Quinta-feira, 21.02.13

Da última vez que vi, o futebol continuava a ser um jogo decidido por quem marca mais golos. Como qualquer outro desporto, o golo resume a essência do jogo. No entanto, nos últimos anos, graças ao sucesso espantoso do projecto de Pep Guardiola, surgiu uma legião de puristas que tentou transformar as regras do jogo a seu belo prazer. O golo, esse momento estranho, quase pecaminoso, passou a um segundo plano. O importante era a possessão, os largos minutos de posse de bola, aquilo que verdadeiramente definia, qual Star Wars, os brancos e os negros, os bons e os maus. Em Milão, como já sucedeu no passado, o golo voltou a por as coisas no seu lugar. Aquele onde o futebol realmente gosta de estar.

 

É possível uma equipa ser dona e senhora da possessão e, ao mesmo tempo, ser absolutamente inconsequente?

Ser inofensiva, tímida, sem coragem de enfrentar o jogo de frente, de procurar transformar a sua superioridade teórica, reconhecida por próprios e estranhos, em algo palpável? Seria fácil dizer que não, que nunca se chega a esse extremo, mas jogos como o que opôs o AC Milan ao Barcelona em San Siro diz-nos que há sempre espaço no futebol para o ridículo. Quando uma ideia se começa a levar demasiado a sério, cai no fundamentalismo absoluto e perde toda a sua relevância. Foi o que passou ao Barça.

Guardiola, provavelmente o treinador mais importante do futebol europeu da última década, partiu sempre do conceito da possessão para algo mais profundo, mais palpável. O seu primeiro esboço, o forjar do Pep Team que venceu num ano natural seis títulos, era uma equipa que queria a bola para atacar, para marcar. Superou o registo goleador, desmontou os rivais com tremenda facilidade e ganhou, por mérito próprio, o direito a ser considerada como uma equipa superlativa, um fiel sucessor do Milan de Sacchi ou do Ajax de Kovacs e Michels. Nos três anos seguintes, quase sempre com os mesmos protagonistas, a equipa continuou a aplicar os ensinamentos do técnico mas foi, progressivamente, levando demasiado a sério o santo e senha da possessão. Foi perdendo eficácia, finura, exactidão. Caiu por duas vezes em meias-finais da Champions League por ser incapaz, a todos os níveis, de gerar um plano alternativo, um esquema que desse a tanta posse um sentido claro, o do golo. Ao contrário de Cruyff, um técnico que partia para cada jogo com três planos, o Barcelona de Guardiola foi tornando-se plano e previsível para os seus rivais. Não deixava de ser, tecnicamente, a melhor equipa com diferença, aquela que melhor sabia manejar a bola e os tempos. Mas para rivais mais aguerridos, eficazes, capazes de abdicar de ter a bola para controlar o espaço, os seus pontos frágeis tornavam-se evidentes. Por isso perdeu uma Copa del Rey, uma liga e duas Champions League que, à partida, pareciam suas por direito divino. Por isso perdeu ontem em Milão. Por não saber jogar a outra coisa.

 

Ouvindo os profetas da seita da possessão, génios da bola como Xavi Hernandez, jornalistas conhecidos e bloggers desejosos de ter um pouco de atenção e afecto, parece que o futebol é um jogo que foi disputado erradamente por todos nos últimos 100 anos. E que, do nada, a luz desceu à terra e iluminou um conjunto de apóstolos, transmissores da verdade absoluta, destinados a evangelizar o mundo.

No final dos jogos começou a debater-se mais a equipa que mais possessão tinha do que aquela que realmente tinha sido mais perigosa. Aquela que tinha procurado fazer das suas armas algo concreto. Porque a posse é uma arma ou, pelo menos, foi assim concebida desde os dias de Hogan, Meisl ou Sebes. Uma arma de ataque. A forma de ter a bola impedia o rival de a ter e, portanto, tornava a equipa mais ofensiva por natureza. Mas com a bola nos pés era preciso depois partir para o ataque. As equipas que defenderam a posse sempre foram incisivas. Se por um lado génios como Chapman se preocupavam mais com os espaços do que com a bola - e a corrente do cattenaccio de Rocco e Herrera levou a ideia ao extremo - na Holanda a posse voltou a ser o santo e senha, mas como disse um dia o brilhante Muhren, um dos integrantes do Ajax de Michels e Kovacs, a posse só servia se a equipa fosse vertical. Tanto passo horizontal, dizia, irritava-o profundamente porque tirava sentido ao jogo. E assim era.

Na final do Mundial de 1974, em Munique, a Holanda perdeu porque, depois de marcar o golo inaugural, dedicou-se a praticar sucessivos rondos pelo campo, sem causar o mais mínimo perigo a Sepp Maier. Os alemães, uma equipa tecnicamente inteligente mas mais hábil ainda em velocidade, marcaram dois golos e depois asfixiaram a possessão estéril dos holandeses. Essa capacidade de acção e reacção faz de todas as equipas capazes de manobrar distintas realidades verdadeiros colectivos. Entendem que o futebol se adapta às circunstâncias e quando é necessário operar um inesperado roque, estão dispostos a fazê-lo para salvar o rei e ganhar o jogo. O Barcelona vive no mutismo intelectual de acreditar que a sua fórmula resulta por inércia, independente do rival. Tem a ideia e, sobretudo, as individualidades para isso. O génio de Messi, Iniesta, Xavi, Busquets, Puyol, Piqué, Alves, Alba, Fabregas, Pedro e Valdés resume uma geração irrepetível, verdadeiros maestros a entender a mensagem. Mas não é eterna e quando o génio individual, sobretudo do argentino, tem um mau dia, fica a nu a fragilidade do planeamento colectivo. Em San Siro o Barcelona não teve uma só ideia futebolística que não passava por trocas sucessivas de bola em zonas inofensivas, oferecidas à consciência por Allegri ciente que a equipa só é perigosa quando troca a bola comodamente na linha da grande área. Espaços fechados, imaginação zero, a derrota tornou-se inevitável. Em Barcelona a equipa da casa até pode vencer por 5-0, tem jogadores, adeptos e talento para isso. É a melhor equipa do mundo em individualidades e sentido colectivo. Mas também é um projecto que começa a deixar demasiado evidente as suas falhas estruturais. Golos sofridos com qualquer rival, imprecisão no passe, ausência de goleadores alternativos, avançados que continuam a penar no banco para não fazer sombra à estrela da companhia e uma possessão cada vez maior em zonas recuadas e menos asfixiante onde realmente importa, na cara do rival. Em Milão não houve desculpas, não houve remates, não houve rondos, não houve futebol.

 

É interessante ver a ultra dependência que toda a ideia de jogo do Barcelona tem dos golos de Messi. Uma equipa que faz da posse de bola uma obrigação divina mas que depois depende apenas de um indivíduo é um projecto condenado a fracassar no momento em que esse jogador individual falhe ou desapareça. O Ajax de Michels e Kovacs brilhou sobretudo porque, apesar do génio e liderança de Cruyff, todos defendiam, todos atacavam e todos marcavam. A verticalidade do jogo dos holandeses desconcertava os rivais mais do que as suas largas possessões. Em Barcelona, a necessidade de trocar a bola até à pequena área para La Pulga empurrar para mais um recorde é um filme que os rivais já conhecem. As equipas mais humildes da liga espanhola pouco podem fazer para o contrariar, mas na Europa são cada vez mais os clubes que entendem o modelo que o ausente Vilanova tem aplicado. Pode não ser bonito, especialmente quando as pessoas vivem bombardeadas com a ideia pregada até à exaustão que defende, imagine-se, que só existe uma forma de jogar bem ao futebol (contrariando 100 anos de história, apenas porque sim), e que tudo o demais devia ser castigado com o purgatório, inferno e um fim-de-semana numa favela de Monróvia. Mas sem ser esteticamente interessante, é o que melhor representa a essência do futebol. Eu tenho a bola quando quero ter, eu remato quando quero, eu marco quando remato: eu ganho. Mais de um século de grandes treinadores, equipas e jogadores não nos dizem que a posse é mais importante que o golo. E o presente só acaba por confirmar que, sem uma ideia mais ousada e uma flexibilidade emocional necessária, a posse de bola pode ser algo profundamente estéril.



Miguel Lourenço Pereira às 16:26 | link do post | comentar | ver comentários (25)

Terça-feira, 19.02.13

Na liga portuguesa vão, lado a lado. Nos palcos europeus, a diferença é abismal. Falta cada vez menos para que o FC Porto supere o SL Benfica em títulos de campeão português. Nos palcos europeus essa ultrapassagem já sucedeu há largos anos. Não só em títulos mas, sobretudo, em respeito nos países europeus e na tremenda diferença de jogo. Enquanto o FC Porto tem um plano, um modelo, um esquema, e é uma das melhores equipas do continente a aplicá-lo, o Benfica evoca outros tempos, outras memórias e resultados distantes da realidade.

 

A exibição repleta de autoridade do campeão português face ao quarto da liga espanhola é exemplificadora do que é hoje o futebol em Portugal.

Uma excelente equipa, apoiada num clube institucionalmente dirigido dos pés à cabeça com um modelo de gestão que marcou um antes e um depois da história do futebol português, com um esquema táctico claro, um plantel de primeiro nível, digno de aspirar ano atrás de ano em estar no top 8 dos clubes europeus. O FC Porto tratou o Málaga com a mesma superioridade com que lida com o Beira-Mar ou o Moreirense. Empurrou-os para a sua área, não lhes deixou ter a bola - e se há algo que os andaluzes fazem bem é controlar a posse e jogar a partir de aí com confiança - e engoliu literalmente as suas individualidades, sobretudo o espantoso Isco, o sucessor natural de Iniesta. Fê-lo sabendo o quanto vale, o quanto pode aspirar e com uma sensação de diferença abismal que os orçamentos, o prestigio de duas ligas vizinhas mas muito distantes, podia supor. Já foi assim com o Atlético de Madrid (nos anos em que se cruzaram na prova), com o Sevilla e com o Villareal. Foi assim com o Barcelona, no Mónaco, jogos que deixaram evidente que o melhor FC Porto trataria por tu os melhores da liga das estrelas e poderia, perfeitamente, disputar um lugar no pódio da competição. É talvez um dos maiores e mais lógicos elogios que se pode fazer à equipa azul e branca.

O futebol em Portugal fica pequeno a uma equipa que, desde 1982, só perdeu 11 de 30 títulos. Um domínio que nem o melhor Sporting, nem o superlativo Benfica foram capazes sequer de emular. É um domínio que ultrapassa gerações, que ultrapassa condicionalismos e que define a estrutura do que é hoje o futebol em Portugal, uma equipa muito superior das restantes, apesar dos esforços da imprensa por contrariar essa abordagem, que ocasionalmente perde um título (na última década foram 2 em 8) mas que a Europa aprendeu a respeitar. Uma Taça dos Campeões Europeus, uma Champions League, uma Taça UEFA e uma Europe League, uma Supertaça Europeia e duas Intercontinentais é um espólio que supera a soma de todos os outros troféus internacionais conquistados por clubes portugueses.

 

A diferença da qualidade de jogo do FC Porto para o resto dos clubes portugueses vê-se, sobretudo, nos palcos europeus.

Numa liga onde a maioria das equipas prefere esperar para ver, é dificil ver o FC Porto ceder pontos. É difícil ver a equipa ser igualada - para não dizer superada - futebolisticamente. Na Europa a vara de medir é diferente. Na última década o clube venceu três provas europeias (mais do que o Real Madrid, o Bayern Munchen, o Arsenal, o Liverpool, o Inter, a Juventus, o Borussia Dortmund, o Ajax, o Olympique Lyon, o Manchester United) e com uma autoridade insultante. Há dois anos ficou clara a diferença na Europe League, numa edição com três equipas portuguesas nas meias-finais. Este ano, a forma como os dragões carimbaram o passaporte para os Oitavos de Final contrastou enormemente com o Braga - uma época para esquecer sob o comando de um treinador que teima em demonstrar não ser o homem certo no momento certo - e sobretudo com o Benfica. A equipa encarnada foi incapaz de ser superior a um Celtic que fez do jogo directo a sua alma, sofreu inesperadamente com um Spartak de Moscovo em autocombustão (com destituição de técnico incluída) e mesmo com um Barcelona C, no Camp Nou, foi incapaz de somar os pontos que precisava para seguir em frente. Na Europe League, uma competição que se adequa mais às suas reais ambições, e frente ao Bayer Leverkusen, jogou o suficiente para ganhar mas longe de entusiasmar. Tem sido a sina da equipa.

