Segunda-feira, 04.07.11

A novela futebolística da silly-season desta temporada chama-se Cesc Fabregas. Uma novela tão supérflua e vazia como qualquer livro ligeiro que se leva para a praia e que se lê em diagonal. Ninguém questiona o talento do capitão do Arsenal mas transformá-lo num cavalo de batalha e num conflicto mediático é algo surpreendente tendo em conta que actualmente o jogador dos gunners não tem espaço no onze de Guardiola.

Quando um jornal conhecido pela sua militância fanática como é o Sport catalão anuncia uma mutação táctica para acomodar a chegada mais do que previsível de Fabregas ao Barcelona, começa a ficar claro que o problema é mais grave do que se poderia supor. É difícil imaginar um treinador que seja tão talentoso e perspicaz como é Josep Guardiola. Pensar que o treinador da equipa mais bem sucedida do futebol mundial dos últimos 20 anos irá mudar o desenho táctico que, precisamente, levou a essa supremacia, simplesmente para acomodar a um jogador, é por si só espelho do desespero mediático em que se envolveu nesta novela a sociedade blaugrana. Imprensa e clube não sabem que fazer com um jogador que é petição expressa do homem que ninguém se atreve, nem mesmo Sandro Rossell, a contrariar.

Guardiola é hoje o presidente de facto do FC Barcelona e poucos duvidam disso mesmo. Ao contrário de Cruyff, que sempre teve de viver com a sombra de Nuñez, o técnico de Santpedor controla o seu clube do topo à base com a autoridade concedida pelo sucesso indiscutível que teve desde que regressou ao Camp Nou. Um mandato presidencial oculto mas que tem definido, positivamente, o sucesso desta estrutura desportiva da qual ele é, de certa forma, o protótipo perfeito. No meio do seu mandato oculto, Fabregas tornou-se num tema nuclear. 

O jogador saiu do Barcelona de costas voltadas com a direcção de Joan Gaspart que se recusou a oferecer os valores que pedia para renovar contrato. Tal como Gerard Pique, o seu melhor amigo, escolheu Inglaterra para continuar o seu crescimento profissional sem nunca esconder a sua devoção pelo clube de origem. Em Londres foi o exemplo perfeito de como Arsene Wenger sabe pescar e trabalhar jovens promessas e rapidamente se tornou no capitão dos gunners. Mas desde que se tornou titular, Fabregas nunca soube o que era ganhar um troféu de nível com o Arsenal. Mais do que isso, nunca se tornou no jogador diferente que tantos esperavam dele, o estilo de jogador capaz de vencer, por si só, todas as adversidades. Cesc é bom, muito bom, mas é um jogador de colectivo, como seria de esperar de alguém que seguiu o ideário blaugrana ao longo da sua vida. Nunca se destacou como uma estrela individual e nunca se viu rodeado com um colectivo que partilhasse a mesma filosofia. Porque Denilson, Diaby, Flamini, Nasri e Song não são, propriamente, violinistas de excepção. Essa sombra sobre o seu sucesso profissional criou uma certa inimizade com o próprio público do Camp Nou que não parece gostar muito da ideia do regresso do jogador a casa. Um sentimento partilhado pela directiva oficial, a de Rossell, que preferia gastar a fortuna que está sobre a mesa - 40 milhões, mais coisa menos coisa - noutras posições e noutros mercados (a saber, o mercado brasileiro onde Rossell dá cartas). Mas é aí que entra a figura de Guardiola.

 

Guardiola é o espírito vivo da Masia e quer rodear-se de todos aqueles que partilhem o seu sentimento, antes de voltar a aventurar-se em trazer algum jogador, por muito bom que seja (leia-se Ibrahimovic) que não encaixe no seu ideário. E Pep é, sobretudo, um treinador de jogadores, dos seus jogadores, daqueles que cresceram com ele como idolo. Por isso permite que Milito se mantenha no plantel (ele é o baby-sitter de Messi para todos os efeitos), por isso valoriza jogadores como Pinto e Keita, as almas do balneário de portas para dentro. E por isso sabe que gastar dinheiro num jogador estranho ao ambiente do clube é algo que não vai com a mentalidade que defende o seu grupo de trabalho.

E nesse grupo estão todos os amigos de Fabregas, os seus antigos colegas de equipa (Piqué, Messi, Valdés) e aqueles a quem já ele admirava (Xavi, Puyol,Iniesta) quando dava os seus primeiros passos na Masia. Esse fortíssimo grupo de pressão tem feito de tudo nos últimos dois anos para forçar o regresso de Fabregas a casa. Independentemente da opinião da directiva (já Laporta preferiu apostar tudo em Villa do que em Fabregas) e do público, eles querem o seu companheiro de luta ao seu lado, independentemente de questões técnico-tácticas. E financeiras claro está.

Se isso é normal entre o plantel, o estranho é que o próprio Guardiola se deixe prender num problema que pode condicionar a própria evolução da sua quarta temporada, ele que pretende emular o feito de Johan Cruyff conquistando o Tetracampeonato no próximo mês de Maio. Todos sabem dos problemas de Fabregas com Vicente Del Bosque. O seleccionador espanhol, pessoa sábia, correcta e razoável a todos os niveis, confinou-o ao banco de suplentes ao não ver espaço para um jogador das suas características num meio-campo com Xavi, Iniesta e Busquets...o mesmo que encontrará em Camp Nou. O jogador do Arsenal, que com o 4-5-1 de Aragonés teve espaço para brilhar, sabe que o jogo do Barcelona acenta em Messi e na sua posição de falso nove que precisa do jogo de extremos (Pedro e Villa) para ser eficaz. Isso implica um meio-campo de três, o tal meio-campo de três onde Del Bosque não vê espaço para Fabregas. O capitão de um dos grandes da Europa equaciona, aos 24 anos, mudar para ser suplente?

