Ficou para a história como o número 1 da etapa mais bem sucedida da história do futebol luso. Aposta pessoal de um seleccionador polémico, Ricardo Pereira foi sempre um guarda-redes capaz de despertar ódios e paixões. Três anos depois do inicio da sua aventura espanhola, o homem que parava penaltys sem luvas caiu no abismo do esquecimento. Já não há lugar para ele no mundo do futebol.

A noticia surpreende poucos.
Quem seguiu a decepcionante campanha do Bétis da passada época, cedo percebeu que Ricardo estava destinado a não voltar a pisar o relvado do Benito Villamarin, ainda conhecido actualmente pelo nome do seu último e polémico presidente, Ruiz de Lopera. O guardião português foi um dos investimentos mais caros da equipa andaluza há três temporadas, mas revelou-se igualmente um dos maiores fiascos do clube bético. A porta da saída ficou aberta mas ninguém mostrou interesse em arriscar uma contratação repleta de riscos. Altos riscos. Inevitavelmente, o mercado fechou e com ele o fim da aventura no Bétis de Ricardo Pereira. Em 25 vagas livres, nenhuma sobrou para o guardião. O jogador está, actualmente, no limbo desportivo. De onde talvez nunca mais volte a sair.
A polémica à volta de Ricardo em Sevilla ganhou contornos bem similares aqueles que marcaram a carreira do guarda-redes em Portugal. A intermitência das suas exibições, oscilando entre o genial e o deprimente, rapidamente dividiu as bancadas verde e brancas de Sevilla. Até que a queda na Liga Adelante ditou a sentença final para Ricardo. Os adeptos nunca mais o perdoariam, os treinadores raramente voltariam a correr o risco de lhe entregar as redes do clube bético. Nem a última etapa com Luis Filipe Scolari ao mando salvou a sua reputação. Os seus erros frente à Alemanha nos Quartos de Final do Europeu de 2008 fecharam as poucas portas que ainda se podiam abrir para um homem habituado a desafiar o inevitável.
Ricardo conheceu os seus primeiros dias de glória no histórico Boavista de Jaime Pacheco.
Natural do Montijo (nasceu em Janeiro de 1976), o guardião começou a carreira no clube local antes de se transferir para o Boavista, onde surgiu como a terceira opção durante dois anos. O final da carreira do histórico Alfredo abriu-lhe a oportunidade de estrear-se, em Fevereiro de 1997, como titular dos axadrezados. Conservou o posto e tornou-se elemento chave da equipa boavisteira que disputou em 1998/99 o titulo ao FC Porto. Com Pedro Emanuel, Petit, Martelinho, Sanchez e Jorge Silva tornou-se o esteio da equipa que dois anos depois faria história ao sagrar-se, pela primeira vez, campeã nacional. Ricardo foi o guardião menos batido da época e a sua voz de comando na área tornou-o automaticamente num dos guarda-redes mais quotados da liga lusa. A chamada à selecção nacional surgiu em 2001, pela mão de António Oliveira. O seleccionador levou o guardião ao Mundial da Coreia do Sul e Japão como titular, mas um jogo inesquecível frente à China do até então lesionado Vitor Baía, fez o técnico mudar de ideias. Baía seria o titular durante a campanha, Ricardo teria de esperar. O final da prova significou também o final da carreira do portista na equipa das Quinas. Agostinho Oliveira, primeiro, e logo Luis Filipe Scolari, recusaram-se a convocar o portista, que nos dois anos seguintes seria duplamente coroado pela UEFA como o melhor guardião europeu, e Ricardo assumiu o posto de titular. Iria mantê-lo durante seis anos, sem nunca chegar a convencer plenamente os criticos e adeptos.
Dele fazem parte alguns dos momentos mais memoráveis da história do futebol luso, mas também algumas das noites mais desastradas. Já ao serviço do Sporting, para onde se transfere, não sem polémica, em 2003, o guarda-redes mostra a sua cara e cruz durante o Europeu de 2004. Ao máximo nivel contra Espanha e Rússia, Ricardo torna-se no herói do duelo frente à Inglaterra, travando dois penaltys britânicos - o último dos quais sem luvas, num gesto heróico - e apontando ele o penalty ganhador. Uma das suas especialidades que o tornaram numa celebridade europeia. Uma semana depois, no entanto, um erro de precipitação permitiria a Angelos Charisteas confirmar a surpresa, o titulo europeu grego, e lançaram nuvens sobre o futuro de Ricardo na selecção. Scolari manteve-se inflexível. Nem Baía, nem mais tarde Quim, conseguiram chegar ao posto de titular durante as campanhas do Mundial de 2006 (onde voltou a brilhar na marca das grandes penalidades frente aos ingleses, para depois ser o principal responsável da derrota com a Alemanha no último jogo) e no Euro 2008, onde voltou a mostrar o seu lado mais negro.

Por essa altura já Ricardo actuava na liga espanhola, onde a sua chegada tinha despertado muito interesse. O péssimo ano de estreia, aliado à despromoção do histórico Bétis e à sua má performance no Europeu de futebol foram o principio do fim. Carlos Queiroz, o novo seleccionador, riscou o guardião da lista (apostando primeiro em Quim e logo em Eduardo) apesar de o manter em várias pré-convocatórias. E em Sevilla os técnicos que se foram sucedendo deixaram de confiar no luso. Até à chegada de Pepe Mel, técnico recrutado ao Rayo Vallecano que tomou a imediata decisão de prescindir do homem que defendia penaltys sem luvas. Sem lugar em Sevilla, sem lugar em Portugal, sem lugar na Europa, aos 34 anos a carreira de Ricardo vive à beira do abismo. Poucos se recordam das suas memoráveis exibições durante as campanhas europeias do Boavista. O final da carreira daquele que foi, talvez, o mais polémico guarda-redes internacional português (chegou às 75 internacionalizações) pode estar perto do fim. Só o seu sangue-frio em momentos de alto risco nos permite duvidar. Haverá espaço para a ressurreição do anti-herói português?
Como é possível que um projecto tão sólido se desmorone como um castelo de cartas à primeira brisa? A persistência no erro é o primeiro passo para a derrota e os factos destroçam a mais simples das lógicas. Um pequeno ajuste transformou-se num imenso problema e no meio de tanta confusão, essa pequena alteração foi suficiente para transformar a galinha dos ovos de ouro num novo idolo de pés de barro.

