Quinta-feira, 15.08.13

Entrou pelas traseiras. Entre suspeitas de favores e de um rendimento decadente. Era uma promessa máxima que parecia que ia ficar pelo caminho. Num mês, tudo mudou. Autor de uma pré-temporada memorável, capaz de fazer esquecer a dupla ausência de Xabi Alonso e Illarramendi, o brasileiro Casemiro transformou-se em peça fundamental do esquema de Ancelloti. Terá ele as condições necessárias para ser o novo Pirlo do técnico italiano?

Agora está na moda gostar de Pirlo.

Agora, como quem diz. Nos últimos quatro anos, Andrea tonou-se um ícone do que há de cool no futebol.

É cool o penteado de Pirlo. É cool a sua barba. A forma como usa a camisola. O número nas costas. Os penalties que bate. Os livres perfeitos, os passes teleguiados. Até os erros de Pirlo são diferentes dos dos outros. Ao génio italiano passa-lhe como a Xavi Hernandez. São dois dos melhores futebolistas dos últimos vinte anos, nomes fundamentais da história do jogo moderno. E foi preciso os últimos anos para que se lhe desse o verdadeiro reconhecimento. Pirlo já tinha sido campeão europeu em 2003. Em 2007. Já tinha sido a figura fundamental - por cima de Buffon, Cannavaro e Totti - da Itália campeã mundial em 2006. E mesmo assim o Milan achou que estava datado. E mesmo assim muitos adeptos tardaram em entender a magia que dorme nas suas chuteiras em forma de varinha. Xavi foi assobiado no Camp Nou no ocaso da era Rijkaard. Pirlo também recebeu duras criticas nos seus dias derradeiros em San Siro, antes de resetear definitivamente a "Vechia Signora" com o seu bicampeonato. Quando o último moicano dos registas começou as suas andanças no jogo, o seu destino parecia ser radicalmente distinto.

Era o novo Baggio, o novo criativo na estela dos Rivera, Mazzolla, Conti e companhia, um criativo à solta no ataque, pronto a morder com o veneno de uma serpente a mais áspera defesa rival. Mas faltava-lhe algo.

O Inter - clube onde estava então - emprestou-o ao Brescia e foi aí que, ao lado de Baggio, o jovem Andrea percebeu que nunca podia ser igual ao "Codino Divino" mas que tinha condições para afirmar-se como um jogador radicalmente diferentes dando uns passos atrás no relvado. Chegado a Milão, num dos piores negócios da história dos neruazurri, Pirlo encontrou-se com um novo timoneiro, Carlo Ancelotti. O discipulo de Sacchi sabia que tinha na jovem promessa um diamante por trabalhar. Á sua volta montou uma equipa perfeita, com o trabalho físico de Gattuso, a inspiração de Rui Costa, o faro de golo de Shecvhenko e a resistência de Seedorf. Rodeado de jogadores de primeiro nível, Pirlo tomou a batuta, fez-se regista e entrou para a posteridade.

 

Os problemas físicos de Xabi Alonso e a ausência de alternativas levaram o Real Madrid a fixar-se em Illarramendi.

É um jogador fantástico, com um futuro brilhante e um preço talvex exagerado para o que já demonstrou e o que falta por demonstrar. A sua ausência, por lesão, dos principais jogos de pré-temporada vão forçá-lo a recuperar o ritmo e um posto para o qual já há um titular fixo (Alonso) durante a época. O que o basco talvez não contava era ter concorrência inesperada.

Se por um lado Ancelotti provou, com bons resultados, o croata Luka Modric como regista do jogo madrileño, apoiado como sempre em Sami Khedira e na arte da associação Ozil-Isco, a grande sensação da pré-época foi, sem dúvida, Casemiro. Um jogador que tem todas as condições para ser o Pirlo que Ancelotti procura.

Estrela precoce, Casemiro sempre habituou os seus seguidores ao mais extraordinário.

Queimou várias etapas na sua formação, tanto nas selecções jovens brasileiras (onde jogou ao lado de Neymar, Ganso, Óscar e Lucas Moura, ganhando quase tudo o que havia para ganhar), como no São Paulo. No clube paulista foi um dos mais jovens jogadores a alcançar os 100 partidos com a equipa principal, tudo isso antes de cumprir sequer 20 anos. Armador de jogo, recuperador de bolas nato, Casemiro passeava-se pelo meio-campo do "Sampa" com a autoridade de um veterano, lembrando talvez os dias gloriosos de Raí, o artesão dos títulos da era Telé Santana. Problemas num balneário conflituo, salários em atraso e um certo estancamento, como sucedeu a Paulo Henriques "Ganso", deixaram-no num beco sem saída. Para resolver o problema, o clube aceitou emprestá-lo em Janeiro ao Real Madrid com uma opção de compra de seis milhões de euros, bastante baixa para quem prometia tanto. Na segunda equipa dos merengues, o Castilla, o brasileiro entrou a dar cartas e fez-se figura fundamental chegando a ser chamado por José Mourinho para jogar com os titulares em duas ocasiões. Muitos pensavam que em Junho o jogador voltaria ao Brasil mas o Real fez efectiva a cláusula e Casemiro ficou.

E voltou a ser o de antes. O jogador atrevido, o autor de passes teleguiados, o recuperador de bolas cirúrgico, o médio capaz de bascular o campo ao seu ritmo, preciso nos passes, exacto nas antecipações, sempre com uma chispa de perfume e criatividade tão tipicamente sul-americana. Do nada, e com três nomes ilustres para o seu posto preferencial, Casemiro passou a sentir-se protagonista inesperado de uma narrativa que só agora está a começar.

 

É um jogador de um perfil que escasseia no Brasil e a sua afirmação pode ser uma brilhante notícia para Luis Filipe Scolari. Nele pode encontrar um pensador de jogo, um médio com força física para impor a sua presença e claridade mental para pautar o jogo ao seu ritmo. Uma eventual dor de cabeça para Luis Gustavo no meio-campo da canarinha como já é para Asier, Luka e Xabi no coração da cidade desportiva do Real Madrid. Para alegria de Carlo, o homem que vai contar com o meio-campo de artesões que faltou a José Mourinho nos útlimos quatro anos. Isco, Ozil, Casemiro, Modric, Illarramendi, Alonso, um sexteto de luxo para encarar, finalmente, olhos nos olhos, bola no pé, o eterno rival.



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Quinta-feira, 11.07.13

Em 2008 Josep Guardiola chegou à primeira equipa do Barcelona depois de realizar um trabalho notável com a equipa B do clube, que promoveu à segunda divisão depois de vários anos. O papel da Masia, a casa onde cresceu como homem e jogador, sempre foi fundamental na sua filosofia. Mas a direcção de Sandro Rossell, homem forte da Nike e com ânsias de protagonismo, sempre preferiu um modelo de "Globetrotters". As personalidades chocaram e foi Guardiola quem saiu. O resultado está à vista. Em pouco mais de um ano, há pouca esperança para a Masia.

 

No último ano de Guardiola, o que lhe custou os títulos com o Chelsea e Real Madrid, forçando-o a abandonar Camp Nou apenas com a Copa del Rey debaixo do braço, o papel da cantera foi tão importante como sempre.

Não só porque Sergio Busquets e Pedro Rodriguez - dois desconhecidos para a maioria dos próprios adeptos blaugranas - se tinham confirmado como titulares indiscutiveis do seu projecto, mas porque continuava a surgir gente nova com vontade de ocupar o seu lugar. O Barcelona chegou a efectuar jogos só com futebolistas formados em casa. Aos históricos Valdés, Puyol, Xavi, Iniesta e Messi, todos eles já em Can Barça quando Guardiola aterrou, juntavam-se Pique, Pedro e Busquets (parte da sua primeira fornada) e também o recuperado Cesc Fabregas e Thiago e Bartra (jogadores utilizados inicialmente nos dois anos seguintes à sua estreia). Onze futebolistas aos que se podiam começar a adicionar os estreantes Montoya, Cuenca e Tello. Todos eles, mais Sergi Robert e, pontualmente, Gerard Deulofeu, passaram pelo onze titular das mãos de Guardiola. Um total dezoito jogadores (se juntamos a Muniesa e Rafinha) que tiveram minutos nesse ano. Um número assombroso para uma equipa de elite mundial. Pep não venceu por pequenos detalhes os dois títulos principais mas não só consolidou o presente do Barça como arrancou o desenho do seu futuro. Os adeptos podiam estar tranquilos. Havia opções para todas as posições e mesmo aquela onde a equipa mais sofria (com os problemas de Abidal), a resposta estava outra vez em casa, no regresso de Jordi Alba ao clube que o formou. Não havia que enganar.

Um ano e alguns meses depois, a situação mudou radicalmente. Os jogadores formados no Barcelona que não eram já titulares indiscutiveis em 2011 parecem ter todas as vias da equipa principal fechadas. A operação saída começou ainda na época passada e prossegue neste Verão. Tito Vilanova, outro filho da Masia, mudou radicalmente a sua política face à do seu antigo amigo e superior. Para ele a cantera conta cada vez menos e a ideia de forjar um "Globetrotter" mundial, como quer o presidente Rossell, parece-lhe muito mais interessante.

 

Cuenca e Muniesa foram os primeiros descartados por Vilanova.

O extremo direito foi utilizado várias vezes por Guardiola em 2011/12 com boa nota mas acabou por ter de seguir a sua carreira no Ajax, enquanto o promissor central, vitima de vários problemas físicos, foi igualmente descartado. Robert e Rafinha, que tanto prometiam nesse último ano da era Pep, jogaram tão pouco que custa associar os seus nomes ao plantel campeão. Bartra só foi realmente opção para Vilanova quando ficou claro que utilizar Song e Adriano a centrais era aumentar os problemas em vez de diminuir os riscos. Fez boas exibições, mesmo nos momentos de maior aperto contra o Bayern Munchen, mas parece que para o clube isso não chega. Com Guardiola teria mais minutos, com Vilanova parece destinado a ser a quarta opção se finalmente chega a Can Barça uma estrela do nível de Thiago Silva ou um jovem com a projecção de Marquinhos. No lado direito, Montoya, que foi utilizado várias vezes pelos problemas físicos de Alves, continua a pedir mais minutos e a ponderar sair para encontrá-los. Com o mesmo problema encontrou-se Thiago.

