Acabou o sonho andaluz. O dinheiro, que prometia cair com a mesma velocidade que os termómetros sobem em Málaga, chegou abruptamente ao fim. A história do clube espanhol é igual a tantas outras e volta a demonstrar, se fosse necessário, que os investimentos milionários do Médio Oriente no mundo do futebol aproximam-se mais ao conto do vigário do que ao genuíno planeamento desportivo de futuro.
Al-Thani chegou a Málaga como um herói e no final da época já era um filho predilecto à altura de António Banderas.
O histórico clube andaluz tinha logrado um quarto lugar na liga espanhola e confirmado a sua estreia na Champions League e pelo caminho tinham aterrado no estádio La Rosaleda jogadores do pedigree de Joaquin, Isco, Cazorla, van Nistelrooy, Mathijsen, Toulalan e Buonanotte. Uma equipa paga a peso de ouro e orientada por um técnico talentoso mas que não era, propriamente, acessível para o bolso de uma instituição habituada aos lugares de metade da tabela. Quando Mourinho anunciou que nunca treinaria o Málaga muitos tomaram as palavras como um ataque velado ao seu antecessor em Madrid. Enganaram-se. O luso, que percebe de investidores milionários, já cheirava o que aí vinha.
Depois do quarto posto na liga chegaram os problemas quando muitos imaginavam já mais um vendaval de estrelas, apresentações milionárias e o hino da Champions a ecoar pela costa mediterrânica em Setembro. Primeiro foram os jogadores que se queixaram de não receber partes substanciais dos seus salários e dos prémios de final de temporada. Vários assinaram mesmo uma petição de ajuda ao sindicato para depois retirarem a queixa contra o clube, uma queixa que podia ter levado o Málaga directamente à Segunda B se a liga e a federação espanhola, como instituições, estivessem ao nível da selecção espanhola, como entidade desportiva.
Nesse habitual caciquismo que faz da liga de Espanha um paradoxo vivo, o Málaga não só fintou a despromoção e a manutenção do posto europeu (ao contrário do que viveu o Mallorca na passada época) como soltou na imprensa noticias sobre novas hipotéticas chegadas para acalmar os adeptos. Mas a verdade vem sempre ao de cima, mais cedo ou mais tarde. Santi Cazorla, o símbolo do projecto malaguenho, foi o primeiro a dizer adeus com um tremendo buraco no bolso. Mas não será o último.
O emir do Qatar que está por detrás da compra do clube decidiu que ser dono de um clube de futebol numa das ligas mais potentes do mundo afinal é um brinquedo demasiado caro. Vender a investidores da Albânia ou abdicar das figuras que levaram o Málaga à Europa são os dois cenários em cima da mesa. Os investidores tardam em aparecer e por isso os jogadores vão saindo. O extremo asturiano assinou pelo Arsenal, que há muito o cobiçava, e Pellegrini foi convidado a deixar o clube depois de ter logrado o melhor resultado da história da instituição. Tudo por culpa do seu salário principesco, problema que afecta também a Toulalan, Joaquin e Mathijsen e que levou Ruud van Nistelrooy a abandonar o futebol no final da passada época por não ter a certeza que o clube podia pagar um ano mais de contrato.
A brincadeira acabou como seria de esperar. Desde há meia dúzia de anos para cá o dinheiro do Médio Oriente tem tentado entrar na elite do futebol europeu. Mas está comprovado que os investidores milionários são um oásis apetecível mas letal. Roman Abramovich e Al-Mansour foram, até agora, as únicas excepções, aliando investimentos regulares a exercícios de paciência pouco habituais em homens habituados ao lucro imediato. O russo esperou quase uma década pelo titulo europeu que tanto queria para o seu Chelsea e o qatari pegou no clube das mãos de outro milionário falido, o ex-primeiro-ministro tailandês, e aguentou o Manchester City durante cinco anos até conquistar a ansiada Premier League.
Salvo estes dois exemplos, a maioria dos investidores desistem depressa dos seus brinquedos com danos colaterais importantes. Em Santander ainda procuram o milionário Ali Said, um indiano que prometeu o futebol europeu aos cantábros e que depois se esquecer de pagar salários e os gastos assumidos mergulhando o clube numa inevitável despromoção. Ou o caso de Dimitri Pitterman, o homem que levou o modesto Alavés de uma final da Taça UEFA às distritais do futebol espanhol. Em Inglaterra muitos são os milionários que vão e vêm sem deixar saudades (que digam os adeptos do Portsmouth, West Ham United e Leeds United) ou que usam os clubes para limpar dividas como sucede com os Glazer, detentores do futuro e presente do Manchester United. Em Itália os casos das falências das empresas Cirio e Parmalat foram a alavanca que dinamitou os projectos da Lazio e Parma, e as despromoções de Napoli e Fiorentina seguiram pelo mesmo caminho. Mesmo em França, com a injecção inesperada de dinheiro no PSG por parte de um grupo de investidores do Médio Oriente, a suspeita de que o sonho parisiense não dure é imensamente maior do que a sensação de que o PSG europeu veio para ficar. A promessa de dinheiro fácil conquistou os adeptos do Málaga mas a factura a pagar agora pode ser demasiado cara. O clube não tem condições para defrontar a Champions League (será um dos adversários mais apetecíveis do play-off) e numa liga onde o Villareal, um dos poucos clubes cumpridores, foi despromovido depois de lograr o mesmo quarto posto há um ano atrás, tudo pode suceder.
No meio de promessas vãs e cheques sem cobertura, os milionários que querem entrar no futebol têm contribuído para a escalada de salários e a inflação de preços no mercado. Que Yaya Touré seja o jogador mais bem pago da Premier League explica bem essa realidade. À medida que mercados paralelos como o russo e chinês chegam a valores incomportáveis para a realidade europeia, sonhar com um dono milionário é uma tentação, e como tal, um risco. Aos azuis da Andaluzia o futuro apresenta-se confuso e cinzento. Dezenas de outros clubes históricos espanhóis passaram pelo mesmo calvário e vivem hoje dias difíceis. Quase todos eles vitimas confessas do conto do vigário.
Vencer a Champions League muitas vezes é o culminar de uma equipa que entra para a história. No caso do Chelsea não podia ser mais verdade. O onze que logrou em Munique o primeiro troféu de campeão europeu para os londrinos faz parte da história do clube mas não do seu futuro. Foi o último suspiro de uma geração de veteranos que várias vezes bateu à porta sem nunca conseguir entrar. Sem a sua guarda pretoriana o Chelsea tem nas mãos o dificil desafio de reinventar-se com base no talento e na juventude dos jovens leões de Stanford Bridge.
Hazard. Oscar. Marin. De Buyne. Lukaku.
Nomes próprios do futuro azul, nomes próprios de uma nova era. Uma era pós-Champions League.
O clube londrino venceu o troféu em Maio com uma geração perto do seu final. Muitos dos membros do plantel saíram a custo zero. Outros sabem que têm poucos anos pela frente na elite. Terry, Cech, Lampard e Cole são conscientes que alcançaram o pináculo das suas carreiras e que o próximo ano pode bem ser o último no clube onde estiveram a última década. Os homens que Mourinho forjou e que Di Matteo levou ao titulo europeu podem ir com a sensação de missão cumprida. É aos novos que chegam que fica a dura missão de manter o nível bem alto.
O processo de rejuvenescimento do clube arrancou à dois anos. O Fair Play financeiro da UEFA foi o primeiro alerta na gestão de um clube habituado a gastar muito e bem. Antevendo os problemas de futuro os directivos do Chelsea entenderam que era necessário repetir a operação de 2003 e 2004, rejuvenescer ao máximo o plantel para aguentar largos anos e assim evitar as investidas no mercado.