Com ou sem Jesus, o Benfica na Europa é uma equipa de caricatura. Uma equipa sem expressão internacional, com um modelo táctico perfeitamente inadequado às realidades do futebol actual, com peças que se mudam com uma velocidade assustadora, sem consciência da importância do colectivo e que depois se mostram incapazes de reagir nos momentos certos. Não só ficou claro que este Benfica, como as anteriores versões, é incapaz de mostrar-se à altura dos melhores na Europa como o seu perfil de prestigio europeu desaparece a cada ano que passa. A memória da imensa, grande equipa de Eusébio, é algo que os adeptos benfiquistas sempre terão, e com genuíno e merecido orgulho. Mas desde então, meio século depois, nunca mais a Europa viu uma equipa benfiquista capaz de repetir, ano após ano, o seu lugar na elite. Ao contrário do FC Porto, que não só é presença regular na Champions League como tem demonstrado ser capaz de competir de igual com os melhores e ganhar troféus, o Benfica encontra na Europa o duro reflexo da sua realidade. A nível interno os dois títulos (este ano poderão ser três) em 18 anos, deixam clara a sua diferença com os dragões mas é na Europa que essa diferença se torna real.

 

Sem uma estrutura sólida, sem um futebol capaz de capturar a imaginação de adeptos neutrais, o Benfica tem muito trabalho pela frente para poder voltar a sonhar sem uma equipa respeitada nos palcos europeus. O FC Porto, por outro lado, não só está a poucos anos de consumar, matematicamente, a mudança de um ciclo que já leva três décadas, como na Europa é o único porta-estandarte do futebol português. Se a exibição frente ao Málaga não fosse suficiente, o eventual apuramento - e ainda faltam noventa minutos - para os Quartos de Final da edição 2012/13 da Champions só reforçará mais ainda a ideia de que, seja em Portugal ou na Europa, o futebol português funciona a diferentes velocidades. E só os dragões seguem na de cruzeiro.



Miguel Lourenço Pereira às 22:27 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sexta-feira, 15.02.13

Se o futebol fosse um jogo de perfeição absoluta, como defendia o inimitável Gianni Brera, todos os jogos acabariam empatados a zero. O esforço do ataque seria anulado pelo trabalho da defesa e a partida de xadrez seria eterna. Cruyff falou sempre da necessidade do erro para que o golo exista. E se a cultura futebolista actual parece estar determinada em retirar de uma vez por toda o mérito a quem marca, a verdade é que há erros colectivos e individuais que são impensáveis em jogos de alta tensão e máxima importância. No Santiago Bernabeu, o Real Madrid começou a perder por um erro tremendo não de um, mas de quatro jogadores diferentes. A anatomia do erro é também o espelho de uma equipa descoordenada.

 

Comecemos ao contrário.

Cristiano Ronaldo eleva-se quase três metros no ar. Levita, esperando que a bola, centrada de forma perfeita por Angel Di Maria cruze o ar até encontrar a sua cabeça. David De Gea pode estirar-se, Patrice Evra pode simular reagir, mas são meros espectadores, personagens secundários de uma execução perfeita, de um dos golos do ano, a prova de que Ronaldo é, para o bem e para o mal, um dos futebolistas mais completos da história do futebol, capaz de correr como Bolt, saltar como Jordan e rematar com a violência de um míssil.

Um golo que ninguém se atreve a discutir, mas que, inevitavelmente, é o reflexo de um par de erros importantes. O erro de Rafael, repetido vezes sem conta durante o jogo, que permite ao argentino Di Maria centrar com comodidade. O erro de Jones, que devia estar pendente de Cristiano Ronaldo e nem se vê na imagem. O erro de Evans, que abandonou a zona de acção e encontra-se em terra de ninguém permitindo que o melhor jogador do mundo no ar dispute uma bola com o mais baixo dos defesas da equipa inglesa, o lateral esquerdo Patrice Evra. Três erros que facilitaram o golo mas é difícil pensar que Di Maria não podia ter encontrado um milésimo de tempo e espaço para centrar e que Ronaldo não fosse capaz de bater Jones e Evans no ar para marcar. Sem erros não há golos no futebol, mas há erros mais graves que outros. O caso do golo inaugural do jogo, está no diâmetro oposto do marcado pelo Real Madrid.

Não que não seja um excelente golo, executado de forma perfeita, desde o momento em que Wayne Rooney lança um pontapé com conta, peso e medida desde a linha de fundo até ao gesto técnico de Danny Welbeck, medindo perfeitamente o tempo de salto, a área da cabeça com que remata e o seu posicionamento no relvado. Entre Rooney e Wellbeck desenha-se um lance que é muito difícil de prever e mais ainda de travar, um golo de bola parada de laboratório, pensado e executado brilhantemente. E no entanto, com todo o mérito que tem a equipa do Manchester United, o golo do dianteiro inglês podia ter sido evitado mais facilmente se não tivesse sido acompanhado de uma série de erros que uma equipa que aspira a tudo pode permitir.

 

Na época passada a defesa do Real Madrid realizou uma excelente época colectivamente.

Individualmente, tanto Sérgio Ramos como Pepe protagonizaram o seu melhor ano, combinando bem desde o momento em que o andaluz passou para o centro da defesa, substituindo Ricardo Carvalho, e com Iker Casillas foram peças chave no título histórico conquistado pela equipa da capital espanhola. Mas houve erros, durante a temporada, que custaram caro ao Real Madrid. Nos Quartos de Final da Copa del Rey, o golo de Abidal no Santiago Bernabeu, o erro de Coentrão e Casillas em Munique e os pontos perdidos de forma consecutiva em dois jogos com livres directos apontados no final dos jogos contra o Málaga e Villareal, onde o capitão merengue podia ter feito mais. Mas disputar 50 jogos num ano sem cometer erros é impossível e o resultado final da época compensou no final os percalços. Este ano é diferente.

Não se trata só do descontrolo absoluto do balneário, uma mancha negra no curriculo de um treinador que se fez famoso à custa, precisamente, de ser um disciplinador tremendo e um homem que trata os jogadores como família. Nem é apenas a péssima forma física e o estado psicológico de jogadores fundamentais como Benzema, Higuain, Di Maria, Ramos e Marcelo. É, sobretudo, um acumular de erros sucessivos que desta vez foram fatais. As bolas paradas, entre livres e cantos, têm sido mais do que nunca o calcanhar de Aquiles deste Real Madrid, e o jogo com o Man Utd deixou uma vez mais essa realidade em evidência. Mourinho tem razão quando diz que a responsabilidade não é sua.

Os lances são treinados durante a semana mas nos jogos os erros são sempre individuais. O problema é que são o acumular de vários erros individuais, quase de principiantes, e que custaram pontos em Getafe ou Sevilla, e uma vantagem fundamental para os Red Devils.

Aos 10 minutos de jogo Kagawa envolve-se num lance com Sérgio Ramos. O árbitro assinala canto apesar de nas imagens televisivas se apreciar, na repetição, que o último a tocar na bola é o japonês. Rooney pega na bola e prepara-se para marcar o canto enquanto os jogadores do Real Madrid posicionam-se. Xabi Alonso e Cristiano Ronaldo sem marcador, ao primeiro poste. Benzema um pouco adiantado com Robbie van Persie. Di Maria no poste esquerdo, os centrais Ramos e Varane com Wellbeck e Evans, Coentrão ao lado de Evra e Khedira e Ozil fora da grande área para ganhar a segunda bola.

A bola começa a percorrer a sua trajectória e os erros vão-se acumulando. Diego Lopez faz-se ao lance, previsivelmente para socar a bola, mas arrepende-se a meio caminho, perdendo a sua posição sobre a linha de jogo e ficando em terra de ninguém. Erro número 1. O central Ramos está mais pendente de afastar Welbeck do caminho do guarda-redes que se esquece de procurar ganhar posição e deixa Wellbeck só, à entrada da pequena área, livre para cabecear. Erro número 2. O argentino Di Maria, abandona surpreendentemente o poste para colocar-se atrás do guarda-redes, abandonando a sua posição e deixando a baliza a descoberto. Erro número três. Varane lê o erro de Ramos e decide lançar-se sobre Wellbeck para impedir o inevitável mas com isso deixa só Evans, com 1m92, que pode beneficiar de um desvio do colega ou de um defesa e marcar à vontade. Erro número 4.

A bola encontra Welbeck que, só, sem oposição, pode executar o seu excelente movimento técnico de cabeça. Lopez está fora da baliza e não consegue impedir a trajectória da bola mas confia que Di Maria, no poste, possa cortar sobre a linha. Mas Di Maria já não está lá e a bola entra, precisamente, onde este devia estar. Três erros fundamentais para permitir o golo ao contrário. Apenas bastava que um deles não tivesse ocorrido e teria sido muito difícil a Wellbeck marcar. Ou porque Ramos não o deixaria cabecear, ou porque Lopez, na linha de golo, podia parar perfeitamente a bola ou, em último caso, porque um jogador no poste esquerdo poderia sempre desviar o remate. Nada disso aconteceu e o golo do inglês pode ser suficiente para dar o apuramento ao Manchester United. E deixa a nú os problemas reais de uma equipa com muito orçamento mas com pouco futebol.

Erros como este têm sido o habitual na versão 2012-13 do Real Madrid, algo impensável para uma equipa de topo europeu. Contra os rivais mais humildes e os adversários com maior prestigio, erros de marcação, erros em entradas desnecessárias, erros de posicionamento, erros nos passes e erros nos remates. A história deste Real é uma história de erros próprios e são esses enganos, quase infantis, que têm permitido aos rivais colocarem-se, vezes sem conta, em vantagem. Cruyff dizia acertadamente que o futebol é um jogo onde quem ganha é quem menos erra. A este ritmo parece claro que, por muitos golos que marque Cristiano Ronaldo, por muitos passes perfeitos faça Ozil ou kms corram Khedira ou Alonso, com tantos erros é impossível que o campeão de Espanha não passe um ano em branco. Um branco muito negro!



Miguel Lourenço Pereira às 14:04 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Sexta-feira, 01.02.13

A União Soviética nunca venceu uma Taça dos Campeões Europeus e no seu equivalente mediático, a Champions League, o máximo que um dos seus históricos representantes conseguiu alcançar foi uma meia-final, em 1999. Eram outros dias, o último suspiro do projecto Dynamo Kiev com marca de Lobanovsky. Desde então só o Shaktar Donetsk esteve perto de superar esse feito e abraçar a glória de fazer história. Mas para Willian a glória, no futebol, vem em segundo lugar. O dinheiro está sempre primeiro.

O sorteio dos Oitavos de Final da Champions League foi nefasto para os amantes do futebol europeu.

Não porque colocou frente a frente Real Madrid e Manchester United, um dos duelos mais repetidos das noites europeias desde os anos 50, mas porque obrigou os dois favoritos a surpresa do torneio a defrontarem-se demasiado cedo. O Borussia Dortmund tem sido, talvez, a equipa mais original, atrevida e eficaz do futebol europeu pós-Pep Team. É uma equipa de critério, de criatividade, de domínio do espaço com e sem bola e, sobretudo, uma equipa jovem e sem complexos. Nota-se o dedo de génio de Klopp, forçado a fazer renascer um clube mítico das cinzas da falência financeira, e a classe dos seus protagonistas. Em dois anos, o clube perdeu dois dos seus lemes no meio-campo, Sahin e Kagawa, e mesmo assim foi melhorando. A versão actual, nessa conexão Gundogan-Gotze-Reus no apoio a Lewandowski é talvez a mais completa e fascinante das suas formações. A performance decepcionante numa Bundesliga que nunca foi objectivo prioritário, depois de dois titulos consecutivos, deixou claro que o que o clube de Dortmund queria era recuperar o troféu ganho em 1997 com uma autoridade inesperada frente à Vechia Signora.

Mas frente a frente o conjunto alemão vai ter a outra equipa que mais tem captado a atenção dos seguidores europeus no último ano. O projecto de Mircea Lucescu tem tantos anos quanto os de Klopp mas maneja outros princípios. Sobretudo investe muito mais dinheiro e procura aliar a velha organização táctica da escola soviética com o talento descarado dos jogadores brasileiros de génio que escapam ao radar dos grandes clubes. Quando o Shaktar começou a mergulhar no Brasil encontrou um filão por explorar. Pagava o que clubes de nível médio europeu não podiam pagar e que os grandes não se atreviam. Arriscaram em vários jogadores de enorme potencial e ganharam a esmagadora maioria das apostas. Uma linha defensiva moldada em casa, com o contributo do genial capitão, Dario Srna, e acompanhada dos Krystov, Chygrinsky, Rakytskiy e Rat, e a partir de aí, o génio made in Brasil. Um cocktail explosivo que já deu uma Taça UEFA, no passado, e agora podia almejar a mais, a muito mais, depois das exibições de classe e superioridade táctica contra duas equipas do perfil do Chelsea e Juventus.

