Quarta-feira, 07.03.12

Entre a noite de consagração da França multicultural e o coro de assobios que a imensa maioria argelina votou à Marselha, o Stade de France vive numa eterna incógnita existencial. Construido numa zona desprezada pelos parisinos, transformado em icone da França do século XXI, nunca um estádio de futebol replicou de forma tão concisa a encruzilhada de uma nação.

 

O seu aspecto imperial faz relembrar a megalomania napoleónica.

A sua arquitectura ousada transforma-o numa especie de Versailles futebolistica. Tal como o palácio construido por Luis XIV, o governo central decidiu escolher a periferia para erguer a obra que não só deveria albergar os grandes eventos nacionais. O seu objectivo final era, sobretudo, marcar uma nova era na concepção nacional de um país com uma profunda dificuldade em entender-se como nação.

Depois de anos de disputa, discussões e polémicas, a decisão final foi tomada e a construção do estádio arrancou no bairro de Sain Dennis, um dos muitos banlieus a norte de Paris onde se reproduz a mesma dinâmica social pós-industrial que tanto desprezo provoca no coração da capital. Um bairro de emigrantes, sobretudo norte-africanos, um bairro ostracizado historicamente pelo governo de Paris de repente passava a ser o centro das atenções do projecto nacional mais importante da V República. Um contrassenso digno do puzzle moral e emocional da própria França. À medida que o estádio ia nascendo muitos suspeitavam que o divórcio entre os franceses autóctones e o estádio espelharia o divórcio que existe entre a sociedade e as suas minorias. Os habitantes de Saint Dennis não queriam ser invadidos pelo betão do império desfeito e os nomes da velha guarda consideravam um erro instalar um monumento épico no meio dos indesejados da nação.

Durante os três anos que tardou a construção de um estádio de 80 mil lugares, algo nunca visto num país onde o futebol é olhado com o desprezo dos intelectuais da esquerda e dos mais tradicionais que continuavam a ver o jogo como uma invasão social inglesa, a polémica prosseguiu. Paralelamente também a equipa francesa entrava numa profunda mutação social com a inclusão, pela primeira vez na história, de multiplos representantes da França moderna.

Aime Jacquet juntou a Barthez, Deschamps, Petit e Blanc filhos do império perdido, desde caribenhos como Henry e Thuram, a africanos como Desailly, Vieira e Makelelé sem esquecer os imigrantes norte-africanos (Zidane), arménios (Djorkaeff, Boghossian), portugueses (Pires) e argentinos (Trezeguet). Dessa miscelânea nasceu a equipa mais plural da história do futebol. Quando se anunciou que o recinto da final finalmente seria conhecido como Stade de France muitos pensaram de que França estavam os promotores a falar.

 

Claro que na noite de 12 de Julho de 1998 ninguém se importou muito.

Os maus augurios foram desaparecendo à medida que o torneio se transformou numa verdadeira celebração da integração. Os sucessos da equipa foram o maior motor de integração da história do país. A França conservadora saiu para a rua para celebrar com a França radical, os nacionalistas desfraldaram a tricolor, os emigrantes aplaudiram de pé a Marseillese, todos encontraram algo com que se identificar. A consagração no Stade de France significou a reconciliação das duas Franças e surgiu como um bom prenuncio para o futuro especialmente quando mais de dois milhões de franceses, de todos os credos, cores e origens, encheram os Champs Elyseé na maior manifestação popular desde a libertação.

Como sempre o doce sabor da vitória esconde o lado mais escuro da alma. Quando a selecção francesa começou a sua dolorosa desintegração, quando o rumor de um balneário dividido em clãs étnicos se transformou em realidade, o Stade de France viveu o outro lado da moeda, o lado escuro da sua lua. Um duelo comemorativo entre França e Argélia colocou frente a frente duas nações fortemente marcadas por uma guerra impiedosa que significou o fim da IV República, o advento do gaulismo e um dos maiores cortes sociais na história de ambos os paises. À volta do estádio a imensa maioria de emigrantes argelinos juntou-se para apupar o autocarro que trazia os jogadores franceses e aplaudir a equipa argelina.

Quando ambas subiram ao terreno de jogo as bandeiras tricolores brilhavam pela sua ausência. Depois começaram os assobios. Um long e intimidativo assobio que afogou o espectro sonoro da Marseillese. Minutos depois a invasão, as lágrimas, o choque. Imagems que cancelavam tudo o logrado anteriormente e que significava, de facto, que as politicas sociais do governo gaulês tinham desperdiçado o capital de confiança ganho com o Mundial. Meses depois os mesmos jovens tomavam os banlieus com cocktails molotov, primeiro em Paris e depois em todo o país. Le Pen bateu as sondagens e seguiu para a segunda ronda das presidenciais, a França entrou em choque quando a esquerda aceitou apoiar Chirac e o divórcio definitivo entre o modelo multiracial e a França conservadora tornou-se inevitável. Desde então, jogar no Stade de France deixou de ser uma vantagem para transformar-se numa realidade confrangedora. As bandeiras tricolores desapareceram e aumentaram os assobios ao primeiro sinal de desânimo. O público multi-étnico desapareceu e deu forma a bancadas compostas essencialmente por gauleses autóctones. Os suburbios do estádio divorciaram-se do seu ex-libris e a sua monumentalidade tornou-se mais fria e cinzenta do que nunca.

 

Se o Mundial de 1998 e o Stade de France significaram o triunfo da integração europeia, a última década da selecção gaulesa transformou o seu recinto oficial num micro-cosmos de um desalento transversalmente nacional. Apesar da selecção ser cada vez mais representativa da multiculturalidade, a França de Chirac e Sarkozy seguiu o caminho oposto ao desenhado a 12 de Julho. A obra máxima da nova França ficou de pé como simbolo do calor humano passado e da frieza humana presente. Transformou-se num gigantesco pavilhão a céu aberto, perdeu a condição de simbolo nacional e para os que passam por ele todos os dias continua com lembrança de um país que podia ter sido, mas realmente nunca o foi. O estádio de uma França que existe no nome e não na alma... que é quem dá cor ao verde do tapete.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:48 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Segunda-feira, 05.03.12

Na fechada sociedade espanhola, onde o nacionalismo profundo ainda funciona como arma de arremesso e defesa, várias vezes a frase “se não fosse espanhol” refere-se a nomes nacionais que não conseguem, fora de portas, o mesmo impacto mediático. Poucas vezes têm razão, mas com Iker Muniain é preciso fazer uma excepção. A explosão e génio do jovem basco é seguramente um desses momentos que no futuro será recordada em perspectiva como o principio de algo verdadeiramente grande!

