A angústia dos penaltys chegou ao Europeu e a Itália, depois de ter sido a melhor equipa em campo, teve de sofrer como nunca para garantir o apuramento. A Inglaterra, que começou o duelo com nota positiva, abdicou de jogar durante o final dos 90 minutos, negou-se a atacar no prolongamento e voltou a cair nos penaltys que procuraram. Sem pena nem glória!
Foi a melhor primeira parte do torneio, um jogo sem complexos onde a bola visitava Hart e Buffon com a mesma regularidade.
Duas equipas com tendências defensivas que procuravam num jogo de ida e volta criar as primeiras ocasiões de perigo. Johnson teve o golo nos pés, mas ser defesa lateral diante de Buffon não é uma tarefa fácil. A Itália que sempre quis a bola, ao contrário do esperado jogo de espera e golpe dos ingleses, foi equilibrando o tabuleiro e dominou grande parte dos primeiros 45 minutos, mas Balotelli continua a ser um avançado mais displicente que eficaz e as duas oportunidades que teve nos pés perderam-se, sobretudo, porque o avançado pensava já na celebração e nas capas dos jornais do dia seguinte.
O jogo foi-se acalmando, sobretudo porque Prandelli trocou definitivamente o 3-5-2 pelo 4-3-3, dando a Montolivo a batuta por detrás dos dois avançados. Mas, como sempre, foi Andrea Pirlo, talvez o melhor jogador do Europeu até agora quem brilhou. Cada bola italiana passava pelos seus pés, cada passe seu desafiava a lógica e os ingleses nunca conseguiram controlar a sua criatividade. Procuraram ocupar os espaços, defendendo fora da área de Hart, e aguentando o acosso ofensivo da azzura. As contadas oportunidades inglesas no entanto eram igualmente perigosas e a sensação constante em Kiev era de que o golo acabaria por surgir. Mas não.
A segunda parte foi mais italiana do que a primeira, mas os lances de perigo continuaram a não resultar em golos. Nocerino, Montolivo, Cassano, Balotelli, Rooney, Young, todos eles tiveram o seu momento e todos eles falharam, e depois de Hodgson ter procurado na dupla Walcott-Carrol a mesma fórmula que destroçou a Suécia, o seleccionador italiano, Prandelli, preferiu adicionar jogadores mais omnipresentes, Diamanti e Nocerino, e intensos, como Maggio, em vez do golo de Di Natale ou a criatividade de Giovinco. Durante os 90 minutos nenhuma das tácticas soube sobrepor-se à outra e forçosamente mergulhamos no primeiro prolongamento do torneio.
Foram trinta minutos que se tornaram na verdadeira antitese da primeira hora inicial.
A Inglaterra decidiu adoptar o esquema táctico do Chelsea, que tanto sucesso lhes deu este ano, e abdicou totalmente de atacar dando totalmente o jogo aos italianos que não souberam nunca furar a dupla linha defensiva inglesa. Foi um monólogo com a bola de Pirlo e companhia mas que acabou por ser inconsequente. À medida que se aproximavam os penaltys parecia que os ingleses se esqueciam de que só por uma vez na sua história (e foram muitas), conseguiu o apuramento numa fase a eliminar na marcação de penaltys.
O final dos 120 minutos abriu a loteria final, esse momento que todos os torneios a eliminar têm que os distingue das provas regulares, com essa dose de tensão e dramatismo que fazem do futebol algo profundamente único.
O remate de Pirlo, poético como só ele sabe ser, mudou o jogo. O falhanço de Montolivo e o golo de Rooney, depois de uma primeira série impecável de Balotelli e Gerrard, deixou a Inglaterra à beira de fazer história. Mas com toda a frieza do Mundo, o médio da Juventus disse presente e enervou Young que disparou sem olhar e encontrou-se com a barreira. O jogo deu a volta, Nocerino não teve piedade de Hart e quando chegou Ashley Cole, já Gianluigi Buffon tinha decidido que esta festa também era sua, defendendo o remate débil do lateral inglês. Diamanti, decisivo no prolongamento, justificou a aposta de Prandelli e escreveu com suor a alegria de uma nação que mereceu mais do que nunca estar no top 4 deste Europeu.
Liderados por um Pirlo gigantesco, os italianos medem-se agora com uma selecção com a que disputam a primazia do futebol europeu em ceptros. Três Mundiais e Europeus para os alemães, quatro Mundiais e um Euro para os italianos. Desde a mitica meia final de 2006 que as equipas não se voltaram a cruzar num jogo oficial e lembranças dos duelos de 82, 70, 78 e 96 seguramente que voltam à memória de todos. Desse duelo sairá um dos finalistas. Para defrontar Portugal, queremos acreditar.
Espanha, na sua versão mais macia e monótona, eliminiu uma França assumidamente cobarde que desistiu antes de entrar em campo. Um 2-0 que não espelha bem o que sucedeu em campo, não porque a França fosse uma boa selecção, mas porque os dois golos espanhóis resultaram dos únicos dois remates feitos às redes de Lloris. Dois de Xabi Alonso, homem centenário, dois para aquecer o duelo ibérico.
É constrangedor que os seleccionadores que mais professam admiração ao jogo de toque e posse da selecção espanhola, sejam sempre os primeiros a abdicar dos principios que fizeram da Roja campeã da Europa e do Mundo. O desenho táctico de Laurent Blanc, mais do que conservador, foi manifestamente medroso. Uma linha de quatro e um segundo lateral-direito (Debuchy) uns metros à frente de Reveillere que fazia que, sem bola (que foi a tónica dominante) a selecção gaulesa jogasse num 5-3-2. Muito pouco para quem ambiciona tanto.
Espanha, que nestas coisas cai de pé com as suas ideias, manteve-se fiel ao esquema com que começou o torneio, com Fabregas como falso 9, e o toque curto e rápido do quarteto Xavi, Iniesta, Silva e Alonso. Maçador, seguramente, praticamente inofensivo, também. Mas tremendamente eficaz, como sempre.