Depois de ser consagrado, de forma unânime, como o guarda-redes do ano, Quim viu o seu treinador dispensá-lo em directo, num programa desportivo. A forma como Jorge Jesus se referiu ao seu ainda guardião deve perseguir agora o técnico da Amadora, noite após noite. O pequeno Quim não tinha o carisma e atitude necessários para transformar-se num guardião que ganha jogos, pontos...titulos. Já durante a época o técnico tinha promovido uma inusitada dança de guarda-redes, entre Julio César (e os seus erros europeus) e Moreira, o eterno subaproveitado. Mas nenhum o tinha convencido, realmente. Nem o jovem contratado há vários anos ao Salgueiros, nem a sua expressa petição pessoal, nem muito menos o titularíssimo da Luz.
Com Quim fora do baralho, as opções no mercado extendiam-se aos pés do recém-consagrado campeão nacional. O feito histórico de devolver o Benfica ao primeiro lugar transformou o competente treinador na nova "galinha dos ovos de ouro" para os encarnados. As suas decisões tornaram-se inquestionáveis.
Dessa forma, poucos foram os que realmente sairam a dar o peito às balas quando o técnico e o seu director desportivo, Rui Costa, anunciaram que o tal guarda-redes com carisma, atitude e capacidade para ganhar titulos era o relativamente desconhecido Roberto. Uma escolha (a terceira em Madrid) que custava o que nenhum guardião, com a excepção do imenso Gianluigi Buffon alguma vez custou. Um preço modesto para tanto talento que tinha, entretanto, passado desapercebido por essa Europa fora onde a posição do número 1 é sempre um caso sério a rever. Afinal, não tinha o Bayern Munchen chegado à final da Champions League com um tal de Hans Jorg-Butt nas redes?
Roberto foi sempre um erro de casting, já aqui o dissemos.
Nem faz parte da geração de elite de porteros espanhóis, nem sequer é um nome consensual entre os seus. A sua chegada, rodeada de pompa e circunstância, a uma equipa a quem muitos tinham otorgado o papel de dominador absoluto do futebol luso para os próximos anos. O projecto milionário encarnado tinha, depois de quatro anos, dado os seus frutos e, nas palavras do seu treinador, a Champions League era um objectivo tão real como o "Bicampeonato". Para isso, para essa ambição europeia, a mesma que destroçou o Benfica pós-Erikson e pós-1994, trocou-se o seguro pelo duvidoso. Um erro, sem dúvida. Um erro crasso que os primeiros jogos do ano, a valer ou não, foram desmontando.
A insegurança do espanhol é evidente, a sua incapacidade para comunicar-se com os colegas do sector notória. No entanto, os erros técnicos que evidenciou na pré-temporada e no jogo de sábado, na Madeira, são mais preocupantes do que qualquer problema de comunicação. Demonstram uma inépcia que atormentam alguns guardiões por essa Europa fora, como vimos o ano passado, repetidamente, com o polaco Lukas Fabianski. A diferença é que nenhum deles foi um recorde de transferência nem uma aposta tão pessoal de dois homens que gostam de reforçar a sua eterna fome insaciável pela glória.
Numa equipa já de por si debilitada pelas transferências do pulmão e da alma criativa da versão-campeã, contar com um guarda-redes que só transmite intranquilidade é um risco que o Benfica não pode correr. Roberto não é o único erro de Jorge Jesus na planificação da época em que esperava a sua consagração europeia. Gaitán, um jogador sem espaço no modelo de jogo do ano passado e na variação táctica em 4-3-3 que Jara poderá obrigar a tornar-se realidade, é outro problema sem solução à vista. Tal como o débil sector defensivo, onde a primeira linha não tem soluções à altura (que dizer de Sidnei ou César Peixoto) ou a fraca forma fisica e mental de jogadores que foram pilares no conjunto campeão, como o espanhol Javi Garcia ou a dupla argentina Saviola-Aimar. A fome de titulos para alguns está aparentemente mais saciada que para outros e o crime de cair no laxismo desportivo sempre foi o hara-kiri do conjunto encarnado desde que o FC Porto lhe arrebatou em meados dos anos 80 a supremacia do futebol luso.

Jorge Jesus vive na eterna encruzilhada do medo. Medo a falhar, a demonstrar que também erra, ao optar por preterir Roberto e voltar a lançar as suas duas apostas falhadas em 2009/2010. Ou medo a continuar a insistir no erro inicial, arriscando-se a novos sobressaltos e tropeções na corrida aos titulos que ainda discute. O erro tem um poder destructivo. No caso deste SL Benfica, o poder de destroçar a ilusão de que uma equipa campeão não se torna na bitola por onde se mede a qualidade da noite para o dia. No meio disto tudo, o infortúnio de Quim parece uma gota no oceano de desespero do idolo de pés de barro.
É impressionante a forma voraz como funciona a Comunicação Social portuguesa a pedido, a súplica, a necessidade. Depois de um ano louvando, com motivos, a genial época de Quim, um desses eternos mal amados, ninguém se pareceu preocupar com a sua dispensa e subsequente substituição por um guardião espanhol que está a anos-luz da média altíssima que exibem os "porteros" espanhóis na actualidade.