 

Muitos lembram-se do primeiro jogo de Raúl, em Zaragoza.

Ou do aparecimento de Fernando Torres do nada num Atlético de Madrid em ebulição. Há certamente mais gente que jure a pé juntos ter visto o primeiro jogo de Andrés Iniesta do que a que realmente viu. Iker Muniain começa a entrar nesse capitulo de lendas e mitos do futebol espanhol. Com 19 anos tem todas as condições para ser um dos jogadores mais desiquilibrantes do futebol europeu. Espanha seguramente será demasiado pequena para a memória futuro da sua aventura futebolistica.

Num país que aprendeu a glorificar o futebol de toque curto, o tiki-taka idealizado por Andrés Montés e levado à prática pelos homens de Aragonés em 2008, começam a escassear os génios rebeldes, irreverentes e profundamente verticais. Muniain é o último filho dessa escola que em Barcelona, por exemplo, significa a diferença entre o jogo de Lionel Messi e a orquestra que o rodeia. Muniain transmite as mesmas sensações do argentino, a mesma precocidade e o mesmo crescimento táctico ao lado de uma orquestra que Bielsa, como Guardiola, ajudou a montar. Com Ander Herrera, Oscar de Marcos, Javi Martinez e Fernando Llorente, o jovem extremo, falso avançado, vendedor de sonhos, transformou San Mamés num dos locais obrigatórios de passagem para os amantes do futebol puro de ataque. As suas trepidantes diagonais, desafiando cada defesa para um duelo de espada com hora marcada, rasgam as tácticas mais maleáveis e desafiam a pura lógica. A sua chamada à selecção principal, na convocatória que será a ante-camara do próximo Europeu, não é só justa e tardia, como também elucidativa do seu impacto real num plantel que, com o alemão, é actualmente o mais exigente do Mundo.

 

Sobre as origens e expectativas que despertava Muniain nos seus principios, escrevemos aqui, em 2008.

Passaram três anos e a promessa fez-se certeza, o descaro fez-se confiança e os minutos transformaram-se em titularidades inquestionáveis. Muniain ajudou a revolucionar o estatuto de um Athletic Bilbao em baixa e a relançar o impacto social de um clube que é, efectivamente, o terceiro grande de Espanha.

No palco europeu tem transformado a sua classe em arma decisiva e o próximo duelo, frente ao Manchester United, parece mais equilibrado do que nunca graças a ele. Talvez porque os Red Devils, salvo Wayne Rooney, não contem com um jogador tão apaixonante como ele. Talvez porque o seu estilo de jogo lembra, cada vez mais, o de grandes heróis pretéritos da Premier League. Se em Espanha o estilo de Muniain ainda é olhado relativamente de lado – por contraposição à calma de Iniesta, Xavi, Silva e companhia – em Inglaterra o seu estilo de jogo encaixa perfeitamente com o ideário local. Não é por acaso que, mais de 100 anos depois, San Mamés continua a ser um campo iminentemente britânico, tanto na forma como na essência.

Dentro desse espectro moral o crescimento desportivo do número 19 do Athletic Bilbao levanta as mesmas dúvidas que, em algum momento, passam pelos nomes que destacam na “Catedral”. O mesmo passou a Julen Guerrero, no seu flamante aparecimento. A vontade de um clube que apenas emprega jogadores bascos em manter a sua maior estrela já ficou evidente nos sucessivos acossos a Fernando Llorente. Dificilmente o clube mudará a sua posição com Muniain com quem o riojano forma uma dupla letal o que implica um aumento considerável do seu preço de mercado e a possibilidade real de que nos próximos anos o extremo se mantenha como rojiblanco. Uma realidade que o próprio jogador não parece desdenhar, sabendo que em San Mamés tem a tranquilidade necessária para ir sempre um pouco mais além a cada jogo, sem o peso dos focos mediáticos que acossam outros dos grandes nomes da cantera espanhola.

 

O público espanhol tem certa tendência em cair no excesso de vitimismo, mas a verdade é que na Europa se escreveu muito menos sobre Muniain que sobre Gotze, Hazard, Balotelli, Neymar, Thiago ou Whilshere, talvez o sexteto de jovens promessas internacionais mais fascinantes. E, no entanto, vendo-o jogar, é dificil acreditar que o basco está longe desse nivel máximo de expectativa e certeza. Muniain está claramente entre a elite do futebol mundial e como sucedeu com os grandes nomes saídos da formação espanhola, o seu estatuto de estrela da próxima década parece, definitivamente, assegurado.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 12:09 | link do post | comentar | ver comentários (3)

Sábado, 03.03.12

Não é o primeiro grande livro nem certamente será o último grande livro alguma vez escrito sobre esse jogo tão popular, hoje como há 100 anos atrás, que é o futebol. Mas é seguramente o mais completo e fundamental tratado sobre o gigantesco fenómeno politico, social, económico e desportivo que é o beautiful game. Nunca um livro soube penetrar tão fundo na pele de um desporto que muitos teimam em dissociar dos alicerces da sociedade contemporânea. Talvez por isso, The Ball is Round, é tão importante para entender o jogo como o drible de Maradona naquela quente tarde na Cidade do México em 1986.

 

São 900 páginas mas leem-se como se fossem apenas 90.