O seu caso é verdadeiramente paradigmático. Não só porque o médio é o mais promissor futebolista a sair da Masia nos últimos sete anos, como durante anos foi anunciado como sucessor natural de um Xavi Hernandez que já tem 33 anos nas pernas. Thiago demonstrou o seu valor, não só de blaugrana ao peito mas também com a Rojita, e se começava a ganhar o seu espaço com Guardiola, com Tito perdeu-o por completo. A tal ponto que o seu contrato estipulava que, se disputasse x minutos, a cláusula seria de 30 milhões. Menos desse tempo de jogo e baixaria a 18. Com o título no bolso a várias jornadas do fim, Vilanova não teve a inteligência de o colocar a jogar regularmente para segurar o futebolista. Era visivel o seu desinteresse. E assim o mais velho dos irmãos Alcantâra tem a porta aberta com Guardiola em Munique.

O seu irmão Rafinha já tem guia de marcha, com um empréstimo ao Celta de Vigo. Deulofeu, a outra estrela da Masia, jogará com o Everton. Tello terá a concorrência directa de Neymar e Alexis apesar das excelentes exibições das últimas temporadas. Jogará muito pouco se a explosão do brasileiro se converter numa realidade.

Sob os planos de Vilanova, e a julgar pelo onze habitual da última temporada, mais Neymar, os "canteranos" que terão minutos serão os mesmos que já os tinham em 2011, mais Alba. Em 3 anos, todas as promessas da formação catalã foram descartadas. Mas não pela falta de talento. Todos eles têm um nível altíssimo de conhecimento de jogo e poderiam perfeitamente disputar a titularidade no Barça actual e dar a sua contribuição, como sucedia com Guardiola. Mas não será assim. Rossell e Vilanova preferem apostar noutro modelo de negócio, onde se abra espaço para o génio de Neymar, as habilidades de Alexis, as trapalhadas de Song, a frieza de Thiago Silva ou uma utilização excessivo de kms nas pernas de jogadores que têm um ritmo diferente como Puyol ou Xavi. A geração a quem Guardiola tinha deixado o testemunho para começar a ocupar o seu lugar foi convidada a sair. Muitos deles acabarão por regressar da mesma forma que a Xavi, Iniesta e Puyol lhes custou ser titulares. Outros estarão perdidos para sempre. Mas o mito da Masia como fábrica constante de jogadores para a primeira equipa foi desmantelado. Com um plantel curto e muitos jogos pela frente, havia tempo e espaço para todos. Pelo menos, com outro capitão ao leme!



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Sexta-feira, 28.06.13

Carlo Ancelloti chega ao Santiago Bernabeu com um curriculo profissional que nada deixa a invejar o de José Mourinho. Volta a ser a sua sombra, depois da sua etapa no Chelsea. Com ele traz um novo conceito de jogo, onde a velocidade e a vertigem serão progressivamente substituídas pela pausa e o jogo colectivo. Uma nova etapa para um clube em constante conflito existencial.

Não há treinador italiano que melhor represente a mudança de guarda dos anos dourados da década de noventa.

Nenhum capaz de manter a frescura visual dessa geração nas suas equipas sem demasiados malabarismos tácticos. As equipas de Ancelotti não são nenhum puzzle. Pelo contrário, o seu esquema roça praticamente o básico. Posicionamento horizontal, organização defensiva, trabalho na medular e liberdade para dois ou três homens de ataque. Nada de contra-golpe, nada de velocidade constante. As equipas de Ancelotti movem-se em campo como o dinamo preferido de Arrigo Sacchi fazia em San Siro. Com a tranquilidade de quem sabe que chegará ao seu objectivo.

O técnico italiano popularizou na viragem do século XX o 4-3-1-2. Um modelo que, desde então, tem sido sinal de identidade do Calcio.

Com a Juventus, onde sucedeu à figura imensa de Marcelo Lippi, a jovem promessa dos bancos italianos herdava uma equipa com muito trabalho no meio-campo e pouca criatividade. Ignorando o 3-4-3 da última etapa de Lippi, preferiu reforçar a linha defensiva com o modelo de quatro homens aplicado por Sacchi, o seu grande mentor. Depois colocou Davids, Conte e Tachinardi no apoio a Zidane, Del Piero e Inzaghi, com o francês com liberdade total de movimentos e "Il Pinturrichio" como avançado móvel no ataque. No final do ano mudou-se para Milão onde tomou a decisão mais importante da história recente do futebol italiano. Fiel ao seu 4-3-1-2, Ancelotti manteve Rui Costa como o seu trequartista, atrás da dupla Shevchenko-Inzaghi. Com Ambrosini/Albertini e Gattuso disponíveis para dois lugares, parecia não haver espaço para o promissor Andrea Pirlo. Mas o jovem, que tinha estado emprestado no Brescia, era bom de mais para ser suplente do internacional português e Ancelotti recuou-o para a posição de regista. Uma manobra táctica decisiva que lhe valeu o seu único Scudetto, duas Champions League ganhas e uma final perdida, inesperadamente, em penalties. O seu modelo táctico permaneceu quase inalterado quando se mudou para Londres, depois de quase dois anos calamitosos pós-Mourinho. Aí voltou a fazer uso do seu 4-3-1-2, reconvertendo Malouda como médio interior, ao lado de Lampard e Essien, por detrás de Ballack, Drogba e Kalou na linha de ataque. Com essa equipa conseguiu algo histórico que nem o Special One logrou (vencer liga e taça no mesmo ano) mas na Europa o Chelsea não impressionou e a eliminação aos pés do Inter de Mourinho deixou marca. Despedido por Abramovich, reencontrou-se em Paris com um novo projecto a que voltou a aplicar o seu velho conceito de jogo, desdobrado ocasionalmente num ainda mais clássico 4-4-2, com Ibrahimovic, Lucas e Lavezzi como os três jogadores mais apertados e Pastore, Matuidi e Verrati a fecharam a linha de meio-campo.

 

A chegada de Ancelloti ao Bernabeu é um sonho antigo de Florentino Perez.

O presidente do Real Madrid esteve perto de o contratar em 2009, mas sob indicação de Jorge Valdano, acabou por ser Manuel Pellegrini o escolhido. Cinco anos depois, encerra-se o ciclo. Ancelotti é um ganhador. Tem um currículo que inclui ligas em três paises diferentes (o mesmo número que tinha Mourinho quando chegou a Madrid) duas Champions League (as mesmas que tem Mourinho) e um perfil muito mais apaziguador e silencioso que o português. Com Ancelotti ninguém espera ver uma guerra aberta com a imprensa e com o balneário. Habituado a líder com presidentes com carácter (Agnelli, Berlusconi, Abramovich) e com celebridades do futebol europeu (Zidane, Del Piero, Shevchenko, Rui Costa, Drogba, Lampard, Terry, Ibrahimovic), a "Carletto", não lhe faltará experiência para lidar com a facção rebelde de Iker Casillas e Sérgio Ramos ou os clãs regionais formados à volta dos jogadores portugueses, alemães e espanhóis mais afins a Mourinho. Não será uma missão fácil num clube reconhecido pelo poder excessivo que os jogadores sempre procuraram conquistar à custa do papel do treinador. Mas não existia, no mercado de técnicos, um perfil mais adequado para a missão do que o seu.

Em campo a mudança de Mourinho para Ancelotti será ainda mais evidente. Fiel ao seu desenho táctico, a mutação do 4-2-3-1 habitual de Mourinho para o 4-3-1-2 adequa-se principalmente ao over-booking de jogadores medulares e criativos do plantel merengue. A chegada do genial Isco abre a porta a um duelo apaixonante com Mezul Ozil pela posição de criativo principal desta nova formação blanca. Atrás, os três lugares do meio-campo deverão ser distribuídos entre Xabi Alonso, Modric e Khedira, deixando a Cristiano Ronaldo e Benzema as vagas no ataque. O português como elemento mais livre, móvel, capaz de mover-se entre as alas para aparecer em áreas de finalização e Benzema, peça essencial no jogo combinativo habitual nas equipas de Ancelloti. Um desenho táctico que raramente utiliza extremos puros o que pode ser um problema para o jovem Jesé mas nem tanto para Di Maria, que tanto pode incorporar-se como elemento da linha de ataque como eventualmente recuar para a posição de interior direito graças à sua tremenda capacidade de trabalho. Só a possível - mas complexa - chegada de um jogador como Gareth Bale poderia levar Ancelloti a procurar por um mais clássico 4-3-3 com Ronaldo e Bale nas alas, acompanhados de Benzema e Ozil, Isco, Alonso, Khedira, Di Maria e Modric a competirem por três lugares, um problema sério para qualquer gestor humano resolver.

 

A nova abordagem de Ancelotti, se o italiano se mantiver fiel aos seus princípios tácticos, aportará ao Real Madrid um jogo mais colectivo e elaborado, onde o papel dos laterais (Carvajal e Arbeloa pela direita, Marcelo, Coentrão ou o seu eventual substituto pela esquerda) é fundamental graças ao músculo colocado no meio-campo para tapar qualquer falha de marcação colectiva. Um tridente composto por jogadores como Ozil, Isco, Alonso e Modric pode oferecer uma dinâmica ofensiva apaixonante, particularmente se associada ao apetite goleador de Ronaldo e a um Benzema possivelmente motivado pela presença de Zidane no banco e a ausência de Higuain como competidor directo. Se o Barcelona parte como claro favorito para a próxima época, a escolha de Ancelotti é uma manobra inteligente de Perez para manter o Real Madrid e o seu plantel de sonho perto, muito perto, da máquina ofensiva blaugrana.



