Num jogo de futebol a equação é simples. No final dos 90 minutos se um ganha outro perde. É ilusório acreditar que o resultado final é consequência da labor de apenas um conjunto. Longe disso. Há sempre alguém que fez algo para ganhar e outro que não fez o suficiente, e acabou por perder. A atitude muitas vezes é o desbloqueador. No duelo da noite passada o FC Porto fez todo o possível para perder e o SL Benfica o suficiente para ganhar. E mais uma vez foi a vontade em campo que determinou o pobre resultado final.

No último clássico do ano e década o futebol pecou pela sua ausência.
Os que esperavam um duelo grandioso enganaram-se de recinto. No encharcado relvado da Luz viveu-se uma intensa batalha desportiva, mas na maioria dos casos a bola não estava presente. Uma omissão determinante para decidir um resultado pela minima, esse golpe de sorte e eficácia que separa os que procuram e os que anseiam. O Benfica não foi uma grande equipa sob o terreno de jogo. Mas tinha os seus objectivos bem claros. Teve a atitude certa e soube-se adaptar a cada momento do jogo. Nunca deu a sensação de dominar o encontro. Porque sabia que não ia a necessitar de tanto. Foi uma equipa corajosa e controladora. Mas, acima de tudo, foi uma equipa com atitude. E isso acabou por resolver uma contenda que tinha tudo para terminar igualada. O FC Porto, por outro lado, voltou a mostrar todos os aspectos negativos que fazem deste conjunto de Jesualdo Ferreira o mais débil em toda a década azul-e-branca. Não é por acaso que a equipa caminha a quatro pontos da liderança. Não foi no duelo de ontem que a equipa portista se atrasou. Foi nos pontos desperdiçados contra rivais acessiveis onde faltou sempre a mesma fórmula: atitude. Em Paços de Ferreira, na Madeira, em Braga e com o Belenenses. Um total de 8 pontos perdidos apenas por falta de atitude. Em nenhum jogo o FC Porto foi pior. Mas em todos eles foi a equipa mais débil. Mais medrosa. E mais desanimadora.
É inevitável olhar para o banco e não ver as diferenças entre Jorge Jesus e Jesualdo Ferreira.
O técnico encarnado passou durante toda a semana com um discurso cauteloso sabendo bem que as baixas que o seu plantel sofria deixavam a estratégia encarnada desprotegida. Preparou a resposta no silêncio e desnorteou um conjunto que chegou à Luz confiante que a ausência de nomes como Aimar, Di Maria e até mesmo Fábio Coentrão jogavam a seu favor. Não foi assim. Jesus provou que a sua estratégia está de tal forma bem oleada que não emperra pela falta de um elemento. Além do mais exemplificou que o plantel é largo e com duas boas opções por posição, que se transformam também em alternativas capazes de dar outro ritmo ao jogo. Carlos Martins fez esquecer o temido Aimar, o brasileiro Ramires esforçou-se mais do que nunca e Urretavizcaya fez esquecer o melhor Di Maria, provando até ser muito melhor no duelo defensivo. A equipa mudou os rostos mas manteve-se fiel à sua filosofia de ataque. Não foram letais no terreno de jogo como noutras ocasiões mas não precisaram de o ser. Um golo fortuito que diz bem do sentido de oportunidade de uma equipa com atitude - Bruno Alves e Helton estão distraídos enquanto que os atrevidos David Luiz e Saviola fabricam o golo do nada - frente a um conjunto confiado e adormecido. O Benfica funcionou porque venceu a batalha a meio-campo num claro 4 contra 3 onde os seus saíam sempre a ganhar. Funcionou porque o ataque nunca deixou de incomodar a baliza adversária e porque a defesa mostrou-se sempre sólida. Funcionou porque as linhas actuaram juntas, numa enorme entre-ajuda. Funcionou porque o rival a deixou funcionar.