Ramires, Ivanovic, Fernando Torres, Juan Mata, Raul Meireles, David Luiz, Cahill e Thibaut Courtois foram contratações cirúrgicas a pensar no hoje e sobretudo no amanhã. Mas não foram as únicas. Para a cantera Blue foram recrutados jovens dos vários cantos de Inglaterra e do velho Continente para estarem preparados a dar o salto para a equipa principal. Mas por muito lógica que fosse a politica do clube, ela esbarra com a única ambição do seu dono, Roman Abramovich: o titulo europeu.
As saídas de Ancelotti e Villas-Boas, homens que trabalhavam o futuro mas que falharam em cumprir o sonho do seu patrão omnipotente, deixaram também a sua marca na politica do clube. Os pesos pesados eternizavam-se e muitas promessas, como o italiano Borini, perdiam-se definitivamente por valores irrisórios apesar do seu futuro prometedor. A vitória de Di Matteo serve também como ponto de inflexão nesta politica auto-destructiva. Com o objectivo cumprido o Chelsea tem agora tempo para redesenhar-se.
As saídas de Bosingwa, Kalou, Drogba, Deco, Anelka, Ballack foram o primeiro passo.
Em dois anos o plantel emagreceu e rejuvenesceu-se. Agora é a época das contratações definitivas, da mudança táctica que muitos adeptos pedem a gritos rumo a um futebol de posse, de controlo sem esquecer a velocidade como arma preferencial, um regresso ás origens do Special One.
O clube moveu-se bem e rápido no mercado e contratou duas das maiores esperanças do Velho e Novo continente. Do Lille gaulês chega Eden Hazard, o futebolista continental mais similar a Zinedine Zidane que sobrevoa os relvados do futebol europeu. Hazard é um génio longe dos holofotes mediáticos e em Londres assumirá a batuta de liderança de um projecto que tem o seu rosto. Eficaz, dono de uma técnica invulgar, maestro das bolas paradas, fisicamente dotado, o belga tem tudo para ser o futuro dos londrinos. Ao seu lado o brasileiro Óscar, a enésima reencarnação do "malandro" canarinho, maestro da finta e do passe, dono de uma visão de jogo invejável e de um estilo difícil de descrever usando apenas palavras. Entre ambos a bola rolará com a finura e determinação de um primeiro amor. Para meter velocidade ao jogo, as pernas do alemão Marko Marin e do belga Kevin De Bruyne, dois extremos à europeia, fisicos, intensos, velozes e peritos na arte dos cruzamentos, jogadores capazes de abrir o campo ou rasgá-lo em diagonais venenosas. Jogadores capazes de dar o arrojo que o Chelsea não tem desde os dias de Arjen Robben e Damien Duff.
Na frente de ataque continua o dueto espanhol Torres-Matta, dois jogadores superlativos em estado de graça, agora acompanhados definitivamente pelo belga Romelu Lukaku. Jogador dono de uma força e uma potência fora do normal, Lukaku teve poucos minutos na passada época mas com a saída de Drogba, com quem partilha mais do que semelhanças físicas, pode ser a grande surpresa do ataque londrino.
Di Matteo conta com um arsenal de respeito. Num 4-3-3 esperem ver muitos destes rostos no banco porque não há vagas para todos, numa lista onde se movem ainda Malouda e Sturridge. No meio-campo, ao lado da classe, a força de Ramires, a tenacidade de Meireles e o trabalho de Obi Mikel para dar o equilibrio necessário que a defesa composta por Cahill-David Luiz deverá reforçar ao longo da época. As laterais continuam a ser o calcanhar de aquiles do clube e talvez seja aí onde o mercado volte a funcionar para os Blues que até se dão ao luxo de deixar Courtois em Madrid mais uma época, confiantes que estão na genialidade eterna de Petr Cech.
Com este cenário - e sonhando ainda com Hulk e Falcao, nomes que sempre rodeiam o futuro dos azuis - o Chelsea apresenta credenciais mais do que suficientes para defender a coroa europeia. Mas que ninguém se engane. Este é um projecto de futuro, desenhado para a próxima década com jogadores extremamente jovens mas com um potencial tremendo. Um projecto que se inspira na brilhante trajectória espanhola, na classe centro-europeia, no músculo africano e no espírito britânico para criar um cocktail de emoções e movimentos capazes de marcar uma geração.
Lateral bicampeão europeu sem clube. Podia ser um anúncio num jornal qualquer mas é, sobretudo, um dos enigmas do mercado. Bosingwa, com 29 anos, encontra-se sem clube depois de ter sido dispensado pelo Chelsea. Chegou a Londres da mão de Luis Filipe Scolari e entre lesões e sprints esteve nos pontos altos e baixos do clube londrino da última meia década. Agora procura um novo clube quando o curioso é que não há um só clube que o procure a ele.
As más línguas comentaram, depois da final da Champions League, que o gesto de Bosingwa no palco, quase impedindo Terry e Lampard de surgir na fotografia dos vencedores, seria o último prego no seu caixão para sair dos Blues. A verdade é que o seu futuro já estava decidido antes mas esse momento simboliza perfeitamente a relação do internacional português com o clube londrino: descontrolada.
Bosingwa, que nasceu no Congo mas chegou cedo a Portugal e acabou por ser um dos internacionais mais utilizados da época final de Scolari e do mandato de Queirós, começou a carreira debaixo de comentários que não abonavam nada a favor da sua inteligência. Figura criticada no balneário do Boavista pelas suas atitudes, dentro e fora de campo, era um jogador com um perfil complexo de gerir. Mourinho decidiu arriscar, pensando nele como médio defensivo, mas no ano em que estiveram juntos houve pouco tempo para aflorar a ligação e foi nos anos seguintes, sobretudo com Jesualdo Ferreira, que o jogador explodiu finalmente como lateral de excepção.
Com Scolari no Chelsea o destino de Bosingwa ficou traçado. A saída do brasileiro, o mesmo que o tinha solicitado expressamente a Abramovich, transformou o futuro do lateral no clube. Os técnicos que se seguiram tinham problemas em lidar com ele e encontrar a melhor forma de explorar o seu potencial. Se a Paulo Ferreira lhe faltavam pernas para repetir os anos memoráveis de azul, a Bosingwa faltava-lhe sobretudo inteligência de jogo. As lesões que se seguiram serviram apenas para adiar o inevitável. Suspenso da selecção com a chegada de Paulo Bento - por motivos similares ao de Ricardo Carvalho, outro ex-colega seu no Porto e em Londres - o ano do português salvou-se com o titulo europeu. Com Villas-Boas, Bosingwa ainda sonhou em voltar a ser figura protagonista do clube, mas os problemas físicos e a saída do técnico portuense marcou o seu futuro longe de Stanford Bridge.
No mercado actual é dificil encontrar muitos negócios por valores consideráveis. A conjuntura económica tem sido um fantasma que nem os clubes mais folgados tem sabido contrariar e as operações são modestas e escassas. E Bosingwa, com a carta de liberdade na mão, devia ser um dos atractivos do mercado. E até agora, o silêncio.
A única oferta que o jogador recebeu chega do AS Monaco, clube histórico a viver dias complicados na Ligue 2. O técnico, Claudio Ranieri, mostrou interesse em contar com o lateral mas entre a oferta salarial (Bosingwa quer continuar a receber, onde quer que vá, cerca de 3 milhões de euros) e o facto de ser uma liga secundária, o interesse tem-se esfumado.
E porque nenhum outro clube se move então?
Os problemas físicos de Bosingwa são um handicap. Como vários jogadores massacrados pela lesão, aos clubes custa-lhes apostar em contratos largos quando há uma séria possibilidade do jogador ficar fora de competição durante largos meses e não rentabilizar o investimento. Por outro lado Bosingwa, com 29 anos, quer assinar o seu último grande contrato, mantendo valores que estão longe do seu valor real de mercado depois de três anos de poucos jogos e muita polémica. A incapacidade do jogador em perceber que as condições do mercado não convidam a valores tão exorbitados tem sido o primeiro problema. As informações, não demasiado abonatórias, sobre o seu carácter, são outro problema com que Bosingwa se tem encontrado. Poucos clubes de topo contam actualmente sem um lateral de referência no seu plantel e poucos são, também, os clubes de perfil médio que se querem arriscar a ter um jogador problemático no plantel, muitas vezes criado à base de pequenos detalhes.