Talvez, mas se a mesma situação lhe provoca mal estar com a selecção, onde joga de tempos a tempos, imagine-se uma rotina diária. Esquecendo a estapafúrdia ideia do Sport, a aposta num 3-4-3 cruyffiano (que o próprio Guardiola já descartou várias vezes, depois de aprender de Capello as licções sobre uma boa defesa de 4) que faria pouco sentido quando se tem Dani Alves e Gerard Pique na equipa (que transformam a defesa de quatro em defesa de três e dois com classe e soltura) então ficamos presos a esse desenho de tridente e à ausência de espaço para Cesc crescer. Mais ainda, o ainda jovem jogador do Arsenal competirá também com Thiago. Pode parecer uma comparação supérflua, até porque Fabregas é uma estrela internacional e Thiago um rookie de projecção. Mas não é dificil ver no MVP do Europeu de sub-21 talento para tornar-se, talvez, no melhor jogador do Mundo na sua posição e a sua maturidade desportiva pede tempo de jogo (em jogos importantes) e espaço de manobra. A chegada de Fabregas não só custa 40 milhões e uma possível temporada no banco de suplentes, também pode significar um problema para Thiago, estrela emergente que o Barcelona deveria saber cuidar. Um negócio que entra em confronto com a mensagem de ajuste financeiro do clube e o clima de tranquilidade que Pep Guardiola tem sabido transmitir.

 

Cesc Fabregas pode - e certamente o fará - ampliar o leque de opções numa longa e difícil temporada. Mas também poderá tornar-se numa bomba relógio pronta a explodir. Xavi é ainda peça fundamental na manobra da equipa. Busquets uma rocha inamovível e Iniesta o elemento mais desequilibrante, depois de Messi. Com a chegada de Fabregas e a ascensão de Thiago o Barcelona torna-se, mais ainda, a equipa mais poderosa do mundo a meio-campo. Mas também reedita um velho problema do seu eterno rival, o Madrid Galáctico que gastou milhões para acumular figuras no eixo ofensivo para depois ter de viver com os problemas de egos e as carências noutros sectores do terreno de jogo. No meio de tudo isto nada parece mais supérfluo do que a contratação de Fabregas. 



Miguel Lourenço Pereira às 11:20 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Sábado, 25.06.11

A preocupante situação financeira do Barcelona levou Sandro Rossell a adoptar uma postura que vai totalmente contra o ideário desportivo que a filosofia de Guardiola tem implementado, com um sucesso inquestionável, no futebol do clube. Apadrinhada por Johan Cruyff, sempre omnipresente em assuntos de estado, a ideia de abdicar de alguns dos maiores talentos da Masia para mergulhar no complexo mercado de transferências é um sério ponto de inflexão na filosofia do clube blaugrana e afasta o clube do ideário romântico que tanto sucesso tem tido junto do público mundial.

 

Bojan Krkic parece ser o primeiro. Mas seguramente não será o último.

O Barcelona, segundo Cruyff, deixou de ser "Més Que un Club" no momento em que aceitou "manchar" as camisolas blaugranas com publicidade. Depois do truque publicitário - e algo hipócrita - chamado UNICEF (que permitiu à UEFA dobrar, uma vez mais, as suas regras em prol do clube blaugrana ao permitir que o clube tenha duplo patrocinio na próxima Champions ao contrário do que está nos seus estatutos) chegaram os petrodólares da Qatar Foundation, a mesma organização que pagou o apoio de Guardiola à candidatura mundialista do país que organizará o Campeonato do Mundo de 2022. Mas o buraco financeiro deixado na era Luis Nuñez (e engordado com a gestão de Joan Laporta) é tal, que nem esse negócio das Arábias se revelou suficiente.

Juntamos a essa vicissitude as incursões pontuais do clube no mercado de transferências e o quadro complica-se.  Em quatro anos o Barcelona gastou mais de 280 milhões de euros em contratações, com alguns flops consideráveis como foi o caso de Chygrinski (30 milhões), Zlatan Ibrahimovic (40 milhões mais o passe de Samuel Etoo) ou um conjunto de jogadores que mal vestiu a camisola da equipa principal (Henrique, Keirrison, Cáceres e Hleb). Ao mesmo tempo o clube não conseguiu sacar proveito das suas vendas (Henry saiu de forma gratuita, Etoo foi oferecido, Ronaldinho idem, Ibrahimovic chegou emprestado ao Milan que tem agora de pagar 24 milhões pelo seu passe, metade do que custou, ...) e agrandou ainda mais o buraco financeiro. A aposta pessoal de Guardiola na cantera que conhecia como ninguém resultou ser um brilhante negócio para a presidência do clube. A prata da casa não só permitia ao técnico manter a competitividade e filosofia do seu projecto como garantia, ao mesmo tempo, uma imensa poupança em gastos que a médio prazo poderiam salvar as arcas do clube. Mais do que uma filosofia desportiva, apostar na Masia foi sobretudo uma brilhante jogada de gestão. Guardiola evitava ter, como tem o Real Madrid, jogadores de primeiro nivel internacional com salários principescos sentados no banco, e o clube baixava o que gastava em salários e comissões e rentabilizava as suas instalações desportivas de formação como nunca tinha logrado no passado. Mas depois de três anos de máximo sucesso desportivo e algum reequilibrio económico, Sandro Rossell quer inverter a tendência. A Masia, mais do que funcionar como apoio à primeira equipa, ameaça em transformar-se num apoio para a conta bancária do clube.

 

Cruyff deu o tiro de saída num dos seus artigos semanais no El Periodico de Catalunya.

O holandês, que está a caminho do Ajax para reorganizar o futebol base do seu clube de origem, lançou o desafio à directiva e equipa técnica. Afinal o clube conta com mais de uma dezena de jovens "canteranos" com mercado e projecção de futuro e outra dezena com uma projecção menor mas que, com o rotulo de escola Barcelona, vale mais no mercado que muitos jogadores mais bem preparados. A notável temporada do Barcelona B, terceira na Liga Adelante, deu a conhecer ao mundo o génio de Thiago, Sergi Robert, Jonathan dos Santos, Rafa, Oriol, Jonathan Soriano e companhia. Esses nomes juntavam-se aos já habituais da primeira equipa, Bojan, Jeffren e às promessas Botia, Muniesa e Miño. Um onze titular praticamente com um potencial de primeiro nível assinalável.