Talvez essa seja o mais sincero elogio que se pode fazer a um livro que, no fundo, é um tratado épico. Resume o seu poder de sintese, a sua capacidade de absorção e a eterna sensação de vazio que fica quando se guarda o livro pela última vez. Para quem lê pela primeira vez um livro dedicado ao futebol, a experiência é intensa. Para quem conta com uma biblioteca repleta de livros sonantes e brilhantes, é uma surpresa refrescante. The Ball is Round não vive da especificidade que fazem de Inverting the Pyramid de Jonathan Wilson e Football Against the Enemy de Simon Kuper, obras fundamentais. O primeiro é o mais completo livro escrito sobre tácticas, o segundo o mais espantoso retrato do futebol como fenómeno social.

The Ball is Round é tudo isso e muito mais. Sem entrar no mesmo nível de detalhe, abordage com perfeição as metamorfoses tácticas e a envolvência social do jogo. Toca os aspectos politicos com a mesma delicadeza com que Maradona dormia a bola nos pés. Finta a natural tendência de livros cronológicos em deixar-se cair em datas e titulos com a velocidade de Garrincha e remate cada capitulo com uma análise tão perfeita como os disparos de Pelé. Respira-se futebol em cada página. Sobretudo respira-se a evolução da própria história a partir de uma bola de futebol.

 

David Goldblatt, jornalista inglês por detrás desta obra épica, entende, como nós, que o futebol é o espelho perfeito da metamorfose social dos últimos 150 anos. Com ele conhecemos as múltiplas origens de um jogo que os ingleses souberam domar e estruturar. Com ele viajamos à volta do mundo futebolistico para perceber de que forma o jogo contribuiu para a ascensão e queda das ditaduras militares sul-americanas ou para a formalização do movimento independentista africano. Como Goldblatt explica detalhadamente o futebol não provocou guerras nem assinou tratados de paz, mas abriu as condições para mudanças de ciclo espelhando perfeitamente o sentir dos povos em cada micro-cosmos socio-cultural.

Ao largo das páginas avançamos cronologicamente, viajamos entre continentes, entendemos a decadência das grandes potências, a ascensão dos desafiantes ao trono, reconhecemos nomes próprios, eventos e momentos chave e entendemos de que forma a Guerra das Malvinas contribuiu para a péssima campanha da Argentina no Mundial de 1982 da mesma forma que o ambiente que se vivia em Budapeste à hora de partida dos Magiares para o Mundial de 1954 condicionou a sua performance. Seguimos a evolução do futebol nacional das principais nações e ligas e lemos sobre as especificidades que fazem dos EUA, Austrália, India e China casos à parte nesta relação quase sintomática entre futebol e importância politica-social durante os últimos 50 anos. Goldblatt, notável jornalista free-lancer, não deixa pontas soltas, não abdica de encontrar sempre uma resposta para cada dúvida e, no final, explica como um jogo de 90 minutos não é mais do que a consequência de mil e um factores que se conjugam na mesma direcção.

 

Ao contrário de muitos livros que tentam relativizar o papel do maior fenómeno social dos últimos 100 anos – talvez só comparável ao cinema e à libertação sexual – The Ball is Round interpreta a sua real relevância e reforça a sua condição primordial no entendimento da evolução socio-economico-politica e cultural do último século. Um livro que não esconde nem se envergonha de entender o beautiful game como algo muito mais importante que um jogo é, nos dias que correm, uma verdadeira benção. Que seja escrito de forma tão brilhante e certeira é um autêntico bónus. Se alguma vez tiverem de ler algum livro jogo o futebol e só puderem escolher um, The Ball is Round deveria ser, sem dúvida, a primeira (e única) opção. Pouco mais se pode dizer de um livro. Pouco lhe faria tanta justiça como lê-lo. Até ao último sorvo.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:14 | link do post | comentar

Terça-feira, 28.02.12

poucos jogadores europeus com tamanha margem de progressão como Kevin de Bruyne e Xherdan Shaqiri. Não são apenas talentosos, jovens e extremamente bem sucedidos. Revelaram-se também surpreendentes exemplos de negócios em tempos de crise. Chelsea e Bayern Munchen mostraram o caminho e deixaram em evidência a habitual politica de desbarato de alguns dos clubes de top do futebol europeu. Dois cracks, uma forma de fazer negócios que entra em sintonia com os novos tempos.

 

Fábio Coentrão custou 30 milhões ao Real Madrid. Falcao custou 40 milhões ao Atlético de Madrid. Alexis Sanchez trouxe às arcas da Udinese cerca de 40 milhões, tanto como as movimentações de Fabregas ou Aguero. Negócios milionários num ano de crise economica crescente que transparecem bem a teoria de que muitos se valem para criticar o universo futebolistico. Sem dúvida há clubes que trabalham à margem da realidade. Com dinheiro emprestado, com dividas crescentes e pagamentos a prazo que muitas vezes se atrasam sucessivamente. Raros são os bons negócios, raros são os negócios realistas que capturam tanto a essência de uma politica desportiva sustentável como a dinâmica económica da actualidade. No meio desta troca constante de divisas por valores astronómicos que poucas vezes traz uma verdadeira rentabilidade a longo prazo, há sempre excepções. Sadias e esperançadoras excepções. Por cada Sanchez ou Coentrão existe um De Bruyne ou Shaqiri.

O potencial tanto do extremo belga como do craque suiço não está longe do que podemos imaginar com o defesa português e o dianteiro chileno. E no entanto Chelsea e Bayern pagaram a metade de Real Madrid e Barcelona pelos jogadores. Negócios rápidos, silenciosos e que se afastam cada vez mais da ideia mediática da contratação para a ergonomia sustentável de uma gestão quase empresarial que começa a tomar forma em Londres e que há muito faz escola em Munique. Se o Bayern é o exemplo perfeito de como um clube de futebol deve ser gerido, ao Chelsea há que reconhecer que, progressivamente, o clube vai dando passos similares nessa direcção e se afasta, cada vez mais, do fantasma milionário de Abramovich como bolsa sem fundo. De Bruyne e Shaquiri, como sucedeu com Lukaku, Mata, Oriol Romeu, Courtois, Boateng, Rafinha ou Luis Guztavo são espelhos de uma politica de contratação racional e profundamente orientadas para o futuro.