Se a fama actual do grande momento que vive o futebol espanhol se deve essencialmente ao génio dos seus "bajitos", é impensável negar o brutal aumento qualitativo que se está a verificar quando se analiza, detalhadamente, a evolução desportiva, fisica e psicoloógica do guarda-redes espanhol. O que há uns anos era uma dor de cabeça, agora é uma fonte inesgotável de talento.
Uma evolução espantosa que não conhece clubes, regiões ou faixas etárias particulares. Do nada, ou como se fosse, foram brotando os pequenos grandes talentos que hoje garantem que a melhor escola de guardiões da actualidade é, sem dúvida alguma a espanhola. Um titulo que já pertenceu a alemães, italianos e soviéticos, hoje todos bastante distantes da sua era dourada. Imaginar que qualquer um dos três campeões do Mundo convocados por Vicente del Bosque seriam titulares em quase 90% das selecções presentes no Mundial é dizer pouco do alto nível de qualidade que se vive no país vizinho. Para isso é preciso ver quantos ficaram de fora dessa lista.
Mais do que Iker Casillas, Pepe Reina e Victor Valdés, verdadeiros génios entre os postes, é preciso não esquecer os Diego Lopez, Gorka Iraizoz, Manuel Almunia, David De Gea, Andres Palop, Sérgio Asenjo, César e afins que ficaram de fora. São eles o verdadeiro espelho desta geração. E nesta lista de 10 nomes não há espaço para Roberto Jimenez, o homem por quem o Benfica achou conveniente pagar 8,5 milhões de euros, uma cifra de recorde quando falamos do número 1. Particularmente deste.
Roberto Jimenez é herdeiro de uma celebre escola de guardiões, a do Atlético de Madrid.
À beira do Manzanares nunca houve espaço para si. A presença do argentino Leo Franco, do francês Gregory Coupet e depois de Sérgio Asenjo, uma das grandes promessas do futebol espanhol, foram sempre impedimentos para conquistar a afficion colchonera. Incapaz de mostrar aí o seu valor, Roberto teve de viajar por essa Espanha fora à procura de minutos. Esteve na triste campanha de despromoção do Recreativo de Huelva, onde passou sem grande brio. No ano passado, superado pelo jovem David De Gea, de apenas 19 anos, foi forçado a rumar emprestado ao Zaragoza, para disputar a segunda volta. Ajudou a equipa a manter a categoria, sofreu 17 golos em 15 jogos e não deixou particulares saudades. Nem aí, nem em nenhum lado. Este ano não tinha clube, nem destino. Até que apareceu Jorge Jesus, preparado para ordenar outro profeta.
Depois de um ano onde manteve na baliza um constante foco de instabilidade, sempre mostrando pouca confiança no trabalho de Quim, o técnico encarnado conseguiu um dos seus principais objectivos. Garantiu a dispensa do internacional e mandou vir do país vizinho um guardião com pouca aura e algum potencial. Depois de ter contratado Julio César ao Belenenses, de manter Moreira e de andar pelo mercado juvenil a contratar um jovem guardião esloveno (Jan Oblak), o espanhol torna-se no terceiro "portero" que o técnico encarnado decide levar para a Luz. Num posto onde, precisamente, o que se procura é longevidade. E segurança. Essa segurança que Roberto nunca deu no seu passado. Essa mesma (in)segurança que não tem dado no presente. Mais do que os golos sofridos, e a forma como foram concedidos, é o olhar inseguro que delata Roberto. Não tem a frieza dos dez nomes acima citados, muitos deles com um valor de mercado infinitamente menor do que o Benfica decidiu pagar pelo guardião. E no entanto está aí, camisola com águia ao peito, preparado para suster os ataques rivais. E se a liga portuguesa não é propriamente uma prova muito rematadora, particularmente com o sem número de equipas que gosta de rematar como quem controla as balas na camara da pistola, já o espectro europeu, onde este Benfica quer e deve fazer boa figura, o cenário muda claramente. E Roberto não parece ser, claramente, o homem certo para o trabalho.

Se a direcção e o técnico encarnado se mostraram hábeis no último defeso, com contratações cirúrgicas e acertadas, também é verdade que os erros de Jesus e companhia começam a subir de forma alarmante. Do lateral Patric que caiu rapidamente no desconhecimento, ao ineficaz Shaffer, sem esquecer Felipe Menezes, Kardec ou o próprio Júlio César, preterido uma vez mais, é fácil ver que a taxa de acertos e de falhos anda bastante mais equilibrada do que a tal Comunicação Social, cuja única missão é vender, custe o que custar, mais um jornal, nos quer fazer crer. Roberto até pode adaptar-se ao esquema encarnado, realizar uma época de sonho e ser vendido pelos muitos milhões que ninguém viu mas que muitos alardearam. Mas na era de ouro do desporto espanhol, no periodo mágico da vida dos "porteros", o seu nome não aparece por nenhum lado. Por algo será.
Hoje partilha o feito com outro nome mágico da história do futebol, Lothar Mathaus. Mas durante largas décadas o mexicano Antiono Felix Carbajal fez história ao marcar presença em nada menos do que cinco Mundiais. Cinco aventuras com o mesmo triste final. E que não lhe permitiram despedir-se diante dos seus.

