar um lance fortuito para ganhar. Não quis dar espectáculo, quis ser efectivo. Essa é a sua imagem de marca mas essa é também a realidade do seu plantel, especialmente depois da perda de Matheus, o único talento individual que podia ter destroçado a defesa azul e branca só com o movimento de corpo. Foi uma postura extremamente eficaz e para a qual André Villas-Boas nunca teve resposta. Guarin, Fernando e Moutinho estavam cercados por um quarteto asfixiante (Vandinho, Custódio, Viana e Lima) e a bola nunca chegava com regularidade ao tridente da frente. Silvio forçou Hulk a jogar sem os espaços que tanto gosta de explorar e do outro lado do terreno Varela nunca soube ganhar os duelos a Miguel Garcia. Um posicionamento táctico perfeito que deixou de funcionar ao minuto 44. Falcao fugiu a Rodriguez, olhou para Guarin e pediu a bola. A conexão colombiana destroçou com três toques toda a estratégia bracarense e Domingos percebeu então que a vitória seria quase impossível.
Mesmo a perder o técnico nunca arriscou muito, faz parte do seu carácter.
A lesão do central peruano, que deu lugar a Kaká, também não lhe deu a margem de manobra necessária. Mossoró, outro que entrou ao intervalo, teve a única oportunidade clara do Braga em todo o jogo mas os nervos encolheram a baliza e agigantaram Helton. A final acabou aí, depois veio a agonia de 40 minutos soporíferos. O Braga procurou mais a baliza do Porto mas sem critério, sem calma e sem uma única jogada com pés e cabeça. Nem nas bolas paradas, e foram várias, conseguiu ser eficaz. Cantos mal marcados, lançamentos laterais mal calculados, livres desperdiçados e Domingos desesperado. Na inoperância do tridente ofensivo preferiu abdicar de Lima em vez de Paulo César, sem ritmo de jogo. Errou e Meyong não trouxe nada de novo ao jogo do Braga. A equipa continuou a defender bem e a não dar espaços ao rival, mas ao mesmo tempo acabou por adormecer o jogo. Precisamente o que pretendia o rival.
No final dos 90 minutos o Braga pode queixar-se de uma expulsão perdoada a Sapunaru - por segundo amarelo - mas também pode olhar para o jogo bastante duro dos seus defesas (Paulão, Silvio e até Hugo Viana, substituído ao intervalo mais pelo cartão do que pelo seu papel no terreno de jogo) e perceber que o árbitro espanhol podia ter sido mais exigente nos critérios de penalização. Mas, acima de tudo, tem de queixar-se de si mesmo e das incapacidades que revelou durante todo o jogo. Se é verdade que em toda a campanha europeia na Europe League - precisamente depois do adeus de Matheus - o Braga só marcou 2 golos num jogo, também é verdade que em nenhum dos restantes encontros deu tanto a sensação de ser incapaz de incomodar minimamente o rival. Foi um jogo de equipa pequena, pelo menos no panorama europeu, que também não deve surpreender porque as limitações financeiras estão à vista de todos. Sem o técnico, Arthur, Vandinho, Silvio, Rodriguez e algum mais, o próximo ano revelar-se-á um verdadeiro desafio para António Salvador e Leonardo Jardim, o previsível herdeiro de Domingos Paciência. O que os adeptos do clube minhoto não se podem esquecer, apesar da fraca imagem deixada em Dublin, é que a campanha europeia foi, por si só, um pequeno grande milagre, talvez irrepetível, pelo menos nestas condições financeiras e desportivas.
Numa final que foi, pela primeira vez na história, 100% portuguesa, o Sporting de Braga ajudou a contribuir para um jogo muito ao estilo de Liga Sagres. Sem emoção, sem golpes directos, sem um ritmo intenso e com muito calculismo táctico à mistura. Espelho do futebol português actual, o Braga representa essa madurez táctica que começa a chegar aos clubes portugueses mas também esse cinismo que retira a componente espectáculo ao futebol luso. No final o conjunto bracarense tem de sair de cabeça erguida. A eles não se podia pedir mais.
A conexão colombiana voltou a funcionar e serviu para o FC Porto vencer, com serviços mínimos e muitos nervos á mistura, a sua segunda Europe League. Num jogo mais disputado do que emotivo, os azuis e brancos marcaram numa das poucas ocasiões criadas e depois geriram o resultado frente a um Braga combativo mas sem ideias. Numa final muito morna, os dragões entraram para a elite das poucas equipas europeias com quatro vitórias nas provas europeias.
Um remate á baliza em oito ocasiões dizem muito de como o FC Porto esteve longe da imagem que deixou ao longo do ano.