Do lado oposto do espelho desta Alice o FC Porto nunca funcionou.
Em nenhum aspecto desportivo. E em alguns extra-jogo. Jesualdo Ferreira voltou a mostrar que a máxima de que há grandes técnicos sem titulos e muitos técnicos fracos com titulos é bem real. Renunciou ao novo FC Porto, uma equipa arrojada para o ataque e com atitude, com as linhas bem juntas e com os laterais a equilibrarem a desvantagem no meio-campo. A simples troca de Belluschi por Guarin denunciou o jogo azul e branco. De contenção, na expectativa. De medo. Sem atitude. A isso junta-se a eterna predileção por Hulk e Rodriguez como extremos que não o são e avançados que não conseguem nunca ser. Dois elementos a menos no puzzle defensivo onde a guerra se perde realmente. E dois elementos inofensivos no ritmo ofensivo, facilmente domados por uma defesa sólida e perigosa no contra-golpe. A entrada de Belluschi e Varela equilibrou uma equipa eternamente descompensada. Mas foi insuficiente. A falta de rotinas de um plano alternativo e de um estilo de jogo que fuja ao contra-atqaue medroso foram fatais. A isso junta-se a total falta de concentração. O árbitro Lucilia Baptista não ajudou, quebrando o ritmo do jogo constantemente e impedindo a equipa azul e branca de jogar cómoda. Mas os erros acabaram repartidos e não influenciaram o resultado. Mas sim o ritmo de jogo.
Os jogadores portistas pareciam fantasmas, com a cabeça lá bem longe. Já falamos no lance do golo, exemplo perfeito do porquê do resultado final. Mas a falta de aplicação de Fucile e Álvaro, as constantes falhas de Fernando e o ritmo adormecido de Meireles ajudam a explicar o planteamento defensivo de um conjunto que desaparece nos grandes jogos. Nos que pedem caracter e atitude. Que é a imagem de marca do FC Porto. Mas não deste.
Enquanto que a vitória encarnada espelha bem o programa de futuro que constroi Jesus, a derrota azul e branca é o resultado natural da falta de estruturação do dragão. Na Luz não há apenas uma equipa ofensiva, organizada e preparada para o futuro. A cada jogador em campo há uma alternativa mais nova no banco para compensar as contas. Felipe Menezes, Urreta, Ruben Amorim, Coentrão estão treinados e preparados para assumir o seu posto a cada momento. Do outro lado cada vez que há uma mudança no esquema o castelo de cartas cai. Desta vez foi Guarin, o buraco no meio campo. Mas antes já foi a vez de Rodriguez, Varela, Farias, Costa, Mariano e uns quantos mais. O FC Porto não tem um sistema de jogo claro. Tem sim um plantel descompensado que o técnico tenta tapar mantendo-se fiel a uma estratégia para a qual já não tem jogadores. Não tem extremos hábeis para o contra-golpe. Não tem um talento criativo para pensar o meio campo e controlar antes de lançar os golpes venenosos. E não tem a certeza de como resolver os problemas quando o barco começa a afundar-se. O problema azul e branco está muito por cima de um ou outro jogador. É uma questão de fundo que precisa de uma solução drástica. A mesma aplicada neste defeso na Luz e que está a dar bons resultados. Porque se o Benfica não foi muito melhor que o Porto em jogo jogado, teve mais profissionalismo, concentração e atitude. E muitas vezes são esses os aspectos que decidem um jogo. Um campeonato.

A desvantagem para os azuis e brancos é perfeitamente anulável. Já o foi no passado e basta olhar para o ano passado, com as águias a terminar o ano em primeiros. Mas mais do que ficar a perder nos duelos directos e a ver de novo a diferença a cair nos 4 pontos, o FC Porto percebeu que há dois modelos de gestão frente a frente nesta luta. E que o seu sai claramente a perder. No final é quando se fazem as contas e as águias sabem que não podem confiar num simples triunfo onde nunca foram excessivamente melhores. Mas o plano traçado por Jesus é claro e tem um objectivo. E na sua equipa todos remam na sua direcção. Olhar para Hulk, Jesualdo e Meireles é ver três náufragos à procura de uma bóia salva-vidas. E se no final se salvam os três, tanto melhor. Mas a sobrevivência individual superou o peso do colectivo. E isso é sempre um mau sinal para o futuro.