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Segunda-feira, 03.06.13

A inclinação brasileira do Barcelona ressuscitou graças ao desejo e influência de um presidente que foi, durante anos, o homem-forte da Nike na Europa. Rossell cumpriu o sonho de trazer Neymar para a Europa e agora cabe ao craque brasileiro demonstrar que pode queimar as etapas que nenhum dos seus predecessores foi capaz, brilhar no seu ano de adaptação numa equipa desenhada para um dos seus rivais pelo trono mediático mundial.

A paixão vem de longe. De Evaristo.

Nos anos cinquenta, o brasileiro foi um dos homens mais influentes na curta passagem de Helenio Herrera pelo Barcelona. Antes de transformar-se no guru do catenaccio, o argentino notabilizou-se em Espanha como um amante do ataque romântico, como provou no Atlético de Madrid e no Barcelona. No Camp Nou contou com os golos de Evaristo para acabar com a hegemonia nacional do Real Madrid. O avançado foi o responsável pela primeira eliminação europeia dos merengues e entrou para a história do clube blaugrana. Durante trinta anos foi a grande estrela brasileira da vida do Barça que tentou com Roberto Dinamite, sem sucesso, repetir a fórmula. Foi Romário, da mão de Cruyff, que reactivou a conexão canarinha no Camp Nou. O primeiro de muitos que se seguiram. Ronaldo Nazário, no seu ano mais brilhante, e Rivaldo culminaram essa paixão. Seguiram-se erros de casting como os avançados Giovanni e Sonny Anderson e os médios Fabio Rochemback, Thiago Motta e Geovanni. Mas com Ronaldinho todos se esqueceram desses pequenos precalços. O brasileiro tinha chegado das mãos de Rossell, quando Laporta queria Beckham. O inglês foi para Madrid, o brasileiro chegou de Paris e ajudou a reescrever a história do clube. Rossell, dirigente da Nike Europa durante largos anos, foi o homem forte dessa operação. Com o génio brasileiro vieram também Beletti e Sylvinho, nomes menores mas reflexo dessa conexão canarinha potenciada por Rossell. Quando a festa acabou, a ressaca brasileira gerou pavor nos adeptos. Henrique e Keirisson, últimos suspiros dessa tentativa de procurar a próxima estrela, foram erros calamitosos. Pelo sim pelo não, Laporta nunca mais voltou a pescar no Brasil. Quando regressou ao poder, Rossell, agora como presidente, alimentava o sonho. De trazer Neymar. Para ele - e para os brasileiros - o extremo até agora do Santos é o sucessor espiritual dessa saga Romário, Ronaldo e Ronaldinho. Tê-lo em Barcelona era quase obrigatório e depois de dois anos em que Guardiola mediu o impacto da sua chegada num balneário dominado por Messi e enquanto os multiplos patrocinadores do jogadores exploravam a sua imagem, ficou no ar a ideia de que era questão de tempo até Neymar aterrar em Can Barça. Até que finalmente, diante de 45 mil adeptos extasiados, chegou o novo profeta canarinho para ter Barcelona aos seus pés.

 

O grande desafio de Neymar está, precisamente, no passado da história do Barça e dos grandes clubes europeus.

Não é por casualidade que clubes de ligas como a portuguesa, holandesa, francesa ou até italiana servem de porta de entrada para as maiores promessas da América Latina. No cone sul joga-se a um ritmo, a uma velocidade totalmente radical. O espaço tem um valor distinto. As marcações são feitas a outro ritmo e, sobretudo, a outra distância. O jogador tem tempo de receber a bola, cumprimentar a sua própria sombra antes de cruzar-se com a do rival. Nesses segundos mágicos há espaço para o drible, o toque súbtil, o levantar a cabeça. O respirar.

Esse tempo tão habitual nas ligas sul-americanas não existe na Europa, sobretudo no futebol espanhol. Cristiano Ronaldo sentiu essa diferença ao mudar-se da Premier - onde a defesa é mais dura mas menos pressionante - para Madrid. Agora imaginem o choque de o fazer directamente do Brasileirão para o clube mais exigente do mundo. Neymar no Santos brilhou muito mas ganhou pouco. O palmarés do clube santino e do jogador é bastante reduzido para tanto ruído mediático. Esse é também um sinal importante. Numa liga mais fácil e menos exigente, os milagres de Neymar não foram suficientes para manter o Santos constantemente no topo. Um alerta para quem acredita num milagre imediato.

Romário e Ronaldo brilharam durante dois anos no PSV antes de chegar a Barcelona. Ronaldinho passou pela mesma etapa no Paris Saint-Germain e só ao segundo ano começou a fazer valer a sua classe. Kaká chegou novo ao AC Milan e teve tempo de crescer sem pressão, mas precisou de cinco anos para afirmar-se internacionalmente. Outros jogadores promissores, de Denilson a Adriano, ficaram pelo caminho.

Neymar terá menos segundos no seu novo relógio e menos espaço para jogar, para criar. Ele é menos um goleador e mais um assistente. Vai-se posicionar preferencialmente sobre o extremo esquerdo, devolvendo Iniesta ao miolo para colaborar com Xavi na criação. Forçando que Cesc e Villa se tornem supérfluos, que Pedro compita com Alexis e que Messi tenha uma sombra. O brasileiro está habituado a receber e decidir. Agora terá de receber e dar. Com Iniesta pode encontrar um sócio fundamental, particularmente com o apoio de Alba. Mas a sua tendência para a diagonal acabará por levar que choque com Messi no espaço. Mesmo imaginando dois génios da técnica a entenderem-se em centímetros e micro-segundos, é inevitável que o choque fisico que existiu entre Messi e Ibrahimovic se repita, agora com o argentino no meio.

 

Com Neymar o corpo técnico do Barça ganha um reforço ao 4-3-3, ganha um novo goleador para aparecer quando Messi não está. Mas também ganha uma incógnita. Poderá fisicamente manter a exigência de jogar na Europa. Terá rapidez mental e física suficiente para reaprender os seus conceitos de tempo e espaço? Será capaz de colocar o seu ego de lado - como assim tem sido nas declarações realizadas - quando chegar a hora da decisão, e procurar o passe antes do remate? Terá a habilidade suficiente para ser mais um da engrenagem blaugrana e não a ânsia, tão sul-americana, de ser o vértice do modelo? Muitas perguntas que só poderão ser respondidas nos próximos 365. Se triunfar, será o primeiro brasileiro a consegui-lo no seu primeiro ano europeu, algo que nem Sócrates, Falcão, Romário, Ronaldo, Rivaldo, Ronaldinho e Kaká lograram. Caso contrário, terá seguramente a exigente imprensa atrás da sua sombra e o Brasil pendente do estado moral da sua estrela em ano de Mundial.



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Sexta-feira, 12.04.13

Não estranha a ninguém que a final de Wembley da Champions League seja uma questão reservada exclusivamente a dois países. Ninguém no futebol mundial da última década tem tido um trabalho tão intenso e consciente a preparar momentos como este como o futebol espanhol ou alemão. São exemplos perfeitos do que deve ser feito na esmagadora maioria das áreas. O modelo germânico é talvez o mais honesto e estruturado, o espanhol uma consequência habilidosa de uma conjuntura histórica única. Em ambos os casos, modelos de sucesso que deixam claro que o futebol na Europa funciona ao seu ritmo.

Não há petrodólares russos, ucranianos, franceses ou britânicos. Não há equipas inglesas com o seu jogo tão tacticamente previsível. Não há clubes italianos, mais hábeis no tabuleiro de xadrez do que ambiciosos no relvado. Nem sequer há espaço para uma ou outra surpresa. A Champions League de 2013 será uma questão de mérito de gestão desportiva de dois países que definiram um modelo de futuro e estão agora a recolher os louros.

Barcelona, Bayern Munchen, Borusia Dortmund e Real Madrid falam, de certa forma, um idioma parecido. Não são clubes idênticos, os seus projectos têm diferenças significativas, mas ambos enquadram-se bem na filosofia de planeamento que revolucionou o futebol europeu nos anos noventa com o caso gaulês e que seguiu o seu caminho na versão espanhola e teutónica. São duas escolhas paralelas, complementares até, que começaram a degladiar-se ao nível da selecção principal entre 2008 e 2012 e que agora transportam essa batalha para o universo clubístico. O sorteio - casualmente ou não - impediu a realização de dois duelos fratricidas que podiam ter reservado já uma lugar na final para o representante de cada país. Sendo assim, Wembley pode ser uma celebração mista, espanhola ou alemã. Todas as opções estão em abertos em quatro jogos onde o favoritismo não existe. O equilíbrio é total como só poderia ser se os duelos fossem precisamente estes.

O Bayern Munchen mostrou-se claramente superior ao Real Madrid, o Borussia de Dortmund é uma equipa que sofre muito com modelos como o do Barcelona e os catalães têm demonstrado no último ano civil que ganhar ao Real Madrid deixou de ser um hábito para transformar-se numa quase utopia. Em sete encontros, venceram um e empataram dois. Um quadrunvirato que faz lembrar os mais excitantes duelos do mundo do ténis onde Nadal sabe ganhar a Federer, que por sua vez controla bem os movimentos de Djokovic, um tenista que soube explorar os poucos pontos frágeis do espanhol. Um circulo vicioso de grandeza que nos afasta da suposta hegemonia exercida pelo Barcelona nos últimos quatro anos, período onde venceu dois troféus e ficou por duas vezes às portas da final contra rivais teoricamente inferiores. 