A equipa com instinto assassino que fez uma campanha imaculada - e que asfixiou os rivais na prova nacional - mostrou o seu lado mais inofensivo e nervoso numa final em que o Braga nunca soube aproveitar o futebol macio e pouco esclarecido dos azuis e brancos. Até ao remate de Falcao, ao minuto 44, não tinha existido nenhuma ocasião de perigo em ambas as balizas. O Braga lutava muito - e bem - mas depois, com a bola nos pés, não sabia como coordenar os movimentos ofensivos e rapidamente perdia a possessão. O Porto, que tinha mais posse de bola, não sabia o que fazer com ela quando se encontrava com uma muralha defensiva de 4+1 (um excelente Vandinho) que não dava margem de manobra ao jogo em velocidade de Hulk e Varela. O avançado Falcao asfixiava-se no miolo sem poder conectar com Guarin e o jogo adormecia a cada minuto que passava.
Era esse o plano de Domingos, especializado em adormecer o rival e aproveitar as poucas ocasiões que a sua equipa habitualmente dispõe. E parecia estar a funcionar, plenamente, quando surgiu Guarin, com um recorte sublime e um centro milimétrico que entrou o avançado mais em forma do futebol mundial. A conexão colombiana funcionou em conjunto no momento certo. E deu o único ar de classe a um jogo que esteve longe dos pergaminhos de uma final europeia.
Com a necessidade de arriscar o Braga não se sente cómodo mas curiosamente foi Mossoró,ao minuto 46, que teve a única oportunidade de golo do segundo tempo. Falhou, clamorosamente, e deixou a nu todas as debilidades ofensivas de uma equipa construida detrás para a frente de tal forma que a qualidade do quarteto defensivo está ainda a anos-luz da qualidade do seu tridente da frente.
O Braga tentou tudo mas com uma ineficácia assustadora. O Porto preferiu não arriscar, não acelerar, sentindo-se cómodo com a curta vantagem que tinha. Só Bellushi, que entrou de forma surpreendente para o lugar de Guarin, o melhor do Porto até então, rematou á baliza. Os demais perderam a dose de pragmatismo que deu bom nome á equipa em toda a Europa e perdeu-se em lances individuais que podiam ter tido piores consequências não fosse a inoperância atacante do Braga.No único momento em que os bracarenses podiam ter dado um passo em frente no jogo, o árbitro Velasco Carballo, autor de uma arbitragem também longe do nível máximo europeu, errou ao não expulsarSapunaru. Poderia ter oferecido um jogo diferente. Acabou por nem sequer espicaçar o orgulho dos arsenalistas. Domingos não tinha margem de manobra no banco. André Villas-Boas, suplantado tacticamente na primeira parte, preferiu não gastar todas as armas que tinha no banco. Foi tão pragmático como os jogadores e no final conseguiu o objectivo. É o mais novo treinador a vencer uma prova europeia. Está muito perto de emular a histórica tripla de Mourinho. E mostrou, talvez pela primeira vez neste ano, que também sabe ganhar sem dar espectáculo com um futebol mais cínico e calculista. Um futebol que dá, de qualquer forma, títulos. O FC Portonão esteve ao seu nivel da época 2010/11 nem sequer ao nível das três anteriores finais que ganhou. Mas não precisou de mais face a um rival que, depois de uma temporada absolutamente fantástico, se viu sem recursos para ferir um rival mais débil do que nunca.
O FC Porto foi um merecido vencedor da Europe League 2010/11 mais pela grande épcoa europeia que realizou do que, propriamente, pela qualidade do jogo exibido durante a final. Para o próximo ano está no lote de candidatos a surpreender na Champions League mas Villas Boas sabe, melhor do que ninguém, que a equipa tem de dar ainda muitos aspectos a melhorar. Em Bragaa festa é justa e merecida. Uma noite histórica que possivelmente nunca mais se volte a repetir mas que, pelo menos, avala um excelente projecto desportivo que ainda pode dar mais de si. Numa festa absolutamente portuguesa não houve a emoção das grandes finais europeias mas no final para vencedores e vencidos isso acabou por importar pouco. Assim é, também, o futebol!
As equipas conhecem-se à perfeição e repetem em Dublin os duelos mais equilibrados que viveu a Liga Sagres na época que agora chega ao fim. Domingos e Villas-Boas nutrem uma longa admiração mútua. E sabem perfeitamente como passar-se a perna. Talvez por isso o duelo de hoje no Aviva Stadium seja muito mais equilibrado do que o cartel pode deixar antever.
Poucas vezes teve de suar tanto o FC Porto de Villas-Boas como nos duelos contra o Braga durante esta temporada.
O triunfo na cidade dos arcebispos deu o mote para o sprint rápido rumo ao titulo, antes que a época se tornasse numa longa maratona. A vitória no jogo do Dragão cimentou uma liderança intocável desde o primeiro dia. Mas os resultados em ambos os jogos enganam. Foram duelos muito mais tensos, equilibrados e disputados que pode parecer à primeira vista. Sem uma chispa de superioridade clara, os campeões nacionais sabem que vão encontrar uma equipa que se organiza como ninguém e que deixa poucos espaços para os matadores azuis e brancos. Mais do que nunca a luta a meio-campo vai determinar o rumo do encontro mas é nos espaços que se vai decidir a final. Nos poucos que deixe o Braga e que aproveite o FC Porto e nos muitos que os bracarenses encontrarão entre a linha de meio campo e a baliza de Helton.