La Tota é história viva do futebol mundial.
Hoje, com 80 anos, ainda vive tranquilo na Cidade do México e espera um novo Mundial. Ele, mais do que ninguém, sabe o emocionante que é uma aventura mundialistica. Afinal ele foi o primeiro jogador a disputar uma mão cheia de edições. Um feito que, durante 32 anos se manteve inigualável. Até que o alemão Mathaus disputou em França a sua quinta prova. E quebrou uma das hegemonias mais originais da história dos Mundiais. Uma aventura que começou no inesquecível Mundial de 1950 no quente Brasil e acabou em terras de sua Majestade, dezasseis anos depois. Do Maracana ao Wembley. Sempre sob o triste signo da derrota.
Carbajal nasceu na Cidade do México a 7 de Junho de 1929. O mundo estava prestes a entrar num pesadelo mas na capital azteca ainda não havia noticias dos problemas de futuro. Durante dezanove anos Carbajal foi mais um rapaz de bairro, jogando na rua com os amigos, frequentando a escola até completar o ensino obrigatório e procurando fazer da sua paixão um oficio. A sua afirmação definitiva ocorreu em 1948 quando foi escalado para viajar até Londres com a seleção olimpica de futebol do México. Precisamente onde terminaria a sua aventura, Carbajal mostrou-se ao mundo. Os mexicanos não foram propriamente a maior sensação do torneio mas dois anos depois voltaram a marcar presença entre a elite, no seu primeiro Mundial. Que também foi o primeiro da aventura de La Tota.
No Brasil 1950 o guardião do Real Club España teve uma performance para esquecer. O conjunto azteca estreou-se a 24 de Junho com uma derrota por goleada (4-0), diante do favorito Brasil. Até ao final da performance no torneio o guardião sofreria mais seis golos (quatro da Jugoslávia e dois do México). E, sina sua, o México ficaria em último na primeira fase. Em terras brasileiras Carbajal começou também um recorde que preferia esquecer: o de guarda-redes com mais golos sofridos na história do torneio. No total acabariam por ser 32.
Quatro anos depois, já consagrado como o grande guardião centro-americano, Carbajal voltou com a sua selecção à liça. Na Suiça era já o capitão de equipa, tinha-se mudado para o Club León, onde ficaria até ao final da carreira e pelo qual seria bicampeão do México, mas o destino acabou por ser o mesmo. O México jogou contra Brasil e França e saiu vergado de ambos os jogos com oito golos sofridos e apenas dois marcados. O mais triste da carreira de Carbajal seria apontado por Raimond Kopa, que aos 89 minutos do duelo decisivo entre franceses e mexicanos disparou para as redes do número 1 sem que este pudesse deter o remate. Um tento que significou o apuramento dos gauleses e o regresso a casa, uma vez mais, cedo dos mexicanos. Quatro anos depois, na Suécia, o primeiro motivo de festejo. Após o correctivo inicial frente aos anfitriões, o México logrou o seu primeiro empate na história do torneio num duelo contra Gales com um golo no último minuto. No desafio final voltou a sonhar-se com o apuramento. Pura ilusão. Quatro golos sem resposta da Hungria ditaram mais uma eliminação. E eram já 26 golos sofridos em três mundiais.
Chegado aos anos 60 Antonio Carbajal já era um icone do futebol mexicano.
Com 33 anos chegou ao Chile como uma estrela. A sua rivalidade com Lev Yashin era um dos pratos fortes da primeira fase do certame. Mas quando muitos esperavam que a hora dos mexicanos tinha chegado, depois de ter estado perto do apuramento por duas vezes, uma nova desilusão tomou conta das hostes. Após a derrota inicial com o Brasil (onde Pelé marcou o seu único golo do torneio), o México caiu diante da Espanha no último segundo de jogo alargando uma maldição que parecia não ter fim. Peiró cabeceou e Carbajal não chegou. Apesar do afastamento o México provou que era uma equipa diferente ao bater por 3-1 a Checoslováquia, equipa que, curiosamente, chegaria à final com o Brasil. Depois de ter passado dois anos de calvário com lesões, Carbajal surpreendeu tudo e todos a recuperar a tempo para viajar até Londres. Antes do torneio começar o guarda-redes mexicano confirmou que esse seria o seu último Mundial. Um recorde de longevidade que não passou desapercebido num país que valoriza como poucos a história do jogo. Foi tratado como uma estrela. No empate a 1 com a França mostrou umas mãos prodigiosas. Mas acabou por sofrer o seu 30 golo em Mundiais, um feito que superaria frente à Inglaterra, que venceria os mexicanos por 2-0. No encontro em Wembley os adeptos locais aplaudiram o mexicano no final dos 90 minutos. O jogo final, frente ao Uruguai, seria o último. 14 jogos e 32 golos depois, era o final de uma longa aventura. La Tota passou então a ser conhecido, simplesmente, como "El Cinco Copas".

Carbajal terminou a carreira dois anos depois, com 39 anos de idade e 20 de carreira. Pela selecção sumou 48 jogos oficiais.
O seu grande desgosto foi não ter aguentado até 1970. No Mundial disputado diante dos seus adeptos o México fez história e finalmente passou da primeira-fase. Alguns comentaram que era o veterano guardião quem tinha estado a trazer azar ao exército azteca. Verdade ou não, depois da sua saída o conjunto mexicano tornou-se um candidato habitual a passar à fase seguinte, tendo chegado por uma vez (2002) até aos Quartos de Final. E Carbajal seria o pai de uma longa escola de guardiões excêntricos que o México daria a conhecer ao Mundo. Apesar de já não ser o único na lista, o seu feito continua a ser especial e a própria FIFA confirmou-o como um dos 100 Jogadores do Século XX. Afinal, La Tota é pura história viva do jogo.
O desastre áereo de Munique marcou uma geração do futebol britânico. Entre as chamas do avião que levava a casa os Busby Babes, depois de um apuramento histórico para as meias-finais da Taça dos Campeões, ficaram muitas das grandes promessas por cumprir do futebol inglês. Mas entre o desastre emergiu um herói, um homem que foi mais do que um guarda-redes único. Naquele fatidico dia, Harry Gregg provou ser um autêntico número um...