 

De Bruyne é o terceiro belga a aterrar em Stanford Bridge num ano.

Há muito que o Chelsea soube identificar no outro lado da Mancha um verdadeiro viveiro de talentos a que se podem incluir Hazard, Defour, Witsel e Verthogen. O extremo do Genk tem sido nos últimos anos uma das principais atrações da Jupiler League e apesar dos seus tenros 20 anos há muito que estava referenciado pelos clubes de top do futebol europeu. Em Brugge tentaram aguentar as investidas de Arsenal, Milan e Bayern mas acabaram por ceder aos argumentos do Chelsea. O clube londrino pagou a misera quantia de 9 milhões de euros por um jogador com um valor potencial de mercado capaz de rondar o triplo. O negócio não só garantiu ao clube inglês um substituo à altura para Kalou – de saída do clube – como ainda beneficiou o Genk que ficará com o jogador como empréstimo até ao final da temporada.

O mesmo acordo foi establecido entre Bayern Munchen e Basel FC.

É dificil encontrar um extremo tão entusiasmante na praça europeia nos últimos dois anos que Xherdan Shaqiri. Desde que brilhou com as cores helvéticas num Europeu de Sub-19, o extremo tem deixado a salivar os olheiros dos grandes nomes do Velho Continente. O seu clube de formação foi rejeitando ofertas tentadoras de Espanha e Inglaterra. Por detrás da decisão dos gestores do Basel estava a expectativa numa boa campanha europeia que se veio a concretizar. Shaqiri liderou o melhor Basel da história numa fase de apuramento empolgante que acabou com a eliminação do Manchester United, garantindo aos suiços a presença nos Oitavos de Final. Por 10 milhões de euros os bávaros garantiram a sua contratação para reforçar uma temivel linha ofensiva onde já estão Robben, Ribery, Muller, Kroos e Gomez. A capacidade técnico e a velocidade do suiço transformam-no obrigatoriamente numa das grandes sensações dos encarnados para a próxima temporada. O negócio entrou na dinâmica recente do Bayern, o único clube a conseguir um lucro no exercicio anual pelo 15 ano consecutivo, algo inédito na história de um desporto onde a maioria das instituições vive mergulhada em dividas.

 

Com estes dois negócios tanto Bayern Munchen como Chelsea não garantem apenas dois elementos que farão parte do futuro do futebol europeu a um baixissimo preço. Ambos clubes establecem uma linha de gestão económica que nos dias do Fair Play establecido pela UEFA deve marcar o futuro das negociações desportivas. Enquanto existirão sempre clubes dispostos a recorrer ao chamado “doping financeiro” e sem esquecer que o desnivel do mercado é real, negócios como este abrem uma esperança para um futuro mais sustentável, realista e ao mesmo tempo empolgante para o futebol europeu.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 20:13 | link do post | comentar | ver comentários (13)

Domingo, 26.02.12

Ser adepto do Arsenal podia ser aborrecido até ter aparecido Arsene Wenger. Hoje é um verdadeiro caso freudiano. Os gunners passaram numa década de ser a inveja intelectual da Europa a ser uma equipa incapaz de viver à altura dos seus melhores momentos. Wenger não perdeu o dom, mas a conjuntura onde se move é cada vez mais rasteira e dificil de gerir. A sua gestão nunca foi tão criticada e os dirigentes do clube londrino têm de tomar uma decisão que pode marcar profundamente o futuro do clube.

 

Quando Wenger chegou a Londres o “boring, boring Arsenal” era um destino tão pouco apetecivel que muitos técnicos ingleses nem se atreviam a aproximar-se. Apesar dos titulos da era George Graham o clube era mal visto pelos adeptos, mesmo os mais “hornbianos”, e a maior parte das suas estrelas viviam mergulhadas em alcool, calmantes e escândalos. A imprensa sensacionalista pode ter chamado ao gaulês “Arsene who?” no dia da sua apresentação mas o curriculum de Wenger no Monaco falava por si. O espectáculo estava garantido.

17 anos passaram. Muitos, em qualquer país, em qualquer clube, em qualquer filosofia desportiva. Muito mais neste mundo veloz e devorador, qual Saturno, dos seus próprios filhos. Wenger prometeu espectáculo e titulos e cumpriu. A equipa jogou como não o fazia desde os dias de Herbert Chapman e logrou mais vitórias que nas últimas cinco décadas juntas. Faltou o ceptro europeu para confirmar a sua hegemonia estética e emocional e esse karma acompanhou Wenger nos últimos anos como talvez nenhum outro. Se tivesse ganho uma Champions League com a magnifica geração dos Invencibles talvez as criticas de imprensa e adeptos fossem menos crueis. Mas frente a Barcelona e Chelsea a sorte e a frieza faltou-lhe e o fracasso europeu transformou-se, inevitavelmente, numa das suas imagens de marca. Agora, sete anos depois do seu último titulo essa lembrança doi mais do que nunca. A eliminação na FA Cup e na League Cup têm-se tornado realidades quase inevitáveis tal como a incapacidade dos gunners de lutar pelo titulo nacional. Se a vitória categórica sobre o Tottenham Hotspurs (depois de estar a perder por 2-0) parece devolver a esperança aos adeptos, a lembrança da derrota humilhante em Milão transformou-se na real vara de medir dos adeptos à gestão actual de Wenger.

 

Poucas equipas conseguiram destroçar tão facilmente o Arsenal de Wenger como o AC Milan de Allegri.

