O jogo está feito de frases feitas que têm tanto de absurdas como de incoerentes. Diz-se que um vencedor tem de estar apto para ganhar a qualquer um. Um discurso liricamente repetitivo e que escamoteia a crua realidade. É por isso que a partir de amanhã se começa a definir o próximo campeão do Mundo. Ou há ainda quem duvide, que depois de uma longa e extenuante época, é indiferente o emparelhamento que ditará o sorteio final?

Em Espanha, entusiasmados com a notável forma de La Roja, os editoriais sucedem-se falando a uma mesma voz: os espanhóis são favoritos, cabeças-de-serie e não temem ninguém, calhe quem calhar amanhã no sorteio. Pelo mesmo discurso vão alinhando Brasil, Argentina, Itália, Alemanha, Inglaterra e Holanda. Só, como é compreensivel, a África do Sul olha para os potes com expectativa. Precisa de um grupo acessível para não defraudar à primeira como sucedeu, por exemplo, no último Europeu com os dois anfitriões. Mas este discurso, não se enganem, é para animar as hostes. Atrás está um genuíno receio e temor que atingirá niveis de adrenalina impensáveis à medida que cada país soar na cerimónia de amanhã em Cape Town. Porque todos sabem, a começar pelos favoritos - principalmente os favoritos - que não é o mesmo arrancar com um grupo complicado. Que o digam os últimos campeões Itália, França, Brasil, Alemanha, Argentina, Itália e por aí fora. Todos os campeões do Mundo das últimos seis edições escaparam aos inevitáveis "grupos da morte". Mais, na maioria dos casos, tiveram a sorte de grupos francamente acessiveis. Lembramos a África do Sul, Arábia Saudita e Dinamarca do França 98. Ou o Peru, Polónia e Camarões do Espanha 82. No final os kilómetros a menos corridos, o desgaste emocional poupado revelaram-se decisivos quando o jogo era a doer.
Portugal benificiou de uma situação similar na Alemanha.
Um grupo extremamente acessível onde os lusos não partiam como cabeças-de-série. Irão e Angola eram os mais fáceis rivais nos potes onde estavam inseridos. E México o mais sedutor dos cabeças-de-série. Um cenário que permitiu a Portugal estar na maxima força para os jogos a eliminar. E que ajudaram a explicar a bem sucedida campanha lusa. Algo altamente improvável de se repetir, apesar de Portugal se manter no mesmo pote. Ao contrário de há quatro anos, as equipas europeias seriam o menor problema possível. Dentro dos cabeças de série não há, salvo a selecção organizadora com os perigos que isso acarreta, como os lusos já bem sabem, uma equipa do mesmo nível que Portugal. E graças à politica da FIFA em criar potes para se evitar que equipas do mesmo continente coabitem no mesmo grupo será inevitável cruzar-se com uma potência africana e sul-americana e uma possível revelação da Ásia, Oceania e América do Norte. Sabendo igualmente que o último jogo será sempre com o cabeça de série e o primeiro - e decisivo - contra o rival do pote 3.
Sem esquecer que a prova se desenrola no Inverno do Hemisfério Sul - com os sul-americanos e africanos a jogar nas mesmas condições que encontram nos países de origem - são os europeus os deslocados. Tal como aconteceu com o Mundial de 2002 que testemunhou a estrepitosa queda dos favoritos. Incluida a delegação lusa.