É curioso que uma longa e bem sucedida carreira desportiva fique para segundo plano quando se pensa em Harry Gregg. Foi provavelmente um dos melhores guardiões dos anos 50 e 60, um monstro nas redes tanto ao serviço do Manchester United como da selecção da Irlanda do Norte. Mas hoje poucos se lembram dele. Mas a história da sua acção heróica em Munique garantiu que o seu nome não cairá no esquecimento.
Foi num 6 de Fevereiro às 15h03 no meio de um imenso nevoeiro. Contra as indicações da equipa técnica - que tinha preferido seguir a viagem de autocarro até à Holanda, e aí atravessar o canal da Mancha de barco - o avião capitaneado por James Thain arrancou na gelada pista do aeroporto de Munique. Um voo que tinha chegado de Belgrado, onde a equipa orientada por Matt Busby tinha acabado de eliminar o Estrela Vermelha para a Taça dos Campeões Europeus. Uma equipa onde pontificava Duncan Edwards e que era vista como a grande ameaça ao quarto titulo europeu do Real Madrid.
O avião levantou do solo por breves instantes. Depois, a catástrofe. Uma queda estrepitosa e um incêndio imediato consumiu o aparato. Sete jogadores morreram de imediato com o impacto. Com eles, dois elementos da tripulação, três membros da equipa técnica e oito jornalistas não sobreviveram à queda. No meio das chamas, Harry Gregg, guardião da equipa, teve a sangue-fria de carregar às costas com os colegas moribundos. Salvou Bobby Charlton, Jackie Branchflower, Dennis Viollet, Duncan Edwards e o técnico Matt Busby, todos gravemente feridos, particularmente das queimaduras produzidas pelo incêndio. Já com os sobreviventes fora do avião Gregg ouviu gritos de uma mulher. Era Vera Lukic, mulher de um diplomata jugoslavo que seguia no avião. Arriscando a vida, Gregg entrou no avião e resgatou-a, bem como à pequena filha que a acompanhava. Além da filha, Vera Lukic estava grávida de sete meses. O filho nasceu sem problemas. No total o guarda-redes salvou sete pessoas. Antes de cair, desmaiado, na pista de aterragem.

De todos os colegas que resgatou, só Duncan Edwards não sobreviveu. Morreria poucos dias depois, vitima das graves queimaduras do acidente. Perdia-se o melhor jogador inglês de então. Mas Busby, que sobreviveu por milagre, recuperou e montou uma nova equipa ganhadora à volta de Bobby Charlton. E com Harry Gregg claro.
O guarda-redes irlandês tinha começado a sua carreira anos antes, na sua Irlanda natal. Jogou no Linfield antes de se transferir para o Doncaster, em Inglaterra. Nascido em 1932, chegou em 1957 a Old Trafford. Era o guarda-redes que Busby queria para dar forma à sua equipa. Esteve nove anos em Manchester e ainda hoje é considerado por muitos o melhor guarda-redes da história do clube. Em 1958 venceu a Liga Inglesa pela primeira vez e foi eleito o melhor guarda-redes do Mundial de 1958, diante de Lev Yashin, a mitica "aranha-negra". No ano seguinte, o mesmo do acidente de Munique, fez parte da equipa campeã apesar de não ter disputado nenhum encontro após o acidente. Depois de 1963 uma série de lesões acabou com a sua carreira. Alex Stepney substitui-o nas redes dos Red Devils e apesar de ter vencido mais duas ligas (1963-64 e 1966-1967), fê-lo apenas como suplente utilizado. No final de 1967 foi transferido para o modesto Stoke City. Nas vésperas do titulo europeu do Man Utd, o mesmo que lhe escapou naquela tarde fatidica.

A partir daí a carreira de Harry Gregg não voltou a ser a mesma. Do Stoke City passou ao Shrewsbury Town onde acabou por pousar as botas. Passou imediatamente a técnico do Swansea, em 1972, passando posteriormente para o Crewe e Swindon Town. No final dos anos 80 a carreira como técnico foi substituida por uma carreira universitária, onde Gregg acabou por ser doutorado pela universidade de Ulster. Hoje continua a ser um dos poucos sobreviventes de um dos mais dramáticos acidentes da história do desporto. Um herói sem o qual talvez a história do futebol se tivesse escrito de forma bem diferente.
Chegando a casa tarde de um voo de Milão percorre velozmente as habituais páginas online para analisar as últimas novidades. Subitamente uma notícia destaca-se sobre as demais. Robert Enke morreu. Robert Enke. O nome ecoa imediatamente e traz-me recordações antigas. Lembro-me de o ver, numa noite de diluvio de Janeiro no velho estádio das Antas, desesperado com os seus companheiros à medida que os azuis e brancos metralhavam a sua baliza. Lembro-me da carreira em queda de uma das maiores promessas do futebol europeu. Robert Enke, um anjo caído que nunca mais terá de se defrontar à angústia da última linha. Infelizmente, deixou-nos um dos grandes.