Não que os italianos tenham feito o jogo do ano. Apesar do resultado brilhante, notaram-se bastantes debilidades no conjunto rossonero para pensar que há uma diferença assim tão grande na realidade. O problema esteve em Wenger e, sobretudo na falta de espirito competitivo dos seus. Não se pode medir este Arsenal ao de há dez anos porque, inevitavelmente, a qualidade do plantel é infinitamente superior. Quando Wenger chegou ao clube dedicou-se a duas tarefas. Contratar jogadores de top infra-valorizados no futebol europeu (Petit, Overmars, Henry, Anelka, Vieira, Lehmman, Pires, Ljunberg) e lançar as bases para as equipas de futuro, formadas em casa. À medida que a primeira geração se esgotou os adeptos começaram a perceber que os substitutos, apesar de seleccionados criteriosamente, eram incapazes de igualar os feitos dos seus antecessores. Nem Diaby era Vieira, nem Walcott era Pires nem Bendtner podia aspirar a ser Henry. A qualidade de Fabregas, Nasri e Whilshere era evidente mas o talento individual era incapaz de encontrar um colectivo à altura. A equipa perdeu jogadores maturos, capazes de controlar os tempos de jogo. Perdeu calma, perdeu cordura e perdeu punch.

Vulgarizou-se e essa dura realidade começou a fazer ressentir-se nos resultados. À medida que o clube gastava o dinheiro que tinha a construir o Emirates, Wenger ficava despojado de recursos para combater com os seus rivais directos. O atraso, calculado, tornou-se irreversivel. Hoje o Arsenal não só não tem um plantel à altura da sua história. O seu destino é cada vez mais o do Liverpool. Numa Premier League inflacionada pelos milhões de Chelsea, Man City e Man Utd, os gunners são incapazes de manter as suas estrelas e ambicionar em contratar os grandes nomes de fora. A rejeição de Eden Hazard e Mario Gotze em deixar Lille e Dortmund por Londres é sintomático do real valor internacional do clube. As partidas de Nasri, Clichy e Fabregas consequência inevitável dessa perda de competitividade.

 

Friamente os adeptos do Arsenal podem estar gratos a Wenger. Há mais de cinco anos que o clube não tem nem o plantel nem o poder financeiro de estar regularmente na fase a eliminar da Champions League e no top 4 da Premier League. Este ano o banho de realidade custa mais do que nunca pelo sucesso desportivo do rival Tottenham. Mas a vitória dos gunners no duelo directo entre ambas as equipas espelha perfeitamente, não só a bipolaridade em que vive o clube, mas o importante papel de Wenger como comandante da nau. Contratar um novo treinador só funcionaria com uma injecção de dinheiro que nas últimas épocas foi negada ao francês e que permitiria recuperar o atraso financeiro com os clubes de topo. Na previsivel incapacidade de aumentar o orçamento, o clube tem de ser frontal com os adeptos e deixar claro, como fez o técnico, que os dias de ambicionar por troféus terão de esperar por tempos melhores. O Arsenal tem todas as condições para voltar a ser grande. Mesmo depois de sete anos sem nada vencer a paciência continuará a ser a melhor aliada dos adeptos gunners.



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Sexta-feira, 24.02.12

algo no passado que nos prende eternamente, algemas invisíveis de que realmente ninguém se quer livrar. 150 anos da história do futebol dão para muitos passados distintos mas na era moderna a sua revalorização continua a ser um enigma para muitos. Para a empresa TOFFs tornou-se na melhor forma de fazer negócio. Com a memória, com o passado, com os sonhos que ainda comandam algumas vidas.

 

A moda de ir para os estádios com a camisola do clube do coração nasceu em Inglaterra.

Quando os clubes começaram a entender o potencial da sua própria comercialização, nos arranques da década de 80, os adeptos responderam. Hoje fazem-se três e quatro equipamentos diferentes por ano para capitalizar a fome dos mais novos e dos mais velhos em ter colados ao peito a cor e escudo da equipa dos seus amores. O fenómeno britânico tornou-se global, as grandes marcas fizeram disso uma das principais fontes de rendimento e hoje o lançamento de uma nova camisola é feito com a pompa e circunstância de uma cerimónia de estado. De ano para ano os equipamentos, as cores, os traços vão-se renovando reforçando a condição de imediatismo do jogo. As três riscas de este ano para o ano serão cinco, o ano passado foram só duas e quem imagina se existirão sequer riscas no equipamento de daqui a duas temporadas. A tradição conta cada vez menos e o importante é oferecer um producto novo para seduzir os bolsos dos adeptos, sempre desejosos do futuro. Mas o amanhã não é o único negócio possível. Há quem continue a lucrar com o passado, com a memória de quem não quer esquecer.

Em 1990, em pleno “boom” da cultura dos equipamentos comercializados para adeptos, Alan Finch decidiu recrear a histórica camisola com que o Arsenal disputou a final da FA Cup, a sua primeira do pós-guerra. Comprou o tecido, bordou o emblema e logrou uma réplica idêntica à que se lembrava dos seus tempos de infância. Foi a primeira de muitas.

 

 

A TOFF´s (The Old Fashioned Football Shirts) nasceu em contracorrente com os seus dias e tornou-se imediatamente numa referência absoluta de quem olhava para trás com a mesma ilusão que contemplava o futuro. Finch recrutou uma pequena equipa de desenhadores, costureiros e historiadores e começou a sua própria pequena empresa no sul de Inglaterra. Inicialmente fez-se anunciar em revistas da especialidade, sobretudo as fanzines como When Saturday Comes que viviam então a sua época de esplendor. A grave crise porque passava o futebol inglês, em plena ressaca do Taylor Report, fez reaviver uma profunda nostalgia com os anos dourados da First Division. Os adeptos aderiram em massa à ideia e rapidamente a TOFFS passou a produzir réplicas perfeitas de camisolas clássicas de todas as equipas do futebol inglês. O posterior aparecimento da internet permitiu-lhe criar uma das primeiras páginas webs dedicadas à compra e venda de productos desportivos onde exibiam o seu magnifico portfolio. Pais que queriam oferecer aos filhos pedaços da sua infância, filhos que queriam oferecer aos pais pedaços do seu passado, oferecer uma réplica clássica tornou-se tradição dentro dos fãs hardcores ingleses à medida que o aumento dos preços dos estádios da Premier os afastava dos terrenos de jogo.

