Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

Quando a FIFA decidiu acabar com o duelo da Taça Intercontinental para criar um Mundial de Clubes onde cabiam representantes dos quatro cantos do Mundo, os adeptos do futebol aplaudiram a democratização. Mas há regimes mais democráticos que outros. A imprensa centra-se no já antecipado "Barcelona das 6 Taças" e deixa passar um ligeiro, mas importante detalhe. O troféu já começou a disputar-se.

Campeão Europeu, Sul-Americano, da CONCAF, Africano, Asiático, da Oceânia e o organizador. Sete representantes num trofeu cujo o impacto internacional está nos minimos históricos. Quando deveria ser, precisamente, o oposto. A FIFA quis acabar com esse duelo entre europeus e sul-americanos que durante quase meio-século ficou conhecido como Taça Intercontinental. Salvo pela Toyota - que deu o nome ao trofeu e uma taça extra - depois das problemáticas edições a duas mãos dos anos 70 (onde a maioria dos campeões europeus preferiu nem participar), o torneio chegou ao seu final com a vitória do FC Porto frente ao Once Caldas. Desequilibrou-se a balança para o lado europeu mas o resto do Mundo queria também entrar na festa. Em 2000 a FIFA tinha tentado criar uma edição piloto que não correu lá muito bem. A final entre brasileiros, a polémica à volta da participação do Manchester United e o baixo nível apresentado por muitos dos candidatos ao trofeu levou a organização a repensar o modelo de dois grupos de quatro equipas. A ideia madurou mais cinco anos até que em 2005 voltou de novo à prática. Ainda no Japão, o novo Mundial de Clubes FIFA copiou apenas os maus exemplos da sua antecessora. Incapaz de criar uma brecha no calendário e face à impossibilidade de coordenar a presença de campeões sagrados de forma tão dispar no tempo, a FIFA optou pelo modelo fácil. Prés-eliminatórias para as federações menos importantes com os europeus e sul-americanos - os mesmos da Intercontinental - tranquilamente à espera nas meias-finais. Inevitavelmente passaram à final que o São Paulo levou para casa.

Ontem começou a quinta edição do Mundial de Clubes. E ninguém deu por isso.

Apesar da democratização da competição o enfoque continua a estar todo nos participantes europeus e sul-americanos. As regras do sorteio ditam que ambas equipas estão livres de disputar pré-eliminatórias. Num trofeu onde o representante da Oceânia pode disputar até quatro jogos, o europeu ou sul-americano nunca farão mais de dois. Democracia futebolistica pura.

O Barcelona viaja tranquilo para o Dubai, novo centro da competição. Os petrodolares foram suficientes para levar a FIFA do fiel Japão a novas paragens. Mas nem a mudança de cenário conseguiu gerar publicidade suficiente para criar interesse por uma prova que a maioria dos adeptos desportivos ignora e não acompanha. Os horários proibitivos para o público europeu, a falta de conhecimento dos clubes do resto do Mundo são justificações normais. Mas insuficientes. A FIFA ainda não logrou entender que uma prova organizada no final do ano desagrada a todos. Aos representantes continentais, obrigados a largas viagens em momentos cruciais da sua época desportiva. Aos agentes publicitários que não sabem como vender um producto que parece, a todos os titulos, incombustível. E ao próprio adepto. No meio das contas tudo acaba por passar a segundo plano.

 

No final de contas a Oceânia continua a ser - até neste aspecto - o continente mais prejudicado. É forçado a disputar uma pré-eliminatória com o clube do país organizador. Ontem o Auckland City, campeão da Nova-Zelândia e da Oceânia, defrontou o Al Ahli, campeão dos Emirados Árabes Unidos. E venceu. 2-0. Um triunfo categórico que tem o condão de abrir as portas...para a próxima eliminatória. Uns falsos quartos-de-final onde o campeão da CONCAF - o Atlante - será o próximo rival. No outro encontro jogam os actuais senhores de África - TP Mazembe - contra os asiáticos Pohang Steelers. Enquanto isso o Barcelona acaba de vencer o Dynamo de Kiev para a Champions League e no próximo sábado defronta o Espanyol de Barcelona. Que a FIFA permita que uma prova deste calibre decorra enquanto que o máximo favorito ainda tem tempo para disputar encontros de outros dois troféus é sinal claro da total desorganização desportiva que rodeia este Mundial.

Em lugar de respeitar o ideal de Mundial que aplicou na primeira edição da prova - dois grupos de quatro equipas (onde poderia ter lugar o vencedor da edição passada) a FIFA prefere adoptar a fórmula de agradar a gregos e troianos. Não o consegue. Os grandes favoritos desprezam o torneio, que os abriga a largas viagens para disputar dois jogos. Não é por acaso que todas as finais anteriores acabaram por se disputar entre os mesmos que mediam forças na Intercontinental. Quando aos clubes de outros continentes, perdem o aliciante mediático de medir forças com os grandes, chegando já batidos aos encontros das "meias-finais". Uma prova onde não há igualdade de circunstância não pode ser uma prova a ser levada a sério.

Imaginemos o Mundial de Futebol de Selecções. Agora pensemos numa fase de grupos onde Brasil, Itália, Alemanha e Argentina surgem como isentos. Esperam tranquilamente nos Quartos-de-Final que outras selecções os acompanhem. No final as probabilidades de vencer são suas. E assim se controla a história. O Mundial de Clubes continua a ser uma farsa desportiva da FIFA sem razão de existir. Mais do que mudar o local da prova ou as regras que envolvem o torneio, o que é preciso é mudar o espirito que a rodeia. Quando Mputo, avançado do TP Mazembe, tenha as mesmas igualidades de circunstância que Verón do Estudiantes ou Messi do Barcelona, aí sim falaremos de um torneio real. Este que se disputa pela calada no Dubai é um falso holograma desportivo que não interesse realmente a ninguém.



Miguel Lourenço Pereira às 08:40 | link do post | comentar

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