Terça-feira, 17.05.11

O FC Porto tem, na última década, tantas finais europeias como qualquer outro. Como AC Milan, Liverpool, Barcelona e Manchester United. José Maria Pedroto talvez nunca o tivesse imaginado mas os seus dragões já são, há muito, parte da elite europeia. Dublin não é novidade. É a confirmação de um estatuto que há dez anos atrás era uma utopia.

 

Quando o FC Porto terminou uma longa seca de 19 anos sem títulos o jovem André Villas-Boas tinha acabado de nascer.

Ele simboliza, nos seus flamantes 33 anos, o domínio avassalador que o FC Porto impôs ao futebol português durante essas três décadas. E é também o rosto ideal para confirmar o estatuto de grande da Europa que começa a ser uma profunda inevitabilidade. Apesar de continuar a ser um clube vendedor, um clube com um passivo considerável e um clube incapaz que produzir, da sua formação, uma geração que suceda à anterior, este clube é uma referência na classe média alta das ligas europeias. Num país periférico, sem expressão na elite do futebol, os azuis e brancos são um oásis que gregos, holandeses, escoceses, belgas, ucranianos, russos, turcos e até mesmo franceses não conseguem criar. Em dez anos Dublin será a terceira final europeia do FC Porto, a quinta da sua história em 26 temporadas. Uma média só ao alcance dos grandes mitos do futebol mundial.

Triunfar em Dublin já não tem a mesma magia de Sevilla. Naquela tarde noite de asfixiante calor os azuis e brancos eram rookies, lembrando-se apenas os mais velhos da glória de Viena. O triunfo de Mourinho abriu uma nova era. Desde então, só por duas vezes os dragões falharam os Oitavos de Final da Champions League. Esta foi uma delas. E terminou em final europeia. Agora do FC Porto espera-se tudo, o favoritismo caminhou do seu lado durante todo o torneio. Na pré-eliminatória, na confortável fase de grupos e nos jogos a eliminar. Nunca o FC Porto deixou de ser o grande candidato e isso explica, em parte, a maturidade competitiva que alcançou o clube. Num ano financeiramente complicado, e com o fantasma do titulo do Benfica presente, os azuis e brancos assinaram a sua época mais completa. E na Europa ditaram lei. Por isso sentem, com legitimidade, que Dublin é só um trâmite mais. Mas enganam-se. Não só porque sabem bem – afinal não foi assim há tanto tempo – o que é chegar a uma final europeia sem o estatuto de favorito. Também devem entender que uma vitória significa, sobretudo, lograr um objectivo moral importante: o respeito do futebol europeu.

 

Quando arranque a próxima Champions League o FC Porto será cabeça-de-serie.

É algo que não logrou em 2004, quando vinha de triunfar em Sevilla. Espelho dos pontos acumulados nos últimos anos nas provas europeias mas também do pedigree desta equipa. Os dragões preferiram investir em lugar de vender para recuperar a hegemonia interna (o que lograram facilmente e com um registo histórico) e de surpresa encontraram-se com a cereja no topo do bolo. Falcao, Hulk, Moutinho, Varela, Guarin, Helton e companhia mostraram o seu melhor rosto nas noites europeias e a filosofia de ataque de Villas-Boas tornou os azuis e brancos no ex-líbris da prova. A equipa que todos queriam evitar. E que chegou, previsivelmente, aonde todos queriam chegar. Sem atalhos.

Se em 2003 já se antecipava uma possível final 100% portuguesa, que afinal não acabou por ser, agora os portuenses encontram-se com o seu destino. Pode enganar o rival – e os benfiquistas sabem isso melhor que ninguém – e o adepto mais distraído pode pensar que se trata de um jogo nacional sem grande importância. Longe disso, será um duelo ainda mais difícil porque supõe estar num patamar a que os dragões são novos: a elite dos favoritos. Ninguém espera um cenário distinto à vitória dos homens de Villas-Boas e esse será o seu duelo. Jogar contra si mesmos, contra a displicência que já condenou tantas equipas grandes no passado. Ao FC Porto exige-se, nada mais e nada menos, que uma superioridade que esteja de acordo com os registos logrados em toda a temporada nas três competições onde chegou até ao fim. Chegados a esse ponto, os portistas encontram-se com os níveis de exigência que estão habituados a ver reflectidos nos rivais. Talvez por isso Dublin, menos mediática que Sevilla e menos pomposa que Gelsenkirchen, seja a final mais importante do clube. Porque supõe, definitivamente, olhar a Europa de olhos nos olhos e ser recebido com honras nesse clube exclusivo europeu.

 

Numa prova por onde andaram os recém-consagrados campeões de Alemanha, Holanda, Rússia, Escócia e alguns dos clubes já com bilhete marcado para a prova dos milhões da próxima temporada, é um erro pensar que uma final 100% portuguesa transforma a competição numa vitória menor. Para o FC Porto, pelo menos, é uma oportunidade única de dar um salto institucional significativo. De lograr o dobro dos títulos europeus conseguidos pelo maior rival interno. De atingir números que superam os registos de Real Madrid, Inter, Chelsea, Arsenal, Bayern Munchen ou Ajax na última década futebolística. De ultrapassar, definitivamente, esse medo antigo. Se com Pedroto era a ponte D. Maria, com o FC Porto moderno era o aeroporto Sá Carneiro. Hoje por hoje, o medo é uma palavra que deixou de ter sentido. Até porque se os homens do “Zé do Boné” mataram a fome de títulos domésticos contra o Braga, os legionários de Villas-Boas querem dar esse passo rumo à glória continental contra os guerreiros bracarenses. A história, inevitavelmente, sempre se repete.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:42 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Guerreiros. Sem dúvida. A campanha europeia do histórico Sporting de Braga de Domingos Paciência foi certamente uma pequena guerra para os minhotos. Uma longa guerra que arrancou no Verão, com a suspeita de muitos, e que termina agora em Dublin onde 194 equipas queriam chegar. E nenhuma deles mereceu tanto o bilhete para terras irlandeses do que uma equipa que desafiou todas as probabilidades e no final saiu com as fichas no bolso.

 

Não se trata apenas da primeira final europeia de um clube pequeno como é, realmente, o Sporting de Braga.

Até na liga portuguesa, bem longe dos potentados europeus, o conjunto arsenalista era uma equipa pequena até há uma década atrás. Vivia na sombra da ascensão do seu vizinho mais próximo, o Vitória de Guimarães liderado por Pimenta Machado, e as aspirações dos adeptos locais passavam apenas por uma época sem muitos altos e baixos. Com a chegada de Manuel Cajuda, a princípios da década passada, o Braga começou o seu percurso. Depois passaram Jesualdo Ferreira, Jorge Costa e Jorge Jesus, dois técnicos que se sagrariam campeões nacionais à posteriori e um que deixou de lado uma carreira promissora. O projecto era desportivamente estável e economicamente viável. Mas, ainda assim, pequeno. Até mesmo para Portugal. Só que havia algo na pedreira bracarense que começava a mudar. Sem rivais no meio da tabela à altura, com a queda do Boavista e as habituais crises existenciais de Vitória de Guimarães e dos clubes madeirenses, o Braga foi delimitando o seu espaço. E com Domingos Pacicência começou a escrever a história.