Jordi Alba, apesar de ter dois defesas pela frente, foi sempre o quebra-cabeças preferido dos gauleses.Pela direita, Arbeloa encontrou-se constantemente sem marcação porque se Blanc exigiu a oito jogadores que defendessem apenas, permitiu que dois não baixassem nunca da linha de meio-campo. Nem Ribery, pelo flanco esquerdo, nem Benzema, a grande decepção individual do torneio, ajudavam nas tarefas defensivas e, quando a equipa recuperava a bola, sem o apoio dos colegas, acabavam como presa fácil da defesa espanhola. Só de bola parada os gauleses criaram perigo. Espanha, como sempre, passou toda a primeira parte em trocas de bola controladas entre a grande área e o meio-campo.
Na única oportunidade de perigo, golo. Um sprint demoníaco de Alba pela esquerda, com Debuchy pelo chão, e um centro medido à perfeição para um cabeacemanto perfeito de Xabi Alonso, que hoje cumpria 100 jogos como internacional. Os médios defensivos franceses ficaram a ver jogar e o jogador do Real Madrid bateu, sem problemas, a Lloris. Antes não se tinha visto perigo no jogo espanhol, depois não se voltou a ver, mas a eficácia continua a mesma e como o onze francês encarou o encontro, na primeira parte, como um confronto onde se sentiam mais pequenos do que nunca, o jogo não teve mais história até ao intervalo. Sem Nasri, Valbuena, Ben Arfa e Giroud, ficou evidente que Blanc pensou sempre que cedo ou tarde acabaria por perder. O segundo golo, de penalty, surgiu já em desespero da defesa gaulesa, totalmente habituada á sua sorte. Uma licção importante para Paulo Bento, também dado a tiques conservadores, e para todos. A esta Espanha, quanto mais se lhes respeita, maior é a probabilidade de cair de joelhos.
Que uma selecção como a espanhola, que muitos analistas colocam no top das melhores da história, tenha disputado um jogo desta magnitude rematando apenas uma vez à baliza, é sinal sintomático da versão que del Bosque trouxe até à Ucrânia. Uma equipa que abusa da posse de bola, mas sempre num plano defensivo e conservador, sem arriscar nunca, como se o campo fosse um eterno jardim onde a bola passa entre uns e outros sem consequência alguma. Um remate, um golo, e trabalho feito. Um tipo de futebol eficaz, sem dúvida, mas longe da grandeza a que aspiram.
A França entendeu na segunda parte que o jogo tinha de ser disputado de outra forma e passou de um extremo ao outro. Blanc meteu Menez, Nasri e Giroud e desmantelou o meio-campo, abrindo um espaço aí que os espanhóis aproveitaram como melhor sabem. Sem ter ninguém capaz de construir jogo, os gauleses foram presa ainda mais fácil e Blanc errou, pela segunda vez. Foi a primeira vez que a França perdeu um jogo oficial contra a Espanha. Para fazê-lo com esta equipa, a versão dos Bleus é francamente uma das mais inferiores da sua história. A chamada recuperação moral dos franceses ficou no papel, na hora da verdade o sleeccionador optou sempre pelo plano B, o mais defensivo. Foi assim com ingleses, suecos e espanhóis. Muito pouco para quem ambicionava muito. Ribery lutou contra tudo e todos, Benzema realizou um torneio decepcionante e quase sem saber - mas sabendo-o com muita artimanhã - Espanha segue em frente para o duelo com Portugal.
Fica o aviso, esta Espanha é mais batível que nunca, mas só o será por uma selecção que não deixe de ser ela própria e que saiba explorar as suas virtudes antes de se preocupar com as do rival. Com a bola os espanhóis podem ser uma selecção cansativa, mas a maioria da vez também inconsequente. Sem ela é uma equipa que sofre, sobretudo nos espaços. Portugal sabe bem o que é sofrer contra esta equipa, depois da derrota nos Oitavos de Final do Mundial de 2010. Repetir os mesmos erros é repetir o mesmo destino.
A Grécia soube empatar. Soube enervar. Obrigou Angela Merkel, pela primeira vez no palco, a suspirar de alivio quando Klose apontou o terceiro golo. E depois, como seria normal, foi subjugada pela maldade alemã que não teve nem dó nem piedade de uma equipa manifestamente inferior e que partiu para a goleada que os confirma como semi-finalistas do torneio.
O golo de Samaras, depois de mais um sprint épico dessa figura icónica que já é Salpingidis, podia ter sido o principio de uma bonita história.
Não o foi. A Grécia nunca causou perigo sério antes. E quando causou depois, um penalty que o árbitro não hesitou em marcar, já de pouco servia.
O tento do empate foi um golpe de raiva no meio de um longo bocejo de uma equipa que, como a República Checa, assumiu a sua condição de underdog e decidiu-se a fazer o que melhor sabe, defender. E mesmo assim fizeram-no manifestamente mal, sem a solvência do duelo com polacos e russos e lembrando os fantasmas que deixaram os primeiros 30 minutos do duelo com os checos. Sifakis confirmou a ideia de que o pior lote de guarda-redes do Euro é grego. Um erro garrafal no terceiro golo, um erro menor, mas erro, no primeiro e uma sensação de desnorte constante, foram uma das principais razões para a derrota grega. Mas não a única.
Fernando Santos, sem o seu general em campo, Karagounis, fez o que podia com o pouco que tinha à mão. Desenhou um esquema defensivo de contenção e a esperar, pelo milagre de Gdansk.
A Alemanha de Low também surpreendeu, mudando toda a linha ofensiva. Sairam Podolski, Gomez e Muller, todos eles bastante criticados, e entraram Reus, Klose e Schurrle. O primeio trouxe mobilidade às transições e o segundo, veterania à frente da baliza. Marcaram ambos mas nenhum deslumbrou. Schurrle foi um erro de casting (continua o enigma da ausência de Gotze) e obrigou a Ozil e Khedira a trabalho extra no processo criativo. Felizmente para os germânicos, eles são também os jogadores mais em forma da Mannschaft. Na primeira parte, atados na teia montada pelos gregos, sofreram na pele a marcação cerrada dos helenos. Na segunda, com mais espaço disponível, sentiram-se mais cómodos do que nunca e lideraram a cavalgada alemã.
