Os finais de anos, décadas e séculos são propicios a estas análises que feitas a quente deixam sempre escapar pormenores que só num par de anos se tornam claros. Num mundo como o futebol resumir 10 anos é tarefa hérculea porque ficamos sempre sem saber a quem pertenceu essa década? O futebol é universal e cada adepto, jogador, técnico, arbitro e dirigente terá a sua década, a sua história, os seus momentos. O jogo, esse, continuará a viver dos 90 minutos mágicos que só no futuro deixarão perceber as pequenas nuances do que apenas significa virar a página e um número no calendário.

1 de Janeiro de 2010.
O Mundo está exactamente igual ao 31 de Dezembro que já nos parece tão distante. O Barcelona continua a ser treinado por Guardiola e o Chelsea continua a ser uma máquina de futebol. Mourinho é contestado, Jesualdo assobiado e o Bayer Leverkusen e Bordeaux são as rainhas das médias ligas europeias? Algo mudou de há um dia para cá? E no entanto mudamos o ano, a década e tudo o mais. Alguém se lembra hoje daquele 1 de Janeiro de 2000? Dessa inicio de uma década histórica como qualquer outra, com momentos inesquecíveis e noites para afogar eternamente as mágoas? Como lembrar estes últimos dez anos? Quem recordar nesta década que acabou? Que momentos ficam? Há lugares comuns que nos levam aos feitos gloriosos que a história imortaliza. Uma década que teve dois Mundiais com dois campeões distintos e pouco espectaculares. Uma década de ouro para o futebol português que viveu as suas melhores e piores noites? Ou lembrar o lado negro, a queda nas divisões inferiores de vários históricos que não sobreviveram ao constante endividamento? Um adepto do Boavista viverá a década do titulo ou da queda na II Divisão B? Um adepto do Benfica lembrar-se-á do único titulo logrado em 10 anos ou da morte de Miklos Feher em Guimarães? Onde pairam os adeptos do Salgueiros, Farense, Campomaiorense, Estrela da Amadora, Alverca, Moreirense e afins que estiveram lá em cima antes de cairem bem lá em baixo?
Com que galáxia ficamos, a de Zidane, Figo e Ronaldo ou a de Kaká, Benzema e Cristiano Ronaldo? Sabe melhor um passe milimétrico de Xavi para Messi e seis taças à mistura ou uma desmarcação de Ronaldinho com o Bernabeu a aplaudir? De quem se lembrará primeiro neste momento José Mourinho? Da noite em que vergou o Sporting na Luz, nas vitórias do pequeno Leiria, dos titulos europeus com o FC Porto, na histórica era do Chelsea ou no seu Inter? Uma década é muito tempo, muito tempo para quem tem apenas 90 minutos. Resumir o jogo é complicado. As televisões trataram de rebaixar o futebol aos golos, aos lances violentos e ás fifías. É preciso encaixá-los nesses micro-resumos a que chamam noticiário desportivo. Perdem as fintas, os passes, as recuperações de bola, os cortes de cabeça, os lances estudados e aqueles remates que por pouco não entraram. Uma década é incapaz de os resumir a todos. 90 minutos menos ainda. O futebol continua a ser o jogo mais belo. E continua a ter, mais coisa menos coisa, essa duração cronometrada. Nela cabem os lances de Ronaldinho, Zidane, Xavi e Cristiano Ronaldo, os mais da década. Ou as defesas de van der Sar, Baía, Cech ou Casillas. As tristezas e alegrias, a história e a vergonha. As mortes no relvado e nas bancadas. Os gritos de dor e de extâse. No futebol cabe a vida. Em 90 minutos cabe muito mais.

A nova década começa com as mesmas interrogações de quem vive o presente a querer antecipar o futuro. Alguns jornais divertem-se a inventar imagens e gráficos e mostrar já a fria noite do 31 de Dezembro de 2009 com um Ronaldo envelhecido a tentar mais um livre de folha seca. As pessoas adoram imaginar o futuro. E muitas vezes esquecem-se do presente. Do momento. Quando a década arrancou poucos imaginariam quase todos os eventos que a iriam marcar. Os adeptos do Chelsea não acreditavam que um desconhecido Mourinho os ia fazer grandes. Em Barcelona era impensável sonhar com tudo o que foi ganho e perdido. Nas Antas os adeptos apanhavam frio sem sonhar com a quente Sevilla e a mágica Gelsenkirchen. A magia do futebol está aí, na sua total imprevisibilidade. Imaginar hoje o alinhamento de Portugal nesse Mundial de 2018 é um exercício de pura arrogância. O jogo obriga-nos a esperar. E assim será sempre.

Olhar para trás e resumir a década é um exercicio aparentemente fácil. Na realidade é uma conta impossível. Faltará sempre algo, faltará sempre tudo. Ficar com o ouro e perder a prata. Perder horas a resumir segundos. Deixemos para o tempo, que para isso é infinito, essa vã tarefa. Olhemos para o futuro e não é preciso olhar tão longe. Esqueçam o tal 31 de Dezembro de 2020. Está aí já o dia de amanhã!