No mesmo dia podiam-se resolver três ligas europeias de forma definitiva e uma ficar bem encaminhada. São estes os momentos que definem épocas e que mostram o verdadeiro carácter das equipas. Alguns chamam-lhe dar um murro na mesa. Outros resolver pequenos pormenores. Deixar as coisas para o final da festa é complicado, especialmente num desporto onde passados os 90 minutos tudo se torna numa lotaria. Que o digam em Londres. A verdade é que a três jogos do fim são poucos aqueles que podem sair para a rua e celebrar. Talvez por isso os prognósticos tenham ficado por cumprir em quase todos os relvados...menos no tapete verde do Dragão.
Barcelona, Inter e FC Porto. Os três podiam ter-se sagrado campeões nacionais ontem. Uns com mais facilidade que outros. Pela tarde, apesar da birrinha (mais uma) de Cristiano Ronaldo, o Manchester United fez o que lhe pedia. Não confirmou o troféu mas ficou a quatro pontos. Ou seja, de vencer o jogo em atraso esta quarta-feira, resta-lhe um só ponto, em dois jogos, para confirmar a renovação do ceptro. Apesar do pressing final do Liverpool, será complicado que o titulo escape aos red devils. Na hora H a equipa, que jogou contra o eterno rival, disse presente e dominou o encontro do princípio ao fim. Mas o centro das atenções hoje estava na linha mediterrânea. Com França e Alemanha a guardar os foguetes para o ultimo jogo era em Verona, Barcelona e no Porto que se decidia a jornada europeia.

O grande rival dos ingleses na final de Roma voltaram a mostrar que o futebol encanta mas o carácter por vezes não aguenta. Como tinha sucedido no duplo confronto com o Chelsea ou na viagem a Valência. A equipa de Guardiola é ofensivamente brilhante mas nota-se uma clara falta de maturidade em alguns momentos-chave. Mais do que o cansaço nas pernas, ao Barça faltou-lhe clarividência mental diante de um Camp Nou lotado e preparado para festejar um título, o primeiro em casa desde os anos 90. O rival era de respeito, é certo, mas o golo inaugural de Keita abriu muitas garrafas de champanhe. Com Messi ausente (uma vez mais) e com a ressaca de Londres bem presente, os blaugrana nunca souberam impor o seu jogo deixando o Villarreal aproximar-se sempre demasiado da baliza de Valdés. Num gesto um pouco arrogante (se bem que é verdade que há final da taça na quarta), Pep foi substituindo jogadores para o aplauso…Xavi, Messi…e o público celebrava. Até que Llorente, no último instante, emulou Iniesta e de uma forma genial, no meio de três defesas, encontrou o buraco na agulha e calou os foguetes já lançados ao ar. Um resultado que espelha também outro défice dos futuros campeões espanhóis: o plantel curto. Com Henry e Marquez na bancada, nota-se que é uma equipa sem substitutos à altura da equipa titular. Notou-se ontem, tem-se visto ao longo do ano e é algo importante e a ter em conta para Roma, onde não estarão Daniel Alves e Abidal, suspensos, e possivelmente Iniesta e Henry, por lesão. A falta de carácter que teve ontem o Barcelona teve-a também outro grande.
Em Verona, terra de históricos desaparecidos, o Chievo luta pela manutenção. Uma refrega intensa que tem pouco de romance shakesperiano e mais de tragédia opereta. Ontem vimos no Artemio Bentgodi mais uma acha para essa fogueira ardente que é a fuga ao abismo. O resultado foi em tudo igual ao do Camp Nou, com a subtil diferença de aqui havia necessidade de um resultado amigo, um pouco mais tarde, entre os dois rivais. E se esse tal resultado acabou mesmo por acontecer (o AC Milan e a Juventus empataram a um), os neruazurri voltaram a mostrar todas as falhas que fazem deles uma equipa pouco interessante e atractiva, por muito que se pareça esforçar o seu técnico, sempre perfeccionista. Foi mais um tropeção do Inter (e já vão uns quantos), que não soube matar o jogo do titulo quando podia e que adiou a festa para a semana que vem. Tal como sucedeu com o Barcelona, aqui o titulo também nunca esteve verdadeiramente em causa, mas a magia do futebol de Mourinho vai-se esfumando, semana após semana. Hoje Itália é tudo menos um país onde se jogue bom futebol. E não falamos apenas do aspecto técnico. No próximo fim-de-semana haverá festa em Milão, mas depois de três anos seguidos a ganhar, saberá a pouco, especialmente por noites como a de ontem.
No meio de todos estes gigantes do continente europeu poucos foram os que, por essa Europa fora, se dignaram a olhar para Portugal. Também aí estava tudo preparado para celebrar. Os resultados da véspera pouco importavam, aqui as matemáticas não eram uma equação complexa. A noite passado no Dragão foi de um verdadeiro murro na mesa, um golpe de autoridade de uma equipa menosprezada por tudo e todos, incluindo os seus, e que num estranho caso de precoce maturidade, soube resolver bem cedo um problema gordo. O FC Porto chegou a acumular vários pontos de atraso face ao primeiro posto. Recuperou-os um por um e ainda se deu ao luxo de abrir fosso para os perseguidores. De tal forma que uma vitória em casa garantia o titulo a dois jogos do fim. Sem o brilho da cavalgada do ano passado mas sem os nervos da primeira época de Jesualdo Ferreira. O primeiro mister português tricampeao nacional – quem haveria de dizer à meia dúzia de anos – esteve sempre nervoso no banco, mas a equipa foi matura no relvado. Brilhante nunca, matura sempre. O golo de Bruno Alves, do capitão, matou o sonho do Nacional de se colar ao terceiro posto e carimbou a visita aos Aliados, os foguetes na Alameda, os papelinhos no Dragão. Os azuis e brancos não se deixaram apanhar pela onda de festejos antecipados dos catalães nem voltaram a falhar na hora decisiva como a equipa milanesa. Controlaram os acontecimentos e mostraram ter carácter suficiente para orgulhosamente voltar a exibir o escudo de campeões.
Num mundo onde nada se pode dar por garantido, há quem entre em campo com os festejos já na cabeça. E os que sabem que primeiro é preciso correr e marcar, para logo festejar. Os primeiros podem acabar por parecer mais espectaculares e acabar por vencer no final. Passou com o AZ Alkmaar na Holanda há duas semanas e agora em Barcelona e Milão. Mas são os segundos que realmente fazem as equipas de carácter. O mesmo carácter que há uns anos faltava ao Porto agora sobra. Sem grandes craques, sem grandes sistemas tácticas e até mesmo sem um grande treinador. Mas com atitude. Que para estes lados parece ser o mínimo indispensável para ser-se campeão.