 

No caso do modelo alemão, ainda que Bayern e Dortmund sejam tão diferentes entre si como o são Barcelona e Real Madrid, está claro que a Bundesliga se tem convertido no modelo ideal a seguir.

É a liga com mais espectadores da Europa, algo a que ajudam os preços modélicos, os estádios perfeitos, os horários adequados às famílias, a ausência de jogos em aberto e a qualidade do espectáculo. No futebol alemão há poucas estrelas capazes de protagonizar anúncios mas há uma nova geração de jogadores chamados a marcar uma década. Essa aposta na formação, desenhada a final da década de noventa, tem dado progressivamente os seus lucros na reestruturação do futebol da própria selecção. Ao nível dos clubes há vários exemplos de identidades modestas que têm crescido apoiados nos seus jovens talentos mas as duas escolas mais emblemáticas estão em Dortmund e Munique. No caso dos amarelos, o génio de Klopp e os problemas financeiros do clube forçaram a instituição a olhar para baixo e a cuidar dos seus jovens como nenhum outro clube na Europa. Não só os formados na sua cantera mas os contratados, em tenra idade, a clubes rivais. Dessa forma nasceu a geração de Pieszceck, Schmelzer, Hummels, Bender, Gundogan, Sahin, Grosskreutz, Reus, Gotze e Lewandowski, futebolistas tremendos e com uma margem de progressão imensa. Na Baviera, o poder financeiro do Bayern foi o suporte necessário para remodelar por completo a sua filosofia desportiva e o Hollywood FC tornou-se no exemplo de estudo ideal para um clube com nome capaz de mudar numa curta década toda a sua imagem mediática. Á geração de Lahm e Schweinsteiger juntou-se agora a de Badstuber, Alaba, Kroos e Muller, jogadores que têm crescido com espaço e tempo ao lado de figuras da liga germânica (Dante, Boateng, Neuer, Mandzukic, Gomez) e futebolistas de nível internacional como são Ribery e Robben. Não estranha que este seja o projecto de futuro de Guardiola como também não surpreende que depois de dois anos de transição da etapa mais exigente do van gaalismo, o clube tenha encontrado a fórmula perfeita. Com o título no bolso, a final perdida em 2012 atravessada e uma campanha imaculada, os vermelhos do sul da Alemanha são, para muitos, o grande candidato a levantar o troféu e nada melhor que um duelo com o Barcelona para medir realmente o seu potencial. Na época passada controlaram perfeitamente todos os movimentos do Real Madrid e levaram a eliminatória até onde queriam. Agora terão de lidar com o Camp Nou, o baluarte do clube blaugrana numa campanha europeia mais do que tremida.

 

O sucesso do modelo alemão transforma a Bundesliga num torneio cada vez mais mediático e apetecível, superando os milhões e o espectáculo que a Premier League oferecia antes de muitos dos seus jogadores mais emblemáticos a tenham abandonado e, sobretudo, antes que o dinheiro tenha definitivamente desequilibrado a balança. Em Espanha, tudo está na mesma. Vencer é a palavra de ordem no país que domina o futebol mundial com uma autoridade que nos força a viajar até aos anos setenta para ver algo parecido.

O modelo de sucesso em Espanha partiu sobretudo de três premissas. A aposta consciente na formação, que tem permitido o aparecimento de jogadores extraordinários nos mais inesperados dos lugares, a elevada qualidade técnica e táctica de jogo da esmagadora maioria das equipas do campeonato e o peso mediático que o país conseguiu através dos duelos entre Real Madrid e Barcelona, equipas que pela primeira vez desde a década de cinquenta disputam de igual para igual a hegemonia do seu futebol. Da mesma forma que Kubala e Puskas, Suarez e Di Stefano eram os reis desse virar de década, agora são os duelos entre Ozil e Iniesta e Messi e Ronaldo os que colocam os adeptos de todo o mundo colados ao ecrã. Todos querem ver, finalmente, um Clássico transformado em final de Champions League. Pode ser que, à terceira tentativa, o sonho se faça realidade. Mas o caminho será duro.

Ao contrário do equilibrado modelo alemão, em Espanha há quase uma especie de doping financeiro entre os dois grandes clubes que permite anualmente que o fosso com as restantes equipas seja maior. O dinheiro gasto nos últimos anos por ambos os clubes supera quase todo aquele gasto por clubes alemães. Financeiramente, são os reis do futebol europeu, e valem-se desse poderio para atrairem la creme de la creme. A essa vantagem, o Barcelona alia uma espantosa política de formação - estanque já há três temporadas - enquanto que o Real Madrid conta com o espírito táctico de uma velha raposa, capaz de transformar uma diferença abissal entre os merengues e o resto da Europa num trâmite. Para o clube de Madrid será a terceira final em três anos, os mesmos que leva Mourinho no clube. Nos sete anteriores o clube não tinha passado dos Oitavos de Final. Para o Barcelona é a sexta meia-final consecutiva, sinal de que há uma política de continuidade e um projecto desportivo que não oferece reparos. Ambos se defrontarão com equipas à sua medida. O Dortmund foi superior no duplo duelo da fase de grupos mas o Real Madrid sente-se mais cómodo nos duelos a eliminar. Mourinho exige-se a si mesmo tensão e aos restantes e nada melhor que 180 minutos para decidir um finalista para despertar uma equipa que realizou uma campanha doméstica lamentável. Contra o Bayern, o Barcelona encontra o seu alter-ego europeu. Um clube com formação e livro de cheques, um clube com um modelo de jogo atractivo e um peso histórico tremendo. Um clube que a partir de Julho será orientado pelo homem que resgatou o Barça das sombras. Serão duas finais para os espectadores neutrais, dois jogos destinados a entrar na posteridade da história do futebol europeu.

 

Dois gigantes espanhóis, financeiramente titãs, culturalmente sedutores, defrontam os dois clubes mais emblemáticos dos últimos 20 anos da história de um renovado e refrescante futebol germânico. Duas escolas tão diferentes mas unidas pela consciência de que o futuro conta tanto como o passado. Quatro clubes que são, indiscutivelmente, parte do melhor que o futebol europeu tem para oferecer. Em Maio, na final de Wembley, só poderão estar dois e muito ainda terá que passar para conhecer os finalistas, mas as meias-finais da Champions League há alguns anos que não despertavam tanto fascínio.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:21 | link do post | comentar | ver comentários (15)

Quarta-feira, 13.03.13

A justiça poética no futebol funciona assim. A era dourada de Guardiola terminou sem uma terceira Champions quando Ramires, isolado, não perdoou no duelo com Valdés. Um ano depois, Niang, na mesma situação, apenas acertou no poste e consumou o péssimo partido do AC Milan. O baile de futebol aplicado pelo Barcelona é também um bálsamo para os que reclamavam um regresso rápido às origens. Mais do que nunca, os homens de blaugrana recuaram no tempo, até 2009, e aplicaram todo o ideário desenhado por Guardiola à sua chegada ao banco do Camp Nou. Por isso venceram, por isso humilharam e por isso têm todas as condições para ir até ao fim. Sendo fieis às suas origens.

 

Depois da semana negra dos catalães, escrevi precisamente aqui que o Barcelona tinha tudo para vencer a eliminatória com o AC Milan. "A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. "

Dito e feito.

O jogo de ontem foi uma viagem no tempo patrocinada pela Qatar Airways. O voo saiu do aeroporto do Camp Nou e voou entre as nuvens até 2009, até a essa essência básica onde Xavi é o eixo pendular. Onde Messi não se obcecou com vir jogar atrás do meio-campo e move-se mais e mais depressa que a sua sombra. Onde há uma figura ofensiva mais presente, que obriga os centrais a não distraírem-se apenas com os passos do argentino. Onde o campo se abre e os laterais entram em jogo. Onde a defesa sobe linhas e Valdés coloca a bola jogável, e onde morder, pressionar e recuperar é feito a uma velocidade supersónica.

Tudo aquilo que o Barcelona foi em Fevereiro, todo esse espelho sombrio de cansaço, de falta de forças e motivação, tudo isso desapareceu neste reflexo perfeito do que era a equipa nos seus primórdios, onde cada bola recuperada era ganha com devoção, com ganas. O Barça recuperou mais bolas do que em toda a temporada, pressionou mais intensamente do que nunca. Três dos quatro golos saíram de lances em que a bola é ganha num lance ofensivo contrário. Ganha com timing preciso, impedindo o ataque do rival e transformando uma posse defensiva numa lança ao contrário. Foram três golos dos quais Guardiola, mais do que nenhum outro, estaria profundamente orgulho. Foram três golos para todos aqueles que se levantaram a aplaudir a maravilhosa equipa que Pep lançou ao mundo naquele 2008/09 memorável.

 

O Milan foi a mesma equipa de San Siro, mas numa versão ainda mais lenta, mais conservadora.

Faltou-lhe uma referência ofensiva sólida - como foram Drogba e Milito nas aventuras bem sucedidas de Chelsea e Inter ao Camp Nou - e Niang, claramente, mostrou ser ainda muito verde para estas noites europeias. O seu erro, crucial no desenrolar do jogo, foi a sorte do encontro. Se o Milan tinha marcado naquele lance, o futebol teria sido, sem dúvida, injusto com a equipa catalã, a única que quis entrar em campo para jogar sem complexos e sem pressão. O golo inaugural de Messi - um disparo indefensável - ajudou a tirar de cima os nervos e a lançar os adeptos e os jogadores na cruzada da "remontada" de que falava Xavi. Desde 2000, numa vitória por 5-1 contra o Chelsea, que o Camp Nou não vivia uma noite assim.