A maioria treinou com a equipa principal durante o ano e muitos estrearam-se mesmo ao serviço de Pep Guardiola que sabe quais são as pérolas de maior projecção da sua cantera. Mas hoje em dia os próprios jogadores da Masia olham para si com outros olhos. Inspirados pelo sucesso do clube e, sobretudo, pelo impacto de Busquets e Pedro, todos querem a sua oportunidade junto a Messi e companhia. Mas nem todos a terão. Continuar na equipa B é um desafio cada vez menos estimulante para alguns e sair um risco, para eles e para o clube. Não segundo Cruyff.

O homem que criticou o Real Madrid por vender os seus melhores canteranos com direito a opção de recompra agora aconselha precisamente isso mesmo ao clube, para equilibrar as contas e investir no mercado de transferência. Negociar o futuro de Bojan, Jeffren, Thiago, Soriano, Muniesa e companhia parecia uma utopia há uns meses. Agora começa a soar como uma inevitabilidade.

No meio desta jogada aparece a figura de Sandro Rossell. O ex-directivo da Nike, responsável pela chegada do primeiro batalhão de brasileiros durante o mandato inaugural de Laporta, quer deixar a sua influência no projecto do clube. O seu medo de que Guardiola deixe o banco do Camp Nou no final deste ano estimula-o ainda mais a tomar controlo da situação. O caso Fabregas representa o primeiro confronto directo entre direcção e técnico. Guardiola quer o capitão do Arsenal, sente-o como um dos seus e quer repetir o processo de Piqué. Mas Rossel não está disposto a pagar o que o Arsenal pede (algo que a Nike, sua antiga empresa, não veria com bons olhos porque precisa do espanhol para aumentar as suas vendas com o merchandising dos gunners) e prefere gastar o mesmo dinheiro em jovens promessas sul-americanas. Alexis Sanchez e Neymar são sonhos seus, não de Guardiola, que preferia Fabregas e Rossi (por quem o clube ofereceu uns miseros 25 milhões, mais Bojan). 

Guardiola não quer perder o seu backup, a sua cantera, mas começa a ser dificil manter a jogadores como Jeffren e Bojan contentes com o facto de serem os eternos suplentes de Messi e Villa. O próprio Thiago, talvez a maior promessa do clube em muito tempo, sabe que se chega Cesc, como quer o treinador e o plantel, o seu espaço de manobra desaparece. E o técnico de Santpedor entende a situação financeira do clube. Por isso avalou a saída de Bojan para a AS Roma, onde está o seu anterior adjunto Luis Enrique, e ao jovem dianteiro podem brevemente seguir-se muitos mais. O jovem avançado que explodiu no último ano de Rijkaard pagou o preço do seu nervosismo e da mutação táctica de Leo Messi, um génio que nunca falha e raramente perde um jogo. Depois de três anos onde actuou muito pouco, Bojan precisa de jogos para demonstrar que o mais concretizador avançado da história da Masia pode repetir o feito junto dos mais velhos. A sua venda, por 10 milhões, é o principio do fim do romantismo ideológico de Guardiola. Utilizar a sua cantera como meio de reforçar as contas do clube - como fez o R. Madrid com Negredo, Albiol, Arbeloa, Granero, Soldado, de la Red, Mata, Parejo e companhia - significa que os back-ups da primeira equipa passarão a ser jogadores de fora, sem a cultura de base da escola que tanto tem encantado o mundo.

Com uma primeira equipa de sonho é fácil perceber que - salvo a posição de defesa-esquerdo - há pouco onde se possa melhorar o actual Pep Team. Qualquer entrada será, como a de Affellay ou Keita, para servir como apoio. Enquadrar nomes consagrados como Rossi ou Cesc ou promessas do nivel de Sanchez, Neymar ou Pastore nessa politica pode dar mais do que uma séria dor de cabeça a Pep Guardiola. Ao mesmo tempo, vender o melhor que a cantera de Barcelona tem para oferecer diminuiu o prestigio moral do clube ao mesmo tempo que também permite que o ideário blaugrana encontre refúgio noutros projectos que pretendem emular a filosofia do clube da cidade Condal. A Masia tem, desde já, ordem para voar. É uma decisão que financeiramente pode funcionar a curto prazo mas que num futuro pode multiplicar os casos como o de Cesc Fabregas e acabar por ser um erro de planeamento a médio e longo prazo. Com esta jogada, Rossell demonstra também que o presidencialismo também já chegou ao Camp Nou.



Miguel Lourenço Pereira às 00:06 | link do post | comentar | ver comentários (14)

Segunda-feira, 30.05.11

Alex Ferguson confessou, desalentado mas cavalheiro, que a derrota na final de Wembley frente ao Barcelona significou também a maior "sova" da sua carreira desportiva. Um traço de impotência que acompanha, invariavelmente, todos os treinadores que se cruzam com os homens de Guardiola. O Barcelona rubricou em terras inglesas uma das suas exibições mais convincentes. Uma vez fiel a si próprio. O Man Utd procurou um plano alternativo para travar o rival. Como há dois, como tantas vezes com tantos rostos, foi insuficiente. Caiu na teia de aranha e morreu lentamente...

Ao minuto 10 de jogo Pep Guardiola estava nervoso.

O técnico blaugrana é assim, incapaz de tranquilizar-se durante 90 minutos. Vive o jogo com intensidade e cuida cada detalhe com mimo. E apesar de ter previsto aquele arranque, a situação deixava-o incómodo. Mas não necessariamente preocupado. Sabia o que Ferguson tinha preparado, sabia que não iria funcionar. Era uma questão de tempo. Cinco minutos depois sentou-se e respirou. A partir daí pôde desfrutar de uma noite de glória.

