Num desporto onde muitos só vêm o que se passa dentro das quatro linhas é extremamente raro que a personagem que mais se destaque num ano desportivo opere fora delas. Mas em 2009 não há contestação possível. Desenhou a letras de ouro a página mais brilhante da história do seu clube. E provou que a experiência não é um bem essencial quando se é um génio. Único. O ano foi seu. Pep Guardiola e 2009 serão para sempre sinónimos.

Imaginamos os artigos do futuro. Quando se recorde a carreira de Guardiola não existirão páginas suficientes para resumir com exactidão o golpe de autoridade que significou para o técnico catalão a sua primeira época ao serviço do Barcelona. Mais do que as seis taças ganhas - um sucesso que nenhum outro técnico logrou. Mais do que os prémios acumulados por ele e pela sua armada invencível. O ano ficará marcado pelo seu futebol. O seu esquema. O seu jogo. A sua filosofia. E as suas lágrimas.
No final do Mundial de Clubes, enquanto os jogadores celebravam essa conquista histórica, Pep Guardiola chorava. Ele que nunca tinha manifestado as suas emoções nas cinco anteriores conquistas. Ele que não dá entrevistas. Que é corrosivo nas conferências de imprensa. E que vive atrás de um lençol que nada nem ninguém consegue penetrar. Naquele instante toda a pressão de um ano louco caiu finalmente. E Guardiola chorou. Como o menino que em Wembley, 17 anos antes, via o seu clube do coração vencer aquela que era a sua primeira Champions. Nessa época era um miudo, uma aposta pessoal de Cruyff para liderar o seu Dream Team. Agora é o técnico mais respeitado do futebol mundial. Algo que logrou apenas num ano. Um ano que dificilmente, e ele sabe-o, poderá repetir.
Guardiola é o Homem do Ano porque o futebol em 2009 se vestiu com o seu traje.
Um traje impecável, como o seu visual cuidado ao minimo detalhe. Um traje com que vestiu a sua equipa, ferida da morte quando o inexperiente técnico foi apresentado por Joan Laporta. Só com um ano de experiência na equipa B do Barcelona, a disputar então a Segunda Divisão B, todos duvidavam da escolha. Conheciam pouco o caracter obsessivo e perfeccionista de um homem que já era treinador há largos anos. No terreno de jogo.
O técnico herdou uma equipa triste e destroçada. Percebeu que havia de forçar uma mudança de atitude e fez o que melhor sabia. Apoiou o seu projecto na cantera de La Masia, do qual ele continua a ser o melhor exemplo. Recuperou veteranos da casa como Valdes, Iniesta, Puyol e Xavi. Repescou Pique, outro jogador feito em Can Barça e lançou vários jovens que treinara nas reservas. Cirurgicamente roubou ao Sevilla as suas duas pérolas, Keita e Alves e garantiu todo o protagonismo a Lionel Messi. Pelo meio livrou-se de jogadores que achava estarem a mais como Deco, Sylvinho e Ronaldinho. Apenas ficou Etoo, mas até aí a sua maturidade foi tal que não hesitou em dar-lhe a titularidade que o camaronês respondeu com golos. E titulos. Mesmo que a contra-gosto. E assim se coseu a mais doce refeição futebolistica do ano.

Se o Dream Team de Johan Cruyff era uma máquina de futebol pura o Pep Team levou a eficácia um patamar acima. Manteve a fórmula básica que criou escola em Barcelona. O jogo de toque. As rápidas tabelas, a transição sustentada e a pressão sufocante. A essa máquina de ataque - que as várias goleadas do ano, incluido os 2-6 no Bernabeu - Guardiola juntou uma total eficácia defensiva, o calcanhar de Aquiles da equipa do seu mentor holandês. Com Guardiola o Barcelona defendia em bloco, particularmente depois de Pique se impor como o parceiro de Puyol. Uma eficácia tal que permitia muitas vezes a Dani Alves jogar como falso extremo transformando o 4-3-3 num 3-4-3 no terreno de jogo. O tridente do lado direito Xavi-Alves-Messi foi fulcral para calibrar a máquina e a fome de golo de Etoo e a subida de forma progressiva de Iniesta fizeram o resto. Numa equipa praticamente sem banco, onde a aposta na cantera era um fenómeno constante, manter o nivel era algo impossível. Mas o Barcelona soube-se aguentar até Maio sempre ao mesmo ritmo. Obra e graça de um técnico motivador por excelência. E hábil a gerir cadas peças do tabuleiro.
É notório que o Barcelona desta época ainda está bastante longe da equipa do ano passado. A troca de Etoo por Ibrahimovic mudou o estilo ofensivo da equipa. O genial sueco joga melhor de costas para a baliza, com os colegas, mas é menos selvagem no seio da defesa. As lesões de Henry e Iniesta também não ajudaram mas foi a notória baixa de forma do corredor direito Alves-Messi que levou muitas vezes Guardiola a ter de arriscar. Como em Abu Dhabi. Naqueles em quem mais confia. Os seus jovens da formação. Na final do Mundial de Clubes Pedro voltou a marcar e a provar que é um joker extremamente útil. E Jeffren num quarto de hora logrou mais do que Messi em todo o encontro. Apesar de todos os prémios que acumule o argentino, ele sabe que é apenas uma peça na engrenagem. Que funciona na perfeição. Com ou sem ele.
Riscos assim poucos técnicos são capazes de assumir. E por isso é que nenhum tinha atingido tamanho nível de perfeição tão cedo. Guardiola já ganhou tudo o que havia para ganhar. Não lhe ficou nem uma migalha para o futuro. Não tem outro remédio senão voltar a vencer tudo. Ele sabe que elevou as expectativas até um máximo insuperável e esse será o seu grande desafio. A história está repleta de grandes técnicos com começos prometedores que depois se vão desvanecendo com o tempo. Mas nenhum começou desta forma, tão letal e bela ao mesmo tempo.

Josep Guardiola sabe que fez história. As suas lágrimas indicam o final de um ciclo. A pressão de vencer as seis taças que se começou a instalar em Agosto, com a vitória da Supertaça Europeia chegou ao fim. Agora a equipa, que se tem mantido em piloto automático boa parte deste Outono, pode desconectar. Já não tem obrigações. Pode voltar a desfrutar e tentar repetir a mesma senda gloriosa. Guardiola sabe que será muito dificil vencer um, dois troféus este ano. E está preparado para isso. E agora terá de preparar a sua armada. Talvez dessa forma, ao som de Viva la Vida como ele bem gosta, os blaugrana voltem a subir ao relvado com aquela fome de comer o Mundo que os transformou em algo especial. Dificilmente Guardiola voltará a ter um ano como este. Dificilmente algum ano voltará a ter alguém tão marcante como Pep.