A partir de meados dos anos 90 o portfolio da empresa expandiu-se a nível internacional à medida que a própria cultura da venda de marketing das equipas começava a chegar a outros países. Muitos dos productos eram pedidos únicos, de adeptos solitários que procuravam uma lembrança de um momento feliz da sua memória. Adeptos do velho Torino que queriam relembrar os dias de Mazzolla, saudosistas dos dias de Eusébio com a camisola do Benfica, fãs do River Plate e da camisola da La Maquina ou nostálgicos do Ajax de Cruyff começaram a invadir a web de Alan Finch com pedidos tão originais como a camisola que usou Fachetti no dia do seu 100º jogo. Um trabalho que implicava não só conseguir o tecido certo como uma profunda pesquisa nos jornais e revistas da época para garantir a reprodução perfeita. Em quase todas as entrevistas que dá, o seu fundador, Alan Finch reforça a ideia de que o que ele produz não são meras réplicas de camisolas do passado. Réplicas, diz ele, são as que se comercializam hoje, aos milhões, sem identidade. Cada uma das suas camisolas é única, não existe stock e tê-la no peito é algo absolutamente pessoal e intransmissível. Algo que o ritmo de fordização do negócio futebolístico actual é incapaz de lograr.

Hoje a empresa prospera misturando essa paixão pelo passado e a optimização do futuro. As novas ferramentas online permitem recompilar informação e material a uma velocidade impossível em 1990 e a popularidade do projecto é hoje parte da própria mitologia do jogo. Para aqueles que sonharam em sentir na pele uma réplica perfeita da camisola que Pelé vestia na tarde da final do Mundial do México de 1970, (a sua estátua de cera no Madame Tussauds veste precisamente um dessas) a TOFFs tornou-se um espaço fundamental. Os próprios clubes e federações compram lotes de equipamentos do seu próprio passado que ninguém se lembrou de preservar e não há um museu  ou estádio em Inglaterra onde não se encontre um dos seus productos.

 

Numa época onde a velocidade do negócio à volta do futebol parece não conhecer limites, o preço que pode ter a memória começa a fazer cada vez mais sentido. Os adeptos sentem um desapego com o ritmo vertiginoso do negócio que marca o ritmo do futebol de hoje e agarram-se ao seu passado. Talvez o façam sem darem-se conta de que inevitavelmente estão a cair na mesma dinâmica comercial. Mas terá o mesmo preço emocional o mergulho nas memórias mais pessoais do que entregar-se à incerteza do amanhã. O Ser Humano é incapaz de viver sem olhar para trás e o adepto de futebol é só mais um espelho dessa necessidade. A TOFFs limitou-se a ver as cifras, as ilusões e as expectativas. O resto já é história!



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Quinta-feira, 16.02.12

O Real Madrid deve toda a sua fama a um só jogo. O primeiro grande épico europeu visto maioritariamente por quem tinha televisor na Europa Ocidental à época. Sessenta anos depois, mais do que nunca, a mitologia futebolistica é definida inexoravelmente pelo poder da televisão e da curta memória que há se transformou no espelho desta sociedade.

 

Messi é o melhor jogador da história.

Pudera! Cada lance seu é visto em primeiro, segundo, terceiro plano, em movimento, em 3D, a cores e alta definição. Desliguemos agora o modo irónico antes que pensem que falamos a sério. O génio do argentino é único, mas o seu papel na história do jogo deve muito ao poder das novas tecnologias, da era dos twitters, facebooks, HDs e 3Ds.

A televisão, sempre a televisão, define os padrões de qualidade e superioridade de uns sobre os outros. A mitologia moderna não se baseia na palavra escrita ou perdida no tempo. É escrava da imagem. Messi é escravo da sua própria imagem da mesma forma que o Real Madrid ainda sobrevive no inconsciente humano pela força inequivoca das suas camisolas brancas brilhantes naquela tarde em Glasgow. A televisão provocou um antes e depois na sociedade ocidental e o futebol como espelho perfeito do mundo em mutação viu-se inevitavelmente presa à mesma realidade. A memória deixou de fazer sentido se não for acompanhada de um clip de video subido ao You Tube. Hoje não há ninguém que escreva sobre futebol que não se limite a repetir a mesma ladainha que foi vendida com imagens coladas à lapela. Pelé, Maradona, Cruyff e Di Stefano, o quarteto imenso. Real Madrid, Ajax, Liverpool, Milan, Manchester United e Barcelona, as seis equipas mais emblemáticas nos últimos 60 anos. Consequências directas da popularização do espectro televisivo. A memória deixou de ser algo valorizável. Quem a tinha e quem presenciou outros tempos foi morrendo e o seu testemunho recolhido por uma infinita minoria, ostracizada por aqueles que se agarram à imagem como um jesuita à cruz. Os mitos do passado não televisado deixaram de existir, a história foi despromovida à condição de anedoctário e os heróis a cores suplantaram os a preto e branco da mesma forma que os Messi a 3D parecem mais que os Maradona de planos únicos de camara.

 

Alfredo Di Stefano, génio que chegou ao final da sua carreira quando a televisão estava apenas a dar os primeiros passos, entrou nesse top 4 quase como por gesto de condescendência.

Nenhum jovem de menos de 40 o cita sem ser por pura imitação snob e pretenciosa e nem mesmo Messi ou Maradona, seus conterrâneos, o têm como referência. Nessa tarde ele manobrou à vontade, como sempre, o jogo colectivo do Real Madrid. Marcou um hat-trick (Puskas marcou um poker) e entrou nesse imaginário televisado por pouco. Quem o viu jogar diz dele maravilhas que nem as imagens seriam suficientes para ilustrar vários clips de best of, desses que fizeram das corridas de Ronaldo, das roletas de Zidane, dos bailados de van Basten ou os remates de Cristiano Ronaldo, imagens de marca internacionais. O hispano-argentino, pouco dado a falsas modéstias, no entanto sempre defendeu que ele nunca foi tão bom como Pedernera e Labruna, os mentores de La Maquina, da qual restam poucas imagens em video. Outros sobreviventes de eras pretéritas falaram da aura de grandeza de Sindelaar, Meazza, Friedenreich, Piola, Finney e Hidegkuti como génio tão brilhantes como os Cruyff, Baggio, Romários, Keegans e van Basten que se seguiram. Mas sem video ninguém acredita que o génio fosse algo real quando os relatos radiofónicos ainda eram a excepção, e não a regra. O futebol homérico, inspirado em descrições e metáforas mitológicas, para a maioria dos espectadores e analistas actuais é puro folclore. Não conta, não existe, não faz sentido.