E tal como então, foi o jogo coral da equipa que deu lugar a um festival de golos. Messi bisou, partindo de fora de jogo (antes tinha havido já um penalty de Piqué, por mão na bola, e um ligeiro toque de Abate, sobre Pedro, na área), e Villa, um trabalhador incansável e um dos grandes injustiçados do balneário blaugrana, marcou de forma magistral o terceiro golo. Era o que faltava para completar a reviravolta. O Milan era incapaz de reagir. Não tinha nem jogadores nem banco para inverter a tendência do jogo. Ao contrário do duelo de San Siro, onde fez das suas fraquezas virtudes, onde soube anular o jogo do rival e fazer do contra-ataque uma arma capaz de fazer sangue, o Camp Nou foi demasiado para a jovem squadra milanesa. Incapazes de criar perigo, incapazes de aguentar a bola, incapazes de dar essa sensação de querer algo mais. Ao contrário de Inter e Chelsea, equipas de homens maduros e com experiência europeia, capazes de sofrer, o Milan foi inocente e frágil e mereceu ser atropelado por uma equipa do Barcelona que quase nunca tirou o pé do acelerador. O golo final, a lembrar o épico tento apontado à Itália em Junho, coroou mais um grande jogo de Jordi Alba e esse espírito que tanto tem faltado ao clube blaugrana nos últimos meses.

Ao contrário do que muitos podem pensar, o jogo em Itália não foi um acidente de percurso. O Barcelona que viajou a Itália (e que perdeu o duplo confronto com o Real Madrid) era realmente uma equipa com muitos problemas, físicos e anímicos, incapaz de apresentar algo fresco e inovador no relvado que perpetuasse a sua imensa lenda. O que provocou o triunfo de ontem, mais do que os erros e falta de ambição do AC Milan, foi a mudança de mentalidade da equipa técnica, assimilada pelos jogadores. Só com esse regresso ao passado o 4-0 e o apuramento foram possíveis. Uma réplica do jogo em Itália, de uma equipa pastelenta e previsível teria sido tudo aquilo que os italianos queriam. Não tiveram sorte, nem engenho para adaptar-se.

 

Tudo indica que Bayern Munchen, Borussia Dortmund, Barcelona e Real Madrid partilhem o favoritismo para chegar a Wembley. Cabe agora ao sorteio de amanhã ditar como será o caminho até à final. São as quatro melhores equipas em prova, as que contam com os melhores jogadores, treinadores e planos de jogo. Mas isso nem sempre significa que sejam as finalistas. O sofrimento dos espanhóis em Old Trafford, o toque de atenção ao Barcelona em San Siro e o duelo do Dortmund em Donetsk deixa claro que há pouca margem de manobra para o erro. A Europa do futebol prepara-se para a contagem decrescente. O jogo do ano está quase aí e um Barcelona fiel a si mesmo, capaz de solucionar os seus problemas e apresentar a sua melhor versão, tem de partir como máximo favorito ao ceptro europeu.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 13:40 | link do post | comentar | ver comentários (1)

Segunda-feira, 11.03.13

Em 1980 um desconhecido realizador espanhol estreava a sua primeira longa-metragem. Pepi, Luci e Bom y Otras Chicas del Montón, abria a larga e espantosa carreira cinematográfica de Pedro Almodovar. Este ano o realizador manchego volta ao activo com um regresso às comédias que o fizeram célebre mundialmente na década de 80. Nos relvados, três treinadores, "del montón", desafiam as convenções e demonstram que o futebol é também um palco de teatro onde a improvisação e a arte muitas vezes superam o hermetismo habitual entre os convencionais maestros do jogo.

Eram adolescentes. Sonhavam talvez com a glória com uma bola nos pés ou talvez com roubar um beijo à estrela feminina do momento, Bo Derek, a mulher 10. Mas nenhum deles imaginaria, seguramente, que 33 anos depois fossem protagonistas de uma crónica que os unisse no tempo e no espaço a um obscuro filme cómico estreado nesse ano.

Pepe Mel tinha 17 anos, Paco Jemez 10 e Philippe Montanier 16 e é provável que nenhum deles tenha sequer visto o filme. Não foi, propriamente, um sucesso de bilheteira numa Espanha ainda em profundo estado de "transição". Mas sem o saber, Almodovar já falava deles. Pepi, Luci e Bom são três raparigas comuns, correntes, normais, nem bonitas nem feias, nem altas nem baixas, nem magras nem gordas. Mas são imaginativas, intrépidas e criativas, capazes de desafiar o convencionalismo de uma era de profundas mudanças sociais. Não tinham a atenção dos homens como as elegantes e sensuais mulheres do seu tempo mas eram capazes de ir mais longe do que qualquer outra para inverter essa realidade quase crónica. E com isso demonstravam ser, sobretudo, personagens de recursos infinitos para lograr os seus objectivos. O mesmo se passa nos bancos da liga espanhola.

Numa liga orfã do génio de Guardiola, cansada das poses ditatoriais de Mourinho, dificilmente apaixonada pelo hermetismo de Simeone ou pelos vai e vens de Tito Vilanova e Jordi Roura, há um vazio de génios e figuras que permite ao espectador, quase sempre focado nesse duelo mediático Mou-Pep, olhar para o lado e ver que, afinal, também há imensa qualidade, imenso talento e imensa criatividade nos treinadores "comuns".

Mel, Jemez e Montanier lideram o sprint pela Europa, misturados com os milhões de Málaga e Valencia, do projecto sólido do Atlético de Madrid e batendo o pé aos multimilionários do futebol europeu. Lutam os três por um lugar na Champions League, uma competição que, à partida, podia estar para eles como um concurso de misses para Pepi, Luci e Bom. Mas que lhes fica como uma luva.

 

Pepe Mel é o mais veterano nestas lides.

Foi o responsável pelo renascimento do Rayo Vallecano, desde as entranhas do futebol secundário espanhol. Falhou a promoção com a equipa depois de um ano memorável na segunda divisão mas deixou tudo preparado para o seu sucessor - o espantoso Sandoval - completar o trabalho. Partiu para a sua Sevilla, para pegar num Bétis igualmente em horas baixas. Desenhou a régua e esquadro uma equipa que faz do futebol ofensivo, de toque, o seu santo e senha. Escritor, novelista consagrado, Mel sabe trabalhar com a bola como com as palavras, sem medos. Encontrou em Beñat a batuta, em Castro o golo, em Adrian a segurança defensiva e à volta criou um espírito colectivo impressionante para um clube dado sempre a tendências autodestrutivas. Neste Bétis não há estrelas, não há vedetas nem há margem de erro para arriscar sem a certeza do sucesso. A urgência de um clube falido pela gestão criminal de Ruiz de Lopera, deu passo a um clube renascido e determinado a criar uma marca de identidade no futebol espanhol. O prémio de um lugar europeu é apenas o reflexo simbólico e mediático de algo muito mais profundo e meritório.

Algo similar experienciou Philippe Montanier, um francês olhado como suspeita, como todos os franceses, desde o dia que chegou a San Sebastian com a promessa de um futebol rendilhado e ganhador. Demorou mais tempo do que muitos podiam esperar e teve a sorte de contar com uma directiva capaz de ver a longo prazo. A Real Sociedad perdeu o duelo mediático com o Athletic Bilbao há muito tempo e abandonou a política exclusivista de jogadores bascos mas não a sua identidade. Apostou muito na formação e começou agora a colher os primeiros rebentos de uma nova e brilhante geração, a de Aguirretxe, Illarramendi, Iñigo Martinez ou Ruben Pardo a que se juntaram os talentos de Vela e Griezzman. O líder da armada, único sobrevivente da brilhante equipa que há uma década desafiou o Real Madrid pelo título de liga (a de Xabi Alonso, Nihat e Kovacevic), é também o reflexo de como o futebol espanhol decidiu finalmente olhar para dentro e apaixonar-se pelas suas virtudes em vez de deixar-se cair nos seus defeitos. Xabi Prieto é um dos nomes do ano no futebol espanhol, recuperado tardiamente como o foi Valeron na Corunha ou agora Joaquin em Málaga, jogadores que explodiram antes do tempo em que a imprensa começou a valorizar o "tiki-taka" dos Xavi e Iniesta. Montanier teve todos contra si, teve o carácter de aguentar os piores momentos ao leme do clube, o sofrimento, para emergir com uma equipa construída com pés e cabeça, com vocação ofensiva, com capacidade de misturar a velocidade individual de Griezmman e Vela com o critério de Prieto e Pardo, uma equipa completa da cabeça aos pés.

Sem um nome histórico, como são os já campeões Bétis e Real Sociedad, sem um passado como treinador significante, talvez o trabalho de Paco Jemez tenha ainda mais mérito porque não há clube mais "del montón", do que o Rayo Vallecano. Desastrosamente gerido pela família Ruiz-Mateos, penosamente presidido por um sucessor que entende pouco de futebol e menos de finanças, que o Rayo ainda esteja de pé não deixa de ser um desses milagres do futebol. Que dispute um lugar na Champions League é algo quase sobrenatural. Jemez sucedeu a dois homens que deixaram parte do trabalho feito, Mel e Sandoval, mas imprimiu o seu toque definitivo ao clube, apostando num 3-4-3 ousado, convencido de que para um clube pequeno que sabe que acabará por sofrer golos, a arma secreta tem de ser sempre procurar marcar mais do que o rival. Sem Diego Costa e Michu, os dois goleadores do ano transacto, o técnico encontrou em Piti e Leo Baptistão os seus novos aríetes, confiou no regresso do mítico Tamudo e na qualidade de Lass para fazer a diferença e preparou-se para sofrer. A onze jogos do fim, o Rayo está praticamente salvado. No ano passado precisou de um golo milagroso nos descontos do último jogo do ano. Sonhar com a Europa não é impossível, nem sequer se falamos da Champions League. Seria a prova do que o futebol é algo mais do que uma simples utopia.

