É um dos clubes do Mundo com mais adeptos. O popular "Mengão" estava há 17 anos longe da disputa do título de campeão. Agora está a 90 minutos de repetir um feito histórico. Numa equipa sem estrelas e grandes promessas, o novo rosto do Flamengo é também o espelho de um campeonato que vai perdendo relevância a cada ano que passa, vitima da corrupção das instituições e de um fluxo migratório que parece não ter fim...

Quatro candidatos. Quatro percepções do jogo. Quatro sonhos. Quatro presentes.
O título de campeão do Brasil é ainda uma incógnita para quem vive longe da pátria que democratizou o desporto-rei. No meio de tantas provas estaduais, inter-estaduais e paralelas organizadas pela CBF, o campeão do Brasil é sempre um título sui generis. Porque, convenhamos, no Brasil há sempre campeões para todos os gostos e feitios. Mas, na realidade, só um conta. E faltam 90 minutos de sofrimento puro para descobrir qual dos quatro candidatos faz a festa. Sai à rua e antecipa o ansiado Carnaval. No Brasil o futebol é a festa do ganhar e o sofrimento do perder. É pouco o jogo dentro do relvado com sotaque. Aí a disciplina táctica perde sentido, as iniciativas individuais de jovens pés descalços que só querem carimbar o seu bilhete para o Velho Continente decidem jogos. E titulos. Ou despromoções. Com vários históricos a fazerem contas para perceber como se pode escapar ao suplicio de vaguear pela II Divisão - por onde anda hoje um "monstro" como o Vasco da Gama - há quatro torcidas preparadas para fazer a festa. Haverá mais lagrimas do que alegrias. Espelho de um futebol, como descreveu Nelson Rodrigues, habituado ao masoquismo do sofrimento, traumatizado por um jogo que nunca existiu e que olha para a pequena bola como a solução para todos os mistérios da Humanidade.
À porta do Maracanã começam a formar-se os aglomerados de adeptos. Há largos anos que esperam voltar a celebrar um "Brasileirão". Muitos lembram-se da equipa mágica de Zico, tricampeã no inicio dos anos 80. A maioria dos meninos de rua nem sabem quem é Zico. Vivem para imitar o novo rei do povo, Adriano. O ex-avançado do Inter enganou Moretti, Mourinho e companhia e fugiu de Milão para o seu Rio natal. Aí voltou a calçar as chuteiras e deu um novo ar de grandeza ao abandonado Flamengo, equipa ferida por ter visto o seu mitico Ronaldo assinar pelo rival Corinthians. Não é o instável Adriano quem faz a diferença nesta equipa. Mas é ele quem traz o glamour que encanta os adeptos e dá cor às conversas de bares. Os seus golos ajudam mas o "Imperador" está longe daquele jogador que encantou o Mundo e que o levou a ser um dos mais bem pagos do jogo. Incapaz de aguentar com a pressão de ter de ser um dos melhores, Adriano fugiu. Voltou ao bairro, onde ninguém lhe pede que seja o melhor. Só que seja ele mesmo. Como o antigo dianteiro do Inter, outras velhas glórias voltam a casa para provar a si próprios que a bola não mudou. Foram os outros. Zé Roberto, Edmilson, Alecsandro, Washington e o inevitável Ronaldo. Fantasmas. Num país onde o passado e o presente se misturam demasiadas vezes.
A Serie A - também conhecida como Brasileirão - arrancou com 20 equipas em Maio, depois dos estaduais. Durante o ano o Palmeiras e o Atlético Mineiro mostraram-se implacáveis mas ambos foram fraquejando nas horas decisivas. Os verdes começaram o ano de forma implacável. E depois sofreram na pele o implacável desleixo dos que tudo querem sem nada lograr. Os mineiros, em boa forma até ao Inverno, viveram graças ao génio de Diego Tardelli. Quando a máquina secou, a equipa foi tropeçando. O surpreendente Flamengo, que andou vários jogos pela parte baixa da tabela, foi trepando a classificação e com um golpe de autoridade diante do Corinthians passou para o primeiro posto. Graças a mais um tropeção do S. Paulo que hipoteca assim a possibilidade de conquistar o Tetra depois de ter dominado os últimos anos da prova. A 90 minutos do final do torneio uma vitória do "Mengão" devolve o título à equipa mais amada do Brasil. Há zonas imensas do país onde não há clubes, apenas filiais do histórico Clube de Regatas do Flamengo. É a única formação que ombreia, em popularidade, com a "canarinha". Terá segundo se presume, 40 milhões de seguidores no Brasil. E uns 10 milhões mais fora. Ainda detém o recorde de levar o maior número de adeptos a ver um jogo oficial da prova. 155 mil espectadores. E no entanto, há anos que vive no poço profundo da mediania. Até que a equipa despertou da letargia. O tanque Adriano começou a recuperar o gosto pelo disparo letal e os veteranos Petkovic e Zé Roberto apareceram na hora H. Mas, ao contrário de outras versões do "Mengão", esta equipa é lenta, aborrecida e altamente previsivel. Espelho do futebol brasileiro de hoje.

