Domingos Paciência ganhou já o tique de culpar elementos externos dos tropeções bracarenses mas depois de adiar para o final do ano uma eventual candidatura ao título, hoje fica evidente que as ambições do SC Braga são outras. A venda de João Pereira ao Sporting abre um novo ciclo na temporada arsenalista e espelha bem a mentalidade que ainda subsiste no futebol português.

João Pereira estava na lista dos transferiveis no Verão. A SAD do Braga falava num encaixe de 10 milhões de euros no total de vendas mas os números ficaram muito além do ambicionado. Em vez de dinheiro na caixa o conjunto bracarense ganhou uma equipa. Que demorou a arrancar, como provou a eliminatória precoce da Liga Europa. Mas que agora funciona de forma oleada e mecânizada na Liga Sagres levando os arsenalistas a liderar, pela primeira vez na sua longa história, a prova no final de ano. Ao contrário do Boavista, que há uma década se sagrou campeão sem chegar ao final do ano nos primeiros lugares, o Braga tem mantido uma regularidade impecável. Apenas uma derrota, vitórias diante dos três grandes, e os habituais tropeções de quem tem um plantel curto e rivais que apenas procuram perder por poucos. Longe do espirito guerreiro baseado no contra-ataque do Boavista de Jaime Pacheco, o Braga é uma equipa bem organizada a meio campo e que gosta de jogar com as linhas a subirem de forma colectiva. O meio campo pressiona em cima, os avançados são solidários nas tarefas defensivas e a defesa tem-se revelado exemplar. Talvez essa realidade comece a ser posta em causa.
É verdade que o Sporting pagou na integra a cláusula de rescisão do jogador, cerca de 3 milhões de euros. E também é verdade que num país como Portugal nenhum jogador é devidamente respeitado se não joga num dos três grandes. Passa o mesmo, por exemplo, com o nacionalista Ruben Micael que não entra no lote de seleccionáveis para Queiroz de forma curiosa. Espera-se que em Janeiro ganhe asas e que as portas da selecção se escancarem quando a camisola que vista for do FC Porto, Sporting ou de qualquer clube pequeno europeu por onde andam Duda ou Edinho. João Pereira tem ambições. Legitimas no melhor lateral-direito da liga portuguesa. O jovem formado nas escolas do Benfica sucumbiu à pressão de actuar numa equipa que destroçava a sua própria formação. Depois de militar no Gil Vicente, reencontrou-se em Braga e até hoje fazia com Evaldo parte de uma estratégia bem montada por Domingos. Uma equipa que usava ao máximo o poder ofensivo dos seus laterais. Tapado na selecção por Bosingwa, Paulo Ferreira e Miguel, a falta de mediatismo prejudicava por completo a ascensão sustentada do lateral. Depois de goradas as transferências para o estrangeiro, João Pereira sabe que terá poucas dificuldades a impor-se a Abel ou Pedro Silva em Alvalade. E que isso joga a seu favor para o futuro. Mas como fica o Braga neste cenário?
Sabe-se que na cidade dos Arcebispos ninguém assumiu a luta pelo titulo, mas a equipa bracarense tem consciência que na conjuntura actual será muito complicado que baixe da terceira posição. Seria necessário um verdadeiro hara-kiri face à vantagem pontual que leva sobre o grupo de perseguidores do trio da frente. Isso significa automaticamente uma posição de entrada directa na Europa - algo que não logrou o ano passado - e o sonho que alimentou o rival de Guimarães há dois anos atrás: a Champions League. Todos esses sonhos podem traduzir-se em milhões, dinheiro fresco em caixa de uma SAD que tem tido uma evolução bastante sustentada ao largo da década. Mas para isso a equipa precisa de manter altos os niveis de competitividade. Vender uma das suas pedras angulares a meio da temporada é navegar para o lado oposto. E se as comparações com o Boavista são inevitáveis, será também lógico entender que no ano do titulo os axadrezados cerraram filas e não deixaram sair nenhum elemento nuclear do plantel. A equipa arrancou para uma notável segunda volta e fez história. As vendas foram posteriores, quando o êxito e os milhões da Europa estavam já assegurados. E se o clube está hoje na triste situação que se encontra é mais pelos erros administrativos posteriores do que por essa politica que se revelou acertada. O Braga sem João Pereira é, inevitavelmente, menos Braga. Como o seria sem Eduardo, Hugo Viana, Alan, Mossoró, Evaldo ou Vandinho. São pedras chave na estratégia e jogadores sem suplentes à altura num plantel necessariamente curto.

Por outro lado o Sporting dá o primeiro golpe de efeito no mercado ao que pode seguir a chegada de Ruben Micael. É curioso que Paulo Bento não tinha nem um cêntimo para gastar e agora a Carlos Carvalhal são entregues os jogadores que realmente o plantel necessita. Será provavelmente insuficiente - a larga lesão de Liedson não ajuda - para a equipa trepar na classificação até aos primeiros postos mas prova a desacertada gestão de uma direcção incapaz de planear uma época com pés e cabeça. Quanto ao Braga, entrará nos próximos 16 jogos com o país atento. Domingos terá de fazer ginástica e os jogadores correr mais do que nunca. O exemplo recento do Boavista prova que vencer é possível. Sempre e quando a estratégia a seguir seja a correcta. E a ambição não se deite pela borda fora por uns poucos milhões.