 

Não são estrelas, a maior parte da Europa do futebol nem os conhece. Os rostos são figura estranha, os gestos desconhecidos mas o trabalho desenvolvido é algo que não pode passar desapercebido. Não são os únicos. Em Espanha há ainda Juan Ignacio Martinez. Em Portugal o jovem Paulo Fonseca começa a fazer-se notar. Em Inglaterra já ninguém olha de lado quando ouve Roberto Martinez e em Itália Vicenzo Montella já é um futurível dos grandes clubes. São treinadores comuns, em equipas mais ou menos comuns, que fazem da necessidade, engenho, e das fraquezas forças. São eles o pão e sal do futebol. Enquanto as câmaras se divertem a descobrir quantos rabiscos tem o livro de notas de Mourinho ou Guardiola, eles seguram nos ombros a estrutura base do beautiful game.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 14:00 | link do post | comentar | ver comentários (2)

Quarta-feira, 27.02.13

Josep Guardiola é o treinador de futebol mais importante da última década do futebol. Mourinho é um vencedor nato e é capaz de replicar o seu modelo em microcosmos imensamente diferentes. Ferguson uma velha raposa, Klopp um treinador ambicioso e empolgante e Wenger um homem coerente e admirável. Mas Guardiola teve o condão de mudar a abordagem ao jogo e levá-lo a uma nova dimensão. A sua ausência no banco do Camp Nou foi maquilhada durante meses com resultados. Mas a qualidade de jogo e o vazio emocional dos últimos meses em Can Barça é evidente. O Barcelona pode ganhar por ter Lionel Messi, mas só pode encantar se estiver liderado por um génio como Guardiola.

 

É mais importante o artista ou o mentor?

Guardiola, no seu estilo habitual, para um pura honestidade para outros uma personagem de contos de fadas, sempre disse que para o Barcelona Messi era muito mais importante do que ele. E o argentino, que explodiu verdadeiramente durante o seu mandato, realmente continua a demonstrar ser capaz de marcar contra tudo e contra todos. Cada vez corre menos com a bola, cada vez empolga menos nos lances individuais, cada vez se abandona do espírito maradoniano com que se apresentou ao mundo para ser mais um do modelo Barça, capaz de ir buscar jogo à linha medular, de se perder entre os médios como um mais. E sobretudo de marcar, sobretudo, com um leve encostar de bola diante de um guarda-redes indefeso e abandonado. Falta-lhe a velocidade, a chispa e a inspiração das grandes noites. Talvez lhe falte Guardiola, como a todos os seus colegas.

Quando Pep chegou ao banco do Barcelona a equipa vinha da pior época em quase uma década, um 4º lugar doloroso, a mais de duas dezenas de pontos do rival, forçado a uma prévia de Champions para participar na prova que acabaria por ganhar. Rijkaard, um grande técnico, tinha preferido ser amigo dos jogadores a dirigi-los e pagou o preço da displicência. Ronaldinho, o génio superlativo do Barça do século XXI, entregou-se aos prazeres da noite e com ele Deco, Silvinho, Etoo e Messi pareciam destinados a seguir o mesmo rumo. Guardiola exigiu uma purificação do balneário. Livrou-se de todos (Etoo aguentou um ano mais) menos de um, a quem chamou de parte e lhe colocou a faca e o queijo na mão: ou seguir o exemplo do seu idolo e amigo Dinho ou transformar-se no melhor jogador do mundo. Messi escolheu a segunda opção e um ano depois tinha merecidamente o Mundo a seus pés. Guardiola nunca se confiou plenamente e mandou vir Milito para seguir o pequeno astro para todos os lados, era o seu guarda-costas emocional. Mandou seguir alguns jogadores, especialmente Piqué, consciente de que velhos vícios podiam voltar com novos e jovens flamantes protótipos de estrelas. Mudou o discurso institucional do clube, recuperou os sinais de identidade do cruyffismo, com o próprio Johan à cabeça. E, mais importante do que tudo isso, redefiniu a forma de jogar da equipa. E levou-a a um patamar de excelência superlativa.

 

Guardiola foi treinador, presidente, líder espiritual, comunicador e génio táctico num só.

É uma figura irrepetível na história do futebol e o seu vazio seria sempre imenso. Guardiola era, sobretudo, um filósofo do jogo, mas um filósofo pragmático. Acreditava na teoria da prova por erro. Tentou com Ibrahimovic recriar a ideia do avançado centro mas acabou por preferir Messi no seu lugar. Trouxe consigo Villa para dar mais velocidade e mobilidade ao ataque onde ao lado do argentino jogava um jovem com ordem para ser dispensado no Barcelona B, um tal de Pedro. Atrás de Xavi e Iniesta, actores secundários para Rijkaard, colocou o suplente do médio titular dessa equipa B - então na terceira divisão - filho do seu colega de equipa do Dream Team, Busquets. Confiou a defesa a Valdés e Puyol, com quem jogou, mas também aos erráticos mas geniais Alves e Piqué e sofreu na pele o drama humano do imenso Abidal durante mais de dois anos. Enganou-se em algumas contratações (Chygrinski, Henrique, Ibrahimovic, Afellay, Alexis), falhou tacticamente em alguns momentos, apostou como nenhum outro treinador desde van Gaal na formação do clube e decidiu que ganhando ou perdendo, a equipa o faria com uma ideia de futebol na cabeça.

A bola saía de Valdés (e quão poucos falam na sua anunciada saída) sempre jogável, nos pés dos defesas ou de Busquets. Nada de lançamentos largos, nem de livres transformados em remates longos e sem sentido. Os extremos colados nas bandas, os interiores realizando perpétuas diagonais, os laterais abrindo permitindo ao extremo tornar-se num avançado mais. Recuperou o sonho do falso 9 que desde Sindelaar e Hidgekuti faz parte da bíblia dos pensadores do futebol ofensivo da escola danubiana e defendeu a importância do rondo, da posse, da autoridade com a bola, mas uma autoridade ofensiva. A posse tinha de ter um sentido, tinha de ter a baliza como mira. Cada jogada devia ser acabada, com um passe para a baliza. Cada jogada devia contar porque cada perda deixava expostas as fragilidades de uma defesa que chegou a formar-se apenas com três jogadores. O seu primeiro ano foi perfeito.

A partir de aí a fórmula sofreu actualizações, nem todas elas funcionaram. Provou o 3-4-3, chegou ao 4-6-0 na final do Mundialito contra o Santos e voltou a ganhar títulos, mas nunca com essa frescura, imaginação e autoridade que exibiu no primeiro ano, ainda com Henry e Etoo a acompanhar Messi na história. Quando se foi embora, muitos disseram que eram os jogadores que faziam a diferença, como se não fossem os mesmos do final do rijkaardismo. Que Guardiola tinha-se transformado mais num problema do que numa solução. Que o seu radicalismo táctico era prejudicial para os interesses da equipa, sobretudo os de Messi, que gostava cada vez mais de sentir-se o eixo central dos movimentos dos restantes. E por isso, quando saiu, houve poucas lágrimas para quem tinha dado tanto ao clube. A presença do seu segundo Tito Vilanova dava a sensação ao mundo que o guardiolismo ficava, mas o clube entregou-se ao balneário. Perdeu o seu guru e confiou-se às estrelas.

 

E de repente o pontapé de baliza começou a ser feito em largo.

Os extremos desapareceram e o jogo fluia cada vez mais pelo corredor central, como se não tivesse alternativa. Os laterais tornaram-se ambiciosos mas já ninguém aparecia para lhes proteger as costas. Os médios atropelavam-se e as posses deixaram de ter sentido, de acabar em remate, para ser um perpetuo movimento circular em zonas centrais, inconsequentes e estéreis. A debacle do Real Madrid nas primeiras jornadas de Liga - depois de vencer a Supertaça com superioridade - permitiu uma campanha imaculada, com números melhores que os de Guardiola. Messi marcava mais do que nunca e escondia os defeitos do colectivo, os problemas físicos, a péssima forma de Alexis, o ostracismo que Messi forçou a Villa (que tanta falta fez a Guardiola quando se lesionou no Japão), a fraca aposta na formação e às suas melhores promessas. A equipa vencia - salvo o seu rival directo - a todos os outros e parecia destinada a mais uma página de glória, mais um sexteto de titulos. Mas a filosofia começava a perder-se, o modelo de Guardiola, nas conferências de imprensa, no balneário, no relvado, ia desaparecendo progressivamente e começava a emergir a ditadura do balneário, jogando sempre os mesmos, o núcleo duro, fechando as portas a novas soluções porque o overbooking de médios estelares a isso obrigava. O problema que Guardiola via na chegada de Cesc tornou-se real, a equipa forjou um quase 4-2-2-2, com Busquets e Xavi diante da defesa, longe da área, Iniesta e Cesc sempre a meter direcção para o centro e Pedro/Alexis e Messi a deambular pela área mas sem procurar os espaços.

A doença de Tito, que esperemos que seja de rápida resolução, deixou essa realidade ainda mais a nu porque Roura, o homem que preparava os dvds a Guardiola, não é um treinador principal nem um homem capaz de liderar um balneário de vedetas. À distância, a liderança já questionada de Vilanova desapareceu e em campo a equipa entrou em mutismo táctico, incapaz de apresentar alternativas válidas aos problemas que as equipas lhes colocavam. Se Messi aparecia, tudo parecia igual, sem o estar. Mas quando o próprio Messi, obcecado consigo mesmo, decidiu que teria de jogar todos os 90 minutos do ano, para bater recordes, desapareceu, a equipa sentiu-se órfã.