Os seus rivais directos ao título exploram um jogo mais ofensivo. Mas repleto de debilidades. Ricardo Gomes continua a apostar num falso 3-5-2 no São Paulo com Hernanes como pivot das transições e Dagoberto e Washington como dupla de avançados. Uma equipa rápida nos movimentos ofensivos mas pouco prática a pensar o jogo a meio campo. Falta-lhe um pensador nato, um jogador que saiba respirar o jogo. Sim, exactamente, falta-lhe Kaká naquele coração. Por outro lado o Internacional é o risco puro em movimento. Equipa profundamente jovem, acenta o seu jogo na coragem de apostar na velha máxima brasileira de "quem marcar mais ganha". Bonita ideia no papel, pouco prática no gramado. Apesar dos velozes Giuliano, Taison e Marquinho, é no labor de Sandro que está o grande mérito do cojunto de Porto Alegre. Uma equipa que continua fiel ao velho futebol brasileiro, onde a táctica perde para o poder da verticalidade individual. E que faz das suas forças, inevitáveis fraquezas. E quanto ao Palmeiras, a habitual desorganização táctica hipotecou um titulo de que parecia garantido. E faz com que até a participação na próxima Libertadores esteja em causa. Castigo pesado para quem sonhou com tanto.
Numa prova repleta de velhas glórias que aproveitam o baixo ritmo de jogo para mostrar que ainda sabem do seu mister, o Brasileirão desta época deixará poucas recordações inesqueciveis. Os rápidos resumos mostrarão os belos golos, as apertadas defesas, os lances geniais e o delirio nas bancadas. É assim que o brasileiro vive o jogo que adoptou como seu. Mas futebolisticamente pouco sobra perante tanto tropeção, desengano e desorganização absoluta. Tacticamente o Brasil continua um passo atrás que o resto do Mundo. E a constante migração dos seus mais jovens talentos provoca o aparecimento de novas equipas, de ano para ano, muitas vezes com jogadores de terceira ou quarta linha. Os melhores, cada vez mais, procuram cedo outras paragens. Na Améria Latina as equipas brasileiras perderam influência. No seu próprio campeonato igualam-se em disparates e tiros no pé. Face a esse cenário, a liga brasileira volta a perder a magia que há anos parecia ter recuperado a pulso.

Espelho de uma potência mundial incapaz de se encontrar, o jogo no Brasil continua a ser o mesmo das ruas poeirentas ou dos longos areais. Daí sairão futuras vedetas, mas muito poucos futebolistas. Aí nascem com o talento nos pés. A escola fazem-na fora. E os que aprendem a "biblia" do jogo transformam-se em estrelas. Os outros, limitam-se a ser brasileiros com uma bola nos pés. O que em muitos casos, é mais do que suficiente.