Sem ofertas de Portugal devido à ficha salarial e com as portas dos melhores da Europa aparentemente fechadas, Bosingwa tem duas opções. Partir para uma opção monetariamente satisfatória em mercados de países emergentes (Rússia, Brasil, Estados Unidos, Qatar) ou procurar provar nos terrenos europeus que ainda tem o mesmo valor e qualidade que demonstrou ao serviço dos dragões durante largas épocas.
Poucos treinadores têm sido tão criticados pelos próprios jogadores nos últimos anos do futebol português como Jorge Jesus. O técnico encarnado tem reconstruído plantel ano atrás anos desde a sua chegada ao SL Benfica mas os resultados apenas têm piorado substancialmente as performances anteriores. Entre os confrontos no balneário e os erros tácticos, o crédito de Jesus esgota-se a pouco e pouco num estádio da Luz que continua sem saber o que é vencer um titulo durante duas épocas consecutivas desde os anos 80.
1983/84.
Esse foi o último ano em que o SL Benfica logrou revalidar o titulo de campeão nacional. Com uma das melhores e mais eficazes formações da sua história, comandadas pelo sueco Sven-Goren Eriksen, o conjunto encarnado confirmou a sua superioridade a nível doméstico batendo pelo segundo ano consecutivo o FC Porto. Uma equipa em que militavam nomes sagrados da história do clube encarnado, de Nené a Chalana sem esquecer Bento, Carlos Manuel, Manniche, Stromberg, Filipovic, Álvaro. Uma equipa desenhada com outra mentalidade e que não encontrou eco nas quase três décadas seguintes. O Benfica voltou a ser campeão - por seis vezes, apenas - mas nunca de forma consecutiva. O saber ganhar e a mentalidade que marcaram a era dourada encarnada tinha desaparecido e sido substituída pela hegemonia do FC Porto a nível interno e externo.
A chegada de Jorge Jesus e o seu título, logrado na primeira época ao serviço do clube, levantou nas hostes encarnadas um profundo desejo de voltar ao passado, a essa filosofia de vitória contra tudo e contra todos. Mas dois anos depois, o legado de Jesus foi desmantelado progressivamente, em parte por culpa da política vendedora obrigatória para qualquer clube português mas, sobretudo, pela gestão do técnico no balneário encarnado. Jesus perdeu Ramires, Di Maria e Coentrão, é certo, mas a essência do plantel do primeiro titulo acompanha-o ainda e pelo caminho na Luz viveu-se uma espiral de contratações e dispensas que relembra mais o desnorte da década de 90, das etapas de Manuel Damásio e Vale e Azevedo, do que de um clube que quer algo mais.
Em 2010 o conjunto encarnado venceu a liga com um bloco forte e um modelo extremamente ofensivo. Mas já então se percebia a falha na estratégia de Jesus. Depois de uma primeira volta intensa, com várias goleadas pelo caminho, a equipa perdeu gasolina. A incapacidade do técnico de dosificar os seus principais jogadores permitiu uma aproximação dos rivais directos. O FC Porto, em modelo auto-destructivo e sem Hulk, afastado da competição durante largos meses, venceu o confronto directo que os distanciava mas então a luta já era com o Sporting de Braga, uma equipa com menor plantel mas que soube administrar bem as pernas e manteve o duelo aceso até ao fim. Na euforia da vitória poucos foram os que viram os sinais que se repetiriam no ambicioso projecto do ano seguinte.
Em 2010/11 o Benfica pecou como nunca. Pecou de arrogância e pecou de gula.
Jesus dispensou o guarda-redes do titulo com uma frieza que repetiria no futuro e apostou tudo num espanhol que chegou à Luz num negócio difícil de explicar. Pecou nas contratações - especialmente para tapar as baixas de Di Maria e Ramires - e pecou no esquema que adoptou, partindo literalmente a equipa entre o ataque e a defesa, especialmente a partir do momento em que o homem encarregado de apagar todos os fogos, Ramires, já não estava. E pecou de arrogância quando declarou que ambicionava o titulo europeu e concentrou as suas atenções na prova rainha, desgastando fisicamente os seus jogadores de uma forma demencial. Quando a eliminação precoce na prova dos milhões se confirmou, já o FC Porto levava uma profunda vantagem pontual e emocional - com goleada ao rival directo incluida - e as pernas dos encarnados não permitiam sonhar com uma recuperação. Começaram a sentir-se as primeiras fissuras no balneário e Jesus, em vez de surgir como elemento aglutinador, especializou-se em ser o causante das fricções.
No final do ano desfez-se do útil Carlos Martins, da aposta Roberto e foi afastando dos seus planos os determinantes Saviola e Cardozo apesar deste, inevitavelmente, continuar a disputar a titularidade á base de golos. Na última temporada foram Eduardo e Ruben Amorim a cair em desgraça com um técnico que não os poupou publicamente abrindo ainda mais o fosso entre plantel e corpo técnico. Os resultados, nem assim, chegaram. Não podiam. Tacticamente a equipa continuava perdida, órfã da ideia original, e quando a vantagem pontual parecia ser suficiente, uma vez mais a péssima preparação física dos titulares e os erros tácticos de Jesus entregaram de bandeja o troféu ao rival, o improvável FC Porto de Vitor Pereira. Dois anos depois tudo aquilo que tinha feito de Jesus um treinador popular nas bancadas da Luz começava a virar-se contra ele. A direcção encarnada manteve a aposta no treinador - uma decisão que tem tanto de lógica como de inevitável, depois do discurso presidencial se ter unido de tal forma ao destino do técnico - e a máquina mediática continuou a lançar mensagens de optimismo mesmo quando o clube encarnado passou largos jogos da época 2011/12 sem utilizar um só português (antes um conceito profundamente defendido pela massa adepta encarnada, o último clube a contratar um estrangeiro no futebol português).
Assemelhando-se a técnicos de outro tempo, Jesus tem-se dedicado a comprar e dispensar jogadores com uma voracidade ilógica para quem quer criar um projecto de futuro. Emerson foi o último a sofrer o seu chicote, dispensado sem perdão depois de ter chegado apenas há um ano do campeão francês Lille. Ao espanhol Capdevilla espera-lhe talvez um destino similar. Dos jogadores actualmente no plantel, 21 foram contratados pelo técnico em três anos. Entre 2009 e 2012 chegaram 40 jogadores novos ao clube. Uma média inédita nos clubes de topo europeu e uma lista onde se contam enésimos erros de autor, escolhas pessoais de Jesus como Patrick, Shaffer, Carole, Wass, Jara, Fábio Faria, Roberto, Felipe Menezes, Weldon, Kardec, Airton, Djaló, Emerson ou Perez.
Jogadores que chegaram, não triunfaram e foram dispensados, encostados, emprestados ou inutilizados. Sob a mitologia de técnico de jogadores, técnico capaz de valorizar jogadores de baixo perfil, esconde-se o verdadeiro rosto de um técnico que erra muitíssimo mais do que realmente acerta.
Jesus entregou ao Benfica um dos dois títulos da última década, um feito notável tendo em conta as últimas três décadas do clube encarnado no futebol português. Mas há muito tempo que mais um problema do que a solução. A sua actuação no mercado e os problemas tácticos crónicos têm prejudicado claramente a progressão de um clube que gastou o que tinha e o que não tinha para reduzir a distância competitiva com o principal rival nacional. Mais do que erros semânticos e uma politica de comunicação anedóctica, em cinco anos de gestão, não só a diferença se mantém em títulos conquistados como na gestão desportiva. Jesus chegou como o profeta que ia igualar a balança. Com ele ao leme ela parece mais desequilibrada do que nunca.
