Sábado, 5 de Dezembro de 2009

"É a segunda vez que bato aqui os alemães. A primeira foi em 1944 quando entrei pela cidade montado num tanque do exército no dia da libertação". Com simples e honestas frases como esta, Bob Paisley tornou-se num dos maiores mitos do futebol moderno. É o técnico com mais titulos numa carreira que não durou uma década. Ofuscado pelo forte caracter do seu antecessor, a verdade é que Paisley marcou a era dourada do futebol inglês. E se muitos atribuem a Bill Shankly a paternidade do "espirito Liverpool" a verdade é que foi sob o comando do modesto Paisley que o clube viveu as suas maiores épocas de glória.

 

"Lembro-vos que também tivemos momentos dificeis. Um ano acabamos em segundo!". Um desabafo que explica bem o consulado de Robert "Bob" Paisley em Anfield Road.

Em nove anos como técnico principal Paisley ganhou quase tudo o que havia para ganhar. Faltou-lhe apenas a FA Cup, trofeu maldito que sempre se lhe escapou pelas mãos. É, ainda hoje, o único treinador que conta com 3 Taças dos Campeões Europeus. Em nove épocas ganhou seis ligas inglesas, uma Taça UEFA, três Taças da Liga, cinco Supertaças e uma Supertaça Europeia. Um registo, ainda hoje, inigualado. Ao final, Paisley saiu como chegou. Sem fazer muito ruído, mas sob uma enorme ovação. Sempre reconheceu ter herdado um projecto ganhador e nunca se quis atribuir o mérito do melhor Liverpool da história. Permaneceu fiel ao espirito criado no mitico "Boot Room", a sala que Shankly transformou em salão de chã e tácticas, e que forjou a magia que rodeia, ainda hoje, Anfield Road. Foi o exemplo perfeito de um técnico de causas. Esteve envolvido durante 50 anos no mundo do futebol. Sempre ao serviço do Liverpool. Primeiro como jogador, chegando a capitão de equipa. Mais tarde como membro de várias equipas técnicas. Até ao dia em que Shankly lhe confessou que se retirava. E que o tinha acabado de nomear sucessor. Paisley disse que não ao seu mentor. À direcção. E aos próprios jogadores. Acabou por aceitar, a contragosto, o papel que desempenhou com mestria.

 

Na Primavera de 1939 Bob Paisley entrou pela primeira em Anfiel Road. Para não voltar a sair.

Contava então com 20 anos, um forte sotaque "geordie" e um ar bonacheirão que o tornava simplesmente irresistível. Tornou-se num filho adoptivo da cidade. Demorou sete anos a estrear-se com a camisola vermelha. Durante esse tempo serviu, como tantos outros da sua geração, nas frentes de guerra. No regresso assumiu o seu posto em Anfield e tornou-se decisivo no titulo logrado em 1947. Quatro anos depois era já o capitão indiscutível. E quando em 1954, com 35 anos, decidiu retirar-se, o clube ofereceu-lhe de imediato o posto de fisioterapeuta na equipa técnica. Paisley aceitou de bom grado e começou uma longa e épica aventura. Fez parte de várias equipas técnicas que marcaram a época da decadência dos "Reds". A equipa desceu de divisão e foi aí onde, em 1959, conheceu Bill Shankly. O ousado escocês escolheu Pasley, Joe Fagan e Reuben Bennett como os seus adjuntos. Juntos criaram o célebre "Boot Room" onde se reuniam todos os dias para discutir tácticas, jogadores, rivais e politica. Seria a base do espirito napoleónico do Liverpool de Shankly. Durante os 15 anos seguintes o escocês transformou o clube por completo. Mas em 1974 surpreendeu todos ao anunciar a sua retirada. Tinha deixado a equipa montada para a era de glória que lhe esperava. E precisava de um sucessor. De todos, optou por Paisley, que era o seu oposto. A ideia caiu bem no grupo de jogadores que adoravam Paisley pelo seu espirito de camarada de balneário. Na primeira época a equipa terminou em segundo e muitos questionaram o papel do técnico. Rapidamente iria provar o quão enganados estavam.

 

Em 1976 o Liverpool entrou para a história. Venceu a Liga Inglesa com uma facilidade insultante e conquistou a Taça UEFA de forma autoritária. A equipa acentava ainda na base deixada por Shankly com Keegan e Toshack na frente com um 4-4-2 tipicamente britânico. O jogo passava essencialmente pelos alas com Keegan a recuar no terreno para trabalhar a bola com a dupla de médios centros - Callaghan e Hughes sempre desiquilibrantes. A estes juntavam-se outros nomes chave como Clemence, Heighway e McDermott.  Progressivamente o técnico foi dando o seu cunho pessoal.Chegaram Dalglish e Rush para o ataque, Souness, Lee, Hansen e Kennedy para o meio-campo. E a equipa continuou a fazer história. Em 1977 repetiu o triunfo na liga - o primeiro clube em vários anos a conseguir o bicampeonato - e venceu a sua primeira Taça dos Campeões, numa inesquecível final em Roma. Em 1978 novo triunfo europeu que fez esquecer a derrota na liga diante do Nottingham Forrest. No ano seguinte o Liverpool voltou a ser campeão tal como viria a suceder em 1980, 1982 e 1983. Todas elas sob a orientação de Paisley que em 1981 conquistaria a sua terceira Taça dos Campeões Europeus numa final contra o Real Madrid. Foi a última grande vitória europeia do conjunto "red" sob os comandos de Paisley. O técnico que tinha assistido à tranquila revolução da geração Shankley para aquela que iria - ainda - dominar os anos 80, preparava-se para dizer adeus. Em 1983, quando cumpria o nono ano no banco de Anfield Road, Paisley anunciou que punha um ponto final na carreira. Tal como o seu antecessor, também ele recomendou outro membro do "Boot Room", o seu velho amigo Joe Fagan. A equipa então liderada por Dalglish venceu a liga e Paisley saiu sob ombros. Aceitou um posto como directivo onde esteve na década seguinte até que lhe foi diagnosticada Alzheimer. Lutou oito anos contra a doença, mas esta batalha não a pôde ganhar.

 

Apesar de todos os contras que a história teimou em criar à sua volta, Bob Paisley continua a ser hoje o mais bem sucedido treinador do futebol inglês. Sem um carácter forte como Shnakly mas com um espirito extremamente humilde e pacato, Paisley transformou o Liverpool no mais bem sucedido clube do futebol europeu. Os seus homens pareciam invenciveis sob o seu comando. O seu papel é de tal forma fulcral na história do futebol inglês que basta pensar que sir Alex Ferguson demorou vinte e cinco anos em tentar igualar os feitos que Paisley logrou em nove.



Miguel Lourenço Pereira às 14:34 | link do post | comentar

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