O golo de Lahm parecia indicar que a lata finalmente tinha sido aberta e que não havia nenhuma opção dos gregos a dar um susto à equipa alemã. Mas se os analistas levam três jogos a dizer que este equipa germânica está a dosificar a sua forma, este jogo começou a deixar no ar a pregunta. Será realmente Low quem dosifica os seus homens ou estarão estes fisicamente incapaz de dar mais, de dar aquilo que se pensava que esta Alemanha seria capaz de dar?
A Grécia - como a Irlanda com a selecção espanhola, que sofre o mesmo problema (e criticas) - não é o melhor rival para testar essa teoria, mas a falta de frescura de pernas de Schweinsteiger já não é o único problema que Low tem. Apesar da goleada infligida aos gregos, o seleccionador alemão tem nos jogadores do Bayern Munchen um problema sério a resolver. Gomez e Muller hoje já começaram no banco mas Boateng e Badstuber também deram mostras de não estar com o mesmo ritmo de Hummels ou Lahm (este é incombustível), no eixo defensivo, criando demasiados espaços que os gregos tentaram, em vão, explorar.
O empate de Samaras podia ter dado esperança aos adeptos mas em campo era claro que só um milagre podia permitir aos gregos dar a reviravolta ao marcador. Khedira, num remate fabuloso depois de uma grande jogada colectiva, e Klose, criaram a cómoda vantagem que levou a chanceler a dizer, finalmente, que os gregos não iriam conseguir no relvado aquilo que não conseguem nas reuniões com o seu gabinete. O último tento, um belo disparo de Marco Reus, selou a goleada. Podiam ter sido mais, mas uma vez mais a Alemanha procurou baixar o ritmo, gerir a vantagem, e evitou chegar a números maiores. Longe desse ideário de eficácia demoledora de outras versões da Mannschaft.
Contra italianos e ingleses os alemães voltarão a ter o mesmo problema de hoje, uma equipa bem organizada atrás que dará, com toda a certeza, a iniciativa de jogo aos teutónicos. Vão precisar da mesma paciência de hoje mas com mais acerto no passe e com mais força nas pernas. É provavel que Low recupere a sua guarda pretoriana, mas também é normal que a velocidade de ingleses e italianos explore melhor os imensos espaços que o meio-campo alemão deixará atrás. Será o jogo que, realmente, definirá que Alemanha veio realmente a este Europeu.
Não foi um bom jogo, não foi um jogo bem jogado mas foi um jogo daqueles que molda o carácter de equipas que vivem para a posteridade. Portugal apurou-se para as meias-finais de um Europeu pela quarta vez na sua história. Um resultado que não espelha o que se viveu em campo mas que foi suficiente para bater uma equipa checa sempre mais preocupada em defender. Cristiano Ronaldo voltou a ser o protagonista individual, o homem golo, mas o jogo superlativo de Fábio Coentrão, João Moutinho e Nani não pode ficar no esquecimento da frieza das estatísticas.
Tentaram-no inúmeras vezes. Nani e João Pereira trocam a bola. Esperam, esperam ajuda.
A maioria das vezes ela não chegou ou quando apareceu, foi trapalhona e ineficaz. Mas João Moutinho, o melhor em campo provavelmente, meteu a quinta velocidade, ganhou em sprint (ele que é um maratonista confesso) à defesa checa e mediu o cruzamento a régua e esquadro. Hugo Almeida, esse ponta-de-lança referência tão necessário quando se joga com uma equipa só preocupada em não sofrer, manteve ocupados os dois centrais. E Ronaldo, impreciso no duelo com Gebre Selassie, ganhou-lhe pela única vez até então. O resto foram formalidades.
O desenho do golo foi também o desenho do jogo. Uma equipa portuguesa que procurou furar por todos os lados o muro de betão checo. De certa forma, foi provar a própria poção que Bento desenhou contra a Alemanha, essa equipa de duas linhas defensivas muito juntas, um jogador livre atrás do ponta-de-lança, mais preocupado em defender que em rematar. Um desenho tão familiar e, ao mesmo tempo, tão eficaz, demorou 80 minutos a ser fintado com sucesso.
Mas quando o foi, já não havia volta atrás. O sofrimento de quase um jogo deu a moral e a inteligência suficiente ao onze português para evitar qualquer recuperação de uma selecção checa que nem aí realmente soube como atacar. Ficou claro que era uma selecção bem organizada - muito bem organizada - com preciso sentido de posicionamento mas que, com a bola, não assustava em excesso. Portugal foi sempre uma equipa muito cautelosa. Normal, sendo um jogo a eliminar, mais ainda quando o treinador é Paulo Bento. O seleccionador está de parabéns mas nem Nani tem culpa da sua costela de médio defensivo nem Portugal tinha necessidade de Custódio e Rolando nos dez minutos finais, substituições que continuam a demonstrar que, na mente do técnico, esta é uma equipa mais pequena do que se revela em campo.
O jogo começou morno, demasiado morno para um duelo de Quartos de Final de um Europeu.
Sentia-se o medo no ar, o pavor a cometer o primeiro erro, em particular entre os amarelados, de parte a parte. Portugal chegou com seis jogadores em perigo de exclusão. Nenhum deles sofreu o peso do amarelo, prova de uma tremenda maturidade mas também do espírito colectivo de entreajudas que nestes momentos é sempre fundamental. João Pereira e Miguel Veloso ajudaram sempre nessa cobertura e apesar de terem sido os mais imprecisos hoje, na construção, foram extremamente importantes a dar essa coragem que faltava aqueles que tinham um, compreensível, medo a meter o pé.
