Quarta-feira, 17.06.09

Sem dar muito nas vistas, assim como não quer a coisa, o dia desportivo fica marcado por um anúncio muito menos mediático que o do novo técnico do SL Benfica. Mas marcante para uma era do futebol português. Aos 34 anos de idade, abandona os relvados, a mais sábia e matreira raposa do futebol português. Um homem que logrou o feito de sagrar-se campeão como capitão de equipa por dois clubes distintos. Duas etapas na vida de Pedro Emanuel que fizeram dele um dos jogadores de referência na história do futebol nacional.

Nascido a 11 de Fevereiro de 1974 em Angola, então ainda território nacional, Pedro Emanuel viveu na pele o drama dos retornados à pátria, apesar das traições da memória imberbe. A familia mudou-se para o Porto onde cresceu e onde deu os primeiros pontapés na bola. O caracter, arisco e matreiro, sempre fizeram dele um jogador especial, desde os anos de formação. Com 19 anos estreou-se como profissional no modesto Marco FC e daí passou para o sul de Douro, para a Ovarense, voltando depois a norte para jogar pelo Penafiel, clube onde se começou a fazer notar. De tal forma que Valentim Loureiro repescou-o para o seu Boavista em 1995, equipa que então começava a ganhar respeito dentro e fora do território nacional. Ao lado de Litos, o jovem central tornou-se na pedra nuclear da defesa que disputou taco a taco o titulo com o FC Porto em 1999. A amarga derrota em Faro apenas serviu para adiar o sonho. Dois anos depois cumpria-se o destino e o já capitão ergueu orgulhosamente o trofeu diante dos adeptos da Pantera. Era o primeiro titulo do clube do Bessa e do então central de 27 anos, no ponto máximo da sua carreira. Ou talvez não.

Ao chegar ao FC Porto, rapidamente José Mourinho percebeu que precisava de um forte eixo defensivo. Sabendo que ia perder Jorge Andrade, e apesar da confiança em Jorge Costa e Ricardo Carvalho, era necessária uma alternativa de luxo. Num golpe de arrojo os dragões roubaram ao rival o capitão e em 2003 o central foi apresentado como azul e branco. Seria a segunda grande história de amor de Pedro. Com o final de carreira do velho capitão e a venda milionária de Carvalho ao Chelsea, o central de Luanda tornou-se chave no FC Porto. O momento de glória definitiva chegou em 2004, quando face à ausência de Vitor Baía, ergueu bem alto a Taça Intercontinental em Tóquio. Depois de Portugal e da Europa, o matreiro mas sempre humilde Pedro Emanuel era agora rei do Mundo.

Desde esse dia em diante tornou-se elemento chave no balneário azul e branco. Ajudou a fazer a transição geracional, tornando-se na referência chave com as saidas de Jorge Costa e Vitor Baía. Voz de comando no balneário, capitão de equipa em campo, uma gravissima lesão afastou-o dos relvados durante uma larga época.

Aos 33 anos começa a perceber que o corpo não lhe ia perdoar tantos anos de entradas duras, golpes secos e corridas extenuantes. Ao longo da última temporada foi rendido definitivamente no onze pelo jovem Rolando. Em campo o papel de lider também já tinha herdeiro, Bruno Alves. O velho capitão podia estar tranquilo. E apesar de muitos alertarem para a falta de uma forte voz de comando portuguesa no balneário, especialmente face à saída iminente de Bruno Alves, a verdade é que desde há dois anos para cá que Pedro Emanuel sabia que a sua última hora em campo estava a chegar. E sem grandes festejos, alaridos ou capas exclusivas, o jogador anunciou o principio de uma nova era. Ao leme dos sub-17 portistas, recém-campeões nacionais começa uma carreira de técnico. A julgar pelas palavras de Mourinho, que sempre disse que era a sua voz de comando personificada no terreno de jogo, pode estar aqui a génese de um dos mais interessantes técnicos portugueses do futuro. Brilhante e simples, como sempre foi em campo.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:07 | link do post | comentar

Domingo, 24.05.09

nomes maiores na história deste desporto. Nomes que preenchem sonhos, vendem jornais, abrem programas e fazem milhões. E depois há aqueles verdadeiros mitos que se engrandecem com o passar dos anos, que encostam as chuteiras sem grandes bolas douradas mas com o sentimento do dever cumprido. Anos e anos de serviço e dedicação, admiração inevitável nos quatro cantos do Mundo. E um lugar garantido no panteão das estrelas. Este domingo um desses nomes deixa o tapete verde e entra automaticamente para a história. Onde já está à muito ano. Hoje despede-se do S. Siro Paolo Maldini…pede-se um minuto de aplauso.

