Há poucas eras tão marcantes na história do beautiful game como as décadas de 60 e 70. Em cerca de 20 anos o futebol viveu vários pequenas grandes revoluções que mudaram para sempre a face do jogo. O profissionalismo tornou-se definitivo, a publicidade entrou de rompante, os estádios começaram a preparar-se para uma nova etapa e a televisão trouxe os jogos aos milhões de adeptos, um pouco por todo o mundo. Mas as duas décadas foram também chaves na evolução técnico do jogo. A era da afirmação do 4-4-2 e do nascimento do 4-3-3. A era do Futebol Total, do futebol cientifico ou do mais preguiçoso kick and rush.
Durante 20 anos Inglaterra voltou a ser o centro do Mundo. A Liga Inglesa viveu a sua era mais dourada e os seus clubes dominaram na Europa como nunca. E tudo graças a uma excepcional geração de mestres da táctica que a partir de hoje o Em Jogo vai homenagear.
Olhar para esse período de tempo e analisar a evolução do futebol implica viajar até Inglaterra. Se o Futebol Total holandês foi apenas o aprimorar de um movimento que já vinha ganhando forma no centro da Europa, do Wunderteam aos Mágicos Magiares, e se o futebol cientifico extremamente fisico e metódico confirmou os países do bloco de Leste como potências mundiais, em Inglaterra o futebol respira um ar diferente. De campeões do Mundo os ingleses passaram a ser a chacota do Mundo ao falharem uma década de provas internacionais. Mas se a selecção da Rosa falhava, os clubes davam início a uma era histórica. Sem o glamour da liga espanhola e italiana, a First Division podia parecer rude, pouco elaborada e até mesmo trapalhona para muitos. Mas era todo o oposto. Tacticamente era uma prova implacável e altamente equilibrada. Raramente os campeões se sucediam e ano após ano nascia uma nova formação repleta de magia e inovações. Durante 20 anos todos os grandes clubes ingleses passaram dos céus aos infernos e vice-versa. E todos mostraram a sua melhor versão. Os adeptos enchiam os estádios como nunca desde a II Guerra Mundial. Os jogadores britânicos atingiam um primor técnico nunca visto. E as condições permitiam tornar o jogo mais espectacular ainda. Tudo isso foi fundamental para preparar o dominio britânico. Mas tudo isso seria insuficiente se não tivesse nascido uma geração de técnicos geniais capazes de dar forma a essa revolução.
Foram vários os treinadores de excelência nesse periodo que arranca com a década de 60 e só termina a meio dos anos 80 com os desastres do Heysel e Hillsborough que lançaram o futebol britânico para quarentena. Da qual nasceu a Premier League de hoje. Mas houve 15 nomes que merecem o seu nome inscrito a letras de ouro na história do futebol. Esta reportagem de quinze episódios leva-nos à vida, carreira e peripécias de cada um desses 15 técnicos de excelência, cada qual responsável por uma equipa e um momento chave na história do jogo. As rivalidades, as ambições e as amargas derrotas ajudaram a criar uma aura de mitos à volta destes homens, muitos dos quais hoje os mais novos só conhecem das estátuas à porta dos estádios modernos que eles ajudaram a idealizar. E construir. Durante esse periodo foram responsáveis pelas múltiplas conquistas europeias dos clubes britânicos - e aqui incluimos a liga escocesa - e pela profissionalização absoluta da primeira liga do Mundo. Todos eles teriam certamente lugar na lista dos 50 melhores treinadores da história do futebol.

Esta série de reportagens leva-nos de volta a um passado distante que aproveita também para desmistificar o papel do "Manager" inglês. Figura hoje reverenciada e imitada, recuperamos os primórdios da figura de um homem que era mais do que um simples treinador. E das dificuldades inerentes aos primeiros anos desta figura hoje tão consensual. Não existiriam hoje Alex Ferguson, Arsene Wenger, José Mourinho, Rafa Benitez, David Moyes, Martin O`Neill ou Harry Redknapp se não fosse pelo trabalho destes pioneiros capazes de levar o jogo do universo do pós-guerra onde o jogo das ilhas ainda vivia isolado do resto do Mundo até fazerem, nos dias de hoje, que a Premier League seja a prova mais admirada e respeitada do mundo. Abre-se o espaço às verdadeiras estrelas...