Defesa adiantada, armadilha preparada
Villas-Boas já deixou claro que jogará como sempre e isso significa arriscar.
Especialmente com uma equipa que se desdobra com rapidez e precisão cirúrgica quando tem relva para correr. A adiantada defesa de quatro já deixou mais do que um arrepio nos duelos com Sevilla e Villareal, as equipas que melhor souberam aproveitar o adiantamento do quarteto defensivo azul e branco. Mas essa defesa adiantada é, de certa forma, um risco em formato de armadilha. Villas-Boas é um técnico que prefere jogar com a bola do que explorar os espaços. Mas também tem consciência que equipas bem organizadas no seu meio-campo, como é o caso do Braga de Domingos, precisam de um incentivo para abrir brechas na muralha. Ao adiantar o quarteto defensivo o FC Porto não ganha só em pressão alta e bolas recuperadas. Como o canto da sereia, atraia os lançamentos do rival e procura descolocar as suas peças chave no miolo para depois explorar esse posicionamento ofensivo. Foi assim que começaram as vitórias contra Sevilla e Villareal e foi dessa forma que as duas equipas russas foram massacradas pelo ataque liderado por Falcao e Hulk. O brasileiro é perito em explorar esse espaço mas é o colombiano quem melhor entende esta espécie de maré defensiva, penetrando nas brechas rivais quando menos se espera. Se o Braga opta por uma defesa zonal, como é o mais provável, Falcao terá certamente mais de uma possibilidade de apanhar a defesa em contra-pé e fazer o que sabe melhor. Mas os seus golos começam onde o trabalho defensivo acaba. Rolando, Otamendi, Sapunaru e Alvaro Pereira são os principais artífices do ataque porque, como a defesa de Sacchi no AC Milan, determinam o acordeão ofensivo do FC Porto.
Jogo de xadrez
O Aviva Stadium não viverá um desses jogos que tanto apaixona os adeptos britânicos de contragolpes.
Será, sobretudo, um jogo pausado, com um ritmo próprio, o que dicte quem tem a bola. E prevê-se que será o FC Porto. Moutinho e Guarin pautaram as velocidades a que se dispute o encontro e obrigarão Mossoró e Hugo Viana a correr, mais do que a pensar o jogo de ataque do Braga. É nesse carrossel, nesse jogo de circulação, que se começará a decidir o ritmo do encontro. Varela e Hulk terão, como principal missão, abrir ao máximo a largura do campo, emulando os princípios de jogo do Barcelona de Guardiola. Não só conseguem tapar o jogo lateral do Braga, sempre perigoso nas subidas de Silvio e Miguel Garcia, mas também forçarão a defesa de quatro do Braga (que será sempre de 4+1, porque se espera um Vandinho muito recuado) a abrir-se e deixar espaços para as diagonais de Falcao. Ter a bola no pé permitirá ao FC Porto explorar as suas armas sem deixar a sua baliza demasiado exposta. Ter a bola, para o Braga, significará, sobretudo, poder respirar. Uma necessidade que certamente Domingos passará aos seus jogadores. Explorar os contra-golpes mas, sobretudo, adormecer o jogo, respirar e não correr riscos desnecessários. Afinal o Braga chegou a Dublin sem nunca marcar mais de um golo por jogo desde o duelo com o Lech Poznan. Por isso não sofrer será sempre a primeira prioridade dos minhotos que sabem que têm pela frente a dupla de ataque mais eficaz do futebol europeu.

Em última análise o jogo poderá ser decidido no banco de suplentes. Se houve algo que André Villas-Boas já demonstrou é a sua capacidade de mudar radicalmente um jogo pelos seus ajustes da linha de fundo. O Braga, fruto da natureza épica da sua campanha, não tem as mesmas armas e Domingos Paciência tem poucas possibilidades de acrescentar mais ao que coloque em campo desde o inicio. Mas num duelo tão equilibrado como o que se prevê, as substituições funcionarão mais na dimensão colectiva (pela reorganização táctica na terreno) do que propriamente pelos desequilíbrios individuais que possam deixar a sua marca no marcador. Mas uma final é, inevitavelmente, uma final e todos os detalhes serão fundamentais.
O FC Porto tem, na última década, tantas finais europeias como qualquer outro. Como AC Milan, Liverpool, Barcelona e Manchester United. José Maria Pedroto talvez nunca o tivesse imaginado mas os seus dragões já são, há muito, parte da elite europeia. Dublin não é novidade. É a confirmação de um estatuto que há dez anos atrás era uma utopia.
Quando o FC Porto terminou uma longa seca de 19 anos sem títulos o jovem André Villas-Boas tinha acabado de nascer.