 

Esses são os mesmos que vivem sem entender que o impacto do Brasil de 70 deve-se tanto ao génio dos seus jogadores como ao facto da camisola amarela estridente ter sido vista, pela primeira vez, em televisores a cores, debaixo do calor asfixiante do meio-dia mexicano. Os mesmos que exaltam o presente e votam no “flavour of the month” por cima de nomes ilustres que nunca viram ou quiseram ver. Os que reduzem a mitologia futebolistica ao poder da televisão e esquecem-se de que o jogo já era centenário quando os aparelhos começaram a invadir os lares da Europa. Acreditar que o génio, a arte, o talento só existem porque passou na televisão é tão néscio como pensar que qualquer tempo pretérito é melhor que o actual. Entre esses dois mundos, essas duas filosofias, encontraremos certamente a virtude. O problema é que muito poucos se dão realmente ao trabalho de a procurar.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 15:25 | link do post | comentar | ver comentários (10)

Terça-feira, 14.02.12

Como é que um dos países mais fanáticos pelo futebol é também um dos que menos literatura desportiva é capaz de gerar? Morbo, obra de um inglês, explica como os espanhóis preferem falar a escrever sobre um jogo que mais do que um duelo desportivo é o espelho de um país perdido em si mesmo.

 

É dificil para os espanhóis escreverem sobre o seu futebol porque mais de cem anos depois dos mineiros da firma de Rio Tinto terem sido os primeiros autóctones a tocar uma bola com os pés, o país continua a centrar-se essencialmente nas disputas politico-sociais entre as suas cidades mais emblemáticos. Em nenhum outro país – talvez com a excepção de Itália – o futebol teve um contorno tão profundamente sectário e o papel do beautiful game como reinvindicação seccionista ainda hoje é fundamental na afirmação desportiva das principais entidades do país vizinho.

Tudo isso, mais do que o jogo em si, provoca o chamado “morbo”, palavra unicamente espanhola e sem tradução literal. Termo que se entende pelo prazer especial de triunfar nesse contexto de confronto dissimulado, mas real e fundamental na identidade social de castelhanos, catalães, galegos, bascos, andaluzes, manchegos, leoneses, asturianos, cantábros, valencianos e toda essa amálgama de estados disfarçados de regiões que compõem o estado espanhol. Nesta amalgama onde o futebol desempenha um papel fundamental, nasce Morbo.

 

Um autor inglês radicado em Espanha consegue ter o distanciamento necessário para viajar pelo país, pela história e pela memória de multpilas realidades que fazem do futebol espanhol algo especial. Phil Ball começa na Andaluzia, onde se reencontra com o nascimento do Recreativo de Huelva, o “Decano” espanhol que na realidade nunca foi uma equipa de prestigio para terminar o livro com uma nota de atenção especial ao sucesso recente da selecção espanhola.

Pelo meio os duelos entre Barcelona e Madrid, os papeis das segundas equipas das principais cidades, a rivalidade sevilhana, o papel das autonomias regionais como catalizadores populares do jogo e, sobretudo essa divisão nacional entre bandos que transformou a liga num duelo de estrelas pagas a peso de ouro pela ambição desmedida do Real Madrid e Barcelona. Num país que fuzilou o futebol regional fora dos grandes nucleos urbanos, numa era onde os espanhóis encontraram finalmente uma identidade desportiva depois de décadas traumatizados por exemplos de sucesso que chegavam de fora, tanto aos clubes como à selecção, Morbo é uma leitura fundamental para entender os parêntesis que muitas vezes ficam por explicar. Ball utiliza o humor britânico, mas apresenta um livro que respeita perfeitamente as idiossincrasias sociais espanholas e o retrato final são mais do que notáveis.

 

Phil Ball começou a escrever Morbo quando o futebol espanhol ainda não tinha entrado na sua era dourada. Cinco anos depois da primeira edição, com os respecticos ajustes, ler Morbo torna-se ainda mais relevante porque permite, sobretudo, antecipar o ideário que cimentou as bases do sucesso de um país que faz do beautiful game a grande arma social dos dias modernos, o último descendente de velhos conflitos medievais que hoje tomam forma com uma bola de futebol nos pés.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:12 | link do post | comentar

Quarta-feira, 08.02.12

O futebol ensina-nos a amar o imponderável, o incerto, o surpreendente. Nas provas a eliminar, onde os orçamentos contam menos e a paixão vale mais, de tempos a tempos apaixonamo-nos uma vez mais, sempre uma vez mais. Miranda de Ebro tem o coração de Espanha, o coração de um futebol que não acredita apenas em estatisticas, números e que vive do sonho e da incerteza. No final a derrota espelha a inevitabilidade, mas a eliminatória convida a amar, só mais uma vez, o imponderável de uma bola redonda à solta num tapete voador imaginário.

Há só uma hora de distância entre ambas ciudades, mas podia bem ser um Mundo.