O arranque da final do Wembley deixou antever um Man Utd transfigurado. Foi sol de pouca dura. Ferguson viu e bebeu os duelos entre o Barcelona e o Real Madrid de José Mourinho. Percebeu como o português esteve perto de suplantar o rival e quis sacar conclusões que se enquadrassem com o seu modelo de jogo. Apostou na pressão alta e intensa da linha da frente, em lutadores com fome de bola. Colocou Wayne Rooney em cima de Sergio Busquets. Deu ordens a Chicharito para explorar a conexão Piqué-Mascherano, uma dupla com pouca rotina, e colocou Valencia e Park Ji Sung no apoio ao sector defensivo. A ideia era roubar a bola dentro do meio campo blaugrana e não deixar espaço para que os catalães fizessem a bola circular à sua vontade. Se inicialmente o plano funcionou no aspecto defensivo (só aos 12 minutos o Barcelona efectuou o primeiro disparo à baliza de van der Saar), a verdade é que Ferguson caiu no mesmo erro de Mourinho. E de tantos outros. Ao abdicar do seu próprio plano de jogo para anular o rival, o escocês fez exactamente aquilo que Guardiola queria, desatender o seu próprio modelo de jogo, ofensivo e letal. Abdicando da velocidade de Nani, da presença fisica de Berbatov (que nem um lugar teve no banco de suplentes) ou o critério com a bola de Anderson e Scholes, o técnico do Man Utd abdicou antes da luta. A partir do momento em que o Barcelona sacudiu a pressão - que nunca foi asfixiante porque, depois de recuperar a bola, os jogadores do United nunca conseguiam encadear mais de três passes consecutivos - tomou conta do jogo e ditou os ritmos a seu belo prazer. Se as pernas dos Red Devils não iriam durar o jogo todo, como era previsível, foi a mente que claudicou primeiro. 

 

O Manchester United, uma equipa autoritária, de posse de bola, de transições rápidas e, sobretudo, de ataque, tornou-se numa presa fácil quando planteou o jogo da final de Wembley em função do rival. Muitos dirão que é impossível não jogar contra o Barcelona sem pensar duas vezes em como travar Messi, Xavi, Iniesta e companhia. E no entanto, exceptuando os 410 minutos disputados entre Barcelona e Real Madrid, desportivamente um caso à parte, as equipas que realmente colocaram o Pep Team em cheque foram as que se revelaram mais fieis ao seu próprio modelo de jogo.

O Arsenal de Wenger, o Shaktar de Lucescu, o Betis de Pepe Mel, o Villareal de Garrido, o Valencia de Emery, o Hercules de Vigo...equipas que fizeram suar os blaugrana mais do que seria esperado e que deixaram a nu os seus pontos fracos. Exceptuando os alicantinos e londrinos (num dos jogos) todos acabaram derrotados. Mas fieis ao seu estilo de jogo. Em vez de focar-se tanto nos duelos com o seu eterno rival, que futebolisticamente esteve sempre uns furos por debaixo do Barcelona, Ferguson podia ter aproveitado para ver os jogos onde ficavam a nu os problemas defensivos deste Barcelona. Poderia ter revisto o duelo com o Bétis, equipa da segunda divisão que na Copa del Rey realizou talvez a melhor primeira parte de um rival blaugrana no Camp Nou esta época. Ou as muitas oportunidades perdidas pelos brasileiros do Shaktar Donetsk, aproveitando os espaços deixados atrás pelas subidas constantes de Dani Alves. Ou ainda a forma como Unay Emery encontrou de amputar as alas do ataque do Barcelona com a colocação de dois falsos laterais num modelo muito mais próximo do 3-5-2 do que do o habitual 4-2-3-1 que utiliza. E se a vitória do Hercules tem as suas particularidades (aproveitando no entanto outro problema habitual do jogo blaugrana, o jogo aéreo defensivo) já o Arsenal e Villareal limitaram-se a jogar contra a melhor equipa de toque do mundo...tocando. 

Em vez disso, Ferguson preferiu o choque. Preferiu Park e Valencia a Nani e Anderson. E o que ganhou em força, perdeu em clarividência quando a bola caía nos pés dos seus jogadores. Colocar Giggs foi uma concessão ao sentimentalismo. O galês não tinha ritmo para aguentar a movimentação dos rivais e, sobretudo, não tinha colegas com quem se associar. Javier Hernandez, de quem tanto se esperava, nada fez. Normal, não havia nunca um colega disposto a ajudá-lo a superar Piqué e Mascherano. E quanto a Rooney, apesar de tudo, o mais irreverente, salvou com um golpe de génio um jogo onde se assemelhou, em tantas coisas, a um Cristiano Ronaldo abandonado, só e desesperado perante a superioridade do rival.

 

Se o Barcelona venceu jogando ao mais alto nível foi porque se manteve fiel a si mesmo.

O conjunto de Guardiola  manteve a defesa baixa, dando carta branca a Dani Alves. O brasileiro sofreu o acosso de Park no inicio do jogo mas rapidamente começou a soltar-se e a ganhar as corridas a Evra. Com Alves solto pela direita e Pedro bem aberto pela esquerda, o Barcelona colocou em prática a sua teia de aranha, o seu esquema táctico que relembrar mais os planteamentos de basket e andebol (não é por acaso que Guardiola é um fanático da NBA e que, curiosidade, o Barcelona tenha vencido a sua oitava Champions de andebol no dia seguinte à final de Wembley). Messi como pivot, Pedro e Villa abertos, Alves e Abidal (em alguns sprints pontuais mas precisos) ainda mais abertos nas alas. Atrás do argentino o toque de Busquets, Iniesta e Xavi, prontos a descobrir os espaços. Um 3-3-1-3, com Messi como referência individual.

O argentino voltou a ser superlativo, deambulando a seu gosto pelo meio campo do rival. Ferguson, como tantos outros, não entendeu o erro de colocar em campo uma dupla de centrais de marcação individual como são Ferdinand e Vidic...quando não havia ninguém que marcar.

O golo de Messi, um disparo irrepreensível, espelha bem essa realidade. Os defesas parados, sem saber a quem marcar - Villa e Pedro estavam bem abertos nas alas e Iniesta tinha subido para dar o apoio - imutados, enquanto Messi decide se arranca para a enésima tabela (que era o que esperavam) ou dispara. Um golo que espelha bem a superioridade da ideia de Guardiola perante o conservadorismo táctico de Ferguson. Contra este Barcelona uma defesa de quatro jogadores faz pouco sentido, especialmente se um defesa não sobe (como fazia Beckenbauer e como faz, brilhantemente, Pique) para equilibrar a superioridade numérica que causa Messi no miolo. Sem esse planteamento mais corajoso, o Man Utd tornou-se presa fácil do superior futebol de toque e distribuição do Barcelona. Três golos fora da grande área, três erros de posicionamento defensivo por incapacidade de compreensão do esquema apresentado pelo rival. Uma derrota escrita nas estrelas.