João Moutinho não entende desses problemas. Pepe também não. Foram imensos nas tarefas defensivas, os pulmões, almas e cérebros da equipa nacional. Pepe não teve trabalho em excesso, raramente a República Checa sufocou a defesa lusa, mas os seus gritos ouviam-se ao lado de Cech e a forma como cortou, vezes sem conta, os lançamentos longos com que a defesa rival procurava surpreender os lusos, foi tremenda. Pepe é, sem dúvida, o mais importante jogador desta selecção mas se tivesse de dividir o prémio, João Moutinho seria, sem dúvida, o seu fiel companheiro. O médio do FC Porto foi imenso, omnipresente, não só na assistência no golo - tremenda - mas essencialmente na limpeza horizontal que foi realizando durante os 90 minutos. Ao seu lado, Raúl Meireles e Veloso tiveram mais tempo e oxigénio, mais espaço para ajudar o jogo dos extremos, e se com Hélder Postiga em campo isso notou-se pouco, com a entrada de Hugo Almeida tornou-se ainda mais necessário o aproximar dos médios ao ataque para aproveitar as bolas de segunda linha. Nani, nisso, foi tremendo. Flectiu para o miolo sempre que pôde, dando espaço a João Pereira para ajudar a abrir o campo, e nunca desistiu de procurar o passe certo, quase sempre o mais fácil, para abrir o puzzle. O seu remate, brilhantemente defendido por Cech, confirmou que o seu grande Europeu continua a ser ofuscado pela falta de golo, algo de que se voltou a ressarcir Cristiano Ronaldo.
O capitão voltou a ser um desastre defensivo. Todas as oportunidades de perigo vieram, previsivelmente, de Gebre Selassie (jogo tremendo, futuro espantoso), sempre confortável a lidar em superioridade contra um Fábio Coentrão que jogou e correu por dois. Foi um punhal sempre apontado à defesa rival e um seguro de vida a defender realizando aquele que foi, provavelmente, o seu melhor jogo na prova. Ronaldo, desastrado a defender, tentou ser mais participativo no jogo de miolo, o que não é de longe a sua especialidade, e isso nota-se. Mas frente à baliza esteve intratável. Dois remates ao poste, o primeiro num gesto técnico fabuloso, e um golo tremendo que sela o apuramento para a próxima fase. Umas meias finais onde o rival, latino, dará a Portugal outro desafio, bastante mais parecido ao que encontrou no jogo com a Alemanha e Holanda.
Portugal voltou a fazer história e reforçou ainda mais o caracter especial desta equipa que tem superado, com mérito, todos os obstáculos. A lesão de Postiga trouxe outro actor para o palco e apesar de desastrado a cabecear, o papel de Hugo Almeida foi fundamental para lidar com a defesa rival. Contra espanhóis ou franceses, o seu papel é menos importante porque o jogo será, previsivelmente, de velocidade e contra-ataques rápidos. Mas neste duelo, foi a chave que ajudou a abrir os espaços para Ronaldo começara a aparecer onde melhor se sente. A equipa lusa terá o desafio mais difícil dos últimos seis anos na próxima quarta-feira. Uma semana inteira para refrescar as pernas e as ideias mas também para saborear um triunfo sofrido. Mas afinal, também há prazer no sofrimento.
No dia seguinte ao apuramento para os Quartos de Final a imprensa portuguesa, mais interessada em complots, penteados e birras, esqueceu-se referir o que significava realmente este apuramento de Portugal. A equipa das Quinas é a única selecção da história do futebol europeu que sempre se apurou da fase de grupos num Euro e que na era a 16 selecções (de 1996 a 2012) que termina neste torneio conseguiu sempre passar da primeira fase. Um sinal de estabilidade, maturidade e profissionalismo extremo. E no entanto, desta vez, podem-se alegrar os portugueses com uma selecção que fez dos seus primeiros três jogos uma missão de superação das expectativas criadas. Com todo o mérito - e há muito por distribuir - Portugal está na fase a eliminar e a partir daqui qualquer cenário é possível e qualquer destino, honrado.
Perdi horas a ler a imprensa e não encontrei nenhuma referência a esse êxito que nem Alemanha (2000, 04), nem França (2008), nem Holanda (2012), nem Espanha (2004), nem Itália (1996, 2004), nem Inglaterra (2000), nem Rússia, República Checa, Suécia, Dinamarca e afins conseguiram lograr. Entre ontem e hoje, nesse vácuo de noticias especulativos, já parece haver espaço para a estatística, mas aqui os números valem mais do que parecem. Dão conta de uma selecção nacional consolidada entre o top 8 europeu algo que, no arranque deste torneio, podia ser perfeitamente questionado.
Portugal sofre muito nas fases de qualificação. Sofre com selecções menores e perde pontos que equipas como a Holanda ou Alemanha nunca perdem. Acaba sempre por ter de decidir tudo no último dia ou na ronda dos play-off, um sofrimento que é já quase um fado lusitano. Mas quando aterram nos torneios, algo muda nos jogadores portugueses que encontram a sua melhor versão, mesmo quando os rivais assustam mais para lá do nome. Antes de começar o torneio vaticinei que Portugal podia ser último. E não fui o único. Enganei-me redondamente. Felizmente.
Mas o sofrimento crónico com a Dinamarca, o bom futebol demonstrado por alemães e holandeses nos últimos quatro anos e a própria mentalidade portuguesa eram verdadeiros handicaps. Superados de forma brilhante. Contra a Alemanha a selecção portuguesa pecou de conservadora, imagem de marca do seu seleccionador. Os últimos quinze minutos deixaram uma imagem bem diferente da equipa medrosa e descompensada da primeira hora de encontro. Contra a Dinamarca a equipa marcou mais do que é habitual mas cometeu erros defensivos imperdoáveis e nunca teve o domínio absoluto do jogo. Mas venceu, contra um adversário incómodo, e sobreviveu sobretudo à figura de Ronaldo. A gíria futebolística diz sempre que os torneios curtos se ganham com um grande guarda-redes e um grande goleador e, sobretudo, com um grande trabalho coral dos restantes.