Entre os cálculos possíveis para amanhã sabe-se que haverá sempre cinco grupos com duas equipas europeias. E há a possibilidade de haver dois com duas equipas sul-americanas. Isso permitirá às formações dos restantes continentes uma séria oportunidade dar um passo para a seguinte etapa. Espanha, Holanda e África do Sul são também os únicos cabeças-de-serie que não ostentam o titulo de campeão. Isto numa edição onde estão presentes todas as selecções campeãs mundiais. E a história diz-nos que esse restrito grupo de sete equipas se manteve assim ao longo de 70 anos por algo. São os favoritos, em menor ou maior dimensão. E tentar entrar no grupo é sempre tarefa hérculea. Aviso a holandeses, espanhóis, portugueses ou a qualquer selecção africana que, pela primeira vez na história, tem a legitima hipótese de dar o salto qualitativo de que sempre se fala. Gana, Costa do Marfim, Camarões e Nigéria surgirão com selecções temiveis. México e Estados Unidos estão no mesmo patamar. Coreia do Sul, Austrália e Paraguai também. Na maioria dos casos muito por cima de selecções europeias como Eslováquia, Eslovénia ou Suiça.
O fundamental acabará por ser tudo o que não esteja relaccionado com as equipas escolhidas.
As regras da FIFA dictam que o cabeça-de-serie abrirá com uma equipa do segundo pote, jogando posteriormente com o do terceiro para o último - e previsivelmente decisivo - ser contra uma selecção europeia do quarto. Isso significa que Portugal - nesse último pote - terá de garantir o apuramento nos dois jogos inaugurais, sob pena de necessitar de vencer o cabeça-de-serie no último encontro. A realidade não é nova. Em 2002 Portugal abriu o grupo com a equipa teoricamente mais débil tal cmo em 2006. E fechou ambos com o cabeça-de-serie. Perdeu com a Coreia do Sul e venceu o México. A decisão da FIFA - pouco divulgada mas já de longo historial - tem uma simples razão de ser. Facilitar um apuramento precoce aos cabeças-de-serie e evitar grandes confrontos logo a abrir a prova, deixando a emoção para o final.
Por outro lado há quem esteja mais concentrado no rival do que propriamente nas condições que irá encontrar. Queiroz já anda há semanas à procura de um quartel-general ideal, mas o seleccionador sabe bem que não são as instalações o mais importante: é a localização. Num país maior do que a França, as deslocações serão longas e cansativas. E a equipa que está no último pote a que menos possibilidades tem de repetir jogos no mesmo recinto. Resta esperar estar num grupo que esteja reduzido a uma área geográfica restrita. Viajar do norte ao sul do país pode implicar viagens de 1700 kms (aproximadamente 3 horas e meia) e mudanças drásticas nas condições climatéricas. Do frio e elevadas altitudes do centro do país às chuvas tropicas do norte sem esquecer a humidade da zona costeira. Diferentes equações que parecem invisiveis mas que muitas vezes decidem competições.
A decisão dos grupos será fundamental também por isso. Tal como o emparelhamento das eliminatórias. Espanha e Brasil, os favoritos claros, sabem que não se podem encontrar na primeira fase. Mas podem cruzar-se nos Oitavos. E quererão evitá-lo. Ninguém quer um novo duelo de morte a abrir os jogos a eliminar, como sucedeu, por exemplo, com o França-Espanha de 2006, o Inglaterra-Argentina de 1998 ou o Argentina-Brasil de 1990. Por isso teme-se que a FIFA não seja totalmente transparente neste aspecto. Como não o foi na escolha dos cabeças-de-serie onde a passagem da França do pote 1 ao 4 soa mais a castigo pela polémica do golo marcado por Gallas frente à Irlanda do que a uma real actualização do ranking.

Com o final do sorteio inaugural as fichas começam a mover-se.
Sairão as listas dos quarteis-generais, e a contagem das distâncias. Os seleccionadores saberão contra quem se medem e nascerão os amigáveis de preparação. Com eles as últimas provas, a chamada daquele jogador alto para os lances de cabeça ou o sprinter para aproveitar a lentidão do rival. Escolhe-se a roupa ligeira ou abrigada. As casas de apostas começam a frenética actividade que rodeia o jogo impunemente e os favoritos começarão a perceber se realmente o são. Passar por Madrid ou pelo Rio de Janeiro hoje é sentir a euforia de futuros campeões. Um grupo com Portugal ou França, Costa do Marfim ou Gana e Estados Unidos ou México pode mudar muitos sorrisos. E quem tiver a aparente sorte de estar sorteado junto a Coreia do Norte ou Nova Zelândia, Chile ou Argélia, e Eslovénia ou Eslováquia começará a ver Joanesburgo com outros olhos. Enfim, a bola começa a rolar bem antes do apito inicial.