 

Se o Manchester United tivesse sido igual a si próprio talvez tivesse perdido por números mais expressivos. É um risco que corre qualquer equipa que decide defrontar o Barcelona sem medo. Mas ao jogar dependendo exclusivamente do rival, o Man Utd hipotecou as hipóteses de vencer e limitou-se a tentar prolongar a agonia. O golo de Rooney não disfarça uma superioridade clara de uma equipa que só precisa de ser fiel a si mesma para vencer. O triunfo do esquema táctico de Guardiola, a evolução moderna do pensamento de Jimmy Hogan, Hugo Meisl, Gustav Sebes, Viktor Maslov, Rinus Michels, Santana, Arrigo Sacchi e Johan Cruyff, reforça o conceito de superioridade do projecto blaugrana. E como todas as grandes equipas do passado, este Barça só poderá ser superado quando surja, do nada, um projecto novo, diferente, herdeiro de outra filosofia e que, sobretudo, saiba ser fiel a si mesmo. 



Miguel Lourenço Pereira às 20:39 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Sábado, 28.05.11

O Barcelona não deu qualquer opção ao Manchester United e confirmou a sua indiscutível supremacia no actual panorama do futebol mundial. Desde os dias do AC Milan moldado por Sacchi e continuado por Capello que nenhuma equipa se mostrava tão naturalmente superior aos seus rivais directos. Numa final em que foram claramente superiores, os blaugrana conquistaram a sua quarta Champions League fieis ao seu estilo e forma.

Aos 10 minutos de jogo acabou a resistência do Manchester United.

A partir desse momento a final funcionou apenas numa direcção, a da baliza de Edwin van der Saar.O Manchester United chegou ambicioso e arrancou muito bem, com uma pressão asfixiante que surpreendia o mais céptico dos seus adeptos. Park Ji Sung, Michael Carrick e Wayne Rooneyeram o rosto dessa atitude que nunca se viu, por exemplo, na final de Roma em 2009. Foi sol de pouca dura. A partir do minuto 10 a bola ocmeçou a fluir naturalmente pelos pés de Xavi, Iniesta, Busquets, Villa, Pedro e, sobretudo, Leo Messi. E nunca mais daí saiu.

Messi foi, sobretudo hoje, um jogador absolutamente estelar. Montou a festa blaugrana e coordenou os festejos com a sua brutal naturalidade para surpreender e decidir. O seu golo, um gesto de absoluta genialidade, foi apenas o corolário de uma grande exibição individual num espantoso concerto colectivo. O argentino reforçou o seu estatuto de melhor jogador do Mundo e foi o espelho perfeito da atitude da sua equipa que, três anos depois, continua a jogar com a mesma fome de titulos do primeiro dia. Da final de Paris de 2006, onde o ciclo negativo do Barcelona se começa a inverter, só Valdés surgiu como titular. Messi e Xavi estavam ausentes por lesão,Iniesta dormia no banco, Puyol ficou no banco desta vez. Mas eles são o esqueleto da estrutura deste modelo de jogo queGuardiolasoube cultivar e desenvolver. A pouco e pouco foram chegada as inclusões da cantera (Busquets, Pedro) e as incursões ao mercado (Abidal, Mascherano, Villa, Alves) para aperfeiçoar o projecto. A ninguém surpreende a vitória de hoje. Desde 1990, quando Arrigo Sacchi se tornou no ultimo treinador a levantar por duas vezes a máxima taça europeia, ninguém o emulou. Mas nunca nenhum treinador deu tanta sensação de superioridade comoGuardiola. O catalão perdeu a hipótese de emular o italiano quando se defrontou com a teia de aranha de José Mourinho. Mas pela segunda vez frente á velha raposa que é Ferguson, o triunfo não lhe escapou. Merecidamente.

 

O Barcelona tomou controlo do jogo para não o largar.

Xavi organizou a orquestra, Iniesta eVilla procuraram os espaços e Messi deixava Vidic eFerdinand sem saber o que fazer. É impressionante como, dois anos depois, os defesas centrais do Man Utdcontinuem sem saber como lidar com o estilo de jogo do argentino. Mas é verdade. Messi foi decisivo nas suas deambulações mas o primeiro golo surgiu de Xavi, a bússola do Barcelona, e do sentido de oportunidade de Pedro, o homem das grandes noites. Era justíssimo o resultado e este podia ter sido facilmente ampliado não fosse o desacerto blaugrana. E do nada, o empate. Wayne Rooney aproveitou um roubo de bola de Valencia e combinou, primeiro com Carrick e depois com Giggs, ligeiramente adiantado, para marcar com um remate espantoso. Valdés não teve opções. Do nada o Man Utdnivelava um jogo profundamente desequilibrado. Mas em vez de funcionar como um plus de moral, o golo apenas espicaçou o Barcelona. Quando as equipas voltaram do balneário, o Manchester foi forçado a esperar cinco minutos no relvado pelos rivais. Minutos que deixaram a dúvida, o receio, os nervos tomarem conta. O Barcelona entrou reforçado pelo grito dos adeptos. E assenhoreou-se do jogo de forma definitiva.

Messi tentou, tentou e voltar a tentar. Do nada sacou um remate colocado, quando a defesa do Manchester esperava nova tabela, e celebrou como se fosse  o golo da sua vida. Sabia bem o simbolismo que lhe atribuiriam, ele que já tinha sido rei em Roma. E que voltava a sê-lo, indiscutivelmente. O Manchester ficou ainda mais nervoso, incapaz de reagir, de oferecer uma resposta digna. O castelo de cartas montado por Ferguson desfez-se e o escocês não soube reagir. O equatoriano Valencia nunca entrou no jogo, o mexicano Chicharito, que tantos queriam ver, defraudou absolutamente e Giggs, por muito talento que tenha, deu claros sinais de não aguentar o ritmo de troca de bola do carrossel rival. Mesmo as opções lançadas do banco acabaram por ser, no minimo, inconsequentes. O 3-1, resultado final, foi o espelho do encontro. Pressão alta do Barcelona, nervos da defesa do Manchester e um golpe de génio individual de Villa para culminar um brilhante trabalho colectivo. A final estava ganha, a história estava reescrita, a superioridade contrastada.