Ele simboliza, nos seus flamantes 33 anos, o domínio avassalador que o FC Porto impôs ao futebol português durante essas três décadas. E é também o rosto ideal para confirmar o estatuto de grande da Europa que começa a ser uma profunda inevitabilidade. Apesar de continuar a ser um clube vendedor, um clube com um passivo considerável e um clube incapaz que produzir, da sua formação, uma geração que suceda à anterior, este clube é uma referência na classe média alta das ligas europeias. Num país periférico, sem expressão na elite do futebol, os azuis e brancos são um oásis que gregos, holandeses, escoceses, belgas, ucranianos, russos, turcos e até mesmo franceses não conseguem criar. Em dez anos Dublin será a terceira final europeia do FC Porto, a quinta da sua história em 26 temporadas. Uma média só ao alcance dos grandes mitos do futebol mundial.
Triunfar em Dublin já não tem a mesma magia de Sevilla. Naquela tarde noite de asfixiante calor os azuis e brancos eram rookies, lembrando-se apenas os mais velhos da glória de Viena. O triunfo de Mourinho abriu uma nova era. Desde então, só por duas vezes os dragões falharam os Oitavos de Final da Champions League. Esta foi uma delas. E terminou em final europeia. Agora do FC Porto espera-se tudo, o favoritismo caminhou do seu lado durante todo o torneio. Na pré-eliminatória, na confortável fase de grupos e nos jogos a eliminar. Nunca o FC Porto deixou de ser o grande candidato e isso explica, em parte, a maturidade competitiva que alcançou o clube. Num ano financeiramente complicado, e com o fantasma do titulo do Benfica presente, os azuis e brancos assinaram a sua época mais completa. E na Europa ditaram lei. Por isso sentem, com legitimidade, que Dublin é só um trâmite mais. Mas enganam-se. Não só porque sabem bem – afinal não foi assim há tanto tempo – o que é chegar a uma final europeia sem o estatuto de favorito. Também devem entender que uma vitória significa, sobretudo, lograr um objectivo moral importante: o respeito do futebol europeu.
Quando arranque a próxima Champions League o FC Porto será cabeça-de-serie.
É algo que não logrou em 2004, quando vinha de triunfar em Sevilla. Espelho dos pontos acumulados nos últimos anos nas provas europeias mas também do pedigree desta equipa. Os dragões preferiram investir em lugar de vender para recuperar a hegemonia interna (o que lograram facilmente e com um registo histórico) e de surpresa encontraram-se com a cereja no topo do bolo. Falcao, Hulk, Moutinho, Varela, Guarin, Helton e companhia mostraram o seu melhor rosto nas noites europeias e a filosofia de ataque de Villas-Boas tornou os azuis e brancos no ex-líbris da prova. A equipa que todos queriam evitar. E que chegou, previsivelmente, aonde todos queriam chegar. Sem atalhos.
Se em 2003 já se antecipava uma possível final 100% portuguesa, que afinal não acabou por ser, agora os portuenses encontram-se com o seu destino. Pode enganar o rival – e os benfiquistas sabem isso melhor que ninguém – e o adepto mais distraído pode pensar que se trata de um jogo nacional sem grande importância. Longe disso, será um duelo ainda mais difícil porque supõe estar num patamar a que os dragões são novos: a elite dos favoritos. Ninguém espera um cenário distinto à vitória dos homens de Villas-Boas e esse será o seu duelo. Jogar contra si mesmos, contra a displicência que já condenou tantas equipas grandes no passado. Ao FC Porto exige-se, nada mais e nada menos, que uma superioridade que esteja de acordo com os registos logrados em toda a temporada nas três competições onde chegou até ao fim. Chegados a esse ponto, os portistas encontram-se com os níveis de exigência que estão habituados a ver reflectidos nos rivais. Talvez por isso Dublin, menos mediática que Sevilla e menos pomposa que Gelsenkirchen, seja a final mais importante do clube. Porque supõe, definitivamente, olhar a Europa de olhos nos olhos e ser recebido com honras nesse clube exclusivo europeu.
Numa prova por onde andaram os recém-consagrados campeões de Alemanha, Holanda, Rússia, Escócia e alguns dos clubes já com bilhete marcado para a prova dos milhões da próxima temporada, é um erro pensar que uma final 100% portuguesa transforma a competição numa vitória menor. Para o FC Porto, pelo menos, é uma oportunidade única de dar um salto institucional significativo. De lograr o dobro dos títulos europeus conseguidos pelo maior rival interno. De atingir números que superam os registos de Real Madrid, Inter, Chelsea, Arsenal, Bayern Munchen ou Ajax na última década futebolística. De ultrapassar, definitivamente, esse medo antigo. Se com Pedroto era a ponte D. Maria, com o FC Porto moderno era o aeroporto Sá Carneiro. Hoje por hoje, o medo é uma palavra que deixou de ter sentido. Até porque se os homens do “Zé do Boné” mataram a fome de títulos domésticos contra o Braga, os legionários de Villas-Boas querem dar esse passo rumo à glória continental contra os guerreiros bracarenses. A história, inevitavelmente, sempre se repete.