 

Willian era um nome fundamental em todo o esquema de Lucescu.

Com Fernandinho, era o pulmão e alma do meio-campo ucraniano. No relvado, a sua omnipresença desmotivava o mais resoluto dos marcadores directos. Estava em todas as partes, finalizando, assistindo, recuperando e tapando espaços com um radar que poucos jogadores podem presumir de ter incorporado. Era o jogador com mais talento natural do plantel e aquele com maior margem de progressão internacional. Falou-se sempre do interesse de clubes ingleses (Chelsea e Tottenham) e do PSG, falou-se do papel de 10 num Brasil mais ofensivo do que nunca para a próxima Confederações. Falou-se de tudo e de mais alguma coisa, falou-se sobretudo da glória de ser um jogador diferente.

Mas no final Willian não vai estar nesse mano a mano alucinante que nos espera. Vai antes mudar-se mais para leste, para o coração da Rússia, onde os milhões do Anzhi falaram mais alto. O clube do qual Roberto Carlos é director desportivo conseguiu, com base no mesmo livro de cheques que o levou do Brasil à Ucrânia, atrai-lo para uma equipa onde já estão Etoo, Dzudasazk ou Jucilei, por exemplo. Uma equipa com potencial mas que tem desiludido, não só na liga russa como também na Europe League.

Á sua volta, no Shaktar, o médio contava com Fernandinho, Ilsinho, Alex Teixeira, Douglas Costa, Luiz Adriano, Maicon, Eduardo e o genial arménio Mkhtrayian. Um meio-campo que poucas equipas podem presumir ter ao qual se vai juntar agora outro desses talentos imensos que deambulam pelo futebol de leste, longe do radar mediático, o imenso Taison, comprado por 15 milhões ao Metalist. Com Taison e Mkhtrayin ao lado, e com Fernandinho e Hubschmann atrás, dificilmente uma equipa podia olhar para o Shaktar de cima para baixo. E no entanto, agora, sem o seu líder espiritual, Lucescu terá de repensar a sua estratégia e, sobretudo, encontrar um novo génio a quem entregar a batuta individual de um colectivo superlativo.

 

Willian seguramente será um jogador mais rico na Rússia e continuará a marcar as diferenças no projecto do Anzhi. Mas ao abandonar uma nave destinada à glória antes do embate decisivo, também demonstra ter uma reduzida visão de futuro. Não só vira definitivamente as costas ao escrete canarinho, agora nas mãos de Scolari, um homem que aprecia sobretudo esse conceito de grupo, como provavelmente nunca voltará a estar tão perto de emudecer a Europa com o seu génio incombustível. Rico, sem dúvida, mas um pouco mais pobre como futebolista.



Miguel Lourenço Pereira às 14:08 | link do post | comentar

Quarta-feira, 19.12.12

É inegável que perfume do futebol do Barcelona de Vilanova não se aproxima do aroma apaixonante dos anos de Guardiola. Mas com uma abordagem mais pragmática, o técnico conseguiu um feito histórico que dificilmente será igualado nos próximos anos. Termina a primeira parte do campeonato invicto e com o título no bolso. Entender o Barcelona de Tito é, sobretudo, entender a relação entre o génio de um individuo e o valor de um colectivo perfeitamente oleado.

 

A goleada aplicada ao Atlético de Madrid confirmou que nenhum clube no futebol espanhol está, actualmente, sequer perto do nível do Barcelona de Tito Vilanova. Da mesma forma que Bob Paisley pegou na herança fundadora de Bill Shankly e aperfeiçoou a máquina, tornou-a mais eficaz e pragmática, também Vilanova recolheu a pesada herança de um génio como Guardiola e aproveitou-a da melhor forma possível. 

O Barça de Tito é, mais do que nunca, Messi e mais dez.

O estado de graça do argentino é evidente, a sua fome de golos inaudita e a forma como a equipa se adapta, cada vez mais, ao seu estilo de jogo, transforma o onze num projecto circular em que o argentino funciona como sol, sempre brilhante, sempre presente. Seis jogos consecutivos a bisar, 24 golos em 16 jogos, registos pulverizados e uma liderança silenciosa mas omnipresente, garantem a Tito Vilanova o melhor arranque de sempre da história do futebol do país vizinho. Guardiola perdeu o jogo inaugural, algo que Tito ainda não sabe o que é. A partir dessa derrota em Sória, o Barcelona cresceu e chegou a Dezembro com as mesmas sensações actuais. Mas esse jogo era mais coral, menos dependente do génio individual de Messi. Era o Barça onde brilhava Etoo, onde Henry renascia, em que Pedro começava a aparecer e, sobretudo, em que o trio Iniesta-Xavi-Busquets se mostrava encantado de conhecer-se e jogar juntos. Uma lufada de ar fresco diferente desta máquina assassina e implacável.

Vilanova percebeu, como Guardiola, que tudo tem de rodear Messi. O técnico de Santpedor descartou Ronaldinho, Deco e Etoo quando percebeu que não aceitariam nunca jogar para o argentino e teve de fazer o mesmo com Ibrahimovic e Villa quando estes chocaram com o ego e a fome de golos da Pulga. Foram etapas conturbadas dentro do balneário que ajudaram a desgastar a liderança de Guardiola à medida que Messi aumentava claramente o seu poder dentro da instituição até que se tornou inevitável a saída de um dos dois. Vilanova herdou uma situação resolvida, uma liderança inquestionável (e merecida), e uma equipa oleada e com uma ideia na cabeça: apoiar-se no génio individual de Messi para lograr os êxitos colectivos.

 

Vilanova é, ao mesmo tempo, um treinador extremamente pragmático. 

Na dualidade Pep-Tito, o antigo campeão europeu como jogador era o amante das experiências. Deambulou entre o 4-3-3 e o 4-6-0, reforçando a sua devoção pelo jogo de meio campo. Provou repetir o modelo de Cruyff com o uso de três defesas e muitas vezes alternou o jogo de extremos com o de interiores, garantindo quase sempre que os onzes se mudavam ciclicamente de jogo para jogo. Provou vários jogadores, deu minutos a miúdos da formação e provou que não havia vacas sagradas no balneário. Ao contrário, Tito prefere uma abordagem mais estável.

O seu 4-3-3 é invariável, uma aposta clara num extremo sempre bem aberto (Pedro), um avançado mais móvel que jogue nos espaços deixados por Messi (Cesc, Alexis, Villa), um meio-campo que segure a bola e a faça circular (Busquets, Xavi, Iniesta ou até Cesc) e um lateral mais ofensivo, com o eixo a mutar do lado direito, onde Alves brilhava, para o esquerdo onde o protagonista é agora Jordi Alba. A nível defensivo, Vilanova sofreu uma razia durante largos meses mas o problema não se notou nos resultados porque a cada golo sofrido a equipa encontrava forma de dar a volta. O papel de Messi foi superlativo.

Enquanto a crise do Real Madrid se agudiza e reflecte os números de golos marcados por Cristiano Ronaldo (14 em 16 jogos, menos seis do que logrou na época passada à mesma altura) os de Messi crescem e resolvem, muitas vezes, o problema colectivo. Os rivais do Barcelona encontraram forma de ultrapassar o jogo coral, de encontrar as fragilidades defensivas, de explorar o jogo de posse de bole. O que ainda não encontraram foi uma maneira eficaz de anular de forma consistente a Messi. A derrota em Glasgow provou que só um mau dia do argentino pode impedir a equipa de dar a volta à mais aziaga das situações. Em nenhum caso Tito abdicou do seu modelo, como fez Guardiola tantas vezes, e procurou algo diferente. Tello, Cuenca, Thiago perderam espaço face a um onze mais coral, onde se nota evidentemente o peso dos nomes fortes do vestuário, descontentes com a constante rotação a que Guardiola os votava. Fabregas ergueu-se em protagonista, à custa de David Villa, cada vez mais ostracizado, e Iniesta cada vez joga menos onde está mais cómodo. Nota-se a ideia de Vilanova em privilegiar os homens que ajudou a criar quando foi treinador de juvenis e se cruzou pela primeira vez com Piqué, Messi e Cesc. 

 

Se o titulo espanhol está mais do que garantido, deve-se sobretudo ao respeito que o Barcelona impõe. A grande virtude do processo Guardiola foi criar nos rivais o respeito e o medo absoluto que antes era premissa do Real Madrid. As equipas sobem ao campo conscientes da sua inferioridade, um primeiro passo para a derrota. A bipolaridade do futebol do país vizinho é financeiramente real mas no relvado é ainda maior, surpreendendo só a péssima época de um Real Madrid entregue a um lunático que procura, entre o cerco a jornalistas e jogadores, por um problema insignificante comparado com a falta de fio de jogo alarmante que no ano passado era resolvida com a genialidade individual dos seus grandes jogadores. O Barça de Vilanova não está à altura da cultura futebolística de Guardiola, mas o Liverpool de Paisley também não o esteve de Shankly. Foi no entanto com ele que o clube atingiu a sua época dourada. Resta saber se também nisto, Vilanova será capaz de emular o único homem que venceu três Champions League na história do futebol europeu.



Miguel Lourenço Pereira às 10:33 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Sábado, 24.11.12

Era o treinador que ninguém queria e no entanto, aí está ele. Por meio ano ou por uma geração, provavelmente nem Roman Abramovich seria capaz de responder com honestidade. O homem mais perigoso para a carreira de um treinador apostou no mesmo espanhol que há um ano lhe disse que não, suspeitoso do que se vivia no balneário de Stanford Bridge. Rafa Benitez, um dos mais geniais técnicos da década, chega a Londres com a missão de passar para a posteridade. E o peso do cutelo a roçar-lhe a pele do pescoço.

 

Nos fóruns de adeptos a opinião era unânime. Todos, menos Rafa.

Entre alguns dos jogadores e directivos a opinião não variava. O ex-treinador do Liverpool nunca foi uma pessoa querida em Londres. As duas eliminações dos Blues ante os Reds, a luta dialéctica com Mourinho, os comentário de Benitez sobre o novo-riquismo do Chelsea, nada disso ajudou. E que no ano passado, quando Villas-Boas foi despedido sem piedade, o espanhol tenha recusado o convite indicando que gostaria de começar o projecto do zero, num defeso, e não herdar um balneário que cheirava a sangue, também não é propriamente algo que os adeptos e gestores do clube vejam com graça. Mas aí está, oficialmente, Benitez aterrou, finalmente, em Stanford Bridge.

Desde a saída de Mourinho que houve sempre dois nomes que povoaram a cabeça de Abramovich. Um era Guardiola, de quem o russo é um profundo admirador. O outro, Benitez, um espanhol que sabe o que é sofrer na Premier. Nunca venceu uma liga, mas ganhou a Premier que o russo tanto queria no primeiro ano do Special One e levou o Liverpool a outra final, bem como a um segundo lugar em 2008, a melhor classificação do clube desde o último titulo conquistado por Kenny Dalglish.

Benitez é um treinador do futuro. Sempre o foi, desde que treinava as camadas jovens do Real Madrid. 

Em Valencia pegou numa equipa desfigurada pelas duas derrotas consecutivas nas finais europeias de Paris e Milão, e ganhou duas ligas, olhando de tu a Real Madrid e Barcelona. Foi a última vez que uma equipa, fora do duopólio, logrou tal êxito. Pelo caminho ficou uma Taça UEFA, ganha ao Marselha, e um bilhete para a Kop como sucessor do bem amado Houllier. Em Liverpool o seu projecto durou vários anos mas foi de mais a menos. 

A falta de dinheiro do clube, a falta de um plantel com soluções para aguentar o pulso dos milhões do Chelsea, United e City, significaram o principio do fim. Quando abandonou o Liverpool, deixando atrás de si a melhor gestão pós-Boot Room, fê-lo com honestidade e graciosidade. Depois da má experiência com o Inter aprendeu a licção, de mergulhar num balneário minado pelo seu antecessor. E desde então preferiu estar tranquilo, a estudar o jogo, do que aventurar-se no desconhecido. Confessou que só voltaria a trabalhar com um projecto audacioso e à sua altura. Encontrou o desafio certo.

 

O novo Chelsea assenta como uma luva ao espanhol.