Não terá sido mais importante o golo de Miguel Garcia do que aquele que apontou Paulo César na pré-eliminatória diante do Celtic de Glasgow. Naquele quente dia de Agosto o Braga ainda não era ninguém. Um mês depois, esmagado o poderoso Sevilla, os bracarenses eram já a equipa de moda na Europa. Foi um ano complicado e cheio de obstáculos difíceis pela frente. Celtic, Sevilla, Arsenal, Shaktar Donetsk, Partizan, Lech Poznan, Liverpool, Dynamo Kiev, Benfica...dez equipas de nível, três campeões nacionais, equipas de top das principais ligas, históricos do futebol, lembranças da Champions League. A nenhum lhes valeu os pergaminhos passados. No presente a onda de euforia de Braga podia mais. Muito mais.

 

Em 2003 o Boavista esteve perto de selar o seu destino com o apuramento para a final de Sevilla onde estava, também, o FC Porto. Falhou.

Na altura percebeu-se o quão difícil era a um clube português, pequeno ou grande, chegar a uma final europeia. Afinal foram três presenças na última década, uma na década de 90, quatro na de oitenta, nenhuma na de setenta e seis na de sessenta. 14 finais com sabor português. E sempre com os chamados “grandes”. O Braga rompe uma lança a favor dos outros, dos que também podem.

Sem estrelas, com essa discrição financeira que obrigou a deixar partir jogadores determinantes como Matheus em Janeiro, e com um caminho complicado, o mérito do Braga é tremendo. Mais do que um 4-3-3 ou um 4-5-1, mais do que a capacidade de Vandinho de ocupar espaços. Do pulmão de Leandro Salino. Das correrias de Silvio e Miguel Garcia. Dos golos de Meyong ou Lima. Do olhar cerebral de Hugo Viana ou da fantasia de Mossoró. Das defesas acrobáticas de Arthur ou dos cortes de última hora de Rodriguez ou Paulão. Mais do que tudo isso, o fenómeno do Braga é mais social do que desportivo. Mais moral do que táctico. Mais humano do que puramente futebolístico. É o grito de guerra de uma pequena urbe, de um clube modesto num espaço que se supõe que é exclusivo dos grandes. Grandes em nome, grandes em dinheiro. Mas também grandes em coração.

Há dez anos atrás, precisamente, a final da UEFA, como ainda se chamava, viveu uma noite louca entre um histórico como o Liverpool e um modesto como Deportivo Alavés. O Braga não vive no extremos dos vitorianos, um breve mas cintilante cometa do futebol espanhol, mas sabem bem o que é ter a desconfiança do mundo em cima de si. Desde então, todas as finais foram disputadas por clubes com um passado, com pedigree, mesmo que longínquo como o do Midlesborough ou Espanyol. Nenhuma teve um convidado tão discreto como este Braga.

 

Talvez por isso Dublin seja mais do que uma festa portuguesa. É uma festa de um tipo de clubes que tenta sobreviver entre os milhões, os critérios da UEFA, a corrupção, os tubarões do mercado e os naufrágios económicos. A festa de um clube que sabe qual é o seu limite mas que teima em tentar ir um pouco mais longe. Talvez por isso Dublin já seja arsenalista. Só que ainda não o sabe muito bem...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 07:38 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Segunda-feira, 16.05.11

Faltavam poucos segundos para acabar. Um livre envenenado de Danny Murphy encontrou a cabeça de Geli, perdido no meio de tantos jogadores. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas mas foi assim que chegou a fim a final europeia mais empolgado da última década. Dez anos depois o Deportivo de Alavés milita na 2º B espanhola. Não é assim que costumam acabar os contos de fadas. Mas ninguém duvida que a história dos alaveses é digna de uma fábula futebolística.

 

 

A boa noticia para os adeptos do Alavés é que o pior parece ter passado.

A equipa de Vitória, capital do País Vasco, está no pote de clubes que irá lutar pela promoção à Liga Adelante, a segunda divisão do país vizinho. Há muito tempo que os alaveses andam perdidos nessa floresta de equipas caídas em desgraça. O seu caso tem uma explicação muito simples, nefastamente comum. Um pretenso milionário ucraniano, Dimitri Pitterman, comprou o clube e desfez o projecto em fanicos. Ficou apenas a memória do futebol de elite. E daquela noite em Dortmund. A noite de um 16 de Maio. Há dez anos atrás.

Numa equipa sem estrelas, que rapidamente seria desmembrada pelo poder de atracção do dinheiro fácil, ninguém esperava uma noite assim. Os jogadores do Alavés sabiam-se outsiders e apenas queriam dar a cara, responder ao orgulho dos adeptos que os acompanharam na sua caminhada europeia. O grande momento, a grande gesta tinha ficado para trás, numa fria noite de 22 de Fevereiro. O San Siro, cheio, testemunhou como o anónimo Alavés batia por 0-2 o poderoso Internazionale, uma semana depois de aguentar um 3-3 em casa. Jordi Cruyff, ao minuto 78, abriu a contagem que Tomic fechou 10 minutos depois para desespero de Marcello Lippi, Christian Vieri e companhia.

Mané, técnico modesto e com aquele espírito guerreiro de antes quebrar que torcer que moldou a escola vasca, nunca esperou a resposta dos seus jogadores depois do grande jogo do Inter em Vitória. Esta era uma equipa onde a estrela, pelo apelido, era Jordi Cruyff. Muitos jogadores espanhóis com largos anos de futebol secundário nas pernas formavam o esqueleto do conjunto. Num 5-3-2 que apostava profundamente no contragolpe, a segurança defensiva de Karmona e Tellez era fundamental. Os dois centrais, decisivos nos lances de bola parada, formavam o esqueleto. Mas era a velocidade do romeno Contra, a qualidade de passe de Desio e o instinto goleador de Javi Moreno que chamavam à atenção. Antes daquele duelo com o Internazionale a equipa tinha eliminado dois conjuntos noruegueses (Lillestrom e Rosenborg) e nas rondas seguintes bateu o igualmente modesto Rayo Vallecano e o Kaiserlautern alemão. Dois anos depois de ser promovido à Liga espanhola, o Aláves estava numa final europeia.

 

Olhando para trás, é fácil perceber o milagre do conjunto basco.

O espírito de equipa, a natureza dos rivais e a clara aposta do clube na prova da UEFA, o escaparate perfeito para fazer alguns milhões no defeso, funcionou como catalisador. Mané criou um forte sentido colectivo nos jogadores que saiam a jantar juntos com as famílias todas as semanas, comiam “pintxos” tradicionais em pleno balneário e que sentiam que partilhavam tanto as agruras como os elogios. A maioria da equipa tinha subido de divisão dois anos antes, incluindo o técnico. Os poucos que chegavam de forma ao Mendizorrozza integravam-se sem problemas e no final de contas foi esse espírito que permitiu ao clube dar a cara diante do poderoso Liverpool.

A equipa de Gerard Houllier chegava à sua primeira final pós-Heysel com uma das suas mais espantosas gerações. Tinham batido com autoridade o Barcelona, FC Porto e a AS Roma. Contavam com a estrela europeia de moda, Michael Owen, mas também Robbie Fowler, Steven Gerrard, Jamie Carragher, Danny Murphy, Gary MacAllister, Dietmar Hamman e Emile Heskey. Eram favoritos e sabiam-no. Mas não esperavam uma resistência de proporções épicas. Naquela tarde noite no Westfallenstadion a vitória do Liverpool ficou ofuscada pela exibição do modesto Deportivo. Os golos de Babbel, Gerrard, MacAllister, Owen encontravam sempre resposta. Ivan Alonso, Javi Moreno e Jordi Cruyff, no minuto 89, teimavam em amargar a festa dos reds. A tensão começava a tomar conta do banco do Liverpool e os alaveses acreditavam que um milagre, um milagre futebolístico, estava prestes a tornar-se realidade. A três minutos do fim o conto de fadas acabou na cabeça de Geli, nesse desvio para as redes de Herrera e nesse desalento que dura há dez anos. O Alavés esteve perto de fazer história. Sem entender muito bem como, acabou realmente por fazê-la, à sua maneira.