46 quilómetros. Um diâmetro espacial que é menor do que une muitas das grandes cidades do Mundo. O espaço que separa o estádio do Dragão do estádio Axa. O Porto de Braga. Os dois finalistas da Europe League 2011. Um feito histórico para o futebol português. Um feito histórico para uma região que tem sentido, como nenhuma outra, o desmoronar da economia comunitária. Nesses 46 quilómetros vivem os projectos, as ilusões e as esperanças. Passe o que passar eles chegaram lá. A Dublin. Cidade com pronúncia do norte...
Um salto na história. Um salto desafiante. Um salto preciso.
O golo de Custódio gelou um país habituado à ladainha dos "seis milhões", um país que não entende de diferenças de credo. Um país que, ainda hoje, se esquece que há vida para lá da capital, que há vida para lá do império imaginário. O salto de Custódio, um puto de Guimarães que se fez herói em Braga. Coisas da vida! O salto de um jogador dispensado por um grande da capital e que deixou de ser uma promessa para passar a ser mais um zé-ninguém. Assim funcionam as coisas em Portugal. Palavras que Miguel Garcia e Hugo Viana poderiam fazer suas. Os três estavam lá e testemunharam aquele salto imenso que transformou um clube regional numa potência europeia. O Sporting Clube de Braga, esse clube que parecia uma moda passageira, é o 100º finalista de uma prova da UEFA. A quarta equipa portuguesa em lograr esse feito histórico. A primeira a deixar outra equipa nacional pelo caminho. Sem contestação.
Um projecto pequeno que a imprensa lusa sempre tentou empequenecer sem entender que os partidismos nacionais na Europa perdem todo o sentido. Este Braga, uma equipa com as contas em dia, uma equipa sem dividas e fundos a que recorrer quando as coisas apertam, é um caso sério. Desde a chegada de António Salvador transformou-se num autêntico grande, feito que só o Boavista pode reclamar fora do circulo dos três clubes que têm asfixiado o futebol português. Com a desaparição momentânea dos axadrezados destas contas e o progressivo empequenecimento do Sporting, o Braga tinha a oportunidade de dar um murro na mesa. Em 2010 o titulo perdeu-se por muito pouco, em 2011 Dublin conseguiu-se por pequenos detalhes. Estavam Vandinho e Mossoró desta vez. Estavam aqueles que aprenderam a lição de como se joga este tipo de duelos. E estava, sobretudo, uma equipa com fome de desforra. Ás vezes é o que basta. Isso e um salto imparável para furar os livros de história.
Os 46 kilómetros que separam Braga da cidade do Porto são quase a mesma distância da mais longa avenida do mundo. É muito para um país pequeno e muito pouco para um Mundo tão grande. As provas da UEFA já acolheram finais entre clubes do mesmo país mas nunca com uma proximidade geográfica tão gritante. Bracarenses e portuenses são quase vizinhos e em Dublin a festa terá uma forte pronuncia nortenha. Com sotaque do Porto.
Domingos Paciência era aquele miudo de Leça que mal tinha para comer e que muitas vezes lançava na casa dos amigos porque estes sabiam que em sua casa só lhe esperava uma sopa. Esse herói das Antas tornou-se no messias da pedreira de Braga. Quando em 1994 o inglês Bobby Robson parecia ter perdido a confiança no esguio dianteiro um miúdo de 13 anos aproximou-se dele perto de sua casa e explicou-lhe como tinha de aproveitar as capacidades do internacional português. Esse miúdo, portuense de gema, que nunca passou fome nem lhe faltou nada, transformou-se no homem dos recordes e aos 33 anos no mais jovem técnico a chegar a uma final europeia. André Villas-Boas e Domingos Paciência representam dois lados bem diferentes da Invicta, da vida que pautou o norte de Portugal desde sempre. E o futebol uniu-os de tal forma que até na glória mútua acabam por ter de se reencontrar. Da mesma forma que o FC Porto se tornou um clube internacional depois do desprezo da capital que queria reduzir os azuis e brancos a "andrades" de província com uma final europeia (então perdida para a toda poderosa Juventus em 1984), também o Braga conseguiu soltar-se desses preconceitos sociais para fazer história. Celtic, Sevilla, Liverpool, Dynamo de Kiev e Benfica, todas elas equipas com títulos europeus no seu brilhante curriculum que não souberam aguentar o vendaval bracarense. Um vendaval em quem ninguém acreditou, eliminatória após eliminatória. Se ao FC Porto era reconhecido o seu favoritismo, que se foi cimentando a cada jogo e acabou numa eliminatória histórica face ao Villareal, ao Braga estava destinado o papel de patinho feio. Talvez por isso a equipa de Domingos seguiu sempre em frente, porque não teve de se preocupar em olhar para o espelho.