Reencontra-se com Torres, o homem que resgatou ao Atlético de Madrid para realizar a sua melhor época doméstica, em 2008, quando El Niño ameaçou o recorde goleador de Cristiano Ronaldo. Tem à sua disposição um leque de jogadores criativos que encaixam perfeitamente na sua filosofia de jogo, a mesma que explora o toque com uma constante pressão alta da linha defensiva e a recuperação rápida para explorar as costas do rival. Mata, Hazard, Oscar, Marin ou Ramires serão os protagonistas desta história como no passado foram Gerrard, Alonso e Mascherano. Talvez seja esse, o posto de numero 5, o médio mais recuado, aquele que sentirá mais falta mas, seguramente, Abramovich já lhe terá prometido uma prenda de reis.

O plantel do Chelsea tem problemas, sobretudo na sua dimensão ofensiva, mas também na outra área.

Benitez conhece bem a Torres mas o avançado espanhol é um jogador diferente daquele que aterrou em Liverpool. Sem alternativas no plantel para a posição de avançado, seguramente que a chegada de Falcao é esperada ansiosamente pelo espanhol mas o mais provável é que até Junho o colombiano fique por Madrid. E Benitez joga contra o relógio. O projecto não é dele mas os resultados têm de ser imediatos.

Como sucedeu em 2010, é-lhe incumbido vencer o Mundial de Clubes. Na altura bateu os congoleses do TP Mazembe. Agora pode conseguir um feito histórico, ser o primeiro treinador a vencer mais vezes o Mundial de Clubes (2) do que Champion Leagues (1). E Abramovich quer mais. Di Matteo começou bem a época e o Chelsea foi líder várias jornadas, mas as recentes derrotas condenaram o clube a um terceiro posto não demasiado distância da cabeça. Benitez parte com um ligeiro atraso mas vencer a Premier é algo com que sonha há oito anos e nunca sentirá que se lhe apresenta uma melhor oportunidade. Terá de ganhar o balneário, onde ainda há fieis ao seu arqui-rival Mourinho (e ele já sabe o que isso é), os adeptos que olham para ele ainda como o homem da desdita e sobretudo os mais cépticos na directiva do clube. Entre os quais está um Abramovich que sabe que esta decisão pode converter-se em temporal, sempre e quando Guardiola se decida em Junho a aceitar o seu cheque em branco. 

 

Contra esta realidade, Rafa Benitez regressa e com ele as lições de um maestro de xadrez que entende o futebol moderno como poucos. Sob o seu leme o Chelsea pode conseguir a frieza e o racionalismo que o condenaram sob a direcção de Di Matteo ao mesmo tempo que explora as potencialidades individuais ofensivas que o plantel lhe deixa ao seu dispor. Benitez era, no mercado actual, o único técnico em que Abramovich sentiu que podia confiar o seu projecto. O Chelsea era, para o espanhol, o único clube capaz de saciar o seu ego. O casamento, ainda que de conveniência, tem tudo para resultar.



Miguel Lourenço Pereira às 11:14 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quinta-feira, 22.11.12

Não vai haver City. Outra vez. Não vai haver Chelsea? Seguramente. No meio de tudo isto, uma certeza. O dinheiro é um atalho para o sucesso futebolístico mas nem todos os atalhos terminam bem. A falta de solvência futebolística dos "citizens" e o desnorte de um Chelsea em renovação deixam claro que investir milhões num clube nem sempre é o único caminho para o sucesso.

 

Podem os adeptos do City, com os irmãos Gallager à cabeça, queixar-se de fazer parte, pelo segundo ano consecutivo, do grupo da morte.

É verdade. Mas em ambos os casos, os ingleses chegavam com o maior orçamento, o mais caro plantel e a melhor colectânea de individualidades ofensivas possíveis e imaginárias. E não serviu para nada. A equipa voltou a despedir-se da Champions antes de Janeiro.

Na época passada foi a dupla Bayern Munchen e Napoli que se sentiu e fez sentir superior. O Villareal viveu um annus horribilis - acabou despromovido - e ficou claro que o grupo da morte não o era tanto. Esta época o Ajax medirá o apuramento para a Europe League, pela segunda época consecutiva, com o City. Os ingleses não vencerem nenhum jogo e em casa conseguiram apenas três empates. Nada mais. Muito pouco. Desesperadamente, muito pouco.

A culpa não irá morrer solteira, Mancini é consciente disso mesmo. Nem a vitória na Premier League - a primeira desde 1968 do clube azul de Manchester - será suficiente para aguentar o posto para lá de Junho. Especulam-se em nomes mas vive-se numa certeza. A hora do italiano pode chegar antes, mas nunca passará do defeso. O fracasso europeu a isso condena. Mancini voltou a apostar no seu lado mais conservador. Defesa de cinco, à italiana, com dois laterais que conhecem bem a dinâmica, e confiança num gesto individual capaz de fazer a diferença num leque onde se misturam Dzeko, Aguero, Nasri, Touré e Silva e a que se juntou ainda Tevez. Só Baloteli, incompreensivelmente, continuou de fora.

O sistema foi incapaz de lidar com Di Maria e os centrais e laterais atrapalharam-se no posicionamento na linha defensiva no lance que permitiu a Benzema aparecer, entre Kompany e Maicon, para fazer o golo inaugural do jogo. Ao City valeu-lhe, sobretudo, a incapacidade do clube merengue em fazer sangue com os rivais mais débeis. O 3-5-2 passou a 4-4-2, com Kolarov a subir na ala para encarar-se com Arbeloa, e o tabuleiro reequilibrou-se. Não chegou. O Real Madrid, a quem o empate bastava mas cuja vitória era fundamental se sonhasse com a liderança do grupo da morte, controlou os acontecimentos mas não pode encontrar forma de controlar o árbitro, Rochi, incapaz de ver três faltas consecutivas sobre Cristiano Ronaldo mas hábil o suficiente para encontrar no mergulho de Aguero motivos para um penalty e uma expulsão (já o primeiro cartão de Arbeloa tinha sido um erro, a falta era de Alonso). Com o empate chegou a tensão, o medo aos merengues - Varane e Albiol entraram para os lugares de Benzema e Di Maria - mas o City foi incapaz de transformar a superioridade no terreno em superioridade futebolística. Morreu a ideia, morreu a esperança e um ano mais os milhões investidos pela família do Dubai que revolucionou o clube foram insuficientes para comprar o bilhete mais valioso do ano. 

 

O Chelsea até cumpriu com o sonho do seu dono multimilionário, vencendo a Champions que se lhe tinha escapado tantas vezes.

Mas essa vitória, como ficou claro, pertenceu mais à vontade e garra de uam geração desesperada por justiça poética do que ao trabalho dos dois treinadores que comandaram o clube. Villas-Boas deixou os Blues à borda da eliminação nos oitavos. Di Matteo soube organizar as hostes e dar poder ao balneário para sofrerem o insofrivel no Camp Nou e acabaram por dobrar a vontade dos alemães do Bayern na sua própria casa. Mas a geração de Mourinho sentiu, com esse triunfo, que tinha cumprido a missão. Sem Drogba, com Lampard e Terry como actores cada vez mais secundários, o clube londrino entregou-se à juventude e promessa de Mata, Hazard, Marin, Moses, Sturridge, Oscar e Ramires. 

Uma geração que dará, seguramente, vários títulos aos Blues.

Está composta por alguns dos melhores e futuros melhores do Mundo. Mas é também uma geração sem liderança, sem um ponta-de-lança que trate o golo por tu e sem um médio defensivo que imponha a ordem e o respeito necessário num meio-campo defensivo demasiado débil. Se o grupo do City era o da morte, o do Chelsea não o era menos porque tal como o Dortmund, também o Shaktar Donetsk tem um projecto futebolistico sério e com ambições legitimas a surpreender os mais cépticos. 

Se contra os ucranianos faltou essa acutilância, contra os italianos da Juventus, renascidos para as grandes noites europeias, faltou futebol e liderança. Orfãos de tudo o que fez deles reis da Europa, o Chelsea foi uma sombra do que poderá vir a ser. E Di Matteo, o homem que cumpriu o sonho, não teve direito a reprise. Se os mineiros e os bianconeri pactuarem o previsível empate na última ronda, nem uma goleada histórica poderá salvar os londrinos, culpados dos seus próprios erros. Será a primeira vez que o campeão da Europa cai na fase de grupos, a primeira vez que é eliminado na primeira ronda desde que o Nottingham Forrest bateu, em 1979, o campeão Liverpool. 

 

O Chelsea sabe que tem material para o futuro onde falta apenas uma ideia de futebol e uma coerência na relação entre o campo e o banco. O City vive um problema maior. Um plantel profundamente desequilibrado, uma ausência de futebol colectivo que se vale do oportunismo individual dos seus génios, é um transatlântico governado por um pescador e até a época terminar o navio poderá cruzar-se com algum outro iceberg pelo caminho que deixem o trabalho dos últimos anos pelo chão. No final, Inglaterra, o país que há quatro anos dominava de forma autoritária o futebol europeu, continua em queda livre e só Arsenal e Manchester United parecem seguir em frente. E com uma versão muito menos impressionante em relação ao seu passado recente. Terão de salvar a honra da nação enquanto os seus potentados económicos terão, uma vez mais, de decidir se querem seguir o atalho do dinheiro ou o caminho do futebol.



Miguel Lourenço Pereira às 11:45 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 21.11.12

O que significa, no desporto, o fair play. O que significa, realmente, num desporto de competição que move milhões, o conceito quase amador de respeitar o rival acima de todas as coisas? A FIFA e as confederações, com a UEFA à cabeça, defendem o conceito como algo moralmente único mas na prática o fair play vai desaparecendo dos relvados. O acto de Luiz Adriano, pobre reflexo do estado actual do futebol, devia ser para a UEFA a oportunidade de ouro para demonstrar que as palavras também se podem transformar em actos.

 

Se a lógica imperasse, o Shaktar Donetsk teria perdido os três pontos conquistados na Dinamarca.

Mesmo vencendo por 2-5, mesmo tendo sido a melhor equipa no terreno de jogo. Tudo porque cuspiu num dos conceitos mais importantes do futebol como desporto. Do futebol como alma de um espirito competitivo justo e imparcial onde os principios de cavalheirismo ainda fazem sentido. No entanto ninguém espera que isso se torne realidade. Uma multa económica, para engordar o jantar de Michel Platini durante o próximo mês, e pouco mais. Uma reprimenda verbal, um raspanete a meninos mal comportados. A imagem, essa, ficou manchada para a posteridade. Chegue onde chegar o Shaktar Donetsk, que já está matematicamente apurado para os Oitavos de Final, confirmando o que dissemos, todos se vão lembrar antes deste gesto do que da imensa qualidade demonstrada nos cinco jogos pelos homens de Lucescu.

Lucescu, ai Lucescu. O homem que interrompeu a entrevista de Pep Guardiola depois de um 1-2 em que Messi marcou um golo parecido ao de hoje de Adriano, para criticar a falta de desportividade dos blaugrana tem agora um problema nas mãos. Diga o que disser, é fácil perceber que da sua boca não veio nenhuma ordem para permitir o golo dos dinamarqueses. O Nordsjallen vencia por 1-0 e depois do empate de Adriano marcou o 2-1. Mas foi mérito seu, nada mais. Não há nenhum gesto que indique que os ucranianos se deixaram bater. Depois, talvez espicaçados pelas celebrações dos dinamarqueses, marcaram diferenças com a sua superior qualidade. Mas o futebol já tinha perdido.

 

O lance é simples. Fácil de entender e explicar.

Uma bola ao ar no meio-campo que o árbitro indica, como é hábito, ao jogador do Shaktar que devolva à defesa dinamarquesa. Os homens da casa venciam por 1-0, estavam a ser melhores e os ucranianos sentiam-se nervosos. O remate foi sem convicção, é certo, mas Luiz Adriano apanhou a bola em jogo, sem estar em fora de jogo, e correu para a baliza onde o guarda-redes local, incrédulo, nem esboçou uma defesa. Foi o empate e a confusão. O árbitro validou o golo - poderia não fazê-lo? - e os jogadores dinamarqueses cercaram o brasileiro. Os homens de laranja olharam para o banco e encontraram silêncio. Quando a bola arranca, os avançados afastam-se mas o meio-campo fecha a muralha e recupera a bola. Não ia haver devolução de golo concedido, não ia haver desportividade. Muitos milhões em jogo provocam estas atitudes.