 
É provavelmente o maior defesa esquerdo da história do desporto-rei. Desde a sua estreia, com apenas 16 anos, até ao jogo de hoje, Paolo Maldini viveu, respirou e sentiu cada segundo da sua vida com a camisola do AC Milan ao peito. O clube de uma vida, uma vida inteira de sucessos e fracassos, de lágrimas e euforia. Como o seu amigo Baresi antes dele, Maldini é um dos nomes obrigatórios quando se fala no clube milanês. São mais de vinte e quatro anos ao serviço do mesmo clube. Com praticamente 41 anos cumpridos, Paolo decidiu dizer basta. O corpo já não aguenta a exigência deste nível. Mas a mente continua jovem, como sempre, e se pudesse certamente que faria uma perninha mais. Desde a sua estreia, ainda juvenil, na equipa que se preparava para dominar o futebol europeu, até hoje passou muita coisa. Esteve presente nas cinco Taças dos Campeões que o clube ganhou nas últimas duas décadas. As últimas duas levantou-as ele, consagrado capitão de múltiplas gerações de sonho. Pertenceu à equipa de Sacchi e Capello com Baresi, Costacurta, Donadoni, Gullit, Rijkaard, van Basten e o seu próprio treinador hoje, Ancelloti. Depois esteve ao lado de Weah, Bieroffh, Inzaghi, Rui Costa mas também Shevchenko, Pirlo, Gattuso, Kaka, Pato e companhia. Ele próprio é o mosaico da história do ACM.
 
Muitos escreveram, ano após ano, na tremenda injustiça que significava que um monstro como Maldini nunca tivesse recebido um prémio individual. A vitória de Cannavarro nos prémios em 2006 acentuou ainda mais a discussão face à imensa superioridade do milanista em relação ao então capitão transalpino. Resultado da falta de mediatismo da linha defensiva, Maldini foi sempre o herói invisível. Os títulos do AC Milan eram sempre da linha avançada, dos criativos de meio campo. E ele era o primeiro em erguer a cimento e tijolo a muralha defensiva no S. Siro. Desde cedo se impôs na lateral esquerda e só nos últimos anos, culpa da idade, foi descaindo para o centro do eixo defensivo. Sempre no melhor nível. Disputou com Roberto Carlos na última década um curioso duelo que ambos sempre negaram. Duelo injusto, até porque o brasileiro estava na flor da idade e Maldini era já um veteraníssimo. E mesmo assim é quase unânime que nunca houve um maestro tão perfeito da ala esquerda como o jovem filho de Cesare Maldini, antigo avançado milanista de má memória para o Benfica que fez questão de levar o filho Paolo, muito novo, a Milanello para treinar. Poucos anos depois já era pedra basilar. Hoje é o jogador com mais jogos com a camisola do Milan e com presenças na Seria A. É história.
 
A única espinha atravessada será sempre a squadra azzura. Retirou-se depois do Mundial de 2002 e perdeu a vitória na prova seguinte, ele que tinha sido terceiro em 1990 e segundo em 1994 com a azzura e também finalista vencido no Euro 2000. Liderou uma geração talentosa mas que falhou em dar à Itália um título que só na Alemanha conseguiria depois de um jejum de 24 anos.
Apenas recebeu um vermelho directo em toda a carreira, e foi expulso por três vezes por acumulação de amarelos. Números únicos num defesa que atestam bem a qualidade e profissionalismo do eterno numero 3. Numero que será retirado a partir do próximo ano ficando guardado para um dos seus dois filhos, que hoje actuam nos juvenis da equipa. Se algum deles chegar á equipa principal herdará a camisola do pai. Depois esta será retirada, para sempre. Eterno. Il Capitano será sempre um desses jogadores. Eterno.


publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:35 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.04.09

De há uns meses para cá começou no meio futebolístico o inevitável debate sobre quem é, na actualidade, o melhor defesa direito do Mundo.

 

Os dois grandes candidatos dançam o samba enquanto percorrem a linha lateral mas fazem-no de forma bem distinta. De tal maneira que este juizo de valor parte, de imediato, de uma premissa errada. São dois jogadores incomparáveis pelo simples facto de que espelham uma diferença crucial no mundo do futebol que muitos parecem esquecer frequentemente. Ou seja, para simplificar, não é o mesmo ser-se um grande defesa direito do que ser-se um grande lateral direito. A posição de onde partem no terreno de jogo é exactamente a mesma mas o posicionamento ao longo do encontro e a sua acção no terreno varía e muito. São elementos incompativeis e condenados a uma eterna disputa.