 

 

Depois dessa noite épica o mundo nunca mais se esqueceu dos vitorianos. Mas a sorte abandonou o Deportivo com aquele cabeceamento. Dois anos depois o conjunto foi despromovido à 2º Divisão. Voltaria no ano seguinte mas a gestão criminal do ucraniano Pitterman levou a instituição à falência e ao calabouço da 3º Divisão. A pouco e pouco o modesto clube começa a erguer-se. Mas faça o que fizer, sempre que o nome apareça numa noticia em qualquer recanto do mundo, a única imagem que nos saltará à cabeça é a dessa noite onde o futebol foi mais futebol do que nunca e em que ficou claro que os contos de fadas às vezes não acabam como queremos. Mas nunca deixam de ser mágicos.  



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:31 | link do post | comentar

Sexta-feira, 06.05.11

46 quilómetros. Um diâmetro espacial que é menor do que une muitas das grandes cidades do Mundo. O espaço que separa o estádio do Dragão do estádio Axa. O Porto de Braga. Os dois finalistas da Europe League 2011. Um feito histórico para o futebol português. Um feito histórico para uma região que tem sentido, como nenhuma outra, o desmoronar da economia comunitária. Nesses 46 quilómetros vivem os projectos, as ilusões e as esperanças. Passe o que passar eles chegaram lá. A Dublin. Cidade com pronúncia do norte...

 

 

 

Um salto na história. Um salto desafiante. Um salto preciso.

O golo de Custódio gelou um país habituado à ladainha dos "seis milhões", um país que não entende de diferenças de credo. Um país que, ainda hoje, se esquece que há vida para lá da capital, que há vida para lá do império imaginário. O salto de Custódio, um puto de Guimarães que se fez herói em Braga. Coisas da vida! O salto de um jogador dispensado por um grande da capital e que deixou de ser uma promessa para passar a ser mais um zé-ninguém. Assim funcionam as coisas em Portugal. Palavras que Miguel Garcia e Hugo Viana poderiam fazer suas. Os três estavam lá e testemunharam aquele salto imenso que transformou um clube regional numa potência europeia. O Sporting Clube de Braga, esse clube que parecia uma moda passageira, é o 100º finalista de uma prova da UEFA. A quarta equipa portuguesa em lograr esse feito histórico. A primeira a deixar outra equipa nacional pelo caminho. Sem contestação.

Um projecto pequeno que a imprensa lusa sempre tentou empequenecer sem entender que os partidismos nacionais na Europa perdem todo o sentido. Este Braga, uma equipa com as contas em dia, uma equipa sem dividas e fundos a que recorrer quando as coisas apertam, é um caso sério. Desde a chegada de António Salvador transformou-se num autêntico grande, feito que só o Boavista pode reclamar fora do circulo dos três clubes que têm asfixiado o futebol português. Com a desaparição momentânea dos axadrezados destas contas e o progressivo empequenecimento do Sporting, o Braga tinha a oportunidade de dar um murro na mesa. Em 2010 o titulo perdeu-se por muito pouco, em 2011 Dublin conseguiu-se por pequenos detalhes. Estavam Vandinho e Mossoró desta vez. Estavam aqueles que aprenderam a lição de como se joga este tipo de duelos. E estava, sobretudo, uma equipa com fome de desforra. Ás vezes é o que basta. Isso e um salto imparável para furar os livros de história.

 

 

 

Os 46 kilómetros que separam Braga da cidade do Porto são quase a mesma distância da mais longa avenida do mundo. É muito para um país pequeno e muito pouco para um Mundo tão grande. As provas da UEFA já acolheram finais entre clubes do mesmo país mas nunca com uma proximidade geográfica tão gritante. Bracarenses e portuenses são quase vizinhos e em Dublin a festa terá uma forte pronuncia nortenha. Com sotaque do Porto.

Domingos Paciência era aquele miudo de Leça que mal tinha para comer e que muitas vezes lançava na casa dos amigos porque estes sabiam que em sua casa só lhe esperava uma sopa. Esse herói das Antas tornou-se no messias da pedreira de Braga. Quando em 1994 o inglês Bobby Robson parecia ter perdido a confiança no esguio dianteiro um miúdo de 13 anos aproximou-se dele perto de sua casa e explicou-lhe como tinha de aproveitar as capacidades do internacional português. Esse miúdo, portuense de gema, que nunca passou fome nem lhe faltou nada, transformou-se no homem dos recordes e aos 33 anos no mais jovem técnico a chegar a uma final europeia. André Villas-Boas e Domingos Paciência representam dois lados bem diferentes da Invicta, da vida que pautou o norte de Portugal desde sempre. E o futebol uniu-os de tal forma que até na glória mútua acabam por ter de se reencontrar. Da mesma forma que o FC Porto se tornou um clube internacional depois do desprezo da capital que queria reduzir os azuis e brancos a "andrades" de província com uma final europeia (então perdida para a toda poderosa Juventus em 1984), também o Braga conseguiu soltar-se desses preconceitos sociais para fazer história. Celtic, Sevilla, Liverpool, Dynamo de Kiev e Benfica, todas elas equipas com títulos europeus no seu brilhante curriculum que não souberam aguentar o vendaval bracarense. Um vendaval em quem ninguém acreditou, eliminatória após eliminatória. Se ao FC Porto era reconhecido o seu favoritismo, que se foi cimentando a cada jogo e acabou numa eliminatória histórica face ao Villareal, ao Braga estava destinado o papel de patinho feio. Talvez por isso a equipa de Domingos seguiu sempre em frente, porque não teve de se preocupar em olhar para o espelho.

O Benfica, o terceiro português em discórdia, era o favorito. Antes de arrancar a Liga, antes de arrancar a Champions League e antes de arrancar a Europe League na sua fase a eliminar. Mas perdeu demasiado tempo a olhar-se reflectido num espelho enganador. Sem pernas, sem atitude, sem destreza mental, os encarnados actuaram numa semifinal europeia convencidos que estavam num duelo nacional sem grande importância. A arrogância, sempre patente no discurso do seu técnico, desencontrou-se com a realidade. Talvez se a eliminatória tivesse sido trocada e o duelo fosse com os espanhóis a equipa tivesse reagido de outra forma. Pagou o preço do pecado mortal que no futebol não perdoa, o orgulho. E assinou por baixo uma época a todos os títulos decepcionante. Não soube estar à altura da sua história, dos seus pergaminhos e do seu próprio futebol. O espelho mentiu, mas só a eles, porque havia muitos que conseguiam ver para lá da ilusão.