O físico começou a passar factura - como na época anterior fez em Abril - e o argentino, que já tinha perdido o poder de desequilíbrio em velocidade quando as equipas começaram a perceber a melhor forma de o travar com constantes ajudas, secou e com ele toda a voragem ofensiva da equipa. Os números espantosos desapareceram e o Barcelona foi batido futebolisticamente por Milan e Real Madrid. Sofreu para ganhar a equipas menores como um Sevilla com reservas, e começaram a ouvir-se os primeiros assobios no Camp Nou. As dúvidas reapareceram. Messi, um génio incomensurável, começa a sofrer do mesmo mal que era criticado a Cristiano Ronaldo - a realizar o seu melhor ano individual - o de desaparecer nos jogos decisivos. No duelo contra o Madrid em Camp Nou no ano passado foi um fantasma de si mesmo e voltou a sê-lo contra o Chelsea, na dupla eliminatória. Desaparecido durante a Supertaça perdida contra o Real Madrid voltou a sê-lo na dupla eliminatória de Taça. E em Milão continuam à sua procura. Os seus registos melhoram, mas cada vez mais contra equipas secundárias, nos grandes duelos as equipas encontram forma de o anular e Messi ainda não parece ter devolvido o golpe. Talvez porque não está Guardiola, capaz de desenhar um plano para forçar a sua saída da jaula, dar-lhe o ar que necessita e devolver-lhe a confiança. Messi deixou-se prender numa jaula de ouro que ele próprio ajudou a construir à medida que se foi afastando do seu espaço natural e se envolveu no redemoinho de médios blaugrana.

 

A grandeza do plantel do Barça, o melhor do Mundo sem dúvida, pode permitir tudo, incluída uma goleada ao Milan e uma caminhada heróica rumo ao terceiro titulo europeu conquistado em Wembley. A liga está ganha, se não nos preocupamos em excesso com a matemática, e merecidamente porque ao contrário dos rivais, os blaugrana nunca falharam verdadeiramente. Se procurarem mais Xavi e menos a Messi, se a bola volte a sair dos pés de Valdés jogável, se as linhas se abrirem e a posse seja a ferramenta e não o fim, uma equipa do calibre e qualidade do Barcelona pode com tudo. Mas se a equipa falhar o assalto a vencer a máxima prova europeia pelo segundo ano consecutivo, começa a ser necessário para aqueles que se revêem na fórmula intocável para seitas e obtusos de "melhor de todos os tempos", que se recordem que as equipas que realmente marcaram um antes e um depois na história da competição fizeram-no vencendo recorrentemente a competição, cinco vezes consecutiva no caso de uns (Real Madrid), três vezes no de outros (Ajax e Bayern Munchen) e até duas vezes (Liverpool e AC Milan). A este Barça falta-lhe essa consistência na vitória e se perder o troféu este ano ficará com o magro espólio de duas taças em meia década, algo que dista da imagem que deram nos relvados e ecoaram nas páginas escritas por todo o planeta futebol. Com Guardiola o caminho para o êxito fazia-se pensando, sobretudo, em si mesmos. Nas fragilidades do colectivo e como melhorar a forma de jogar e de as ultrapassar. Perdia-se (Sevilla, Inter, Madrid, Chelsea), mas com a cabeça alta e asfixiando o rival. Com Vilanova - e Roura, que passava por ali e não tem culpa do peso que lhe está a cair em cima - o Barça abdicou da essência guardiolesca, decidiu defender-se com a bola, rodear-se de artesões e esperar, esperar e esperar e como o físico não permite mais e a cabeça parece ter-se bloqueado, talvez hoje muitos dos adeptos do clube se tenham dado realmente conta do quão importante era para o projecto um génio chamado Guardiola.

 

PS: Eu defendo a liberdade de expressão de qualquer pessoa, mesmo que não esteja de acordo com nada do que diz. Faz parte da minha educação e dos meus valores. Se alguém quer acreditar e afirmar que 1+1 são 24, quem sou eu para lhe tirar essa alegria de viver num mundo particular? A seita que rodeia a cultura do Barça porque é cool e vanguardista presumir de saber tudo sobre a biblia blaugrana (quando no fundo nem sabem quem é Laureano Ruiz), continua a achar que 1+1 são 24. Que o Barcelona joga melhor que todos, que joga particularmente melhor que as equipas que o derrotam, que o sistema é perfeito e suficiente, que Messi nunca se engana e tem um mau mês...quem o diz está no seu direito absoluto. Que muitos defendam os seus pontos de vista a partir do insulto pessoal, simplesmente deixa a nú as suas carências, a diversos níveis, a cobardia do mundo virtual permite comportamentos que cara a cara seriam impensáveis. E este grupo no fundo é uma seita porque parte para um debate com a premissa "eu certo, tu errado; eu o bem, tu o mal" e isso, no fundo não é um debate, é um monólogo. Não conheço ninguém que não defenda que este Barcelona do último lustro é uma das melhores equipas de todos os tempos, e nos debates trocam-se opiniões que nos enriquecem a todos porque colectivamente, e eu o primeiro, cometemos sempre erros. Mas só quem vive na base do monólogo e do 1+1=24 é capaz de achar-se dono absoluto da razão. Felizmente a realidade acaba sempre por colocar a cada um no seu sítio e quando for cool e vanguardista mudar a cassete muitos irão fazê-lo porque na realidade, não é de futebol que gostam: é deles próprios!



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 10:25 | link do post | comentar | ver comentários (24)

Domingo, 10.02.13

agora a nata da Europa se vai começar a reunir para acertar contas com o calendário continental. Os oitavos de final da Champions League arrancam, e com eles os jogos que os adeptos mais esperam. Porque a competição, a nível interno, em 2012-13 não existiu. Pela primeira vez em muitos anos, as principais ligas europeias têm os seus campeões do curso praticamente definidos. São muitos jogos, muitos meses para cumprir calendário, com margens de erro imensas e uma diferença abismal que permite levantar várias questões sobre a realidade actual do futebol do Velho Continente.

Barcelona, Manchester United, Bayern Munchen e Juventus.

Estamos a meados de Fevereiro e desafio alguém a fazer pública a crença, quase sebastiânica, de que alguma destas equipas não vá ser campeã nacional em Maio. Não é uma previsão muito dificil de fazer. Basta olhar para as tabelas classificativas, ver os calendários de jogos pendentes e fazer contas. As grandes ligas europeias já fecharam as portas e agora, até ao final da época, a atenção será progressivamente desviada pela imprensa para disputas secundárias. Importantes, mas longe do sonho de glamour profundo que é sagrar-se campeão. Uma realidade preocupante e que dista bastante do que vimos no ano passado. Só a finais de Abril o Real Madrid deu o golpe definitivo no seu título, ao vencer o rival directo em Camp Nou. O Manchester City precisou do último segundo da época para ganhar um título que lhe escapava há cinco décadas. Em Itália a Juventus nunca se distanciou tanto como para poder celebrar com mais de uma quinzena de distância do final da temporada e só o Borusia Dortmund encontrou o autoritarismo que encontramos este ano!

Nesta temporada tudo se desenrola em moldes muito diferentes. Há uma autoridade inquestionável nas ligas de topo, onde três dos actuais lideres na época anterior ficaram-se pelo segundo lugar no campeonato. Há, sobretudo, uma qualidade de jogo manifestamente inferior na maioria dos casos de quem lidera e persegue. E, sobretudo, uma dependência excessiva do génio individual para compensar os problemas do colectivo. Se em ligas da segunda divisão europeia, como é o caso da francesa, portuguesa e holandesa, há um esboço de equilíbrio, entre os suspeitos do costume, o que se passa nos gigantes europeus para a luta ter acabado tão cedo?

 

O caso mais flagrante é, sem dúvida, o espanhol.

Não surpreende ninguém que o Barcelona seja o líder. A equipa que era orientada por Pep Guardiola partia como favorita, apesar do título perdido, simplesmente porque é um projecto continuista, moldado em princípios assimilados e com um plantel fabuloso. A derrota contra o Real Madrid no ano anterior interrompeu um ciclo de vitórias mas não a percepção do Barcelona ser uma equipa com mais futuro. O problema está que os blaugrana, agora orientados por Tito Vilanova, semi-ausente durante largas semanas pelo seu problema de saúde, nunca tiveram rival. Nas primeiras oito jornadas do campeonato a vantagem já era de oito pontos e quando os dois candidatos se cruzaram para um jogo memorável, no Camp Nou, o empate apenas deixou claro que o título estava praticamente entregue antes da disputa sequer começar. A isso contribuiu o espirito auto-destrutivo de José Mourinho, os péssimos desempenhos do colectivo, com erros individuais grosseiros, e a seca goleadora de Cristiano Ronaldo durante o Outono. Sob essa realidade, esse hara-kiri, o Barça estabeleceu uma liderança cómoda que só o Atlético de Madrid, um surpreendente e merecido segundo, tentou desafiar, sem sucesso como a vitória clara dos catalães no duelo directo deixou evidente. O Barcelona sabe-se e sente-se campeão nacional e agora pode concentrar esforços em recuperar a Champions League (seria a terceira em cinco anos) e manter no bolso a Copa del Rey, as únicas duas competições que interessam, precisamente, ao seu histórico rival. 

Em Inglaterra o Manchester United lidera com 12 pontos de vantagem sobre o campeão. Está em todas as corridas, entre FA Cup e Champions League, e demonstra uma voracidade goleadora inquestionável. Mas como o Barcelona, a vantagem pontual construiu-se, sobretudo, porque o City se mostrou muito mais irregular do que na época passada. E claro, se os catalães contam com o génio e golos (muitos golos) de Messi para fazer a diferença, em Old Trafford a dupla Wayne Rooney e Robie van Persie (e as aparições decisivas de Javier Hernandez) têm escondido muitos problemas na defesa e no meio-campo, que os duelos europeus colocarão à prova. Os homens de Ferguson só por uma vez perderam um título com uma vantagem pontual desta magnitude, precisamente no ano em que a suspensão de Eric Cantona permitiu ao Blackburn Rovers de Shearer recuperar na tabela e vencer o título confortavelmente. Sem esse fantasma presente, ninguém duvida que os mancunianos farão, outra vez, a festa em Maio.

