Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2009

Poucos homens foram tão amados na história do futebol. O reinado absoluto de Don Revie em Leeds foi uma etapa nuclear na profissionalização do futebol britânico. O seu objectivo era tornar o clube de Yorkshire no Real Madrid de Inglaterra. O seu dominio não foi o mesmo, mas a sua equipa tornou-se no alvo a abater. A história, infelizmente, ficou apenas com os seus aspectos negativos e hoje pouco se lembram da lenda de invencibilidade que o rodeia.

No recente The Damned United - filme que retrata a mês e meio que Brian Clough passou no banco do Leeds Utd - a figura de Don Revie é olhada com um desprezo reverencial. Transformado quase num oficial do exército vermelho, Revie surge como um ogre, capaz de controlar à distância tudo o que o rodeia. A nemesis perfeita de um génio em convulsão. A figura do técnico que marcou a viragem da década do futebol inglês é, por isso mesmo, ainda hoje extremamente confusa. Há os que se recordam dos seus 11 invenciveis, uma equipa inesquecível que se mostrava implacável contra qualquer rival. Há também os que apontam o dedo ao seu consulado falhado ao serviço da selecção inglesa. E por fim paira no ar as suspeitas de corrupção ilicita ao largo dos últimos anos de Revie como técnico. Como o mau sempre parece enturbiar o bom, Don Revie ainda é visto como o brigão do futebol inglês. O técnico do qual nenhum adepto quer ser admirador hoje em dia. O politicamente correcto do futebol diriamos.

 

E no entanto à época, Don Revie era vivido, tratado e reverenciado como um génio. Foi rival directo de três dos maiores treinadores da história do futebol e pode gabar-se de os ter batido a todos. De forma regular. O seu Leeds United foi, na segunda metade dos anos 60 e no principio da década de 70 a alternativa lógica ao duo Liverpool-Manchester United. E se em Londres havia bom futebol nos pés dos jogadores do Arsenal, Chelsea e Tottenham. E se Manchester tinha duas equipas de respeito e um tal de Brian Clough fazia maravilhas com o desconhecido Derby County, a verdade é que era o Leeds quem enchia as capas de jornais. Obra de um só homem.

Don Revie nasceu em Middlesborough - tal como o seu rival Clough - no Verão de 1927. Começou como jogador no Leicester e foi no Sunderland onde atingiu o seu apogeu desportivo. Em 1958, depois de 64 jogos ao serviço dos nortenhos, transferiu-se para o Leeds Utd por valores históricos. Era um avançado de renome, internacional e o responsável pela criação do falso-avançado no futebol inglês, posição durante anos reconhecida como o "Revie Plan". Em 1962, com 36 anos retira-se. O clube convida-o a pegar na equipa que por então penava na Second Division. Começavam os Glory Years.

Em três anos o técnico montou uma equipa ganhadora. Depois de um ano como treinador-jogador, dedicou-se exclusivamente ao aperfeiçoamento táctico do seu 4-2-4 que rapidamente se tornaria em 4-4-2. O Leeds sagrou-se campeão da segunda divisão e no primeiro ano na Division One a equipa terminou no segundo lugar, disputando até à última jornada o titulo com o Manchester United de Matt Busby. As ácidas relações entre ambos técnicos ficariam para a história tal como os duelos de Revie com Shankly, que nesse ano o derrotou na final da FA Cup. A equipa voltou à carga no ano seguinte e voltou a terminar o ano no segundo posto, agora atrás do Liverpool e de novo disputando o trofeu até ao último momento. Os dois anos seguintes foram complicados, com vários jogadores da equipa base de Revie a terminarem a carreira. Era a época de apostar em sangue novo. O treinador montou um meio-campo de ferro com Billy Bremner, Peter Lorrimer, Jack Charlton e Johnny Gilles. Um quarteto que faria história a partir de 1968. Por essa época a equipa já tinha deixado o tradicional azul e amarelo, passando a equipar de branco. Segundo Revie, o Leeds tinha de se tornar no Real Madrid do futebol inglês e nada melhor do que equipar-se como os espanhois.

 

Em 1968 a equipa comemora os dois primeiros trofeus com Revie. Vence a Taça da Liga e a Taça das Cidades com Feiras pela primeira vez. Numa final histórica contra Ferencvaros a equipa desforrou-se da derrota no ano anterior (frente ao Dinamo Zagreb) e antecipou um ano de luxo para o futebol inglês. Duas semanas depois os rivais de Manchester sagravam-se campeões europeus. O ano seguinte foi o da consagração. Com Bremner e Gilles no seu melhor o Leeds proclamou-se finalmente campeão com uma larga vantagem sobre o segundo classificado, o Liverpool de Shankly. A equipa confirmava a sua superioridade e Don Revie era, pela primeira vez, eleito Treinador do Ano. Prémio a um trabalho genial que levou a que, durante uma década, o Leeds nunca tivesse saído dos quatro primeiros. Algo que nenhum outro conjunto inglês logrou. Em 1971 a equipa voltou a disputar o titulo até ao final. Por esta altura começaram as acusações de jogo violento e anti-desportivo que tornaram o clube de Yorkshire no mais odiado do país. A campanha de Clough, Shankly e Busby contra Revie fizeram dele persona non-grata. Mas em Leeds adoravam-no. No mesmo ano a equipa venceu a sua segunda Taça das Cidades com Feiras (diante da Juventus) e voltava à final da FA Cup. Depois de voltar a vencer o trofeu, em 1973 o Leeds conquistou o título da liga pela segunda vez com Revie ao comando. Seria o último trofeu no banco de Elland Road. No Verão o técnico que tinha rejeitado suceder a Matt Busby não resistiu a tomar controlo da selecção inglesa. Os adeptos mostram-se contra a sua nomeação. E Leeds começou a descida aos abismos.

 

Ao serviço de Inglaterra a carreira do homem que tinha vencido por três vezes o prémio de Treinador do Ano começou a sua etapa final. Falhando o apuramento para o Euro 1976, Revie começou a envolver-se em polémicos negócios com empresas onde detinha participações. Uma delas, a Admiral, tornou-se na primeira patrocinadora a ver o seu nome inscrito na camisola dos Pross. Um atento à tradição inglesa que precipitou a sua demissão. Ter falhado o apuramento ao Mundial de 1978, estando várias vezes ausente do país em datas chave da qualificação, foi a gota que transbordou o vaso. Emigrado para os países árabes, Revie assumiu o cargo de seleccionador dos Emirados Arabes Unidos mas novas polémicas à volta de apostas ilegais levaram-no a rescindir o milionário contrato. Voltou amargo para a sua Inglaterra natal onde a sua figura tinha passado para segundo plano. Quando morreu, em 1989, o seu Leeds vivia horas complicadas. Seria campeão cinco anos depois, mas hoje vive na amargura da III Divisão onde caiu depois de entrar em falência.

Em Elland Road todos se lembram ainda do Boss Revie, um técnico que tratava os jogadores como filhos e que forjou uma das mais competitivas equipas da história do futebol. Poucos clubes lograram jogar tantas finais e disputar tantos campeonatos até à última jornada como o seu Leeds. A história preferiu o lado negro de Ron. Os amantes do beautiful game nunca esquecerão o seu sorriso ganhador.



Miguel Lourenço Pereira às 14:43 | link do post | comentar

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