 

 

 

18 de Maio tornar-se-á num dia histórico para Portugal. Mas talvez a ausência dos representantes do centralismo asfixiante transforme uma festa europeia numa reunião de vizinhos. O impacto mediático dado, em Portugal pelo menos, será bem diferente se os rostos fossem outros. É de esperar, afinal não seria a primeira vez. Mas a Europa estará forçosamente atenta e tentará descobrir o que está no meio destes 46 quilómetros que unem mais do que separam. Do Bom Jesus de Braga vê-se o Douro? Talvez não, mas o eco da pronuncia do norte já se ouve lá longe nas areias dançantes de Dublin... 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:11 | link do post | comentar | ver comentários (64)

Quinta-feira, 28.04.11

noites assim. Noites que convidam à épica histórica. Noites que ensinam como se sonha. As memórias recentes de noites históricas não estavam tão perdidas assim na penumbra. A contundente vitória do FC Porto frente ao Villareal não dita apenas o destino provável de uma eliminatória. Não permite apenas sonhar com uma final histórica para o futebol português. Permite entender que o jogo é mais do que um jogo, que a épica é sempre algo mais do que uma ilusão.

Quando Falcao colocou a bola num recanto de tal forma escondido ao olhar perdido de Diego Lopez, o estádio do Dragão sentiu o fim do peso de uma memória. Durante anos os adeptos azuis e brancos viveram com a mitica vitória frente á AS Lazio. Foi o inicio da era Mourinho, como se conhece, e abriu as portas do reinado europeu dos dragões. Nunca mais, nem na corrida para Gelsenkirchen, houve tanta emoção durante 90 minutos. Até hoje. Precisamente até ao golo de Cani. Um belo golo de uma grande equipa, como sempre demonstrou ser o Villareal, que estava a ser mais perigosa e mais certeira nas poucas ocasiões que o jogo permitia. Um golo que matou uma primeira parte equilibrada onde o FC Porto dominou com a bola mas em que o perigo era do celebre Submarino Amarelo espanhol. E que lembrou Claudio Lopez, esse argentino endiabrado que abriu o sonho dos adeptos da Lazio. E dos portistas também. Sem o saber.

Depois nunca mais houve luta. Cinco torpedos, cinco verdadeiros tiros ao alvo que afundaram um sólido submarino, uma equipa perfeitamente colocada no terreno de jogo mas que não teve oxigénio e cabeça para aguentar a avalanche ofensiva dos locais. Guarin e Moutinho, dois verdadeiros dínamos no miolo, permitiram estender a teia que amarrou por completo o talento de Cazorla, Valero e Bruno. E depois surgiu Falcao. Talvez o melhor ponta de lança puro do ano no futebol europeu. Talvez um dos jogadores mais determinantes do futebol actual, o colombiano destroçou com o seu timing perfeito o Villareal. Um penalti ganho e convertido de forma eximia, escondendo fantasmas recentes. Um gesto técnico primoroso, depois de mais uma lição de superioridade física de Hulk, que os espanhóis nunca souberam controlar, e dois cabeceamentos tão certeiros como o outrora mítico Jardel. Tudo noite de fantasmas antigos, tudo noite de evocações de glórias passadas. E tudo numa noite de um imenso sentido histórico. Não pelo provável apuramento mas pela dimensão da autoridade de uma equipa que há um ano apenas vivia na amargura de um fim de ciclo quase inevitável.

 

André Villas-Boas é, sem dúvida, o mentor desta rebelião. Deste grito de guerra.

A sua atitude ao intervalo transmitiu a tranquilidade que faltava e a motivação escondida. Se o Villareal controlou inicialmente o seu dispositivo táctico inovador - com Cristian Rodriguez mais como médio interior, abrindo a ala a Alvaro Pereira e abdicando assim do 4-3-3 habitual - com a pressão alta e asfixiante do segundo tempo não houve forma de lidar. A bola que na primeira parte circulava sem grandes pressas no segundo tempo lembrou-se de correr. E nunca mais parou. Velocidade, eficácia, garra, palavras de ordem de uma atitude que foi a base para a reviravolta.

Villas-Boas sabe do poder que a mente tem sobre os seus. Motiva-os como fazem poucos técnicos no futebol actual e o fantasma, outro, de Mourinho, é cada vez mais uma sombra distante. Quem diria.

Depois de humilhar, e o termo certo é esse, os russos do CSKA e Spartak de Moscovo, depois de bater, com esforço, sorte e eficácia o poderoso Sevilla, o Villareal parecia ser um desafio á altura. E esta equipa, ao contrário do que diz o resultado - mas também por isso - é uma grande equipa e soube estar como tal no Dragão. A táctica de Garrido funcionou e a equipa soltou-se cedo da pressão do FC Porto para explorar as falhas de marcação defensiva que a linha de quatro bem avançada deixava atrás. O golo de Cani parecia indicar tudo aquilo que se viveu á posteriori. Com o valor a dobrar do golo, o clube português sabia que precisava de mudar. E mudou. Não no esquema táctico, não nos interpretes, nem sequer na atitude. Mas na forma de olhar olhos nos olhos o rival. Hulk encarou, Falcao moveu-se, Guarin e Moutinho circularam e a bola nunca mais se sentiu cómoda nos pés dos espanhóis. Um, dois, três, quatro, cinco. Contas fáceis de fazer, contas habituais nesta corrida europeia. Contas de uma equipa que não conhece limites. Em Portugal, comprovadamente. Na Europa, inequivocamente. Independentemente do que espera os lusos no Madrigal - um clima fantástico mas que sentirá certamente a grandeza da tarefa - a épica remontada, essa lembrança de Sevilla, começa a sentir-se de forma cada vez mais intensa. Porque se os saudosos ainda se lembram dessa equipa como a cumbre da era Mourinho, o seu falso discípulo, André Villas-Boas, terá de viver com a sua própria sombra a partir de agora porque já não á volta atrás. A história, a do jogo, a que realmente conta, já tratou de guardar-lhe um lugar especial. A Europa, essa dimensão estrutural de um jogo ás vezes perdido em picardias nacionais, há muito que desconfia e agora sabe bem de que matéria se faz este renovado FC Porto.

 

Em Dublin, se a tendência se confirmar, a festa será portuguesa. Seja o Braga, seja o Benfica, "uma noite portuguesa, com certeza", é um facto consumado que a presença do FC Porto foi ganha a pulso, tal como há oito anos atrás. E se a Europe League não é a Champions League, porque está claro que não o é, três dos semi-finalistas têm praticamente garantido o lugar na elite europeia em 2011. Um forte aviso de que há outra face do futebol europeu para lá dos Clásicos, das polémicas e da confusão emocional em que se tornou a prova rainha da UEFA. E entre os três nenhum pode assinar uma época tão memorável como o FC Porto. Com dedo do mestre André, com a atitude de uma cultura desportiva, com um sonho que não esquece fantasmas antigos...com um conceito de épica que é o mesmo que dá sentido ás cores da História. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 22:01 | link do post | comentar | ver comentários (17)

Sexta-feira, 15.04.11

Nunca uma região geográfica dominou de forma tão clara as provas europeias patrocinadas pela UEFA. Dos oito semi-finalistas europeus, seis encontram-se na Peninsula Ibérica. Um feito histórico que confirma a tendência dos últimos anos. O futebol europeu volta a deslocar-se, progressivamente, para o sul. E Espanha e Portugal podem passar um mês de Maio em plena festa.


Depois dos resultados das primeiras mãos era expectável. Mas apesar de tudo não deixa de ser uma doce realidade.

Portugal colocou pela primeira vez na sua história três equipas numa meia-final europeia, garantindo à partida um lugar na final. Que pode ser lusa a 100% se o intruso espanhol não estragar a festa. Na prova rainha da Europa os espanhóis garantem também um lugar na final, um mano a mano histórico entre os seus dois gigantes. Final contra um representante do norte da Europa. Seja o Manchester United seja o Schalke 04, um alien nesta história. Uma história europeia e ibérica. Histórica.

