É o máximo duelo do futebol português. Por muito que a imprensa lisboeta teime em valorizar o valor do derby da Segunda Circular, a bola desloca-se com outra dinâmica num duelo que ultrapassa as quatro linhas. É um espelho de uma Nação em constante conflito adormecido. É um jogo de gerações e orgulhos. É o retrato de um país que continua a viver o preto e branco do contra ou a favor. Sem meios termos. Porque nem os empates o são na realidade. Hoje a Luz voltará a iluminar o futebol nacional.

Historicamente os duelos SL Benfica e FC Porto disputados em Lisboa pendem a favor dos encarnados. Mas a estatistica não perdoa e denuncia um equilibrio total na última década. 3 vitórias dos locais, 3 vitórias visitantes, 3 empates. Por isso este jogo desempatará as contas. Mas aqui as estatisticas contam pouco, muito pouco. Um duelo Benfica-Porto é pura emoção. Apesar de não ter o mesmo poder mediático é um duelo ao nível dos grandes clássicos do futebol. Uma longa tradição de conflito institucional, dois clubes que representam duas visões totalmente opostas do desporto. E da sociedade. E para culminar, as duas equipas que dominaram os últimos 50 anos do futebol português. Vinte e cinco anos de dominio encarnado e vinte e cinco anos de supremacia azul e branca. Os portistas procuram o seu segundo Pentacampeonato. Os benfiquistas acreditam, pela primeira vez em muitos anos, na ressurreição desportiva a longo prazo. Já não é só a questão do titulo - quebrada que estava em 2005 a malapata de 11 anos. É o futuro dominante de uma liga que nos últimos anos tem sido tingido com azul e branco. A prova caminha para o seu equador e o lider até é outro, um surpreendente Sporting de Braga que começa a provar o amargo sabor da exigência daqueles que vêm dois empates consecutivos e acham isso estranho. Quando é a situação mais normal do mundo num clube que não ambiciona a nada mais que voltar à Europa. E apesar disso, lidera. Mas mais do que a liderança, na Luz disputa-se outra guerra.
O FC Porto chega em alta. Depois de um mês de Outubro muito complicado, os portistas ressuscitaram. A equipa recuperou jogadores chaves que passaram o Outono lesionados. Casos de Fucile, Varela e Rodriguez. A qualificação europeia e as últimas vitórias na liga levaram os portistas ao terceiro lugar, a apenas um ponto da liderança. Algo impensável para os mais criticos há pouco mais de um mês. Mérito para Jesualdo Ferreira, que finalmente impôs o seu modelo de jogo às novas incorporações. No entanto, apesar da subida de forma, o conjunto do Dragão tem manifestado grandes dificuldades em vencer em Lisboa com Jesualdo no banco. Será provavel que a abordagem do treinador seja mais cautelosa, trabalhando um 4-4-2 que utilize o contra-ataque como arma principal. Talvez até sem um ponta-de-lança fixo na área, utilizando a velocidade de Varela e Hulk. O técnico sabe que deve aproveitar as baixas do rival mas ao mesmo tempo não quer perder a luta do meio-campo. Precisamente o ponto forte do rival. E precisamente onde está mais frágil.

As expulsões de Di Maria e Fábio Coentrão no jogo frente ao Olhanense - o pior jogo do ano do Benfica, em que Jesus se mostrou absolutamente vulgar - abrem uma série de dúvidas. A isso há que juntar a débil condição fisica de Ramires e Aimar. Os encarnados que tiveram dois meses ao mais alto nível perderam o gás. Depois da derrota em Braga e frente ao Vitória e com os empates diante de Sporting e Olhanense provou-se que a febre goleadora tinha data de caducidade. O Benfica não deixa de ser um conjunto organizado mas tem-se tornado mais previsível. As polémicas arbitrais também não deixam de acompanhar os encarnados, com vários erros a acabarem por revelar-se determinantes num bom punhado de jogos. A aura de invencibilidade esmorece-se. Mas uma vitória diante do rival directo pode mudar tudo. Será o grande teste de fogo para o técnico. Se o duelo com o Sporting mostrou um Jesus temeroso frente ao leão mais débil da década, muitos se perguntam que Benfica esperar diante do temível dragão. Uma equipa de contenção e calculista com Carlos Martins e César Peixoto? Ou a máquina de ataque que tem encantado gregos e troianos?
Os últimos anos têm servido para diminuir o ruido à volta do derby. A polémica à volta do Apito Dourado levou ao presidente azul e branco, Pinto da Costa, a afastar-se da ribalta. E sem o seu cinismo viperino os azuis e brancos ficaram orfãos de um espirito de guerrilha que esteve também na base do seu sucesso desportivo a partir dos anos 80. Por sua vez o Benfica vive uma tranquilidade institucional inesperada, apesar das eventuais consequências desastrosas que possa vir a ter a gestão desportiva e financeira da equipa presidida por Luis Filipe Vieira. Na realidade ambos os presidentes jogam à defesa e abrem caminho ao duelo no relvado. Aí falarão mais alto os sentimentos. O duro Bruno Alves contra o voraz Cardozo. O hábil Aimar frente ao implacável Fernando. O alto Luisão contra o furacão Hulk. O esguio Varela e o adaptado David Luiz. Duelos, pessoais e colectivos, num jogo que vai estar a ser observado à lupa. A polémica nomeação de Lucilio Baptista volta a desenterrar todos os fantasmas da arbitragem portuguesa e apesar das criticas azuis e brancos a verdade é que o FC Porto venceu a esmagadora maioria dos derbys apitados pelo polémico setubalense. Como sempre no futebol a estatistica conta pouco.

O estádio estará repleto. A emoção à flor da pele. É o estandarte do Norte do País contra o clube do povo que não conhece fronteiras. É o duelo gastronómico, cultural, moral e social de dois lados da uma mesma moeda chamada Portugal. Dois elementos irreconciliáveis que perdem valor se o outro não existe. O histórico Norte-Sul é bem mais real do que os pragmáticos querem supor. O duelo do actual Imperador com o Rei deposto é bem mais sentido do que os outsiders conseguem sentir. O titulo não está em jogo porque o equador da prova não foi ainda ultrapassado. Mas o prestigio e a moral são objectivos bem mais valiosos a esta altura da prova. Uma vitória azul e branca é uma injecção de moral apreciável e significa que, pela primeira vez este ano, os dragões ultrapassariam o rival directo. Por sua vez um triunfo encarnado volta a colocar a diferença que separou as duas equipas durante grande parte do periodo outonal. No final a estatistica diz-nos que o resultado mais provável é o empate. Mas como dissemos, isto é um Benfica-Porto. Que interessa a estatistica?