 

O grande problema tem, neste momento, o seleccionador brasileiro. Dunga está forçado a escolher entre dois modelos de jogo e uma das decisões mais complicadas repercute-se claramente na escolha do titular do lado direito da defesa canarinha. Ao optar por Daniel Alves, para muitos um dos jogadores mais em forma do futebol mundial, o antigo médio centro do São Paulo está a seguir a escola brasileira que sempre defendeu que a linha pertence a um defesa lateral. Alves é claramente o herdeiro histórico dos grandes nomes do futebol brasileiro, desde os veteranos Nilton Santos a Carlos Alberto passando por Jorginho e Cafú. É o tipico lateral, sempre mais preocupado em provocar desiquilibrios nas transições ofensivas, do que propriamente em guardar as costas quando sobe todo o corredor. É o jogador que permite ao extremo direito deslocar-se para o miolo de jogo, e assim provocar desiquilibrios na hora da finalização. Guardiola percebeu-o muito bem (mais depressa até que Juande Ramos que muitas vezes o prendeu em demasia ao seu posto de origem) e fez dele o sócio perfeito de Messi. Com Alves a funcionar quase como falso extremo, o argentino flecte para o meio e ganha mais preponderância ofensiva. O desiquilibrio ofensivo é total.

 

Mas a verdade é que esta selecção brasileira dá-se ao luxo de deixar no banco um jogador como Alves, uma opção que muito poucos entendem. Mas Dunga tem a explicação. Aquele que é, provavelmente, o mais contido e defensivo seleccionador brasileiro de sempre - ao nivel de Carpeggiani e sem o engenho de Carlos Alberto Parreira - não está disposto a correr muitos riscos. E sabe que utilizar um lateral direito provoca buracos dificeis de tapar. Se Guardiola tem Puyol para fazer de bombeiro, Dunga não tem um central de alto nivel mundial capaz de fazer todo o jogo um dois em um. E se Alves ataca muito bem, a verdade é que a defender é como todos os laterais brasileiros: bastante deficiente.

 

Para isso, Dunga prefere sempre utilizar Maicon. O jogador do Inter de José Mourinho - outro treinador que gosta de defesas que primeiro defendem e só depois atacam - é o protótipo do defesa direito que sempre existiu na Europa, mas que no Brasil é uma raridade. Raramente se arrisca a fazer todo o corredor e deixar a sua zona de acção desprotegida. Cada subida é pensada ao milimetro a contar com a recuperação. Maicon não só tem um controlo total da sua zona de influência, como é também o primeiro a flectir para o meio, ajudando o trinco defensivo e o central a cortar as asas a um falso avançado mais atrevido. A defender, Maicon é o defesa mais completo da actualidade a actuar na ala. A atacar é eficaz, mas menos aventureiro e por isso, inevitavelmente, cria menos desiquilibrios.

 

Esta luta de dois galos para um poleiro (na selecção brasileira e no onze ideal de muitos amantes da bola) é apenas o reflexo dessa eterna disputa. Maldini e Roberto Carlos, durante muitos anos, foram o espelho da mesma realidade, mas no lado oposto. Maldini era perfeito a defender e comedido a atacar. Roberto Carlos era o defesa lateral perfeito, mas um defensor com muito que melhorar. Qual deles o melhor? Isso, como sempre, depende do sistema de jogo a aplicar. No contido futebol italiano, jogadores como Maicon ou Maldini adequam-se mais ao método de jogo praticado, onde a defesa de quatro joga em bloco. Em Inglaterra, os laterais sempre tiveram mais liberdade para cruzar a tres quartos da linha de conta. As subidas de Gary Neville, Ashley Cole ou dos portugueses Bosingwa e Paulo Ferreira sempre foram elementos desiquilradores nos lances de cariz mais ofensivo, mas isso deve-se também a uma menor preocupação táctica das equipas das ilhas. Basta ver que o Chelsea de Mourinho usava apenas os laterais em lances controlados e nunca deixando a retaguarda totalmente descoberta. Essa eficácia defensiva valeu a Mourinho dois titulos seguidos enquanto que o Manchester United via Evra e Neville serem, muitas vezes, os responsáveis de contra-ataques letais da equipa adversária.

 

Os amantes do futebol espectáculo são, provavelmente, os que se rendem aos sprints de Daniel Alves, que até no sofá da sala de casa cansam o mais resistente dos desportistas. O mais preocupados com sistemas defensivos serão incapazes de o preferir à mestria de Maicon em controlar o espaço. Jogar com os dois na mesma equipa não é só impossivel, como também resulta de um contra-senso. Afinal eles são o espelho mais visivel de duas formas tão diferentes de encarar o futebol.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 21:59 | link do post | comentar

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