Nem Patricio é um guarda-redes top (apesar do titulo de pior guarda-redes da prova ser um duelo entre Chalkias e Given) nem Postiga um avançado temível, pelo que Portugal tinha duas opções. Ou agarrar-se ao prestigio de Ronaldo ou trabalhar como equipa. Nos dois primeiros jogos o capitão não se viu e foi a equipa, o colectivo, quem resolveu os momentos mais complicados. No terceiro e decisivo jogo a equipa manteve-se em alta e apareceu o seu capitão, a sua estrela individual. Nesse jogo reuniram-se todas as condições para aspirar a algo mais. Uma equação que se tem de repetir, forçosamente, nos próximos duelos. Mas que a equipa portuguesa demonstrou, frente a uma grande selecção (que não uma grande equipa) que o pode fazer.
O apuramento de Portugal para os Quartos permite superar essa barreira psicológica do grupo da morte, depois do sofrimento inicial.
Em 2000 e 2004 esse arranque num grupo complicado transformou-se numa campanha espantosa. Com as facilidades de 1996 e 1998 a selecção apanhou-se desprevenida nos Quartos e ficou cedo pelo caminho. Para quem não esperava que a equipa nacional estivesse na fase a eliminar, nenhum resultado pode ser negativo. Mas vendo o rival em questão e, sobretudo, revendo o jogo contra os holandeses, é difícil não pensar que Portugal vive esse "momento" ascendente que faz a diferença neste tipo de provas.
Mérito sobretudo para um onze base que soube ser sólido quando era preciso, solvente quando era preciso e dinâmico de forma constante. Continuam os erros defensivos - especialmente de Bruno Alves - e continua o problema da eficácia crónica - a Holanda podia ter perdido por 3 ou 4, à Dinamarca perdoaram-se dois e três golos e mesmo com a Alemanha a bola alguma vez devia ter entrado nas redes de Neuer - e esses dois pontos têm de ser melhorados. E sobretudo, Portugal continua a ser uma selecção onde a criatividade não tem lugar.
O meio-campo de três joga sempre próximo e recuado. Nem solta um jogador para as tarefas criativas nem, muitas vezes, sobe metros para aproveitar os segundos lances que sobram do trabalho dos extremos. Essa cautela é normal em Paulo Bento, técnico que pensa sempre primeiro em defender e só depois em atacar, mas em jogos a eliminar tem o seu sentido. Não sofrer é o primeiro passo para seguir em frente. Moutinho tem sido um pequeno gigante no miolo, omnipresente em todos os sentidos, especialmente quando é ele o jogador que sai da linha de três. Meireles, visivelmente cansado, tem trabalho muito mas também tem sido um jogador repleto de imprecisões que até agora não têm custado muito a Portugal. É o elemento menos de um miolo onde surpreende Miguel Veloso que, apesar de não ter a solvência de um médio defensivo habitual, demonstra critério a circular a bola e explora bem os lançamentos largos para as alas.
Essa continua a ser a arma de Portugal.
O grande Europeu dos dois laterais - mais João Pereira, imenso a atacar e defender, do que Fábio Coentrão, muito impreciso a defender e ansioso a atacar - reforça essa tendência da equipa lusa de abrir o campo e jogar por fora. Nani, sem bola, recua para formar um 4-4-2 e faz-se notar mais. Com a bola nos pés tem sido um quebra-cabeças para os contrários pecando, sobretudo, na finalização. Ronaldo, desaparecido das tarefas defensivas e inútil no jogo ofensivo nos dois primeiros jogos fez tudo aquilo que sabe fazer contra a Holanda: tabelar, assistir, marcar, dinamizar. Se continuar nessa tónica, Portugal ganha o valor de uma individualidade que não tem rival no torneio.
Postiga na frente tem sido batalhador e o golo à Dinamarca demonstra que em determinados momentos é ainda um jogador útil. Mas destoa muito do colectivo e o seu trabalho é mais defensivo, de desgaste, do que propriamente de avançado. Nélson Oliveira, a primeira opção para ocupar espaços, não tem trazido nada de novo e tem sido Varela quem realmente tem feito eco dessa ideia de Bento de minar a defesa rival á base de movimentações rápidas.
Na defesa a nota mais vai indubitavelmente para Pepe, a par de Moutinho e Pereira o jogador português mais constante. O seu espírito de liderança (a braçadeira deveria estar no seu braço) faz-se sentir em cada jogo e o golo frente à Dinamarca abriu o melhor ciclo da selecção nacional. Ao seu lado, Bruno Alves é de outro nível, claramente. Nota-se-lhe lento, impreciso e nervoso. Os quatro golos sofridos pela equipa das Quinas são o grande handicap de uma selecção que claramente vai continuar a apostar no mesmo 11 base, sem grandes alternativas num banco onde Viana podia trazer velocidade nas transições, Quaresma improvisação no ataque e Almeida potência no remate. Mas vistas as coisas, o trabalho geral do seleccionador tem sido positivo, apesar dos nervos evidentes e do conservadorismo crónico que se traduz em que Rolando tenha já entrado nos últimos dois jogos nos minutos finais.
A República Checa é uma boa selecção - todas o são - mas não é uma selecção de individualidade. O seu melhor jogador, Rosicky, está fisicamente afectado e o jogo colectivo dos checos tem sido, como com Portugal, a sua grande arma. Uma equipa que defende bem, ataca em velocidade e que tem em Cech um guarda-redes de top mundial. Perdeu com Portugal há quatro anos e pouco mudou desde então. A entrada de Gebre Selassie pela direita deu velocidade à ala mas abriu espaços na defesa, os mesmos que Ronaldo e Nani aproveitam tão bem. É um rival, dentro do quadro disponível, dos mais acessíveis, algo que para Portugal não é necessariamente boa noticia. O favoritismo dos lusos nas casas de aposta pode pregar uma rasteira e o trabalho do seleccionador será agora de convencer os jogadores que nada está feito. Contra todas as expectativas, a equipa das Quinas está aí, à porta das meias-finais. Afinal Portugal tem feito dessa superação pessoal uma arte dificil de explicar mas fantástica de viver.
O escorregão da França frente a uma Suécia liderada por um inspirado Ibrahimovic permitiu aos ingleses vencerem um grupo mais fraco do que se podia antecipar. O jogo da Inglaterra não podia ser mais cinzento e previsivel mas com o golo de Rooney, o seu primeiro numa prova internacional de selecções desde a sua estelar aparição em 2004, evitam o encontro com a temida Espanha.