Tinha 32 anos. Um longo historial clinico depressivo que pode explicar, em parte, o que passou ontem. Uma vida repleta de pequenas grandes tragédias. A morte de uma filha pequena, uma grave crise intestinal nunca verdadeiramente explicada. Uma série de noites negras que marcaram a sua carreira. E o seu caracter. Enke parece-nos hoje, mais do que nunca, producto daquela sociedade germânica que não admite o erro. E que procura o hara-kiri como forma de expiar os seus pequenos pecados. Enke nunca chegou aonde se esperava. E essa mágoa parecia acompanhá-lo. Aos 22 anos, quando aterrou em Lisboa, já trazia um olhar sério e ferido. Dez anos depois, as últimas imagens mostram um guardião resignado com o destino sem vontade de voltar à luta. Joachim Low tinha-lhe prometido um lugar na Mannschafft para o próximo Mundial. Algo que Enke perseguia há tanto tempo. O seu Hannover estava em alta na tabela e o seu nome, se bem que ofuscado pela nova geração dos Adler e Neuer, continuava a ser altamente popular. Mas parecia não ser suficiente. Pelo menos não para ele.

Enke começou muito novo a destacar-se da anónima multidão. Aos 19 anos no Borussia de Monchenlagdbach era já uma imensa promessa. Brilhou de tal forma que passou a ser referenciado como o sucessor natural de um tal Oliver Kahn. A Alemanha vivia uma grave crise de guarda-redes como alternativa àquele que era, então, um dos melhores do Mundo. Ao aterrar em Lisboa, pela mão de Jupp Heynckes, um bom conhecedor do anterior clube do guardião, a frieza germânica de Enke transparecia por todos os poros. Durante três anos mostrou que era, realmente, um jogador com grande potencial. Chegou a ostentar a braçadeira de capitão - espelho claro do estado desastroso em que vivia o Benfica de então - e quando percebeu que na Luz não conseguia mais, bateu com a porta. O próximo passo chamou-se Barcelona mas a jogada saiu-lhe mal. Não conseguiu convencer van Gaal, que apostou pelo argentino Roberto Bonano e ao fim de um ano ficou ligado à eliminação precoce dos catalães na Copa del Rey. Disputou apenas esse jogo e a partir daí passou a persona non grata. Foi um ano para Istambul, envolvido no polémico negócio de Rustu Recber, e noutro esteve nas Canárias, onde disputaria apenas 9 jogos ao serviço do Tenerife. Parecia amaldiçada a antiga promessa.
Terminado o contrato com o Barcelona voltou à Alemanha. E renasceu.
Em Hannover voltou a ser o Enke original. Frio mas com os reflexos a ponto. E num meio tranquilo. Sem a pressão dos grandes holofotes voltou a ser ele próprio. E tornou-se no idolo da bela cidade hanseática. Foi promovido a capitão, fez jogos inesquecíveis que levantaram a cobiça dos grandes da liga, venceu o prémio da Bild a melhor guardião da Bundesliga e estreou-se - finalmente - pela selecção. Tinha chegado ao zénite da sua carreira desportiva quando começaram os dramas familiares. A perda da filha, os problemas de saúde, uma vida pessoal conturbada. A sua vertente depressiva começou a desiquilibrar a balança. O final da época passada foi complicado. O início deste ano também. Mas pouco importa. Agora os canais de televisão tratam de recuperar as melhores imagens do passado, os sites da internet exploram as teorias de conspiração à volta do seu suicídio e os adeptos genuinos choram a perda de um grande desportista.

O futebol torna o mais comum dos mortais em semi-deuses. Alguns entram no panteão da imortalidade. Outros são vencidos pelo tempo e transformam-se em "anjos caídos". Mas alguns merecem esse lugar especial junto dos inesquecíveis. Independentemente dos motivos deste triste fim, este "anjo caído", este Robert Enke merece esse lugar. O panteão dos imortais agora também é dele.
Em Espanha habituaram-se a chamar santo a Iker Casillas. Deíficaram o guardião do Real Madrid ao nível a que só Zamora teve direito. Mas o verdadeiro santo protector da liga espanhola está bem longe da capital. Todos os dias sai de Hospitalet de Llobregat para garantir que a máquina perfeita de Guardiola pode continuar com o show. Com Victor Valdés nas redes não é preciso recorrer a santos.

É o único duplo vencedor do prémio Zamora (entregue ao guarda-redes com melhor média da liga) que nunca vestiu a camisola da selecção espanhola. Uma surpresa? Nem por isso.
Desde que surgiu no futebol profissional que Valdés tem sido o eterno mal amado. Primeiro em Barcelona e logo em Espanha. Por fim, o Mundo. São já quase 10 anos de carreira para o jovem guardião catalão, que este ano cumpre 27 anos. Está na sua melhor etapa profissional e é um elemento chave para o seu técnico, Josep Guardiola. O actual treinador do Barcelona viu o seu jovem guardião ser sucessivamente promovido nas escolas de formação até chegar à equipa B do Barça. Depois de Radomir Antic aterrar em Camp Nou, o guardião teve a sua oportunidade. Suplantou a concorrência directa de Bonano e Rustu e assumiu-se como o guardião número 1 em Can Barça. Mas ninguém confiava verdadeiramente nele. Alguns erros de palmatória nos dois primeiros anos foram-lhe concedendo a fama de guardião macio. Muito longe da realidade.
Com Frank Rijkaard o jovem guarda-redes, então com 22 anos, assumiu-se definitivamente como a primeira opção. Graças à sua época notável o clube blaugrana logrou a sua primeira liga em seis anos. Ronaldinho vendeu o jogo bonito mas a eficácia de Valdés não passou desapercebida e o guarda-redes venceu o seu primeiro Zamora, prémio à sua eficácia absoluta. No ano seguinte voltou a ser peça chave para a renovação do titulo e em Paris conheceu a sua primeira noite de glória europeia. Num duelo épico o Barcelona conquistou a sua segunda Champions e a exibição mágica de Valdés ajudou a aguentar a equipa até ao golo decisivo de Belleti. Uma vitória épica que marcaria um ponto de infleção na carreira do guardião, que a partir de então passou a ser a referência número um para os adeptos culés. O ano seguinte foi de recordes. Valdés igualou os 38 jogos consecutivos de Andoni Zubizarreta (que com Ramallets tinha sido o mais eficaz guardião do clube) batendo o veterano guardião com um recorde de 448 minutos sem sofrer golos. Depois dos dois anos de seca em títulos, com Guardiola o guardião voltou a ser fulcral. A eficácia defensiva do Pep Team dependia muito da sobriedade do número 1. Na liga voltou a ser implacável, conquistando o seu segundo Zamora. E na Champions League foi fundamental com as suas defesas impossíveis nos dois jogos das meias-finais ante o Chelsea. Em Roma mereceu a coroa mais do que ninguém e tornou-se dos poucos guarda-redes bicampeões da Europa.