E no entanto Arsene Wenger solicitou um jogo repetido numa eliminatória da FA Cup quando Nwanknu Kanu marcou um golo nas mesmas circunstâncias, depois de receber uma bola que não era mais que a devolução desportiva do Arsenal à defesa do Southampton depois de uma bola ao ar. E Paolo di Canio, vendo os rivais no chão, lesionados, não hesitou em atirar a bola para fora e evitar marcar um golo fácil, com a baliza descoberta. Dois gestos que indicam que é possível esquecer que o futebol é uma indústria de milhões e, acima de tudo, um desporto. 

Se o golo pode acontecer, o que é inadmissível é a reacção dos jogadores do Shaktar depois do golo. Essa é a atitude que a UEFA e todos aqueles que acreditam no futebol como algo mais do que uma indústria jamais poderão perdoar. Esquecer e deixar passar.

Os ucranianos deviam ser punidos da forma mais exemplar por representarem, com este gesto, o cúmulo da falta de escrupulos que no futebol tem muitas formas, desde perdas de tempo propositadas, apanha bolas que desaparecem, lesões e expulsões fingidas, agressões imaginárias...

O futebol perde-se um pouco mais em gestos como o de Adriano e dos seus colegas e a UEFA, como organizador do torneio, não pode limitar-se a anúncios televisivos e directivas a adeptos e clubes. A UEFA tem a responsabilidade absoluta de fazer valer o mesmo ideário que está na base do próprio jogo que se chama futebol.

 

Infelizmente este episódio passará os próximos dias por todos os telejornais para acabar no anedoctário do futebol, numa sequência de videos de Youtube e uma piada entre os mais cínicos do jogo contra aqueles que acreditam que o futebol representa realmente algo mais. O Shaktar tem equipa, já o dissemos, para ser uma das surpresas da prova. Adriano, com este hat-trick, pode acabar o torneio como máximo goleador e Lucescu seguramente pensará duas vezes antes de acusar outros técnicos de falta de desportividade. No final, uma modesta equipa dinamarquesa sentirá na pele o cinismo de um jogo que desaparece diante dos nossos olhos e a máquina que é responsável pela sua gestão profissional calará e guardará no bolso o dinheiro pago pelo Shaktar - se é que alguma multa se pagará - para anunciar aos quatro cantos no Mundo a importância do Fair Play. Em vez de Collina no próximo anúncio poderiam colocar Luiz Adriano. Ninguém daria pela diferença!



Miguel Lourenço Pereira às 12:05 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Sábado, 10.11.12

Não há nenhum país onde o vermelho ocupe um papel tão fundamental na cultura futebolística como sucede no historial imponente do futebol britânico. Lendas de noites de glória, tardes de sonho e apoteose sob o signo de uma cor que conquistou o mundo com autoridade. Em Turim, numa fria noite de Abril de 1999, o vermelho voltou a triunfar e ajudou a definir os contornos de uma das grandes lendas modernas do futebol mundial. Em Barcelona esteve a emoção mas a grandeza futebolística foi evidente semanas antes, naquela noite em Turim, a noite em que o Manchester United avisou a Europa que estava pronto a renascer. Outra vez!

 

Dos Busby Babes aos heróis de Shankley e da Kop, as camisolas vermelhas de Manchester United e Liverpool, são parte fundamental da iconografia do futebol moderno. Entre ambos estão 80% dos títulos de campeão nacional inglês e o dobro das Taças dos Campeões Europeus dos restantes clubes ingleses juntos. O vermelho impõe aqui um respeito que não conhece em nenhum outro país, em nenhuma outra realidade social. 

A cor que dá vida e força, para lá do humanamente possível, aos dois gigantes ingleses, também destaque de forma evidente nas suas grandes noites europeias. Como sucedeu com a lenda do Liverpool de Bob Paisley, o homem tranquilo que herdou o clube mais bem preparado do Mundo das mãos do seu mentor, Bill Shankley, também Ferguson encontrou nas meias-finais do torneio supremo do futebol de clubes a sua grande noite de glória. O Liverpool venceu cinco finais da Taça dos Campeões (perdeu duas) mas nenhum desses jogos, talvez com a excepção recente do milagre de Istambul, ressoa tanto na épica encarnada do futebol como a noite da segunda mão das meias-finais de 1977 contra os franceses do Saint-Ettiene. Naquela noite a Kop começou a explicar ao mundo o que significava não caminhar só. O clube de Liverpool já tinha ganho ligas e provas europeias (a Taça UEFA), mas aquela vitória, desenhada por Keegan e pintada no céu pelos adeptos Reds, definiu como nenhuma outra a sua lenda europeia. Em Manchester, cidade a 43 kms, habituada ao sofrimento e à perda, as meias-finais europeias estavam sempre associadas ao sofrimento, ao luto, à dor. Foi sonhando com elas que os Busby Babes conheceram o seu fim. Foi nelas que os projectos de Ferguson teimavam em tropeçar e foi numa meia-final que o sonho de Eric Cantona se encontrou com uma noite terrível para Raymond van der Gouw, o suplente holandês de Schmeichel num duelo em casa com os futuros campeões, o Borussia Dortmund, em 1997.

Talvez por isso aquela noite em Turim tenha tido mais impacto emocional do que a maioria das vitórias de um clube que se habituou a sofrer para ganhar as suas finais. Em 1968 precisou do prolongamento. Em 2008 foram os penaltys que decidiram tudo e naquele ano milenar de 1999 todos sabemos como a história acabou. O êxtase do futebol, o orgasmo futebolístico contra o cronómetro, consagrou o grande United mas não apresentou ao mundo a sua melhor versão futebolística. Mostrou o seu lado mais heróico e britânico. O futebol, esse, foi apresentado em dois duelos sucessivos com os gigantes italianos, quando vir de Itália significava, ainda, para os clubes ingleses um sério problema.

 

O empate a 1-1 em Old Trafford (golos de Giggs e Conte, o actual treinador da Juventus) dava uma preciosa vantagem à Vechia Signora.

Ninguém duvida que aquela era a melhor formação da sua era. Tinham participado na final da Champions nas últimas três épocas, a primeira vez que algo assim sucedia desde o triplo triunfo do Bayern Munchen nos anos 70. A diferença estava no resultado. A Juve tinha vencido a primeira, frente ao Ajax de van Gaal, mas depois a cada participação somava uma dolorosa derrota, com o Dortmund em 1997 e com o Real Madrid no ano seguinte. 

Lippi tinha partido e era Ancelloti o homem que comandava uma nave onde o génio de Zidane, o trabalho de Deschamps, Conte e Davids e a magia de Del Piero davam a Inzaghi as oportunidades suficientes para fazer sonhar os tiffosi com um regresso à elite continental. O Manchester United, na sua versão mais continental, tinha eliminado de forma tremendamente convincente o Inter de Ronaldo e companhia nos Quartos de Final. Mas nem nesse jogo (1-1) nem antes a equipa tinha logrado uma vitória em território italiano. E salvo um empate a mais de dois golos, vencer era necessário para sonhar com reencontrar o Bayern Munchen em Barcelona. Na fase de grupos os Red Devils tinham defrontado os bávaros e viajado à capital da Catalunha. Em 28 de Maio esperava-lhes a história mas para lá chegar era preciso passar aquela noite em Turim.

Turim, cidade malfadada para os ingleses desde a celebre série de penaltis do Mundial de 1990. Turim, cidade onde o gang de Michael Caine comete o mais audaz dos assaltos, num duelo nacionalista com a polícia e a máfia italiana, no mítico The Italian Job (versão original). Turim, uma cidade que viveu também a sua tragédia aérea com os heróis do Torino. Turim, cidade fria e que esperava o United conhecendo os seus problemas psicológicos nas grandes noites europeias.

Aos 11 minutos Turim parecia ser tudo isso e mais ainda. Dois golos do eterno oportunista, Filippo Inzaghi, o homem de quem Ferguson disse ter nascido em offside. Um Manchester United sem Giggs, lesionado, e com Scholes no banco, tocado, era incapaz de dominar o espiritio criativo de Zizou e encontrar espaços na defesa amuralhada bianconera. Um resultado assim seria suficiente para destroçar o sonho de qualque adepto do United. À  memória vinham, seguramente, outras noites europeias trágicas. Nesse momento ergueu-se do terreno de jogo a figura de Roy Keane.

O irlandês era o líder espiritual da equipa desde a saída de Eric, le roi, e puxou dos galões como nunca. Reduziu de cabeça depois de um centro de Beckham - e é preciso voltar atrás no tempo para lembrar o quão perfeitos e únicos eram os centros do "Spiceboy" superado injustamente nesse ano no Ballon D´Or por Rivaldo - e suportou estoicamente a punhalada no coração quando o amarelo de Urs Meier o condenava a não disputar a final. Cuspiu para o chão, olhou para o céu e gritou com tudo o que se movia à sua volta. A partir daquele minuto, era Old Trafford outra vez.

Antes do intervalo o empate, aquela parceria que ficou para a história como as "Twin Towers", Yorke-Cole, encontrou espaço para colocar a eliminatória do lado inglês. Obrigaram Ancelloti a arriscar, obrigaram a equipa italiana a subir no terreno, obrigaram Schmeichel a mostrar porque no seu último ano de vermelho algo mágico se sentia no ar. E obrigaram Scholes a entrar em campo para por pausa ao jogo e levar o outro amarelo malfadado que também lhe impedia a ele disputar o jogo decisivo. No meio da dor e do sofrimento, o terceiro golo, ao cair do pano, porque na ópera a obra não se acaba até que Cole marque. Não só Turim deixava de ser um pesadelo como visitar Itália deixava de dar medo. Numa das maiores performances desportivas de um clube inglês em provas europeias, o Manchester United de outros tempos renasceu e confirmou na Europa a sua hegemonia recente do futebol insular. Carimbou o passaporte para a final com autoridade e certezas. 

 

Parecia uma heresia que os Red Devils tivessem chegado a este ponto apenas com um título europeu no bolso. Hoje têm três, fruto do trabalho legendário de Alex Ferguson. Mesmo assim continuam a dois de igualar o recorde encarnado do Liverpool de Paisley, Fagan e Benitez. É a decisiva quimera futebolística de Sir Alex, lembranças das noites de Turim pretéritas e futuras que lhe permitem superar a idade e agarrar-se à sua cadeira de sonho com a esperança de voltar a saborear a sensação de grandeza de epopeia clássica que só noites como aquela de Turim podem fazer sentir alguém que venceu tudo o que havia para ganhar. Noites de lenda, noites de memória perdidas na bruma.



Miguel Lourenço Pereira às 13:57 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Sexta-feira, 26.10.12

A exibição de autoridade do Shakhtar Donetsk frente aos campeões da Europa é a prova definitiva de que na Ucrânia se começa a acreditar que o clube laranja está cada vez mais próximo da elite continental. Depois de um arranque de época memorável, Mircea Lucescu encontrou a fórmula certa para emendar os erros da temporada passada na Europa. Este Shakhtar não só será responsável pela eliminação precoce de um favorito (Juventus ou Chelsea) mas também um candidato a surpresa da época nos palcos europeus.

 

Sem Jadson, muitos perspectivavam, este Shakhtar seria menos Shakhtar. 

Afinal, o jogador brasileiro tinha sido alma e arte durante os últimos anos, protagonista absoluto das grandes noites dos homens de Lucescu e responsável dos seus piores resultados. Quando Jadson não aparecia, a equipa sofria demasiado. Agora, sem ele definitivamente, decido a provar em São Paulo a Mano Menezes que merece ir ao Mundial, os homens de laranja jogam como nunca. 

Lucescu encontrou no seu 4-2-3-1 o equilíbrio necessário para criar uma equipa fiável a todos os níveis. As exibições internas não permitem avaliar o potencial real do clube. Em nono lugar no ranking UEFA, a liga ucraniana é uma competição pouco competitiva, dominada de uma forma ditatorial pelos jogadores de Donetsk na última década com relativa facilidade. Nem Dnierp, Kharkiv ou Metalurg têm conseguido dar o salto, de forma definitiva. E quanto ao Dynamo Kiev, em constante metamorfose, joga cada vez mais o nome do que que qualidade de onze com muitos talentos individuais mas pouca coesão colectiva. A derrota por 4-1 no duelo entre ambos deixou claro as diferenças. O Shakhtar disputou doze jornadas da liga. Venceu as doze. Tem doze pontos de avanço do segundo classificado e cada vez mais corre na imprensa local a anedota que só faltaria o clube ser campeão...a doze jornadas do fim, tal é a superioridade.