O PSG segue o mesmo caminho que o Manchester City. É o espelho onde se quer ver reflectido. Aos citizens foram precisos quatro anos de sérias inversões para quebrar uma barreira história. O PSG que acelarar os prazos. Depois da derrota mais surpreendente, no sprint final da Ligue 1 do ano passado, o titulo nacional é o objectivo mínimo do clube para esta temporada. Com as novas incorporações a Europa é tudo aquilo que interessa.
Zlatan Ibrahimovic é a última estrela da companhia.
A sua chegada a Paris supõe o consagrar de uma politica de contratações que precisava de um jogador mediático para coroar o seu processo de consolidação internacional. Da mesma forma que as chegadas de Balotelli, Silva e Tevez deram ao Manchester City o pedigree necessário, o projecto pari movia-se na consciência de preencher o seu papel de líder com um jogador que nasceu para ser protagonista. Ibrahimovic era o único no mercado que cumpria esses requisitos. O sueco não traz só glamour e classe ao conjunto da capital gaulesa. Sobretudo traz uma imagem que vender e um bandeira para ondear nos mercados onde o clube se quer mover a partir de agora.
O PSG podia ter adoptado por diversos caminhos no seu sprint rumo ao sucesso imediato, um sucesso pago a peso de ouro. Ancelotti e Leonardo não se contentaram só com comprar muito e depressa. Queriam contratar jogadores contrastados e eficazes. Foi assim com Nené, Gameiro, Menez e Sirigu na época passado e este ano com Lavezzi, Thiago Silva e Ibra. Atletas que terão seguramente dificuldades em associar-se num principio num onze com demasiados nomes próprios mas que acabarão por marcar a diferença, particularmente numa liga como a francesa.
100 milhões de euros gastos mas quase sempre na mesma direcção. Apesar da perda de protagonismo da Serie A, a dupla forjada no AC Milan fez de Itália o seu campo preferencial de recrutamento. Marco Verrati, a grande promessa do meio-campo transalpino, foi a última das sete contratações que chegaram da liga italiana nos últimos dois anos para o clube parisiense.
Da mesma forma que o Manchester City começou a sua campanha de aquisição de jogadores com atletas de perfil médio mas atraidos por excelentes propostas salariais, o PSG sabe que não tem ainda o estatuto internacional para trazer os melhores jogadores disponíveis. A previsão do clube está em criar um núcleo base e ir substituindo progressivamente os jogadores contratados agora por estrelas num futuro imediato.
A ambição do clube é evidente e está muito para lá da Ligue 1. O sonho, tal como do City, é vencer a Champions League mas o (mau) exemplo dos ingleses na passada época levanta vários alertas.
A derrota frente ao modestíssimo Montpellier foi seguramente uma lição difícil de aprender mas extremamente valiosa para os homens da capital. Ninguém espera outro cenário que não seja a vitória do conjunto da capital na próxima edição da Ligue 1. Nem que seja porque Ibrahimovic, se em algo se especializou, foi sagrar-se campeão nacional em todos os clubes onde esteve. Palavra de sueco.
Mas a Champions League hoje tornou-se no alvo de todos os investidores árabes que chegam ao futebol com vontade de triunfar de forma imediata. Face ao nível intocável dos dois grandes espanhóis e a solidez financeira do Bayern Munchen e dos clubes de magnatas de outros países (Chelsea, Arsenal, United), a ambição pode às vezes com a própria realidade.
O facto de nenhuma equipa desde o Olympique Marseille de 1993 ter vencido o torneio é o espelho de uma realidade competitiva com a qual o futebol gaulês não lida bem. A presença na final do AS Monaco em 2004 e do Olympique Lyon nas meias-finais de 2010 foram casos singulares que se deveram mais aos caprichos dos sorteios do que necessariamente a uma tendência que veio para ficar. O PSG, que mais do que representar França representará os petrodolares que deram nova vida a um clube que há anos estava em sarilhos financeiros sérios, quer inverter essa realidade mas para isso precisa mais do que jogadores e técnicos de top. A mentalidade neste tipo de torneios acaba por ser, tantas e tantas vezes, mais importante que os nomes do plantel.
Ninguém duvida que nos próximos anos, se o investimento continuar a este ritmo, possa apresentar uma equipa capaz de tutear os maiores nomes do Velho Continente. Essa é a realidade do peso financeiro que já dictou que o Manchester City vencesse a Premier League depois de 44 anos de fome de títulos. Mas a progressão, por muito que pese a um Zlatan Ibrahimovic, ansioso de levantar o único troféu que lhe falta, tardará e de ser rei da Gália, os parisienses terão de suar muito para proclamarem-se senhores da Europa.
O grande sucesso do Barcelona na última década parte da base primordial na aposta na formação. Uma área mitificada pela construção da Masia nos anos 70 mas que só com a chegada de Louis van Gaal se tornou numa prioridade para os dirigentes do clube. Mas essa relação histórica entre a primeira equipa e a cantera parte de um principio de desconfiança histórica. O exemplo perfeito são os 65 milhões gastos nos últimos anos para recomprar o producto da formação a quem o clube não viu futuro. Piqué, Fabregas e agora Jordi Alba, nomes próprios de uma história com muitos parêntesis.
Piqué chegou em 2008 ao clube a preço de saldo.
Alex Ferguson acreditava que a sua incapacidade no jogo aéreo era um problema e deixou-o voltar a Barcelona. O Manchester United tinha contratado o catalão quando este cumpriu 16 anos. O clube blaugrana não lhe augurava futuro e ofereceu-lhe um contrato de tostões. Aconselhado pela familia - históricos dirigentes do clube - Piqué aceitou a proposta dos Red Devils e partiu para Old Trafford. Durante quatro anos tentou entrar nas contas do técnico escocês mas sem grande sucesso, tendo sido emprestado durante uma época ao Zaragoza. Cansado de esperar por aquele que viria a ser um dos melhores centrais do Mundo, Ferguson permitiu-lhe negociar com o Barça de Guardiola. Por 5 milhões de euros.
Cesc Fabregas, amigo de formação de Piqué e de outro rapaz a quem o clube sim prestou mais atenção - um tal de Lionel Messi - também teve de encontrar espaço em Inglaterra porque na Masia pensavam que a sua adaptação às exigências do futebol profissional seria complexa. Fabregas percorreu os mesmos passos de Piqué nas camadas de formação e a custo zero marchou para Londres onde Wenger lhe prometeu protagonismo. E teve-o. Tornou-se no maestro do meio-campo do Arsenal e depois das saídas de Henry e Bergkamp, o lider espiritual do projecto gunner. Referência absoluta do jogo do Arsenal, sofreu ano atrás ano com o desejo de incorporar-se a uma equipa que, pela primeira vez, estava a fazer exactamente aquilo com que ele sonhava de pequeno. Com o seu mentor como técnico, o seu idolo de maestro e os seus colegas de formação de protagonistas, a Fabregas jogar no Barcelona era mais do que um desejo, tinha-se tornado numa necessidade. O negócio, a duras penas, concretizou-se finalmente em 2011 por 45 milhões de euros.
Esta Verão junta-se a esta dupla outro filho rejeitado da Masia. Quando era pequeno, Jordi Alba jogava de extremo e era uma das máximas referências das equipas de infantis do Barcelona. O seu protagonismo era tal que foi escolhido para protagonizar, com Louis van Gaal, o video de inauguração das obras do novo centro de treinos. Mas, de um momento para o outro, o clube desprendeu-se dele e Alba teve de deixar o seu sonho encostado num canto enquanto convencia Unay Emery, em Valencia, de que era o jogador que ele procurava. O técnico basco transformou-o em lateral ofensivo e fez dele uma das referências de futuro para o futebol espanhol. Sem Capdevilla ou Arbeloa, o seleccionador Vicente del Bosque não hesitou em entregar-lhe o flanco e Alba correspondeu com um torneio inesquecível. Pelo meio apareceu, arrependido, o Barcelona e por 14 milhões (um negócio facilitado por este ser o seu último ano de contrato com os che) o jovem lateral cumprirá o seu sonho.