A Ucrânia entrou melhor, terminou melhor mas faltou-lhe o mesmo de sempre: o golo.
O perfume de Schevchenko não durou mais do que 90 minutos e nos dois jogos seguintes os anfitriões deram boa imagem de si mas também acumularam erros defensivos e ofensivos imperdoáveis. Hoje foi a vez de Pyatov, até agora bastante seguro. Um centro de Gerrard, um ligeiro desvio e as mãos do guarda-redes ucraniano deixam escapar uma bola que se encontra com a cabeça do homem que toda a Inglaterra esperava. Sem poder jogar os dois primeiros jogos, fruto da sua imatura expulsão contra Montenegro na fase de qualificação, Rooney tinha uma dívida para pagar com adeptos, colegas e seleccionador. Foi dos mais dinâmicos dos Pross e o golo, apesar de quase involuntário, selou o seu regresso com nota positiva. Uma boa noticia no meio de um tremendo cinzentismo.
Já sabiamos que Hodgson não ia trazer futebol espectáculo à selecção dos leões mas o seu 4-4-1-1 é ainda mais aborrecido do que se podia prever, especialmente porque Millner é o mais lento dos extremos do futebol britânico e Young, muitas vezes, tem tendência para mergulhar para um miolo por onde já passeiam Parker e Gerrard, claramente fora do lugar de onde saca melhor rendimento. Os ingleses deram a bola e o protagonismo aos ucranianos e apesar de terem tido várias oportunidades, nunca foram uma equipa autoritária e acabaram por sofrer mais do que o esperado. Talvez um rival mais cinico, como seguramente será a Itália, seja capaz de explorar aquilo que a Ucrânia de Blokhin foi incapaz de descobrir, no meio de tantos erros defensivos que passaram desapercebidos.
No outro encontro, a favorita França foi como sempre tem sido, uma equipa lenta, previsivel nas transições e sem a chispa dos seus grandes onzes. Apesar de contar com uma dianteira de ataque invejável, o onze gaulês foi bastante inofensivo e lento frente a uma Suécia que não se jogava nada mas que sacou do seu lado mais orgulhoso para lograr uma merecida vitória. Ibrahimovic, num dos golos do torneio, e Larson, nos intantes finais, confirmaram o triunfo nórdico (deixando assim a Irlanda e Holanda como as únicas selecções que terminam o torneio com zero pontos).
A França irá agora defrontar uma velha conhecida, a selecção espanhola, mas terá de trabalhar muito para ser um rival á altura dos campeões em titulo. Uma defesa displicente, um meio-campo onde faltou a criatividade e um ataque perdulário não são, sem dúvida, bons cartões de visita para quem entrou no torneio na lista dos prováveis vencedores da prova e que corre agora o risco de ir mais cedo para casa. Laurent Blanc tem feito um trabalho estupendo à frente dos Bleus, mas nesta prova tem mostrado o seu lado mais conservador, uma posição que já lhe valeu perder um grupo que podia ter ganho se tivesse, desde o primeiro jogo, optado por jogar com um pouco mais de velocidade e intensidade nos processos ofensivos. Algo fundamental para sobreviver á asfixia espanhola que se adivinha.
Entre as duas históricas selecções seguem os últimos classificados para os Quartos de Final. Dois duelos entre crónicos candidatos que confirmarão que haverá pelo menos dois semi-finalistas campeões do Mundo. A Ucrânia voltou a ser melhor que a Polónia mas sofreu o mesmo destino, uma eliminação precoce que começa a ser tendência nestes torneios organizados longe dos grandes potentados. Bélgica em 2000, Suiça e Áustria em 2008 e agora polacos e ucranianos começam a inverter a velha crença que organizar uma prova era meio caminho para chegar longe no torneio.
A Espanha voltou a ser a da África do Sul, a do golo solitário, do sofrimento, da incapacidade de plasmar em golos a sua clara superioridade futebolistica. Num jogo cheio de polémica, os espanhóis confirmaram o primeiro lugar de grupo com um golo a oito minutos do fim. A Itália, que venceu a Irlanda com menos comodidade do que o resultado final pode indicar, segue atrás dos espanhóis também mostrando menos futebol do que deixou antever na primeira ronda.
Um penalty sobre Mandzukic na primeira parte. Um segundo nos instantes finais por agarrão de Busquets. E um golo no limite do fora de jogo com a ajuda da mão de um grande Iniesta.
Em três lances, a selecção espanhola carimbou o lugar para os Quartos de Final como primeira de grupo. Evita a Alemanha, pode cruzar-se com Portugal e, sobretudo, voltou ao seu lado mais cinzento. A vitória croata, face ao resultado italiano, tinha acabado com as aspirações do campeão em titulo mas o penalty por assinalar impediu os croatas de sonhar mais alto. O jogo foi equilibrado, com oportunidades para ambos os lados, apesar de, como era esperado, o jogo da posse de bola tenha sido absolutamente da Roja.
Del Bosque manteve o mesmo onze mas as facilidades concedidas pelos irlandeses não se repetiram. A Cróacia fez um jogo sério, competente e ambicioso. Soube deixar a bola ao rival mas trabalhou bem os espaços e procurou as suas opções em lances rápidos, explorando o posicionamento defensivo do rival. Não resultou.
O golo da Itália - depois de um vendaval ofensivo que durou pouco - obrigava os croatas a ganhar mas Bilic nunca abdicou da fortaleza defensiva para qual o jogo pausado e previsivel dos espanhóis não encontrava antidoto. O penalty por marcar, falta de Ramos sobre Madzukic, e as defesas de Casillas, davam a clara impressão de que a crença dos croatas era maior. A entrada de Navas trouxe velocidade para explorar os espaços mas era pouco. Contra a corrente dos eventos, chegou o golo espanhol, mais do que no limite do fora de jogo, do extremo do Sevilla. Já não havia esperanças para os croatas - e Wolfgang Stark voltou a enganar-se nos minutos finais, com outro penalty perdoado, desta vez a Busquets - e o segundo golo italiano, um remate fabuloso de Balotelli era insuficiente. Faltavam dois tentos para superar a equipa espanhola no goal-average geral em caso de um golo croata que nunca chegou.