Nada parece unir a cosmopolita Bilbao com a pequena Miranda de Ebro. A cidade burgalense tem tudo para encarnar o velho ideario español de pueblo. Não tem mais de 40 mil habitantes, uma pequena amostra de indústria local, meia dúzia de serviços e as lembranças de um passado heroico nos dias pretéritos da Reconquista. A equipa, absolutamente amadora, pugna na II Divisão entre campos diminutos, viagens que se eternizam em autocarro por essa cordilheira norte que rasga a Peninsula e uma ilusão tremenda de sonhar com a inesperada promoção. Todos conhecem as suas limitações, todos sabem o que valem e, no entanto, e isso é futebol, todos provaram na pele o que é contrariar as expectativas. A equipa chegou atè às meias-finais da Copa del Rey, um feito que não se vivia há várias décadas e que espelha o profundo afastamento entre os 40 clubes profissionais e as restantes formações que completam o mapa do futebol espanhol. E chegou depois de bater-se contra os seus, as equipas pequenas que se vão degladiando até à entrada dos gigantes. Mas, sobretudo, depois de acabarem com os legitimos sonhos e aspirações de três primodivisionários. A giria chama-lhes tomba-gigantes, os adeptos de Villareal, Santander e Espanyol conhecem-nos melhor como pesadelos.

 

Claro que o futebol não é Hollywood e as histórias de final feliz escasseiam tanto que já ninguém acredita nelas.

O duro golpe da realidade estava para chegar. Na proximidade de uma hora em autocarro, em plena catedral de San Mamés. O Athletic Bilbao de Marcelo Bielsa venceu a eliminatória ao modesto Mirandês porque soube respeitar o imponderável, entendeu que os nomes não ganham jogos e apresentou-se com a profunda reverência de quem vai disputar uma final europeia. Um respeito que dá mais valor ainda à gesta mirandesa e que está muito para lá dos números (1-2 na primeira mão, 6-2 ontem na “Catedral” basca). O rei de copas, a par do Barcelona, jogou o melhor que sabe jogar e que é muito. O Mirandês entrou em campo lembrando talvez o velho espirito do amadorismo britânico, o reflexo presente do imaginário que deixou na sua época a caminhada tranquila dos Corinthians. Abdicou do seu equipamento histórico, rojillo, por uma camisola idealizada pelo seu treinador, o entranhável Carlos Pouso, ferveroso admirador do Borussia Dortmund. Encarou o duelo como uma paixão, sem sentir-se preso a contratos publicitários, obrigações ideológicas e palavras de ordem. Jogou futebol pelo futebol, perdeu bem e saiu debaixo de um coro imenso de aplausos que vão demorar em esquecer.

Como sempre sucede, quando alguém tão pequeno surge numa festa reservada aos grandes, o nome fica. Fica como lembrança do que o futebol pode ser e tantas vezes não é. Fica como o perfume do tapete verde e o cheiro a suor de um balneário humilde muito para lá das conferências de imprensa cheias de flashes e o cheiro a desodorizante de estrela.

 

Com a derrota o Mirandês conseguiu a glória eterna da memória, algo que muitos aprenderam a valorizar mais ainda que a certeza humana do metal. Para eles a final foi ontem, para o Bilbao a 36 da sua história será em Maio. Cada um tem o seu encontro com a glória. A uns coube desfrutar da essência do jogo, a outros tornarem-se reis de copas de Espanha. O futebol segue sempre por caminhos cruzados, mas, de vez em quando, lá se lembra de encontrar-se numa noite inesquecível.


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publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:01 | link do post | comentar

Segunda-feira, 06.02.12

A invenção do futebol é um tema demasiado complexo para falar-se em verdades absolutas. Mas ninguém duvida que quem levou o beautiful game ao resto do mundo e o tornou no fenómeno sociológico de maior importância dos últimos 100 partiu da Grã-Bretanha. Em Those Feet o sociologo inglês David Winner analisa essa reinvenção, divulgação e os subsequentes traumas que o futebol deixou no universo britânico.

Não há qualquer ironia no titulo da obra. Nem no seu subtitulo na edição original, “A Sensual History of English Football”. Porque, como explica Winner, sensual e futebol inglês são conceitos que nunca funcionaram bem na mesma frase. E muito menos na mesma realidade. O estilo de escrita de Winner é sempre convincente.

O seu livro anterior, o brilhante Brilliant Orange, dedicado à sua profunda admiração pelo futebol holandês, ainda hoje é justamente considerado como um dos livros, que melhor souberam explorar as realidades paralelas que definem o jogo. Em Those Feet o autor aplica a mesma fórmula, mas, ao futebol inglês, aos traumas que levaram à sua origem e à incapacidade dos ingleses em evoluir com o tempo. Desde os dias em que o pontapé a uma bola redonda foi utilizado como uma arma de arremesso contra os medos victorianos da sexualidade juvenil, do seu apego à masturbação e os seus desvios homossexuais, até à profunda discriminação a que os profissionais do jogo foram votados, sendo obrigados a cobrar um salário minimo que os colocava na escala mais baixa da sociedade trabalhadora do Reino Unido. Winner explora essa idiossincrasia que distingue o estilo de jogo proletário do futebol inglês, sempre apoiado nesse ideário dos colégios de Oxbridge (Oxford, Cambridge, Eton) onde era a valentia e a coragem os aspectos mais valorizados, muito por cima da classe, do manejo da bola e da vontade por ganhar a qualquer custo.

 

Traçando paralelos com a cultura continental, Winner adentra-se na própria psique inglesa e nos imensos complexos de inferioridade que se foram formando ao longo dos anos com argentinos, italianos e alemães, carrascos habituais de um país que continua a jogar com o mesmo ideário romântico do entre-guerra e que se mostrou incapaz de tomar parte em alguma das grandes metamorfoses tácticos dos últimos 50 anos num papel de liderança. Those Feet é um magnifico pretexto para entender porque é que os ingleses falham como selecção nacional de forma recorrente nos grandes palcos ao mesmo tempo em que os seus clubes, mais abertos à influência continental que a cinzenta FA, conseguiram adaptar-se às evoluções do futebol continental.

 

Livro escrito de forma brilhantemente sedutora (e sensual), a leitura permite viajar por episódios pouco conhecidos, heróis anónimos que a história não quis recordar, passos fundamentais na popularização do jogo e, sobretudo, momentos que reforçam o imaginário dos bravos leões britânicos que ainda olham para o futebol como um reflexo da carga da brigada ligeira, muitas vezes infrutifera, mas sempre com a máxima honra!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:07 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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