Em 2010 houve quatro equipas do norte contra quatro equipas do sul da Europa nas semi-finais das duas provas. Um ano antes, em 2009, o dominio do norte europeu era ainda evidente. Mas as coisas começam, progressivamente, a mudar.

Já houve finais europeias com clubes do mesmo país. Espanha (por duas vezes), Inglaterra (por duas vezes), Itália (por duas vezes) e Alemanha (por uma vez). Mas um dominio tão grande de uma zona geográfica nas duas provas europeias, isso sim é inédito. O dominio dos ingleses na Champions League nunca se viu acompanhado pelas performances dos seus clubes na Europe League (ou a defunta Taça UEFA). A melhor era do futebol italiano, a meados dos anos 90, foi a única que se aproximou a esta realidade. Mas, mesmo assim, estamos a falar de seis clubes de dois países desportivamente muito diferentes. Se Barcelona e Real Madrid deveriam ser, à priori, presenças naturais a esta altura da competição (e o Barça soma mais um record com quatro semi-finais consecutivas) já o feito das equipas lusas é ainda mais louvável. Duas equipas procedentes da Champions League confirmam uma tendência habitual da segunda prova da UEFA. Tanto Braga como Benfica vieram da prova rainha e um dos lugares em Dublin é para eles, sim ou sim. O outro será para as duas melhores equipas do torneio numa verdadeira final antecipada. Duas equipas que não puseram os pés na Champions deste ano mas que certamente marcarão presença na próxima época. O seu nivel é esse, futebolisticamente e estruturalmente. O Villarreal é um dos projectos futebolisticos mais fascinantes do futebol europeu. Sem os milhões na liga dos milhões ontem alinhou oito jogadores da sua formação a que juntou pérolas resgatadas aos grandes (Diego Lopez, Rossi e Borja Valero) do futebol europeu. Destroçou a duas mãos o Twente, provável futuro campeão holandês. Antes já o tinha feito a Bayer Leverkusen e Napoli, segundos de Alemanha e Itália. Uma demonstração de força que encontra rival à altura. O FC Porto de André Villas-Boas.

Depois do esperado titulo nacional a ambição europeia. O clube da Invicta aplicou uma goleada histórica em duas mãos a um russo saído também da Champions League e está a três jogos de repetir o feito logrado na última vez que passeou por esta prova. O que significaria uma final 100% made in Portugal, um êxito conjunturla que não deve tapar os graves problemas do futebol luso.


Do outro lado da barricada estão Braga e Benfica. Ambos chegam a esta altura da época por méritos próprios e caminhos distintos.

O Benfica sofredor, como sempre, esteve com um pé fora da prova até que Luisão acalmou os nervos de Jorge Jesus. O PSV acabou por ser manso demais (como PSG e Stutgart antes) e não teve argumentos para o conjunto luso. O Benfica regressa a uma meia-final europeia 21 anos depois. Até aos anos 70 era a segunda equipa do futebol com mais presenças nessa fase da prova rainha europeia. Depois a longa agonia. Que uma presença em Dublin pode acalmar. Já o Braga tem, provavelmente, a maior quota de mérito dos semi-finalistas. É o Schalke 04 desta prova, salvas as devidas distâncias económicas e desportivas.

A equipa de Domingos Paciência bateu o Liverpool agónicamente e soube sofrer em Kiev e Braga para eliminar o ambicioso Dynamo ucraniano. Com as suas conhecidas limitações - ontem Paulo César teve de ser lateral direito - o Braga matou todos os fantasmas que rodeiam o seu projecto e as capacidades do seu técnico. Chegam tão longe como o histórico Boavista do inicio da década - que então caiu aos pés do Celtic de Glasgow e falhou uma final 100% made in Porto. Contra o Benfica, rival que conhecem bem, e com um ambiente europeu sem os habituais condicionantes da arbitragem portuguese adivinha-se um duelo extremamente equilibrado. O melhor certamente seguirá em frente.

Um sonho que persegue igualmente o Schalke 04. Mas os alemães são matreiros e no único duelo do norte da Europa sabem que o Manchester United desta época não tem o mesmo glamour de outros tempos. Emular o feito do Bayer Leverkusen é o objectivo de Raúl e companhia. O espanhol gostaria de rever o seu ex-clube, mas a verdade é que o Barcelona parte como favorito. Espanha tem certamente presença garantida em Londres. Os campeões e o seu eterno rival jogam quatro vezes em três semanas (Liga, Taça e meias-finais) e todos os jogos valem mais do que se possa imaginar num país dividido até ao tutano entre merengues e culés. Se o vencedor do Villareal vs FC Porto é o máximo favorito em Dublin todos sabem que quem saia vencedor deste duelo fracticida também entra como grande favorito pelo velho Wembley.


No meio deste dominio português da Europe League destaca-se, uma vez mais, a ausência do Sporting. O último clube português a marcar presença numa final europeia começa a perder corrida nessa luta emocional pelo titulo de "grande". O passado no futebol vale menos do que se imagina e face à afirmação europeia de Benfica, à consolidação da superioridade do FC Porto e ao arrojo do projecto do SC Braga, os leões têm de reagir. Até lá podemos ficar com um pequeno sabor de como seria uma eventual Liga Ibérica. Com algum intruso pelo meio...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:43 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Nunca uma região geográfica dominou de forma tão clara as provas europeias patrocinadas pela UEFA. Dos oito semi-finalistas europeus, seis encontram-se na Peninsula Ibérica. Um feito histórico que confirma a tendência dos últimos anos. O futebol europeu volta a deslocar-se, progressivamente, para o sul. E Espanha e Portugal podem passar um mês de Maio em plena festa.

 

 

 

Depois dos resultados das primeiras mãos era expectável. Mas apesar de tudo não deixa de ser uma doce realidade.

Portugal colocou pela primeira vez na sua história três equipas numa meia-final europeia, garantindo à partida um lugar na final. Que pode ser lusa a 100% se o intruso espanhol não estragar a festa. Na prova rainha da Europa os espanhóis garantem também um lugar na final, um mano a mano histórico entre os seus dois gigantes. Final contra um representante do norte da Europa. Seja o Manchester United seja o Schalke 04, um alien nesta história. Uma história europeia e ibérica. Histórica.

Em 2010 houve quatro equipas do norte contra quatro equipas do sul da Europa nas semi-finais das duas provas. Um ano antes, em 2009, o dominio do norte europeu era ainda evidente. Mas as coisas começam, progressivamente, a mudar.

Já houve finais europeias com clubes do mesmo país. Espanha (por duas vezes), Inglaterra (por duas vezes), Itália (por duas vezes) e Alemanha (por uma vez). Mas um dominio tão grande de uma zona geográfica nas duas provas europeias, isso sim é inédito. O dominio dos ingleses na Champions League nunca se viu acompanhado pelas performances dos seus clubes na Europe League (ou a defunta Taça UEFA). A melhor era do futebol italiano, a meados dos anos 90, foi a única que se aproximou a esta realidade. Mas, mesmo assim, estamos a falar de seis clubes de dois países desportivamente muito diferentes. Se Barcelona e Real Madrid deveriam ser, à priori, presenças naturais a esta altura da competição (e o Barça soma mais um record com quatro semi-finais consecutivas) já o feito das equipas lusas é ainda mais louvável. Duas equipas procedentes da Champions League confirmam uma tendência habitual da segunda prova da UEFA. Tanto Braga como Benfica vieram da prova rainha e um dos lugares em Dublin é para eles, sim ou sim. O outro será para as duas melhores equipas do torneio numa verdadeira final antecipada. Duas equipas que não puseram os pés na Champions deste ano mas que certamente marcarão presença na próxima época. O seu nivel é esse, futebolisticamente e estruturalmente. O Villarreal é um dos projectos futebolisticos mais fascinantes do futebol europeu. Sem os milhões na liga dos milhões ontem alinhou oito jogadores da sua formação a que juntou pérolas resgatadas aos grandes (Diego Lopez, Rossi e Borja Valero) do futebol europeu. Destroçou a duas mãos o Twente, provável futuro campeão holandês. Antes já o tinha feito a Bayer Leverkusen e Napoli, segundos de Alemanha e Itália. Uma demonstração de força que encontra rival à altura. O FC Porto de André Villas-Boas.

