Terça-feira, 15 de Dezembro de 2009

Hoje o Manchester City vive dos milhões de sheiks com ambições desmedidas. Mas nem sempre foi assim. O Maine Road chegou a ser a casa do bom futebol inglês, de uma equipa capaz de bater-se com as melhores do mundo. Um onze de citizens comandado com mestria por Joe Mercer, grande dentro e fora das quatro linhas.

 

Foi um dos grandes jogadores ingleses da primeira metade do século. Internacional várias vezes, eleito em 1950 Melhor Jogador do Ano, Joe Mercer era um médio respeitado por tudo e por todos. Durante dez anos comandou o meio campo do Everton. A guerra travou-lhe a carreira mas mesmo assim, em 1946, assinou pelo Arsenal onde disputou alguns dos seus melhores jogos e venceu três ligas e uma FA Cup. Chegou a fazer mais de 400 jogos como profissional antes de retirar-se. Filho de um conceituado futebolista dos anos 20, Mercer decidiu continuar no meio e optou por tornar-se treinador. A experiência como jornalista desportivo não tinha corrido bem e depois de um negócio como merceeiro ter falhado, ser técnico tornou-se no escape óbvio. O seu passado no entanto nunca o deixaria e mesmo quando se sagrou campeão pela única vez, os jornais falavam do "Footballing Grocer".

Entrou a dois dias do inicio da época ao serviço do Sheffield United devido à morte súbita do técnico anterior. A experiência correu mal e a equipa foi despromovida. Aqueles que lhe auguravam um futuro complicado pareciam ter razão. A experiência seguinte correu pior. Tomou controlo do Aston Villa, que seguia em último na Primeira Divisão, e não logrou salvar o exército villain. A derrota no último jogo provocou-lhe um ataque cardíaco. A direcção, sem piedade, aproveitou para despedi-lo. Seria a última vez na sua carreira.

 

Em 1965 Joe Mercer estava ao comando do Manchester City. Um ano de interregno para recuperar forças e um projecto aliciante em Maine Road. Mercer apanhou o conjunto a meio da tabela da segunda divisão e tornou-os campeões no primeiro ano. Com a ajuda de Malcolm Alisson, como adjunto, a equipa logrou a subida de divisão e no primeiro ano entre a elite terminou na parte alta da tabela. Os adeptos do City viviam à sombra do sucesso desportivo dos eternos rivais, os Busby Babes. E em 1968 aconteceu o inesperado. Com o Man Utd concentrado em vencer a sua primeira Taça dos Campeões Europeus, o Manchester City de Mercer dominou a liga. A equipa colocou-se rapidamente no topo da tabela, depois de derrotar Liverpool e Leeds em dois jogos consecutivos no celebre Boxing Day. Liderados pelo duo composto por Summerby e Bell o City mostrou-se intratável e venceu o título. Apenas o segundo da sua centenária história. Um triunfo que elevou Mercer à categoria de génio táctico, particularmente depois de ter dado a reviravolta num jogo electrizante contra o Man Utd de Busby. A equipa celebrou o titulo que não voltaria a vencer desde então. No ano seguinte o Man City cedo se viu afastado do trofeu mas em troca venceu a sua primeira FA Cup em largos anos. Um trofeu fundamental para em Maio de 1970 o clube de Manchester lograr o seu unico titulo europeu, uma mitica final da Taça das Taças contra os polacos do Gronik Zabzre no Prater. Um jogo ganho por 2-1 sem Summerbee mas com um Neil Young em óptima forma. O avançado apontou um golo e sofreu a falta que possibilitou a Francis Lee ampliar a vantagem. Os polacos reduziriam na segunda parte e até ao final o sofrimento dominou o banco do Man City. A vitória deu a Mercer a alegria da sua vida, poucos dias depois de já ter vencido a sua primeira League Cup.

 

Na inicio da década de 70 o City de Mercer continuava a ser uma força de respeito. A equipa lutou pelo titulo contra o Liverpool e Leeds mas voltou a falhar na Europa. A renovação geracional começou a opor os dois técnicos do conjunto. Allison aliou-se então a um grupo de descontentes que queriam um novo rumo para a direcção. Joe Mercer ficou fiel ao quadro directivo de Albert Alexander. Este acabou por ser destituido e o novo grupo de donos do clube imediatamente começou a cortar nos privilegios do técnico. Num dia em que Mercer chegava ao estádio para dar mais um treino, a situação atingiu o limite. O técnico tinha ficado sem o seu lugar de estacionamento entregue a Allison. Decidiu demitir-se no acto quando a equipa ainda estava a disputar o título. A saída enfureceu os adeptos do City mas por essa altura já Mercer tinha assinado um contrato com o Coventry onde estaria até 1974. No final da época foi eleito como seleccionador de transição, para substituir Sir Alf Ramsey. Orientou os Pross durante sete jogos, concedendo apenas uma derrota. A nomeação de Don Revie significou o seu afastamento dos quadros da federação. O ex-técnico do Leeds não suportava a figura de Mercer e anunciou que traria a sua própria equipa. A decisão precipitou o final da carreira de Mercer. O técnico tornou-se director do Coventry City, acabando por se retirar nos anos 80 quando lhe foi diagnostecida a doença de Alzheimer.

 

Mercer não foi um técnico tacticamente inovador e a sua carreira teve vários altos e baixos. Mas a sua etapa como manager do Manchester City faz parte dos anais da história do futebol inglês. Mercer montou um onze sólido onde o vedetismo não tinha lugar. A equipa jogava bom futebol e durante dois anos deixou à sombra o poderoso rival de Manchester. Depois da sua saída o clube nunca mais atingiu o mesmo sucesso e ainda hoje, enquanto esperam uma finta de Robinho ou Adebayor, os adeptos veteranos dos citizens lembrar-se-ão com saudade das danças de Mike Summerbee e os golos de Colin Bell, os Mercer Boys.



Miguel Lourenço Pereira às 13:34 | link do post

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