Mas a Europa continua a ser o problema, a afirmação definitiva de um clube que venceu a Europe League com autoridade, em 2009, mas que na Champions nunca logrou passar dos Quartos de Final. Frente ao Tottenham, primeiro, e na passada época num grupo surpreendente em que acabou no último lugar, depois de perder em casa com o FC Porto, as desilusões têm sido, de certa forma, o motor para Lucescu procurar renovar-se de forma constante. A derrota com os dragões foi a última em casa desde então. E o Chelsea sofreu na pele essa autoridade com que os homens de Donetsk encaram cada jogo diante dos seus.

 

Lucescu entregou ao arménio Mkhitarayan a batuta da equipa e este deu o passo em frente que o confirma como um dos melhores jogadores do continente europeu.

Aos 23 anos já ninguém duvida do seu tremendo potencial. Com Jadson no onze nunca encontrou o seu lugar. Actuava de interior e perdia a liberdade criativa que fez dele uma promessa aos 17 anos na liga arménia e chamou a atenção de vários olheiros europeus. A sua liderança no ataque é evidente e fundamental. Contra a Juventus superou Pirlo com facilidade no mano a mano que mantiveram pela posse de bola. Na última terça-feira deixou a Juan Mata, um dos protagonistas indiscutíveis do ano até ao momento, em má figura. O jogo foi dele. Deu e recebeu, distribuiu e rematou. Não fosse a exibição memorável de Petr Cech e a vitória podia ter sido maior, muito maior. E justa.

Com o arménio na posição 10, Lucescu fez rodar as tropas brasileiras que dão ao Shakhtar a criatividade absoluta que os transforma numa equipa diferente. Fernandinho foi gigantesco na ponte entre o ataque a defesa, deixando a Hubchsmann as tarefas mais defensivas, tapando as subidas constantes dos laterais, o incombustível Srna pela direita e o ucraniano Rat pela esquerda. No baile ofensivo, Mkhitarayan trocava de posição constantemente com o talento genuíno de um Willian que grita por reconhecimento internacional e Alex Teixeira, a enésima descoberta dos olheiros ucranianos, sempre hábeis a recrutar as surpresas que despontam no futebol brasileiro. Na frente, Luiz Adriano actuava como um nove capaz de jogar de costas para a baliza, movendo-se entre linhas, trocando posições com os colegas, destroçando uma defesa onde Ivanovic, Terry e Cole sofrem cada vez mais com rivais móveis, como se viu com o Atlético de Madrid na Supertaça Europeia.

Esse circulo rotativo de jogadores, que engoliam Obi Mikel e Lampard (Óscar depois), foi a grande arma da vitória ucraniana que com este triunfo se consagra como o grande favorito a carimbar primeiro o apuramento para a próxima fase. Sete pontos, aos quais se pode juntar uma vitória na Dinamarca, a chegar a dez, habitualmente os necessários para seguir em frente. Os 3 da Juventus, incapaz de vencer, e os 4 do Chelsea, parecem já distantes nestas contas e agora a ambição de Lucescu é dar definitivamente o salto. Por qualidade futebolística o Shakhtar é, actualmente, uma das oito equipas do futebol europeu. Com um banco de suplentes que inclui a Ilsinho, Eduardo, Devic, Dentinho, Douglas Costa, Gai e Chygrinski, a ambição é legitima.


A vitória do Shakhtar também deixou evidente que, apesar do brilhante inicio de temporada do Chelsea na Premier League, vencendo com autoridade os rivais que se lhe atravessam pelo caminho, é uma equipa em processo de reconstrução. A equipa ainda está incomoda a ter a iniciativa de jogo e a atacar para dar a volta ao marcador contra rivais que dominam muito melhor os distintos processos de jogo. O génio de Hazard, Mata, Óscar e Ramires é evidente da mesma forma que Torres continua a ser um handicaap, mais do que uma solução, mas o que Di Matteo terá de fazer é garantir uma maior autoridade com a bola nos pés ao mesmo tempo que mantém a solidez defensiva que se tornou trademark do clube e ajudou a vencer, definitivamente, a Champions que Abramovich tanto queria. A mesma com que sonham em Donetsk, um sonho ambicioso mas não tão irreal como se possa imaginar. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:23 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 24.10.12

Os sinais estão lá mas a aura de grandeza dos Red Devils tem impedido de ver aquilo que os ingleses chamam de "big picture". Desde há quatro épocas para cá, o clube mais simbólico do futebol britânico dos últimos 20 anos tem caminhado para uma decadência profunda e quase inevitável. A exibição do Sporting de Braga, meritória, não é caso único e coloca definitivamente em cheque a importância do mítico "Teatro dos Sonhos" como campo impenetrável. Os sonhos do maior estádio inglês vão a caminho de se tornar, progressivamente, numa ressaca para os adeptos do Manchester United.

Não era só o resultado. Era o jogo. Sobretudo o jogo.

A exibição do Braga na primeira parte, ontem, em Old Trafford, pode não ser uma novidade para os arsenalistas. Cada vez mais habituados a sacar a sua melhor versão na Europa, os homens de José Peseiro foram fieis à sua ideologia e mantiveram o jogo debaixo do seu controlo. Até que a sua defesa, o calcanhar de Aquiles deste projecto, deixou de aguentar as investidas do rival e deitou por terra um excelente trabalho colectivo. Mas os adeptos daquele que é, a par de Barcelona, o clube mais importante do futebol europeu das últimas décadas, começam a habituar-se a cenários como este. Cenários que, no passado, eram impensáveis.

A fortaleza do United de Ferguson sempre esteve em Old Trafford. O clube apresentava em casa a sua melhor e mais espantosa versão deixando, progressivamente, o seu cinismo e sofrimento para os jogos fora. Mas esse cenário de superioridade absoluta, capaz de enervar o mais duro dos rivais, progressivamente tornou-se lenda, mito. Distanciou-se da realidade de um clube que, desde 2009, entrou numa depressão profunda da qual não consegue encontrar o caminho certo.

A final de Roma, que terminou com o ciclo britânico e apresentou ao mundo o Barcelona de Guardiola, foi o ponto de inflexão. A este Manchester faltava-lhe a sorte que tinha tido na época anterior, quando mais precisou. Venceu a Premier mas com serviços minimos e muito sofrimento e na final europeia que serviu de troca de testemunho, dominou os primeiros 20 minutos para depois desaparecer. E ser engolido num pesadelo sem fim. Desde então voltou a vencer apenas por uma vez o título inglês, preso entre os titulos de Chelsea e Manchester City, e voltou a defrontar o Pep Team numa final europeia. Foi uma das piores noites da carreira de Ferguson, liderando uma equipa montada dos pés à cabeça a pensar no rival - algo que tem sido cada vez mais evidente à medida que o escocês vai envelhecendo - e destroçada com uma facilidade inusitada. Tentou vender-se a noite como uma mudança de guarda mas na época seguinte foi a Scholes a quem pediu ajuda e foi de Giggs que puxou nos momentos determinantes. O sinal estava dado.

 

Se ontem o Braga humilhou futebolisticamente durante meia-hora ontem, trocando a bola com uma fluidez e confiança no meio-campo composto por Viana-Micael-Amorim que não se é capaz de ver com a camisola vermelha de Old Trafford, a exibição do Tottenham, há duas semanas, foi ainda mais evidente porque aí a defesa não falhou e aguentou a investida a quem Ferguson recorre nos momentos de aperto.

E mais do que isso, o jogo memorável do Bilbao de Bielsa na época passada, o jogo que confirmou que as equipas de escalão médio europeu já não têm porque ter medo dos Red Devils. O Basel e Cluj já o tinham demonstrado recentemente, mas venceram combates equilibrados. O Bilbao foi imensamente superior durante 90 minutos como o Tottenham foi durante 60 e o Braga durante 40. Quando antes ninguém podia presumir, salvo contadas excepções, de ser tão superior a uma equipa como o Manchester durante mais de um quarto de hora consecutivo.

Ferguson tem sido incapaz de operar uma quarta geração depois de ter transformado a equipa de Whiteside e Robson na de Cantona e da geraão de 91, depois de ter trocado Beckham e a dupla Yorke-Cole por van Nistelrooy e Cristiano Ronaldo, Rooney e Tevez. A chegada de Robbie van Persie traz golos mas não jogo e Kagawa não encontra o seu sitio num esquema que muda regularmente de um 4-5-1 a um 4-3-3 para acabar num 4-4-2 losango, como o de ontem, com Rooney como falso número 10 no apoio a um avançado mais móvel (van Persie) e um mais fixo (Javier Hernandez). No ataque, os Red Devils não se podem queixar, mas a partir de aí os problemas multiplicam-se.

A defesa de circunstância habitual espelha a incapacidade de Ferguson de renovar a Evra, Ferdinand e um Vidic a quem os problemas fisicos se multiplicam. Rafael tem-se imposto na primeira equipa com surpreendente autoridade mas é uma lufada de ar fresco numa linha envelhecida e sem ideias, sem garantias e incapaz de aguentar o peso da camisola. No meio-campo os problemas são mais sérios.

Primeiro porque a Ferguson faltam as ideias. Não sabe a que jogar, não sabe com que esquema e modelo de jogadores apostar. Cleverley, Fletcher, Carrick apresentam ideias totalmente opostas às de Kagawa ou Anderson e a utilização de Giggs, Scholes e até Rooney, no miolo, deixa claro um problema de criatividade e organização que tem sido um problema desde 2008. Contra o Braga o técnico abdicou dos extremos (tem Young, Nani, Valencia, Wellbeck, Giggs) mas mesmo assim o miolo esteve sempre descoordenado e fora de acção e foi precisamente com o movimento de extremos que a equipa conseguiu dar a volta demonstrando que o seu ADN continua a exigir um estilo de jogo onde o meio-campo é deixado para segundo plano.

 

O orçamento gigantesco, a qualidade individual de muitos dos seus elementos e o génio, cada vez mais inconstante, de Ferguson, podem ser suficientes para os Red Devils continuarem a disputar o título inglês e europeu até Maio. Mas cada vez parece mais evidente que o clube de Manchester baixou, e muito, face a uma versão sua que não tem mais de quatro anos. A eliminação precoce na época passada, a pior versão de Ferguson na época passada, no entanto deixam sinais que noites como a de ontem só reafirmam. A pouco e pouco, Old Trafford vive uma profunda e progressiva decadência que transformará o Teatro dos Sonhos, como um dia lhe chamou Bobby Charlton, num campo com algum que outro pesadelo difícil de esquecer. 



Miguel Lourenço Pereira às 10:21 | link do post | comentar | ver comentários (6)

Quarta-feira, 03.10.12

O futebol é uma questão de atitude. A forma como cada equipa encara um desafio condiciona, e muito, o resultado que acabará por obter. Uma abordagem mais cínica pode trazer mais sucesso a curto prazo e ter consequências mais à frente. Uma abordagem positiva e ofensiva não só ganha adeptos como rompe a estatística. E jogar para não perder acaba por ser, quase sempre, o desvio mais rápido para a derrota. FC Porto, SL Benfica e Sporting de Braga apresentaram três atitudes bem diferentes nesta ronda de Champions e cada uma delas espelha o seu estado de ânimo. E talvez o seu futuro na competição.

 

Jorge Jesus sabia que defrontava aquela que é, talvez, a melhor equipa do Mundo. 

Agiu de acordo com a situação. Confessou-se incapaz de jogar de tu a tu, esqueceu o efeito causa, a clara baixa de forma do jogo clássico e sedutor azulgrana e organizou um esquema onde não existia espaço para a criação. Anular primeiro, atacar depois. Uma filosofia que não rompe apenas com a sua própria mentalidade mas também com as fortalezas do seu plantel. Sem Luisão, sem Witsel e sem Javi Garcia, o sector mais débil do Benfica actual é, sem margem de dúvidas, o defensivo. A presença do capitão no eixo central da defesa é determinante para calmar as hostes e Witsel e Garcia eram os únicos que sabiam impor ordem e respeito no miolo. 

Nem Matic, nem Jardel, nem Enzo Perez são jogadores com as mesmas características, peso e influência no jogo encarnada para oferecer a melhor versão defensiva da equipa lisboeta. E no entanto Jesus, sabendo que as únicas armas que tinha para fazer sofrer o Barcelona estavam no ataque, preferiu defender. E como a equipa defendeu mal, sobretudo pelas alas, onde Maxi Pereira e Melgarejo foram inconsequentes, a derrota tornou-se inevitável e só não foi mais expressiva porque Artur merece uma chamada à selecção do Brasil e este Barça está, ainda longe, da pior versão de Pep Guardiola, apesar dos números dizerem o oposto.