O Benfica, o terceiro português em discórdia, era o favorito. Antes de arrancar a Liga, antes de arrancar a Champions League e antes de arrancar a Europe League na sua fase a eliminar. Mas perdeu demasiado tempo a olhar-se reflectido num espelho enganador. Sem pernas, sem atitude, sem destreza mental, os encarnados actuaram numa semifinal europeia convencidos que estavam num duelo nacional sem grande importância. A arrogância, sempre patente no discurso do seu técnico, desencontrou-se com a realidade. Talvez se a eliminatória tivesse sido trocada e o duelo fosse com os espanhóis a equipa tivesse reagido de outra forma. Pagou o preço do pecado mortal que no futebol não perdoa, o orgulho. E assinou por baixo uma época a todos os títulos decepcionante. Não soube estar à altura da sua história, dos seus pergaminhos e do seu próprio futebol. O espelho mentiu, mas só a eles, porque havia muitos que conseguiam ver para lá da ilusão.
18 de Maio tornar-se-á num dia histórico para Portugal. Mas talvez a ausência dos representantes do centralismo asfixiante transforme uma festa europeia numa reunião de vizinhos. O impacto mediático dado, em Portugal pelo menos, será bem diferente se os rostos fossem outros. É de esperar, afinal não seria a primeira vez. Mas a Europa estará forçosamente atenta e tentará descobrir o que está no meio destes 46 quilómetros que unem mais do que separam. Do Bom Jesus de Braga vê-se o Douro? Talvez não, mas o eco da pronuncia do norte já se ouve lá longe nas areias dançantes de Dublin...
Há muito que as trevas tomaram conta do futebol português. A falta de civismo, de fair-play, de exercício democrático por parte de dirigentes, técnicos, jogadores, comentadores e adeptos "argentinizou" ao extremo o futebol em Portugal. A situação chegou a tamanhos extremos que a vitória de um campeonato de um clube invicto passou a segundo plano porque, uma vez mais, o mau perder habitual do dirigente português estraga qualquer celebração meritória. Culpas para todos no cartório numa noite histórica, a titulo desportivo. O SL Benfica falhou na época passada confirmar o titulo no campo do rival. Nesse jogo começou a desenhar-se o FC Porto campeão em 2011. Que não tremeu no terreno do rival e fechou, com chave de ouro, o seu 25 campeonato. A luz durou 90 minutos. Os novos campeões trataram simbolicamente de a apagar. O resto é pura pequenez moral.
Há 71 anos que o FC Porto não vencia um campeonato, matematicamente, no terreno do eterno rival.
Um feito pouco habitual no futebol português. Houve jogos que decidiram títulos mas quase nunca sem as matemáticas do seu lado. Tanto encarnados como azuis e brancos sabiam de antemão o desfecho desta época. Uns queriam antecipar a festa, outros atrasá-la o máximo de tempo possível. Era uma questão de honra e de orgulho, não de matemática. Uma premissa que se tinha vivido na época transacta. Então a "máquina de matar" de Jorge Jesus chegou ao Dragão com a ambição de fazer história. Foi derrotado em toda a linha e teve de sofrer até aos instantes finais do último jogo para confirmar um titulo que a imprensa (e o próprio técnico encarnado) tinham anunciado com meses de antecipação. Desta vez o cenário não se repetiu. O FC Porto de André Villas-Boas nunca necessitou do consenso popular e dos meios de comunicação social para explicar, no tapete verde, a sua imensa superioridade na época corrente. Dezasseis pontos de avanço sobre o segundo classificado, a cinco jogos do fim, explicam bem a dimensão do 25º titulo azul e branco. A invencibilidade (dois empates, tudo o resto triunfos), é uma curiosidade estatística mas também demonstra a autoridade com que os dragões entram em campo. Na Luz repetiu-se o cenário.
O FC Porto foi sempre a equipa menos nervosa, aquela que tinha a faca e o queijo na mão. Agradeceu a Roberto a inestimável ajuda, uma constante na época, soube sofrer com o golo do empate e com um jogador a menos durante boa parte do segundo tempo e matou o jogo de forma cirúrgica. Podia até ter ampliado a vantagem em vários lances de contragolpe. Podia também ter sofrido o golo do empate, quando o Benfica, à desesperada, como tem sucedido demasiadas vezes este ano (com o evidente desgaste físico e mental acumulado) tentou o tudo por tudo. Jesus não teve argumentos tácticos - como sucedeu na excelente vitória nas meias-finais da Taça de Portugal no campo do rival - nem paciência para sofrer. Podia-lhe mais o orgulho de não cair diante dos seus. Os adeptos não souberam empurrar a equipa - à distância de muitos quilómetros, ouviam-se mais os gritos de raiva dos adeptos visitantes - e nem a constante violência do onze encarnado (quase todo amarelado, com direito a expulsão de Cardozo, que só jogou metade do encontro) serviu para estragar um espectáculo futebolístico. O FC Porto selou a sua superioridade desportiva depois de ter mostrado que era a equipa mais constante, mais organizada e mais preparada para o choque. No ano transacto o Benfica venceu metade dos jogos com os rivais directos (SC Braga e FC Porto). Este ano os novos campeões trataram de selar a sua superioridade ao bater Benfica e Braga nos dois encontros, sem deixar grandes margens para dúvidas. O titulo, desportivamente, não tem qualquer contestação.