Apesar de todos os titulos - é hoje o mais titulado guardião da história blaugrana - nunca Valdés actuou pela selecção espanhola. Presença regular nas diferentes etapas de formação, chegado à selecção principal viu a sua promoção barrada pela presença de Iker Casillas. A imprensa colocou-se lado do santo do Bernabeu e para evitar guerras de balneário tanto Aragonés como del Bosque preferiram chamar Reina, Palop e Jorge Lopez às sucessivas concentrações. Sem renunciar a um posto que, actualmente e por mérito, é seu de direito, Valdés aproveitou para expor a sua costela catalã e actuou por três vezes pela selecção autonómica agora treinada por Johan Cruyff. Apesar dos méritos e das palavras vagas do seleccionador, a boa escola de formação de guardiões espanhois parece ser o pretexto ideal para dar ao duplo campeão da Europa a oportunidade de se estrear internacionalmente. Um caso praticamente inédito a nível mundial e que espelha bem a complexidade do futebol espanhol.

Alheio a tudo isto e com a merecida renovação conseguida - depois de se queixar, justamente, que o seu contrato estava desfazado do restante plantel - Valdés continua a provar porque é um dos melhores do Mundo. Viu a FIFA e a France Football voltarem a preferir quase todos os colegas para os prémios do ano. Viu a UEFA atribuir a van der Sar o prémio de guardião da Champions. Mas em Kazan voltou a ser fulcral, tal como já tinha sido em Milão e Ossassuna. Um notável arranque de época que tranquila Guardiola. O treinador sabe que tem ali um homem de confiança, um guarda-redes que marcará uma época no Camp Nou.
Durante sete anos consecutivos em Lyon o mês de Maio era de festa garantida. Um recorde histórico numa liga conhecida pelo seu equilibrio. Depois veio a derrota amarga e uma série de interrogações. Mas Claude Puel pediu paciência. E o tempo, parece dar-lhe razão. O tempo e o seu guardião de ferro. Hoje a referência do novo Olympique Lyon está debaixo dos postes.

Hugo Lloris voltou a mostrar frente ao Liverpool o que há anos se antecipava, suspeitava e se dizia. Num país onde a escola de guardiões nunca foi muito interessante (de Joel Bats a Fabien Barthez), o jovem guardião surgia como uma luz ao fundo do túnel. Desde as camadas jovens do Nice que o seu nome começou a ser tido como uma referência da formação gaulesa. Presença assídua nas selecções jovens, Lloris chegou cedo ao mundo dos profissionais. E mostrou que o seu valor estava fora de qualquer dúvida. Hoje, quatro anos depois de se estrear como profissional, é indiscutível o número 1 de França. E um dos mais completos guarda-redes do futebol europeu, lider de uma nova geração de talentos capazes de herdar as luvas dos grandes nomes da última década. Já longe da sua Nice natal, o jovem Hugo tornou-se no grande simbolo do Lyon regenerado. Depois de uma época complicada é ele o primeiro obstáculo intransponível no Gerland. Com uma defesa de remendos Lloris tem sido decisivo na Europa e na Ligue 1. Para já a época corre-lhe às mil e uma maravilhas.
O jovem de 22 é hoje em dia a primeira opção de Raymond Domenech para as redes gaulesas. Diante da Irlanda terá um verdadeiro duelo para a história. Superou Yohan Pellé, Carraso, Mandanda e Frey na titularidade das redes dos bleus. O culminar imediato de uma ascensão meteórica.
Em 2003 já era o titular da selecção francesa de sub 17. Com 16 anos. Dois anos depois tornou-se no guardião titular dos seniores do Nice na Ligue 1 e as suas exibições tornaram-no um heroi local da mágica cidade da Cote d´Azur. Daí ao salto a um grande foi um breve suspiro. O Lyon procurava herdeiro para Gregory Coupet - para muitos o melhor guardião francês da década anterior, tapado pelo polémico Fabien Barthez - e a direcção nem arriscou. Ao jovem de 21 anos foi entregue o testemunho mas a equipa hepta-campeã estava em crise. Perdera elementos fundamentais na estrutura ofensiva e a defesa continuava a ser o seu sector mais premeável. A participação europeia terminou nos Oitavos de Final, com goleada do Barcelona incluida, e na prova nacional a derrota tornou-se inevitável com os sucessivos tropeções. O terceiro lugar marcava o fim de uma era. Mas Puel ficou. Jean-Michel Aulas, o mitico presidente dos gonnes, percebeu que o técnico era homem de ideias fixas. E que era preciso voltar a tentar. E Lloris fazia parte do plano.