São três casos que exemplificam bem como o clube blaugrana sempre lidou mal com a sua própria essência.
Nos anos 70, quando chegou a Can Barça, Laureano Ruiz, o homem por detrás do espirito de rondo e da Masia - ainda por construir - queixou-se que os dirigentes do Barcelona eram os que menos acreditavam nos seus próprios jogadores. As declarações de Xavi Hernandez, revelando que o clube pensou vendê-lo por várias vezes, antes da chegada de Guardiola, dão-lhe razão.
Apesar de agora vender a aposta na formação como uma imagem quase exclusiva, o Barcelona sempre foi um clube de negócios, de mercado e muito pouco de formação. Quando Johan Cruyff, outro dos teóricos da revalorização da cantera, chegou a Barcelona, a primeira coisa que exigiu a Josep Lluis Nuñez foi a contratação de um batalhão de jogadores bascos, entre os quais Andoni Zubizarretta, Julio Salinas, Andoni Goikotchea e José Maria Bakero porque considerava que os alunos da formação blaugrana não tinham capacidade mental para aguentar a alta competição.
Durante o arranque do Dream Team apostou apenas em três jogadores da casa, Luis Milla primeiro, e depois Josep Guardiola e Albert Ferrer. No meio das estrelas compradas a peso de ouro (Romário, Koeman, Stoichkov, Laudrup) e de jogadores do norte do país, esse foi o impacto real do cruyffismo na aposta determinante pela formação do clube catalão.
Durante a década que mediu a saida de Cruyff e a chegada de Rijkaard, o clube viveu tremendos altos e baixos, financeiros e instituicionais, mas pela mão de Louis van Gaal alguém finalmente compreendeu a importância real da Masia. Quando o técnico holandês - a quem não se lhe conhece sentimentos pró-catalães - declarou que o seu sonho era ganhar uma Champions League com onze jogadores formados na Masia, a imprensa da cidade Condal riu-se, os jogadores riram-se, os directivos riram-se e Guardiola fechou os olhos e sonhou. Dez anos depois, em Londres, quase que logrou cumprir esse sonho. Com os homens a quem van Gaal deu oportunidades. Gaspart quis vender Valdés, Xavi e Puyol para pagar o investimento em Rustu, Christanval e Rochemback mas van Gaal apostou tudo neles. Também deixou depositadas esperanças em Luis Garcia, Oleguer Presas e Andrés Iniesta. Nomes resgatados de um túnel desconhecido para a maioria dos adeptos blaugrana. Rijkaard colheu os lucros imediatos, Guardiola aperfeiçoou o modelo e hoje a imprensa faz eco desse amor histórico entre as "gents" de Barcelona e os filhos da "Masia". Os casos de Piqué, Fabregas a Alba, resgatados a peso de ouro e vendidos agora como filhos pródigos que voltam a casa funcionam num espaço mediático onde a memória é escassa mas como eles há dezenas de outros jogadores que algum dia poderão voltar nas mesmas condições ao Camp Nou.
Tito Vilanova, outro filho da Masia que teve de ir fora para voltar para casa com galões aos ombros, poderá este ano alinhar mais do que um onze de miudos que passaram pela fabrica de formação. Valdés, Fontás, Puyol, Piqué, Alba, Busquets, Xavi, Iniesta, Fabregas, Cuenca, Tello, Thiago, Messi e até Pedro (que chegou a Barcelona já com 17 anos). Mas lembrando os 65 milhões gastos em três jogadores fica no ar a sensação de que se não fosse por dois holandeses como van Gaal e Rijkaard, talvez a directiva de Sandro Rossell tivesse de andar a pescar Iniestas, Xavis, Puyols, Valdés e Messis por esse mundo fora. O FC Barcelona sempre foi um clube com muitos esqueletos no armário. A sua politica de formação é, paradoxalmente, o maior de todos eles e, hoje em dia, a sua melhor arma para uma politica de comunicação que consegue multiplicar fora dos relvados os triunfos logrados sob o tapete verde.
Por um lado os clubes da Scotish Premier League fizeram jus à moralidade do futebol escocês ao rejeitar a inclusão do novo Glasgow Rangers na categoria máxima do futebol na Escócia. Por outro, prepara-se um movimento dissidente da liga para criar uma nova competição do zero com as vagas a ser ocupadas por convite. E o Rangers será o convidado principal desta festa. O país que reinventou o futebol há muito que perdeu o conceito de liga de prestigio. Agora tem de decidir entre a sobrevivência financeira e o desastre moral.
Uma liga à escocesa, discutida entre duas equipas anos sem fim, tornou-se parte da terminologia não oficial do jogo.
Exceptuando os anos 80, em que Aberdeen e Dundee United foram realmente equipas capazes de desafiar os dois grandes de Glasgow, o futebol para lá da muralha de Adriano tem sido coto privado do Old Firm. Séries de uma década consecutiva de títulos de um só clube ajudam a explicar bem o fenómeno curioso de um país que recebeu o futebol das planícies inglesas e transformou-o por completo na sua infância. Escócia ensinou o resto do Mundo uma forma de jogar que se afastava do ideário original inglês e na viragem do século XX a cidade de Glasgow não tinha só três dos maiores estádios do Mundo, tinha também três dos maiores clubes.
Mas o Queens Park desapareceu e com o passar dos anos a Celtic e Rangers passou a ser difícil combater o poderio financeiro dos rivais britânicos. A nova Champions League marcou o final da importância da Escócia no futebol europeu, o primeiro país do norte da Europa a vencer a Taça dos Campeões, em 1967, e reduziu a liga escocesa a quatro jogos ao ano, a repetição do Old Firm nesse formato original de todos contra todos quatro vezes ao ano. Os negócios televisivos dependiam sobretudo desses duelos, os sponsors, inversores e o próprio público vivia o ano para poder desfrutar desses 360 minutos de futebol.
No meio dessa dependência, a falência definitiva dos protestantes da cidade portuária coloca o futebol da Escócia em cheque. O clube desapareceu do mapa e foi refundado, com o mesmo nome, mas forçado a competir a partir da Third Division, o quarto escalão do futebol escocês, o berço do amadorismo das Highlands. A situação do Rangers não é particularmente distinta à do Parma, Fiorentina ou Nápoles, casos similares que nos últimos 10 anos abalaram o futebol italiano. Mas nenhum desses clubes significa o mesmo para o Calcio que o Rangers para a SPL. Num acto de desespero, os novos donos do clube tentaram comprar as acções do antigo Rangers, o que significava ocupar o seu lugar na primeira divisão. Numa reunião dos restantes clubes, a proposta foi vetada. A liga escocesa cometia hara-kiri financeiro mas mantinha os seus padrões morais bem altos.
É dificil entender num mundo desportivo a ausência de rivalidades que são, de certa forma, a mecânica do próprio jogo.
As grandes rivalidades são as que fazem crescer as competições, as que alimentam ilusões, adeptos, imprensa e todo o mundo que se move à volta do futebol. Quando a Juventus voltou do inferno da Serie B, os adeptos do AC Milan, o seu grande rival, receberam-nos com uma tarja que só dizia "Isto não é o mesmo sem vocês!". Em Espanha ninguém pensaria numa liga sem Real Madrid ou Barcelona, em Portugal ninguém se atreveria a despromover SL Benfica ou FC Porto e mesmo em países como Inglaterra, onde há campeões europeus a disputar o Championship, a tradição joga um papel fundamental. Do outro lado do Atlântico, na Argentina, criou-se um sistema rudimentar para evitar a despromoção dos grandes e mesmo quando, nem assim, o River Plate se salvou do abismo, tentou-se tudo até ao último dia para revogar uma decisão estabelecida no próprio tapete verde.