Mas quando em Portugal se devia falar de futebol jogado - que não vive, propriamente, na abundância - tudo acaba por derivar para o futebol politizado, estragado pela postura de directivos e profissionais do disparate. A semana prévia ao Clássico tornou-se no microcosmos perfeito que define o futebol português actual. Houve proibições ilegais, anuências das autoridades competentes desrespeitando os seus próprios regulamentos. Houve apedrejamentos de parte a parte, incitação à violência, declarações de guerra pouco transparentes. Houve jogadores que entraram em campo sem dar a mão a 11 meninos que destas guerras ainda entendem, felizmente, muito pouco. Houve frangos, bolas de golfe, petardos e cargas policias. Houve dureza no relvado e falta de hombria nas declarações finais dos perdedores. E, acima de tudo, houve aquele gesto que define bem o portuguesismo contemporâneo, o chico-espertismo e o mal perder de um país que se tornou na América Latina do futebol europeu há muitos anos e que continua a mostrar à Europa, à Europa a que anseia pertencer de pleno direito, que vive num planeta à parte. Em primeiro lugar fica por explicar a atitude da Liga de Futebol Professional, que gera a competição Liga Sagres.
Depois de anos a adiar ao ano seguinte a entrega do troféu, em 2010 determinou-se, e com toda a lógica, a entrega do troféu de campeão no acto a quem de direito. Uma prática corrente em vários países europeus e que permitiu ao SL Benfica celebrar, diante dos seus, com toda a naturalidade o titulo do ano transacto. No entanto, sabendo da possibilidade matemática, concretizada, do FC Porto repetir o feito, não houve sequer uma referência das autoridades em repetir a mesma sábia postura um ano depois. Em Espanha e Inglaterra, quando uma equipa se sagra campeã, não se lhe entregam o troféu, como o rival tem de fazer o chamado "pasillo", por onde os campeões desfilam vitoriosos. Uma prática de fair-play que em Portugal se torna cada vez mais, inimaginável. Não só a Liga permitiu a não entrega das faixas no dia adequado como deixou passar em branco o súbito apagão, e o despertar "imprevisto" dos aspersores de água à la Camp Nou, que ensombreceu mais a alma torturada do adepto benfiquista, forçado a contemplar um feito histórico no seu recinto, do que a festa azul e branca. O acto, insignificante à priori, porque os festejos naturalmente continuaram na Luz e noite fora, por todo o país, diz muito dos dirigentes encarnados, os principais responsáveis pela escalada de violência verbal e física em que vive o futebol português nos últimos anos. Uma realidade indesmentível e que esconde uma outra, desportiva, que não deixa mentir. Nas últimas 15 épocas o clube encarnado venceu a prova por duas vezes, tantas como o Sporting e uma mais que o Boavista. As restantes 10, já se sabe onde foram parar.
A cultura de sobrevivência do FC Porto voltou a vir ao de cima. Desde 2002 que os azuis e brancos não passam mais de um ano sem saborear o titulo de campeão. Estão a sete dos espantosos 32 troféus ganhos pelo Benfica com a adenda de que, nos últimos 30 anos, mais de metade dos troféus foram parar à Invicta. Como apontou André Villas-Boas, um dos artesões deste regresso dos dragões ao topo da Liga Sagres, esse é um facto cultural e social indesmentível pelos números. O resto, as notas artísticas, as vitórias épicas, a superioridade moral e o discurso da suspeita, no final de contas, e no tapete verde, à vista de todos, onde o resultado final se decide, conta muito pouco. O espectáculo chegou ao fim, o último a sair apague a luz por favor!
A falta de verdades absolutas no futebol torna-o num microcosmos proclive à eterna surpresa. Em 1994 o Barcelona goleou o Real Madrid por 5-0 naquilo que foi o culminar do Dream Team. Um ano depois o clube merengue devolveu a moeda, com os mesmos números, no curto mandato de Valdano. O Benfica não chegou tão longe mas provou, poucos meses depois de sair vergado do Dragão por 5-0, que os pontos débeis do FC Porto são suficientes para dar a volta ao tabuleiro. Uma vitória convincente que diz tão bem de quem ganha como diz tão mal de quem perde.