Sem alinhar a Lima, Rodrigo, Aimar e Carlos Martins para aproveitar uma linha defensiva extremamente débil, onde Alves e Alba têm tendência a deixar espaços e em que Mascherano é um elo demasiado fraco para uma equipa deste calibre, o técnico encarnado assumiu esse complexo de inferioridade, essa atitude derrotista que fez da derrota algo profundamente lógico, muito para além da diferença real entre ambos os clubes. Em 2006 o Barcelona também era a melhor equipa do Mundo e no entanto na Luz foi incapaz de vencer em parte porque a atitude também foi diferente.

 

As vitórias de FC Porto e SC Braga explicam, de certa forma, que há maneiras e maneiras de vencer.

Os bracarenses vivem acima das suas possibilidade, no bom sentido do termo. Sabem que não são um clube com orçamento e prestigio Champions e no entanto sempre que estiveram em prova deram muito boa conta de si. Conheçam as suas limitações, conhecem as suas prioridades e jogam a curto-prazo. Para os pontos, para o lucro financeiro, para ver no que dá esta aventura. Por isso a abordagem dos homens de Peseiro, particularmente depois da dolorosa derrota com o Cluj, tinha de ser mais cínica do que entusiástica. Foi um esquema conservador, sabedor que iria sofrer o inferno turco na sua mais pura essência, e no entanto foi suficiente para conseguir uma vitória histórica e fundamental para garantir que a corrida para manter-se nas provas europeias, seja a Europe League seja a Champions, se mantém de pé. Peseiro tem o plantel mais português do futebol nacional, continua a beneficiar da brilhante rede de prospecção e directiva dos "guerreiros do Minho" e só a ausência de um homem golo como Lima pode mudar uma ideia que está a ser trabalhada desde o arranque da temporada. Um ano fundamental na história do clube que necessita jogos como este. Jogos que não ganham adeptos mas que produzem essa dose de experiência cínica que tanta falta faz para crescer.

Vitor Pereira, por outro lado, foi o oposto de Jorge Jesus.

Tão criticado, o técnico espinhense sabia que defrontava uma das equipas que mais dinheiro gastou nos últimos dois anos no futebol europeu. O plantel do PSG está ao nível dos melhores da Europa e Ancelotti é um dos poucos técnicos que venceu a prova por duas vezes e que sabe mover-se nestes terrenos pantanosos. Talvez por isso poderiam muitos esperar um FC Porto conservador, expectante e temeroso de um rival, liderado pelo omnipresente Zlatan Ibrahimovic. Mas a realidade desmintiu a teoria completamente.

Foi talvez o melhor jogo da era Pereira, um jogo onde os dragões foram autoritários do minuto 1 ao minuto 90, asfixiando a criação de jogo dos parisinos, realizando um exercício de pressão alta intenso que transformou os favoritos numa equipa incapaz de sair do seu meio-campo com a bola controlado. O brilhante golo de James Rodriguez surgiu no fim mas há muito que os campeões nacionais mereciam a vantagem, sobretudo porque tanto Varela como Jackson fizeram jogos à altura das expectativas dos adeptos e o meio-campo aguentou o ritmo durante todo o encontro. Um triunfo que saiu directamente do optimismo com que o técnico encarou o jogo, sem medos, e que encurtou o percurso para uma vitória que deixa escancarado o apuramento. Os dois jogos com o Dynamo Kiev, rival directo, serão fundamentais. Seis pontos serão suficientes para dar descanso para as últimas duas rondas. Com a mesma atitude, sem os receios demonstrados pelo Benfica nos dois primeiros jogos e sem necessidade de ser tão cínico e pragmático como o Braga, o FC Porto apresenta a versão que muitos não esperavam ver com a saída do seu lider espiritual das últimas épocas.

 

Se a nível interno os três representantes portugueses continuam a viver com os altos e baixos de uma liga nivelada por baixo mas que revela sempre um par de surpresas, na Europa mede-se o real valor dos projectos desportivos. Da mesma forma que a eliminação precoce do FC Porto de Vitor Pereira deitará sempre uma sombra sobre o seu título, este ano a atitude positiva na Europa dá outro ar à sua controversa gestão. O Braga continua a mostrar à Europa que Portugal há muito que não é a terra dos "três grandes" e o Benfica sofre, como sempre, dos humores de um técnico que parece enganar-se sempre nos momentos mais importantes da sua carreira. Questão de atitude!



Miguel Lourenço Pereira às 22:56 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 17.09.12

alguma diferença entre a antevisão desta edição da Champions League, que amanhã arranca, e da que vivemos nos dois últimos anos? O futebol é um fenómeno imprevisível, e a final de Munique da última edição prova-o, mas à partida para mais um ano de futebol europeu, nada mudou. Os favoritos continuam a ser os mesmos, as surpresas esperadas continuam a ser as mesmas e o mais provável é que a história continue a negar-nos uma final entre os dois colossos espanhóis em Londres. 

 

Real Madrid. Barcelona. Barcelona. Real Madrid.

Não há outros favoritos. Não há outras equipas que estejam ao mesmo nível. Não há outros clubes que gerem tanta expectativa para o arranque da nova temporada da Champions League do que os dois grandes do futebol espanhol. Tem sido assim nos últimos três anos. E no entanto, nem o Real Madrid chegou à final em nenhuma das últimas tentativas, nem o Barcelona conseguiu manter a coroa na última temporada. Desde 1990 que nenhum clube vence a prova rainha da Europa por dois anos seguidos. No formato Champions nunca aconteceu. Olhando para o vencedor da última época é muito pouco provável que este seja o tal ano. Mas pode muito bem ser o ano que permita, na próxima época, que se faça história. Real. Barcelona. Barcelona. Real. Entre eles desenha-se o presente e o futuro. 

O Real Madrid de José Mourinho não vai a uma final desde 2002, quando venceu a nona edição da sua história em Glasgow. Dessa equipa só sobra Casillas, que nessa noite começou a sua candidatura a santo da devoção do madridismo. Depois de dois anos e de duas meias-finais perdidas, este é o ano do tudo ou nada do projecto merengue do técnico português, o tal que quer ser o primeiro a igualar Bob Paisley e vencer três Champions. O primeiro em três clubes diferentes. Do outro lado do ringue, o inevitável Barça. Sem Guardiola. Apesar de Tito. Sem a necessidade de Guardiola e graças a Tito? As perguntas que se fazem na comarca blaugrana giram à volta dessa realidade. Nos últimos seis anos, o Barcelona venceu três vezes a prova e recortou as diferenças históricas com os maiores do continente. Desde 2007 que não falha uma meia-final e Messi quer partir para mais uma época como Bota de Ouro do torneio. Haverá alguém capaz de impedir a sua fome de golos e títulos?

 

Em 2011 escrevíamos algo similar. Nós e todos.

Ninguém perspectivava um final distinto, uma festa longe de Cibeles ou de las Ramblas. E no entanto o futebol é assim, caprichoso, imprevisível. Futebol portanto. E a festa fez-se, pela primeira vez na história em Londres. Na mesma Londres que recebe a final, pela segunda vez em três anos, ironias da vida, como se não houvesse estádios de luxo por esse continente fora para receber a festa do futebol europeu. Mas Wembley não é Stanford Bridge e é aí que o rejuvenescido Chelsea, o mesmo de Mata e de Hazard, o de Torres e Óscar, procurará defender uma coroa que muito poucos esperam que mantenha. Os Blues não são sequer a equipa inglesa favorita. Nem o eram o ano passado. O Manchester City rompeu a gafe da Premier mas na Champions desiludiu. Pelo segundo ano consecutivo no "Grupo da Morte", este será o ano determinante na nova etapa dos Citizens, recheada de petrodolares. Não se permite um novo fiasco europeu, não se imagina a equipa longe do top oito, mas depois de dois anos entregue à Bundesliga, o Borussia de Dortmund quer finalmente voltar a dar cartas na Europa. E o Real é o Real. Passam dois, um será o máximo candidato a vencer a Europe League, mas ninguém está disposto a abandonar o barco sem luta. 

Perto do City of Manchester, em Old Trafford muitos querem recuperar a ilusão de ser uma potência europeia. Mas o Manchester United, a única equipa que rivalizou com o Barcelona durante os últimos anos, perdeu aparentemente o comboio dos favoritos e agora parte como eventual surpresa, mais graças aos golos de van Persie do que ao meio-campo, ainda algo desequilibrado, de Ferguson. Um técnico que quer vencer a sua terceira Champions, como Mourinho, para retirar-se em paz. Wenger, por outro lado, quer vencer a sua primeira e acredita que num ano onde a Premier é um sonho quase impossível, como sucedeu com Liverpool e Chelsea, as atenções podem virar-se definitivamente para a Europa onde os gunners sempre falharam nas noites decisivas. A este clube anglo-hispânico podem juntar-se os alemães de Munique, depois do trauma que significou perder em casa uma final que estava ganha, os italianos de Turim, de regresso a uma prova que conhecem bem e até os franceses do PSG, mais a peso de ouro do que à base de prestigio. Mas ninguém imagina umas meias-finais, sequer, com outras equipas que não estas.

Zenit, FC Porto, AC Milan, SL Benfica, Valencia ou Shaktar são os outros nomes de quem todos falam para surpreender. Tal como no ano passado. Alguns ficarão pelo caminho muito cedo, outros podem realmente ser surpresas, mas nenhum tem capacidade para desafiar as dez principais formações do futebol europeu actual.

 

Na final de Londres seguramente não estarão aqueles que todos dão como favoritos hoje. Ao longo da história Real e Barça partiram como favoritos e nunca se encontraram no jogo decisivo. Caprichos do sorteio, maus momentos de formação, eliminações surpreendentes, tudo vale. Ninguém é capaz de arriscar dois finalistas porque ninguém tem coragem de eliminar antes do tempo aos dois gigantes espanhóis, mas a época de Champions que nos aguarda terá as suas surpresas, os seus jogos para a história, os seus momentos de antologia e as suas desilusões. E no final mais uma equipa para perdurar na memória, para entrar no folclore emocional de um torneio que ainda hoje é único no panorama internacional.



Miguel Lourenço Pereira às 20:49 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Quarta-feira, 01.08.12

Vencer a Champions League muitas vezes é o culminar de uma equipa que entra para a história. No caso do Chelsea não podia ser mais verdade. O onze que logrou em Munique o primeiro troféu de campeão europeu para os londrinos faz parte da história do clube mas não do seu futuro. Foi o último suspiro de uma geração de veteranos que várias vezes bateu à porta sem nunca conseguir entrar. Sem a sua guarda pretoriana o Chelsea tem nas mãos o dificil desafio de reinventar-se com base no talento e na juventude dos jovens leões de Stanford Bridge.

 

Hazard. Oscar. Marin. De Buyne. Lukaku. 

Nomes próprios do futuro azul, nomes próprios de uma nova era. Uma era pós-Champions League.

O clube londrino venceu o troféu em Maio com uma geração perto do seu final. Muitos dos membros do plantel saíram a custo zero. Outros sabem que têm poucos anos pela frente na elite. Terry, Cech, Lampard e Cole são conscientes que alcançaram o pináculo das suas carreiras e que o próximo ano pode bem ser o último no clube onde estiveram a última década. Os homens que Mourinho forjou e que Di Matteo levou ao titulo europeu podem ir com a sensação de missão cumprida. É aos novos que chegam que fica a dura missão de manter o nível bem alto.

O processo de rejuvenescimento do clube arrancou à dois anos. O Fair Play financeiro da UEFA foi o primeiro alerta na gestão de um clube habituado a gastar muito e bem. Antevendo os problemas de futuro os directivos do Chelsea entenderam que era necessário repetir a operação de 2003 e 2004, rejuvenescer ao máximo o plantel para aguentar largos anos e assim evitar as investidas no mercado.

Ramires, Ivanovic, Fernando Torres, Juan Mata, Raul Meireles, David Luiz, Cahill e Thibaut Courtois foram contratações cirúrgicas a pensar no hoje e sobretudo no amanhã. Mas não foram as únicas. Para a cantera Blue foram recrutados jovens dos vários cantos de Inglaterra e do velho Continente para estarem preparados a dar o salto para a equipa principal. Mas por muito lógica que fosse a politica do clube, ela esbarra com a única ambição do seu dono, Roman Abramovich: o titulo europeu.

As saídas de Ancelotti e Villas-Boas, homens que trabalhavam o futuro mas que falharam em cumprir o sonho do seu patrão omnipotente, deixaram também a sua marca na politica do clube. Os pesos pesados eternizavam-se e muitas promessas, como o italiano Borini, perdiam-se definitivamente por valores irrisórios apesar do seu futuro prometedor. A vitória de Di Matteo serve também como ponto de inflexão nesta politica auto-destructiva. Com o objectivo cumprido o Chelsea tem agora tempo para redesenhar-se.