Depois do esperado titulo nacional a ambição europeia. O clube da Invicta aplicou uma goleada histórica em duas mãos a um russo saído também da Champions League e está a três jogos de repetir o feito logrado na última vez que passeou por esta prova. O que significaria uma final 100% made in Portugal, um êxito conjunturla que não deve tapar os graves problemas do futebol luso.

 

Do outro lado da barricada estão Braga e Benfica. Ambos chegam a esta altura da época por méritos próprios e caminhos distintos.

O Benfica sofredor, como sempre, esteve com um pé fora da prova até que Luisão acalmou os nervos de Jorge Jesus. O PSV acabou por ser manso demais (como PSG e Stutgart antes) e não teve argumentos para o conjunto luso. O Benfica regressa a uma meia-final europeia 21 anos depois. Até aos anos 70 era a segunda equipa do futebol com mais presenças nessa fase da prova rainha europeia. Depois a longa agonia. Que uma presença em Dublin pode acalmar. Já o Braga tem, provavelmente, a maior quota de mérito dos semi-finalistas. É o Schalke 04 desta prova, salvas as devidas distâncias económicas e desportivas.

A equipa de Domingos Paciência bateu o Liverpool agónicamente e soube sofrer em Kiev e Braga para eliminar o ambicioso Dynamo ucraniano. Com as suas conhecidas limitações - ontem Paulo César teve de ser lateral direito - o Braga matou todos os fantasmas que rodeiam o seu projecto e as capacidades do seu técnico. Chegam tão longe como o histórico Boavista do inicio da década - que então caiu aos pés do Celtic de Glasgow e falhou uma final 100% made in Porto. Contra o Benfica, rival que conhecem bem, e com um ambiente europeu sem os habituais condicionantes da arbitragem portuguese adivinha-se um duelo extremamente equilibrado. O melhor certamente seguirá em frente.

Um sonho que persegue igualmente o Schalke 04. Mas os alemães são matreiros e no único duelo do norte da Europa sabem que o Manchester United desta época não tem o mesmo glamour de outros tempos. Emular o feito do Bayer Leverkusen é o objectivo de Raúl e companhia. O espanhol gostaria de rever o seu ex-clube, mas a verdade é que o Barcelona parte como favorito. Espanha tem certamente presença garantida em Londres. Os campeões e o seu eterno rival jogam quatro vezes em três semanas (Liga, Taça e meias-finais) e todos os jogos valem mais do que se possa imaginar num país dividido até ao tutano entre merengues e culés. Se o vencedor do Villareal vs FC Porto é o máximo favorito em Dublin todos sabem que quem saia vencedor deste duelo fracticida também entra como grande favorito pelo velho Wembley.

 

 

 

No meio deste dominio português da Europe League destaca-se, uma vez mais, a ausência do Sporting. O último clube português a marcar presença numa final europeia começa a perder corrida nessa luta emocional pelo titulo de "grande". O passado no futebol vale menos do que se imagina e face à afirmação europeia de Benfica, à consolidação da superioridade do FC Porto e ao arrojo do projecto do SC Braga, os leões têm de reagir. Até lá podemos ficar com um pequeno sabor de como seria uma eventual Liga Ibérica. Com algum intruso pelo meio...



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:43 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sexta-feira, 18.02.11

Quatro equipas na fase a eliminar da Europe League. Quatro equipas com legitimas aspirações a seguir em frente. Mas também, quatro equipas que sentem na pele cada vez mais a diferença entre a sonolenta Liga Sagres e o ritmo competitivo no resto da Europa. Os resultados foram melhores que as exibições e o ritmo de jogo deixou a nú, uma vez mais, as gritantes debilidades do futebol português.

 

 

 

Sem equipas na fase final da Champions League (pela primeira vez desde 2003), o futebol português encontrou na Europe League o escaparate perfeito para salvar a imagem no estrangeiro e, inevitavelmente, para coleccionar pontos no ranking UEFA. Cercado por russos, ucranianos, romenos e holandeses, os portugueses sabem que cada resultado é chave para decidir os futuros milhões que podem (ou não) entrar nos cofres dos primeiros três classificados da prova nos próximos anos. Mas o que fica claro, depois da primeira mão destes 16 avos de final da segunda prova da UEFA, é que as equipas portugueses têm um longo caminho a precorrer se querem, realmente, sentir-se parte da elite.

O problema deste futebol luso não são tanto os resultados. É a qualidade de jogo. Uma inevitável diferença com o resto da Europa que só ganha forma quando as equipas são forçadas a sair desse casulo que é a Liga Sagres. O mesmo que permite dar uma imagem de uma equipa imbatida (FC Porto) ou de uma equipa que, segundo o seu treinador, "mete medo" (SL Benfica) e que não se vê no relvado quando o rival do outro lado está habituado a outras rotinas, outros ritmos, outra postura.

Se ao Sporting de Braga, destroçado pelas vendas no mercado de Inverno, há pouco que apontar na sua excursão polaca - uma equipa em pausa de Inverno e a jogar num estádio sem o minimo de condições - aos "três grandes" fica claro que a exigência europeia deixou a nu as principais debilidades de cada quadro. O Lech Poznan de Jose Maria Bakero já tinha deixado uma óptima imagem na fase de grupos (vergou a Juventus e aguentou o ritmo do Manchester City) e aproveitou bem o efeito casa para colocar-se em frente da eliminatória. E o Braga é, sabe-se, uma equipa em processo de reconstrução apressado e com muitas dificuldades em lidar com a presença em duas competições ao mais alto nivel a esta altura do ano. A tipica "malaise" das equipas médias lusas que é já um mal crónico e sem solução à vista. Enquanto a Liga Sagres for um poço não-competitivo, os jogadores dos clubes portugueses nunca estarão preparados para dar o seu melhor duas vezes à semana durante largos meses de um ano. Portugal é, assim mesmo, uma quadratura de circulo.

 

Mas se os bracarenses são, apesar de tudo, uma equipa pouco habituada a estas andanças, o mesmo não se pode dizer dos "grandes".

Mais do que os bons resultados logrados (particularmente a vitória fora de portas do FC Porto), ficou claro que em nenhum dos jogos houve superioridade. A Europe League desta época é, provavelmente, a edição mais equilibrada dos últimos anos com as equipas que chegam da Champions League a perder protagonismo face àquelas que já arrancaram a prova na fase de grupos. Villareal, Napoles, PSG, Liverpool, Manchester City, Zenit St. Petersburg, CSKA Moskva, Lille ou Dynamo Kiev - quase todos eles em posições cimeiras nas suas ligas domésticas - são perfeitos exemplos dessa realidade. E são, todos elas, equipas que jogam em alta rotação, num ritmo competitivo forte e onde o espaço para os erros é minimo. Nenhuma delas se cruzou, de momento, com as equipas lusas, mas os duelos prometidos para a próxima ronda deixam antever dificuldades suplementares. Porque contra adversários do mesmo nivel (ou teoricamente inferiores), nenhum dos três conjuntos portugueses se soube impor.