Não foi um grande Benfica nem era necessário que o fosse. O FC Porto há semanas que vinha dando sinais de ter perdido o gás com que arrancou a temporada. Prioridades mal calculadas, um plantel desiquilibrado e uma postura pouca agressiva condenaram os azuis e brancos mesmo antes do apito inicial. Ninguém esperava um futebol ofensivo dos encarnados e, efectivamente, estes optaram pelo caminho pragmático que tão bom resultado tinha dado ao rival no duelo para a Liga. Então os homens de André Villas-Boas foram autoritários, seguros e jogaram no erro do adversário, a quem superaram tacticamente durante todo o encontro. Culpou-se, e merecidamente, a temeridade de Jesus, que subestimou o potencial destructivo de Hulk no flanco. Ontem foi a vez de Villas-Boas, que passou as últimas semanas ocupado em mind games à la Mourinho, subestimar o orgulho ferido do ainda campeão nacional. O esquema táctico do FC Porto foi o mesmo da vitória por 5-0, mas as peças eram diferentes. E isso fez toda a diferença.
Com Sereno e Sapunaru nas laterais - e com um desastrado Maicon no miolo - os da casa perderam uma das suas maiores armas: a rápida transição entre a defesa e o ataque. A ausência de Alvaro Pereira tem condenado - e muito - o jogo lateral ofensivo dos dragões. Na ausência de Fucile (tal como Walter possivelmente por problemas disciplinares internos) a equipa perde asas e sem isso não consegue voar. Villas-Boas gostaria de emular o belo futebol do Barcelona de Guardiola mas só pode fazer omeletes quem tem ovos e Fernando é um médio de construção limitado, a Moutinho e Belluschi sobra-lhes a garra onde escassa o ingénio e, claro, sem laterais ofensivos e avançados todo o terreno (Hulk, no meio, é facilmente domável), o projecto está condenado ao fracasso. O Benfica marcou em dois erros defensivos que também podem ser vistos como lances de insistência. Essa garra própria da equipa da época passada não se viu nem em Aveiro nem no Dragão, as duas derrotas inaugurais de Jesus às mão do jovem técnico portista. Ontem o Benfica foi mais garra e raça do que talento e invenção, mas foi precisamente essa disciplina táctica que fez a diferença.
Com Coentrão e Maxi Pereira abertos nas alas, o Benfica manobrou com facilidade o apático meio-campo portista.
César Peixoto uniu-se a Javi Garcia no miolo para bloquear o jogo transicional de Moutinho e Belluschi e deu a Gaitán e Salvio toda a liberdade para deambular entre as linhas defensivas azuis. Com Cardozo como pivot declarado e Saviola como redistribuidor de jogo, o conjunto encarnado chegou com a licção bem estudada e soube ocupar bem os espaços deixados vazios pelos jogadores azuis.
Coentrão utilizou as suas habituais subidas pela banda como elemento desiquilibrante e foi uma combinação sua com o argentino, totalmente só, que permitiu ao Benfica inaugurar o marcador. A sua posterior expulsão - já com o jogo num confortável 2-0, fruto de um remate bem colocado de Javi Garcia que ganhou uma confusa segunda bola à frente da baliza de Helton - deu a Jesus o pretexto perfeito para organizar as tropas e defender o resultado. A sua abordagem foi menos entusiasta mas muito mais realista. Percebeu onde o rival era mais débil - nas laterais defensivas e no cone do triângulo a meio-campo - e não teve de se preocupar com o ataque azul e branco, orfão de um dianteiro móvel como Falcao capaz de dar liberdade a Varela - o melhor em campo - e Hulk. Com o brasileiro preso pelo seu próprio técnico - a lembrar o desespero de Cristiano Ronaldo face a Queiroz no passado Mundial - os azuis foram inofensivos. E sem alternativa no banco, as substituições de Villas-Boas foram, apenas, mais do mesmo, sem alterarem nunca a dinamica táctica do jogo, algo que Jesus soube controlar com as entradas de elementos que souberam pausar o ritmo do jogo (Airton e Aimar) e explorar os espaços vazios (Jara) face à inoperância rival. Se tecnicamente o duelo foi equilibrado, tacticamente o tabuleiro de Jesus pareceu sempre estar um degrau por cima e a vitória acabou por ser tão justa como inevitável.
Caidos em descrença depois do humilhante 5-0, o Benfica entrou numa série de jogos sem perder que confirmou com esta vitória categórica e que deixa quase resolvida uma meia-final que terá de esperar 70 dias para recomeçar. A corrida para revalidar o titulo pode ser utópica, mas o reencontro com a sua melhor versão pode deixar os seus adeptos mais descansados sobre o potencial do colectivo a médio prazo. O FC Porto continua a ter a tiro os seus grandes objectivos - Liga e Europe League - mas as sensações deixadas não são as mesmas de 2010. Falta frescura, profundidade de banco e agressividade. E consciência das suas próprias limitações. Licções importantes para os próximos rounds, mais determinantes que os confrontos prévios e onde a margem de erro se tornará inevitavelmente menor.