 

As saídas de Bosingwa, Kalou, Drogba, Deco, Anelka, Ballack foram o primeiro passo. 

Em dois anos o plantel emagreceu e rejuvenesceu-se. Agora é a época das contratações definitivas, da mudança táctica que muitos adeptos pedem a gritos rumo a um futebol de posse, de controlo sem esquecer a velocidade como arma preferencial, um regresso ás origens do Special One.

O clube moveu-se bem e rápido no mercado e contratou duas das maiores esperanças do Velho e Novo continente. Do Lille gaulês chega Eden Hazard, o futebolista continental mais similar a Zinedine Zidane que sobrevoa os relvados do futebol europeu. Hazard é um génio longe dos holofotes mediáticos e em Londres assumirá a batuta de liderança de um projecto que tem o seu rosto. Eficaz, dono de uma técnica invulgar, maestro das bolas paradas, fisicamente dotado, o belga tem tudo para ser o futuro dos londrinos. Ao seu lado o brasileiro Óscar, a enésima reencarnação do "malandro" canarinho, maestro da finta e do passe, dono de uma visão de jogo invejável e de um estilo difícil de descrever usando apenas palavras. Entre ambos a bola rolará com a finura e determinação de um primeiro amor. Para meter velocidade ao jogo, as pernas do alemão Marko Marin e do belga Kevin De Bruyne, dois extremos à europeia, fisicos, intensos, velozes e peritos na arte dos cruzamentos, jogadores capazes de abrir o campo ou rasgá-lo em diagonais venenosas. Jogadores capazes de dar o arrojo que o Chelsea não tem desde os dias de Arjen Robben e Damien Duff. 

Na frente de ataque continua o dueto espanhol Torres-Matta, dois jogadores superlativos em estado de graça, agora acompanhados definitivamente pelo belga Romelu Lukaku. Jogador dono de uma força e uma potência fora do normal, Lukaku teve poucos minutos na passada época mas com a saída de Drogba, com quem partilha mais do que semelhanças físicas, pode ser a grande surpresa do ataque londrino.

Di Matteo conta com um arsenal de respeito. Num 4-3-3 esperem ver muitos destes rostos no banco porque não há vagas para todos, numa lista onde se movem ainda Malouda e Sturridge. No meio-campo, ao lado da classe, a força de Ramires, a tenacidade de Meireles e o trabalho de Obi Mikel para dar o equilibrio necessário que a defesa composta por Cahill-David Luiz deverá reforçar ao longo da época. As laterais continuam a ser o calcanhar de aquiles do clube e talvez seja aí onde o mercado volte a funcionar para os Blues que até se dão ao luxo de deixar Courtois em Madrid mais uma época, confiantes que estão na genialidade eterna de Petr Cech

 

Com este cenário - e sonhando ainda com Hulk e Falcao, nomes que sempre rodeiam o futuro dos azuis - o Chelsea apresenta credenciais mais do que suficientes para defender a coroa europeia. Mas que ninguém se engane. Este é um projecto de futuro, desenhado para a próxima década com jogadores extremamente jovens mas com um potencial tremendo. Um projecto que se inspira na brilhante trajectória espanhola, na classe centro-europeia, no músculo africano e no espírito britânico para criar um cocktail de emoções e movimentos capazes de marcar uma geração.



Miguel Lourenço Pereira às 11:25 | link do post | comentar | ver comentários (7)

Domingo, 20.05.12

Teria sido uma das grandes injustiças da história das provas europeias (e houve algumas) se este projecto chamado "Chelski" nunca tivesse tido direito a vencer uma Champions League. Que uma geração onde militam alguns dos nomes próprios da última década tivesse visto a glória passar. Sobretudo, que um gigante como Didier Drogba, tivesse de sentar-se de novo no relvado de mãos na cara, desolado. Nove anos depois de arrancar a sua imensa inversão financeira no clube londrino, Roman Abramovich tem finalmente a sua "orelhuda". E o futebol salda assim uma dívida com um clube que tinha atrás de si já uma final e quatro semi-finais perdidas às costas desde que tudo começou.

Juan Mata remata mas Manuel Neuer, esse panzer de olhar frio, defende.

Parecia Moscovo outra vez, parecia que o destino realmente tinha dito ao Chelsea que a glória futebolística era coisa a que não poderia ambicionar. Por muito dinheiro gasto, por muitos jogadores top, por muitos técnicos carismáticos. O sofrimento era a única palavra transversal nesta história. Mas o futebol tem destas coisas. Não significa que ganhe sempre quem mereça - e por futebol jogado o Bayern Munchen pareceu ser sempre uma equipa mais solvente - nem sequer quem jogue mais bonito. Não se trata nada disso. 

Da mesma forma que a Itália em 2006, foi a justiça colectiva a quem o futebol prestou homenagem no Allianz Arena. E nem um grande como Neuer podia desafiar o destino desta maneira. Depois da sua defesa inicial, a relembrar a meia-final contra o Real Madrid, os adeptos começaram a fazer contas. Nunca o Bayern tinha perdido um jogo em penaltys na Europa. Nunca o Chelsea tinha ganho um. Era assim de fácil. 

Mas marcou David Luiz. Mas marcou Lampard. Mas marcou Cole. E de repente não havia Terry à vista para escorregar outra vez e pelo caminho era Petr Cech, o mesmo que tinha parado no prolongamento um penalty a Arjen Robben - o maldito - quem se tinha tornado no herói da noite. Defendeu o remate frouxo de Olic e desviou com o olhar o tiro de Bastian Schweinsteiger. Jamais esquecerei esta final pelo rosto de "Schweini", pela segunda vez derrotado numa final europeia. A ele (e a Lahm) também há uma dívida por pagar. Mas este Bayern é um projecto solvente suficiente para voltar, mais cedo que tarde, para cobrar o que é devido.

Cech tinha defendido o que ninguém contava. E no final de contas o Chelsea tinha, outra vez, a possibilidade de sagrar-se campeão da Europa com o derradeiro penalty. Anelka, na China, deve ter agradecido que a pressão fosse para outro. Mas Didier Drogba não entende dessas coisas. Ele é o grande vencedor do ano. O seu olhar define a temporada futebolistica de um clube que se apoiou nele, mais do que nunca, para atravessar o purgatório. Desprezado pela directiva, roubou a titularidade a Torres, convenceu Villas-Boas da sua utilidade, tornou-se na referência ofensiva de Di Matteo e só, contra o mundo, ajudou a derrubar a mitologia blaugrana. Na final, esse jogo que tanto tinha atravessado, foi o protagonista absoluto. Pelas bolas que cortou na defesa, pela raiva com que liderou cada ataque. Pelo golo que empatou o jogo, a três minutos do fim. Pelo penalty que cometeu, infantilmente sobre Ribery, lesionando o francês, até então o melhor do ataque bávaro. Aquele momento pertencia-lhe por direito. E se a história devia algo ao Chelsea, devia muito mais a Drogba. Neuer devia sabê-lo, apenas se mexeu, o fatalismo do momento era evidente. A taça esperava os braços do marfilhenho, a história queria-o hoje mais do que nunca e a bola rasgou as redes na imaginação de milhões de espectadores. Caiu no relvado e sorriu. Drogba corria para a posteridade!

 

Futebolisticamente não foi a final mais apaixonante, mas foi seguramente uma das mais intensas.

Ambas as equipas comportaram-se da mesma forma como tinham feito nas meias-finais. O Bayern quis a bola e o domínio do jogo. O Chelsea preferiu controlar o espaço e aproveitar a velocidade para fazer a diferença. Não foi um jogo de K.O., no futebol quase nunca o é. Foi um combate a pontos que acabou empatado. Apesar do recorde histórico de cantos para os bávaros a bola rondou Cech e teimou em não entrar. O jogo pelas alas, bem tapadas por Bosingwa e Kalou na direita e Cole e Bertand na esquerda, tornou-se ineficaz e Robben e Ribery foram forçados a procurar diagonais que esbarravam com o muro que derrotou o Barcelona. 

Nenhum dos seus remates encontrou perigo e demasiadas vezes o excesso de pernas de jogadores azuis confundia o jogo de passes entre Gomez, Muller, Kroos e Schweinsteiger, o eixo central da ideia de Heynckhes. Tacticamente o treinador alemão não encontrou forma de furar o bloqueio e faltou talvez paciência para atrair o conjunto inglês da sua toca. Entretanto o tempo passava, os corpos perdiam forças, a cabeça clarividência e o Chelsea, matreiro como só um treinador italiano pode ser, começou a morder. A  pouco e pouco os contra-golpes venenosos assustavam, faziam os alemães correr mais do que as pernas podiam e davam a sensação de um perigo maior do que seria de supor. Durante oitenta minutos a troca de golpes foi-se equilibrando. Nenhuma ideia era capaz de bater a outra e a verdade é que nenhum dos bandos parecia disposto a mudar o guião. Até que apareceu Thomas Muller.

Depois de uma época uns furos abaixo do que demonstrou em 2010, o ano da sua explosão, Muller viu-se na final num papel incómodo. A sua posição natural tem sido ocupada por Robben e Kroos e ali, com o médio recuado para cubrir a baixa de Luiz Gustavo, sentiu-se perdido. Mas o seu sentido de oportunismo é único e depois do enésimo ataque, a bola sobrou-lhe e com um golpe cheio de imaginação, bateu Cech como a um guarda-redes de andebol. Faltavam sete minutos, o Allianz Arena celebrava já o quinto titulo europeu, o argumento de um ano mágico parecia ter sido escrito em alemão.

Só que Drogba, esse monstro que deveria terminar o ano com um mais do que merecido Ballon D´Or, ainda não tinha dito a última palavra. Nem cinco minutos, tempo suficiente para Heynckhes cometer o erro de tirar ao autor do golo alemão, e o Chelsea empatava. A desilusão na cara dos germânicos dizia tudo. Um clube habituado a perder finais, incapaz de ganhar uma final a equipas ingleses, parecia ver o rosto fatídico do destino na cara do africano. E veio o prolongamento, e o penalty a Ribery e o falhanço de um Robben que se começa a fazer notar pelos falhanços nos momentos decisivos da sua vida, ele que fez parte do melhor Chelsea da história, ao lado do núcleo duro contra quem jogou hoje. Depois desse momento ficou claro que, tarde ou cedo, os ingleses sairiam vencedores. Parecia evidente que a história tinha decido fazer com eles o que se tinha esquecido com o Monchengladbach dos anos 70, o Real Madrid dos anos 80 ou o Arsenal de Wenger. Justiça. 

O relógio continou a correr, os penaltis chegaram, inevitáveis, e Drogba decidiu que nove anos de espera eram demasiados. 

 

Pode parecer curioso que o pior Chelsea desde que Abramovich chegou, em plena era Ranieri, tenha logrado o que nem Mourinho, Grant, Hiddink ou Ancelloti conseguiram. Se é certo que o Bayern não foi hoje tão eficaz como contra o Real Madrid e muito mais parecido ao que tremeu nos momentos decisivos da Bundesliga, também é verdade que o jogo dos ingleses voltou a assemelhar-se mais à herança do catenaccio do que, propriamente, à escola de futebol espectáculo que o russo tanto aprecia. Mas o magnata já tinha tentado de todas as maneiras e o troféu, de uma forma ou de outra, tinha-lhe sempre escapado. A vitória de hoje é mais sua do que ninguém, pela insistência em não deixar nunca de procurar lograr o seu objectivo. Foi o triunfo de uma geração histórica do futebol inglês, de alguns dos seus melhores jogadores, de um lider espiritual que pode muito bem ser considerado como um dos maiores (ou o maior) futebolista africano da história. E foi, mais do que isso, o triunfo de um sonho sobre qualquer ideário táctico, cultura futebolística ou projecto pessoal. Vencer a Champions League dá ao Chelsea finalmente o pedigree que lhe faltava, o primeiro clube londrino a vencer o troféu, o quinto inglês em lograr o feito. Talvez sirva para dar tranquilidade ao clube, tempo para crescer noutros moldes, uma maior aposta no jogo e na formação do que nas ânsias e o livro de cheques. Abramovich tem a palavra, a sua geração pode partir agora com a sensação do dever cumprido. E o futebol saiu do Allianz Arena mais aliviado mas com a consciência de que sempre haverá alguma divida moral por saldar.



Miguel Lourenço Pereira às 00:30 | link do post | comentar

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