Celebrações que também já estão a ser preparadas na Baviera. Na expectativa da chegada de Guardiola, o Bayern é cada vez mais campeão. O modelo de Heynckhes, profundamente ofensivo e demolidor, beneficiou da aposta clara do campeão em título, o Dortmund, na edição deste ano da Champions League. O atraso pontual dos homens do Rhur é insalvável (15 pontos) e todos, na Bundesliga, estão conscientes de que a luta muda agora para os palcos europeus onde os dois clubes têm boas perspectivas de se cruzarem mais à frente. Em Itália, são conscientes de que a Europa é um sonho quase utópico num campeonato em reconstrução moral e financeira. A Juventus continua a demonstrar ser o mais aplicado dos alunos, e depois de ter vencido a primeira liga em oito anos à base de uma regularidade espantosa (15 empates em 38 jogos), continua a ser um osso duro de roer. Napoli e Lazio são os surpreendentes perseguidores, com os grandes de Milão de novo em modo autodestrutivo, e ninguém imagina, sobretudo depois das vitórias nos duelos directos entre o líder e perseguidores, que a Vechia Signora vá perder um campeonato com uma vantagem pontual de cinco e onze pontos, respectivamente.

 

Talvez o mais grave, neste cenário, não seja a inevitabilidade de ter os campeões das principais ligas do continente decididos a três meses do final da temporada. O problema é mais profundo. A qualidade de jogo dos quatro, a sua excessiva dependência em génios individuais (salvo no caso do Bayern), e a profunda decadência futebolística dos seus mais directos e habituais perseguidores (Real Madrid, Valencia, Manchester City, Chelsea, Arsenal, Schalke 04, AC Milan, Inter), deixa claro que apesar de se baterem cada vez mais recordes, a qualidade do futebol europeu dista muito de estar a passar pelos melhores momentos. Urge uma mudança de ciclo, clara e evidente, um novo puzzle de sensações, momentos e protagonistas que volte a devolver à Europa os seus grandes clubes nas suas melhores versões.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 16:54 | link do post | comentar | ver comentários (4)

Segunda-feira, 07.01.13

Poucos prémios têm o condão de atrair tanta atenção pública como o Ballon D´Or. E tão poucos se têm transformado num circo de variedades nos últimos anos como o Ballon D´Or. O quarto triunfo consecutivo de Lionel Messi não discute o seu génio. Pelé e Maradona não precisaram de 4 Ballons D´Or para ser considerados os melhores de sempre. Messi também não precisa. Ele está há muito nesse olimpo de génios e por muitos troféus individuais que ganhe, eles não o vão fazer melhor jogador. Mas vão torná-lo um eucalipto, a última coisa que o futebol e este prémio precisam.

 

Quem precisa de um prémio individual num jogo colectivo para consagrar um jogador precisa, sobretudo, de ver mais futebol.

Quando apareceu pela primeira vez na ribalta, em 2006, Lionel Messi já deixava antever que era um jogador especial. Cresceu no melhor sistema de formação do Mundo, foi tratado e mimado como poucas promessas da história do futebol e aprendeu em loco com um jogador que podia ter ido tão longe como ele se tivesse tido a cabeça necessária, Ronaldinho. Quando chegou Guardiola, Messi estava preparado para tomar de assalto o futebol Mundial. E fê-lo com estilo, com classe e com malabarismos que poucos tinham visto.

Messi tem um pouco de quase todos os grandes jogadores da história.

A finta de Garrincha, a mobilidade de Di Stefano, o faro goleador de Pelé, o espirito potrero de Maradona e a mudança de velocidade de Cruyff. Parece feito por encomenda. Ao contrário deste quinteto irrepetível, conseguiu prolongar nos anos a sua carreira fruto ao trabalho de um clube que o soube rodear de um grupo de génios especializados em não aparecer. Di Stefano rivalizou com Puskas e Pelé com Garrincha, mas Messi sabe que dentro da mesma equipa não há rival. 

Os demais jogam, à consciência, para ele e não há nenhum drama nisso. Quando tens um dos melhores jogadores da história na tua equipa, aproveita-o. Mas o génio de Messi supera, por muito, a necessidade de vencer, ano após ano o prémio Ballon D´Or. 

Porque nem o prémio foi criado para premiar o melhor jogador do Mundo, nem lhe faz bem atribuir, ano após ano (e sempre com considerável diferença pontual) o troféu. Não que não seja merecedor, o seu génio é o seu melhor cartão de visita. Mas porque antes dele todos os grandes, todos os gigantes, e Messi não é o único, partilharam os seus triunfos como uma forma, inclusive, de se fazerem ainda mais grandes.

A história faz-se de heróis individuais e, sobretudo, de disputas icónicas. É assim em todos os desportos e mesmo naqueles em que houve hegemonias claras, sempre se encontrou espaço para a concorrência. Era bom para o negócio, era bom para o ego e era mais de acordo com a realidade. Porque Lionel Messi pode ser o melhor jogador individual do Mundo mas não foi o melhor jogador individual em 2012 e as duas coisas, por muito estranho que pareçam, não são sinónimos.

 

O palmarés do Ballon D´Or está repleto de exemplos que explicam bem esta realidade.

Zinedine Zidane venceu apenas uma vez e durante quase uma década foi considerado o melhor do Mundo. No seu "mandato", venceram o prémio  aqueles que brilharam mais num ano em concreto, de Nedved a Ronaldo, de Figo a Rivaldo. Ninguém discute que hoje é Zizou quem está no top da história e que não foram precisos vencer de forma consecutiva vários prémios para o reclamar. O mesmo podemos dizer de Ronaldinho (venceu apenas uma vez), de Beckenbauer e Cruyff (que dividiram entre si cinco prémios, em seis anos) ou da década de 60, onde nenhum jogador repetiu o triunfo apesar de todos saberem que Eusébio e George Best - entre os nomeáveis - estavam um furo por cima de Masopoust, Albert, Law ou Suarez.

O Ballon D´Or tornou-se popular porque premiava os feitos de um ano. Da mesma forma que os Óscares premeiam uma performance em concreto  (Brando venceu dois, em 1954 e 1972, e ninguém quer saber quem ganhou os que estavam pelo meio), os Grammys um trabalho musical, os Ballon D´Or premiavam temporadas. Um génio podia ter um mau ano, o melhor podia ser superado numa época em concreto e os títulos colectivos, a natureza do futebol, contavam e muito porque no fundo, apesar de tudo, é isso que um jogador profissional quer ganhar.

Messi podia perfeitamente vencer estes quatro e mais quatro, que não terão muita discussão. Mas é legitimo pensar que em 2010 não foi o seu ano. Falhou nos momentos decisivos da temporada, onde mais se exige aos maiores. Não é um drama, é uma realidade. O mesmo sucedeu este ano. Em ambos os anos a legião espanhola (Xavi, Iniesta, Casillas) merecia ter tido outro tipo de reconhecimento e o talento individual e brilhante de um ano (como teve Sneijder em 2010 e Ronaldo e Falcao em 2012) superou em 365 dias o seu génio individual mais consensual.

Mas a metamorfose do Ballon D´Or num prémio da FIFA tem destas coisas.

Em 2010 os votos dos jornalistas dariam o prémio a Sneijder mas na votação juntaram-se os capitães, jornalistas e seleccionadores de todo o Mundo, do Vanuatu à Guiné Conacrky, de St. Nevis and Ketis às ilhas Samoa. E isso, forçosamente, transformou o prémio num concurso de popularidade. E não há ninguém mais popular do que o argentino. Nem ninguém mais impopular que Ronaldo. Nem ninguém com mais low profile do que Xavi e Iniesta. E assim sendo, é fácil prever que este cenário se vai repetir até que algo mude a própria carreira do argentino. E o Ballon D´Or vai perder, progressivamente, o glamour e importância que chegou a ter.

 

No final de tudo, o mais triste destes prémios, não está nos aplausos aos vencedores mas na atitude de muitos adeptos que celebram mais uma derrota do que uma vitória. É um velho mal do ser humano, do adepto que prefere ver o rival perder a ver os seus ganhar. A internet voltou a encher-se de imagens de um estóico Cristiano Ronaldo, que esteve correctíssimo em toda a gala (ao contrário do que passou noutros casos). É caso para pensar que se o prémio já é um concurso de popularidade neste modelo, se fosse aberto ao público podia tornar-se num verdadeiro MTV Awards em versão Star Wars. Já há um Jedi branco e um Darth Vader negro. E em todas as grandes rivalidades - e houve-as mais intensas, provocativas e brutais do que esta - uma vez as pessoas esquecem-se que quando dois chegam a um determinado nível, acabam por se alimentar mutuamente. Quando se vive só, como um eucalipto, a tendência natural é para o empequenicmento. Messi é imenso porque sabe que joga contra outro jogador tremendo da mesma forma que Senna e Prost superaram limites para superar-se um ao outro, que Borg e McEnroe treinavam com mais afinco para se baterem um ao outro e Johnson e Bird sabiam respeitar-se mutuamente quando subiam ao campo. Ás vezes a memória e os arquivos ajudam a perceber as muitas realidades de um só dia. 

 

PS: Superlativo o prémio a Vicente del Bosque, um excelente treinador, com um curriculum espantosa e uma figura das que fazem muita falta ao circo mediático que rodeia o jogo. A nomeação de Guardiola, no entanto, acaba por espelhar a mesma realidade que atrás explico. Num ano em que Prandelli, Klopp, Di Mateo ou Simeone superaram-se de uma maneira brutal, o politicamente correcto para os votantes do mundo é escolher o profeta da nova era. Guardiola pode até ser, como Messi, o melhor treinador em actividade (ainda que suspensa), mas em 2012 não foi de longe o seu ano.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 19:09 | link do post | comentar | ver comentários (9)

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