Desde o arranque da nova temporada o guardião tem-se exibido ao seu melhor nível. O Olympique de Lyon apresenta números de campeão. Na Ligue 1 disputa com o Bordeaux, Monaco, Marseille e Montpellier os primeiros postos. Ainda nenhum clube se destacou. Na Europa o empate frente ao Liverpool carimbou o apuramento. Duas equipas francesas já apuradas, algo que há muito não se via. No duelo do Gerland o jovem Lloris voltou a ser a figura. Parou as investidas de Voronin, os golpes certeiros de Torres e os desesperados ataques do Liverpool. Só não conseguiu travar a bomba de Babel. Mas a justiça divina de Lisandro permitiu-lhe dormir tranquilo. A heróica exibição voltou a ser aplaudida nas bancadas que no principio duvidavam da eficácia de um número 1 tão jovem. Agora estão rendidos e esperam segurar um jogador que é pretendido por meia Europa.
Em ano de Mundial, com a França ainda a sonhar com a África do Sul, Hugo Lloris espera que a afirmação seja definitiva. E que o seu nome passe a ser definitivamente sinónimo de sucesso.

Mart Poom é – como o finlandês Jaskeleeinen, o norueguês Throsthved, o sueco Isakson e o dinamarquês Thomas Sorensen – um desses exemplares perfeitos da frieza e genialidade dos guarda-redes bálticos. Mas ao contrario dos seus contemporâneos, o facto de ser estónio nunca o ajudou a promover-se nos clubes onde actuava. No seu país, contudo, é um ídolo vivo, o símbolo da história de uma nação que se prepara para cumprir apenas o seu 20 aniversário desde que se separou da URSS em 1991. Aos 37 anos, e já com um posto assegurado na estrutura técnica do Arsenal, Poom vai despedir-se em grande. Contra um país com quem já se defrontou várias vezes em noites épicas.

O veterano Helenio Herrera sempre afirmou que o sucesso de uma equipa campeã assenta em dois pilares base: um óptimo guarda-redes e um avançado letal. A partir daí tudo é táctica pura e dura. O verdadeiro desiquilibrio surge apenas com essas dois individuos solitários. E não há, em campo, jogador tão só como o guarda-redes.
O público é sempre injusto. Um golo nunca é um bom golo. É sempre um lance não defendido. Uma grande defesa é sempre uma defesa esperada. E um penalti parado, puro sorte. Os próprios pensadores do futebol condenaram o guarda-redes ao ostracismo. Fala-se de 4-4-2 e não de 1-4-4-2. Dá que pensar.
Ao olhar para o desenrolar da história do futebol é fácil perceber que a máxima de Herrera é válida. A Itália de 82 sobreviveu muito culpa do veterano Zoff e do letal Rossi. Aliás, o futebol italiano sempre foi uma das escolas máximas de guarda-redes. Mas há-as para todos os gostos. Os excentricos sul-americanos, os frios guardiões do Leste da Europa, os baixos mas elásticos latinos e os gigantes nórdicos. Uma coisa é certa, um grande guarda-redes é o primeiro pilar para a segurança de uma equipa. E com tanta táctica misturada pelo meio, o mais importante é subir ao terreno de jogo com a sensação de tranquilidade de que, passe o que passe, temos as costas protegidas. E não são todos, aqueles capazes de o transmitir.

Quando José Mourinho assinou pelo Chelsea já sabia que o clube de Abramovich tinha um contracto com a jovem promessa do futebol checo. Vinha do Rennes e tinha brilhado num Europeu de sub-21. Mas a maioria do público nem sabia bem pronunciar o seu nome. Com o treinador portugues o Chelsea tornou-se em Peter Cech e mais dez. A segurança defensiva do gigante guardião era o primeiro pilar nas vitórias semanais da equipa londrina. Defesas espectaculares e eficazes, demonstravam desde o primeiro instante que a aposta tinha sido ganha. Venceu vários prémios individuais, tornou-se num dos elementos mais queridos da equipa e foi dos poucos nomes consensuais do projecto luso-britanico que durante dois anos dominou a Old Albion.
Depois veio aquele choque brutal, aquele momento de terror. Por instantes a vida esteve em risco. Cech perdeu a consciencia, saiu aplaudido do relvado e quando voltou, meses mais tarde, já não era o mesmo. A segurança que ele próprio transmitia foi incapaz de transmitir a si próprio. O capacete na cabeça era, para todos os efeitos, a marca constante desse lance e o recordatório aos seus colegas: eu também sou humano.
É inevitável associar a sua baixa de rendimento - e da defesa do Chelsea - a esse incidente. O guardião que antes era conhecido pela imbatilidade passou a ser conhecido por cometer erros infantis - um deles custou mesmo a passagem da R. Checa aos quartos do último Europeu. As mutações na defesa sólida do Chelsea, resultado da saída do treinador que o lançou não ajudaram, e mais do que a solução, Peter Cech passou a ser visto como parte do problema.
Esta semana os londrinos mostraram ao Barcelona que para vencer também é preciso saber defender. E neutralizaram o arsenal ofensivo dos catalães. Cech disse presente e manteve a sua baliza inviolável. Mas a cada movimentação, a cada saída a punhos, é ainda complicado perceber quem é o homem que leva o número 1 nas costas: se o guerreiro que parou tudo e permitiu a Stanford Bridge voltar a gritar ao som de "We are the Champions" ou se o cavaleiro ferido, incapaz de garantir a segurança dos seus peões. Só o tempo o dirá mas tudo indica que a recuperação vai no bom caminho.
Mas mais do que boa forma fisica e espirito competitivo, hoje Peter Cech só precisa de uma coisa: voltar a ser capaz de deixar nos seus colegas aquela sensação ao sair do túnel: "tranquilo, tenho as costas protegidas!"