O Rangers acabou porque foi um dos clubes piores geridos da história do futebol. Num país sem mercado, viveu-se acima das expectativas demasiadas vezes e os azuis foram até ao extremo. A mesma situação talvez que o Leeds United, outro grande a passar horas de amargura, mas que não significou a despromoção efectiva no terreno de jogo porque o abismo entre clubes continua a ser imenso. A razão - e por razão entendemos os aspectos financeiros - diz que sem o Glasgow Rangers na elite durante quatro anos, o futebol profissional escocês pode estar perto do fim, tal como o conhecemos. Não apenas porque não haverá discussão pelo titulo mas porque a injecção de dinheiro, já de por si escassa, acabará e a maioria dos clubes poderá ter que fechar portas. Com os dois grandes de Glasgow na liga o dinheiro chega a todos e permite que clubes em situações problemáticas se mantenham vivos. E no entanto foram esses mesmos clubes que votaram contra o regresso do novo Rangers. Uma decisão moralmente perfeita que espelha bem a natureza de uns povos face a outros. Despromovido porque tinha de o ser, de acordo com a legislação em vigor, o Rangers não pode estar acima da lei apenas pelo que representa. Ou então não haveria lei. Por muito que doa ao bolso e às emoções do futebol na Escócia.
E no entanto, como é previsível, isto não acaba aqui. Aqueles que dependem do dinheiro para manter-se vivos no negócio, aqueles que trocam a moralidade do jogo pela amoralidade do cartão de crédito, procuram agora alternativas. A mais forte seria a da criação de uma nova prova, independente da liga ou da federação, num principio, funcionando por convite. O convite seria enviado a todos os clubes que estão actualmente na SPL, incluindo o Rangers. Inicialmente o grupo por detrás da iniciativa, fortemente ligado ao Celtic Glasgow - o clube que mais tem a perder, paradoxalmente, com esta situação - ponderou não convidar aqueles que vetaram o regresso dos protestantes mas numa medida de conciliação a ideia é, pura e simplesmente, de clonar a Scotish Premier League num novo formato, acima da lei.
Esta novela está só nos primeiros capitulos e ninguém é capaz de antever, com claridade, como irá terminar. Se a moral do jogo, que a maioria esmagadora dos adeptos escoceses defende a capa e espada, prevalecer, o novo Rangers terá de cumprir com a sua particular via crucis antes de voltar à elite. Mas com o contrato televisivo com a Sky por assinar e o fantasma da crise internacional sobre as suas cabeças, o dinheiro poderá falar mais alto e a lei talvez acabe por ser guardada numa gaveta de tão incómoda que ás vezes é!
Não deixa de ser paradoxal que o clube mais bem sucedido do futebol espanhol esteja há mais de uma década a remar contra a ideologia que trouxe os maiores triunfos e elogios ao futebol do país vizinho. Mas a chegada de Florentino Perez provocou uma profunda mudança na mentalidade desportiva do Real Madrid, o primeiro clube de topo do futebol mundial a utilizar a sua cantera como fonte de negócio rentável.
Cantera, cantera e cantera.
O futebol espanhol não se cansa de repetir, de peito feito, a palavra que está por detrás da base dos últimos titulos logrados. O trabalho de formação do futebol espanhol foi fundamental para o salto qualitativo que, a final dos anos 90, a esmagadora maioria dos clubes espanhóis deu. Hoje é sinónimo da politica de sucesso do FC Barcelona (com alguns pontos negros que analisaremos nos próximos dias), mas também do Espanyol, Villareal, Real Sociedad, do Sevilla, do Athletic Bilbao, do Rayo Vallecano e com clubes que a utilizam menos do que deveriam, casos de Valência, Atlético de Madrid ou Mallorca. É o que está por detrás da mutação táctica do futebolista espanhol, da politica de valores morais que alterou profundamente o rosto do desportista do país vizinho. E no entanto, para o Real Madrid, o mesmo da geração dos Ye´s-Ye´s (campeão europeu em 1966) ou da Quinta del Buitre, a cantera tem outro objectivo: nutrir os cofres do clube.
Desde 2000 até agora, época em que começou o episódio galáctico de Florentino Perez (com um breve hiato de três anos de Ramon Calderon), só Iker Casillas cumpriu o sonho de tornar-se em figura importante do plantel principal depois de ter sido promovido de forma directamente do Real Madrid Castilla, a única equipa B da história que disputou uma final da taça do seu país, em 1980, contra o próprio Real Madrid. Mais ninguém!
La Fabrica, como Di Stefano baptizou as camadas de formação dos merengues, tal como La Masia, não deixa de produzir ano atrás ano novos talentos, dignos de entrar nos quadros da maioria dos clubes do futebol mundial. E porque é que em Madrid não há espaço para o producto local? Onde vão todos estes talentos? A resposta está espalhada um pouco por esse mundo fora.
Roberto Soldado, dianteiro internacional do Valencia. Juan Mata, campeão europeu com o Chelsea. Alvaro Negredo, campeão europeu do Sevilla. Juanfran, vencedor da Europe League com o Atlético de Madrid. Rodrigo, Ruben de la Red, Javier Portillo, Miguel Torres, Pablo Sarabia, Diego Lopez, Esteban Granero, Alvaro Arbeloa, Javi Garcia, Dani Parejo, Jose Callejon ou Dani Carvajal.
Nomes próprios que o adepto comum conhece mas dificilmente os associa com o clube da capital.
Salvo os casos de Arbeloa, Granero e Callejon, recomprados nos últimos anos por 7,5 milhões no total, a totalidade dos restantes jogadores (a lista completa inclui outros 20 nomes que disputam as principais ligas da Europa) vestiu apenas de forma ocasional, a camisola do Real Madrid. O caso mais paradigmático foi o de Negredo. Vendido ao Almeria com opção de recompra, prática habitual dos clubes espanhóis, foi adquirido pelo clube no último dia do prazo depois de dois anos de excelente rendimento. O objectivo: revendê-lo ao Sevilla de forma definitiva.
Desde 2000 até hoje, o Real Madrid vendeu um plantel inteiro de jogadores formados na sua casa por valores que rondam os 80 milhões de euros. Um valor que não chega sequer aos 100 milhões gastos em Cristiano Ronaldo mas que têm sido fundamentais para equilibrar as contas do clube. Anualmente o clube logra receber entre 5 a 12 milhões de euros vendendo apenas jogadores do Castilla, números que muitos clubes são incapazes de igualar se falamos em jogadores do seu plantel principal. Ao contrário do Barcelona, que procura colocar no plantel principal anualmente jogadores da sua cantera, Iker Casillas ainda espera sucessor.
Com a saída de Raul Gonzalez e Guti, é o último porta-estandarte da formação e não perpectiva um sucessor nos próximos tempos. Originalmente o pretexto estava na divisão por onde jogavam os jogadores do Castilla, a Segunda Divisão B. Mas durante a mesma década o clube esteve por duas vezes (foi promovido este ano) na Liga Adelante, motivo que não foi suficiente para aproveitar algumas das suas mais valias. Os adeptos merengues, habituados a ver os mais sonantes jogadores do futebol mundial, sentem agora a diferença com o projecto do Barcelona e pedem mais jogadores da casa na primeira equipa. Mas a verdade é que esse fenómeno é bastante recente e no primeiro mandato de Perez eram vários os que defendiam a politica de vender cantera para comprar com a "cartera llena", os Figo, Zidane, Ronaldo, Beckham e companhia.
Os homens do clube defendem que cada venda conta com uma opção de recompra a baixo preço (usada nos casos supracitados) e que se um jogador desponta o Real sempre pode recuperá-lo. Mas a verdade é que esses casos têm sido pontuais. E com o fantasma da regra do 6+5 que a UEFA tanto quer fazer valer, há algo nesta politica desportiva que terá de mudar para que, finalmente, os "milros" do Castilla possam sentir na pele o verdadeiro peso da camisola branca.
A decisão da Liga Portuguesa de Futebol apanhou todos de surpresa. Numa situação económica sem paralelo na história do desporto português, a Liga acabou com uma das fontes de sustentabilidade da esmagadora maioria dos clubes profissionais portugueses. Mas também colocou o ponto final a uma politica de obscuro controlo politico por parte dos clubes grandes sobre a imensa minoria dos pequenos e médios clubes. Financeiramente desastrosa a medida de acabar com os empréstimos na Liga Sagres não deixa de ser moralmente necessária.
