Segunda-feira, 7 de Dezembro de 2009

Os mais velhos adeptos de White Hart Lane lembram-se bem da era gloriosa em que a equipa era uma peça chave no cosmos desportivo britânico. Uma era onde o Tottenham Hotspurs podia ter antecipado em quase uma década o dominio europeu do futebol inglês. Uma era onde o homem do banco era um veterano de guerra indomável conhecido pelos jogadores como "Tio Bill". A história imortalizou o nome completo: William "Bill" Edward Nicholson.

 

Apanhado, como tantos outros, no calor do conflito, Bill Nicholson esteve várias vezes perto de ser ferido em combate. A sua notável condição fisica e o espirito de liderança que o destacou como sargento do exército britânico salvaram-no sempre. Talvez se uma bala perdida tivesse encontrado outro destino, a história do futebol inglês tivesse sido bem diferente. Mas não foi. Quando o conflito terminou o jovem William Nicholson voltou a White Hart Lane. Tinha assinado aos 16 anos pelo Tottenham mas o irromper da guerra, dois anos depois, tinha parado a sua promissora carreira. Com 25 anos o jovem do Yorkshire estava de regresso. Utilizado como extremo pelo mitico Arthur Rowe, foi peça chave na equipa "Push and Row" que conquistou o título de 1951, ano em que conseguiu a sua única internacionalização. Contra Portugal, em Goodison Park, entrou e apontou imediatamente o seu único golo pelos Pross. Tapado por Billy Wright, o veterano extremo entrou tranquilamente na etapa final da sua carreira. Em 1955 deixou os relvados e foi admitido no staff técnico do Tottenham. Os seus conhecimentos levaram-no imediatamente a colaborar também com a selecção inglesa onde esteve como adjunto no Mundial da Suécia. Em Outubro do ano seguinte, sem emprego, foi chamado de novo a Londres. Propuseram-lhe o posto de treinador principal de uma equipa que por então lutava para não descer. Pediu plenos poderes à direcção. Disseram-lhe que sim, a contra-gosto. Aceitou. E mudou por completo a história dos Spurs.

 

Os adeptos acorreram em massa para ver o primeiro jogo do novo técnico. Não se enganaram. O Tottenham venceu por 10-4 o Everton, resultado que começava a ser pouco habitual e que era o novo recorde do clube. Recuperou na tabela e terminou bem longe dos lugares de despromoção. Estava lançada a base que iria remodelar por completo o futebol inglês. Com o Liverpool pelas ruas da amargura e o Manchester United em reconstrução, o Tottenham emergiu como a primeira potência das ilhas britânicas. Nicholson foi um visionário ao aplicar ao tradicional kick and rush um componente táctico importante. O apoio constante de um médio centro aos dois avançados transformava a linha ofensiva da equipa num conjunto diabólico. Com uma linha marcada por Branchflower, White, Mackay, Jones e o mitico Jimmy Greaves, os Spurs tornaram-se no rival a abater.

Em 1961 arrancaram para o primeiro título em 10 anos. A equipa dominou por completo a prova e depois de vários jogos invencível sagrou-se campeã. Duas semanas depois em Wembley venceram a FA Cup e tornaram-se na primeira equipa a conseguir a dobradinha no século XX. No ano seguinte a Europa era o objectivo. O campeonato perdeu-se em Março e apesar de nova vitória na FA Cup a grande esperança estava no duelo das meias-finais contra o SL Benfica. Na Luz os ingleses perderam por 3-1 às mãos de Eusébio e companhia. Mas esperam poder dar a volta em White Hart Lane. Os adeptos eufóricos receberam os encarnados de forma furiosa e a equipa rapidamente conseguiu os dois golos que valiam o apuramento. Mas um golpe de génio do avançado do Benfica e uma série de graves erros da equipa da arbitragem adiaram a consagração europeia de uma equipa de sonho.

 

Em lugar de si ir abaixo, Bill Nicholson encarou a época seguinte de forma singular. Começou a substituir progressivamente os veteranos do plantel e com uma equipa rejuvenescida a equipa conquistou finalmente a Europa. Venceram o Atlético de Madrid por uns demolidores 5-1 na final da Taça das Taças em Roterdão e abriram o dominio inglês do futebol europeu. A equipa contava então com grandes promessas como Terry Venables, Joe Kinnear, Allan Mullery, Mike England, Alan Gilzean e Johnny Gilles. O futebol de Nicholson era duro mas atractivo. A equipa defendia bem e atacava melhor e os golos de Greaves faziam a diferença. Com o Liverpool e o Manchester United de volta ao topo, o Tottenham era a grande alternativa. Terceiros durante dois anos seguidos, a equipa conquistou a FA Cup de novo em 1967 e a Taça da Liga em 1971 e 1972. Para confirmar a condição de potência europeia, a equipa venceu a Taça UEFA de 1972 tornando-se na primeira equipa britânica a ter dois trofeus europeus. Foi de facto uma época dourada para os Spurs e não havia adepto que contestasse as decisões do reverenciado Nicholson. Mas a sua era estava perto do fim.

 

Em 1974 a equipa começou mal e os grandes cracks da época dourada começaram a retirar-se. A má posição no campeonato e o péssimo comportamento dos adeptos do clube depois da final perdida da Taça UEFA em Roterdão frente ao Feyennord precipitaram a sua retirada. Saiu contra o desejo dos adeptos e da direcção, mas Nicholson sabia que a sua época tinha chegado ao fim. Tal como Shankly e Busby, ele representava a primeira era dos managers. Apesar de ter deixado o banco a longa história de amor entre o clube e o técnico evoluiu naturalmente. Tornou-se num dos olheiros do clube e levou para White Hart Lane jogadores como Glenn Hoddle e Gary Mabutt, essenciais para o ressuscitar do clube nos anos 80. Em 1991, para surpresa de poucos, tornou-se presidente do clube. Desempenhou o cargo durante um mandato antes de retirar-se finalmente. Em 2004 acabou por falecer depois de uma longa doença.

 

Autor de frases miticas como "Os meus jogadores nunca podem acabar um jogo satisfeitos com a sua performance. E não admito que suportem perder!", Bill Nicholson fez parte da primeira grande geração de técnicos do pós-guerra. Aplicou a disciplina militar que herdou da sua passagem pelo exército mas também soube trazer ao jogo uma componente estética que o futebol inglês nunca tinha realmente tido no passado. Os adeptos do Tottenham choraram genuinamente quando souberam a notócia da sua morte. Sabiam que com ele ia também a última memória de uma era onde White Hart Lane era um forte inexpugnável.



publicado por Miguel Lourenço Pereira às 09:20 | link do post | comentar

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