A vitória no grupo da Espanha pode fazer possível o sonho de Michel Platini. O presidente da UEFA voltou a levantar suspeitas sobre a sua gestão (e do seu braço direito, Angel Maria Villar), ao declarar que a final do torneio seria um Espanha-Alemanha equipas que, efectivamente, a partir de agora só se podem reencontrar em Kiev. Os campeões em titulo defrontarão o segundo do Grupo D antes de medir-se ao vencedor do duelo de Portugal nas meias-finais. A Itália, que só esteve fora dos quartos durante meia hora, jogará com o vencedor do grupo que amanhã fecha a primeira fase da prova. Sem brilhar, com um onze repleto de alterações, a eficácia italiana voltou a falar mais alto. Chegou, como quase sempre acontece com a Azzura.
Portugal vulgarizou a vice-campeã mundial. Venceu, convenceu e podia tê-lo feito de forma ainda mais expressiva. Bert van Maarjwick enganou-se pela enésima vez no sistema de jogo a utilizar e a Holanda nunca esteve verdadeiramente em campo. Um jogo fabuloso da selecção portuguesa, finalmente liderada por um Cristiano Ronaldo que respondeu da melhor forma aos seus críticos. Com golos, atitude e critério. Como a eficácia germânica foi suficiente para lidar com os dinamarqueses, Portugal reinou na última ronda do grupo e venceu um dos jogos do torneio.
Superando todas as expectativas, Portugal confirmou um lugar nos Quartos de Final.
É a quinta vez consecutiva, desde 1996. A Holanda, pela primeira vez desde 1980, disse adeus na primeira ronda.
E mereceu-o. Foi o pior lado do futebol holandês que se apresentou neste torneio. Foram decepcionantes em cada um dos jogos disputados e hoje receberam uma masterclass de futebol por parte do combinado português. Apesar dos (esperados) nervos iniciais, Portugal fez um jogo pleno de maturidade. Colectivamente implacável, o jogo dos portugueses aproveitou-se bem das tremendas debilidades ofensivas dos rivais. A velocidade de Nani e Ronaldo eram esperadas, mas o jogo de ajudas de João Pereira (imenso Europeu) e Fábio Coentrão revelaram-se determinantes. Partidos num 4-2-4, os holandeses nunca tiveram o controlo do jogo e curiosamente, depois de marcar o primeiro golo, desapareceram de cena.
Portugal esteve perfeito em todos os sectores. Na defesa, João Pereira domou quem se atreveu a passar-lhe pela frente e Pepe voltou a ser o marechal que a equipa necessita. Bruno Alves melhorou com respeito aos dois primeiros jogos e Coentrão, mais desastrado do que nunca e voluntarioso como sempre, fecharam as linhas de passe dos holandeses. Nunca se viram diagonais, nunca se sentiu um aperto constante porque jogando fora da grande área, a defesa portuguesa empurrou o ataque holandês para onde Portugal tinha verdadeira superioridade.
Paulo Bento apostou num falso 4-3-3, com Nani como médio direito num 4-4-2 sem bola que permitiu à equipa lusa uma clara superioridade numérica no miolo. João Moutinho, incansável, perseguiu van der Vaart por todos os lados e Miguel Veloso, imenso, e Raúl Meireles (talvez o mais cansado e inconsequente em campo) dominaram as operações. Depois foi o que se esperava. A velocidade de Nani, o apoio como pivot de Postiga e Ronaldo. Depois de dois jogos ausentes, o número 7 finalmente fez um encontro à altura do seu prestigio.
Apesar de não ajudar nunca em tarefas defensivas - nesse falso 4-4-2 ele era, muitas vezes, o jogador mais avançado - esteve muito mais participativo no jogo de meio-campo com tabelas eficazes para gerar os espaços que ele próprio depois explorou. Depois do golo holandês teve duas oportunidades, uma delas contra o poste. Não foi a última. O seu golo, num mano a mano que resulta de uma assistência espantosa de João Pereira, retirou-lhe os últimos kilos de pressão sobre os ombros. A partir daí a ansiedade desapareceu de um jogador que podia ser a reencarnação de Alfredo di Stefano, de tão completo que é, se não lhe faltassem os três c´s fundamentais: carácter, confiança e carisma.
Se na primeira parte Portugal já tinha sido melhor que os holandeses, a noticia do empate no jogo entre alemães e dinamarqueses a uma bola não dava margem de manobra para erros. Talvez por isso a equipa voltou a entrar tensa e nervosa, mas rapidamente o onze em campo voltou a asfixiar os processos de jogo holandeses e até aos minutos finais, os do desespero, não se voltou a ver a Laranja em campo. van Persie e Huntelaar foram inofensivos e Robben e Sneijder tentaram, demasiadas vezes, lances individuais para contrariar a mediania do colectivo.
Van Maarjwick continuou sem entender os problemas da equipa e quando tirou Willems, amarelado (mas com o vermelho perdoado), já estava claro que o dominio português era dificil de contrariar.
Moutinho e Veloso cresceram no meio-campo, Nani transformou-se no demónio da defesa holandesa e Ronaldo foi aparecendo com remates impossíveis de defender. E com assistências que eram constantemente desaproveitadas pelos colegas, a mais clamorosa de todas, de Nani. Por essa altura já Paulo Bento tinha insistido (não se percebe muito bem porquê) num Nélson Oliveira que nada trouxe de novo e ao minuto 70, com o dominio do jogo nas mãos, surgiu o golo da vitória. Outro lance de velocistas, a bola encontra a velocidade de Ronaldo que, ao contrário do seu antigo colega no Manchester United, teve a confiança para parar o jogo e procurar o melhor ângulo. Segundo golo do melhor em campo e redenção confirmada, ele que nos jogos decisivos continua a viver com essa sombra da ansiedade que hoje não apareceu nos céus ucranianos. Um golo que matou, definitivamente, as aspirações holandeses e que chegou acompanhado, pouco depois, do 2-1 alemão, que confirmava definitivamente que as duas melhores selecções seguiam em frente.
