Quanto vale, hoje em dia, uma vitória na Série A?
Há uns anos estaríamos a falar do maior entre os maiores da Europa. Durante os anos 90 não havia liga nacional mais cotada que a italiana. Por ali passavam os melhores jogadores do Mundo, capazes de arrebatar craques aos clubes espanhóis ou ingleses, com olheiros capazes de descobrir craques nos quatro cantos do Mundo. Era a liga onde todos sonhavam jogar. Em pouco mais de dez anos o cenário mudou por completo. Completamente ofuscado pelo campeonato espanhol, primeiro, e pela Premier League, nos últimos anos, o Cálcio hoje está mais perto da segunda divisão europeia do que das grandes provas nacionais. E a nova vitória do Inter Milão volta a espelhar a crise em que se afundou o futebol italiano.
Não vamos tirar méritos a José Mourinho. O técnico setubalense fez o que sabe fazer melhor: vencer.
Dominou o campeonato com autoridade, nunca pareceu estar em risco de ser suplantado pelos seus principais rivais e sagrou-se campeão sem ter de esperar pelo apito final da prova. Mas isso é pouco, muito pouco. A equipa de Milão nunca jogou verdadeiramente bem. Um futebol cinzento, apagado, incapaz de captar admiradores, todo o contrário dos futuros campeões das restantes ligas europeias. Uma equipa repleta de estrelas do futebol mundial mas que estão mais perto da reforma do que seu zénite. Não surpreende ninguém que Zlatan Ibrahimovic tenha vontade em abandonar Milão. Ele decidiu a maioria dos encontros mornos que os neroazzuri triunfou, pela mínima, arrancando a ferros pontos a equipas com potencial claramente inferior. Enquanto que o Man Utd ou o Barcelona dominam com autoridade os seus encontros, goleando semana sim, semana não, em Milão é um drama aguentar os 90 minutos a ver as transições ofensivas do onze de Mourinho sem qualquer pingo de efectividade. Mas o que faz o Inter não é caso único. Conectar com qualquer jogo da liga italiana é um exercício de paciência pura e dura. Passa o mesmo com a envelhecida esquadra do AC Milan, o eterno rival que sobrevive com uma equipa cuja média de idades ultrapassa largamente os 30 e onde, para além do duo brasileiro Kaka-Pato, as grandes figuras são os veteraníssimos Maldini, Nesta, Pirlo, Gattuso, Beckham e Inzaghi. Quanto ao brasileiro Ronaldinho e ao ucraniano Shevchenko, são mais dois exemplos de jogadores no ponto baixo da carreira que encontram em Itália o refúgio ideal para escapar à pressão de um grande europeu. Mas também com a Juventus – em claro processo de renovação mas que poderá demorar se Ranieri continua ao leme – o AS Roma, Fiorentina, Nápoles, Génova ou Sampdoria. A média de golos em Itália é das mais baixas das ligas europeias e o nível médio das equipas roça a mediocridade em comparação com Espanha ou Inglaterra.

O título de Mourinho nem soa a novo, ao contrário do que logrou com o FC Porto ou Chelsea, clubes que apanhou numa fase baixa e levou-os ao mais alto. As três vitórias anteriores (uma na secretaria e duas em campo, sendo que uma sem rivais à altura) fazem com que este tetra milanês espelhe bem a falta de competitividade que vive o Cálcio. Tudo está ligado, obviamente, ao “Moggigate” que atirou a Juve para a Série B, retirou-lhe um titulo de campeão logrado em campo e fez com que os rivais mais fortes do Internazionale, o AC Milan e AS Lazio, tenham começado uma época com alto passivo e pontos negativos. Enfim, caminho aberto para um domínio absoluto mas falso. No entanto é fácil culpar apenas o polémico caso de corrupção num dos países já de si mais corruptos de toda a Europa. Futebol italiano e corrupção são quase sinónimos e nunca a qualidade do jogo foi tão baixa. O problema começou no final dos anos 90 (exceptuando os dois títulos do AC Milan em 2003 e 2007 nenhum outro clube italiano triunfou nas provas europeias nos últimos anos) e contínua. Os grandes jogadores evitam os clubes italianos, as equipas prendem-se, cada vez mais, a esquemas altamente defensivos e os próprios técnicos italianos – antes altamente respeitados fora de portas – parecem ter estagnado e não oferecem mais que um conservador 4-5-1 ou 4-3-3 de vocação claramente defensiva. O conservadorismo é a nota dominante dos treinadores da Série A. Ranieri, Ancelloti, Prandelli ou Donadoni não são, propriamente, o exemplo de treinadores ofensivos. E, se exceptuarmos José Mourinho, não há hoje em Itália um treinador estrangeiro capaz de imprimir uma outra filosofia de jogo.
Para o ano o Inter de Mourinho voltara a ser o favorito, mas a que preço. AC Milan e Juventus mostraram estar a subir de nível este ano e espera-se que apresentem novos projectos, com caras renovadas, dentro e fora de campo. Mas será suficiente? E a classe média italiana, cada vez mais nivelada, lutará arduamente para conseguir o quarto lugar que dá a porta à Champions League. Mas a continuar assim, daqui a pouco será provável que esse lugar desapareça e o futebol italiano entre numa crise ainda mais profunda. Em Itália o futebol enfrenta um verdadeiro desafio de sobrevivência qualitativa. A iminente perda de craques como Kaka ou Zlatan e a ausência de jovens estrelas formadas em casa é mais um sinal da grave crise que vive a Série A. Uma crise que, hoje, não tem fim á vista.