O SL Benfica entrou mais assustado do que com vontade de "dar medo" ao modesto Sttugart, que luta verdadeiramente para não ser despromovido na Bundesliga (onde não é inédito que um campeão recente caía de divisão). E sofreu para dar a volta ao marcador. Um golo sofrido nestas condições é um perigo e os encarnados têm um mau historial com equipas alemãs, sempre mais fortes mentalmente por muito que sejam tecnicamente inferiores. O Stuttgart não é um colosso europeu. Mas nem o era o Schalke 04, nem o era o Hapoel Tel-Aviv e a nenhum dos três conjuntos soube o Benfica impor a sua lei. Domesticamente os números da equipa de Jorge Jesus são impressionantes, desde a humilhação sofrida no Dragão. Mas nesse reino doméstico, onde tudo parece fácil, onde os rivais existem mas não ripostam, cria-se uma ilusão falsa de superioridade moral que no relvado se desploma. Este Benfica sabe que tem de subir uns degraus mentais e competitivos para manter um ritmo adequado aos palcos europeus.

Uma rotina que tem, desde há muito, o FC Porto. E no entanto, o clube português com maior sucesso na Europa nas últimas três décadas paga o mesmo preço que o seu eterno rival. Um grupo de apuramento acessivel e uma série de jogos domésticos imbatido criou a ilusão de superioridade nos azuis e brancos. O Sevilla, o mais forte dos rivais das equipas lusas nesta ronda, vive talvez a sua pior época em mais de meia década. E no entanto soube, mais do que uma vez, encostar os dragões às cordas. Valeu o desacerto defensivo hispanelense, a eficácia dos azuis e brancos e um pouco desse ADN europeu que o Dragão não esqueceu. Mas o jogo do FC Porto, que em Portugal se assemelha a uma ópera, na Europa perde brilho. Passes falhados infantilmente, erros defensivos, planteis curtos e muito individualismo à mistura são marcas transversais às equipas lusas e que podem significar um preço alto de mais a pagar na Europa.

O Sporting sabe-o bem. É uma equipa que nos palcos europeus nunca conseguiu, nem nos seus melhores momentos, sacar bons resultados. Espelho evidente do próprio desconcerto interno que sempre pautou a história leonina. Um empate em Glasgow é um bom resultado. Uma exibição sofrivel frente a um Rangers que vive a mesma realidade dos clubes portugueses - liga fraca, sem concorrência real - deixa a nú a inoperância do futebol luso mesmo quando defronta um "igual".

 

 

 

É expectável que o grosso, senão mesmo a totalidade, do contingente luso siga em frente. Mais dificil é imaginar que consigam ultrapassar os rivais seguintes, clubes já de outro patamar, de outras ligas mais habituadas a lidar com rivais de alto nivel competitivo, com outra disciplina táctica e com dinheiro suficiente para contratar jogadores de perfil mais elevado. Um clube português pode vencer uma competição europeia? Claro que sim. O FC Porto demonstrou-o em 2003 como se fazia. Mas dois anos depois o Sporting provou também que nem com tudo a favor o ritmo mental dos clubes lusos se sente cómodo nos grandes palcos europeus. Com o crescimento das ligas do leste europeu (Russia, Ucrania, Roménia, Turquia), muitas vezes a golpe de livros de cheques, transformando em titulos (exceptuando a Roménia, os três paises venceram na última década, pelo menos 1 titulo europeu) o investimento realizado, cada vez mais fica a nu a fragilidade desportiva e económica de uma liga histórica que vive fechada em si mesma e que muitas vezes não percebe que quando atravessa a fronteira entra num Mundo onde tudo sucede duas vezes mais depressa.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 08:55 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Sexta-feira, 05.11.10

Três derrotas consecutivas, problemas de balneário, desconfiança da massa adepta e falta de atitude da equipe técnica. O dinheiro do petróleo das Arábias serviu para colocar o cartel de "Novo Rico" do futebol internacional nas bancadas do City of Manchester mas, até agora, foi incapaz de produzir resultados. Porque o dinheiro ajuda, mas não compra tudo...

Depois do Arsenal Wolverampton chegou a vez do modestíssimo Lech Poznan. Três equipas bem diferentes que têm uma coisa em comum: vergaram o senhor dos anéis do futebol europeu, o multimilionário Manchester City. Sem contestação.

Três tropeções de forma consecutiva que deixa Roberto Mancini em apuros. O italiano nunca foi apreciado pelos adeptos que desconfiam de um técnico que ostenta três titulos italianos ganhos entre tribunais e rivais despromovidos a escalões inferiores. Sem mais. A sua popularidade há muito que anda em baixo pela estratégia defensiva que apresenta habitualmente no City of Manchester, muitas vezes reduzida à utilização de três médios de contenção (Barry, De Jong e Touré) ou pelas suas contratações mais polémicas, onde Mario Balotelli, o seu protegée, ganha a palma. O italiano continua em estado de negação e afirma que a equipa está preparada para ombrear-se com os maiores, tanto em Inglaterra como na Europa. Mas os resultados (e as fracas exibições nas vitórias) têm servido mais para crucificar o técnico do que, propriamente, para servir de ajuda na sua defesa. O City milionário voltou a gastar este defeso mais do que qualquer um. David Silva, Mario Ballotelli, Aleksander Kolorov, Yaya Touré, James Millner e Jerome Boateng chegaram para fazer a diferença. Já lá estavam Adebayor, Tevez, Kolo Touré, Wright-Philips, Bridge, Barry, Lescott, Richards, Kompany e companhia e pelo meio foram-se descartando Bellamy, Robinho ou Santa Cruz. E mesmo assim, com um plantel pago a peso de ouro, o técnico continua sem dar com o onze tipo. Lescott, que custou cerca de 28 milhões de euros ao Everton, não tem saído do banco e é o jovem Boyata, promessa do futebol belga, que tem actuado como titular. Shay Given, um dos melhores da passada época, viu-se suplantado na baliza pelo temerário Joe Hart. O togolês Adebayor ressuscita com a ausência forçada de Tevez mas continua a ser uma carta descartada. Como Silva e Balotelli, que passaram mais jogos no banco do que no relvado, apesar dos 60 milhões gastos entre os dois. Muitos problemas que o dinheiro não resolve.

 

Na Polónia voltou a ver-se de que madeira é feito este City.

Num grupo temivel - por onde também anda a renascida Juventus de Luigi del Neri, em terceiro no grupo com apenas 4 pontos, menos três que polacos e britânicos - perder pontos com rivais acessiveis é um problema. E ser derrotado pelo Lech Poznan, campeão polaco, era algo que não estava nos planos de ninguém. O 3-1 deixou a nu os problemas defensivos dos Citizens e a falta de eficácia de um ataque que funciona mal sem o Apache Tevez como elemento central. O argentino chegou hoje às Eastlands mas com a cabeça noutros voos (Madrid, quem sabe?) e sem ele Mancini perde a um matador. E a um lider.