Portugal ainda teve oportunidade para ampliar a vantagem a números que não estariam longe da realidade (Ronaldo teve o hat-trick nos pés mas o poste, de novo, não ajudou) e apesar de um par de oportunidades, os holandeses foram inofensivos até nesses minutos finais onde não tinham nada que perder. A entrada de Custódio e Rolando, manobras defensivas esperadas, deram força e oxigénio ao sector defensivo e neutralizaram qualquer investida holandesa que teve de recorrer aos remates fora da área para dizer presente. Não chegou.
Portugal realizou o seu melhor jogo numa fase final de uma competição desde 2006. Um jogo de classe e autoridade inesperado que contraria o pensamento mais pessimista que partilhei na antevisão do torneio. Superou futebolisticamente dinamarqueses e holandeses e não esteve assim tão longe de uma Alemanha que é a única selecção que faz o pleno na primeira fase mas sempre com serviços minimos. O duelo contra a República Checa deixa tudo em aberto. Individualmente a selecção portuguesa é superior mas precisa repetir o mesmo espirito colectivo que exibiu nos últimos dois jogos para superar o conjunto centro-europeu. Ronaldo realizou uma das melhores exibições individuais do torneio e recuperou parte do crédito perdido. Entre ambos factores, colectivos e individuais, entrega-se uma selecção que já está na fase a eliminar onde, como sempre, são os detalhes que decidem tudo.
A Rússia entrou na última jornada com tudo para ser primeira de grupo. Acabou por ficar de fora da próxima fase depois de ter sido, na primeira ronda, a selecção que mais entusiasmou. Um balde de água fria servido por uns gregos que são incombustíveis. Fieis ao seu espirito guerreiro, os soldados de Fernando Santos quebraram todos os tabus estatisticos e deixaram claro que são, outra vez, uma equipa a ter em conta. A Polónia terá de acompanhar a sua festa desde casa, impotentes como foram frente a uma República Checa mais eficaz.
Karagounis não jogará os Quartos de Final. Mas sem ele eram os restantes helénicos que falhariam o primeiro jogo a eliminar.
Não só pelo fantástico golo que marcou, mesmo a fechar a primeira parte. Mais uma vez o médio foi o marechal e o soldado, o pensador e o operário, o cérebro e o corpo desta selecção magistralmente treinada por um Fernando Santos que, de momento, é do melhor que se tem visto nos bancos no Europeu. A Grécia tinha tudo em contra nesta equação menos a alma helénica. Esse espirito espartano que faz sempre dos gregos um rival a respeitar. Os russos, como é hábito aliás, esqueceram-se disso. Jogaram com a arrogância da sua superioridade futebolistica. E perderam. Como sempre.
A vitória grega por 1-0 exemplifica bem o seu futebol, o seu espirito e a sua resistência. Num país a sofrer como nenhum outro na Europa as consequências desta crise financeira e social, o futebol tornou-se outra vez no bálsamo perfeito para ferir o orgulho nacional. Depois de vencer em campo hoje, os gregos tentarão no domingo vencer nas urnas. Uma vitória face à política de estrangulamento que têm vivido. A dedicatória de técnico e jogador aos habitantes do país não é inocente. O plantel grego saiu de um país destroçado prometendo dar-lhes uma alegria. O titulo de 2004 é, convenhamos, uma imensa miragem. Mas passar aos Quartos de Final, como o Em Jogo tinha previsto, um luxo a que poucas selecções podem presumir de lograr. Os russos, por exemplo, fantástico no primeiro jogo, entusiasmantes no segundo, cinzentos no terceiro. Um torneio sempre de mais a menos onde Arshavin foi perdendo gás, Dzagoev escondeu as irregularidades de jogo com golos e Advocaat no último jogo não soube contornar a teia de Santos. O técnico luso está de parabens. Sem ovos fez uma omelete dificil de mastigar mas que estará no menu da próxima fase.
Os gregos têm que agradecer, também, aos checos.
A selecção de Petr Cech venceu a anfitriã e somou seis pontos, permitindo que o empate pontual entre russos e gregos fosse decidido pelo confronto directo. A República Checa mostrou mais futebol do que se podia antecipar pelo resultado do primeiro jogo e na primeira parte do duelo contra a Grécia foi muitissimo superior. Mas gerou muitas dúvidas em ambos os jogos no sector defensivo e diante de uma Polónia entusiasmada com fazer história, a ausência de Rosicky fazia-se notar. O médio não jogou, os checos sentiram na pele o vendaval ofensivo dos polacos mas a bola teimava em rondar, mas não entrar, nas redes de Cech. O desespero polaco e a falta de punho do seu seleccionador, um dos grandes responsáveis da eliminação dos homens da casa, tornou-se mais evidente no segundo tempo e a pouco e pouco os checos tomaram conta do jogo. O golo de Jiracek despejou todas as dúvidas e garantiu um apuramento que muitos imaginavam impossível depois de um arranque tão pesado. A selecção checa não só é uma improvável apurada como uma inesperada vencedora de grupo e fica no ar a ideia em Praga de que um lugar nos último quatro está perfeitamente ao alcance de uma selecção a quem se dão muito bem os Europeus, como se viu em 1996 e 2004, especialmente quando ninguém conta com eles como sucedeu em ambas as ocasiões.
A Polónia despede-se com uma derrota amarga e sem nunca ter convencido por jogo, como já antecipamos antes do torneio, mas deixando boas sensações individuais, em particular o trio de jogadores do Dortmund que se confirmou como o esteio de uma selecção que tem ainda margem de manobra de crescimento.
Se os russos eram vistos por muitos como um crónico semi-finalista, os resultados de hoje abrem ainda mais o debate sobre o que se passará na próxima ronda. À espera do que aconteça no grupo de Portugal, parece claro que qualquer selecção que saía dos jogos de amanhã seja favorita nos duelos que se seguem. Mas como gregos e checos deixaram claro aos russos e anfitriões, a estatistica e o historial no futebol tem as suas limitações.