 

O triunfo inapelável do Barcelonareforça a sua condição de equipa número um do mundo. Mais para lá dos debates estéreis sobre a história passada, presente e futuro, o que está claro é que o modelo de jogo, de gestão e de pensamento do Barcelona é hoje o modelo dominador do futebol europeu. A aposta no estilo de toque, o culto da posse de bola, os destelhos individuais de um génio como Messi e a labor de gestão humana de um perfeccionista como Guardiola são os ingredientes perfeitos desta equação. Em Canaletas a noite será, merecidamente, muito longa. E a supremacia de jogo do Barcelona convida a pensar que não será a última nos próximos anos.



Miguel Lourenço Pereira às 22:13 | link do post | comentar | ver comentários (18)

Seria difícil que a UEFA tivesse escolhido um estádio tão apropriado para um duelo entre Manchester United e Barcelona. Se os clubes tivessem de eleger um recinto, seguramente que teria sido este. Contém mais do que retalhos importantes da história do beautiful game. Foi também o gérmen dos grandes sucessos da história de ambos clubes e surge agora renovado para o corolário de duas eras inesquecíveis para blaugranas e red devils.

 

Longe vão os dias do cavalo Willy e do público irrequieto que mal deixava espaço para os jogadores respirarem.

O segundo maior estádio da Europa (só superado pelo Camp Nou), conta com 90 mil lugares e lembranças de dias pretéritos inesquecíveis. Já não conta com o imenso espaço entre relvado e bancadas, muito anti-inglês. Nem com as históricas Twin Towers, bandeiras ao vento. Mas mesmo assim é um cenário impressionante, profundamente modernista e de proporções épicas. O imenso arco que rodeia o terreno de jogo funciona como trademark de um recinto reinaugurado em 2007 depois de quatro anos de obras, problemas de financiamento e dúvidas existenciais para um povo extremamente agarrado às suas tradições.

O velho Wembley recebeu alguns dos jogos mais impactantes da história do futebol. Desde a polémica final do Mundial de 1966 à vitória histórica da Hungria sobre a Inglaterra, a primeira em solo britânico, passando por várias finais europeias (a consagração do AC Milan de Rivera, do Manchester de Charlton, do Ajax de Cruyff, do Liverpool de Keegan e do Barcelona de Cruyff, agora no banco) que definiram eras do jogo. Isto claro sem esquecer as históricas finais da FA Cup, durante décadas o evento mais glamoroso do futebol internacional. Mais do que esses momentos singulares, Wembley era o mito de uma era passada. "Estádio do Império", como começou a ser conhecido, era o último reduto da mentalidade imperialista britânica, da grandeza da velha Londres que tanto se rendia para o futebol como para outros desportos e, mais simbolicamente ainda, para concertos e espectáculos que dariam a volta ao mundo na era da televisão. Foi o primeiro estádio de futebol transformado em pavilhão multi-usos quando as instalações ainda nem sequer permitiam sonhar com essa realidade na velha Europa.

 

Mas acima de tudo Wembley é parte da história da Champions League e das vidas de Manchester United e Barcelona.

Os ingleses jogam em casa e não é apenas um eufemismo patriótico. No velho estádio londrino viveram alguns dos seus momentos mais emblemáticos que ajudaram a definir as duas eras históricas do clube. Nos anos 60, quando Matt Busby se predispôs a recriar o seu projecto malogrado no acidente de Munique, o estádio tornou-se um simbolo do renascimento dos Bubsy Babes. Foi perante 120 mil pessoas que a equipa capitaneada por Charlton, com Kidd, Best, Stepney, Foulkes e Stiles, venceu por 4-1 o Benfica de Eusébio. Um jogo trepidante que podia ter acabado com a vitória encarnada, não fosse o falhanço de Eusébio nos minutos finais. Depois do 1-1 do tempo regulamentar, chegou a goleada histórica que deu a primeira Taça dos Campeões a um clube inglês. Seria o último troféu ganho pelo clube em muito tempo. Em 1990, já com Alex Ferguson no banco de Old Trafford há cinco temporadas, a expectativa dos adeptos era muita. Uma derrota e talvez hoje o escocês não fosse um mito vivo. Mas a equipa liderada por Robson ganhou por 1-0 o replay a final da FA Cup contra o Crystal Palace, depois do primeiro jogo ter terminado num agónico 3-3. Depois chegou a era de glória, a Taça das Taças no ano seguinte (contra o Barcelona de Cruyff, precisamente) e mais três FA Cups (4-0 contra o Chelsea em 1994, 1-0 contra o Liverpool em 1996 e 2-0 frente ao Newcastle em 1999). O estádio do império tinha-se tornado no talismã do inefável escocês.

A história de amor do Barcelona com o recinto é mais sucinta mas não menos especial. O clube blaugrana nunca tinha jogado no estádio londrino quando chegou em Maio de 1992 para defrontar a Sampdoria italiana. Era o culminar do Dream Team de Cruyff, que vinha de se sagrar bicampeão espanhol dias antes, depois da inesperada derrota do Real Madrid em Tenerife. A equipa actuou com o laranja catalão (e holandês) e deu-se bem. Sofreu a bom sofrer e só um livre directo de Ronald Koeman a sete minutos do fim decidiu a contenda. Acabava uma malapata de 40 anos dos blaugranas em finais europeias e começava o ciclo de titulos que seguira a ampliar-se em finais disputadas em grandes capitais europeias, Paris e Roma.

 

Para ambas as equipas voltar a Londres é, portanto, voltar onde tudo começou. O estádio pode ser novo (Ferguson sabe o que é ganhar aqui graças aos Charity Shields conquistados em 2007, 2008 e 2010) mas a magia é a mesma de sempre. Londres inspirará fundo e viverá mais uma noite histórica de futebol. As duas equipas mais em forma da última década olham-se olhos nos olhos e sentem o peso dos seus antepassados a empurrá-los para a frente. Passe o que passe, pelo menos uma das equipas continuará a sentir o mítico Wembley como a sua segunda casa.