Podem os clubes portugueses sobreviver a uma medida que eles próprios aprovaram contra o seu interesse?
Esse espiro auto-destructivo do nosso futebol é único no Mundo. Numa prova onde mais de 80% dos clubes contam com jogadores emprestados (na esmagadora maioria mais do que 3 até), terminar com os empréstimos parece um contra-senso. E financeiramente é mais do que isso, um verdadeiro hara-kiri. Equipas da segunda metade da tabela que vivem sobretudo do fluxo de empréstimos que chega dos grandes terão agora de encontrar plantéis competitivos pagando do seu próprio bolso o que até agora era maná dos céus. Terão de procurar dinheiro onde ele não existe - na situação actual, com emprestados, ele já é uma utopia - para fechar os plantéis para a próxima temporada e para arcar os gastos salariais de 100% dos jogadores, algo que até agora só seis clubes em Portugal o faziam.
E isso quando é hoje em dia bastante proveitoso apostar o que quer que seja no www.casinoonline.pt ou num outro site de apostas num jogador português.
A medida, de tão drástica que é, pode parecer anedóctica. Afinal, se a ideia era acabar com a politica de empréstimos havia sempre opções mais tolerantes, como proibir o número máximo de jogadores emprestados num clube ou proibir igualmente a proveniência de mais do que um jogador do mesmo clube de origem. Mas nenhum desses cenários, à inglesa, foi contemplado. De um golpe só a Assembleia Geral, numa proposta do Nacional da Madeira secundada pelo Sporting CP, declarou guerra ao poder instituído de FC Porto e SL Benfica tentando minimizar assim a sua asfixiante influência junto dos clubes pequenos do nosso futebol. Porque se há algo que é evidente neste conflicto é a absoluta falta de moralidade de um sistema que foi criado para ajudar a desenvolver jovens jogadores das equipas grandes e para resolver problemas pontuais dos clubes médios e pequenos e que acabou por se tornar numa forma controlada de exercício de poder por parte de águias e dragões.
O cenário é fácil de analisar.
FC Porto e SL Benfica descobriram há alguns anos que melhorar as relações com clubes "aliados" passava, muitas vezes, pelo simples gesto de garantir facilidades em empréstimos dos seus excedentes. Desde 2002 até hoje o tamanho dos quadros oficiais de jogadores de ambos os clubes duplicou e com mais de 20 jogadores sob contrato e sem colocação, a politica de emprestar para ganhar influência na tomada de decisões da Liga tornou-se evidente. Ambos os clubes estabeleceram laços com várias instituições, emprestando dois, três, quatro, cinco e até seis jogadores num só ano. Jogadores de talento, jogadores cujo o salário era habitualmente pago na totalidade pela casa mãe e jogadores que saiam duplamente grátis o que permitia, a curto prazo, que um plantel de 25 composto por seis ou oito emprestados levasse os clubes a gastar o que não tinham noutros jogadores, especialmente estrangeiros, muitas vezes com comissões de empresários afiliados aos clubes grandes com quem mantinham relações. Essa forma de mover dinheiro e influência resultou enquanto a crise não apertou forte.
Poucos questionavam os planteis gigantescos dos dois grandes, poucos criticavam os negócios pouco claros entre grandes e pequenos com jogadores que surgiam do nada e poucos pensavam que o dinheiro que os pequenos e médios clubes podiam ter poupado com isto estivesse a ser mal gasto em negócios com empresários escolhidos a dedo. Mas a crise chegou e para todos.
Primeiro os clubes grandes começaram a perceber que ter tantos jogadores sob contrato podia ser um problema e começaram a emprestá-los para clubes estrangeiros que, esses sim, já se faziam cargo de partes substanciais da sua ficha salarial. Por outro, os clubes pequenos deixaram de ter dinheiro liquido para investir e tornaram-se ainda mais dependente dos empréstimos. O caso da União de Leiria é paradigmático mas não é único.
Mas é preciso ver realmente quem está por detrás desta ideia. Clubes como o Feirense, que apostam em jogadores a custo zero, jogadores nacionais e jogadores que pertencem ao clube. Clubes que são incapazes de acreditar como há equipas que ano após ano se salvam agonicamente da despromoção com planteis cuja metade dos jogadores vem de um dos grandes, num autêntico acto de concorrência desleal. Clubes que, na segunda divisão, sabem quanto custa fazer um clube sustentável e competitivo e que, quando entram na elite, têm dificuldades em sobreviver se não entram no esquema de protecção de um dos grandes.
A reunião da Assembleia Geral contou com 9 votos contra, 1 abstenção e 19 votos a favor. Os clubes que apoiaram a iniciativa foram, esmagadoramente, os clubes da Liga Orangina. Eles, que este ano não terão de se confrontar com a lei, sabem que subir à primeira divisão será complicado mas, uma vez aí, o fosso entre os que já estão a lutar pela despromoção e eles será claramente inferior com esta medida.
O fim dos empréstimos é um caos financeiro mas é também uma porta aberta para o futebol português.
Juntamente com o aparecimento das equipas B e a necessária reorganização dos direitos televisivos, é uma medida que não só ajuda a limpar moralmente a competição como contribuiu, na sua essência, para uma nova aposta na formação. Os clubes, sem poder viver dos empréstimos, e sem dinheiro para ir ao mercado terão, forçosamente, de recorrer aos jogadores da casa. O mais provável é que se assista a uma maior quota de jogadores portugueses de formação própria nos clubes nos próximos anos. Mais, os clubes grandes, até agora habituados a comprar os jogadores que mais rapidamente se destacavam em emblemas inferiores, sabendo que os podiam usar como isco durante os anos seguintes, terão agora de pensar duas vezes. Contratar um jogador que não funcione no esquema da equipa principal acontece a qualquer um, mas nem todos estarão preparados para passar para a equipa B (o caso do benfiquista Djaniny é um bom exemplo) nem para ser emprestados ao estrangeiro, movimentos que aos clubes não traz nenhum lucro financeiro e politico. Sendo assim, com o dinheiro a escassear, os planteis a emagrecer, o aparecimento das equipas B como ponte de transição para os juniores, os grandes deixam de ter necessidade de atacar o mercado da mesma forma e jogadores como Hugo Vieira ou Fabiano, poderiam passar mais uns anos no seu clube de origem o que, a médio prazo, significa uma profunda melhoria dos clubes da classe média portuguesa, os que desapareceram nos últimos 10 anos, clubes como o Boavista e Belenenses, Vitória de Guimarães ou Maritimo, a maior parte dos quais passando a depender de uma politica de sobrevivência sem qualquer tipo de ambição.
Uma liga mais transparente é no entanto um conceito utópico no mundo do futebol. Seguramente que haverá manobras para contrariar a lei. Em Itália utilizam o método da co-propriedade, em Espanha o da venda com cláusula de recompra por valores irrisórios e ninguém põe de parte que uma nova directiva da Liga, pura e simplesmente procure eliminar a medida para agradar a águias e dragões. Mas o primeiro e necessário passo foi dado. Haverá clubes que irão sofrer mais do que outros com esta medida porque têm dependência crónica dos empréstimos e esses serão os primeiros a desaparecer. Mas a médio prazo a medida pode não só agilizar a aposta na formação e nos jogadores nacionais como restabelecer um equilíbrio no meio da tabela que só ajudará a fazer da Liga Sagres uma prova ainda mais competitiva.
