O futebol é um desporto colectivo. Os prémios são méritos individuais. Errado. E errado. Nem sempre o jogo se remete aos 11. Nem sempre os prémios representam apenas 1. O arrebatador triunfo de Lionel Messi na última edição do Ballon D´Or da década cai no duplo erro de personalizar o jogo colectivo e deíficar um que não foi, na realidade, primus inter pares. A maior vitória da história do prémio atribuído pela publicação francesa confirma que o futebol precisa, cada vez mais, de figuras para fascinar o colectivo.

480 votos são o máximo que um candidato pode atingir. Matematicamente é quase impossível lograr tamanho consenso. Messi conseguiu 473. A sete do total absoluto. Um record esmagador, retumbante, histórico. E profundamente injusto.
O argentino venceu à terceiro tentativa depois de ficar atrás de Kaká e Cristiano Ronaldo em 2007 e do português em 2008. Um triunfo que já era esperado, mas nunca com esta magnitude. Afinal, o grande mérito de Messi foi pertencer a um colectivo que fez história, uma equipa que fascinou o futebol europeu pela sua qualidade colectiva. Onde as individualidades não tinham lugar. Uma mensagem passada vezes sem conta pelo orquestrador desta sinfonia gloriosa. Mensagem que caiu em saco roto. À hora de premiar - e isto dos prémios é sempre profundamente relativo - o mundo do futebol prefere a figura individual ao valor colectivo. Porque Messi podia ter ganho. Mas nunca de forma tão unânime. Nunca a tamanha distância dos artistas que lhe permitem existir no relvado. Fica a dúvida no ar ao ver a brutal diferença nas votações. Nos cinco primeiros encontramos a quatro jogadores do Barcelona. No meio, Cristiano Ronaldo, prova que a sua figura individual é bigger than life, esteja onde esteja. Porque o Manchester United é uma equipa com e sem CR7. Porque o Real Madrid é uma equipa com e sem CR9. Mas o Barcelona mantém-se exactamente o mesmo relógio suiço, precioso e metódico, com e sem Lionel Messi. E isso os votantes não perceberam.
Se Cristiano foi um justo vice - logrando estar, pelo terceiro ano consecutivo nos dois primeiros lugares - ele que não fez méritos para triunfar mas que não teve igualmente deméritos para perder, olhar para o resto do quadro é perceber a importância do Barcelona no ano que finda. O maestro de cerimónias, Xavi Hernandez, trepa até ao terceiro posto. Apenas. Um triste fado para um pequeno grande génio, já habituado a ser suplantado pelo valor das figuras mediáticas. Primeiro Rivaldo, logo Ronaldinho, agora Messi. Atrás, sempre como fiel escudeiro, o inevitável Xavi. Justissimo vencedor por representar o colectivo blaugrana, tanto Xavi como o seguinte na classificação, Andrés Iniesta, foram tão ou mais decisivos do que o ganhador na época do Barcelona. Foram eles a treve mestre do Pep Team. Mas não vendem suficiente camisolas, capas de revistas ou videojogos para sonhar com algo mais. Desditas do futebol, desditas da nossa sociedade.
No quinto posto, a fechar com chave de ouro o ano blaugrana, o amaldiçoado Samuel Etoo. Os seus golos foram tantos e de tal forma decisivos que era inevitável a sua presença. Apagado em Milão, mal-amado em Barcelona, o homem que abriu o triunfo europeu e doméstico do Barcelona é uma das figuras do ano. Por muito que (quase) ninguém, o queira reconhecer.

Acabado o top 5 começa a confirmar-se a ideia que faz de Messi um vencedor tão retumbante. Kaká na sexta posição é premiar o nome, não o jogador e muito menos, a época. Zlatan Ibrahimovic surge à frente de Rooney, Drogba, Gerrard e Torres, elementos fulcrais na Premier League e na última edição da Champions League. O genial sueco faz a diferença, de forma individual. Mas teve um ano agridoce, bem longe do nível exibido pelo quarteto que fecha o top 10. E claro, depois vêm todos aqueles que colheram as migalhas deixadas pelos grandes. Dzeko soma mais 10 pontos que Diego? Giggs conta com o dobro dos votos de Lampard? Henry e Casillas à frente de Forlan e Gourcouff? São coisas das votações que sempre deixam um ar de compadrio e amiguismo que só o futebol europeu é capaz de suportar. No top 30 final não é surpresa alguma que haja apenas um futebolista sem votos. Karim Benzema, avançado de futuro com um presente dúbio, é nomeado por ser francês. Um dos quatro na lista. E surge atrás do turbilhão Touré Yaya. Não há problema, recebemos a mensagem.
Nos próximos dias publicar-se-ão artigos de louvor ao génio de Messi.
O argentino é, sem margem de dúvidas, um dos melhores futebolistas da década. Um jogador hipnotizante, com um drible sedutor, uma picardia bem sul-americana e um posicionamento táctico que prova que o seu crescimento se fez bem longe das ruas poeirentas de Rosário. É um nome ilustre para uma lista que já conheceu vencedores bastante mais polémicos. Apesar de haver outros nomes mais dignos do trofeu, este ano, Messi tinha, inevitavelmente, de acabar por figurar nesta lista. Logrou-o com 22 anos, o terceiro mais jovem da história do futebol - atrás de Michael Owen e Ronaldo. Depois de um ano negro com a Argentina, onde continua a parecer invisível. Depois de um arranque de temporada bem cinzento que volta a confirmar que este - e outros prémios - deveriam entregar-se em Junho e não em Dezembro. Messi assinou o seu nome na lista com o golpe de cabeça de Roma. Nesse momento provou o valor do individualismo. Talvez fazendo esquecer ao mundo, habitualmente cego para estas coisas, que esse mesmo golo resultou de uma movimentação ofensiva onde actuaram os três soldados blaugranas que o escudam também na classificação final.
E se estes prémios são para individualidades, a verdade é que também sabem mandar uma mensagem ao colectivo. Se não cairem na tentação. A France Football fê-lo antes, com menos motivos. Lembrar os triunfos de Fabio Cannavaro - a premiar o esforço defensivo de uma Itália campeã mundial inesperada - de Mathias Sammer, marechal de uma Alemanha bem cinzenta, de Igor Belanov, rosto destacado da armada soviética de Lobanovsky ou até mesmo Josef Masopust, o imperial central checo. Todas essas vitórias espelharam, não os méritos individuais dos ganhadores, mas o triunfo de um inesquecível colectivo. Colectivos que marcaram a história do futebol. Mas que nunca atingirão o nível deste Barcelona.

O cometa argentino cumpriu o seu designio. Ofuscou os seus próprios pares e meio-mundo. Ou mais, a julgar pela classificação final. No campo, onde realmente a realidade é bem distinta, não há futebolista que acredite nesta diferença. Nem o próprio Messi. Para o ano voltaremos a ver o individual a premiar o colectivo, desta feita o colectivo vencedor do Mundial. Como Ronaldo em 2002, desaparecido dos relvados quase todo o ano, determinante na prova mais vista a nível mundial, depois das Olimpiadas. Um cenário onde não se espera ver Messi brilhar a ponto de justificar esta votação. Talvez por isso a pressa em confirmar um novo "Deus" antes de que se perceba que também La Pulga é humana aos olhos do Mundo que hoje o coroa como o novo rei e senhor de um desporto onde a memória é sempre bem curta.