Miguel Lourenço Pereira às 09:50 | link do post | comentar

Quinta-feira, 26.05.11

Guardiola recuperou alguns dos principais conceitos do Dream Team, confirmou o reposicionamento de Messi no terreno de jogo e aplicou uma fórmula que relembra quase os primórdios do WM de Herbert Chapman. O Barcelona 3.0 do técnico catalão é uma equipa mais refinada, mais cínica e mais autoritária com a bola mas tem também pontos débeis que os homens de Old Trafford poderão explorar.

 

Desta vez Guardiola chega a Londres com toda a armada disponível salvo o suspenso Pinto.

Sergio Busquets, que esteve em risco de falhar o jogo do ano por chamar "macaco" a Marcelo, finalmente estará no onze e será pedra basilar na estrutura deste Pep Team que procura recuperar o trono perdido às mãos do Inter na temporada passada. Guardiola mudou a sua equipa de forma subtil mas evidente desde essa semi-final. Abdicou, definitivamente, de jogar com uma referência ofensiva - uma das máximas de Cruyff que contou com van Basten no Ajax e Salinas e Romário em Barcelona - para dar total liberdade de movimentos a Messi, precisamente o que Michels e Kovacks fizeram com o 14 holandês na sua etapa de jogador. Dessa forma Guardiola encontrou a fórmula para destabilizar uma defesa rival sem uma referência a que marcar (como eram Etoo e Ibrahimovic) e favoreceu ainda mais o jogo de carrossel de trocas de bola entre o miolo e ataque blaugrana.

O reposicionamento de Messi é a chave na estrutura deste Barça. Tem os seus aspectos positivos evidentes mas também impede o Barça de uma maior e constante presença na área rival. Guardiola emenda essa circunstância mantendo-se fiel à sua filosofia de posse de bola. O Barcelona é uma equipa que joga longe da grande área com a bola nos pés para depois procurar, em velocidade, rasgar as linhas diagonais defensivas e finalizar já dentro do pequeno rectângulo. Quase nenhum golo do Barça surge de fora da área e no entanto quase nenhuma da posse de bola é mantida dentro da grande área. Esse vai e vem é possível pelo reajuste da filosofia cruyffiana que remonta ao ideário do WM de Herbert Chapman de há 80 anos.

Com a bola nos pés o Barcelona funciona como um acordeão e transforma o seu 4-3-3 base num 3-4-1-2 engenhoso. Villa e Pedro, como os antigos extremos, abrem o campo ao máximo e forçam assim as defesas a deixar espaços no coração da área sob pena de serem apanhados em contra-pé. No lado oposto, Puyol e Abidal (se se confirmar a presença do lateral francês, uma grande noticia para o futebol) são pedras inamovíveis e cabe a Pique e Alves deambular entre defesa e meio-campo. Quando um sob, o outro fica atrás a cobrir transformando a defesa de quatro em três. Pique com a bola, Alves com a velocidade incorporam-se a um miolo de quatro por onde anda o olhar cirúrgico de Busquets, a precisão de passe de Xavi e a velocidade mental de Iniesta. No meio de tudo, Messi, erguido em avalanche ofensiva por excelência, coordena o ritmo de jogo.

 

A táctica espremida por Guardiola garante uma constante manutenção de posse de bola entre as linhas dos adversários.

Força o ataque rival a recuar para ajudar o miolo e começa a defender ainda na linha de meio campo. Puxa a defesa rival metros acima e abre clareiras bem aproveitadas pela velocidade mental de Xavi e Iniesta e o sentido de oportunidade do trio da frente. E isso permite cansar o rival com a bola em lugar de desgastar-se fisicamente com transições constantes e, ás vezes, ineficazes. O ratio de aproveitamento do Barcelona é altíssimo porque a equipa só solta a bola para o último passe quando acredita que vai gerar o ambicionado golo. Se para isso tem de dar 500 passes consecutivos fá-lo com uma precisão e um cinismo letais. 

No entanto esse posicionamento no terreno, perfeito com a bola, pode ser contrariado no momento em que o rival recupera o esférico. Para tal é fundamental que o rival se saiba igualmente posicionar sem cair na armadilha preparada por Guardiola que deixa milhas e milhas entre a bola e Valdés. Se a bola é recuperada dentro do meio-campo blaugrana o número de efectivos que fica para trás é reduzido e ultrapassável. Se a bola, no entanto, for recuperada no meio campo defensivo, então o mais provável é que o Man Utd se encontra com uma floresta de pernas dispostas fechar fileiras bem acima da linha defensiva. O Shaktar Donetsk teve várias oportunidades para colocar esta teoria em prática mas o reposicionamento defensivo dos blaugrana, a frieza de Valdés - imenso este ano - e o desacerto da troupe de brasileiros dos ucranianos mantiveram o marcador em números bastante mais lisonjeiros do que seria de esperar.

Por outro lado, um dos handicaps deste Barça, continua a ser o seu posicionamento defensivo nos lances de bola parada. Inevitável face ao tamanho da esmagadora maioria dos seus jogadores e que pode ser aproveitado em lances estudados que funcionam, sempre e quando o imenso Pique não esteja pelo caminho. Foi assim que o Arsenal marcou o seu único golo em Camp Nou (um auto-golo de Busquets) e foi assim que o Real Madrid criou a maioria dos lances de perigo nos duelos a eliminar. Em ambos os casos a chave do Barça será sempre Victor Valdés, que está a actuar ao seu mais alto nível e é um verdadeiro seguro de vida para os homens de Guardiola, uma equipa com vocação ofensiva que tem no guarda-redes o seu primeiro homem de campo.

 

Por fim, Messi. O astro argentino vem de mais uma época superlativa para marcar diferenças. Não é só o melhor marcador da equipa como é também, devido ao seu reposicionamento, o melhor dos assistentes, por cima inclusive de Xavi Hernandez. O número 10 vem buscar jogo muitas vezes aos pés de Busquets e com o seu ritmo maradoniano galga a defesa rival à procura de um espaço, de um colega, de um momento. Permitir que Messi deambule à vontade tem o seu preço e o Real Madrid sabe-o bem. Marcá-lo implacavelmente, como fez Pepe durante 220 minutos deixa a nu a "messidependência" de uma equipa tremenda que perde poder de fogo quando o seu génio está atado a uma teia invisível. Ferguson não é homem de marcar o rival de forma tão implacável, mas é nos espaços que possa vir a ter o argentino que se decidirá uma contenda histórica.