No mesmo dia o futebol português assistiu a mais uma cena digna do surrealismo em que se move há alguns anos. Um clube campeão no sofá, outro derrotado no momento em que entraram em campo apenas oito dos seus jogadores. Apesar do que a UEFA diz, o futebol português vive dias negros e uma etapa para esquecer da sua história. O titulo de campeão vale pouco quando durante um ano os grandes, com orçamentos de dezenas de milhões, têm de se medir com equipas onde os jogadores não têm nem para viver. A Liga e a Federação continuam os seus jogos das cadeiras do poder, os grandes preocupam-se com ter uma maior fatia do bolo e os adeptos vendem-se à omnipresente SportTv para encontrar lá fora o espectáculo que ninguém vê cá dentro.
Faltam três jornadas para terminar o campeonato nacional de futebol.
Há duas, talvez três, equipas a disputar o titulo de campeão. Um titulo que sabe melhor quando se festeja no relvado, no final de um jogo, um titulo que para os adepto significa mais do que para os próprios directivos. O adepto vê motivo de orgulho para seguir acreditando, para pagar as quotas, os bilhetes, as viagens ou simplesmente para ter orgulho em levar a camisola no dia seguinte para o trabalho. O directivo vê números, sonhos europeus e contas para pagar. Porque o que há mais no nosso futebol são contas para pagar.
O Benfica joga em Vila do Conde, o Porto na Madeira. Uma vitória dos campeões em titulo deixa tudo em aberto para o duelo do rival. E quando o Benfica empata, o FC Porto pode sair à rua para festejar. Depois de um dia do seu jogo. Em Portugal há gestores que percebem pouco de gestão e há programadores que não entendem nada de programação. Além de ser evidente para todos que os duelos dos dois candidatos ao titulo deveriam ser disputados nas últimas jornadas de forma simultânea, não parece curioso que seja a equipa que pode celebrar primeiro o titulo a que jogue antes? Estamos a falar de uma Liga que entrega as taças e medalhas de campeões com meses de atraso, algo único no panorama europeu, por isso já nada nos surpreende mas fazia todo o sentido ter sido o Benfica a jogar no sábado e o FC Porto, caso o rival tivesse repetido o mesmo resultado, desfrutado no domingo com a possibilidade de fazer-se a si mesmo campeão. Mas o surrealismo português, esse servilismo a Joaquim Oliveira e esbirros destrói até os momentos mais puros e belos de uma temporada, aqueles em que os adeptos enchem a rua e expulsam as frustrações que levam no corpo.
Numa prova de 16 muitos têm motivos distintos para celebrar mas só um grupo de adeptos pode invadir o espaço público com aquele sorriso no rosto. No Dragão já estão habituados a festejar, são 17 títulos em 25 anos, números asfixiantes para qualquer prova que quer ser competitiva. Os jornais bem tentam vender ligas abertas, oportunidades reais para todos os grandes e para algum intrometido, mas a verdade é que o FC Porto mantém-se num escalão por cima da concorrência. Porque tem um orçamento de 100 milhões de euros, superior a muitos clubes europeus em ligas mais poderosas. Porque tem uma estrutura desportiva e administrativa sem igual no espaço português, imune ao populismo do momento e capaz de ver para lá do horizonte. E porque tem um plantel que, mesmo em horas baixas, é capaz de responder nos jogos a doer. Os azuis-e-brancos ganharam a liga nos duelos directos, na Luz e em Braga, aqueles jogos onde se pedia algo mais. Nos restantes encontros o nivel futebolístico foi miserável, a falta de personalidade do técnico principal um enigma e a postura de muitos dos jogadores, um karma. E mesmo assim, a dois jogos do fim, mesmo assim o FC Porto repetiu o titulo e deixou claro que em Portugal é preciso existir uma catástrofe desportiva para que sejam outros grandes e felizes adeptos a saírem para as ruas.
Do outro lado desta prova kafkiana, o desespero de quem teve de mandar para longe a família. De quem come ás custas dos outros e de quem não sabe em que buraco se meteu.
Foi a União de Leiria. Mas antes já foram Salgueiros, Campomaiorense, Alverca, Estrela da Amadora, Farense, Boavista ou Belenenses. Todos clubes com passado europeu, essa imagem de marca que fica na retina e que explica a incapacidade dos directivos portugueses de uma gestão responsável. Tarde ou cedo estes clubes endividaram-se demais, ficaram demasiado pendentes de dinheiro alheio e começaram a desmoronar-se. Dinheiro gasto em infra-estruturas impossíveis de rentabilizar, abandono progressivo da formação, negócios privilegiados com agentes de jogadores, o padrão é o mesmo e o final da história também. A União de Leiria já nem está unida e também já não é de Leiria. Os jogos na Marinha Grande são o espelho dessa hipocrisia social de um clube que tentou crescer de bicos nos pés, sem sequer uma massa adepta empática e disposta a jogar tudo no clube da sua terra. Não é algo novo, viveu-se isso no Algarve, no Alentejo e nos clubes dos subúrbios das grandes cidades.
Mas a realidade mascarada é bem pior. Em Guimarães, um histórico como há poucos, os jogadores levam meses sem receber. Em Setúbal essa realidade é a tónica da última década. Na Madeira os projectos do Maritimo e Nacional só sobrevivem graças ao apoio do Governo Regional. A Académica de Coimbra vive em números vermelhos e o Beira-Mar não sabe muito bem a quem pertence. Numa liga de 16 equipas provavelmente há cinco que têm os salários em dia, mas mesmo essas apresentam um passivo sério que o futuro tratará de dizer quão grave pode ser. O FC Porto e Benfica precisam do dinheiro das provas europeias para respirar. O Sporting é cada vez mais um clube dos bancos e só o Braga, timidamente, oferece outra versão de como deve ser o futebol.
Os oito jogadores que entraram em campo com a camisola da União foram forçados a fazê-lo, pelos clubes que os emprestam (outro cancro do futebol português, o empréstimo compulsivo) e pela vontade de pegar no primeiro dinheiro que caia do céu e fugir. Ninguém os pode acusar de nada a não ser de sobreviventes, como tantos que trocaram o futebol português pelo Chipre, Roménia, Bulgária, Suiça ou Grécia, onde pelo menos os salários chegam a tempo e as famílias têm um tecto. No dia em que Portugal repetiu o campeão, a União de Leiria repetiu a farsa de que significa esta liga de 16. Ampliar o torneio para 18 ou 20 equipas é o espelho perfeito da idiotice do gestor português e só pode terminar numa operação cirúrgica que faça o proporcionalmente inverso. Por muito que doa ao adepto, Portugal não tem dinheiro para sobreviver como país e portanto não tem mercado para uma liga de mais de 8 ou 10 equipas. Uma liga como a que já conta o futebol suíço, alguns países nórdicos e do centro da Europa, países que sabem a que realidade pertencem. Uma prova a quatro rondas, como sucede na Escócia, onde o equilíbrio e a qualidade sejam a nota. Há clubes grandes e pequenos em todos os lados mas seguramente que entendo os jogadores do novo campeão, os mesmos que querem emigrar, quando sabem que uma vitória por 1, 2 ou 3 golos contra um rival que não tem dinheiro nem para comer vale o que vale. Muito pouco.
Mas esta situação não passa nos telejornais, não aparece na imprensa e não ocupa a cabeça dos adeptos. Se por eles fosse a liga seria de 20 equipas, os bilhetes seriam de 5 euros, os horários televisivos respeitariam as familias e tudo estaria bem. Mas não está. Na próxima década a probabilidade de que se multipliquem ao ano casos com o do Leiria é tremenda. Os grandes vivem a sua particular via crucis mas mascaram as contas com negócios com fundos desconhecidos, empresários polémicos e vendas fantasmas. Ninguém quer saber, todos assobiam para o lado, afinal estamos em Portugal. O FC Porto é campeão português, a União de Leiria daqui a uns anos aparecerá nas divisões regionais, por onde andava há largas décadas. Nada irá mudar e no entanto poucos se importam. De certa forma é normal, afinal foi a pensar assim que chegamos até aqui. E se Portugal fizer um brilharete no próximo Europeu haverá mesmo quem escreva que somos um exemplo para o mundo. Pena que os adeptos do Leiria ou do Campomaiorense saibam que não é bem assim.