A equipa jogou partida na Polónia como jogou sem espirito contra o modesto Wolves. Um cenário visto e revisto vezes sem conta esta temporada, salva muitas vezes por momentos de inspiração de Tevez, Silva ou do jovem Adam Johnson. Exceptuando a vitória sobre um Chelsea em serviços minimos, a época do City tem deixado demasiado a desejar para quem gosta de passar a imagem de ser a equipa mais rica e com maior potencial do planeta futebol. Mas o pedigree competitivo não se consegue só com a soma de jogador talentosos.

Os Galácticos de Madrid e a primeira etapa de Abramovich num Chelsea pré-Mourinho diz-nos isso com total clareza. Em Manchester começam a entender que a glória é um objectivo ambicioso mas distante se os problemas continuarem a ser resolvidos apenas com livros de cheque com cheiro a petróleo.

Demasiados jogadores talentosos significam problemas. Ter um plantel de 20 jogadores pagos a peso de ouro é um problema em potência. Para actuar Tevez e Adebayor não jogam Silva e Ballotelli. Para explodir Johnson, no banco fica Millner. Para confiar em Barry é preciso descartar a Touré. Para fiar-se de Kompany e Bridge há que desvalorizar as fortunas gastas em Richards e Kolarov. E daí em diante até à exaustão. O City criou o seu próprio problema e a ineficácia da equipa como colectivo apenas o agudiza. Se no banco está um treinador sem perfil de liderança, capaz de impor o seu estilo e de definir prioridades, o assunto torna-se dramático.

Em posições Champions e ainda com o apuramento para os 16 avos da Europe League no horizonte, não há nada perdido ainda nas Eastlands. Mas o dinamismo do Arsenal, o ressuscitar dos Ferguson Babes e a constância do Chelsea de Ancelloti torna a luta pelo titulo um cenário complexo para uma equipa que aspirava a tomar o elevador rumo ao titulo por um atalho desconhecido. A sua fragilidade no palco europeu deixa antever os reais problemas de um conjunto que, tal como no ano passado, pode acabar a época mergulhado em desespero. E, previsivelmente, recorrendo à única arma que conhece para resolver um problema que ainda não entendeu realmente.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 11:24 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 27.08.10

Confirmados os sorteios das provas europeias, os aristocratos do futebol do Velho Continente sabem já o percurso das longas caminhadas que os esperam antes do seu inevitável destino. As ilhas britânicas só poderão receber quatro equipas, pelo que 76 lá ficarão pelo caminho. Portugal teve direito a um percurso menos espinhoso do que se antecipava, mas neste mundo de reis, duques e condes europeus o estatuto é um erro recorrente. E impiedoso.

SL Benfica, SC Braga, FC Porto e Sporting CP esfregam as mãos.

As graças da fortuna foram gentis para as quatro equipas portuguesas que superaram "cum laude", os primeiros precalços na rota europeia. Se o Benfica é o grande beneficiado (o Olympique de Lyon era o cabeça-de-serie perfeito e o Schalke 04 um adversário do mesmo nível), face aos rivais que poderia ter diante, nenhum dos outros três conjuntos tem realmente sérias razões de queixa.

O Braga, essa grande surpresa da primeira fase a eliminar das provas europeias, terá de olhar para o espelho e medir-se com o seu alter ego, o Arsenal de Londres. Um duelo de iguais nas cores e bem diferente no estatuto que deverá pender, com naturalidade, para os comandados por Arsene Wenger, equipa que habitualmente se apresenta em forma na fase de grupos para depois ir tropeçando antes de tempo quando é a doer. Já Shaktar Donetsk e Partizan Belgrado são equipas acessiveis para os minhotos. Os ucranianos, campeões em titulo e uma das equipas com mais rondas europeias na prova rainha nos últimos cinco anos, têm-se deparado com os conjuntos portugueses, com vantagem claramente para os lusos. É uma equipa bem estruturada e repleto de criativos brasileiros, tal como o Braga. Já o Partizan conta com uma excelente formação e um ambiente demoníaco no seu estádio. E pouco mais. Rivais acessíveis que permitem sonhar com a segunda fase mas que pode terminar em desastre.

Já as equipas presentes na Europe League não podem ter razões de queixa. Ambos cabeças de série, FC Porto e Sporting têm um adversário de bom nível (Bessiktas e o regressado Quaresma e o Lille do génio Hazard), e duas equipas tremendamente acessíveis como são Rapid Wien e CSKA Sofia (para os dragões) e Levski Sofia e Gent (para os leões). Os grandes tubarões ficam adiados para uma próxima vez. Para todos.

 

À parte do caso luso, a Europa mantem o seu status quo. A UEFA sabe fazer bem as contas e coordena as suas provas ao mais minimo detalhe.

A forma como os clubes são distribuidos nos potes já garante um equilibrio forçado que mantém a ordem imperial dos gigantes europeus. Na Champions League deste curso há apenas dois grupos tremendamente competitivos. Na Europe League, onde são doze os agrupamentos, não existe sequer um "grupo da morte". Esperam-nos quatro meses de tédio e alguma inevitável surpresa. Os jogos a doer ficam reservados para depois.

Só os colossos de Milão e o Real Madrid podem ter de suar mais do que previsto. Mourinho mantém a sua malapata e o seu novo projecto merengue volta a repetir duelo contra o AC Milan (rival da passada época, que levou vantagem sob os comandados de Pellegrini) agora treinado por Massimo Allegri e eventualmente com Ibrahimovic (por confirmar), Pato e Ronaldinho como tridente de luxo. Tão brilhante como intermitente, um perigo que não sofre o Ajax Amesterdam, de volta a estas lides depois de cinco anos no purgatório. A equipa de Jol, com Suarez, Eriksen, Verthoghen, Hamdouid e van der Wiel é uma faca de dois gumes. Um perigo que não deverá repetir-se no duelo dos espanhóis com o modesto Auxerre, uma equipa que sabe que o seu objectivo real está na Ligue 1 e não nos palcos europeus. Já o Inter, agora treinado por Rafa Benitez, tem um arranque dificil para a improvável defesa da sua coroa. Twente (sem o nível da época passada), o regressado Tottenham e o épico Werder Bremen serão rivais de luxo. Já Manchester United (contra Valencia, Rangers e Bursaspor), Barcelona (Rubin, Panatinaikhos e Kovenaghen), Chelsea (Spartak Moscow, Marseille e Zilina) e Bayern Munchen (AS Roma, Cluj e Basel), os grandes candidatos à final do Wembley, têm o caminho aberto para uns meses de grande tranquilidade.

Na Europe League a presença de 48 equipas abre as portas a um imenso desiquilibrio. O duelo entre uma renascida Juventus e o milionário Manchester City, ou o embate que coloca frente a frente Sevilla e Dortmund são dos poucos aperitivos apetecíveis. Os favoritos seguirão em frente, com maior ou menor dificuldade. A UEFA garante-o. 

Portugal tem portanto todas as condições de manter-se na elite europeia a médio prazo. Os conjuntos na Champions League deverão, pelo menos, atingir o terceiro lugar (que abre as portas da segunda prova da UEFA), enquanto que FC Porto e Sporting são fortes candidatos a vencer o seu grupo e assim manter o estatuto de cabeça de série quando for a doer. Dublin e Wembley são miragens no meio de tantos tubarões, mas os pontos que se vão sumando podem permitir já para o ano a entrada de uma terceira equipa na Champions. O truque é saber estar, segurar bem na chávena de chá, sair com um vénia e de cabeça alta. É assim que funciona a aristocracia europeia. 



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:00 | link do post | comentar | ver comentários (11)

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