Miguel Lourenço Pereira às 06:45 | link do post | comentar | ver comentários (8)

Quarta-feira, 25.05.11

Reedição da final de Roma em 2009 mas numa conjuntura distinta. A noite que transformou a vida do Barcelona de Guardiola significou também uma profunda mudança de ciclo em Old Trafford. Duas temporadas depois os dois clubes mais importantes do futebol europeu da última década reencontram-se para esgrimir argumentos. O Barça agora é favorito, o Man Utd agora é mais equipa, o duelo promete ser apaixonante.

 

Em Roma o Manchester United chegava como campeão em titulo e máximo favorito. Perdeu.

Confirmou-se a maldição do AC Milan de Sacchi, último conjunto a reter o máximo troféu europeu, mas sobretudo confirmou-se a magia de uma equipa orquestrada magistralmente pelo estreante Pep Guardiola. Num jogo em que os blaugrana dominaram de forma impressionante, o Barcelona sacou o seu melhor rosto, aquele que iria fazer história nas duas épocas seguintes em Espanha e que acabaria por maravilhar o mundo. Etoo, já proscrito, e Messi, já erigido em figura divina, fizeram os golos face a um Man Utd pálido, inexpressivo e demasiado pendente do jogo de Cristiano Ronaldo, o único que tentou remar contra a maré. Foi o fim de um ciclo histórico em Old Trafford e o inicio de outro, glorioso, em Camp Nou. O Barcelona não revalidou o trofeu mas começou a impor a sua lei na liga espanhola e, sobretudo, a definir o estilo que hoje mais admiradores tem entre os adeptos futebolisticos por esse mundo fora. Um estilo de jogo rendilhado, inspirado na posse de bola, e com um pressing defensivo asfixiante. Foi a final de Puyol e Pique - com Touré de central pela ausência de Alves - a final de Busquets, um pilar no miolo, mas também a das combinações sem fim entre Iniesta e Xavi. No ataque Messi ainda era extremo, Henry ainda por lá andava e Etoo abriu o caminho da glória, uma vez mais. É aí, no sector ofensivo, que o Barcelona mais se diferencia neste segundo round, agora em Londres.

A velocidade de Pedro e Villa, jogadores que irão colocar à prova os rins de Evra e (previsivelmente) O´Shea, será chave na estratégia de Guardiola que recriou com Messi o posicionamento pretérito de Maradona, Cruyff, Charlton e Hidgekuti, como falso dianteiro, um dandy no miolo que terá em Fletcher a sua sombra. Este Barcelona não tem o mesmo efeito surpresa daquela magnifica equipa mas não deixa de ser, justamente, considerado o favorito. Um peso que o Manchester não terá de carregar.

 

Ferguson quer ser o primeiro técnico a vencer três Champions League e terá poucas oportunidades de lograr o feito.

Ele sabe-o e quando saiu derrotado à dois anos começou a trabalhar nesse sentido. Sem Ronaldo e Tevez, apostou no espirito guerreiro dos seus jogadores de classe média. Elevou Park Ji-Sung, recrutou Valencia, deu minutos a Berbatov, impediu Giggs e Scholes de dizerem adeus e confiou na capacidade de liderança de Rooney. Montou uma equipa que se assemelha, e muito, à filosofia do seu primeiro conjunto ganhador, no inicio dos anos 90. Tem várias opções para apresentar uma cara mais ofensiva (com Nani, Valencia, Chicharito, Rooney, Berbatov....) ou mais especulativa (reforçando o miolo com Anderson, Carrick, Fletcher, Scholes ou Park). Poucas equipas podem presumir de ter um fundo de armário tão impactante e que permitem mudar, de um momento para o outro, a postura no terreno de jogo.

O jogo contra o Arsenal nos quartos de final da FA Cup e a eliminatória frente ao Chelsea são, quiça, o melhor espelho do que esperar. Uma equipa segura atrás, com critério a sair a jogar e acutilante à frente. A defesa é o maior quebra-cabeças do técnico escocês que tem em Ferdinand e O´Shea duas dúvidas sérias que preencher (e Rafael ou Evans como opções) para acompanhar Evra, Vidic e um van der Saar que se despede com o ensejo de ganhar a sua terceira "orelhona". Daí para a frente a especulação.

Contra um meio-campo de três que, realmente, é de cinco, com as subidas de Alves e Pique, primordiais na saída de jogo do Barça, talvez se espere o musculo de Fletcher, o posicionamento de Carrick e o espirito de luta de Park. Com Rooney, Valencia e Berbatov no ataque. O técnico já provou com Giggs no miolo, há dois anos, e não lhe funcionou. O ritmo da troca de bola do Barcelona não convida a veteranos e Scholes também deverá ver o jogo no banco. Mas são armas, como Chicharito. O jovem mexicano é o mais entusiasmante das individualidades do Man Utd mas tanto ele como Nani terão de esperar pela sua hora. Ferguson é, sobretudo, um pragmático. 

 

Se o Barcelona conquistou o seu primeiro titulo no velho Wembley poucos se lembram de que a primeira Taça dos Campeões ganha pelos Red Devils também foi conquistada no tapete verde londrino num duelo histórico contra o Benfica de Eusébio. Ambos os clubes contam com três trofeus e, de certa forma, representam o futebol contemporâneo. O Manchester oficializou, esta época, a ultrapassagem ao Liverpool enquanto que o Barcelona moderno de Guardiola parece ter remitido os êxitos do Madrid a um passado longinquo. São portanto dois clubes dominantes, dois planteis de primeiro nivel e dois técnicos bem diferentes mas com trajectórias impecáveis, os que se medirão no próximo sábado. Ganhe quem ganhe, o beautiful game já sair a lucrar com este duelo de gigantes que definem o futebol moderno. 



Miguel Lourenço Pereira às 09:01 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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